Gênero e os Nossos Cérebros
8. Palmas para os bebês
CAPÍTULO 8:
PALMAS PARA OS BEBÊS
Nossa compreensão do que os recém-nascidos podem fazer (e como eles
por fim se desenvolvem em membros plenamente funcionais da raça
humana) tem sido caracterizada pelo conhecido debate “natureza X
criação”.
Na versão “natureza” da história, os bebês se desenvolverão seguindo
linhas predeterminadas, sendo o produto final praticamente fixo pelo
projeto genético de seus donos. Isto incluiria o cérebro e os
comportamentos que ele sustenta. Este programa embutido inexoravelmente
se desdobrará e determinará que tipo de adulto um bebê virá a ser, com
quaisquer diferenças sendo um reflexo das habilidades necessárias para esta
versão da espécie. Esta versão “a natureza manda” às vezes é conhecida
como o “modelo do bonde”, em que o destino é basicamente fixo pelo
ponto de partida e pelas rotas já estabelecidas. Há certa quantidade de
flexibilidade para lidar com as demandas em mudança, mas as flutuações
drásticas são evitadas; o produto final precisa ser bem adequado a seu papel
predeterminado. Biologia é destino.
O projeto genético incluirá, naturalmente, o sexo de um bebê. No que
Daphna Joel descreve como o modelo 3G,[1] a crença é de que os genes que
determinam diferenças características nos genitais e nas gônadas do bebê
também determinarão diferenças em seu cérebro. Estas diferenças cerebrais
“programadas” definirão as aptidões e capacidades de mulheres e homens
recém-chegados e os levarão a suas diferentes estradas na vida, chegando a
diferentes destinos marcados pelas diferentes ocupações e realizações dos
adultos que se tornaram. Quaisquer diferenças muito iniciais entre bebês
meninas e meninos será aclamada como prova da versão congênita, ou
“inata”, destas diferenças – e é bem possível que sejam prestativamente embaladas em textos apropriadamente codificados por cores chamados “É
uma Menina”, ou “É um Menino”, listando a “natureza singular,
maravilhosa e especial” destes recém-nascidos.
O outro lado da moeda é o que se chama de abordagem da “criação”,
focalizada na ideia de que os bebês humanos são “tabulas rasas” e que as
experiências pós-nascimento traçam seus efeitos. A premissa básica é que o
que os bebês e seus cérebros podem fazer, o conjunto de habilidades que
eles adquirem, a língua que vierem a falar, talvez até sua visão de mundo,
são inteiramente modelados pelo ambiente em que foram criados, pelas
experiências de aprendizado que têm e os papéis sociais que podem
encontrar. Essa abordagem dependente da experiência pode ser considerada
uma abordagem de “socialização”: os bebês aprendem a ser adultos
imitando o mundo adulto em que nasceram. As diferenças em como
meninas e meninos, mulheres e homens se comportam e o que eles realizam
não é determinada por alguma forma de pré-programação biológica, mas
por diferenças nas expectativas que seu mundo tem deles e pelas diferenças
nas experiências de vida que eles têm (ou lhes permitem ter).
Uma fusão mais contemporânea destas visões praticamente opostas
ainda implica características biológicas, mas estas recebem muito menos
força na determinação do produto final do que as versões iniciais de
“biologia é destino”. Nesta visão, você e seu cérebro podem começar em
uma trajetória bem padrão, mas depois podem ser desviados por pequenas
mudanças no que Anne Fausto-Sterling chama de “paisagem corrugada” de
uma via de desenvolvimento do cérebro.[2] Muitas vias possíveis estão
presentes no início da jornada e diferentes acontecimentos ou experiências
podem alterar a rota de uma via para outra. Estas mudanças podem ser
provocadas por desvios bem pequenos, refletindo variações mínimas na
vida da bebê, por exemplo, como a mãe fala com ela, ou o quanto ela foi
estimulada a ficar de pé e se deslocar.
Fausto-Sterling modelou estas primeiras interações comparadas com
capacidades posteriores e mostrou como diferenças muito iniciais nas
reações a bebês meninos e meninas são relacionadas com diferenças nas
habilidades (como o caminhar precoce) que, no passado, foram tomadas
como inatas.[3] Uma descoberta relativamente sólida sobre as diferenças
emergentes nas habilidades dos bebês é a de que os meninos tendem a se
movimentar mais e andar mais cedo; mas também é uma descoberta
relativamente sólida a de que os bebês meninos recebem mais “estímulo
motor” do que as meninas. Isto é verdade mesmo quando o menino na
realidade é uma menina, ardilosamente disfarçado em um macacão (então
os estereótipos podem ter sua utilidade!).[4] Como aprendemos no capítulo
anterior, o cerebelo, parte do cérebro central ao controle do movimento,
dobra de tamanho nos primeiros três meses de vida. Agora sabemos que ele
cresce significativamente mais rápido nos meninos, em média, do que nas
meninas.[5] Uma questão importante é se esta mudança impele as
habilidades de movimento nos meninos, ou se reflete as maiores
experiências de movimento que eles têm.
A principal mensagem aqui é que a trajetória de qualquer cérebro pode
não ser fixa, ela pode ser desviada por diferenças mínimas nas expectativas
e atitudes – podemos partir em uma rota, mas uma pequena bifurcação na
estrada nos manda para um caminho diferente. Se por acaso o desvio é
específico de gênero, então o vale no qual entramos pode nos levar a um
mundo de princesas cor-de-rosa, em contraposição ao reino do Lego para
onde nos encaminhamos em caso contrário. Este é um modelo muito mais
complexo de desenvolvimento do que o clássico “natureza X criação” – a
estrada que o cérebro em desenvolvimento pode seguir será determinada
por uma mistura estreitamente enredada de muitos fatores, inclusive as
características do próprio cérebro, mas também as partes bloqueadas ou os
desvios encontrados pelo caminho.
As descobertas sobre a eterna plasticidade e natureza “preditiva” de
nosso cérebro, que vimos no Capítulo 5, trouxeram mudanças tanto para o
argumento da natureza quanto para o da criação. A antiga ideia de
“natureza” agora se metamorfoseou em uma concepção de um sistema
programado e hormonalmente determinado em que o sistema de suporte
neuronal está em vigor ao nascimento, mas confere-se um papel
ligeiramente maior ao mundo. Em vez de um smartphone pré-carregado
com determinados aplicativos, o que o cérebro um dia pode fazer é determinado pelos dados que são inseridos. O sistema, porém, ainda será
limitado pela presença do aplicativo “certo” para determinada tarefa – se
não temos o Google Maps, será espinhoso encontrarmos o caminho. Este é
muito mais um modelo de “limites impostos pela biologia” do que um
modelo que propõe a biologia como um destino inflexível.
Por outro lado, em uma nova versão do argumento em prol da
“natureza”, se o cérebro é mais concebido como um “SMS preditivo”, então
o cérebro do bebê pode ser pensado como os primeiros estágios de um
sistema emergente de “aprendizado profundo”. Sistemas assim efetivamente
extraem regras das informações a que são expostos, com os mais avançados
acabando por dispensar alguma ajuda ou orientação explícita, mas usando
feedback do sucesso ou de tentativas anteriores para refinar seu próximo
envolvimento com o ambiente. Embora esses sistemas, baseados como são
no cérebro, sejam biologicamente determinados, é claro que são muito mais
fluidos e flexíveis, com mais “montagens suaves” temporárias para captar
os dados necessários e gerar um modelo adequado, cujo produto então
resulta em uma atualização e um novo foco na solução do próximo desafio.
Cada um destes modelos tem significado para nossa compreensão das
diferenças sexuais. Se não tivermos o aplicativo, não teremos os meios para
resolver o problema/participar do jogo/ler aqueles sinais emocionais
traiçoeiros. Por outro lado, talvez tenhamos o app, mas o mundo não nos dá
os dados. Ou os dados que conseguimos variam segundo uma função do
smartphone que somos: versões cor-de-rosa fofinhas conseguem um
conjunto de mensagens, as versões azuis blindadas, outro.
