Gênero e os Nossos Cérebros

Gina Rippon · Capítulo 15 de 46

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Gênero e os Nossos Cérebros

10. Sexo e ciência

PARTE QUATRO

CAPÍTULO 10:

 

SEXO E CIÊNCIA

 

No mundo ocidental desenvolvido, um dos hiatos de gênero mais

examinados e proclamados é a sub-representação das mulheres nas

chamadas áreas STEM: ciência, tecnologia, engenharia e matemática

(science, technology, engineering e mathematics). Isto pode ser ilustrado

por estatísticas de muitos níveis diferentes de ciência e em muitos países

diferentes. O relatório de 2018 do Instituto de Estatística da Unesco mostra

que, globalmente, apenas 28,8% da pesquisa científica é feita por mulheres.

Os números do Reino Unido (38,6%) e da América do Norte e Europa

Ocidental (32,3% cada um) revelam que as mulheres compõem apenas

cerca de um terço da força de trabalho na ciência, mesmo nos países mais

desenvolvidos. Com relação à indústria em todo o mundo, apenas 12,2%

dos integrantes de conselhos diretores em áreas STEM são mulheres. De

toda a gama de força de trabalho STEM no Reino Unido, um relatório de

2016 revelou que havia pouco mais de 450 mil mulheres; se houvesse

paridade de gênero, o número seria de 1,2 milhão. [1]

Segundo uma revisão recente das atitudes da ciência na Europa, na taxa

atual de aumento em cátedras científicas ocupadas por mulheres, o Reino

Unido terá de esperar até 2063 pela paridade de gênero entre professores

acadêmicos, e a Itália esperará até 2138.[2] No nível universitário, em 2016,

15% dos graduandos em ciência da computação e 17% em engenharia e

tecnologia no primeiro ano eram mulheres (comparadas com pouco mais de

80% que ingressaram em áreas como medicina, indicando que o problema

não é a capacidade em áreas científicas). Em 44% de todas as escolas

estaduais, nenhuma menina cursou física avançada (embora 65% das

meninas tivessem tirado uma das suas quatro maiores notas no exame do

ensino secundário em física). [3] No outro extremo da escala (e de possível relevância), um relatório recente da confederação de indústrias mostrou que

apenas 5% dos professores de escolas primárias (dos quais 85% são

mulheres) tinham algum diploma em ciências ou relacionado a ciências.[4]

Estes hiatos de gênero não serão novidade para a maioria das pessoas –

mas o que ainda não conseguimos responder é por que eles existem. Por

que há menos mulheres nas áreas STEM no nível universitário e depois

dele? Quando esses hiatos começaram a aparecer em nossa vida? E o que

esses hiatos significam quanto a capacidades, interesses e, sobretudo,

cérebros de homens e mulheres? A ausência de mulheres em empregos

STEM nos dá um exemplo forte de quase todas as questões que

examinamos. As visões essencialistas de o que é capaz (ou não) o cérebro

das mulheres são entrelaçadas com atitudes fortemente baseadas em gênero

e estereotipadas em relação à ciência e a cientistas, e os efeitos disto podem

distrair e desviar nosso cérebro viajante. A questão da sub-representação

das mulheres nas áreas STEM não é apenas preocupante no nível social

(estimou-se que há um déficit de cerca de 40 mil pós-graduados STEM no

Reino Unido a cada ano), mas também expõe os papéis de estereótipos

sobre ciência e cientistas, sobre ciência e o cérebro e sobre ciência e

diferenças sexuais na emergência destes hiatos e, mais importante, em sua

aparente resistência a tentativas de reduzi-los. O que é ciência? Quem pode

fazê-la e quem não pode?

 

A “sexagem” da ciência –

a ciência não é para as mulheres

 

No que pensamos quando nos pedem para descrever a ciência? O Conselho

Internacional de Ciência a definiu como “a busca e a aplicação do

conhecimento e da compreensão do mundo natural e social seguindo-se

uma metodologia sistemática com base em evidências”.[5] A última parte é

particularmente importante, enfatizando que a atividade científica gira em

torno de dados, de descobrir meios para gerar medições objetivas do que acontece no mundo que nos cerca, em nossa tentativa de entendê-lo. É um

sistema (guarde esta palavra) que deveria nos afastar da confusão de

anedotário múltiplo e em geral contraditório de pessoas com preconceitos,

ideias preconcebidas ou pautas pessoais ou políticas.

O escritor e cientista Isaac Asimov apareceu com uma definição mais

acessível: “A ciência não fornece a verdade absoluta, a ciência é um

mecanismo. É um meio de tentar melhorar seu conhecimento da natureza, é

um sistema para testar seus pensamentos em contraposição com o universo

e ver se os dois combinam.”[6] Em geral, a ciência é vista como um meio

sistemático de fazer perguntas, de gerar e testar teorias. Ela pode explicar o

status quo (O que provoca as marés? Por que o céu é azul?) ou pode falar

de descobertas (da gravidade, radioatividade, da dupla hélice do DNA).

Pode ser vista como uma força benéfica (antibióticos, tratamentos do

câncer), mas também como uma potencial força prejudicial, mexendo com

a natureza (safras geneticamente modificadas, pesticidas, clonagem) ou

criando meios para a destruição catastrófica (armas nucleares, guerras

químicas).[7]

A ideia de que o conhecimento científico é de certo modo diferente do

conhecimento geral, no sentido de ser adquirido pela aplicação de conjuntos

de regras e princípios, remonta a Aristóteles. O que agora conhecemos

como ciência moderna tem seus primórdios no século XVII, mas mesmo

antes sempre houve atividades reconhecivelmente científicas em

instituições como mosteiros e universidades. Muitas destas instituições

eram exclusivamente para homens e era raro que as mulheres recebessem

alguma instrução formal. Assim, embora a ciência em si costume ser

personificada como uma mulher, é uma atividade que envolve quase

exclusivamente homens.[8]

Historicamente, o envolvimento de mulheres na ciência apareceu e

desapareceu em paralelo com a mudança em suas sinas, de sua

manifestação inicial como uma forma de passatempo da moda para seu

estabelecimento como uma profissão muito respeitada, amplamente

reconhecida, bem elitista (e, em geral, extremamente lucrativa). A ciência

começou a deixar de ser uma busca não regulada pelo conhecimento, acessível a qualquer um que tivesse os meios e a instrução para se dedicar a

ela, e passou a ser uma profissão institucionalizada, exercida em sociedades

exclusivas das quais as mulheres são explicitamente excluídas. A Royal

Society foi fundada em 1660 como uma sociedade erudita para “filósofos

naturais” e médicos, mas a primeira petição para ingresso de mulheres só

aconteceu em 1901, com as primeiras integrantes sendo eleitas apenas em

1945.* [9]

Mas quando as mulheres começaram a ganhar acesso à educação ou

tiveram os meios para buscar seus próprios interesses acadêmicos, quase

sempre as encontramos como especialistas em áreas científicas. A

astronomia era uma predileta e um livro unicamente sobre o tema de

mulheres astrônomas foi publicado em 1786.[10] Mas ainda havia um sopro

de sexismo; áreas como geologia e astronomia eram vistas como “mais

seguras” para as mulheres porque letras e história podiam incentivar a

militância política. No geral, porém, o envolvimento de mulheres na

ciência, a essa altura, não era considerado incomum nem problemático.**

Como vimos algumas vezes neste livro, a ascensão dos movimentos

“essencialistas” no século XIX julgou que homens e mulheres tinham

diferentes características de base biológica, que as das mulheres eram mais

certamente inferiores às dos homens e isto as tornava incapazes de altos

níveis de pensamento científico. Assim, uma mulher que mostrasse

qualquer interesse e capacidade, por exemplo, por astronomia ou

matemática, agora mais provavelmente seria descrita como um gorila de

duas cabeças em vez de elogiada por sua “inteligência animada e gênio

penetrante”.[11]

As mulheres foram apanhadas em um movimento duplo e convergente.

