Gênero e os Nossos Cérebros

Gina Rippon · Capítulo 9 de 46

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Gênero e os Nossos Cérebros

4. Mitos do cérebro, neurolixo e neurossexismo

CAPÍTULO 4:

 

 

MITOS DO CÉREBRO,

NEUROLIXO E NEUROSSEXISMO

 

Neuroabsurdos, neurolixo, neurossexismo, neurobaboseira, neurotolices,

neurobobagem, neuroasneira, neuromania, neurobesteira, neurobirutice,

neurofalácias, neuromancadas, neurodisparates, neurotolices.

 

O advento da tecnologia de imagem do cérebro no final do século XX

proporcionou a possibilidade de realmente entender que diferenças podem

existir nos cérebros das mulheres e nos dos homens e explorar as ligações

entre estas e quaisquer divergências associadas no comportamento. Sem

depender mais de cérebros mortos, doentes ou lesionados, a comunidade de

pesquisa agora deve poder responder a antigas questões sobre diferenças

sexuais. A técnica mais popular nesta exploração foi a fMRI, que, como

vimos no Capítulo 1, mede as mudanças de fluxo sanguíneo associadas com

atividade cerebral e exibe os resultados como imagens codificadas em belas

cores, parecendo, enfim, nos dar uma janela para o cérebro.

A essa altura, vale a pena destacar o que a fMRI não pode nos dizer e

ressaltar muitas crenças equivocadas que apareceram devido a uma

incompreensão do que pode fazer esta técnica de imagem cerebral. [1]

Primeiramente, a fMRI não nos dá um retrato direto da atividade cerebral,

da passagem de impulsos nervosos pela superfície do cérebro ou dentro de

estruturas fundamentais em escalas de tempo de milissegundos; só nos dá

um quadro das mudanças de fluxo sanguíneo que fornecem a energia para

esta atividade.[2] E estas mudanças são muito mais lentas do que realmente

acontecem – estamos falando de segundos, e não de milissegundos. Assim,

depois que as revelações são interpretadas em termos de diferenças em

funções como a descoberta de palavras ou o reconhecimento de padrões (e ambos podem ocorrer em escalas de tempo de milissegundos), estas

revelações devem ser vistas com cautela e só consideradas no contexto de

análises detalhadas de mudanças de comportamento medidas ao mesmo

tempo.

Também precisamos estar conscientes de que as imagens codificadas por

lindas cores não são uma medida pura de uma ou outra tarefa. Se

participarmos de uma experiência de imagem do cérebro, em parte do

tempo poderemos apenas ver palavras isoladas e projetadas, uma de cada

vez, em uma tela. Depois podem nos solicitar que olhemos para outro

conjunto de palavras, mas desta vez pedem que nos lembremos do máximo

possível delas. Os dados da primeira tarefa serão então subtraídos dos dados

da segunda. O pressuposto aqui é de que o pesquisador “perderá” esses

padrões de ativação cerebral que são comuns às duas tarefas e ficará apenas

com aqueles que são exclusivos para a tarefa da memória. Isto porque as

mudanças no cérebro associadas com essas atividades cognitivas são muito

pequenas, assim, os pesquisadores de imagens cerebrais encontram um jeito

de aumentá-las. A imagem cerebral resultante não está capturando as

mudanças no cérebro associadas com a ativação de seus centros de

memória, em tempo real – é um quadro das diferenças entre um cérebro que

lê o mundo e um cérebro que memoriza o mundo.

Para exemplificar o tamanho das diferenças que foram encontradas,

vários tons de cores são atribuídos a elas. O vermelho costuma ser alocado

a áreas que mostram aumento na ativação, indo do rosa-claro, para aquelas

diferenças que estão apenas um pouco acima do limiar para que sejam

estatisticamente diferentes, ao escarlate vivo, para as maiores de todas. O

azul equivale a diminuições na ativação, de novo indo do muito claro ao

intenso. Esses tons podem ser ajustados quando maximizamos o contraste

na imagem em si. Áreas em que não há diferenças significativas na

ativação, em geral, não são coloridas. E assim chegamos àquelas imagens

evocativas de uma seção transversal cinza e sinistra do cérebro em que são

sobrepostos trechos de vermelhos e azuis intensos. Há uma impressão

dominadora de que vemos o equivalente a uma fotografia de um cérebro

humano pensante e vivo, belamente codificado por cores para mostrar de onde vêm os “pensamentos” e parecendo dar provas irrefutáveis do poder

“telepata” dos pesquisadores.[3]

Um problema com a interpretação dos dados despejados dos escâneres

nos anos imediatamente depois que a fMRI entrou em cena é o que se

chama “problema de inferência reversa”.[4] Ross Poldrack, psicólogo de

Stanford, observou que quando localizamos a ativação em uma área

associada a determinado processo, como a da “recompensa”, e descobrimos

esta área ativada durante determinada tarefa, como ouvir um tipo específico

de música, é tentador concluir que as pessoas gostam de ouvir música

porque “centros de recompensa” estão ativos no cérebro. Mas a precisão

desta conclusão depende de partes específicas do cérebro serem altamente

especializadas só para um tipo de processo, neste caso, apenas a

“recompensa”, e também de a medida comportamental ser um índice muito

forte do objeto de seu interesse e, assim, por exemplo, precisaremos incluir

classificações adicionais do quanto a música foi positivamente classificada.

Como veremos, é muito incomum conseguir apontar o dedo para uma

área só do cérebro relacionada com uma única função, portanto,

precisaríamos de uma retaguarda comportamental adicional. Em outras

palavras, precisaríamos de uma dica muito boa de nosso ouvinte, como

“gosto muito desta música. Darei nota 5” para apoiar nossa alegação de que

ouvir (esta) música foi recompensador. E precisaríamos poder eliminar

outras possíveis interpretações além da “recompensa” para apoiar nossa

alegação – talvez o circuito de “recompensa” inclua algumas funções de

memória de longo prazo, ou também processos atencionais, e deste modo a

música pode servir de gatilho para alguma lembrança ou alertar a pessoa

para a necessidade de se concentrar, mas também, ou em vez de, ter

vibrações positivas.

A falta de compreensão deste problema da influência reversa foi a chave

para alegações de que a imagem cerebral pode ser usada para identificar

“comportamento invisível”, que sem saber o que alguém realmente estava

pensando ou fazendo seria possível ver os padrões de atividade no cérebro e

“ler a mente” da pessoa. Alegar que podemos usar um escâner do cérebro

como um detector de mentiras é um exemplo clássico deste tipo de “neurocharlatanismo”, com reluzentes “circuitos de fraude” entregando a

culpa da pessoa, sua infidelidade ou suas tendências terroristas.[5]

Os primeiros estudos de fMRI do cérebro humano foram realizados no

início dos anos 1990 e, mais ou menos nos vinte anos seguintes, foram a

fonte da maior parte da compreensão pública (e, infelizmente, da

incompreensão) de como o cérebro funciona e como serve de base para

todo o comportamento humano. Em muitos casos, esta pesquisa forneceu

insights impressionantes sobre processos que antes só podíamos

conjecturar. Em outros casos, porém, serviu apenas para perpetuar alguns

mitos sobre o cérebro, não devido a problemas intrínsecos da técnica em si,

mas a vieses particulares originários da aplicação de modelos cerebrais

antiquados.

 

Imag(inando) o cérebro: como o neuroespanto se

transformou na neurobobagem

 

Os gurus da pesquisa de marketing têm uma expressão para as mudanças na

sorte com o passar do tempo que costumam acompanhar a introdução de

uma tecnologia nova. Chama-se ciclo de hype do Gartner (ver Figura 1) e

acompanha a trajetória de modismos, esperanças e decepções de inovações

promissoras.[6]

O ciclo começa com um lançamento entusiasmado de uma nova

tecnologia, em geral associada com muito interesse da mídia, levando ao

Pico das expectativas infladas. Esta fase consiste em resultados iniciais

promissores, além do modismo, que induzem a especulações animadas

sobre os problemas que esta nova tecnologia resolverá, criando, assim,

expectativas irreais. Seguem-se, então, as dificuldades, decepções e críticas

emergentes, e o interesse começa a minguar – cai no Vale da desilusão.