Mas ainda há a importante questão de quando tudo isso começa. Como
vimos no capítulo anterior, agora temos acesso muito melhor a cérebros de
bebês e às mudanças drásticas que acontecem nos primeiros anos. Mas o
que os bebês estão fazendo com esses cérebros? Será que estão
simplesmente ocupados com a aquisição das bases cognitivas para ver,
ouvir, se movimentar, encontrando formas de informar os dados corretos
para ajudar pelo caminho? O que mais eles podem estar aprontando? Será
que eles captam as regras sociais com a rapidez com que adquirem as
“competências cognitivas” essenciais? O trabalho de psicólogos do desenvolvimento e de neurocientistas cognitivos do desenvolvimento está
revelando algumas descobertas impressionantes sobre o mundo de nossos
bebês, ajudando-nos a entender o que eles podem fazer e quando, e até que
ponto podemos ver nossos humanos minúsculos como smartphones pré-
carregados ou aprendizes intensos e novatos.
Linguistas diminutos
Como o cérebro reage à fala ou a sons semelhantes à linguagem talvez seja
excepcionalmente importante para a bebê humana, que na maioria dos casos
se tornará parte de uma comunidade social que se comunica pela linguagem
ou por processos relacionados com a linguagem. O cérebro inacabado de
nossa nova bebê é incrivelmente bem equipado para imergir em sua
comunidade linguística, embora tudo o que pareça ser dado de bandeja
sejam alguns gorgolejos ou alguns gritos agudos em um volume espantoso.
Uma recém-nascida pode distinguir a diferença entre sons de fala gravados
quando tocados no sentido normal e ao contrário – diante disto, talvez não
seja uma habilidade obviamente útil, mas mostra que o cérebro já está
preparado para reagir a sons organizados em um padrão de fala e não
apenas a uma coleção aleatória.[6] A bebê também distingue a diferença
entre sua própria língua e línguas estrangeiras.[7] O que é impressionante,
ao chupar com mais ou menos entusiasmo uma chupeta, bebês de cinco dias
podem mostrar que sabem a diferença entre inglês, holandês, espanhol e
italiano.[8] Algum sinal de diferenças sexuais iniciais nesta habilidade que
se supõe seguramente generificado? Até agora nada foi relatado.
E um pouco mais tarde, quando as diferenças emergentes podem dar
pistas do caráter inato ou não da capacidade verbal? Uma diferença inicial é
relatada constantemente, com as meninas falando antes e mostrando
melhores habilidades de vocabulário e linguagem espontânea.[9] Como
acontece com tantas diferenças, o tamanho do efeito na verdade é bem
pequeno, e assim há uma considerável sobreposição entre meninos e meninas. Entretanto, a diferença, apesar de leve, parece ser verdadeira em
uma ampla gama de comunidades de linguagem, o que pode sugerir a
operação de fatores inatos. Mas os estudos de acompanhamento das
interações linguísticas entre mãe e bebê ao longo do tempo mostraram que
as mães verbalizavam mais com as meninas ao nascimento e ainda mais
tarde, aos 11 meses, e assim alguns fatores ambientais estão em jogo por
aqui.[10] Este é um bom exemplo da interação de fatores biológicos com
uma paisagem variável. O córtex auditivo em bebês se desenvolve
drasticamente nos primeiros meses depois do nascimento e o crescimento
das células nervosas e das conexões entre elas é dependente da experiência,
com os sons a que uma bebê é exposta acabando por determinar a(s)
língua(s) que ela reconhece e à qual reagirá.[11] Se as mães falam mais e
respondem verbalmente mais a meninas, estão proporcionando a suas filhas
uma “experiência de som” diferente. Como sugeriu Anne Fausto-Sterling,
talvez as habilidades iniciais de linguagem mostradas em meninas sejam
uma consequência das experiências de “chamado e resposta” (ou “serve and
return”, “dar e receber”, como também são conhecidas) que as meninas
tiveram.[12] Na realidade, já pode ter havido diferenças nos sistemas de fala
de meninas que deram início às diferentes reações de quem cuida delas,
antes de tudo, mas o princípio ainda é o mesmo: não é só a natureza, nem só
a criação, que determina o ponto final, mas o vaivém contínuo entre elas.
Como veremos posteriormente, o estereótipo da superioridade verbal
feminina não sobrevive a uma análise atenta. Existem distribuições
imensamente coincidentes de pontuações homens-mulheres e muitas
diferenças desaparecem quando são aplicados diferentes testes. Assim, o
que é muito incomum nesta história, existem centelhas de dessemelhanças
sexuais iniciais em alguns aspectos da aquisição da linguagem, mas sua
existência, e a busca por elas, baseia-se em uma crença em uma diferença
entre mulheres e homens adultos, diferença que, na verdade, parece ter
desaparecido.
Cientistas bebês
Se lhes pedissem para classificar as várias realizações de alto nível da raça
humana, a matemática e a compreensão das leis da física provavelmente
estariam bem perto do topo de sua lista. Também podemos caracterizar
estas proezas como realizáveis somente depois de muitos anos de instrução
formal e, mais ainda, além do alcance de muitos, não importa quantas
oportunidades estas pessoas tenham recebido. Então, você ficaria surpreso
em saber que bebês muito novos já apreenderam os princípios básicos da
ciência de alto nível. Dois dias depois de chegar ao mundo, sabem
distinguir a diferença entre números grandes e pequenos, associar explosões
curtas de bips a imagens que mostram alguns rostos sorridentes e explosões
longas de bips a imagens com muitos rostos sorridentes.[13] Dois ou três
meses depois, expressarão surpresa se uma bola não rolar da ponta do tubo
que viram rolar; [14] cinco meses depois, ficam perturbados quando o que
parece um líquido em um copo se mostra um sólido, quando seu canudinho
listrado para na superfície da falsa água em que foi mergulhado.[15] Assim,
em cinco meses de presença no mundo, os bebês já demonstram uma
apreensão da matemática básica (ou aritmética) e de física intuitiva, de
como os objetos se comportam normalmente e quais são as características
básicas das substâncias. A posse deste “conhecimento essencial”, como é
chamado, é ainda outra demonstração de como bebês humanos estão longe
de ser receptores impotentes ou passivos do mundo que os cerca, mas são
capazes de observações e interações incrivelmente sofisticadas com este
mundo.
Naturalmente, uma questão fundamental para nós é se existe ou não
alguma diferença sexual ao nascimento nestas aptidões intrínsecas. As
mulheres são sub-representadas nos campos STEM, no qual seria
primordial a habilidade física e matemática demonstrada por minicientistas.
Quem sabe, politicamente incorreto ou não, possamos procurar evidências
de que existe algum hiato de gênero inato? Se existem diferenças sexuais na
“sistematização”, em interesses em sistemas físicos baseados em regras e suas características, quem sabe estas sejam refletidas na emergência inicial
da habilidade de “física ingênua” demonstrável desde o nascimento?
Em todos os estudos da “física dos bebês” delineados anteriormente,
nenhum relatou qualquer diferença sexual. Precisamos ter isto em mente
quando mais tarde passarmos a examinar as bases do problema contínuo
com hiatos de gênero na ciência. Mas quem sabe se, desde o início, existam
mais diferenças genéticas, com os meninos mostrando uma preferência por
informações não sociais?
Acontece que as primeiras alegações de que isto foi demonstrado em
recém-nascidos têm sido objeto de algum debate. Um estudo de Jennifer
Connellan, do laboratório de Simon Baron-Cohen, foi amplamente citado
como prova de uma preferência masculina inata por objetos mecânicos em
lugar de rostos.[16] No estudo de Connellan, mostraram a recém-nascidos a
própria pesquisadora ou um móbile com formatos de rosto, em que tinham
colado fotos embaralhadas de partes do rosto dela. O tempo de exame dado
a cada um dos estímulos foi considerado medida de preferência. Vale a pena
explicitar em certo grau de detalhes as verdadeiras descobertas, para que
você veja por que as alegações feitas são um tanto surpreendentes. Das 58
meninas testadas, quase metade delas (27) não mostrou preferência pelo
rosto ou o móbile; do número restante, 21 olharam por mais tempo o rosto e
dez passaram mais tempo olhando o móbile. Dos 44 meninos testados, 14
não mostraram preferências, onze preferiram o rosto e 19, o móbile. Assim,
embora 40% dos bebês não tenham mostrado preferência nenhuma, o foco
principal na interpretação destes resultados estava na diferença entre as
proporções de meninos e meninas que mostraram preferência pelo móbile –
25% e 17%, respectivamente. Isto foi interpretado como evidência de uma
preferência masculina por objetos mecânicos, mostrando “movimento
psicomecânico”, em lugar do rosto, caracterizado por “movimento
biológico natural”. Os pesquisadores alegaram que, como os bebês eram
recém-nascidos, as diferenças tinham que ter origem biológica. Esta
descoberta foi saudada como importante, porque parece dar provas de que
as supostas diferenças sexuais nas habilidades sociais, ou em preferências pelo que prestamos atenção no mundo, estavam presentes desde o
nascimento.