Agora não só se considerava que seus corpos de modo geral, e os cérebros

em particular, eram inadequados para qualquer forma de exercício mental

desgastante, mas elas eram deliberadamente excluídas daquelas instituições

em que se formava a profissão recém-surgida do cientista.

Além da proibição física de mulheres nestas instituições científicas,

outro meio de excluí-las da ciência é gerar visões de mundo de suas

características determinantes e das exigências para sua prática bem-sucedida, que por acaso eram incompatíveis com as capacidades, aptidões e

preferências das mulheres. Uma versão disto aparece no argumento de que

as mulheres são sub-representadas em áreas da ciência porque seus

interesses não estão ali. Elas são mais interessadas em pessoas do que em

coisas, portanto, não escolhem áreas STEM, que supostamente recaem na

categoria de “coisas”.[12]

Se você se recorda, vimos como é medida esta variável Pessoas X Coisas

no Capítulo 3. Embora claramente seja uma métrica falha, ainda é um mito

popular na arena mulheres-e-ciência e está no cerne de muitos argumentos

sobre as causas (e curas) para os hiatos de gênero em áreas STEM. Como

veremos, quando isso está ligado a um argumento biológico, de que o

desinteresse das mulheres por ocupações do tipo Coisas tem relação com a

organização cerebral associada com hormônios pré-natais, pode levar a

sugestões na linha de deixar que a natureza siga seu curso e cessar as

tentativas de abordar os hiatos de gênero.

Isso também nos leva de volta ao conceito de Simon Baron-Cohen de

sistematização e empatização. Em vista da definição de sistematização, não

será surpresa nenhuma ver o quanto ela é mapeável nas medidas das

características da ciência (em particular em áreas como a engenharia, a

física, a ciência da computação e a matemática) e nos perfis de

personalidade de cientistas. A dimensão Coisas X Pessoas não foi

inicialmente elaborada para aplicação à ciência em geral, ou a áreas STEM

em particular. Da mesma forma, a dimensão E-S (para colocar em termos

simplistas) não trata de Ciência X Artes. Porém, o exame atento do

comportamento sistematizador nas características da ciência “dura” (não

surpreende, em vista de seus critérios definidores) gerou esta ligação.

A pesquisa do laboratório de Baron-Cohen descobriu que um estilo

“sistematizador” era um previsor significativamente eficaz para um

estudante de ciências físicas, mas que o sexo/gênero não era assim.[13] Isto é

um tanto surpreendente, em vista da ligação explícita entre o sexo e o E-S

feita por Baron-Cohen. Talvez os autores do artigo também tenham ficado

meio surpresos, porque seu resumo das descobertas sugeria que o

sexo/gênero era, de fato, uma variável relevante: “Portanto, os indivíduos com baixas pontuações em sistematização (predominantemente mulheres)

podem ter uma probabilidade menor de se dedicar a disciplinas acadêmicas

científicas, presumivelmente um resultado das dificuldades para lidar com

os domínios em que a sistematização é necessária.”[14] Assim, ainda temos

esta questão de uma mensagem persistente que faz mais para sustentar um

estereótipo do que refletir uma realidade bem mais sutil.

Outro aspecto da dimensão empatizador-sistematizador e seu papel em

explicações essencialistas de hiatos de gênero na ciência é que ela delineou

firmemente diferentes tipos cerebrais. Quem tem habilidades empatizadoras

mais fortes que as sistematizadoras pertence ao tipo E; quem tem

habilidades sistematizadoras mais fortes que as empatizadoras são do tipo

S; e as pessoas com uma igual distribuição de ambas são “equilibradas”, ou

do tipo “B”, de “balanced”.[15] Baron-Cohen pregou suas cores ao mastro

sexo/gênero no início de seu livro: “O cérebro feminino é

predominantemente programado para a empatia. O cérebro masculino é

predominantemente programado para compreender e construir

sistemas.”[16] Isto nos mostra um caminho claro para um estereótipo do

cérebro e, além de tudo, um caminho generificado.

Quando vemos as ligações feitas entre cérebros masculinos,

sistematização e ciência, com a afirmação adicional de que as

características biológicas são fixas, é fácil entender como pode surgir um

estereótipo sem fundamento da ligação natural, até essencial, entre sexo e

ciência. Devemos reconhecer a ressalva a mais de que não precisamos ser

mulher/homem para ter um cérebro feminino/masculino, mas nossos

sistemas de orientação questionadores e catadores de regras talvez não se

detenham por muito tempo nas sutilezas semânticas de que um “cérebro

masculino” não significa “o cérebro de um homem”. Mensagens

persistentes sobre diferenças sexuais/de gênero, em particular quando se

conformam a estereótipos preexistentes, em geral ressoam mais alto e mais

claro do que as qualificações mais sutis.

Ciência é brilhantismo

 

Outro aspecto deste estereótipo arraigado da ciência está na crença de que

um “talento bruto e inato” é necessário para se destacar em qualquer

disciplina científica. Isso foi perfeitamente compreendido por Sarah-Jane

Leslie, da Universidade Princeton, em um estudo que media uma “crença na

capacidade” em um levantamento de mais de 1.800 acadêmicos, cobrindo

trinta disciplinas.[17] Solicitaram aos participantes para classificar sua

concordância com declarações como “Ter uma erudição de peso em

[disciplina x] requer uma aptidão especial que não pode ser ensinada”

(medindo uma crença em alguma forma de capacidade inata), ou “Com o

nível certo de esforço e dedicação, qualquer pessoa pode adquirir uma

erudição de peso em [disciplina x]” (medindo uma crença de que o trabalho

árduo pode trazer o sucesso). As pontuações resultantes na crença na

capacidade nos diferentes campos acadêmicos foram depois comparadas

com a porcentagem de estudantes de doutorado mulheres em cada

disciplina (como uma medida prática de um hiato de gênero). Talvez você

não se surpreenda ao ler que, quanto maior a crença na necessidade de

talento inato em uma disciplina, menos mulheres faziam doutorado naquela

área.

Leslie e sua equipe também deixaram escapar uma declaração para

identificar elementos sexistas: “Embora não seja politicamente correto dizer

isso, em geral os homens são mais adequados do que as mulheres para fazer

trabalho de alto nível na [disciplina x].” Era mais provável que integrantes

destas disciplinas (que eram homens e mulheres), que endossaram a ideia

de que o sucesso se baseia em algum talento bruto e inato, concordassem

com uma declaração dessas. Em áreas científicas, as disciplinas com a mais

alta pontuação de crença na capacidade específica para o campo foram

engenharia, ciência da computação, física e matemática, em outras palavras,

a essência das áreas STEM, aquelas mesmas áreas em que existe tanta coisa

escrita sobre a sub-representação das mulheres. Assim, temos um endosso

ao status quo (não ao trabalho das mulheres) e, por inferência, uma

explicação baseada na biologia.