Porém, se os problemas podem ser identificados e as críticas respondidas e

resolvidas, então, com a cautela adequada e expectativas mais realistas,

segue-se o progresso renovado e são alcançados resultados melhores. Esta é a Ladeira do encantamento e, se feita corretamente, leva ao Platô da

produtividade.

 

Figura 1: O ciclo de hype do Gartner.

 

Em um blog de 2016, Guerric d’Aviau de Ternay, da London Business

School, e o psicólogo Joseph Devlin, do University College London,

usaram o conceito do ciclo do hype para identificar as expectativas iniciais,

as dificuldades emergentes e as perspectivas futuras do neuromarketing

(aliás, agora rebatizado como neurociência do consumidor). [7] Ao ler isto,

de súbito percebi que este modelo seria perfeito para descrever como os

prodígios iniciais da imagem do cérebro se transformavam em “neurolixo”

e “neurobaboseira”, e depois para monitorar que as “neuronotícias” podiam

ser resgatadas do que foi batizado de Grande escândalo do escâner cerebral.

[8]

O lançamento de novas tecnologias de imagem do cérebro seguiu

exatamente este curso. A MRI funcional foi aclamada como a resposta a

muitas questões não resolvidas sobre nosso cérebro até então invisível. O

enorme potencial de comunicação das imagens cerebrais ainda mais

sofisticadas que eram produzidas realmente provocou a imaginação pública,

alimentada pela imprensa popular, para quem estas imagens maravilhosamente sedutoras eram, inicialmente, aquele presente que

continuava sendo repassado. O que se seguiu foi uma torrente infeliz de

expectativas infladas e um dilúvio de incompreensão e deturpações,

levando, por fim, a uma proliferação de neurolixo: informações falsas sobre

neurociência e como funciona o cérebro.

 

O gatilho da tecnologia

 

Em 1992, foram publicados os primeiríssimos estudos de fMRI. Em um

deles, os participantes deitaram-se em um escâner de MRI e assistiram a

padrões xadrez em vermelho e verde piscando à direita ou à esquerda do

campo visual. O aumento resultante no fluxo sanguíneo para o córtex visual

foi capturado e exibido como uma imagem colorida indistinta (embora

distintamente manchada), acompanhando a parte do cérebro da qual ela

surgiu.[9] Um segundo estudo, usando luzes intermitentes e apertos na mão,

mostrou como era possível localizar a reação cerebral, desta vez com a

resposta visual combinando a frequência da luz intermitente e a ascensão ou

queda do sinal do córtex motor que correspondia à intensidade do aperto na

mão. Este estudo teve imagens em preto e branco bem desfocadas, mas

estavam claros os detalhes de onde exatamente situar a origem destas

mudanças.[10]

Foram primórdios bem humildes das imagens deslumbrantes com que

estamos acostumados hoje, mas sem dúvida marcaram o início de uma

revolução na pesquisa do cérebro e na comunicação mais fácil das

descobertas. Os pesquisadores de imagens cerebrais conseguiam

acompanhar quando e onde aconteciam as mudanças no cérebro e

transformá-las em imagens acessíveis que contavam histórias interessantes.

O impacto foi quase imediato, e as luzes intermitentes e apertos na mão

rapidamente deram lugar a quase qualquer processo psicológico que

pudesse ser inspirado no escâner, da linguagem à mentira e daí em diante.

As décadas seguintes ao primeiro estudo de fMRI foram os anos do boom: o número de publicações usando fMRI para examinar vários aspectos da

função cerebral passou de quinhentos por ano, nos dez primeiros anos, e em

2012 tinha chegado a bem mais de 1.500 por ano.[11] Segundo uma

estimativa, eram publicados de trinta a quarenta artigos de fMRI por

semana nessa época. Dado o custo do equipamento e a complexidade da

coleta de dados e subsequente análise exigida, esta foi uma trajetória

verdadeiramente explosiva.

A disponibilidade desta tecnologia gerou uma nova disciplina: a

neurociência cognitiva. Este novo campo conectou firmemente atividades

de psicólogos, que se tornavam cada vez mais adeptos da desconstrução das

várias etapas dos processos de comportamento humano, da percepção visual

à cognição espacial e a tomada de decisão e correção de erros, com aquelas

dos cientistas do cérebro – em particular os que pesquisavam as estruturas e

funções do cérebro humano.

Costuma ser muito recompensador quando a mídia popular passa a ter

um interesse positivo pela ciência que fazemos. Mesmo que não seja sobre

nosso próprio trabalho, pode ser animador ver algum interesse da mídia

pelo que podem mostrar as imagens do cérebro, quais descobertas estão

fazendo os cientistas, que nova realidade foi revelada ou que certeza do

passado foi confirmada. E as imagens usadas eram, quase universalmente,

espantosas e pareciam ser de fácil compreensão. De fato, parecia que enfim

tínhamos uma janela para o cérebro que nos permitia mapear suas

atividades. As conjecturas do passado, baseadas em autópsias ou em

pacientes com lesão cerebral, podiam ser contrapostas à realidade e

podíamos começar a entender não só como funcionava o cérebro saudável,

mas também como as doenças o afetavam.

 

O pico das expectativas infladas

 

Como todas as novas modas, estabeleceu-se uma “temporada da tolice”. A

década de 1990 foi declarada a “década do cérebro”.[12] Parecia que todas as formas de ciência cerebral, e particularmente os resultados dos aparelhos

de fMRI, iam revolucionar nossa compreensão deste órgão sumamente

importante. A psiquiatria, a educação, a psicologia, a psicofarmacologia e

até a detecção de mentiras seriam transformadas pela chegada da fMRI e de

uma nova compreensão do cérebro. De súbito, havia a moda de acrescentar

o prefixo “neuro-” a tudo: neurolegislação, neuroestética, neuromarketing,

neuroeconomia, neuroética. Bebidas chamadas Neuro Bliss, Neurosgasm,

Neuro Sleep. Em 2010, uma conferência internacional de Neurociência e

Sociedade na Universidade Oxford fez a pergunta, “O que há com o cérebro

de hoje?”, comentando a moda de todas as coisas “neuro” e delineando os

problemas que seriam resolvidos pela exploração desta nova tecnologia,

tudo graças aos neurocientistas.[13]

Mesmo fora do mundo da ciência, parecia obrigatório enquadrar tudo

nos termos “cérebro” e “neuro”. Apaixonar-se, falar outras línguas, comer

chocolate, decidir em quem votar, até provocar a crise financeira de 2008 –

tudo ligado às atividades de nosso cérebro, em geral descrito como “pré-

programado” para garantir que entendamos a mensagem biológica

determinista.[14] Todo artigo tinha de ser ilustrado por pelo menos uma

imagem em cores vivas do cérebro, em geral sem eixos ou guias úteis para

decodificação, com referências a determinadas áreas “acendendo-se” ou

“brilhando” em resposta a nossa glossolalia, chocolatria e/ou tendências

conservadoras ou republicanas. A ciência do cérebro foi apontada como

prova em 2012 pelo Daily Mail quando citou (equivocadamente) alguns

neurocientistas sobre a origem da obsessão por Justin Bieber (uma onda de

dopamina semelhante à causada pelo orgasmo ou pelo chocolate – ou talvez

os dois), e, assim, os cérebros de “Beliebers” são supostamente

“programados” para a obsessão por ele.[15] No mesmo ano, o Guardian

publicou um artigo sobre a ciência cerebral da criatividade em termos de “a

neurociência do talento de Bob Dylan”.[16]

Nascia uma nova indústria do neuromarketing. O meu favorito é um

projetista de cozinha que, segundo seu site na internet, usa “princípios

cerebrais” para entender os clientes, com o fim de “criar uma utopia

doméstica sob medida para sua personalidade, usando os princípios da neurociência ou o estudo científico do sistema nervoso, para responder a

suas necessidades emocionais e desejos subliminares, bem como a

construção de uma cozinha perfeitamente prática”. A imagem que

acompanhava este texto é de um homem de cara muito assustada, usando

um capacete de imagem cerebral e olhando uma cozinha, suponho,

perfeitamente prática.[17]

