Gênero e os Nossos Cérebros

Gina Rippon · Capítulo 17 de 46

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Gênero e os Nossos Cérebros

11. A ciência e o cérebro

CAPÍTULO 11:

 

A CIÊNCIA E O CÉREBRO

 

Os dados de hiatos de gênero deixam claro que as mulheres não fazem

ciência – mas isto não quer dizer que elas não possam fazer ciência. Para

entender a abordagem essencialista a este hiato de gênero, podemos

começar pelo exame da hipótese da “maior variabilidade masculina”

(MVM).

Este é outro daqueles temas “Acerte a toupeira” que parecem

caracterizar a pesquisa das diferenças sexuais. Refere-se à alegação de que

se examinarmos as extremidades superior e inferior de qualquer distribuição

de medidas de capacidade intelectual, encontraremos mais homens: mais

gênios homens, mais débeis mentais homens. Esta ideia foi proposta nos

círculos de psicologia por Havelock Ellis em 1894: notando um número

maior de homens do que de mulheres em lares para deficientes mentais e

um número muito maior de homens nas esferas de eminência e alta

realização, ele concluiu que havia uma “tendência variacional” maior e

inata nos homens. [1] (Você talvez note que isso ignora a possibilidade de

que a maior eminência em uma extremidade pode ter refletido maiores

oportunidades, e que as taxas mais elevadas de institucionalização na outra

extremidade podem ter refletido diferentes níveis de redes sociais de apoio

disponíveis.)

Talvez não surpreenda que a discussão sobre as implicações desta

variabilidade maior se concentrem na extremidade direita da distribuição,

nos realizadores mais elevados, em vez de na extremidade esquerda. A

tendência variacional tem implicações óbvias para as expectativas de

homens e mulheres: é mais provável que os homens sejam gênios e as

mulheres estejam mais na “média”.

Em geral, a referência à hipótese MVM é feita em explicações de hiatos

de gênero na realização: mesmo que, em média, mulheres e homens se

saiam igualmente bem em alguma tarefa, seja em matemática, lógica ou

xadrez, os altos realizadores serão encontrados vários desvios padrão

rarefeitos à direita da distribuição, e a maioria deles será de homens.

Um pressuposto por trás da alegação de maior variabilidade nos homens

é de que é um universal cultural fixo que deve ser estável com o passar do

tempo e evidente em todos os grupos, em todos os países. Na verdade,

nenhum destes critérios é atendido. Em 2010, uma meta-análise de estudos

internacionais de habilidades em matemática mostrou que, nos EUA, os

hiatos de gênero na extremidade elevada não desapareceram absolutamente;

na maioria de outros países não havia diferença e em alguns (Islândia,

Tailândia, Reino Unido) havia mais mulheres do que homens entre aqueles

de maior pontuação.[2]

Mesmo hoje, existem tentativas de demonstrar a validade evolutiva da

hipótese MVM, com alegações na linha de que as mulheres são seletivas a

respeito de com quem acasalam e só aceitam a metade superior de alguma

classificação de capacidade do parceiro, resultando em uma extremidade

superior rarefeita na distribução.[3] Isto deixa a metade inferior para se

reproduzir alegremente com o que pintar, dando em resultados altamente

variáveis, alguns a soma de praticamente tudo de negativo em que se possa

pensar. Na verdade, o artigo de matemática que faz estas afirmações foi

retirado em meio a alegações de conspiração política, mas um blogueiro

matemático prestativo observou que os pressupostos matemáticos

subjacentes eram de qualidade muito duvidosa.[4] Mas não há dúvida de que

este mito voltou à tona nas explicações de hiatos de gênero, em backlashes

contra iniciativas de diversidade ou em quaisquer outros fóruns em que

pareça ser necessário voltar a recorrer a uma hipótese de séculos de idade,

mesmo que esta seja desacreditada.

Já encontramos pronunciamentos incrivelmente misóginos de séculos

anteriores, mas avançamos à nossa época e, como vimos, ainda existe uma

tendência “essencialista” geral em discussões sobre o hiato de gênero no

STEM. A maior parte permanece oculta, firmemente ligada a estereótipos sobre as mulheres e a ciência, misturada a outros dogmas sobre a natureza

da ciência e dos cientistas, talvez impelindo inconscientemente decisões de

emprego e escolhas de profissões.

Mesmo de vez em quando, vem à tona de alguma forma pública uma

declaração mais aberta da crença “culpe o cérebro”. Dois exemplos citados

com frequência são o infame discurso de Larry Summers em 2005 e o

memorando do Google de 2017. O que caracteriza ambos não é apenas a

expressão da crença de que as mulheres simplesmente não têm o necessário

quando examinada a realização de alto nível na ciência, mas também que

este é um problema baseado na biologia delas.

Primeiramente, Larry Summers, então reitor de Harvard, decidiu falar da

“questão da representação das mulheres em posições de cátedra na ciência e

na engenharia nas universidades mais importantes” em uma conferência

chamada “Diversificando a Força de Trabalho na Ciência e na Engenharia”.

[5] Os argumentos dele tinham uma firme base no campo da hipótese MVM,

sugerindo que, no extremo elevado da ciência, vemos as pessoas cujo

desempenho estava quatro desvios padrão acima da média, e os dados

indicam que este grupo é povoado por cinco homens para cada mulher.

Assim, gostemos ou não, se nosso território é a extremidade superior, seja

nos negócios ou na ciência, encontraremos mais homens do que mulheres.