Leslie caracterizou esta capacidade bruta e inata ligando-a a uma

concepção de “o Feixe” nos círculos da pesquisa científica.[18] Este é um

dom especial apenas de algumas pessoas que parecem trazer um feixe

invisível do talento, como um laser, e que podem lançá-lo nos problemas

com que outros pelejaram por longos períodos de tempo, e quase

instantaneamente chegar a uma solução. Ela exemplificou isto comparando

o “gênio feroz” de Fox Mulder de Arquivo X com Dana Scully, obediente às

regras e árdua trabalhadora. Uma boa desculpa para ver televisão seria

encontrar paralelos nas muitas séries policiais ou periciais como CSI ou

Criminal Minds, observando também os respectivos gêneros dos pés-de-boi

e dos gênios ferozes.

Relacionada com isso está a metáfora popular na ciência do momento

“eureca” ou da lâmpada acesa, quando alegam que uma solução apareceu

em um lampejo de inspiração.[19] Embora dois exemplos conhecidos disto

(a história da banheira de Arquimedes e o incidente da queda da maçã de

Newton) provavelmente sejam apócrifos, existem histórias semelhantes

mais confiáveis, inclusive a descoberta da penicilina por Fleming

(identificando que o mofo que contaminava seus ensaios antibióticos tinha

ele mesmo funcionado como antibiótico) e a descoberta do conceito de

coordenadas cartesianas por Descartes (identificando a posição de uma

mosca andando por um teto, tendo como referência sua distância de duas

das paredes).

Como uma descoberta atribuída a um lampejo de inspiração ou um

momento de eureca afeta avaliações da qualidade desta descoberta? Será

que isto também contribui para a percepção de quem inventou como genial,

em vez de um obstinado pé-de-boi? Essas ideias foram testadas em uma

série de estudos por Kristen Elmore e Myra Luna-Lucero, que examinaram

a “inspiração” em contraposição com a metáfora do “esforço” em

avaliações do trabalho de Alan Turing com computadores.[20] Um grupo de

participantes leu uma passagem que descrevia o trabalho de Turing em

termos de eureca – “uma ideia que lhe ocorreu como uma lâmpada que se

acendia” –, enquanto outro grupo leu sobre uma ideia que “criou raiz”,

como “uma semente em crescimento que finalmente dera frutos”. Quando solicitados a classificar a excepcionalidade do trabalho de Turing, o grupo

da lâmpada o classificou muito mais favoravelmente do que o da semente.

Um segundo estudo introduziu uma dimensão de gênero. A invenção

neste caso era no campo da tecnologia da comunicação sem fio e contava a

história de Hedy Lamarr, mais conhecida como uma estrela de cinema de

Hollywood (Sansão e Dalila), mas também uma consumada inventora. Ela

e o compositor George Antheil conceberam uma técnica de “saltos de

frequência”, manipulando frequências de rádio para impedir que mensagens

secretas fossem lidas quando interceptadas (a base das técnicas atuais de

criptografia para dispositivos móveis). Esta história foi brevemente

apresentada nos termos lâmpada acesa de “uma ideia brilhante para um

sinal que saltaria por múltiplas frequências”, ou, em termos mais laboriosos,

de “a semente de uma ideia para um sinal que saltaria por múltiplas

frequências”. A primeira versão foi ilustrada com uma imagem, mostrando

ou Lamarr ou Antheil, e uma lâmpada acesa; a segunda versão tinha a

mesma escolha de quem inventou, desta vez com a foto de uma pequena

semente brotando. Os participantes de cada grupo foram solicitados a

classificar o gênio e a excepcionalidade de quem inventou e sua ideia.

O que aconteceu foi que as classificações dependiam de os leitores

verem uma mulher ou um homem. A metáfora da semente aumentou

significativamente a avaliação de Hedy Lamarr como um gênio, enquanto

diminuiu significativamente aquela de seu parceiro homem. Por outro lado,

a metáfora da lâmpada não impressionou os leitores de Lamarr, mas

aumentou as classificações de gênio de Antheil. Os pesquisadores sugerem

que isso reflete a congruência entre as expectativas de como os homens

podem ter sucesso, fazendo uso daquele “algo” inato e extra que conjura

uma solução do nada, comparados com a estrada para o sucesso das

mulheres, que muito provavelmente envolve esforço obstinado e trabalho

árduo.

O principal aspecto aqui é a visão de “esforço” nas grandes ideias.

Falando de modo geral, parece que as pessoas acreditam que o trabalho dos

gênios é associado com mais inspiração do que esforço, mas isto se cruza

com a questão de o gênio ser homem ou mulher. Para ser saudada como genial, a ideia de um homem precisa parecer fácil, alcançada em um

momento de inspiração. Qualquer sugestão de que houve trabalho árduo ou

esforço desvaloriza esta realização. Para as mulheres, a expectativa é de que

suas realizações sejam quase invariavelmente associadas com treinamento e

persistência, e elas merecem um alegre tapinha nas costas quando isso gera

frutos. Aqui, qualquer sugestão de um momento lâmpada acesa pode ser

desprezada e considerada um fogo de palha, um golpe de sorte.

O que tudo isso significa para as mulheres na ciência? Se há uma visão

de mundo de que a estrada para o topo é ladeada de momentos de

inspiração e nisto, a propósito, a probabilidade de as mulheres terem essa

“coisa” associada com esses momentos é significativamente menor, quanta

confiança isto pode instilar nas mulheres de que elas podem ter tanto

sucesso na ciência quanto os homens? Da mesma forma, se trabalho e

determinação (aqueles adjetivos “esforçados” que, como veremos adiante,

são muito mais possíveis de serem encontrados em cartas de recomendação

para mulheres) são considerados virtudes secundárias na geração de ideias

de sucesso, então, como uma mulher, você pode se perguntar o que poderia

ter a oferecer a esta instituição em particular.

A equipe de Sarah-Jane Leslie também examinou isso, manipulando

“mensagens de brilhantismo” por meio de anúncios hipotéticos de estágio e

medindo seu efeito no interesse das mulheres pelas postagens, sua avaliação

do quanto elas pensavam poder ficar ansiosas ao postar e se elas pensavam

ou não que podiam se encaixar no contexto do cargo.[21] As descrições da

função enfatizavam ou o brilhantismo (“estouro intelectual”, “mente

aguçada e penetrante”) ou dedicação (“grande foco e determinação”,

“alguém que nunca desiste”). Uma descoberta fundamental foi que as

mensagens sobre brilhantismo tiveram efeitos negativos nas mulheres, mas

não nos homens. As mulheres mostraram menos interesse pelo estágio

“brilhante” do que por aquele “dedicado”, e relataram que o primeiro tipo

de estágio as deixaria mais ansiosas. O interesse ou os níveis de ansiedade

dos homens não diferiu entre os dois. Manipulações relacionadas

demonstraram como as mulheres davam alta classificação à sua necessidade

de um sentimento de integração e de ser como os outros, e que suas preocupações com possíveis inadequações aumentavam porque elas se

comparavam desfavoravelmente com os outros. Assim, as próprias

mulheres, consciente ou inconscientemente, engoliam a ideia de que

existem determinados empregos, profissões, carreiras em que é necessário

algum brilhantismo inato e que, como mulheres, era improvável que elas

tivessem esse dom.

 

Nascida para fazer ciência?

 

Outro problema nas histórias de estereótipos de sexo e ciência que

acompanhamos aqui é que podemos ver efeitos assim desde muito cedo e

identificar as consequências sobre os caminhos desviados de nossos

cérebros viajantes. Podemos encontrar diferenças sexuais nas percepções e

expectativas que os professores têm das atitudes e capacidades de seus

pequenos alunos e, infelizmente, nas percepções e expectativas que esses

aluninhos têm de si mesmos.