Às vezes os próprios neurocientistas contribuíram para a cobertura cada

vez mais bizarra da imprensa. Um exemplo disto é encontrado na história

de um relato na Associação Americana para o Progresso da Ciência em que

foi apresentado um artigo sobre as “Assinaturas neurais e emocionais de

hierarquias sociais” (“Neural and Emotional Signatures of Social

Hierarchies”).[18] O artigo informou que os participantes homens foram

examinados por escâner enquanto lhes mostravam fotos de diferentes

corpos femininos ou masculinos em diferentes níveis de vestimenta

(totalmente vestidos, parcialmente vestidos, em trajes de banho). Isto foi

feito em nome do estudo dos correlatos neurais de determinados tipos de

memória. Os homens viam uma mistura de imagens novas e antigas e mais

tarde eram solicitados a identificar quais tinham visto antes. Os homens se

lembravam melhor das mulheres de biquíni (os céticos se perguntarão por

que foi necessário um scan do cérebro para demonstrar isso). Quando os

scans cerebrais relevantes foram examinados, diferentes áreas eram

ativadas por diferentes tipos de estímulo. Com relação às reações a beldades

em trajes de banho, os autores contam:

 

Foram ativadas áreas do cérebro que normalmente se iluminam na expectativa de usar

ferramentas, como chaves inglesas e de fenda [o grifo é meu] (...). As mudanças na

atividade cerebral sugerem que as imagens sensuais podem mudar como os homens

percebem as mulheres, transformando-as de pessoas com quem interagir em objetos

com os quais agir.

 

No dia seguinte, o Guardian publicou uma matéria sobre o artigo,

relatando com precisão o que foi dito, acompanhado da chamada “Objetos

sexuais: imagens mudam a visão que os homens têm das mulheres”,

sutilmente acompanhada por uma foto de uma broca de furadeira

penetrando uma peça de madeira.[19] No dia seguinte, o periódico da alma

mater dos pesquisadores, o Princetonian, também falou sobre o estudo e

descreveu aquelas áreas cerebrais ativadas pelas imagens com trajes de

banho associadas com “coisas que você manuseia”. Desta vez a imagem era

de uma chave de fenda sobreposta sugestivamente a uma imagem de um

torso bem torneado de biquíni.[20] A manchete da normalmente sóbria

National Geographic exclamou, “Biquínis fazem os homens verem as

mulheres como objetos, scans confirmam”, junto com o detalhe adicional e

inicialmente não informado de que “também era mais provável que os

homens associassem imagens de mulheres sexualizadas a verbos de ação na

primeira pessoa, como ‘Eu empurro, Eu pego, Eu manuseio’”.[21]

Recorreram a uma compilação verdadeiramente vulgar de imagens de

biquíni para ilustrar seu argumento. E também a CNN, cujo site

trombeteou: “Pode parecer óbvio que os homens percebem como objetos as

mulheres em sensuais trajes de banho, mas agora existe a ciência em apoio

a isto”.[22] Talvez não seja o melhor momento da divulgação científica.

Em um estudo intitulado “Neurociência na esfera pública”

[“Neuroscience in the Public Sphere”], Cliodhna O’Connor e colaboradores

do University College London fizeram a crônica da cobertura da mídia

sobre a neurociência no Reino Unido entre 2000 e 2010.[23] Escolhendo seis

jornais britânicos representativos, eles identificaram mais de 3.500 artigos

nesta década, com os números aumentando constantemente por todo esse

tempo, de 176 em 2000 para 341 em 2010. Os temas cobertos iam da

“otimização do cérebro”, passando por “diferenças de gênero” a “empatia”

e “mentiras”. A equipe do UCL concluiu que havia um foco no “cérebro

como prova biológica” e em uma pauta que dava explicações para quase

tudo, inclusive o comportamento de risco na comunidade gay ou a

pedofilia. Os autores concluíram que “a pesquisa era aplicada fora de

contexto para criar manchetes dramáticas, argumentos ideológicos muito

mal disfarçados ou para apoiar determinadas pautas políticas”.

O vale da desilusão

 

A neuromoda inicial parecia dar insights sobre muitos aspectos da

existência humana. Assim como a promessa de entender a consciência e o

livre-arbítrio, resolver o problema mente-corpo e talvez proporcionar maior

compreensão do self, também havia a possibilidade de um front mais

imediatamente prático de diagnóstico melhorado, e até de tratamento,

baseado no cérebro, para problemas físicos e mentais. Começaram a

aparecer delírios sobre a qualidade de parte da pesquisa básica: não só sobre

sua apresentação, mas sobre a produção e a interpretação das próprias

imagens cerebrais que causavam tanta empolgação.

Havia imagens atraentes que chamavam a atenção, os mapas com

códigos coloridos e, com sistemas mais avançados, vídeos em time-lapse

dando a impressão de uma janela direta para a atividade contínua do

cérebro humano. A visualização do cérebro, que parecia tornar visível o

invisível, foi de fato o gatilho tecnológico que trouxe a neurociência

firmemente para a arena pública. Também teve boa ressonância com a

visualização de praticamente tudo no mundo da época, por meio de câmeras

de vídeo e fotocopiadoras, assim como os desenvolvimentos na TV e no

cinema.[24]

O problema era que a imagem do cérebro que enfeitava muitos artigos de

jornal e livros de divulgação científica era, de certo modo, uma ilusão. A

produção, ou “construção” de uma imagem cerebral, seja de um só

indivíduo ou de um grupo, requer uma hierarquia de decisões de várias

camadas, sobre como “limpar” os dados brutos, como suavizar diferenças

anatômicas individuais, como “torcer” características do cérebro para que

se encaixem em um cérebro modelo.[25] A distribuição de cores aos

diferentes tipos de mudanças identificadas é, na verdade, um procedimento

estatístico. Do mesmo modo que as cores cintilantes que se deslocam do

cinza e branco tundra do cérebro enquanto alguém vê um comercial da

Coca-Cola não equivale a um poente em time-lapse, mas reflete a

limiarização de algumas decisões tomadas por um pesquisador de imagens

cerebrais.

Mas esta não foi a impressão dada no início, e identificaram um poder

particularmente convincente nas imagens do cérebro. Uma série de estudos

dirigidos pelos psicólogos David McCabe e Alan Castel alegou demonstrar

que a mera presença de imagens do cérebro tinha um efeito direto sobre a

credibilidade ou não de determinada linha de raciocínio cinentífico.[26] Seus

participantes recebiam artigos falsos sobre temas como a ligação entre ver

televisão e capacidade para matemática, e alguns continham erros

científicos. Eles também tiveram como exemplo imagens padrão do

cérebro, mapas topográficos ou gráficos de barra comuns. Quando

solicitados a classificar o raciocínio científico nos artigos, era muito mais

provável que os participantes aprovassem artigos acompanhados por uma

imagem do cérebro.

Nos primeiros dias do desenvolvimento da imagem de ressonância

magnética para uso diagnóstico, houve alguma discussão sobre quais

profissionais médicos entenderiam e interpretariam melhor os dados

produzidos (que a essa altura eram ambos numéricos, e não pictóricos).

Decidiu-se que os radiologistas, como examinadores treinados de imagens

de raios X e scans de tomografia computadorizada, seriam os mais eficazes,

e apresentaram a eles a nova tecnologia. É interessante observar que foram

estes radiologistas que requisitaram que a prática inicial de codificação das

imagens por cores fosse substituída por versões em uma escala de cinza.

Pelo visto, preferiam tons de uma só cor porque isto lhes permitia

identificar mudanças anatômicas sutis. Eles observaram que a diferença de

luminosidade entre duas regiões podia ser muito pequena, o que seria

evidente a partir de dados numéricos, mas se estas regiões recebessem um

código de cores, digamos, de azul e amarelo, a diferença poderia “enganar o

olho a acreditar que dois números próximos são muito diferentes, porque

eles têm diferentes cores na imagem”.[27] Assim, os profissionais

consideraram uma distração as próprias cores que eram um importante

argumento de venda para o público.