Uma das explicações dele para este hiato de gênero foi a “diferente

disponibilidade de aptidão no extremo superior”.

Houve um clamor considerável depois da declaração de Summers.

Assim como expressões mais genéricas de indignação na mídia sobre o que

era visto como uma postura ultrapassada e discriminatória, a comunidade

acadêmica se uniu para abordar as questões levantadas.[6] Summers

cometera alguns poucos erros clássicos. Por exemplo, baseou sua estimativa

da proporção de 5:1 entre homens e mulheres no extremo superior em

dados de testes que, na mesma conferência de que ele participava, foram

identificados como “não altamente preditivos com relação à capacidade das

pessoas” – o que ele, espantosamente, apontou em seu próprio discurso. Na

verdade, os autores do trabalho a que ele se referiu, Kimberlee Shauman e

Yu Xie, discordaram da interpretação que ele deu do que o estudo mostrara.

[7] Eles examinaram a progressão profissional nas mulheres e geraram os

dados sobre hiatos de gênero a que Summer se referira. Observaram que o

hiato de gênero na matemática era pequeno e estava em declínio desde os

anos 1960. Em um artigo posterior, Xie declarou explicitamente que “a

tendência declinante [...] lança dúvidas sobre a interpretação de que o hiato

de gênero na realização em matemática reflete diferenças inatas, talvez

biológicas, entre os sexos” e acrescentou que “o reitor Summers deixou de

citar a seguinte descoberta: as diferenças de gênero, nem na média, nem na

alta realização em matemática, explicam as diferenças de gênero na

probabilidade de formação nos campos da ciência/engenharia”.[8] (Na

verdade, Shauman e Xie pensavam que seus dados mostravam que a

principal barreira ao progresso das mulheres na ciência eram as

responsabilidades parentais e cunharam a expressão “vazamento no cano”

para descrever o problema.)

Desse modo, aqui temos alguém que alegremente reconhece que talvez

esteja vendo um “dossiê dúbio” de dados, deturpa o que mostra e depois

interpreta mal mesmo assim. Ele foi criticado pelos pesquisadores que

produziram os dados e, mais tarde, por um amplo leque de importantes

psicólogos, que também criticaram seus argumentos circulares.[9] Com uma

pancada tão firme, era de se pensar que esta toupeira tinha sido

permanentemente eliminada.

Não tenha tanta pressa. No verão de 2017, um memorando (muito longo)

de um funcionário do Google, James Damore, chegou ao conhecimento do

público.[10] Aparentemente foi redigido em um ataque de frustração depois

do comparecimento a um curso de treinamento em diversidade que

desagradou claramente o autor. Ele efetivamente disse ao Google que a

empresa estava perdendo tempo (o dele também, supõe-se) com iniciativas

de oportunidades iguais para aumentar o número de mulheres na força de

trabalho. Encarnando seu “Larry Summers interior”, Damore afirmou que

“a distribuição de preferências e capacidades de homens e mulheres difere

em parte devido a causas biológicas e [...] estas diferenças podem explicar

por que não vemos igual representação de mulheres em tecnologia e

liderança”. Não demorou muito para este memorando ser vazado, para o funcionário ser identificado, para explodir uma imensa tempestade na mídia

e, depois, para Damore perder o emprego.

O alvo de Damore era mais amplo do que o de Summers e incluía

preferências e aptidões; ele foi muito mais explícito sobre as bases

biológicas, chamando-as de “universais nas culturas” e “altamente

hereditárias”, e citando a testosterona pré-natal como um fator causal

importante. A principal dimensão da “preferência” que ele parece ter como

alvo é a nossa velha amiga Pessoas X Coisas. Ele é menos específico sobre

qual “déficit de capacidade” parece ser um problema para as mulheres (e

para a empresa Google), mas declara que os homens são adequados para a

codificação devido a suas habilidades de sistematização. Assim, parece que

ele registrou a dimensão sistematização-empatização na dicotomia homem-

mulher, com os homens sistematizadores tendo o necessário para serem

codificadores de sucesso. Quanto ao aspecto empatizador, ele relaciona a

tendências de gostar de pessoas que reservava para as mulheres.

Extraordinariamente, mais tarde ele apela ao Google para desenfatizar a

empatia, sentindo que ela pode causar uma tendência a “foco em

anedotário, favorecer indivíduos semelhantes a nós, abrigar outros vieses

irracionais e perigosos”.

Ele também se concentrou em um estudo de larga escala, cobrindo 55

nações, sobre as diferenças sexuais em características pessoais que relatou

que as mulheres, em média, exibem níveis mais altos de neuroticismo e

afabilidade.[11] Os dados deste estudo também mostraram que as diferenças

sexuais eram maiores nos países mais desenvolvidos, o que os autores

entenderam se dever a homens e mulheres serem capazes de expressar

naturalmente sua verdadeira identidade quando as restrições são menores.

Damore advertiu contra permitir que os homens fossem mais “femininos”,

sugerindo que isto podia resultar neles deixando a ciência de alto nível e as

posições de liderança em troca de “papéis tradicionalmente femininos” (ele

não especificou quais). Concluiu a mensagem com uma série de sugestões

de como sua perspectiva deveria ser incorporada em futuros programas de

diversidade.

Muita coisa mudou desde o discurso de Larry Summers (embora não a

mentalidade de gente como Damore), e a velocidade da reação a este

memorando foi drástica, com artigos on-line, blogs, tuítes, posts do

Facebook jorrando quase instantaneamente.[12] Em vista da extensão e do

conteúdo do memorando, havia muito o que comentar. Deixando de lado

observações gerais sobre os programas de diversidade e os acertos e erros

na demissão de Damore, pelo menos parte do debate tratou da ciência que

ele citou.