Vimos que crianças muito novas mostram evidências de habilidades

científicas muito sofisticadas, como a consciência de números e

quantidades e as leis do movimento, sem nenhuma evidência sólida de

diferenças sexuais nas capacidades para matemática e ciência exibida por

bebês. Porém, como disse no Capítulo 8, descobertas recentes sugerem que

existe alguma evidência de diferenças sexuais precoces (e muito pequenas)

em uma habilidade específica relacionada com a ciência, a rotação mental.

[22] A rotação mental é vista como uma habilidade fundamental para o

sucesso em um leque de atividades baseadas na ciência, como a arquitetura,

a engenharia e o design, e, assim, qualquer vantagem aqui pode lhe dar um

ganho útil.[23]

Também exploramos a evidência de algumas diferenças sexuais na

escolha de brinquedos entre bebês na idade de engatinhar (embora sejam

caracteristicamente pequenas e sobrepostas), com os meninos desde cedo

dirigidos a objetos que podem melhorar a cognição espacial, como brinquedos de montar, ou que podem indicar interesses do tipo

sistematizador, como quebra-cabeças e brinquedos mecânicos. Embora

existam, naturalmente, debates constantes sobre de onde vêm estes

comportamentos, citando os fatores biológico e a socialização, qualquer que

seja a causa, o resultado é que existem maiores “oportunidades de

treinamento” relacionadas à ciência para meninos nos primeiros anos.

É possível, então, com relação a uma vantagem maior em uma

habilidade espacial específica e um nível mais alto de experiência espacial,

que os meninos venham a ter uma pequena dianteira no mundo da ciência.

Porém, um olhar atento na ampla gama de estatística disponível mostra que

os hiatos de gênero não existem no nível do jardim de infância, eles só

começam a aparecer entre os seis e sete anos e depois disso aumentam.[24]

Como veremos, está claro que isto não se deve inteiramente ao surgimento

de alguma habilidade inerente, mas está associado com potentes forças

externas movidas por visões estereotipadas sobre quem pode fazer ciência

(e quem não pode). E isto pode não vir apenas daqueles responsáveis por

alimentar o aparecimento de quaisquer talentos que existam, mas também

de quem possui esses talentos.

Você pode pensar que só depois de anos de exposição a estereótipos

negativos sobre as capacidades intelectuais das mulheres é que seu cérebro

preditivo, sempre prestativo, pode captar a ideia de que, no todo, as

mulheres não fazem ciência. Ou a ideia de que aquelas que fazem não vão

muito longe e, de todo modo, você ficará muito sozinha e isolada caso se

meta em situações científicas. Infelizmente, porém, versões incipientes de

crenças assim parecem ser estabelecidas muito cedo na vida. Em outro

estudo do grupo de Leslie, examinaram os estereótipos de gênero sobre

capacidades intelectuais em crianças entre cinco e sete anos de idade.[25]

Usando narração de histórias e técnicas de correspondência de imagens,

descobriram que as crianças, aos cinco anos, tendiam a dar classificações

mais positivas de “muito inteligente mesmo” a modelos do mesmo gênero

delas (uma pontuação de “brilhantismo do próprio gênero”), mas, aos sete

anos, as meninas tinham uma probabilidade significativamente menor de

equiparar brilhantismo com as mulheres, mesmo que elas estivessem representadas. Será que essas crenças afetam o comportamento das

crianças? Separadamente, crianças mais velhas, de seis a sete anos, foram

apresentadas a dois videogames desconhecidos. Depois de receberem as

regras, elas também souberam que os jogos ou eram para crianças “muito

inteligentes de verdade”, ou para crianças que “se esforçavam muito, de

verdade”. Depois, foram indagadas se gostaram do jogo e se estariam

interessadas em jogar. As meninas mostraram um interesse

significativamente menor do que os meninos pelo game que foi apresentado

para crianças inteligentes e isto teve relação com sua pontuação no

brilhantismo do próprio gênero. Quanto menos acreditassem que as

meninas em geral podem ser inteligentes, menos provável que elas próprias

expressassem interesse em fazer algo que era para pessoas “inteligentes”.

Se o precedente estabelecido é de que seu esquema de gênero feminino

firmemente fixo não inclui uma marcação de “muito inteligente de

verdade”, então, para evitar erros de previsão desagradáveis, você precisa se

afastar de qualquer coisa que seja rotulada só para pessoas “muito

inteligentes de verdade”.

Em geral, a matemática é incluída como uma dessas coisas que são para

pessoas “muito inteligentes de verdade”, e não é rotulada “para meninas”

em nosso cérebro. O estereótipo de que a matemática é domínio masculino

foi bem demonstrado em adultos, no nível explícito, mas também em uma

crença implícita.[26] Se, por exemplo, em um teste de associação pareada, a

palavra “matemática” é exibida mais rapidamente com a palavra “homem”,

considerou-se isto uma medida de uma ligação mental mais forte entre esses

termos do que (digamos) uma combinação como “linguagem” e “homem”.

Deste modo, mesmo que um participante negue explicitamente quaisquer

crenças estereotipadas, é possível demonstrar que estas crenças existem,

ainda que seus donos não tenham consciência delas.

A psicóloga Melanie Steffens e colaboradores usaram esta abordagem

com crianças de nove anos.[27] A presença de estereótipos gerais de gênero

sobre meninos e meninas já havia sido demonstrada em crianças de seis a

oito anos e o objetivo do estudo era ver se havia evidências de estereótipos

generificados sobre temas mais específicos, como matemática ou ciência. Eles também coletaram dados sobre o desempenho das crianças em

matemática e ciências e, além disso, perguntaram às crianças se elas

achavam ou não que podiam continuar com a matemática em um nível mais

alto. Os resultados mostraram que as meninas tinham associações

matemática-homens muito mais fortes, associações muito mais baixas de si

mesmas com a matemática ou palavras como matemática, e intenções muito

mais fortes de largá-la. Será que isto refletia apenas o fato de que elas

precisavam se esforçar com a matemática? Não – na verdade, não havia

nenhuma diferença sexual nas notas alcançadas pelas crianças. Assim,

infelizmente, meninas de nove anos acham que a matemática não serve para

elas e que provavelmente desistirão da área, embora estejam se saindo bem,

como suas contrapartes masculinas.

É interessante observar que os meninos não mostraram nenhuma

estereotipia de gênero com a matemática e, assim, aparentemente não

fizeram a ligação feita pelas meninas. Bem semelhante à sugestão que

vimos ao examinarmos a preferência por brinquedos e o poder do rosa, este

pode ser outro exemplo de as meninas serem mais conscientes das “regras”

sociais, neste caso um estereótipo sobre quem faz matemática.

Outro fator que alimenta isto pode ser as atitudes dos pais, que

mostraram acreditar que a matemática é mais importante para seus filhos

homens do que para as filhas, e mais provavelmente estimularão mais os

meninos que as meninas a fazer cursos de ciência de nível mais avançado.

[28] E, como vimos no Capítulo 9, o exame da consciência que crianças

muito novas têm da provável aprovação dos pais quanto aos brinquedos

escolhidos mostra que estão sintonizadas com o que se espera delas (ou

não), apesar do que estes mesmos pais alegarão.[29] Assim, aberta ou

disfarçadamente, quem porta um cérebro viajante receberá diferentes rotas

recomendadas para o Destino Ciência.