Estes estudos “sedutores e fascinantes” são citados com frequência como

parte da preocupação crescente com o impacto do neuromodismo na

credibilidade geral da imagem do cérebro. As alegações de que a neuroimagem só era boa para produzir imagens bonitas que podiam jogar

areia em olhos crédulos não contribuíram muito para moderar a impressão

emergente de que esta tecnologia só desviava o financiamento da “boa

ciência” e não podia nos dizer nada de útil sobre o cérebro humano. Como

podemos constatar, Martha Farah e Cayce Hook, neurocientistas cognitivas

do Centro de Neurociência e Sociedade da Universidade da Pensilvânia, em

um artigo com o título caracteristicamente apelativo de “O fascínio sedutor

do ‘Fascínio sedutor’” [“The seductive allure of ‘Seductive allure’”],

relataram que outros estudos não conseguiram reproduzir estas descobertas

originais, mas reconheciam a crença em curso de que o efeito persuasivo

era real.[28] Robert Michael e colaboradores, da Nova Zelândia, encararam a

tarefa e tentaram reproduzir as descobertas originais, com dez estudos

diferentes e quase 2 mil participantes.[29] A parte fundamental de seu

projeto era a presença ou ausência de uma imagem cerebral ou “linguagem

científica” nos vários argumentos científicos apresentados aos participantes.

É interessante notar que, neste caso, eles descobriram que a linguagem era

mais eficaz do que a imagem. Assim, os argumentos iniciais de “a culpa é

das imagens do cérebro” podem ter sido exagerados, mas ainda estava claro

que a narrativa associada a eles podia ser erroneamente convincente. É

importante lembrarmos disto quando tentarmos entender a persistência

surpreendente de crenças equivocadas sobre o cérebro em toda sorte de

arenas, em particular aquelas relacionadas com a compreensão das

diferenças sexuais.

Logo ficou evidente, porém, que pouco progresso foi feito a partir das

promessas iniciais e, paradoxalmente, a prática emergente de

neurocientistas “apelando” ao neurolixo tinha seus efeitos. Em 2012,

Deborah Blum escreveu um artigo na Undark Magazine com o título “O

inverno do descontentamento: terá esfriado o caso tórrido entre a

neurociência e o jornalismo científico?” [“Winter of discontent: is the hot

affair between neuroscience and science journalism cooling down?”][30] Ela

chamou a atenção para uma enxurrada de matérias “neurocríticas” que

expressavam preocupação com a simplificação exagerada (e a imprecisão)

da cobertura da neurociência na imprensa, em particular aquelas histórias envolvendo “scans cerebrais com seus visuais chamativos”. Um dos artigos

que ela notou foi “Neuroscience fiction” [“Ficção neurocientífica”],

publicado na New Yorker, em que Gary Marcus, professor de ciência

cognitiva, expressava preocupação que a imagem do cérebro estivesse

sendo banalizada por matérias como “Cérebro feminino mapeado em 3D

durante o orgasmo” e “Este é seu cérebro no pôquer”.

O editorial de Alissa Quart no New York Times foi bem mais

contundente.[31] Elogiando os atos dos blogueiros neurocientistas, ou

“neurocéticos”, ela aplaudiu a reação contra o que chamou de “pornô

cerebral”, com explicações neurocientíficas dando “atalhos para a

iluminação” e “eclipsando interpretações históricas, políticas, econômicas,

literárias e jornalísticas da experiência”. Steven Poole, na New Statesman,

juntou-se à refrega com um artigo atraente intitulado “Seu cérebro na

pseudociência: a ascensão da neurobaboseira popular” [“Your brain on

pseudoscience: The rise of popular neurobollocks”].[32] Ele revirou a moda

dos livros de neuro-autoajuda, observando que a função do gênero

“Pensador inteligente” era “libertar os leitores da responsabilidade de

pensar por eles mesmos” e citou com entusiasmo Paul Fletcher,

neurocientista de Cambridge, que cunhou o glorioso termo “neurodisparate”

para descrever o hábito de ligar um termo neural que soa grandioso a um

argumento simples. Poole também chamou a atenção para o uso exagerado

da frase “Este é seu cérebro com...” quando interpretavam dados de

imagens cerebrais associados a algum processo que ia da música à metáfora

e ao pôquer. Para mim, a melhor parte de seu artigo é quando ele se oferece

para “se submeter a um scan de imagem de ressonância funcional enquanto

lê uma pilha de livros de neurociência pop, para uma série esclarecedora de

imagens intituladas ‘Este é seu cérebro com livros imbecis sobre seu

cérebro’”.

 

A ladeira do encantamento Os alarmes tinham começado a soar na comunidade da neurociência muito

antes da reação dos jornalistas. Em um artigo de 2005 com o título “fMRI

aos Olhos do público” [“fMRI in the Public Eye”], Eric Racine, do Centro

de Ética Biomédica de Stanford, e colaboradores levantaram preocupações

de que as limitações da fMRI não eram suficientemente esclarecidas e que

havia saltos de fé em demasia, com alegações desvairadas de que as

imagens cerebrais podiam ser consideradas “provas visuais” da base

biológica de determinado processo, como o vício em pornografia, ou que os

sistemas de ressonância magnética poderiam servir como uma máquina que

lia pensamentos ou detectava mentiras.[33] Eles exortaram pela cautela não

só na mídia, mas também na comunidade da neurociência, com maior

cuidado a ser tomado na explicação dos riscos e preocupações, bem como

nos benefícios da nova tecnologia.

A “indústria do cérebro” tinha começado a se autorregular. Surgiam

blogs como um meio de comunicação pública e vários neurocientistas

praticantes entraram no espírito da época e criaram sites que chamavam a

atenção para as “neurogafes” e “neuroasneiras” em circulação.

Pesquisadores da James S. McDonnell Foundation, nos Estados Unidos, já

haviam criado o Neuro-Journalism Mill em 1996, um site dirigido por

autoproclamados “ranzinzas (...) dedicados a separar o joio do trigo da

mídia popular sobre novidades a respeito do cérebro”.[34]

Também ficava claro que o neuromodismo não era só uma função dos

artigos de imprensa entusiasmados demais, porém mal fundamentados, e o

consequente neurolixo. A enorme complexidade em torno da produção e da

análise de dados de imagem cerebral levava a erros e interpretações

equivocadas dentro da própria ciência. Ed Vul e colaboradores, da

Universidade da Califórnia, em San Diego, ficaram perplexos com parte das

correlações extraordinariamente altas entre atividade cerebral e medições

comportamentais, em especial nos novos círculos emergentes da

neurociência social.[35] Sabendo da grande variabilidade dos dois tipos de

medição, eles não conseguiam entender como os pesquisadores chegavam a

correlações altas como 0,8 ou mais, em particular se uma de suas variáveis

eram os dados de imagem do cérebro. Dados brutos de ativação cerebral (seja o fluxo sanguíneo ou atividade elétrica ou magnética) são convertidos

em representações visuais do tecido cerebral medidas em unidades

chamadas voxels (pixels em 3D). Estes podem ter tamanho variado,

dependendo da resolução do sistema, mas podemos chegar a um milhão de

voxels em um scan cerebral de alta resolução. E depois teríamos uma nova

imagem mais ou menos a intervalos de dois ou três segundos. No geral,

uma quantidade imensa de dados para processar, dentro dos quais haveria

imensas quantidades de variância, que normalmente dificultariam muito a

localização das diferenças.

Suponha que você seja um psicólogo social querendo ver as correlações

entre a atividade nos voxels cerebrais, medidas por colegas de imagem

cerebral e por alguma medição comportamental em que esteja interessado.

Em vista do número enorme de voxels a partir dos quais escolher, há uma

probabilidade muito alta de que você tenha um falso positivo, encontrando

uma correlação só por acaso. Se pudesse “restringir” a escolha de voxels de

alguma forma, seria de grande ajuda. E é aí que Vul e colaboradores

perceberam de onde vinha o problema: os pesquisadores estavam

“escolhendo a dedo” aqueles voxels em que já estava claro que havia

correlações elevadas com seus dados comportamentais e depois

simplesmente os exploravam (no lugar de, digamos, especificar

antecipadamente determinada área anatômica em que a atividade relevante

pudesse ser prevista). É meio parecido com testar sua suspeita de que uma

alta proporção da população participa de jogos de azar coletando os dados

apenas em uma rua cheia de casas de apostas. Isto levaria a altas

correlações agradáveis (ou perturbadoras, se você fosse Vul e

colaboradores) entre os dados do cérebro e do comportamento. Mais da

metade dos cinquenta e tantos artigos examinados caiu nesta armadilha. Vul

e colaboradores acharam que o problema se baseava mais em ingenuidade

estatística dos pesquisadores (e, presumivelmente, dos resenhistas dos

artigos), novatos em uma área complexa, do que em uma tentativa

deliberada de fraude. Porém, eles foram bem menos clementes nas

conclusões: “Somos levados a concluir que um segmento

perturbadoramente grande e de bastante destaque da pesquisa com fMRI sobre a emoção, a personalidade e a cognição social está usando métodos de

pesquisa seriamente incorretos e produzindo uma profusão de números que

não merecem crédito.” Isso não significa que todas as empolgantes

descobertas na neurociência cognitiva social devem ir para a lixeira, mas

elas agora precisam ser vistas com uma forte dose de ceticismo, em

particular aquelas publicadas antes de 2009.