As críticas ao estudo foram quase tão numerosas quanto as citações; por
exemplo, a pesquisadora não estava cega com relação ao sexo dos bebês
que testava e os estímulos eram apresentados um a um, e não juntos, como
é a prática padrão.[17] Em vista deste e de outros problemas, não surpreende
que o estudo não tenha sido reproduzido. Tivemos outros estudos fazendo a
mesma pergunta (rostos X objetos), mas foram realizados em bebês mais
velhos (veteranos de pelo menos cinco meses), e usaram brinquedos como
objetos, o que, como veremos, traz outras questões à mesa.[18] Mesmo que a
experiência tenha sido metodologicamente sólida, faz dela um estudo de
caso revelador de como descobertas aparentemente inequívocas podem
esconder uma história bem menos clara.
Porém, não estou dizendo que não existem evidências de diferenças
sexuais iniciais em habilidades relacionadas com a ciência. Como sabemos,
uma área que recebeu muita atenção é a capacidade de “rotacionar
mentalmente” objetos, dando uma habilidade de manipulação espacial que
alegam ser fundamental para compreender os principais conceitos da
ciência e da matemática.[19] A capacidade de rotação mental costuma ser
citada como uma das diferenças sexuais mensuráveis mais sólidas, com os
homens (em média) repetidamente superando as mulheres, com meta-
análises destes estudos falando em tamanhos do efeito de pequenos a
moderados.[20]
Assim, será esta habilidade evidente no início da vida, tendo em mente
que acharíamos difícil explicar a um bebê de um mês que queremos que ele
ou ela “imagine a manipulação de uma representação bidimensional de um
objeto tridimensional”? Os estudos com bebês tendem a usar a abordagem
“surpresa” ou “novidade” em que, seguindo-se várias repetições de pares de
imagens idênticas (digamos, do numeral “1” em ângulos diferentes),
mostra-se um par teste em que um integrante do par é uma imagem
especular do que teria sido sua outra metade correspondente. Como os
bebês mostram uma preferência por qualquer novidade, se eles notarem esta
mudança, passarão mais tempo olhando para este par incongruente.
A hipótese em um estudo que investiga a rotação mental em bebês de
três a quatro meses usou esta medição da preferência pela novidade.[21] Os
resultados contam que os meninos olharam o par novo em 62,6% do tempo
(uma diferença acima do acaso), comparados com apenas 50,2% do tempo
nas meninas. Com crianças um pouco mais velhas (seis a 13 meses de
idade) que realizaram uma tarefa semelhante, ambos os sexos olharam o par
com o estímulo da imagem especular por mais tempo do que o acaso.
Houve uma diferença sexual mínima, com os meninos olhando o par de
imagens especulares por um tempo 3,4% maior do que as meninas, mas as
pontuações eram imensamente coincidentes. Há um consenso geral, então,
de que os bebês meninos olham por mais tempo imagens em que a novidade
foi introduzida pela rotação de um dos constituintes. Mas isso não significa
necessariamente que as meninas não conseguem ver a imagem especular,
pode ser apenas que elas não tenham dado a mesma atenção que os
meninos. Também é possível que os estudos que não conseguem relatar
diferenças sexuais usem estímulos mais “interessantes”, como vídeos de
objetos em movimento ou objetos em 3D da vida real, e assim talvez as
meninas simplesmente não gostem de imagens de numerais ou formas do
tipo Lego, simples, em preto e branco. Porém, as diferenças sexuais
mínimas estão presentes (por enquanto).
Com relação a níveis mais elevados de habilidades cognitivas, como
conceitos de linguagem e da ciência, os bebês são surpreendentemente
sofisticados desde uma idade muito tenra. Tendo em mente que a fluência
verbal, a cognição espacial e a perícia matemática foram três das
competências essenciais que Eleanor Maccoby e Carol Jacklin, lá pelos idos
dos anos 1970, identificaram como mais confiáveis para demonstrar as
diferenças sexuais, podemos esperar que estas seriam claras desde muito
cedo. No entanto, faltam evidências, mas não por falta de tentativa. Em
2005, Elizabeth Spelke, que chefia o Laboratório de Estudos do
Desenvolvimento na Universidade Harvard e pesquisa a competência dos
bebês há décadas, publicou uma importante revisão crítica sobre o tema da
aptidão intrínseca pela matemática e pela ciência. Esta incluiu uma
consideração do trabalho dela própria e de outros sobre habilidades científicas em recém-nascidos e bebês. Ela é da firme opinião de que não
existem evidências de diferenças sexuais nesta fase: “Milhares de estudos
de bebês humanos, realizados por três décadas, não mostram evidências de
uma vantagem masculina na percepção, no aprendizado ou no raciocínio em
torno de objetos, seus movimentos e suas interações mecânicas.”[22]
Dada a existência constante de hiatos de gênero na sociedade, porém,
talvez devamos voltar nossa atenção às habilidades sociais, para ver se
existe alguma diferença em como bebês meninas e meninos passam a
assumir seu lugar na sociedade e se isto pode determinar as diferenças em
seus futuros destinos.
Bebês e rostos
Da mesma forma que a habilidade precoce para processar sons, como os da
língua, pode estabelecer as fundações para a futura socialização, alega-se
que uma capacidade precoce de processar rostos é uma habilidade essencial
para novos seres humanos. Se serão seres sociais, os bebês precisam
desenvolver esta habilidade eficientemente, o quanto antes, por terem
nascido com o “aplicativo de processamento de rostos” adequado; e/ou por
terem uma estrutura neural rudimentar em operação para avançar na
aquisição da competência necessária; e/ou por aprenderem muito
rapidamente a reconhecer que um rosto é um rosto, mas que alguns rostos
são mais úteis do que outros. E que as expressões nestes rostos também
podem ser pistas úteis de como os donos deles podem se comportar.
Primeiro de tudo, então, o que é um rosto e como um bebê pode
reconhecê-lo? Você pode pensar que um jeito fácil de responder a esta
pergunta seria mostrar a um bebê a foto de um rosto e a foto de outra coisa,
e ver o que prefere. Mas, como qualquer cientista cognitivo do
desenvolvimento lhe dirá, “acho que você vai descobrir que é um pouco
mais complicado do que isso”. Seriam os rostos “especiais”, com sua
própria rede cerebral dedicada ao processamento deles, o que faria de seu reconhecimento e de suas expressões uma atividade muito mais social, e,
assim, as pessoas que são boas nisso seriam marcadas como “boas
socializadoras”? Ou um rosto é apenas uma coleção de formas em
determinada configuração, geralmente uma espécie de triângulo com duas
formas redondas no alto e uma única forma mais para reta na base
(conhecido agradavelmente na área como uma “configuração assimétrica de
cima para baixo”)? Isto significaria que o processamento do rosto pode ser
classificado como uma forma mais superior de processamento visual e pode
ser controlado pelos sistemas que usamos para processar qualquer
informação visual.[23] A competência nisto não nos levaria necessariamente
para cima na escala da socialização. Será que o coração se acelerando, o
aumento na taxa de sucção do bebê, a boca se abrindo porque reconhece
você (e tudo que você significa para ele), possivelmente aumentando seu
próprio batimento cardíaco (astutamente) para garantir que você continue a
se esforçar para ter este reconhecimento? Ou será porque o bebê só está
reagindo a um conjunto específico de formas organizadas em um triângulo
de cabeça para baixo, que pode marcar pontos mais baixos nas apostas do
vínculo materno?