É evidente que os professores têm seu papel na aquisição de

conhecimento científico pelas crianças, mas parece que também possuem

uma forte influência sobre quem pode se considerar potencialmente bem-

sucedido na ciência. Um estudo longitudinal recentemente divulgado sobre

crianças em Israel examinou os efeitos de um “viés dos professores” muito precoce, calculado como a diferença entre notas atribuídas sem o

conhecimento dos professores em um exame de matrícula externo e aqueles

dados em uma versão interna de notas atribuídas por eles ao mesmo tipo de

prova.[30]

A principal descoberta aqui é o efeito deste viés dos professores na

avaliação do desempenho em matemática. Na primeira fase do teste, as

meninas superaram os meninos no exame externo. Com relação aos

professores, houve uma clara evidência de um viés sistemático em favor

dos meninos, com professores avaliando para mais a capacidade dos

meninos e para menos a das meninas. Estas crianças foram acompanhadas

dois e quatro anos depois. Havia claras diferenças sexo/gênero nas notas do

ensino médio, em resultados de matrícula e, mais acentuadamente, em

quem escolheu fazer os cursos optativos de nível avançado. Em

matemática, era de 21,1% dos meninos, comparados com 14,1% das

meninas; em física, era de 21,6% dos meninos e 8,1% das meninas; em

ciência da computação, era de 13,0% dos meninos e 4,5% das meninas.

Os pesquisadores então modelaram estes dados com uma ampla gama de

outras informações para ver o que estas diferenças estariam provando.

Poderia ser o tamanho da turma, se era ou não de capacidade mista?

Poderiam ser as qualificações dos professores? Poderia ser o nível de

escolaridade dos pais? Poderia ter alguma relação com quantos irmãos

tinham as crianças? Nada disso afetou as medidas resultantes tão

profundamente quanto a pontuação do viés inicial dos professores (e

precisamos ter em mente que as meninas se saíram melhor que os meninos

no início desta jornada educacional). Está claro que expectativas

generificadas, mesmo que infundadas, mostraram-se uma força motriz

poderosa sobre quem chega ao ponto final de “cientista”, com

consequências futuras para empregos e ganhos de nível mais alto e,

naturalmente, a impressão geral (e o estereótipo) de quem pode fazer

ciência.

Com relação à ciência, então, parece que existem poderosas forças

canalizadoras que podem afastar jovens mulheres bem cedo para um

caminho que se desviará das ciências, em particular da matemática. Se você e seus professores acham que não podem, então há uma forte probabilidade

de que não consigam.

 

O frio ambiente da ciência

 

Outro fator pode ser que a ciência não proporcione um ambiente muito

acolhedor para as mulheres. Mesmo que tenhamos passado por gatekeeping

deliberado, a mensagem dominadora é de que a ciência, por sua própria

natureza – exigindo brilhantismo bruto e inato e lampejos de mero talento

por um lado, mas impondo uma abordagem sistemática e presa a regras por

outro, com o objeto sendo coisas em vez de pessoas –, não é lugar para uma

mulher.

Se você é um ser social, tenta corresponder ao grupo ao qual aprendeu a

pertencer; escolhe um ambiente em que vá encontrar integrantes de

mentalidade semelhante deste grupo; combina seu conjunto de habilidades a

um ambiente, na esperança de que vá se encaixar nele. Quando se depara

com um “ambiente frio”, em que as pessoas acham que aquele não é o seu

lugar e você tem a impressão de que não existem muitas “pessoas como

você”, então é perfeitamente compreensível que você, de modo geral,

mantenha distância. Se você é a única garota em um dia de visitação de

matemática ou física em uma universidade, talvez possa repensar suas

opções de universidades (ou pode, naturalmente, ficar emocionada com as

outras oportunidades que isto proporciona).

Parece que as mulheres observam mais o ambiente em que podem estar

trabalhando. A psicóloga americana Sapna Cheryan e colaboradores

testaram os resultados de recrutamento mostrando a possíveis candidatos a

ciência da computação ou uma sala de aula “típica” de ciência da

computação – cheia de pôsteres de Jornada nas Estrelas, livros de ficção

científica e “latas de refrigerantes empilhadas” (presumivelmente muito

bem empilhadas) –, ou uma sala de aula neutra com pôsteres da natureza e

garrafas de água.[31] Era muito mais provável que as mulheres expressassem interesse por ciência da computação se tivessem estado na

sala neutra. Estes pesquisadores também manipularam o conteúdo de aulas

introdutórias virtuais de ciência da computação, uma cheia de objetos

estereotipados associados com computadores e outra sem eles. Somente

18% das mulheres escolheram a primeira sala de aula, se comparadas com

mais de 60% dos homens. Outros estudos mostraram que o recrutamento

feminino para escolas de ciência de verão pode ser afetado pela

manipulação da proporção homens/mulheres em vídeos de amostra, com as

meninas menos inclinadas a se matricular se a maioria dos alunos exibidos

era de homens, enquanto os estudantes homens não pareciam se importar

com nada.[32] Estes dados apoiam o conceito de que as mulheres são mais

sensíveis ao contexto social das escolhas que podem fazer, os sinais de que

seja algum lugar a que elas possam “pertencer” (ou não).

Isto nos leva ao Paradoxo da Igualdade de Gênero, que vira uma espécie

de assunto polêmico hoje em dia. Um artigo publicado em 2018 investigou

as matrículas em áreas STEM entre 2012 e 2015 em 67 países usando um

banco de dados internacional.[33] O estudo revelou que havia,

universalmente, menos mulheres do que homens obtendo diplomas STEM,

indo de 12,4% em Macau a 40,7% na Argélia (com o Reino Unido e os

EUA em 29,4% e 24,6%, respectivamente). Estas descobertas foram então

relacionadas com uma medida da igualdade de gênero, o índice global de

Hiato de Gênero do Fórum Econômico Mundial, baseado em desigualdades

de gênero em áreas como salários, saúde, assentos em parlamentos,

independência financeira e assim por diante. Foi aí que surgiu o aparente

paradoxo: naqueles países com a maior igualdade de gênero, o hiato de

gênero nas matrículas para STEM era o mais elevado. A Finlândia (em que

20,0% dos estudantes de pós-graduação STEM são mulheres), a Noruega

(20,3%) e a Suécia (23,4%) foram os exemplos máximos deste enigma.

Medições do desempenho acadêmico em ciências e matemática

revelaram diferenças ínfimas entre sexo/gênero (com um tamanho do efeito

médio geral de -0,1). Para as ciências, a maior diferença estava na Jordânia,

com as mulheres superando os meninos (um tamanho do efeito de -0,46); e

para a matemática, os meninos na Áustria mostraram a maior diferença (um tamanho do efeito de +0,28); mas na maioria esmagadora dos países

avaliados havia muito pouca diferença entre meninos e meninas. Assim, a

ausência de mulheres na instrução STEM superior não vem da falta de

capacidade. Os dados para leitura mostraram uma história diferente: em

todos os países medidos, as meninas se saíram melhor. Neste caso, alguns

tamanhos do efeito eram bem grandes (-0,76 para a Jordânia, -0,61 para a

Albânia) e em todos os casos as diferenças de sexo/gênero eram maiores do

que aquelas para ciências e matemática.

Os autores do artigo concentraram-se na disponibilidade de uma força

acadêmica diferente como resposta potencial para o Paradoxo da Igualdade

de Gênero. Eles geraram um índice de “melhor matéria” para todos os

participantes, classificando pontuações de desempenho em ciências,

matemática ou leitura para identificar a área mais forte de cada participante.

Aqui, houve diferenças de sexo/gênero acentuadas, com 51% das meninas

tendo a leitura como sua matéria mais forte em comparação com 20% dos

meninos; a ciência era a matéria mais forte para 38% dos meninos e para

24% das meninas. Assim, embora as meninas fossem tão boas quanto os

meninos em ciência, elas eram acentuadamente melhores no que pode ser

visto como uma habilidade mais baseada em humanas.