Se não aplicarmos as regras estatísticas corretas, os resultados podem ser

enganadores, para dizer o mínimo. O exemplo mais clássico disto envolve

um peixe morto.[36] Este estudo de Craig Bennett e colaboradores em seu

laboratório em Dartmouth também envolveu examinar as dificuldades

encontradas com a imensa quantidade de dados que os pesquisadores de

imagens tentavam comprimir em uma forma visual digerível. Como vimos,

existe um número enorme de voxels em qualquer scan do cérebro. Se

tentarmos descobrir aquelas áreas que são mais ativas durante determinada

tarefa, precisaremos fazer um número imenso de comparações (e nos expor

mais uma vez ao problema do falso positivo). Assim, precisamos

estabelecer algum limiar. Porém, como as diferenças, proporcionalmente

falando, entre áreas mais ou menos ativas são de fato mínimas, se nosso

limiar também é conservador, então todas as nossas diferenças interessantes

podem desaparecer junto com aquelas aleatórias. Assim, podemos dizer:

“Tudo bem, vamos aceitar que algo genuíno está acontecendo, digamos, se

pelo menos oito voxels reunidos mostrarem alguma diferença”. Mas a

questão fundamental é que queremos encontrar um jeito de maximizar o

contraste entre as áreas ativas e as áreas inativas.

O que o estudo de Bennett e colaboradores mostrou foi que isto pode nos

preparar para algumas descobertas muito enganosas. Reza a história que

eles testavam os ajustes de contraste de seu sistema de fMRI antes de

realizar um estudo de reconhecimento de emoções. Precisando de um objeto

“fantoche” com o tipo certo de tecidos corporais diferentes, eles recrutaram

um salmão inteiro (morto, depois de tentar e fracassar com uma abóbora e

uma galinha morta), colocaram-no em seu escâner e correram o protocolo

experimental (que por acaso comparava reações a rostos felizes e tristes).

Isto lhes permitiu ajustar o contraste no nível correto. Em uma fase posterior, quiseram demonstrar os efeitos de diferentes tipos de decisões

limiares sobre os resultados de análise de fMRI, e assim experimentaram

várias abordagens com os dados do salmão. O que descobriram foi que, se

não corrigirmos adequadamente o fato de que estamos fazendo muitas

comparações, podemos produzir um resultado espantoso. Podemos

descobrir uma área no cérebro do salmão morto mostrando evidências

significativas de ativação quando exposta a fotografias de indivíduos em

situações felizes ou tristes, em comparação com quando estavam “em

repouso”. Seguem-se as previsíveis manchetes: “Exame de salmão morto

em fMRI ressalta o risco de traíras” e “fMRI leva tapa na cara de peixe

morto”.[37]

Mais uma vez, este estudo não foi montado para mostrar que a fMRI era

fraudulenta e que todos os estudos de pesquisa deveriam ser ignorados; na

verdade, os pesquisadores precisavam ter muito cuidado com o modo como

tratavam seus dados para evitar essas descobertas absurdas (que, é claro, só

eram definidas como absurdas porque este participante estava morto e não

cheirava lá muito bem). Mas isso também se somou à desilusão nascente

com o gênero neuromodismo e colocou as coisas no caminho para uma

Ladeira do encantamento, com expectativas realistas do que a fMRI podia

ou não mostrar. O salmão foi nomeado o “peixe morto que criou mil

céticos”.[38]

 

O platô da produtividade?

 

Quer dizer, então, que a neuroimagem deixou para trás os erros do passado

e se restabeleceu como a fonte de descobertas incríveis em nossa

compreensão do cérebro humano?

Uma questão que tem sido de solução difícil é que às vezes, depois que

uma descoberta entrou na consciência pública como um “fato”, porém

provou-se errada mais tarde, é extraordinariamente difícil tirá-la da cabeça

sem que ela pipoque em outro lugar – é um daqueles mitos Acerte a Toupeira. Os estudos iniciais de imagem do cérebro levaram mais tempo

para ser divulgados e criticados, assim, é possível que o tempo de

permanência da primeira mensagem por aí, antes de ser contradita, tenha

dificultado qualquer abalo na crença em sua precisão. E se esta descoberta

foi adotada como apoio a atividades comerciais ou decisões políticas, que

depois teriam de ser abandonadas ou revertidas se sua pedra fundamental

fosse retirada, então haveria uma tendência a níveis muito mais altos de

capacidade de resistência.

Isto é particularmente verdadeiro nos neuromitos na educação, em que

ainda encontramos crenças, por exemplo, de que só podemos fazer alguma

diferença no cérebro de uma criança nos três primeiros anos de vida, que

existem diferentes tipos de aprendizado nele baseados, que só usamos 10%

de sua capacidade, que os homens usam um lado do cérebro, enquanto as

mulheres usam os dois.[39] Apesar de tantas provas em contrário, estes

mitos ainda persistem, em geral perpetuados por “gurus” da educação, cujos

manuais de aconselhamento exortarão os pais e formuladores de políticas

públicas a adotar técnicas de “treinamento do cérebro” sem fundamento (e

caras) ou mandar seus filhos a escolas de sexo único.

Porém, em uma nota mais positiva, a pesquisa está avançando e foram

montados projetos enormes para explorar muitos aspectos do cérebro. Na

Europa, mais de 1 bilhão de euros foram dedicados ao Projeto Cérebro

Humano, um programa imensamente ambicioso que depende muito de

modelagem por computador e técnicas de simulação para tentar obter

insights sobre como o cérebro faz o que faz.[40] Envolve mais de cem

centros de pesquisa no mundo todo. Derivados do projeto incluem atlas do

cérebro maravilhosamente detalhados e atualizados para espécies humana e

não humanas. Estes e todos os enormes conjuntos de dados que estão

acumulando podem ser acessados por todos os pesquisadores, não só

aqueles financiados pelo projeto. No Reino Unido, o projeto Biobank

concentra-se em informações relacionadas com a saúde humana de 500 mil

pessoas com idades que variam entre quarenta e 69 anos entre 2006-2010, e

100 mil delas passarão por pelo menos um scan cerebral.[41] Nos Estados

Unidos, existe uma Iniciativa BRAIN (Brain Research through Advancing Innovative Neurotechnologies, Pesquisa cerebral por meio da promoção de

neurotecnologias inovadoras), com um possível orçamento final de US$4,5

bilhões e um grande foco nas diferentes maneiras de medir o cérebro.[42] O

Projeto Conectoma Humano (HCP, Human Connectome Project), também

norte-americano, pretende mapear as possíveis conexões de células

nervosas no cérebro humano.[43] Isso foi realizado para um nematódeo (C.

elegans), com seus 302 neurônios e cerca de 7 mil sinapses. (A observação

de que isso exigiu mais de cinquenta anos/pessoas de trabalho impõe uma

perspectiva bem alarmante sobre a escala da tarefa do projeto de mapear um

órgão com 86 bilhões de neurônios e 100 trilhões de conexões possíveis!)

Novas técnicas para enfrentar estas tarefas surgem o tempo todo.