Tinha gente do lado dele. Aqueles do campo da psicologia evolucionista

acharam que ele fez uma boa argumentação, possivelmente relacionada com

seu endosso entusiasmado do pensamento deles no memorando de Damore.

[13] Você pode ver de onde ele pode ter tirado a relação com a

competitividade e o ímpeto por status, coerente com os argumentos de

homem-caçador da psicologia evolucionista, mas é difícil ver a história

evolutiva por trás da extroversão, da afabilidade e do neuroticismo, todas

características que Damore cita como responsáveis pela ausência de

mulheres nos escalões mais altos do Google. Debra Soh, neurocientista

sexual e escritora de divulgação científica, claramente sente que tem o

direito de falar por todos os neurocientistas e ignora imensas áreas de

neurociência crítica ao verbalizar seu apoio a Damore:

 

No campo da neurociência, as diferenças sexuais entre mulheres e homens – quando se

trata da estrutura e da função cerebrais e de diferenças associadas em personalidade e

preferências ocupacionais – são compreendidas como verdadeiras, porque a evidência

delas (milhares de estudos) é forte. Isto não é informação que seja considerada

controversa ou sujeita a debate; quem tenta argumentar o contrário, ou por influências

puramente sociais, será motivo de riso.[14]

 

Contudo, do outro lado havia muita crítica do uso de aparentes

evidências por Damore. Em um eco dos problemas com o discurso de

Summers, David Schmitt, principal autor do artigo sobre personalidade que

entusiasmou tanto Damore, não achava que suas descobertas realmente

apoiassem o argumento de Damore. Ele observou que o tamanho de

quaisquer diferenças costumava ser pequeno e era necessário levar em

conta onde foram medidas, como foram medidas e outros fatores de contexto. Em uma rejeição bem mais incisiva deste uso de sua pesquisa, ele

também observou: “Usar o sexo biológico de alguém para essencializar

todo um grupo de personalidades é como operar cirurgicamente com um

machado. Sem precisão suficiente para fazer bem, provavelmente causará

muitos males.”[15]

Outros comentaristas notaram que, como nas observações de Summers,

não foi dada nenhuma atenção à plasticidade do cérebro humano, o possível

papel da experiência na determinação do desempenho em qualquer

variedade de medidas, inclusive aquelas que certamente seriam relevantes

para o sucesso na ciência.[16] A questão aí era que mesmo que existisse

algum fundamento em alegar uma base biológica para o tipo de aptidão que

aparentemente faltava às mulheres, ela não era fixa e insuperável como

Damore sugeria. Ele incorporava o mantra dos “limites impostos pela

biologia” em lugar do “potencial dado pela biologia”.

A identificação de Damore com a codificação como coisa de homem foi

facilmente abordada observando-se a preponderância de mulheres no

campo da computação em países como a Índia e ligando o desaparecimento

das meninas da computação a um fenômeno cultural, o advento do

computador doméstico nos anos 1980 e seu marketing como um sistema de

jogos para homens.[17] Foram muitas as refutações ponto a ponto de suas

opiniões essencialistas, com o detalhamento sistemático das deturpações e

falácias nestes argumentos. Dois autores que por muitos anos pesquisaram e

publicaram amplamente sobre esta questão resumiram o sentimento geral

desta forma: “Pesquisamos questões de gênero e STEM (ciência,

tecnologia, engenharia e matemática) há mais de 25 anos. Podemos afirmar

categoricamente que não existem evidências de que a biologia das mulheres

as torna incapazes de realização nos níveis mais elevados de qualquer área

STEM.”[18]

Assim, foi um Dia da Marmota para uma opinião firmemente

essencialista, baseada em dados dúbios, deturpação da ciência citada e

parecendo ignorar a pesquisa amplamente publicada que enfatiza a

importância do contexto e da experiência no surgimento de aptidões e

preferências em homens e mulheres. As afirmações muito divulgadas de Summers e Damore foram criticadas com conclusões claras e firmemente

declaradas quanto à natureza equivocada dos pressupostos que

fundamentam estas declarações públicas sobre as mulheres na ciência. Estes

dois pronunciamentos infames e o backlash contra eles resume

praticamente todas as questões no eterno debate sobre as mulheres, a

biologia e a ciência. Infelizmente, isto parece incluir o caráter pegador de

um raciocínio desses e sua propensão a ressurgir de forma quase inalterada.

Portanto, mesmo hoje, com importantes avanços tecnológicos que

deveriam nos permitir realmente lidar com as diferenças individuais no

cérebro, ainda existem pensadores do século XVIII aparecendo com

respostas do século XVIII. Embora tenhamos negações incisivas (e

repetidas) de que a biologia das mulheres as torna ineptas para a ciência,

prova-se extraordinariamente difícil alterar a máxima subjacente “culpe o

cérebro”, que nos acompanha desde os dias de Gustave Le Bon. Então,

vamos examinar a qualidade das evidências mobilizadas em seu apoio.