Esta pode parecer uma discussão do tipo “e daí?”, mas faz muito sentido
em termos da compreensão de como são “sociais” os bebês e da
precocidade com que começam. Uma teoria proposta por Mark Johnson, do
Birkbeck College, Universidade de Londres, dá um exemplo excelente de
como um sistema rudimentar recém-nascido pode rapidamente ser
sintonizado e refinado por estímulos do mundo, resultando em uma
habilidade sofisticada e altamente especializada, neste caso parte de um
repertório social essencial.[24] Ele sugeriu que os recém-nascidos têm uma
predisposição inata a se orientar para estímulos semelhantes a rostos, assim
não precisamos apresentar um rosto verdadeiro – bastam três bolhas de
cores vivas em uma configuração de olhos e boca dentro de um contorno no
formato de um rosto. Ele chama o sistema cerebral que escora isto de
“ConSpec” (porque, neste caso, acabará por ajudar seu dono a reconhecer
conspecíficos). As operações deste sistema, focalizadas em estímulos
específicos, influenciará o estímulo para o sistema de desenvolvimento visual e, por meio da segunda fase do processo (chamada “ConLern”,
relacionada com a aprendizagem), “orientará” a parte relevante do sistema,
que então se torna cada vez mais seletivo. Há um eco aqui, então, dos
precedentes preditivos que nosso cérebro continuamente cria para nós. Por
fim, este sistema facial começará a reagir a determinados tipos de rostos e
conseguirá localizar as diferenças entre rostos conhecidos e desconhecidos,
de homens e mulheres, deles próprios e dos outros. Além disso, o sistema
pode codificar para características mais sutis, como expressões emocionais
diferentes. E tudo isso no intervalo de três meses![25]
Desde o nascimento, os bebês são mais reativos a conjuntos de três
bolhas quando elas são organizadas como um rosto em vez de
aleatoriamente.[26] E justo quando pensávamos que devia existir uma idade
mínima limite para a participação nos estudo de psicologia do
desenvolvimento, algumas pesquisas muito recentes até mostraram que é
possível, acendendo-se tipos específicos de luz através da parede uterina,
mostrar uma versão correta e invertida das três bolhas a um feto no terceiro
trimestre de gestação.[27] Usando tecnologia de ultrassonografia em 4D,
pesquisadores conseguiram demonstrar que o feto voltará a cabeça
significativamente com mais frequência para a configuração correta (de um
rosto) de bolhas do que para aquela invertida. Assim, mesmo antes de entrar
no mundo, o bebê humano parece preparado para prestar atenção a um dos
estímulos sociais mais significativos que existem. Este foi um estudo em
pequena escala (o que não surpreende) que precisará de reprodução, mas
nos dá um insight intrigante de como os bebês estão prontos para a
experiência mesmo antes de nascerem.
Alegou-se que (em média) as mulheres adultas são melhores do que os
homens em alguns aspectos do processamento de rostos, como o
reconhecimento e a memória.[28] Então, poderemos dizer o mesmo de
crianças, especialmente bebês? Estaremos vendo algum mecanismo inato e
independente da experiência que invariavelmente se desenrola na criança
em desenvolvimento, ou que pelo menos fornece a base para suas
habilidades emergentes? Ou ser competente com rostos é algo ensinado, talvez mais a meninas do que a meninos, em vista da crença na aptidão
feminina para o papel de ser aquela que reconforta, aconselha, consola?
Com relação ao reconhecimento facial, muitos estudos confirmaram uma
superioridade feminina geral nesta habilidade, embora algumas pesquisas
sugiram que isto pode simplesmente se limitar ao fato de as mulheres terem
uma memória melhor para rostos femininos (conhecido como “viés do
próprio gênero”).[29] Ao examinarem os dados de quase 150 estudos
diferentes, Agneta Herlitz e Johanna Loven, psicólogas do Instituto
Karolinska, na Suécia, realizaram uma meta-análise que confirmou que as
mulheres, em média, são melhores no reconhecimento e na recordação de
rostos e que isto era válido não só para mulheres adultas, mas também para
crianças (com idades entre três e 11 ou 12 anos) e adolescentes (entre 13 e
18 anos).[30] Embora tenhamos visto anteriormente que os bebês são
excelentes processadores de rostos desde muito cedo, ninguém demonstrou
uma diferença sexual nesta fase. Esta meta-análise também demonstrou que
as mulheres, mesmo as muito jovens, eram muito melhores na lembrança do
rosto de outras mulheres do que os homens ao se recordar de rostos
masculinos. É interessante observar que ambas as observações têm
paralelos nas descobertas sobre o cérebro. Meninas e mulheres mostram
ativação na rede de processamento de rostos em estudos de fMRI de
reconhecimento facial, e também uma reação maior a rostos do próprio
grupo, maior que a dos homens.[31]
Então, de onde vem essa habilidade especial e por que as mulheres são
melhores do que os homens (em média, é claro), especialmente quando
olham rostos do próprio sexo? Uma explicação para a habilidade superior
de reconhecimento tem base no olhar, o papel do contato olho no olho no
estabelecimento da interação humana. Quanto mais tempo você olha, mais
informações pode armazenar sobre a pessoa observada, particularmente, é
claro, no rosto. Como vimos antes, embora isto não pareça uma boa
evidência de diferenças sexuais no olhar de recém-nascidos, aos quatro
meses de idade o olhar mútuo nas meninas era mais longo e mais frequente
que nos meninos, o que possivelmente é uma base para suas habilidades
emergentes de processamento de rostos.[32] Deste modo, talvez vejamos aqui a consequência de um aplicativo pré-carregado, com uma vantagem
feminina em uma habilidade social emergindo cedo e estabelecendo as
fundações para uma abertura posterior a futuros dados.
Um aspecto adicional deste louvor às habilidades femininas no
processamento de rostos é que as mulheres supostamente são muito
melhores na decodificação de expressões emocionais. Não só o absoluto
“Estou apavorado” comparado ao “Estou em êxtase”, mas também os
padrões faciais “Estou muito decepcionado” contra o “Isto pode ser bem
legal”.[33] A pesquisa sugere que as mulheres são melhores na “leitura de
pensamento nos olhos”, um teste concebido pelo laboratório de Simon
Baron-Cohen para avaliar a capacidade de reconhecer emoções como uma
medida de empatia, embora não tenha sido uniformemente reproduzido.[34]
Em 2000, a psicóloga Erin McClure realizou uma revisão imensa de
estudos sobre diferenças sexuais e no processamento de expressões faciais
(PEF) em bebês, crianças e adolescentes, numa tentativa de responder às
mesmas perguntas sobre a origem desta habilidade.[35] Seriam as mulheres
boas nesse tipo de coisa como uma característica inata, seriam treinadas
para ser boas ou o mundo tirou vantagem de uma habilidade com que elas
nascem? Ao identificar as mudanças ao longo do tempo que podemos
esperar para cada uma das possíveis rotas ao destino final de superioridade
feminina no processamento de rostos, McClure pôde investigar de onde
pode ter vindo esta diferença.
É significativo que sua revisão tenha mostrado que certamente havia
alguma indicação de superioridade feminina no PEF em todas as idades,
embora ela tenha notado a existência de um pequeno número de estudos
com bebês (o mais novo deles tinha três meses). Mas os tamanhos do efeito
eram relativamente constantes da primeira infância à adolescência. Então
isto se reduzia à biologia, à socialização ou à interação entre as duas coisas?
Houve alguma evidência de diferenças sexuais precoces nas estruturas
cerebrais que alicerçam o PEF, em particular a amígdala e partes do córtex
temporal. Possivelmente isto tem relação com efeitos hormonais nestas
estruturas (a amígdala tem uma alta densidade de receptores para
hormônios sexuais).[36] Também apareceram diferenças claras no fornecimento do que McClure chama de “estrutura emocional” associada
com o aprendizado para entender expressões faciais. Cuidadores
frequentemente acrescentam às suas interações com jovens bebês
expressões faciais exacerbadas (sorrisos largos, grandes Os de surpresa,
caras tristes exageradas como as de palhaços).[37] Alguns estudos
mostraram que isto variava, dependendo do sexo da criança, com as mães,
em geral, sendo mais expressivas com as filhas.[38] Este ensino precoce e
extra pode ser responsável pela maior capacidade de resposta de jovens
meninas a pistas emocionais das mães. E também é outro grande exemplo
de como uma diferença inicial não pode ser invocada como evidência pura
de diferenças em uma habilidade inata, mas parece ser o produto do vaivém
entre um sistema de dados prontos e aqueles que o mundo fornece.
