De repente, nas profundezas do bosque
Capítulo 11
Foi o primeiro animal que surgiu na aldeia em muitos anos, desde a noite de terror em que Nehi, o demônio das montanhas, reuniu uma longa caravana de criaturas e af astou da aldeia para sempre todos os animais, dos cavalos aos pombos, dos ratos aos carneiros e bois. Às vezes os pais mergulhavam numa onda de nostalgia ou tristeza, e começavam a reproduzir para os f ilhos imitações das vozes de aves e mamíf eros, todo tipo de mugidos, o uivo dos lobos do bosque, o arrulho dos pombos, o zumbido das abelhas, a batida de asas dos gansos do rio, o coaxar do sapo e os gritos da coruja. Mas, passado um momento, esses mesmos pais negavam a tristeza, f ingiam que na verdade eles só queriam brincar um pouco, nada mais do que isso, e argumentavam com f irmeza que todas aquelas vozes não f aziam parte da realidade, mas somente das histórias e lendas.
Eram estranhos os desvios de memória das pessoas da aldeia: coisas que eles se empenhavam em lembrar às vezes f ugiam e se escondiam bem no f undo, sob o manto do esquecimento. E exatamente aquilo que decidiam que era muito importante esquecer, justo isso vinha à tona, e saía de dentro do esquecimento como se f osse, intencionalmente, para incomodar. Às vezes se lembravam com os mínimos detalhes de coisas que quase nem tinham ocorrido. Ou se lembravam do que um dia existira e depois deixara de existir, lembravam com dor e saudade, mas de tanta vergonha ou pesar decidiam def initivamente que tudo f ora só um sonho. E diziam aos f ilhos: isso não passa de lenda.
Ou então diziam: f oi só uma brincadeira, só isso.
Em algumas crianças essas histórias despertavam uma espécie de saudade sombria em relação ao que talvez tivesse havido aqui no passado mas que nunca teria existido. Mas havia também muitas crianças que não queriam ouvir absolutamente nada, ou ouviam e debochavam dos pais e da prof essora Emanuela: durante tantos anos não f oi visto aqui na aldeia nenhum animal, até que a maioria das crianças chegou à conclusão de que todos aqueles MU, MÉ e MI AU, todos os AZ, AI , AU, GRRR e CRRR eram na realidade invenções esquisitas que os pais criaram um dia, crendices sem importância que já passaram do tempo e agora era preciso af astá-las para que af inal pudessem viver a vida real, porque quem vive de f antasias simplesmente não é como nós, e quem não é como nós também vai adoecer do relincho, e todos vão manter distância dele, e ninguém jamais poderá salvá-lo.
Talvez somente a Danir, o consertador de telhados brincalhão, de pernas compridas, querido pelas moças da aldeia, Danir que gostava de cantar com seus rapazes durante o trabalho lá em cima, no alto dos telhados, e gostava de se deter pelo caminho para conversar através das janelas abertas com as crianças como se f ossem adultos, ou ao contrário, tagarelar com eles como se ele próprio ainda f osse criança, e gostava também de assobiar canções nas ruelas embaixo das janelas das moças da aldeia, talvez somente a Danir tivesse sentido perguntar o que era verdade e o que não era.
Mas o problema era que com Danir e seus amigos, aqueles que se reuniam à sua volta na praça de pedra nas tardes longas de verão, com eles nunca e de maneira alguma se podia saber quando estavam de brincadeira e quando estavam te provocando ou provocando um ao outro. E quando f alavam com seriedade, também parecia que estavam de palhaçada. Aquele que tentasse f alar com eles seriamente, sempre, por algum motivo, também se pegava brincando ao se dirigir a eles. Mesmo que não tivesse a menor intenção de brincar.
Além de Almon, o pescador, a quem ninguém dava ouvidos porque todos debochavam dele, não havia ali em toda a aldeia alguém que ensinasse as crianças que a realidade não apenas o que o olho vê e não somente o que o ouvido escuta e o que a mão pode tocar, mas também o que se esconde do olho e do toque dos dedos e se revela às vezes, só por um momento, para quem procura com os olhos do espírito e para quem sabe f icar atento e ouvir com os ouvidos da alma e tocar com os dedos do pensamento. Mas quem aqui af inal queria dar atenção a Almon? Ele era um homem velho, f alador e quase cego, que sempre f icava discutindo com seu medonho espantalho.