Gênero e os Nossos Cérebros

Gina Rippon · Capítulo 2 de 46

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Gênero e os Nossos Cérebros

Sexo, gênero, sexo/gênero ou gênero/sexo:

SEXO, GÊNERO, SEXO/GÊNERO

OU GÊNERO/SEXO: UMA NOTA

SOBRE GÊNERO E SEXO

 

Precisamos abordar a questão se devemos falar sobre “sexo” ou “gênero”,

sobre ambos ou nenhum dos dois, ou até mesmo uma combinação entre

eles. Este livro falará de diferenças sexuais no cérebro, mas também de

diferenças de gênero no cérebro. Assim, serão a mesma coisa – seu sexo

biologicamente determinado vem com todas as características que definem

seu gênero socialmente construído? Ser detentor de dois cromossomos X,

ou um par XY, determinará seu lugar na sociedade, os papéis que

representará, as decisões que tomará?

Durante séculos, a resposta a isto era um “sim” inequívoco. Além de

dotar a pessoa das engrenagens reprodutivas apropriadas, o sexo biológico

supostamente conferiu um cérebro distinto e, assim, determinou o

temperamento, as habilidades, a aptidão para liderar ou ser liderado. O

termo “sexo” era comumente empregado em referência tanto às

características biológicas quanto sociais de mulheres e homens.

Mais para o fim do século XX, à luz das questões feministas, um

movimento contestou esta abordagem determinista. Houve uma insistência

emergente para que o termo “gênero” fosse usado quando se referisse ao

que era unicamente relacionado com questões sociais, diferente de “sexo”,

que deve ser reservado a qualquer referência à biologia. Avançamos alguns

anos e, como veremos, fica claro que é cada vez mais difícil sustentar esta

distinção pura entre sexo e gênero. Nossa compreensão emergente de

quanto o cérebro pode ser influenciado pelas pressões sociais implica que

precisamos de um termo que reflita este entrelaçamento; no meio

acadêmico, propuseram como solução o uso de “sexo/gênero” ou

“gênero/sexo”. Mas este não é propagado no uso cotidiano e raras vezes é encontrado na mídia popular ou nos artigos para as massas sobre mulheres e

homens.

A solução parece estar no uso de “sexo” ou “gênero” de forma

intercambiável, com uma possível tendência maior ao uso de “gênero” para

evitar a impressão de que acredita-se que o que se diz está reduzido à

biologia. Nunca vemos artigos sobre “hiatos sexuais nas remunerações” ou

“desequilíbrios sexuais”, por exemplo, na liderança de empresas. Mas, no

fim das contas, fica claro que o termo “gênero” agora reúne todos os

aspectos de homens e mulheres da mesma forma que “sexo” costumava

fazer. Navegando recentemente pelas populares apostilas de resumo on-line

da BBC para quem tem 16 anos (não à procura de dicas para este livro,

apresso-me a acrescentar), notei que havia uma seção sobre a determinação

de gênero. Na verdade, era sobre a produção de pares de cromossomos XX

e XY, encabeçados pela declaração “Então o gênero de um bebê humano [o

grifo é meu] é determinado pelo espermatozoide que fertiliza o óvulo”.

Assim, até mesmo respeitáveis instituições como a BBC estão alegremente

contribuindo para esta confusão linguística.

O que isso significa para o meu modo de rotular as diferenças cerebrais

(ou a ausência delas), que são o coração deste livro? Serão “diferenças

sexuais”, “diferenças de gênero” ou as duas coisas? Como muitos

argumentos tratam do papel central da biologia, usarei o termo “sexo” ou a

expressão “diferenças sexuais” como padrão quando falar do cérebro ou de

indivíduos claramente divididos por serem biologicamente mulheres ou

homens. A expressão “diferenças de gênero” será reservada para quando

examinarmos questões de socialização como, por exemplo, o tsunami rosa e

azul que lava os seres humanos recém-chegados. O título Gênero e os

nossos cérebros pretende reconhecer que vemos os efeitos de processos

sociais na transformação cerebral.

Os pronomes de gênero também podem ser uma questão preocupante.

Quando não sabemos o sexo (ou gênero) da pessoa sobre quem escrevemos,

o padrão, historicamente, tem sido usar a versão masculina, “ele”. Em um

livro no qual parte da história é contestar os padrões, seria claramente

inaceitável fazer isto. Embora “ele ou ela” ou “ele(a)” sejam alternativas, pode soar estranho e ser uma distração em um volume extenso como este.

Minha solução foi tentar compensar o equilíbrio usando propositalmente,

quando apropriado, “ela” em vez de “ele”.