Gênero e os Nossos Cérebros
Sexo, gênero, sexo/gênero ou gênero/sexo:
SEXO, GÊNERO, SEXO/GÊNERO
OU GÊNERO/SEXO: UMA NOTA
SOBRE GÊNERO E SEXO
Precisamos abordar a questão se devemos falar sobre “sexo” ou “gênero”,
sobre ambos ou nenhum dos dois, ou até mesmo uma combinação entre
eles. Este livro falará de diferenças sexuais no cérebro, mas também de
diferenças de gênero no cérebro. Assim, serão a mesma coisa – seu sexo
biologicamente determinado vem com todas as características que definem
seu gênero socialmente construído? Ser detentor de dois cromossomos X,
ou um par XY, determinará seu lugar na sociedade, os papéis que
representará, as decisões que tomará?
Durante séculos, a resposta a isto era um “sim” inequívoco. Além de
dotar a pessoa das engrenagens reprodutivas apropriadas, o sexo biológico
supostamente conferiu um cérebro distinto e, assim, determinou o
temperamento, as habilidades, a aptidão para liderar ou ser liderado. O
termo “sexo” era comumente empregado em referência tanto às
características biológicas quanto sociais de mulheres e homens.
Mais para o fim do século XX, à luz das questões feministas, um
movimento contestou esta abordagem determinista. Houve uma insistência
emergente para que o termo “gênero” fosse usado quando se referisse ao
que era unicamente relacionado com questões sociais, diferente de “sexo”,
que deve ser reservado a qualquer referência à biologia. Avançamos alguns
anos e, como veremos, fica claro que é cada vez mais difícil sustentar esta
distinção pura entre sexo e gênero. Nossa compreensão emergente de
quanto o cérebro pode ser influenciado pelas pressões sociais implica que
precisamos de um termo que reflita este entrelaçamento; no meio
acadêmico, propuseram como solução o uso de “sexo/gênero” ou
“gênero/sexo”. Mas este não é propagado no uso cotidiano e raras vezes é encontrado na mídia popular ou nos artigos para as massas sobre mulheres e
homens.
A solução parece estar no uso de “sexo” ou “gênero” de forma
intercambiável, com uma possível tendência maior ao uso de “gênero” para
evitar a impressão de que acredita-se que o que se diz está reduzido à
biologia. Nunca vemos artigos sobre “hiatos sexuais nas remunerações” ou
“desequilíbrios sexuais”, por exemplo, na liderança de empresas. Mas, no
fim das contas, fica claro que o termo “gênero” agora reúne todos os
aspectos de homens e mulheres da mesma forma que “sexo” costumava
fazer. Navegando recentemente pelas populares apostilas de resumo on-line
da BBC para quem tem 16 anos (não à procura de dicas para este livro,
apresso-me a acrescentar), notei que havia uma seção sobre a determinação
de gênero. Na verdade, era sobre a produção de pares de cromossomos XX
e XY, encabeçados pela declaração “Então o gênero de um bebê humano [o
grifo é meu] é determinado pelo espermatozoide que fertiliza o óvulo”.
Assim, até mesmo respeitáveis instituições como a BBC estão alegremente
contribuindo para esta confusão linguística.
O que isso significa para o meu modo de rotular as diferenças cerebrais
(ou a ausência delas), que são o coração deste livro? Serão “diferenças
sexuais”, “diferenças de gênero” ou as duas coisas? Como muitos
argumentos tratam do papel central da biologia, usarei o termo “sexo” ou a
expressão “diferenças sexuais” como padrão quando falar do cérebro ou de
indivíduos claramente divididos por serem biologicamente mulheres ou
homens. A expressão “diferenças de gênero” será reservada para quando
examinarmos questões de socialização como, por exemplo, o tsunami rosa e
azul que lava os seres humanos recém-chegados. O título Gênero e os
nossos cérebros pretende reconhecer que vemos os efeitos de processos
sociais na transformação cerebral.
Os pronomes de gênero também podem ser uma questão preocupante.
Quando não sabemos o sexo (ou gênero) da pessoa sobre quem escrevemos,
o padrão, historicamente, tem sido usar a versão masculina, “ele”. Em um
livro no qual parte da história é contestar os padrões, seria claramente
inaceitável fazer isto. Embora “ele ou ela” ou “ele(a)” sejam alternativas, pode soar estranho e ser uma distração em um volume extenso como este.
Minha solução foi tentar compensar o equilíbrio usando propositalmente,
quando apropriado, “ela” em vez de “ele”.