O elo seguinte na corrente deste argumento foi de que, em países menos

desenvolvidos, fatores como a necessidade econômica e o reconhecimento

de que uma educação STEM podia ser de melhor valor em termos de

emprego e ganhos futuros teriam prioridade na carreira escolhida por

meninas e meninos. No entanto, em países com maior igualdade de gêneros,

as meninas tinham a liberdade de escolher as áreas que consideravam mais

adequadas, isto é, aquelas em que elas eram boas. A satisfação geral na vida

podia receber prioridade em detrimento da necessidade econômica. A

cobertura da imprensa sobre o artigo propôs “pintura e escrita” como as

opções que poderiam ser escolhidas. Será que detecto aqui o cheiro da velha

“armadilha da complementaridade”?

Uma espécie de nota de rodapé não examinada é que também havia

dados sobre medidas de autoconfiança em capacidade para a ciência e de

prazer com a ciência. Talvez você não se surpreenda com o fato de que, no geral, os meninos tivessem níveis mais altos de confiança em sua

capacidade científica; talvez fiquem mais surpresos que isto seja

particularmente verdadeiro em países com maior igualdade de gênero – os

mesmos países em que as meninas não escolhiam fazer ciência. Que grau de

precisão tinham essas avaliações que os meninos fizeram de sua

capacidade? Comparando essas avaliações com suas pontuações de

desempenho, surgiu o fato de que em 34% dos 67 países cobertos havia

provas de que os meninos superestimavam sua capacidade científica,

enquanto só havia evidência desta tendência nas meninas em cinco destes

países. E, mais uma vez, foi naqueles de maior igualdade entre os gêneros

que se manifestou esta confiança excessiva dos meninos.

Imagine o seguinte. Você tem a opção de seguir em uma área de

conhecimento na qual sua autoconfiança foi solapada desde a mais tenra

idade, em que a mensagem estereotipada (e a realidade) é de que “aquilo”

não é para os integrantes de seu endogrupo devido à ausência das

habilidades “essenciais” exigidas (mesmo que sua pontuação de

desempenho sugira o contrário). Você é sensibilizada a mensagens sobre o

“ambiente frio” que pode estar à espera. Qual seria a sua decisão? Aqueles

que culpam as meninas por não quererem fazer ciência talvez estejam

pensando só na ciência.

 

“Sexagem” dos cientistas

 

Mas e quanto às pessoas na ciência, os próprios cientistas? Mesmo que a

cultura pareça muito alienante e exclusivista, se você tem o conjunto certo

de habilidades, personalidade e temperamento a oferecer, então certamente

haverá um nicho, não é? A ciência atualmente deve ser uma instituição

instruída, bem fundamentada e esclarecida, que tem visão clara das

mulheres como cientistas, não generificadas, não é verdade?

Mas é claro que outro aspecto da estereotipia da ciência é a estereotipia

dos cientistas. Talvez você se surpreenda ao saber que o termo “cientista”, supostamente, foi cunhado para descrever uma mulher, a polímata escocesa

Mary Sommerville.[34] Expoentes desta disciplina que antes tinham descrito

a si mesmos como “homens de ciência” perceberam que teriam de encontrar

um termo diferente para se referir às mulheres, depois que se depararam

com o fenômeno surpreendente de que uma mulher também podia produzir

artigos científicos.

Esta invenção inicial não parece ter tido impacto nas impressões atuais

sobre o quê e quem são cientistas. Em 1957, pesquisadores estavam

interessados em medir sistematicamente a imagem de cientistas em meio a

estudantes secundaristas nos Estados Unidos.[35] Colheram mais de 35 mil

ensaios sobre ciência e cientistas, escritos em resposta a algumas perguntas

indefinidas (com as próprias perguntas dando um insight impressionante

dos pensamentos generificados sobre as opções profissionais da época). Os

objetivos declarados do estudo incluíam o que se segue (com grifos meus,

como você pode deduzir):

 

1) Quando estudantes secundaristas americanos são solicitados a discutir

cientistas de modo geral, sem referências específicas a suas próprias

opções de carreira ou, entre as meninas, às opções de carreira de seus

futuros maridos, o que lhes vêm à mente e como as ideias dos

estudantes são expressas em imagens?

2) Quando estudantes secundaristas americanos são solicitados a pensar

em si mesmos tornando-se cientistas (meninos e meninas) ou casada

com um cientista (meninas), o que vêm à mente dos estudantes e

como suas ideias são expressas em imagens?

 

Os estudantes foram requisitados a completar declarações que incluíam

“Quando penso em cientista, penso em...” e “Se eu fosse cientista, gostaria

de ser do tipo que...”. Alarmantemente, havia uma versão separada desta

questão para “as participantes” do estudo: “Se eu me casasse com um

cientista, gostaria de me casar com um cientista que...”

Então, que imagem combinada foi gerada destes milhares de ensaios? Os

pesquisadores montaram a seguinte caracterização das respostas:

O cientista é um homem que usa jaleco branco e trabalha em um laboratório. Ele é

idoso ou de meia-idade e usa óculos [...]. Ele pode ser barbudo, pode deixar a barba por

fazer e ser desmazelado [...]. Ele fica cercado de equipamento: tubos de ensaio, bicos de

Bunsen, frascos e garrafas, um parquinho de tubos de vidro borbulhantes e máquinas

estranhas com mostradores. Passa os dias fazendo experiências [...]. É um homem

muito inteligente – um gênio ou quase um gênio [...]. Um dia ele pode se levantar e

gritar: Descobri, descobri! [36]

 

Mas é claro que era o ano de 1957 e as coisas avançaram desde aqueles

primeiros tempos, em termos das perguntas feitas e das respostas dadas...

não avançaram?

Um jeito de identificar a resposta a esta pergunta envolve examinar um

teste muito simples que envolve desenhos. Talvez você sinta que isso não

conta como informação, mas eles se mostraram surpreendentemente úteis

para se ter acesso a modelos mentais pessoais, revelar crenças pessoais e

são, além de tudo, um jeito prático de fazer esta medição em crianças,

permitindo insights sobre como podem se desenvolver as visões

estereotipadas precoces sobre cientistas.

Este foi o objetivo do psicólogo David Chambers nos anos 1980 quando

elaborou o “Teste Desenhe-uma-pessoa-cientista”.[37] Pediram a crianças

que “desenhassem uma imagem de cientista”, e esses desenhos foram

depois analisados para ver até que ponto continham o que era definido

como imagens padrão de cientistas. Estas características padrão eram:

jaleco de laboratório (em geral, mas não necessariamente brancos); óculos;

pelos faciais (inclusive barbas, bigodes ou costeletas anormalmente

compridas); símbolos de pesquisa (instrumentos científicos e qualquer

equipamento de laboratório); símbolos de conhecimento (principalmente

livros e arquivos); tecnologia (ou os “produtos” da ciência); e, por fim,

legendas relevantes (fórmulas, classificação taxonômica, a síndrome do

“eureca!” etc.). O estudo aconteceu durante 11 anos e foram analisadas

imagens de 4.807 crianças com idades entre cinco e 11 anos, de 186 turmas.

As crianças mais novas produziram desenhos agradavelmente sem

estereótipos. As características “definidoras” começaram a surgir em

desenhos das crianças de seis a sete anos, mais comumente jalecos de

laboratório e equipamento, mas também barbas e óculos. Na faixa dos nove aos 11 anos, algumas, se não todas as características, estavam presentes em

todos os desenhos. Mas, o que é revelador, das mais de 4 mil imagens

produzidas, só 28% delas eram de mulheres, todas desenhadas por meninas

(assim, as outras 2.327 meninas desenharam cientistas homens).