 

A estereotipia da ciência do cérebro

 

A ideia de que um “cérebro masculino” é uma fonte necessária das

habilidades de sistematização que nos colocam no caminho para um prêmio

Nobel entrou na consciência do público. Estimulados pelo modelos

sistematizador-empatizador de Simon Baron-Cohen, os últimos cinco anos,

mais ou menos, viram uma busca pelos correlatos neurais subjacentes a

estes tipos de processamento.[19] Uma motivação principal têm sido os

insights que isso pode dar sobre os distúrbios do espectro autista, que

Baron-Cohen descreveu em termos de um “cérebro masculino extremo”.[20]

Como ele também declarou que o cérebro masculino é programado para

sistematizar e o cérebro feminino para a empatia, naturalmente as

diferenças sexuais têm uma posição de destaque na análise e na

interpretação da pesquisa nesta área.

Então, existe mesmo alguma coisa como um “cérebro científico”? Um

“cérebro matemático”? E, por extensão a partir dos estereótipos de ciência e

cientistas, existe um cérebro masculino?

Certa vez recebi uma charge de um colega sobre a “sexagem” de um

gato. Dois homens tinham encontrado um gato e queriam saber se era

macho ou fêmea. O quadrinho seguinte mostra os dois observando o gato

tentar estacionar, fazendo uma baliza. Talvez você queira contar o número

de vezes que um artigo na imprensa sobre as diferenças sexuais no cérebro

é ilustrado por um homem segurando um mapa e olhando com confiança

para o que claramente é a direção certa, às vezes com uma companheira de

cenho franzido e o semblante confuso, com o mapa de cabeça para baixo,

apontando ansiosamente a direção contrária.

Um importante foco nas discussões sobre as mulheres na ciência tem

estado na cognição espacial, uma habilidade comumente associada com o

sucesso em áreas STEM.* A cognição espacial é uma capacidade geral que

vai da capacidade de navegar por nosso ambiente a criar e ler mapas e

planos, à capacidade de manipular mentalmente objetos, símbolos e

representações abstratas, a identificar padrões e trabalhar em muitas

dimensões (e fazer uma baliza). Tem-se alegado que as diferenças sexuais

nesta capacidade são das mais “sólidas” de todas elas.[22] Desde os

primeiros estudos dos efeitos de lesão cerebral, passando por estudos de

manipulação hormonal, tratando da identificação do terreno neural que

fundamenta as habilidades espaciais e do mapeamento de redes cerebrais

funcionais ativadas por tarefas espaciais, um foco importante no estudo da

cognição espacial tem sido por que as mulheres são tão ruins nisso.

A ideia de que a cognição espacial é uma habilidade fixa e baseada no

cérebro se tornou outro meme “Acerte a toupeira” em todo o debate sobre

diferenças sexuais/de gênero, em particular com relação ao grau de

organização dos hormônios pré-natais nos cérebros feminino e masculino.

O desempenho em tarefas de processamento visuoespaciais tem sido

considerado um indicador do grau da masculinização de cérebros que foram

expostos a altos níveis de testosterona.[23] Psicólogos evolucionistas

ponderaram com sugestões de que as habilidades espaciais superiores dos homens são ligadas às habilidades de caça, atirar lanças e encontrar

caminhos, coisas de que precisaram no passado.[24] Assim, examinar até

que ponto um “cérebro espacial” é biologicamente determinado (com temas

de “capacidade inata bruta” ou “expectativas de brilhantismo” muito mais

comuns no mundo STEM) ou um produto de treinamento orientado por

gênero (pensem em Lego e videogames) podia dar um insight verdadeiro de

quais são as diferenças sexuais neste conjunto de habilidades e de onde elas

vêm.

Os níveis altos de capacidade espacial podem ser uma habilidade prática,

tornando a pessoa boa na descoberta do caminho em lugares desconhecidos

ou sendo capaz de ler mapas, e também pode torná-la boa em tarefas que

exigem a compreensão das relações entre diferentes partes de objetos, como

construção ou arquitetura. Também pode ser uma habilidade teórica, assim,

a pessoa pode ser boa na compreensão de determinados ramos da

matemática. Quase universalmente, para onde quer que olhemos, em

diferentes épocas e diferentes culturas, tem sido alegada a superioridade

masculina nesta habilidade. Mesmo quando os hiatos de gênero diminuem

em toda parte, esta suposta diferença homem-mulher continua firme e é

saudada como a mais sólida de todas as diferenças sexuais, talvez o último

bastião da superioridade masculina.

Na verdade, quando vemos a expressão “cognição espacial” ou

“processamento visuoespacial”, com muita frequência os cientistas estão

falando do desempenho em uma tarefa de rotação mental (TRM), testando a

capacidade de girar mentalmente uma figura em 3D para ver se casa com

uma segunda versão, o que já encontramos algumas vezes neste livro.[25]

Este é, com certeza, o teste mais comumente usado como medida geral de

processamento espacial, aquele que normalmente revela as maiores

diferenças sexuais (embora, como sempre, ainda estejamos falando de

pontuações sobrepostas aqui), que foi demonstrado em crianças muito

novas, parece ter mostrado a maior estabilidade no tempo (embora existam

evidências de sua diminuição) e a maior uniformidade intercultural.