Em um estudo, crianças de um ano sentadas alegremente em um tapete
com suas mães viram vários brinquedos desconhecidos, como um hootbot,
um robô coruja cujos olhos piscavam emitindo luzes e garras que estalavam
ritmadamente em um pedestal.[39] As mães foram instruídas a reagir de
forma feliz (expressão sorridente, vocalizações alegres) ou com medo (rosto
assustado, sons hesitantes). Os pesquisadores do desenvolvimento, sempre
fervorosos, classificaram a “referenciação social”, o número de vezes em
que a criança olhava a mãe antes de se aproximar do brinquedo (ou não), a
intensidade das mensagens que as mães enviavam aos bebês e o quanto a
criança realmente chegava perto do brinquedo. Além de comentários bem
sarcásticos sobre a ineficácia geral das mães na transmissão do medo
(deixando de lado que esta não foi uma audição em uma escola de teatro e
que essas mães podiam muito bem pensar nas consequências de longo prazo
de criar nos filhos uma fobia a corujas), observou-se que as mães enviavam
mensagens de medo muito mais intensas aos meninos. Porém, foram as
filhas que mostraram a maior capacidade de resposta às pistas que as mães
davam. Assim, aos 12 meses, os meninos não estavam ouvindo e as
meninas captavam sinais sociais, embora estes fossem mais sutis.
Sua revisão deste e de muitos outros estudos levou McClure à conclusão
de que uma superioridade feminina no PEF surge de uma sensibilidade
precoce biologicamente baseada em expressões faciais que é então mantida pela “estrutura” PEF dada pelo mundo em que ela nasce. Isto entra em
algum conflito com a falta de evidências em estudos de recém-nascidos,
mas as diferenças bem drásticas que surgem em três meses certamente
indicam ou que as meninas são biologicamente preparadas para ser mais
habilidosas nesta tarefa social fundamental, ou que a pressão do mundo em
que elas nascem garante que elas recebam fortes oportunidades de
treinamento.
Bebês como pessoas sociáveis
Ser um integrante do mundo humano é mais do que apenas reagir a visões e
sons. Requer também algumas habilidades sociais: precisamos conseguir
interagir com os outros – e as evidências de reatividade seletiva precoce a
alguns rostos e vozes e não a outros, a sons semelhantes na língua em vez
de campainhas ou latidos de cães, a expressões faciais felizes ou tristes
mostram que os recém-nascidos têm um “kit inicial” muito bom para ajudá-
los em sua jornada para se tornarem seres sociais.
Alega-se que a imitação, a reprodução de atos ou expressões de outra
pessoa, é uma arma poderosa nos “sistemas de envolvimento social” dos
bebês – na verdade, de qualquer pessoa. Além de ser a forma mais sincera
de lisonja, indica uma consciência de um “outro”: que existem pessoas no
mundo além de você e que elas fazem coisas que podem ser úteis, se você
fizer também. Precisamos compreender como podemos coincidir o que
fazemos e, portanto, aprender a habilidade que os outros já têm, seja jogar
críquete ou entender as regras sociais.
A imitação foi supostamente demonstrada em recém-nascidos, com os
pesquisadores diligentemente curvando-se sobre berços e mostrando a
língua, agitando os dedos, abrindo e fechando a boca como peixes de
aquário e/ou piscando intensamente.[40] Existem muitos relatos de todos
esses atos imitados por bebês de apenas horas de idade.[41] Evidências de
imitação em recém-nascidos são tomadas como provas de um sistema especializado inato, biologicamente determinado e programado para
garantir que façamos o necessário para ganhar nosso lugar no mundo social.
As versões iniciais do sistema de neurônios espelho, parte do cérebro social,
foram identificadas como o sistema cerebral herdado que fundamenta esta
habilidade.[42] Déficits posteriores em habilidades sociais, como a leitura da
mente ou a empatia, são explicados em termos de um sistema neuronal
especular disfuncional. Os que acreditam nesta abordagem foram chamados
de grupo “Homo imitans” ou os “pré-formacionistas”, na crença de que os
recém-nascidos chegam ao mundo com conhecimento pré-formado das
técnicas necessárias para adquirir habilidades cognitivas ou sociais.[43]
Existem outros que alegam que o que parece imitação é, na verdade, uma
coincidência acidental entre movimentos aleatórios de um recém-nascido e
a projeção entusiasmada da língua e a abertura da boca dos pesquisadores.
Ou que a projeção da língua é apenas algo que os bebês fazem quando
acontece alguma coisa interessante em seu novo mundo, que pode incluir
alguém mostrando a língua para eles ou, da mesma forma, segmentos curtos
da abertura de O Barbeiro de Sevilha (é sério, gente).[44] Uma revisão
examinou 37 estudos diferentes tentando mostrar que os recém-nascidos
imitavam 18 gestos distintos e concluiu que, de fato, a projeção da língua
era o único regularmente induzido.[45] Esta escola de pensamento alega que
a imitação genuína só surge de fato quando a criança já entrou no segundo
ano. Os proponentes desse argumento alegam que, se observarmos as
interações mãe-bebê, muitas envolvem algum tipo de comportamento de
imitação, mas é cinco vezes mais provável que as mães estejam imitando os
bebês do que o contrário.[46]
Então o que está acontecendo aqui é mais um processo interativo de
aprendizagem, com os atos dos bebês induzindo sessões de treinamento
pessoais, que por fim dão forma ao desempenho cognitivo ou social
adequado. A mãe/o pai/responsável é meio parecido com um primeiro
espelho do bebê – é assim que ficamos quando mostramos a língua,
mexemos os dedos, abrimos bem a boca; isto pode ser útil; aquilo, nem
tanto. Os pesquisadores que seguiram esta linha de raciocínio formam o
grupo “Homo provocans”, ou os “performacionistas”. Começamos a vida com um enorme potencial para o desenvolvimento cognitivo e social, mas
como nos desenvolvemos vai depender muito da vida que nos oferecem.[47]
E o gênero nessa história toda? Um estudo de Emese Nagy, psicóloga da
Universidade de Dundee, relatou que meninas recém-nascidas foram mais
ágeis e mais precisas na imitação de um movimento simples do dedo e
sugeriu que esta habilidade social precoce pode induzir mais aquelas
sessões de treinamento pessoal que mencionamos anteriormente, criando o
cenário para diferentes tipos de interações com os outros significativos,
mesmo que assumam a forma de eles imitando com entusiasmo o bebê em
vez de o contrário.[48]
O argumento do “jogo da imitação” é outra versão do debate sobre se os
bebês nascem com apps prontos para a experiência e surgem no mundo pré-
programados para corresponder ao que acontece nele, rapidamente capazes
de assumir seu lugar no endogrupo, demonstrando que “qualquer coisa que
você puder fazer, eu também posso”. Ou, por outra, eles chegam com um
aplicativo dependente da experiência, capaz de observar, ouvir e aprender,
mas precisam absorver gradualmente o que está por aí afora, modelado por
seu mundo, inicialmente por quem cuida dele, mas depois por meio do que
este mundo tem a oferecer. Como veremos, o que o mundo tem a oferecer
na forma de estímulo pode variar imensamente, dependendo das
oportunidades e expectativas gerais neste mundo, bem como diferenças
culturais específicas, definindo e induzindo o que é visto como
comportamento apropriado para o ser humano emergente.
Houve alguma sugestão de que os bebês são, na verdade, socializadores
proativos: que, como parte de seu repertório inato, eles sabem manipular os
que os cercam para interagir com eles (e não estamos falando do conhecido
rugido das duas da madrugada exigindo interação na forma de alimento
e/ou diversão). O psicólogo veterano Colwyn Trevarthen, da Universidade
de Edimburgo, há muito sugeriu que os bebês podem induzir reações sociais
e que eles se envolvem ativamente com seus cuidadores, correspondendo
sorriso com sorriso, “mu” com “bu”.[49] Quer esteja treinando ou sendo
treinada, a maioria das pessoas que têm alguma relação com os bebês sabe
que induzir um sorriso radiante em troca de vários minutos de caretas estranhas parece trazer suas próprias recompensas. E, mais importante,
aumentará a probabilidade de que venha a se repetir esse toma-lá-dá-cá.
Acontece, porém, que os bebês podem adquirir rapidamente, e pelo visto
sem esforço algum, um repertório impressionante de habilidades sociais que
vão incorporá-los firmemente em sua cultura e sociedade.