Este teste foi usado muitas vezes no mundo todo e as descobertas com

relação ao gênero estereotipado de cientistas são universalmente

semelhantes: cientistas são homens, têm barba e são carecas.*** [38]

E parece que as coisas não estão mudando muito com o tempo (e apesar

do crescente número de mulheres que podem ser encontradas em todas as

formas de ciência, mesmo que sejam lamentavelmente sub-representadas).

Um estudo de 2002 mostrou que o retrato de cientistas como homens, como

colocaram os pesquisadores, tinha persistido (como também, pelo visto, a

presença de pelos faciais como uma característica definidora importante).

[39] Qualquer redução na porcentagem de desenhos de homens é atribuída

principalmente a um aumento no número de retratos “indeterminados”, o

que talvez possa nos dar uma centelha de esperança! A tarefa,

evidentemente, é muito aberta e tem se sugerido que induzia injustamente a

estereótipos.

Será que chegamos imperceptivelmente, hoje em dia, a um mundo da

ciência sem estereótipos e estão dedicando esforço demais a barreiras que já

desapareceram? Isto foi examinado em um estudo de 2017 com uma nova

versão do teste chamada “Teste Indireto Desenhe-uma-pessoa-cientista”.[40]

Desta vez, o teste continha as seguintes instruções: “Imagine como a

pesquisa científica é feita. Apresente o que você vê em um desenho.

Coloque também uma descrição abaixo dele.” Os autores ficaram muito

animados com o que viram como uma mudança drástica na frequência com

que cientistas eram representados como mulheres na versão com instrução

indireta – porém, fiquei decepcionada quando vi que, na verdade, o

aumento foi de apenas 7,8% em relação a ainda míseros 15,8%.

A geração atual, porém, certamente deve ser muito mais informada sobre

as diferentes variações de cientistas que existem, por meio de

representações da mídia de cientistas forenses, cientistas da computação,

patologistas, biólogos da vida selvagem – assim, será que o teste reconheceu isto? O uso do mesmo protocolo do desenho, porém mais

específico sobre em que cientista estamos interessados, mostrou certo

aumento na porcentagem de vezes em que uma mulher era retratada, mas

ainda em números muito inferiores aos dos homens. Um estudo Desenhe-

uma-pessoa-engenheira, de 2004, produziu 61% de desenhos de homens e

39% de mulheres;[41] para um estudo sobre descrições de cientistas

ambientalistas em 2003, 22% eram de mulheres.[42] E um estudo Desenhe-

uma-pessoa-cientista-da-computação, de 2017, produziu 71% de imagens

de homens e 27% de mulheres.[43] Todos evidentemente maiores do que os

0,06% de imagens de mulheres do primeiro teste Desenhe-uma-pessoa-

cientista, de trinta anos atrás, o que pode ter sido um pouquinho

influenciado pelo projeto um tanto generificado do estudo em si,

naturalmente, mas ainda é um sinal da capacidade de permanência deste

estereótipo em particular, de que cientistas são, sobretudo, homens.

 

Como fazemos ciência – e as mulheres

têm as qualidades necessárias?

 

Outro meio de medir a divisão da ciência por gênero é ver quais

características de personalidade foram associadas a cientistas de sucesso e

medir a sobreposição entre estas e características de personalidade de

homens ou mulheres. Traços de “agenciamento” ou de “ação” como

“persistência, confiança, competência, competitividade, ambição e ímpeto”

frequentemente foram associados ao sucesso na ciência, em comparação a

traços “comunitários” caracterizados, por exemplo, como “altruísmo,

solidariedade, consciência dos sentimentos dos outros, orientação para a

família, necessidade de aceitação social e desejo de evitar controvérsias”.

[44]

A psicóloga Linda Carli e colaboradores mediram até que ponto os

participantes universitários classificavam homens, mulheres e cientistas de

sucesso como possuidores ou de características “agênticas” ou

“comunitárias”.[45] Como previsto, houve uma sobreposição estreita entre

as características percebidas de cientistas de sucesso e aquelas de homens

como ambiciosos, analíticos e agênticos, e muito pouca sobreposição com

suas irmãs amáveis, comunais, passivas, diplomáticas e (naturalmente)

loquazes. Este quadro foi gerado tanto por homens quanto por mulheres,

independentemente do tipo de instituição de origem (de sexo único ou

mista) ou as áreas que eles mesmos estudavam (ciências exatas ou

biológicas, ciências humanas ou ciências sociais). Assim, a mensagem

persistente e muito deprimente é de que as mulheres não são percebidas

como possuidoras das virtudes pessoais certas para que sejam cientistas de

sucesso e que esta percepção é sustentada não só por homens, mas pelas

próprias mulheres – mesmo que estejam estudando ciências. Assim, quer

estejamos vendo as figuras de palitinho de homens com barba e óculos, ou

escalas de classificação cuidadosamente elaboradas, existe uma mensagem

clara em nossas águas genenerificadas de que os homens têm o que é

necessário para ser cientistas de sucesso e as mulheres, não.

Uma questão fundamental que surge aqui: será que a existência destes

estereótipos afeta como a ciência é realizada e por quem? Importa se há um

descompasso entre uma noção teórica do que faz uma “boa cientista” e o

que faz uma “boa mulher”? Um descompasso desses, em que existe um

desajuste entre o perfil de um papel (embora impreciso) e o perfil de

alguém que aspira a este papel (ou já está nele) é chamado pelos psicólogos

sociais de “incongruência de papéis”.[46] Inicialmente foi proposto para

explicar preconceitos para com líderes mulheres, em que incoerências entre

características femininas estereotipadas e as características estereotipadas

de líderes podem levar a uma avaliação negativa do comportamento das

mulheres em papéis de liderança. Se elas mostram comportamentos

dominantes, diretivos e competitivos adequados para a liderança, então

violaram expectativas de como uma mulher deve se comportar; se

demonstram os cuidados, o calor humano e o apoio associados

estereotipadamente com ser uma mulher, elas são vistas como líderes

incompetentes.[47]

Sugeriu-se que esse tipo de golpe duplo também podia estar em operação

na ciência, em que o desajuste entre o que é visto como uma mulher típica e

o que é visto como uma cientista tipicamente de sucesso certamente pode

levar a preconceito e discriminação (aberto ou velado).[48] Claramente, se

você confrontar os comitês de pesquisa ou painéis de nomeações com esta

questão, ouvirá negações firmes, referências a métricas de desempenho

objetivas e descrições de cargo cuidadosamente elaboradas, alusões a

iniciativas de igualdade de gênero e uma infinidade de controles nos

recursos humanos. Ainda assim, existem provas de um certo desequilíbrio

no tratamento dado a mulheres cientistas.

Um estudo na Escandinávia relatou que as mulheres tinham de ser 2,5

vezes mais produtivas do que os homens para conseguir a mesma pontuação

em um sistema para obtenção de bolsas de pós-doutorado.[49] Em um exame

das pontuações de “competência” dada por analistas a candidatos a

dotações do Conselho de Pesquisa Médica em países escandinavos, notou-

se que para as medidas principais de impacto (número e qualidade das

publicações, com que frequência elas eram citadas), só as candidatas com

no mínimo 100 pontos de impacto receberam classificações de igual

competência a qualquer dos homens, mas os homens com quem eram

equiparadas tinham vinte pontos de impacto ou menos. Como observam os

autores, a Escandinávia tem certa reputação de oportunidades iguais e,

assim, se esse tipo de coisa acontece por lá, imaginem no resto do mundo.