Se você se recorda do Capítulo 8, houve uma sugestão da existência de

diferenças sexuais precoces em capacidade de rotação mental, com meninos de três a quatro meses olhando por mais tempo pares de imagens quando

uma delas era rotacionada.[26] Sugeriu-se que isto podia refletir as

consequências da exposição pré-natal a testosterona.[27] Da mesma forma,

existem boas evidências de que fatores vivenciais, como a escolha do

brinquedo, participação em esportes e jogos de computador podem afetar o

desempenho na rotação mental. Curiosamente, um estudo recente mostrou

que, em bebês meninos, há uma correlação positiva entre níveis de

testosterona e capacidade de rotação mental, um efeito que não aparece nas

meninas.[28] Por outro lado, houve uma correlação negativa entre atitudes

parentais estereotipadas de gênero e desempenho em rotação mental em

meninas – quanto mais tradicionais as atitudes dos pais com relação ao

gênero, pior as meninas se saíam em uma tarefa de rotação mental. Os

pesquisadores sugeriram que fatores biológicos estavam em ação nos

meninos e fatores de socialização, nas meninas. Assim, temos evidências de

uma diferença precoce em uma habilidade espacial, mas com atribuições

inexplicavelmente mistas das causas. Mas aqui ainda estamos examinando

correlações entre variáveis, e estas são indiretamente ligadas a processos

cerebrais. Talvez o exame do que acontece no cérebro quando alguém

realiza uma TRM possa lançar mais alguma luz.

Será que uma TRM revela um conjunto bem ordenado de áreas cerebrais

em que a atividade é acionada, com o grau de ativação estreitamente

associado com o nível de desempenho? Ou talvez dois conjuntos de áreas

cerebrais, um masculino e outro feminino, combinando os diferentes níveis

de capacidade? Bom, espero que a essa altura você tenha entendido que isso

quase nunca acontece, mas com o estudo da cognição espacial talvez

possamos pelo menos extrair alguns princípios gerais de estudos de imagem

do cérebro que devem, então, formar o pano de fundo para todas as outras

perguntas que precisam ser feitas.

Estudos muito iniciais do efeito de lesão cerebral no comportamento

localizaram o processamento espacial no córtex parietal, aquela parte entre

as áreas visuais dos lobos occipitais e as áreas executivas dos lobos frontais.

[29] Embora uma lesão em qualquer um dos hemisférios na área parietal

cause problemas na cognição espacial, ela é mais evidente em danos no lado direito do cérebro. Se você se recorda, um dos primeiros neuromitos

era de que o hemisfério direito “desimpedido” dos homens lhes dava

vantagem visuoespacial sobre as mulheres, cujo hemisfério direito também

dividia a responsabilidade pelas demandas da linguagem. Embora esta

concepção tenha sido amplamente descartada, sem dúvida na comunidade

científica, ainda pode ser encontrada em alguns livros didáticos

desatualizados ou em obras do gênero “neurolixo”.[30]

Com relação à rotação mental, na verdade é no lobo parietal direito que a

atividade aumentada é mais sistematicamente encontrada, mas em geral isso

é acompanhado também por uma ativação no hemisfério esquerdo. Assim,

devemos nos fixar no córtex parietal como a estrutura cerebral que

fundamenta esta diferença sexual sólida? Um estudo de 2009 revelou que o

desempenho superior dos homens em TRM estava associado a uma área de

superfície maior no córtex parietal esquerdo, enquanto o desempenho mais

fraco das mulheres foi associado à maior profundidade da massa cinzenta,

mais uma vez no córtex parietal esquerdo.[31] Assim, um córtex parietal

maior nos homens os ajuda a se saírem melhor, mas um córtex mais espesso

nas mulheres parece atrapalhar. Mas, tendo em mente os debates de “o

tamanho importa” que vimos no Capítulo 1, devemos ter cautela ao atribuir

excessivo significado explanatório a isto. E, como sempre, precisamos ter

em mente que talvez estejamos vendo as consequências de diferentes

experiências visuoespaciais para nossos cérebros plásticos e maleáveis.

Significaria então que a resposta está nas crianças, com menos anos de

experiências transformadoras do cérebro? Compreensivelmente, existem

menos estudos de imagem cerebral de desempenho em TRM em crianças,

mas um estudo com fMRI de 2007 comparou crianças entre nove e 12 anos

e adultos fazendo a mesma versão de uma TRM.[32] Em crianças, os

pesquisadores encontraram padrões de ativação no córtex parietal direito

semelhantes àqueles dos adultos, embora fosse mais provável que os

adultos mostrassem também ativação do hemisfério esquerdo. Mas o

interessante foi que não havia diferenças de gênero entre as crianças, fosse

no desempenho em TRM ou em sua atividade cerebral, enquanto houve

diferenças na atividade cerebral de adultos, com as mulheres mostrando mais atividade frontal e motora. Pode ser que a tarefa fosse mais voltada

para crianças (os estímulos eram imagens de animais, como cavalos-

marinhos e golfinhos) ou pode ser que as crianças fossem pré-púberes, mas

em vista da ênfase entre deterministas biológicos na emergência precoce de

qualquer diferença sexual e do que agora sabemos sobre o papel da

experiência na configuração do cérebro, este resultado nos dá um forte

argumento contra o caráter inato essencial das capacidades espaciais.

Costumamos supor que todo mundo tenta resolver um problema da

mesma forma, alguns com mais eficiência do que outros. Mas algumas

descobertas sobre o cérebro contam uma história diferente. Quando foi

comparada a competência em uma TRM de homens e mulheres, os

participantes homens, em média, mostraram maior ativação no córtex

parietal, mas as mulheres mostraram maior ativação frontal.[33] O que foi

inferido disto é que os homens resolvem o problema de um jeito holístico,

mas as mulheres usam uma abordagem mais linear, possivelmente contando

os componentes que integram a imagem a ser rotacionada. (Este parece um

método perigosamente sistematizador para mim, mas talvez, por enquanto,

possamos deixar passar.) Esta última tática consome mais tempo e, assim,

quem a empregar demorará mais para chegar a uma solução. Mas ainda

vemos uma diferença entre os sexos, e então, como no exame de diferenças

estratégicas, existem outros fatores que devem ser considerados antes que

possamos concordar que a diferença sólida que alegam existir está no modo

como homens e mulheres lidam com o espaço.