O livre acesso aos imensos conjuntos de dados gerados pelos

pesquisadores nesses projetos, e a partilha maior de dados, permite a cada

pesquisador ou grupo de pesquisa no mundo responder a um amplo leque

de perguntas sobre o cérebro humano. Um artigo de 2014 contou mais de 8

mil conjuntos de dados de MRI compartilhados e disponíveis on-line.[44]

Atualmente, a pesquisa cerebral é uma área muito promissora. Porém,

embora tenha feito um ótimo trabalho para colocar a casa em ordem na

maioria dos casos, ainda existem ecos dos erros e incompreensões do

passado que exigem nossa cautela. Isto é particularmente válido quando

examinamos a pesquisa sobre diferenças sexuais no cérebro.

 

O sexismo no escâner

 

Como se sai o estudo das diferenças sexuais no cérebro neste ciclo de picos

de expectativas infladas e vales de desilusões? A geração de imagens de

cérebros saudáveis in situ certamente parecia dar soluções para muitos

problemas levantados pelas limitações da abordagem “calombos e

chumbo”, com a qual somente cérebros mortos ou lesionados estavam

disponíveis para insights adicionais. Pelo menos devemos ter a capacidade de testar a ligação no argumento de que indivíduos de diferentes gêneros,

genitais e gônadas teriam também cérebros diferentes.

Como você deve ter previsto, uma combinação de descobertas sobre

“sexo” e “cérebro” se mostrou uma dádiva para os inspetores do neurolixo

e, depois que este gênio saiu da lâmpada, seguiu-se um maremoto de livros

do tipo “sexo cerebral”.[45] Assim como o conhecido Homens são de Marte,

mulheres são de Vênus, temos Why men don’t listen and women can’t read

maps [“Porque os homens não ouvem e as mulheres não sabem ler mapas]

(com as sequências Por que os homens mentem e as mulheres choram e

Why men don’t have a clue and women always need more shoes [“Por que

os homens são sem noção e as mulheres sempre precisam de mais

sapatos”]). A estes, uniram-se o intrigante Why men like straight lines and

women like polka dots [“Por que os homens gostam de linhas retas e as

mulheres gostam de bolinhas”], Men are clams, women are crowbars

[“Homens são ostras, mulheres, pés de cabra”] e Why men don’t iron [“Por

que os homens não passam roupa”]. O defensor da educação de sexo único

Michael Gurian produziu Boys and girls learn differently [“Meninos e

meninas aprendem diferentemente”] e temos uma reviravolta religiosa de

Walt e Bar Larimore com His brain, her brain: How divinely designed

differences can strengthen your marriage [“O cérebro dele, o cérebro dela:

Como as diferenças projetadas por Deus podem fortalecer seu casamento”].

Nestas publicações, predomina qualquer coisa que possa ser feita para

reforçar a ideia de que homens e mulheres são tão diferentes que podiam ser

de planetas distintos.

Um dos mais famosos do gênero, ou infames, é o da psiquiatra Louann

Brizendine, Como as mulheres pensam, lançado em 2006.[46] A fama, nos

círculos da neurociência, vem de um leque deprimente de imprecisões

científicas, histórias pessoais disfarçadas de provas e, de vez em quando,

erros hilários de citação e de orientação.[47] Uma alegação no livro é de que

“as diferenças entre os cérebros de homens e mulheres tornam as mulheres

mais falantes”; Brizendine diz aos leitores que as áreas da linguagem no

cérebro são maiores nas mulheres do que nos homens e que as mulheres,

em média, usam 20 mil palavras por dia, enquanto os homens usam apenas 7 mil. Mark Liberman, linguista da Universidade da Pensilvânia, verificou

esta afirmação, mas não conseguiu localizar a fonte.[48] Descobriu que tinha

se repetido, de variadas formas, em uma gama de outros livros de

autoajuda, mas que não parecia haver descoberta de pesquisa que servisse

de apoio. Para provar seu argumento, ele fez os próprios cálculos,

fundamentados em um banco de dados britânico de conversas, e chegou a

uma conclusão um tanto diferente: o nível de uso das palavras pelos

homens era de pouco mais de 6 mil por dia, comparados a pouco menos de

9 mil para as mulheres.

Concentrado apenas nas alegações de Brizendine sobre as diferenças

sexuais no uso da linguagem e as explicações baseadas no cérebro para elas,

Liberman conseguiu descobrir que muitas de suas afirmações factuais ou

eram contraditas pela pesquisa que ela citou, ou teriam sido pela pesquisa

que ela não mencionou. Nas palavras de Liberman: “Existe um termo

técnico usado pelos filósofos para descrever a prática de afirmar coisas sem

grandes preocupações se realmente são verdadeiras ou não: chama-se papo-

furado.”[49]

A psicóloga Cordelia Fine também deu umas voltas pelas gafes de

Brizendine.[50] Por exemplo, verificou cinco referências citadas por

Brizendine em apoio a sua declaração de que os cérebros dos homens

tinham pouca capacidade para a empatia. Um estudo era em russo e falava

sobre lobos frontais de mortos; três não comparavam homens e mulheres, e

um era supostamente uma comunicação pessoal de um neurocientista

cognitivo que, quando procurado, disse a ela que nunca tinha se

comunicado com Brizendine e nunca encontrou evidências de nenhuma

diferença sexual no cérebro com base na empatia.

Armados com estas dicas úteis de localização de lixo fornecidas por

pessoas como Liberman e Fine, você teria esperança de que publicações

como esta fossem varridas de lado e desacreditadas por suas imprecisões e

até invencionices. Mas, como vimos com a tendência neurolixo

anteriormente, as informações falsas têm um jeito alarmante de ficar por aí

e continuar a sustentar neuromitos inúteis, como o de que meninos e

meninas têm cérebros diferentes que exigem tipos distintos (e separados) de instrução formal. O livro de Louann Brizendine, cheio de gafes como esta,

foi traduzido para muitas línguas e agora foi adaptado para o cinema,

lançado em 2017.[51]

A essa altura, talvez você esteja se perguntando se isto realmente

importa. Devemos apenas sorrir maliciosamente para essas neurotolices ou

só estremecer em silêncio diante da desinformação que caracteriza o

neurolixo? Mas relatos mostraram que notícias na mídia, como matérias de

jornal sobre explicações biológicas das diferenças sexuais, implicando

alguma forma de fatores fixos baseados no cérebro, têm uma probabilidade

maior de levar a um endosso de estereótipos de gênero, a uma tolerância

maior ao status quo e à crença na impossibilidade de mudança.[52] Assim,

as crenças de que o sexo biológico lega um portfólio fixo e diferente de

habilidades baseadas no cérebro para homens e mulheres tornaram-se

arraigadas na consciência do público. Em um ciclo de profecias

autorrealizáveis, estas crenças impelem como as crianças são criadas e

educadas, formam as bases de diferentes atitudes para com homens e

mulheres e expectativas em relação a ambos, e lhes permitem diferentes

experiências e oportunidades. Os cérebros, sendo plásticos e moldáveis

como agora sabemos que são, virão a refletir essas diferenças. Em vez de

“limitações impostas pela biologia”, estamos vendo “restrições impostas

pela sociedade” – ambas medidas pelas diferenças na estrutura e na função

cerebrais, mas esta última proporciona uma possibilidade muito maior de

mudança.

Surgindo da inquietação geral com o alto nível de cobertura dúbia das

diferenças sexuais no gênero “neurolixo”, uma preocupação muito mais

grave foi sobre a evidência de práticas sexistas no campo da própria

pesquisa de neuroimagem. A neuroimagem parecia dar continuidade à

tradição psicossexista de cientista-como-explicador-do-status-quo,

concentrando-se em descobrir diferenças entre homens e mulheres,

tomando como fato as diferenças, por exemplo, na linguagem e nas

habilidades espaciais e revirando o cérebro em busca de evidências que as

apoiassem. Cordelia Fine cunhou o termo “neurossexismo” para estas

práticas em seu livro de 2010, Delusions of gender [“Ilusões de gênero”], observando que elas ainda estimulam crenças do público em diferenças

puras e não sobrepostas entre os cérebros feminino e masculino, fixos

inflexivelmente como as fundações de diferenças similarmente puras e não

sobrepostas em capacidades, aptidões, interesses e personalidades de

mulheres e homens.[53]

Os estereótipos preexistentes provaram-se uma grande força norteadora

no resultado da pesquisa. A filósofa Robyn Bluhm, da Universidade

Estadual de Michigan, comparou vários estudos de imagem cerebral sobre

as diferenças sexuais no processamento de emoções, que pareciam ser

motivadas pelo princípio de status quo de que as mulheres são mais

emotivas do que os homens.[54] Um estudo mediu as reações de “medo” e

“nojo”, mostrando cenas projetadas para despertá-las, esperando encontrar

níveis mais elevados das duas reações nas mulheres, em paralelo com uma

atividade maior nos “centros de emoção” do cérebro. O que realmente

descobriram foi que, embora as mulheres relatassem níveis mais altos de

reações emocionais às imagens, foram os homens que mostraram maior

reatividade nos centros da emoção em seus cérebros. Isto foi explicado por

uma revisão das imagens que lhes foram mostradas, algumas das quais

consideradas, a posteriori, muito agressivas e que foi possivelmente isto

que ativou diferencialmente os centros de emoção nos homens. (Mas

observo que os homens, fiéis a seu gênero, guardaram para si as reações

emocionais verbais.)