A pesquisa do olhar e do processamento de rostos mostrou que os bebês,
praticamente desde o nascimento, coletam informações a respeito de outros
significativos em seu círculo social, construindo rapidamente modelos para
sua “lista de contatos”. Mas interagir com os outros envolve mais do que
apenas monitorar as informações imediatas; também precisamos verificar a
história, levar em consideração outras pistas e dicas. Por que esta pessoa
está dizendo isso, e por que está dizendo desse jeito, e o que devo fazer a
respeito disso? Por que elas me olham desse jeito e, de novo, o que devo
fazer a respeito disso? Precisamos entender as intenções, fazer previsões,
selecionar a partir de nosso repertório de reações (ou até inventar umas
novas). Como as bebês meninas parecem mais sensíveis a informações
sociais que recebem, talvez sejam mais envolvidas com este aspecto de seu
mundo social.
Existem pistas precoces muito claras de que os bebês são observadores
de gente, como todos nós. Sente-se na frente de um bebê de cerca de nove
meses e olhe fixamente para algo à esquerda. Logo o bebê olhará para lá
também.[50] E o apontar? Alinhar um de nossos dedos com um objeto
distante, ao que parece, talvez não seja um sinal social sofisticado, mas na
realidade é. Estamos dando o que pode parecer um sinal arbitrário de que
existe alguma coisa de interesse para a qual queremos chamar a atenção dos
outros e se eles se derem ao trabalho de alinhar os olhos com o facho
invisível da ponta de nosso dedo, então também poderão partilhar de nosso
fascínio. Assim, é uma comunicação social relativamente complexa, mas
bebês novos, de nove meses, a captam, não só olhando o que apontamos,
mas muito em breve adotando a técnica em seu arsenal “quero isso/pegue
aquilo”.[51] Não foi relatada nenhuma evidência de diferenças entre os
sexos e, assim, esta arma específica no arsenal da atenção parece ser
igualmente compartilhada.
Uma boa medição das habilidades sociais de um bebê em
desenvolvimento é quando e como surge a teoria da mente, que vimos no
Capítulo 6. Como vimos anteriormente, o olhar é uma medida inicial da
emergência da atenção compartilhada e do entendimento de que se os olhos
não estão voltados para você, então eles podem, por mais difícil que seja
acreditar nisso, olhar algo mais interessante do que você. Além do mais,
pode valer a pena verificar isso também. Este compartilhamento de
informações é considerado um dos primeiríssimos estágios da aquisição de
uma teoria da mente – é interessante observar que uma incapacidade nesta
atenção compartilhada pode ser um sinal precoce de distúrbio do espectro
autista, um problema de desenvolvimento caracterizado principalmente por
um déficit central no comportamento social.[52] Para sermos leitores de
pensamentos plenamente qualificados, precisamos também entender que o
que as pessoas têm “na cabeça delas” impelirá seu comportamento e que às
vezes elas terão informações diferentes sobre nós, talvez (e não existe um
jeito fácil de dizer isso) devido a algo que nós sabemos que sabemos que
eles não sabem. Como podemos testar isso em crianças que só têm uma
linguagem muito simples e mais nenhuma outra?
Os psicólogos do desenvolvimento diabolicamente astutos, como
sempre, têm meios de descobrir essas coisas. Eles conceberam tarefas “e
se”, nas quais o resultado é uma medida de se a criança tem ou não uma
teoria da mente. Uma destas é uma tarefa de “falsa crença” e embora use
bonecos ou personagens de livros, na verdade é muito complicada.[53]
Existe uma história se desenrolando, em geral envolvendo dois
participantes, e quem a assiste consegue enxergar os dois lados da história.
Essa história incluirá uma mudança na situação que será conhecida apenas
por uma das personagens.
Um bom exemplo é a tarefa “Maxi e o chocolate”. Cena 1: Maxi coloca
seu chocolate no armário e sai da casa. Cena 2: a mãe de Maxi (Maxi ainda
está lá fora) pega o chocolate no armário e o coloca na geladeira. Cena 3:
Maxi entra para pegar o chocolate. Onde Maxi vai procurar pelo chocolate?
Se você tem uma teoria da mente, vai indicar o armário porque sabe que é
ali que Maxi pensa que está (embora você saiba que ele foi transferido). Assim, você entende que Maxi tem uma falsa crença sobre o paradeiro do
chocolate e que isso norteará seu próximo passo. Se você ainda não entrou
no jogo da teoria da mente, vai indicar a geladeira, porque foi onde viu que
o chocolate foi colocado. Você supõe que o que está em sua mente é igual
ao que está na mente dos outros. Isto parece uma habilidade social de alto
nível, mas é uma tarefa realizada com sucesso por quase todas as crianças
de quatro anos (e algumas de três).[54]
Assim, o olhar e a atenção compartilhada nos mostram que mesmo bebês
muito pequenos têm habilidades simples de leitura de pensamento, podem
identificar o que interessa aos outros e entender que existem outras
perspectivas por aí. Como vimos anteriormente, existem pistas emergentes
de que há diferenças sexuais precoces no olhar e na reatividade a diferentes
emoções, com as meninas, em média, parecendo ter mais “dados prontos”
para estes aspectos do estímulo social. Aos quatro anos, as crianças
parecem ser telepatas altamente sofisticadas, passando facilmente por
tarefas de falsas crenças que mostram que elas estão cientes de que os
Outros podem ter perspectivas diferentes das delas.[55] Aqui, porém, não há
evidências conclusivas de diferenças sexuais em crianças de
desenvolvimento típico. Assim, embora as meninas pareçam ter uma antena
mais sensível em algumas técnicas de captar as regras do engajamento
social, como (possivelmente) a imitação e o olhar, e têm a vantagem em
algumas habilidades sociais úteis, como reconhecer rostos e captar
diferenças emocionais, isto não se traduz necessariamente em uma
vantagem plena na leitura da mente.
Porém, ser social também significa entender as regras e normas do
mundo em que vivemos. Com relação às habilidades cognitivas, vimos
antes que os bebês podem ir além da simples consciência de visões e sons e
mostrar provas de apreensão dos princípios básicos dos números e da
ciência. Será que nossos minimatemáticos também demonstram algum sinal
de compreensão das leis da sociedade?
Minimagistrados
Imagine a seguinte hipótese. Uma juíza observa três indivíduos
representando peças de minimoralidade. Um dos atores, distinguido pelo
macacão amarelo, tenta abrir a tampa de uma caixa em que está um prêmio
cobiçado, mas tem enorme dificuldade e evidentemente não consegue fazer
isso sozinho. Em uma versão da história, um dos outros participantes,
distinguido pelo macacão vermelho, ajuda o Macacão Amarelo a abrir a
tampa e pegar o prêmio. Em outra versão, o segundo participante, usando
um macacão azul, pula na tampa da caixa e impede o Macacão Amarelo de
abri-la. A juíza então é solicitada a indicar se prefere o Macacão Vermelho
(o Ajudante) ou o Macacão Azul (o Estorvo). A juíza escolhe o Macacão
Vermelho! Cenários diferentes incluem Ajudantes empurrando o
participante batalhador morro acima, ou devolvendo uma bola perdida,
contra Estorvos impedindo que algumas coisas boas aconteçam. Depois de
várias repetições da peça, com diferentes juízes (e o equilíbrio cuidadoso de
quem veste qual cor de macacão), fica claro que os juízes quase sempre
ficam do lado do mocinho. O que é impressionante nisto é que os juízes, na
verdade, são bebês de três meses, vendo coelhos de brinquedo com
macacões e sinalizando sua aprovação ao coelho Bom Samaritano ao
estender a mão para ele quando têm a chance.[56]
Essas peças de moralidade infantil foram concebidas pelos psicólogos
Paul Bloom e Karen Wynn, agora na Universidade da Colúmbia Britânica, e
Kiley Hamlin, de Yale, com suas respectivas equipes de pesquisa. Eles
estudaram intensamente a existência de habilidades de avaliação moral em
bebês muito pequenos, sua perícia para localizar as regras sociais da
sociedade educada.[57] Como nas escolhas mais simples de mocinho e
bandido, eles conseguiram mostrar a sutileza emergente nas decisões de
bebês sobre o que constitui um mocinho. Usaram bebês de cinco e oito
meses e, primeiro, mostraram a peça moral de abrir a tampa ou bater na
tampa. Depois observaram se o Ajudante (Alvo Pró-social) ou o Estorvo
(Alvo Antissocial) brincavam com a bola, que ele largou. Ela era depois
devolvida por um Doador ou tirada por um Tomador. Os minijuízes, então, tinham de indicar sua aprovação ou reprovação ao Doador e ao Tomador.