Quem sabe isto não está contribuindo para o Paradoxo da Igualdade de

Gênero de que falamos antes?

E as cartas de referência que podem ser dadas em apoio a candidaturas a

empregos? Tendo escrito e lido muitas em meus tempos de acadêmica, sei

como são importantes para conferir algum valor agregado aos comitês de

pesquisa que examinam dezenas, se não centenas de currículos muito

semelhantes. Fazemos o máximo para pintar um retrato de estudantes

imprescindíveis e excepcionais que já mostraram talento extraordinário e

persistência, irão longe, integram equipes com perfeição, pensam

criativamente e assim por diante. As linguistas Frances Trix e Carolyn

Psenka examinaram mais de trezentas destas cartas de candidatura a

docência em uma faculdade americana de medicina.[50] Elas observaram

que as cartas de candidatas mulheres eram significativamente mais curtas

que as dos homens, e mal cobriam o básico (um exemplo tinha apenas cinco

linhas e garantia meramente a quem lia que “Sarah” era “versada, agradável

e de fácil convívio”).**** Elas as batizaram de “cartas de garantia

mínima”. Mas, um aspecto interessante, como nas visões estereotipadas da

lâmpada acesa contra a da semente do sucesso na ciência que vimos antes,

houve a inclusão muito maior do que as autoras chamaram de adjetivos

“esforçados” em cartas de recomendação para mulheres. Incluíam palavras

como “meticulosa”, “conscienciosa”, “minuciosa” e “cuidadosa”. As cartas

dos homens tinham com mais frequência o que Trix e Psenka chamaram de

adjetivos “destacados”, como “soberbo”, “excepcional” e “ímpar”. As

pesquisadoras não acharam que houvesse qualquer evidência de intenção

negativa por parte de quem escreveu as cartas, em vez disso, refletia uma

forma de viés inconsciente, de diferentes modos de ver homens e mulheres,

que podem tingir as decisões a serem tomadas pela equipe de nomeação.

Mesmo que consigam ultrapassar essas barreiras, as mulheres então

parecem achar mais difícil chegar aos níveis mais altos na profissão

científica, ou ser recompensadas com os níveis mais altos de

reconhecimento. Um artigo de 2018 sobre os arquivos do prêmio Nobel

(disponíveis atualmente de 1901 a 1964) para indicações na ciência (física,

química e medicina ou fisiologia) mostrou que das 10.818 indicações,

apenas 98 eram para mulheres.[51] Destas, só cinco (Marie Curie, Irène

Joliot-Curie, Gerty Cori, Maria Goeppert Mayer e Dorothy Hodgkin)

ganharam o prêmio Nobel. Algumas foram indicadas várias vezes; Lise

Meitner foi indicada 27 vezes em física e 19 vezes em química, mas jamais

ganhou.*****

Dados como estes não são necessariamente provas diretas de

discriminação, porque vários fatores adicionais podem estar em operação.

Porém, estudos baseados em laboratório podem dar essas provas. Um artigo

muito citado de Corinne Moss-Racusin e sua equipe de Yale nos dá um

exemplo poderoso disto.[52] Mais de cem integrantes de faculdades de

biologia, química e física de universidades altamente conceituadas receberam material de candidatura para a nomeação de um estudante a um

cargo de chefe de laboratório. Todas as informações eram idênticas, mas

metade dos docentes recebeu candidaturas com um nome de homem (John)

e metade com um nome de mulher (Jennifer). Podemos muito bem

adivinhar o resultado.

Um número significativamente maior de docentes (homens e mulheres)

classificaram John como mais competente e mais contratável (por um

salário maior). Também estavam mais dispostos a oferecer orientação de

carreira a John. Usando a Escala do Sexismo Moderno, que inclui fatores

como o conhecimento e explicações de segregação sexual na força de

trabalho, as pesquisadoras também puderam obter uma medida de algum

viés sexista preexistente em seus participantes. Esta medida mostrou que,

quanto mais altos os níveis de viés preexistente, menos competência ou

contratabilidade eram percebidas na candidatura de Jennifer, e havia menos

disposição de oferecer orientação a ela. Mais uma vez, isto foi válido para

docentes homens e mulheres. Por fim, e paradoxalmente, Jennifer foi

descrita como mais agradável pela equipe (lembrem-se, todas as

informações, com exceção do nome, eram idênticas nas candidaturas).

Assim, isso não tem relação com alguma hostilidade genérica para com as

mulheres – a Jennifer fictícia obviamente era uma pessoa agradável, só não

tinha muito futuro como cientista.

Quem sabe se esse tipo de viés não seria superado se as informações

sobre os candidatos não fossem idênticas, mas contivessem evidências de

capacidades diferentes? Em uma experiência, os estudantes “empregadores”

podiam contratar estudantes “empregados” para realizar uma tarefa de

matemática.[53] Todos os estudantes tinham completado anteriormente uma

versão da tarefa, então sabiam como ela funcionava e conheciam o próprio

nível de desempenho. Os “empregadores” podiam contratar “empregados”

unicamente com base na aparência (por uma foto on-line), ou com base na

aparência junto com algumas informações sobre o bom potencial que esses

“empregados” podiam ter. Os “empregadores” (homens e mulheres)

escolheram o dobro de homens se a única informação fosse a aparência; e

em geral atinham-se a suas decisões, mesmo quando lhes forneciam informações mostrando que as mulheres que eles não contrataram tinham se

saído melhor na tarefa de matemática. Assim, mesmo que você seja uma

mulher melhor do que os candidatos homens nas exigências do trabalho,

não supera a reação automática de que este é um emprego para os rapazes.

Os dados de hiato de gênero que vimos deixam claro que as mulheres

não fazem ciência. Certamente existem evidências históricas de que elas

fizeram, mas, como revela a crônica de Linda Schiebinger, elas aos poucos

foram excluídas, certamente pelas atividades gatekeeping das nascentes

sociedades científicas e por uma visão generalizada de que esta não é uma

esfera de atividade adequada para mulheres. Talvez isto possa ser julgado

como um olhar retrógrado aos velhos maus tempos. Mas revisões

contemporâneas de desequilíbrio de gênero em nomeações e realizações no

nível mais alto sugerem que alguma forma de discriminação, consciente ou

inconsciente, ainda está em operação. A face da ciência ainda é de domínio

masculino, povoada por indivíduos cujas características trazem

semelhanças impressionantes com aquelas do homem estereotipado,

agêntico e sistematizador, com acesso inato a lampejos de genialidade do

tipo lâmpada acesa. Existem evidências tristemente precoces de que não só

os pais e professores de possíveis cientistas engolem esse retrato da ciência

e dos cientistas como “só para homens”, mas que as próprias possíveis

cientistas fazem o mesmo.

Há outra vertente neste argumento, que faz eco à história que estivemos

contando o tempo todo: talvez a masculinidade na ciência apenas reflita um

resultado natural da mão de cartas da biologia neste jogo. Por mais

inconveniente que esta “verdade” possa ser, a realidade é que as mulheres

não fazem ciência ou, pelo menos, não podem ser encontradas nos escalões

superiores da ciência. No fim das contas, será que isto se deve a uma

carência da aptidão “natural” necessária?

 

* A física Hertha Ayrton foi indicada em 1902, mas decidiu-se que, sendo casada, não podia ser

considerada uma “pessoa” aos olhos da lei e, portanto, não era qualificada.