Um segundo estudo se concentrou mais no aspecto da repulsa na

emocionalidade. Os pesquisadores descobriram o que procuravam (níveis

mais elevados de sensibilidade ao nojo relatados nas mulheres e mais

ativação no “circuito do nojo”), mas um exame mais atento de seus dados

revelou que estas diferenças tinham uma explicação melhor examinando-se

os níveis de sensibilidade ao nojo em todo o grupo. Depois que eles

controlaram este aspecto, as diferenças sexuais desapareceram. Porém, os

pesquisadores bateram pé e seu resumo concluiu com a declaração: “Em

voluntários adultos e saudáveis, existem diferenças significativas

relacionadas com o sexo nas reações cerebrais a estímulos repulsivos que são irrevogavelmente [o grifo é meu] ligadas a uma pontuação maior na

sensibilidade ao nojo nas mulheres.”

Um terceiro estudo voltou-se para a questão de que a maior

emocionalidade das mulheres se devia à sua incapacidade de controlar

cognitivamente as emoções. Homens e mulheres foram solicitados a

“reavaliar cognitivamente” ou “reduzir” suas reações iniciais a imagens

desagradáveis (as mesmas usadas nos estudos anteriores). Previu-se que a

capacidade inferior de regulação das emoções nas mulheres seria indicada

por uma ativação menor no córtex frontal. O que se descobriu foi que não

havia diferenças sexuais na capacidade relatada de repensar a reação inicial,

mas que existiam diferenças nos padrões de ativação do cérebro.

Contrariamente à hipótese, porém, foram as mulheres que mostraram níveis

mais altos de atividade nas áreas pré-frontais. Sem se deixar abalar, os

pesquisadores propuseram a interpretação de que os homens eram mais

eficientes na reavaliação cognitiva e, portanto, não precisavam apelar tanto

a seus recursos corticais como as mulheres. Para citar Mary Wollstonecraft:

“Que barreira fraca é a verdade quando se coloca no caminho de uma

hipótese!”

Robyn Bluhm observa um comentário de um dos pesquisadores cujo

trabalho ela criticou: “Se as diferenças de gênero (em geral) não conseguem

surgir de estudos de reatividade emocional, como vamos explicar o amplo

consenso de que elas existem na reação emocional?”.[55] Pelo visto, não

existe a alternativa de rever este consenso.

Um dos problemas nesta área pode ser a “adesividade” das descobertas

iniciais, em particular quando são apoiadas por uma compreensão atual de

como o cérebro funcionava (ou, em outras palavras, sustentava um

estereótipo). E este problema pode ser agravado quando pesquisadores na

mesma área ainda citam estas descobertas, mesmo quando existem provas

claras de que os resultados iniciais não foram reproduzidos, nem surgiram

estudos adicionais com conclusões diferentes.

Mitos Acerte a Toupeira

 

A ideia da cerebração direita e esquerda já estava estabelecida nos modelos

pré-scan da função cerebral, assim como a possibilidade de existirem

diferenças sexuais neste padrão de diferenças hemisféricas. Deste modo,

examinar as diferenças hemisféricas e as sexuais seria uma ótima

oportunidade para os pesquisadores de imagens do cérebro demonstrarem o

poder de seu brinquedo novo.

Um dos primeiríssimos estudos de fMRI a examinar o processamento da

linguagem no cérebro foi realizado em 1995 pelos psicólogos Sally e

Bennett Shaywitz.[56] Eles vieram com a descoberta de que existia uma

combinação dos sonhos nas diferenças sexuais e hemisféricas. A grande

notícia – literalmente, como cobriu o New York Times com a manchete

“Estudo revela que homens e mulheres usam o cérebro de forma diferente”

– foi de que enquanto só homens usavam uma parte específica do lado

esquerdo do cérebro para o processamento da linguagem, as mulheres

usavam os lados direito e esquerdo quando realizavam a mesma tarefa.* [57]

Isso parecia confirmar décadas de observações indiretas baseadas em

tarefas psicológicas e/ou efeitos de lesão cerebral. Outro neurocientista,

comentando o estudo, disse que ele dava “provas definitivas” de que

homens e mulheres podem usar seus cérebros de formas diferentes para

realizar a mesma tarefa, saudando a descoberta com a ideia de que “até

agora, nada foi conclusivo”. A imagem no artigo era muito menos

dramática do que as fotos multicoloridas posteriores que se tornaram

material padrão, mas pareciam contar uma história interessante. Alguns

quadrados laranja e amarelos foram sobrepostos a uma seção transversal

cinzenta do cérebro, todos agrupados em um lado para os homens, mas

distribuídos em ambos os lados para as mulheres.

Apesar de sua idade (antiga, em termos de neuroimagem), a imagem

tornou-se uma das mais populares e apareceu em toda sorte de contextos.

Por exemplo, ilustrou um artigo sobre Christine Lagarde vir a se tornar

presidente do FMI, o contexto sugerindo que sua capacidade superior na

linguagem lhe daria a vantagem para lidar com as habilidades de comunicação de chimpanzés dos financistas homens com quem se reuniria.

A conclusão de que os homens “fazem” a linguagem com o lado esquerdo

do cérebro, enquanto as mulheres usam os dois lados, e a imagem

demonstrando isto tornaram-se importantes participantes nas expectativas

geradas pela nova tecnologia de fMRI. Seus muitos aparecimentos e

reaparecimentos posteriores ou são frustrantes para aqueles que tiveram a

atenção atraída às deficiências do estudo, ou tranquilizadores para aqueles

que não desejam contestar esta ortodoxia estabelecida. Esta descoberta

específica exemplifica exatamente aquelas tendências “Acerte a toupeira”

características de uma área. Até a data de hoje, o artigo foi citado mais de

1.600 vezes desde sua publicação e continua a ser citado, mais

recentemente em publicações de 2018.

A encrenca é que se descobriram grandes problemas com o estudo,

revelados em vários comentários diferentes (mais particularmente uma

análise detalhada característica de Cordelia Fine).[58] Estes problemas não

se devem a nenhum erro intrínseco no estudo em si, mas a como foi

interpretado e a como nossa visão de suas descobertas deveria ser

transformada pelo que foi revelado desde então. O tamanho da amostra era

pequeno (19 homens e 19 mulheres), mas isso era característico da época

(na verdade, números de dois dígitos eram muito impressionantes). Havia

de fato quatro tipos de tarefa de processamento de palavras, mas o estudo

relata apenas uma, a tarefa com rimas – não houve relato, quando muito, do

que se descobriu com as outras tarefas de linguagem. Mas uma questão

fundamental, que escapou à percepção de muitos, foi que embora os 19

homens tivessem mostrado “agrupamento de pixels” no hemisfério

esquerdo, somente 11 mulheres mostraram a muito alardeada distribuição

esquerda e direita. Assim, é verdade que, como disseram os autores, “mais

da metade das participantes mulheres produziram forte ativação bilateral

nesta região”. Porém, por outro lado, praticamente a metade não mostrou.

Assim, essas diferenças sexuais talvez fossem bem menos “notáveis” do

que alegam os autores, embora na época fosse inteiramente compreensível o

entusiasmo pela revelação das possibilidades dadas pela nova técnica.