Os bebês de cinco meses preferiram o Doador, fosse o Alvo Pró-social ou
Antissocial que tivesse sido ajudado. Os bebês de oito meses foram mais
judiciosos na avaliação. Escolhiam o Doador se o Alvo Pró-social deixava
cair a bola, mas escolhiam o Tomador se quem deixava a bola cair era o
Alvo Antissocial. Assim, bebês de menos de um ano não só reagem a
acontecimentos imediatos que se desenrolam na frente deles, como também
levam em conta o comportamento anterior “bom” ou “mau”.[58] Talvez
devamos baixar a idade para a magistratura!
Nenhum dos estudos publicados relata nenhuma diferença sexual.
Perguntei aos pesquisadores se era assim porque elas inexistiam, ou porque
os números eram pequenos demais para fazer comparações adequadas (ou
porque eles queriam evitar este vespeiro!). Eles responderam que nunca
encontraram nenhuma diferença entre gêneros em todos os seus estudos
dessas crianças muito novas. Então, a essa altura da vida, ambos os sexos
parecem igualmente bons na captação de regras fundamentais de
comportamento social, pelo menos quando se trata de decisões de
Coelhinho Bom/Coelhinho Mau, e cuidam para que o Coelhinho Mau tenha
o castigo que merece.
Como na compreensão do tipo cognitivo de sutilezas sociais, a maioria
das habilidades sociais também tem um componente afetivo, em que
precisamos partilhar os sentimentos dos outros, bem como compreender
suas intenções e motivações. Mais uma vez, podemos encontrar evidências
de que os bebês são capazes deste comportamento.
Assistentes sociais diminutos
A empatia, a compreensão das emoções dos outros em particular, mas
também de seus pensamentos e intenções em geral, é uma habilidade
fundamental para se tornar um membro bem-sucedido de um grupo social e
assim permanecer. Uma pessoa verdadeiramente empática não apenas “lê” a angústia nos outros, ela compartilha ativamente de seus sentimentos,
possivelmente tornando-se angustiada ela própria. Assim, existem um
componente cognitivo e outro emocional ou afetivo na empatia.[59]
Como disse em capítulos anteriores, Simon Baron-Cohen propôs que
empatizar e sistematizar eram duas características fundamentais da mente
humana e, mais ainda, que elas alicerçam aspectos fundamentais das
diferenças entre os gêneros. Ele declarou firmemente que as mulheres são
melhores no empatizar e que o cérebro feminino é programado para a
empatia, embora, como observei antes, ele também diga que não é preciso
ser mulher para ter competência na empatia, nem é preciso ter um cérebro
feminino. Assim, se esta é uma diferença sexual genuína, na verdade uma
diferença sexual “essencial”, e programada desde o início, é de se esperar
que esteja presente ao nascimento ou certamente surja pouco depois disto.
Se tocarmos para um bebê o choro de outro bebê, muito em breve ele
chorará também.[60] Isto é descrito como “choro contagiante” e pode sugerir
algum nível de sentimento de companheirismo pelo amigo gritão. Mas
também foi rejeitado por ser apenas uma forma de aflição pessoal (“Eu não
gosto nada desse barulho”) em vez de uma medida verdadeira de
preocupação pelo outro bebê. Assim, não existe acordo sobre a existência
de empatia nos bebês de ambos os sexos.
A maioria dos estudos recrutou bebês um pouco mais velhos, entre oito e
16 meses, depois de eles terem um repertório inicial de gestos e expressões
faciais que podem ser “codificados” pelos pesquisadores que procuram
evidências de empatia. Para estudos como esses, em geral uma mãe
participa junto com a prole, “abrindo o berreiro” vigorosamente depois de
fingir bater um martelo de brinquedo no polegar ou esbarrar em um móvel.
[61] Então, o que a bebê faz? Algum sinal de testa franzida? Isto é uma
medida de “afeto preocupado”. Será que nossa miniempatizadora, enquanto
observa a mãe martelando o polegar, esfrega o próprio polegar ou olha
ansiosamente os outros adultos na sala? Será que a filha observadora mostra
sinais de choramingar ou de chorar? Estas reações dariam altas pontuações
na escala de aflição. E, por fim, será que a bebê acaricia a mãe
“machucada” ou oferece “verbalização pró-social repetida” (a versão dos bebês de “Pronto, passou”)? Isto daria um 4 na escala de “comportamento
pró-social”. Conforme medidas por “indícios de empatia” (como a testa
franzida), existe alguma evidência de diferenças sexuais começando a surgir
aos dois anos. Há também medidas físicas, como sinais de aflição
(alterações no batimento cardíaco, dilatação da pupila, reações de
condutância cutânea) quando confrontadas com “cenários negativos”
envolvendo os outros, por exemplo, alguém batendo a mão na porta do
carro. Mas estas diferenças entre os gêneros não parecem estar presentes ao
nascimento e, assim, a vantagem supostamente conferida pela programação
da empatia não se mostra muito cedo ou, pelo menos, só quando já
avançamos no segundo ano.
Isto entra em desacordo com as alegações da equipe de Simon Baron-
Cohen, mas eles basearam suas alegações em uma bateria diferente de
medições. Uma delas, a preferência em recém-nascidas por rostos humanos
comparada com a preferência de bebês meninos por móbiles, restringiu-se,
como sabemos, à pilha do “definitivamente podia fazer melhor e precisa de
reprodução”. O contato visual foi designado como uma medida precoce de
empatia e um estudo de 1979, que descobriu que meninas recém-nascidas
olhavam por mais tempo quem cuidava delas do que os meninos, é citado
em apoio a isto; contudo, não foi reproduzido com sucesso em um estudo
de 2004, embora, como vimos anteriormente, foi encontrado contato visual
mais longo nas meninas mais velhas (de 13 a 18 semanas).[62] Os autores
deste estudo de 2004 concluíram que “o aprendizado social [o grifo é meu]
pode ser o ímpeto primário para o desenvolvimento de diferenças de gênero
em comportamento de troca de olhares nos primeiros meses de vida”.
A detecção do olhar (isto é, localizar se alguém está olhando para nós ou
desviando os olhos de nós) supostamente também faz parte da bateria da
empatia, ou pelo menos é uma medida da compreensão de que “rostos
podem refletir estados íntimos de parceiros sociais”.[63] Os recém-nascidos
mostram clara evidência de preferir direcionar a desviar os olhos, mas não
foi relatada nenhuma diferença sexual.[64]
Porém, sem dúvida existem diferenças entre os gêneros na empatia em
estudos com bebês mais velhos e crianças. A equipe de Baron-Cohen relata pontuações mais altas na empatia para meninas de quatro a 11 anos em uma
versão infantil das escalas de Quociente de Empatização e de Quociente de
Sistematização, com os meninos marcando mais pontos neste último.[65] (É
importante lembrar, como observamos antes, que as pontuações nestas
escalas se baseiam em classificações dadas por pais de como os filhos se
comportaram e, portanto, talvez seja uma medida pouco objetiva.)
Mais recentemente, reações cerebrais foram acrescentadas ao portfólio
de medidas, com medições em fMRI captando atividade aumentada em
partes do cérebro associadas com a “matriz da dor”.[66] Kalina Michalska,
neurocientista do desenvolvimento da Universidade da Califórnia, e
colaboradores compararam o autorrelato, a dilatação da pupila e a atividade
no fMRI em 65 crianças com idades entre quatro e 17 anos. Nas medidas de
autorrelato, surgiu um padrão interessante. Embora houvesse pouca
diferença nas pontuações de empatia no nível de quatro anos de idade, as
pontuações masculinas diminuíram significativamente com a idade,
enquanto (você deve ter adivinhado) as pontuações femininas aumentaram.
Mas nenhuma das medições implícitas, de dilatação da pupila e ativação
cerebral, mostrou qualquer diferença sexual, embora as meninas tenham
relatado ficar consideravelmente mais aborrecidas do que os meninos com
os vídeos que assistiram.