Como sempre, às vezes não se trata da questão em si (os homens são

melhores do que as mulheres em tarefas espaciais?), mas de como se faz a

pergunta. Quando são usadas diferentes versões da TRM clássica, as

diferenças sexuais supostamente sólidas diminuem ou até desaparecem. Isto

foi mostrado em versões do teste com dobradura de papel e nas versões

usando objetos reais em 3D ou fotografias deles.[34] No Capítulo 6, vimos o

efeito da ameaça do estereótipo sobre a atividade cerebral e a rotação

mental.[35] Um estudo mostrou que se descrevermos a tarefa de forma

diferente, como uma tarefa de perspectiva em vez de alguma que exija

rotação mental, a atividade cerebral e o desempenho na tarefa são afetados. Isto pode sugerir que esta diferença sexual fundamental, no fim das contas,

não é tão fundamental assim.

 

Treinando o cérebro – e um lembrete de que

a escolha dos brinquedos importa

 

Seguindo o mesmo raciocínio, as diferenças no desempenho em TRM

talvez não sejam tão estáveis como se supunha. Pode melhorar com o

treinamento relevante, que mostrou reduzir as diferenças sexuais ou até

eliminá-las por completo, portanto, certamente é uma habilidade maleável.

[36] Isto sugere que a diferença supostamente sólida pode não ter associação

com uma diferença sexual fixa e de base biológica, na verdade, é um efeito

de diferentes níveis de experiência espacial. Já vimos que é mais provável

que os meninos tenham brinquedos de montar ou participem de esportes

com alvo e fortes elementos espaciais, então quem sabe eles não estejam

mostrando o benefício destas oportunidades precoces de “treinamento”?

Dicas comportamentais vêm da observação de pessoas jogando games de

computador. Um estudo, de 2008, mostrou que apenas quatro horas jogando

Tetris trouxeram melhoras significativas no desempenho em TRM, mais nas

mulheres do que nos homens.[37] Outro estudo no ano anterior, de Jing

Fenge e colaboradores da Universidade de Toronto, examinou as diferenças

sexuais no desempenho em TRM como função de experiências anteriores

em videogames.[38] Este mostrou que jogadores experientes se saíram muito

melhor em TRM do que os não jogadores, e que as diferenças sexuais no

grupo de jogadores eram muito pequenas. Parecia que se sair bem em testes

de TRM podia ser mais uma função de quanto tempo passamos com nosso

Xbox do que do genótipo XX ou XY. Os pesquisadores confirmaram isto

colocando outro grupo de estudantes em dez horas de treinamento em um

videogame de ação, com testes TRM antes e depois do treinamento.

Homens e mulheres mostraram uma melhora significativa, as mulheres mais do que os homens, reduzindo drasticamente o hiato de gênero pré-

treinamento.

Será que essas dicas comportamentais têm correspondência na atividade

cerebral? Como vimos anteriormente, o Tetris também foi levado a um

escâner cerebral, em que se mostrou que mudanças significativas no

cérebro, em estrutura e função, podem ser provocadas pelo treinamento. Em

um grupo de 26 meninas, foram encontrados aumentos bem amplos na

espessura por todo o córtex, mais particularmente na parte dos lobos

temporais esquerdos e dos lobos frontais esquerdos. As diferenças antes e

depois no fluxo sanguíneo mostraram que as meninas treinadas no Tetris

mostraram alguma redução na atividade no hemisfério direito, coerente com

as mudanças reveladas quando nos tornamos mais experientes em uma nova

habilidade.[39]

Estudos como esses correspondem a outros sobre a plasticidade cerebral

que examinamos e vimos como outras habilidades espaciais (como a perícia

em navegação exigida de taxistas e a coordenação mão-olho necessária para

o malabarismo), embora claramente relacionadas com padrões de ativação

específicos no cérebro, podem ser alteradas como uma função da

experiência, nos níveis do cérebro e do comportamento.

 

Estereotipando-se

 

Já vimos em outra parte deste livro como a crença nos estereótipos (como o

fator “excelência/lâmpada acesa”) pode afetar a percepção que os

indivíduos têm de suas capacidades e as escolhas de estilo de vida que

podem surgir como consequência disso. Parece que isso também pode

afetar, à moda da clássica ameaça do estereótipo, o próprio desempenho que

supostamente caracteriza a categoria “inferior”. A psicóloga Angelica Moè

examinou o desempenho em TRM como função das explicações dadas

antes do teste.[40] Depois de obter as medidas básicas dos participantes (95

mulheres e 106 homens), ela os dividiu em quatro grupos. Cada grupo ouviu o seguinte: “Este teste mede capacidades espaciais. Elas são muito

importantes na vida cotidiana, isto é, para encontrar um caminho em um

mapa, orientar-se em um ambiente novo, descrever uma rua a um amigo. A

pesquisa mostrou que os homens se saem melhor do que as mulheres neste

teste e obtêm pontuações mais altas.” Depois, diferentes explicações foram

dadas aos diferentes grupos (menos o grupo de controle). A explicação

genética dizia: “A pesquisa mostrou que a superioridade masculina é

causada por fatores biológicos e genéticos.” A explicação do estereótipo

dizia: “Esta superioridade é causada por um estereótipo de gênero, isto é,

por uma crença comum na superioridade masculina em tarefas espaciais, e

não tem nenhuma relação com a falta de capacidade.” A explicação do

limite de tempo dizia: “A pesquisa mostrou que as mulheres, em geral, são

mais cautelosas do que os homens e requerem mais tempo para responder.