Desde então, várias tentativas de reproduzir o estudo fracassaram[59] e

meta-análises e uma revisão crítica mais recentes de toda a questão das

diferenças sexuais na lateralização da linguagem não encontraram nenhuma

evidência destas diferenças,[60] nem em estudos de neuroimagem funcional

nem quando examinaram medições estruturais do córtex da linguagem e o

tipo de tarefas neuropsicológicas que são medições indiretas da

lateralização.[61] É provável que o artigo não fosse publicado hoje; a

metodologia avançou, técnicas muito mais sofisticadas permitiriam

questões muitos mais sofisticadas a serem feitas a partir de conjuntos de

dados muito maiores. Apesar disso, o artigo ainda é amplamente citado.

Um exemplo mais recente da “evidência” problemática sendo

avidamente aproveitada e tornando-se firmemente arraigada na consciência

do público (e de fato em partes da comunidade de pesquisa) é um artigo

sobre diferenças sexuais nas vias de conectividade do cérebro, publicado

em 2013.[62] Pesquisadores do laboratório de Ruben Gur, na Universidade

da Pensilvânia, descreveram “diferenças singulares na conectividade

cerebral” entre 428 homens e 521 mulheres, com idades entre oito e 28

anos, um grupo grande e impressionante. Eles resumiram suas descobertas

gerais mostrando maior conectividade intra-hemisférica nos homens e inter-

hemisférica nas mulheres, o que, alegaram eles, sugeria que “os cérebros

dos homens são estruturados para promover a conectividade entre a

percepção e a ação coordenada, enquanto os cérebros das mulheres são

projetados para promover a comunicação entre modos de processamento

analítico e inuitivo”.[63] O respectivo comunicado à imprensa da

universidade, citando um dos pesquisadores, referiu-se a “diferenças

flagrantes”, ligando-as à complementaridade entre homens e mulheres, com

os primeiros melhores em ciclismo e navegação e as últimas “mais

equipadas para multitarefa e criação de soluções que funcionam para um

grupo”.[64] E, não, eles não puseram os participantes andando de bicicleta

nem fazendo multitarefa no escâner.

O que diferencia isso da saga Shaywitz é que este estudo foi identificado

quase imediatamente como problemático por dezenas de outros

pesquisadores e comentaristas on-line, não só esculachando a equipe pela ultrajante estereotipia que exibiam, como também contestando seus

métodos.[65] Os críticos observaram que os pesquisadores tinham

relacionado estruturas (vias no cérebro) com funções (que iam da memória

à matemática, passando por ciclismo e multitarefas) que nem mesmo

mediram no escâner. A imagem que eles produziram parecia mostrar apenas

as comparações estatisticamente significativas (que podiam ser pequenas,

como 19, embora isso não tenha sido informado). Estas eram muito

menores do que todas as comparações possíveis que podiam ter sido feitas

(foram 95 x 95, ou 9.025 conexões avaliadas). Os próprios pesquisadores

não relataram nenhum tamanho do efeito para as diferenças

“fundamentais”, “flagrantes” e “significativas” que descreveram, mas um

blogueiro prestativo calculou a maior na ordem de 0,48, sendo assim, na

melhor das hipóteses, somente moderada.[66] Deve-se também observar que

não foi usada na análise nenhuma outra informação demográfica, como

anos de escolaridade ou ocupação, portanto temos o pecado capital a mais

de ignorar variáveis além do sexo biológico que, sabemos, têm potencial

para alterar o cérebro.

Você pensaria que um artigo desses, sob o peso dessa crítica,

desapareceria sem deixar rastros. Mas não – foi entusiástica e amplamente

coberto pela imprensa. O Independent declarou: “A diferença programada

entre cérebros de homens e mulheres pode explicar por que os homens são

‘melhores na leitura de mapas’”; o Daily Mail me veio com “Cérebros de

homens e mulheres: a verdade” e “A imagem que revela por que os

cérebros de homens e mulheres realmente são diferentes: as conexões que

implicam que as meninas foram feitas para multitarefas”.[67] Este foi um

dos primeiros artigos a aplicar à questão das diferenças sexuais a nova

técnica de medição das vias de conectividade, assim, pode ter se livrado de

parte da crítica dos primeiros estudos com fMRI. Ele apoiou amavelmente

estereótipos como diferenças em multitarefa e leitura de mapas, e reforçou

em demasia a história da complementaridade.

Com o artigo atraindo atenção da mídia, Cliodhna O’Connor e Helen

Joffe, ambas do University College London, aproveitaram a oportunidade

para identificar e analisar seu impacto não só em novos artigos, mas

também em blogs e comentários on-line no mês seguinte à publicação.[68]

Foi muito parecido com a transcrição de uma brincadeira de telefone sem

fio. A culpa por parte das incompreensões surgidas podia ser imputada aos

pesquisadores; eles não mediram nenhum comportamento nos escâneres,

mas certamente se referiram a eles várias vezes, e seu comunicado à

imprensa falava de “crenças comumente sustentadas sobre comportamentos

de homens e mulheres”. Assim, o artigo foi tomado como prova científica

que confirmava crenças existentes sobre diferenças sexuais no

comportamento. Uma posição “biologia é destino” ou “pré-programação”

foi assumida por cerca de um quarto dos artigos tradicionais, mais de um

terço dos blogs e quase um décimo dos comentários, cuja maioria

aparentemente deixou passar o fato de que as diferenças relatadas nos

artigos de pesquisa só surgiram nos grupos mais velhos.

Foram os comentários de leitores, porém, que deram um insight

preocupante das visões de sexo e gênero, com uma mistura abundante de

estereotipia e misoginia, algumas críticas indiretas à homossexualidade e

alguns comentários desdenhosos de nível quinta série sobre quem é melhor

no quê:

 

Sem essa, mulheres, por mais que eu ame vocês, vamos encarar a realidade. Os homens

inventaram piraticamente [sic] tudo que vocês usam e gostam. O telefone, o

computador, o motor a jato, o trem, o carro a motor, etc. etc., a lista é interminável. Sem

nós, vocês ainda estariam escavando em cavernas, então vamos parar com essa

baboseira e vão se concentrar em suas bolsas de mão.

 

Como colocaram diligentemente O’Connor e Joffe: “Os comentários não

foram adulterados pela delicadeza política que restringe a mídia tradicional

e (até certo ponto) os blogs, e expuseram uma misoginia latente que

continua a marcar a recepção pública de informações científicas sobre as

diferenças sexuais.” Fato!

O artigo em si foi muito citado (mais de quinhentas vezes da última vez

que procurei saber, quase cinco anos após sua publicação) e nem sempre

por críticos que o usaram para exemplificar gafes do tipo neuroabsurdo (das

79 citações que verifiquei em 2017, mais de sessenta citavam este artigo em apoio a uma hipótese sobre diferenças sexuais em alguma forma de

estrutura ou função cerebral). Quase parece que esta técnica mais nova e

muito mais complexa de identificar vias cerebrais foi adotada com alívio

para tomar o lugar da mais antiga e agora ridicularizada, a “evidência”

blobológica da fMRI. Desde que exista alguma coisa lá fora que ofereça

confirmação cientificista a estereótipos de longa data, os detalhes menores

da deturpação e da interpretação errônea podem ser ignorados, pelo visto.

A chegada da neuroimagem de fato deu a oportunidade de conseguir

respostas melhores para as perguntas sobre os cérebros de mulheres e os

cérebros de homens. Mas as fases iniciais caíram na mesma armadilha que

maculou outras áreas de pesquisa: ater-se ao status quo para determinar

quais perguntas devem ser feitas ou como interpretar seus dados; não

desafiar as ortodoxias (quem sabe quantos estudos de imagem que não

descobriram nenhuma distinção simplesmente não conseguiram ser

publicados); com efeito, enfatizar a própria busca pelas diferenças. A área,

a essa altura, carecia dos últimos desafios aos problemas do neurolixo, do

neurossexismo e do neuroabsurdo. A ladeira do encantamento ainda estava

por vir...

 

* No Reino Unido, o Daily Mail concentrou-se em diferentes questões de momento, informando

que “Homens e mulheres reagem a comer chocolate com diferentes partes do cérebro” [“Men and

women respond to eating chocolate with different parts of their brains”], e pelo visto o revisor de

sintaxe tirou folga naquele dia.