Assim, parece que os sinais iniciais de empatia não se diferenciam entre
os sexos, e, mais tarde, são apenas as avaliações pessoais que se encaixam
no modelo de “mulher empática”. Como supôs um estudo, que não
encontrou evidências de diferenças sexuais na empatia precoce, “As
diferenças de gênero na empatia podem se tornar mais destacadas depois da
transição para o meio da infância, quando as crianças internalizam
expectativas sociais relacionadas com papéis e identidade de gênero por
meio de processos de aprendizado social e agem de acordo com eles”.[67]
Inclusive preencher um questionário para demonstrar como são empáticas,
não?
Os cérebros por trás de tudo?
Ao examinarmos adultos, temos alguma ideia das habilidades que os
tornam seres sociais e cooperativos e das redes cerebrais que fundamentam
esses processos. Sabemos que estas habilidades precisam estar sintonizadas
com o ambiente, que lhes fornecerá dados para atribuir uma importância
maior ou menor aos acontecimentos. Precisamos ter a capacidade, por
exemplo, de localizar diferenças mínimas em identidade facial e expressão
emocional, ou captar dicas não verbais sobre a que devemos dar atenção e
por quê. Vimos que bebês muito novos têm pelo menos versões
rudimentares destas habilidades – será que as redes cerebrais que as
fundamentam são as mesmas dos adultos? Como o ambiente refina ou
calibra estas redes? A identificação das bases cerebrais deste processo de
calibração no bebê em desenvolvimento pode nos dar insights do grau de
precocidade em que entra em vigor esta estrutura cerebral social e como sua
construção pode refletir o efeito do mundo da criança em desenvolvimento.
Como vimos, o processamento de rostos em bebês é evidente desde o
começo. Assim que chegam ao mundo, os recém-nascidos preferem rostos e
padrões em forma de rosto a outros estímulos. A ideia de um sistema
embutido de preferência por rostos, sugerida por Mark Johnson, baseia-se
no fato de que esta preferência parece preceder o amadurecimento do
sistema visual (em outras palavras, antes que os olhos dos bebês sejam
plenamente funcionais); assim, esta preferência não é apenas uma reação a
um padrão visual comum. Mas, desde muito cedo, bebês e seus cérebros
mostram reações corticais sofisticadas que combinam com aquelas dos
adultos. Bebês bem novos, de três meses, mostram o mesmo tipo de reação
cerebral dos adultos a rostos e estímulos semelhantes, que se dão em partes
do cérebro semelhantes àquelas que lidam com o processamento facial em
adultos.[68]
Johnson observou que a identificação de mudanças relacionadas com a
idade no cérebro e as capacidades de processamento de rostos dos bebês
fornecem insights poderosos sobre a sintonia fina dessa importante
habilidade social. Os bebês gostam de rostos, em geral, sobretudo, o das mães, mas inicialmente são alegremente indiscriminados quando se trata de
outros rostos; os recém-nascidos não mostram preferência pela própria raça
em contraposição a rostos de outras raças, mas quando chegam aos três
meses começam a exibir esta forma inicial de discriminação
endogrupo/exogrupo.[69] Os pesquisadores também mostraram que este
efeito da própria raça é uma medida poderosa de estímulo ambiental,
porque não aparece em bebês criados em um ambiente racial diferente do
deles.[70] Assim, não parece existir nenhuma preferência embutida por
“pessoas como eu”; isto é algo que aprendemos.
Assim como as diferenças raciais, as crianças discriminam mais rostos
conhecidos e desconhecidos durante o primeiro ano de vida, mas existem
evidências de que, mesmo entre os oito aos 12 anos elas estão processando
rostos de forma diferente dos adultos, com regiões específicas para rostos
no cérebro sendo ativadas por uma ampla gama de estímulos semelhantes a
rostos.[71] Assim, mais uma vez, um aspecto crucial do comportamento
social, embora presente muito cedo na vida, leva vários anos para chegar a
seu ponto final, e depois de muita experiência no mundo social.
Outro exemplo de sintonia fina é a formação e depois o rompimento de
uma ligação entre o olhar e o processamento facial. Sabemos que o olhar é
uma parte fundamental da comunicação social; uma conversa rapidamente
se desintegrará se não houver pelo menos alguma troca de olhares entre os
falantes. Os recém-nascidos parecem conscientes deste processo e preferem
rostos quando os olhos estão voltados diretamente para eles; rapidamente
ficam aflitos se lhes mostram um rosto com o olhar desviado.[72] Em
adultos, os sistemas de controle do olhar no cérebro são distintos da rede de
processamento facial e mais estreitamente relacionados com a rede da teoria
da mente, sugerindo que o olhar, à medida que envelhecemos, é destacado a
um papel mais genérico na leitura da mente e na interpretação das
intenções.[73] Em bebês de quatro meses, porém, a atividade cerebral
induzida pelo olhar direto é mais estreitamente associada com a área de
processamento de rostos.[74] Então aqui temos um exemplo de uma
habilidade social muito focalizada, exibida por jovens bebês, adaptando-se
a um leque mais amplo de exigências sociais. Ou, pensando de outra forma, um aplicativo social rudimentar recebendo uma atualização dependente da
experiência para se ajustar a atividades mais sofisticadas.
O processamento da emoção sinalizada por rostos vem depois do
reconhecimento dos próprios rostos. Até que ponto os cérebros mínimos
dos bebês são sofisticados quando se trata dessa parte fundamental do
desenvolvimento das habilidades de ler a mente? Os estudos iniciais
sugerem que os bebês de seis ou sete meses reagem mais a rostos temerosos
do que aos felizes, com a atividade cerebral surgindo das áreas frontais,
inclusive nosso amigo, o córtex cingulado anterior.[75] Significaria, então,
que bebês só reagem a emoções negativas, e não a positivas, talvez porque
possam ser mais úteis para a sobrevivência? Mas se pegarmos o cérebro de
um bebê para comparar rostos demonstrando raiva ou outro tipo de emoção
negativa, com rostos felizes, neste caso, os felizes têm o voto do cérebro.[76]
Quem sabe bebês estejam mais acostumados a rostos felizes (supondo-se
que nossas socialites emergentes estejam cercadas principalmente de
sorrisos)? Mas está claro que, antes de um ano de idade, as crianças têm os
recursos neurais certos para saber se estão olhando alguém que está triste,
feliz, temeroso ou com raiva, o que é uma habilidade social muito útil para
se adquirir bem cedo.
Compartilhar uma experiência é uma característica essencial do
envolvimento social. No nível do adulto, pode ser uma cotovelada nas
costelas e um movimento do queixo para algum acontecimento externo que
pode provocar uma sobrancelha erguida, um esgar, um muxoxo, até um
sorriso. Como atraímos a atenção de um bebê muito novo para alguma
coisa? Aqui o olhar é útil novamente; podemos monitorar as reações
cerebrais do neném quando, por exemplo, um adulto olha para um bebê e
depois a tela de um computador que mostra um novo objeto, um comando
tácito de “Ei, olha isso aqui”. Tricia Striano, neurocientista cognitiva de
Leipzig, demonstrou atividade aumentada nas áreas frontais do cérebro
usando este paradigma.[77] Como observamos no capítulo anterior, parece
que as áreas pré-frontais do cérebro do bebê não são tão funcionalmente
silenciosas como pensávamos.
A identificação de uma linha do tempo para a emergência da cognição
social, como fizeram as neurocientistas cognitivas Francesca Happe e Uta
Frith, do Reino Unido, confirma que as habilidades sociais de alto nível e
seus fundamentos neurais estão em operação no ser humano desde uma
idade muito tenra.[78] As aparentes buscas por uma compreensão da
sociedade e dos outros parece preceder o surgimento de habilidades
cognitivas.
Como acontece com frequência na psicologia e na neurociência,
podemos aprender muito sobre um processo baseado no cérebro estudando
como ele se desenvolve ao longo do tempo, ou quando faz sua transição de
uma fase para outra. A disponibilidade de técnicas melhores para estudar o
cérebro de bebês, combinada com a eterna engenhosidade de psicólogos do
desenvolvimento na elaboração de testes astutos das habilidades de bebês,
está nos dando insights extraordinariamente reveladores sobre os poderosos
processos por trás da formação de um ser social.
Tudo isso deve nos fazer parar para pensar no mundo que estes cérebros
questionadores estão encontrando. As crianças muito pequenas são esponjas
sociais diminutas, ávidas por experiências, prontas para se envolver com o
que seu novo mundo tem a oferecer. Mas o que exatamente o mundo tem
reservado para elas?