Daí, seu fraco desempenho se deve ao limite de tempo e não tem nenhuma

relação com a falta de capacidade.” Em seguida, o desempenho na TRM

voltou a ser medido.

As participantes que receberam as explicações do estereótipo e do limite

de tempo mostraram uma melhora significativa. Moè sugeriu que havia

“explicações externalizantes”, que o desempenho fraco não tem nenhuma

relação com a falta de capacidade, mas com algum tipo de estereótipo (que

vocês podem ignorar) ou alguma escolha estratégica em vez de

incompetência básica. Ela atribuiu o desempenho melhorado a um fator de

“alívio”, segundo o qual o nosso desempenho na tarefa pode ser atribuído a

fatores externos e não sugere que nascemos para ser inferiores. O grupo da

“genética”, que recebeu a mensagem “seu desempenho é uma medida de

sua incapacidade inata”, mostrou um declínio no desempenho. Devemos

observar que houve diferenças sexuais (os homens melhores do que as

mulheres) tanto antes quanto depois da fase de instruções, assim, não

podemos dizer que as explicações externalizantes contra-atacaram as

diferenças, mas mostraram que esse tipo de desempenho pode variar como

função das crenças que temos sobre o que era medido no teste, novamente

solapando quaisquer declarações de “solidez”.

É interessante observar que foram traçados paralelos entre os efeitos da

ameaça geral do estereótipo e a “ansiedade com matemática”, um problema

particularmente relevante para a realização na ciência.[41] Também é um

problema para o qual as mulheres parecem tender particularmente. Houve a

sugestão de que a ansiedade com matemática está relacionada a uma fraca

capacidade de processamento espacial, assim, é apenas uma avaliação

realista de suas chances de se dar mal. Mas se examinarmos como a

capacidade de processamento espacial é medida, frequentemente é por meio

de um questionário autorrelatado, o Questionário das Imagens Objeto

Espacial.[42] Isto inclui autoclassificação sobre declarações como “Sou

competente em jogos espaciais que envolvem a construção a partir de

blocos e papel” e “Posso imaginar facilmente e girar mentalmente figuras

geométricas tridimensionais”. Então, não é de fato uma medida da

capacidade, mas uma medida da crença em sua capacidade. Deste modo, a

ansiedade com a matemática pode muito bem mostrar que as mulheres que

acreditam que sua capacidade de processamento espacial é fraca ficam

compreensivelmente ansiosas com a realização de tarefas em que são

necessárias as habilidades espaciais. Voltamos à terra dos estereótipos e das

profecias autorrealizáveis.

No nível cerebral, estudos de ansiedade com matemática, desempenho

em matemática e ameaça do estereótipo mostraram como estes processos

são estreitamente interligados (e seus efeitos no comportamento também).

Em um estudo com EEG que investigou a ansiedade com a matemática,

aumentar a ameaça do estereótipo por meio de instruções (“Vamos

comparar sua pontuação com a de outros estudantes com o objetivo de

estudar as diferenças de gênero na matemática”) ativou centros afetivos do

cérebro e aumentou a atenção ao feedback negativo.[43] As estudantes deste

grupo também desistiram mais rapidamente e não fizeram uso dos tutoriais

on-line oferecidos. E, como você deve ter imaginado, elas se saíram pior do

que colegas que não sofreram a ameaça.

Um estudo com fMRI mostrou mais diretamente que a ativação da

ameaça do estereótipo estava associada com o recrutamento diferencial de

recursos do cérebro.[44] As mulheres que receberam instruções neutras antes de completar uma tarefa de matemática mostraram ativação das áreas em

geral associadas com a matemática, inclusive as áreas parietal e pré-frontal,

enquanto as mulheres que foram preparadas com o estereótipo de gênero de

fraco desempenho feminino na matemática ativaram áreas mais associadas

com o processamento social e emocional. Seu desempenho se deteriorou

com o passar do tempo no teste, novamente ao contrário do grupo que não

sofreu a ameaça.

 

Os hormônios e as habilidades espaciais

 

Já observamos algumas correlações entre níveis hormonais e habilidade

espacial em bebês humanos. Existiria alguma evidência de alguma ligação

casual de que níveis hormonais alterados podem levar a desempenho

visuoespacial alterado?

A manipulação direta de níveis hormonais evidentemente é rara em

estudos humanos e é difícil modelar o entrelaçamento da capacidade

espacial com a socialização, a experiência, as oportunidades de treinamento

e a exposição a estereótipos que vimos neste capítulo. As descobertas de

pesquisa com transexuais que passam por tratamento hormonal foram

variadas e em geral relatam diferenças insignificantes no desempenho em

tarefas espaciais entre participantes transexuais tratados e não tratados e o

grupo controle. Um dos estudos de melhor projeto mostrou ativação

cerebral reduzida em áreas parietais em transexuais homens para mulheres,

embora seu desempenho não tenha diferido do grupo controle de homens.

[45]

Estudos de distúrbios do desenvolvimento, como a HAC, deram

evidências de capacidade espacial mais elevada em meninas que foram

expostas a altos níveis de testosterona, confirmados por uma meta-análise

desses estudos, mas sugeriu-se que este pode ser um efeito indireto de um

interesse maior pela escolha dos brinquedos e por atividades “masculinas”.

Um estudo chefiado por Sheri Berenbaum, da Universidade Estadual da

Pensilvânia, testou este modelo em um grupo de meninas e meninos HAC

comparados com seus irmãos não afetados.[46] Usando uma gama de testes

de capacidade espacial, inclusive TRM, o estudo mostrou que as meninas

HAC tiveram uma pontuação significativamente maior do que suas irmãs

não afetadas, porém mais baixas do que os homens não afetados. Essas

meninas também tinham passatempos significativamente mais típicos de

meninos, e uma análise posterior mostrou que era esta variável que previa a

capacidade em TRM. Assim, o desempenho superior em TRM parece ser

uma consequência futura da experiência espacial, potencialmente ligada a

alguma preferência precoce pelo tipo de passatempo que oferece isto.

Lembrem-se de que o desempenho em TRM em bebês meninas típicas em

desenvolvimento foi negativamente afetado pelas visões estereotipadas dos

pais.[47] Lembrem-se também de que as meninas HAC pareciam menos

afetadas pela permissão generificada dada pelos brinquedos codificados por

cores.[48] Assim, esses estudos podem nos dar alguns insights novos sobre

os fatores enredados, biológicos e sociais, que contribuem para a

capacidade espacial.

 

Atualizando o estereótipo

da “leitura de mapas”

 

A alegação de que a cognição espacial é uma área em que a evidência de

diferenças sexuais é confiável e bem estabelecida (e pode, assim, servir

como um fórum adequado para considerar todos os aspectos destas

diferenças, especialmente a sub-representação das mulheres na ciência) não

resistiu a um exame atento posterior. É um estereótipo popular e antigo,

mas parece que existe um grau muito maior de semelhança do que se

pensava originalmente. Onde havia diferenças, elas podem ser função de

como este conjunto de habilidades é avaliado, de quem teve que

experiências relevantes e, enredado com estes e outros fatores, do papel da

crença pessoal e da ameaça do estereótipo. Sugestões de diferenças inatas e

diferenças biológicas causais estão inextrincavelmente relacionadas com expectativas de gênero e experiências generificadas. Usar o

“comportamento espacial” como nossa lente para o cérebro feminino ou

masculino parece ser um equívoco. Em suma, o estereótipo da “leitura de

mapas” precisa de atualização.

Longe de ser a prova padrão ouro de que a aptidão e as diferenças de

capacidade femininas-masculinas são arraigadas e fixas em suas diferentes

biologias, a cognição espacial nos dá um estudo de caso detalhado e

constante do poder do mundo para configurar estas habilidades individuais,

entrelaçadas ainda mais com o contexto social em que estas habilidades

podem ser usadas. Você pode ter os recursos corticais e cognitivos para ter

sucesso na ciência, mas um ambiente frio e pouco acolhedor a faz se afastar.

Como vimos, os estereótipos sociais têm uma característica

autossustentável pela qual, depois que passam a fazer parte do sistema de

orientação social de um indivíduo ou de uma sociedade, determinarão que o

indivíduo ou sua sociedade se comporte de acordo com as mensagens

incorporadas no estereótipo. Isto reforça a “verdade” do estereótipo e

fortalece ainda mais sua permanência. Os estereótipos não são apenas

reflexos inertes do sistema de crenças de uma sociedade; sua própria

existência pode influenciar o comportamento de membros desta sociedade:

ou o comportamento da sociedade em geral para com esses grupos que são

caracterizados pelos estereótipos, ou o comportamento de membros dos

próprios grupos. Com nossos cérebros preditivos procurando regras por aí,

os estereótipos podem ser adotados avidamente como um sistema de

orientação disponível com relação a quem faz ciência, neste exemplo. Um

precedente prontamente estabelecido será de que alguns tipos de seres

humanos não fazem ciência, sustentado por uma crença de que é assim

porque estas pessoas não podem. Então, que evitem erros de previsão e não

façam ciência. Se as pessoas são confrontadas com o fazer ciência,

processos de feedback geram sistemas de alerta perturbadores que têm

efeitos negativos no desempenho. Isto pode reforçar triunfantemente a

precisão do precedente “não faz/não pode fazer ciência” e aumentar o poder

futuro do sistema de sinalização de erro de previsão e a inflexibilidade

deste.

A sub-representação de mulheres nas áreas STEM é um problema

mundial.[49] A perda de capital humano tem efeitos negativos na ciência e

na comunidade científica; evidências claras de que isto não se deve à falta

de capacidade indicam um desperdício de potencial humano, com pessoas

plenamente capazes afastando-se (e sendo afastadas) de carreiras

satisfatórias. Historicamente apresentado como uma simples consequência

da biologia, agora está claro que este déficit surge de um entrelaçamento

complexo de cérebros e experiências, crenças pessoais e estereótipos,

cultura e política, vieses inconscientes e conscientes.

E nossa compreensão deste processo tem implicações para uma

compreensão mais geral de como o cérebro passa a ser generificado, como

as regras de orientação em nosso mundo dividido podem plasmar nosso

cérebro.

 

* Com efeito, em 2009, Wai e colaboradores relataram um estudo longitudinal com 400 mil

estudantes secundaristas americanos, cujo progresso acadêmico foi acompanhado por mais de

onze anos.[21] Foram encontradas evidências claras de uma ligação entre sua capacidade

espacial precoce e o sucesso em áreas STEM de nível universitário ou carreiras relacionadas com

STEM. É bem surpreendente que nem Lawrence Summers nem James Damore tenham escolhido

este artigo, porque poderia ter sido um fundamento muito mais firme para suas alegações.