Gênero e os Nossos Cérebros

Gina Rippon · Capítulo 18 de 46

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Gênero e os Nossos Cérebros

12. As meninas boazinhas não fazem

CAPÍTULO 12:

 

AS MENINAS BOAZINHAS NÃO FAZEM

 

Estamos criando nossas meninas para que sejam perfeitas e nossos meninos para que

sejam corajosos.

RESHMA SAUJANI, FUNDADORA DO GIRLS WHO CODE

 

Desde o momento do nascimento (e até antes), nosso cérebro é confrontado

com diferentes expectativas de familiares, professores, empregadores, a

mídia e, por fim, nós mesmos. Mesmo com o surgimento da incrível

tecnologia de imagem cerebral, homens e mulheres ainda engolem o

conceito do cérebro masculino e do cérebro feminino, cujas diferenças

inatas determinarão o que eles poderão ou não fazer, o que realizarão e não

realizarão.

Agora temos uma consciência muito maior do papel essencial que tem

em nosso desenvolvimento nos tornarmos seres sociais, como nosso cérebro

preditivo está constantemente em busca de regras sociais de engajamento,

como nossa identidade pessoal e nossa autoestima são fundamentais para

nosso bem-estar. Em especial, também está claro como isto pode ser

ameaçado por encontros com estereótipos negativos ou a rejeição social.

É aqui que podemos encontrar explicações para os hiatos de gênero que

têm sido o centro de tanta atenção há tantos anos. Será que toda esta jornada

generificada mudou o veículo para navegar pelo terreno? Assim, mesmo

que façamos tentativas hercúleas de nivelar a rota ou eliminar outras placas

de sinalização desinformadas, será que temos um cérebro que não é mais

apto para sua finalidade, cujo jeito de lidar com o mundo é arraigado

demais, cujos precedentes são por demais estabelecidos para ser alterados?

Vamos rever o que sabemos sobre o cérebro social e ver se as diferenças

sexuais/de gênero sobre as rotas “recomendadas” para ser social podem ter

impacto em cérebros viajantes.

 

Sistemas de alarme no cérebro

 

Na literatura populista baseada no cérebro, muito se diz sobre a diferença

entre a parte altamente desenvolvida de processamento de informações de

nosso cérebro e a parte mais primitiva, irracional e emocionalmente

carregada. Pode-se caracterizar o sistema cognitivo, em particular o córtex

pré-frontal, em termos de Sherlock Holmes: rigidamente racional,

implacavelmente lógico, um sistema executivo focalizado e encarregado do

planejamento e da solução de problemas. O mais impulsivo e, de vez em

quando, excessivamente excitável sistema de controle afetivo, composto

principalmente do sistema límbico, tem sido associado a um leque de

metáforas, como “a fera interior”. O psiquiatra esportivo Steve Peters, em

seu livro O paradoxo do chimpanzé, denominou esta parte do cérebro de

“chimpanzé interior”, caracterizando-o como um sistema cerebral mais

primitivo e impelido pelas emoções que em geral é controlado pelos

sistemas evolutivamente mais jovens e racionais do lobo frontal (mas cujo

poder pode ser útil aproveitar, se quisermos ser um atleta de elite com

vontade de vencer a qualquer custo).[1]

Um modelo comum de relação entre estes dois sistemas é que o sistema

emocional mais velho e mais volátil deve ser monitorado, controlado e, o

ideal, geralmente anulado pelo córtex holmesiano, com sua abordagem fria,

distante e baseada em provas aos problemas da vida. Agora sabemos que

processos cognitivos como o aprendizado, a memória e o planejamento de

ação – e até processos perceptivos mais básicos – não ocorrem em um

vácuo inócuo. A parte Holmes de nosso cérebro está mais em contato com

nossos alicerces emocionais, frequentemente se consulta com eles,

comparando observações e até tomando decisões, ou mudando-as, com base em informações muito primitivas de “bem-estar” ou “mal-estar” das

camadas inferiores do cérebro. Como vimos no Capítulo 6, isso é

particularmente válido nas redes do cérebro social. Embora os aspectos de

alto nível do ser social, como a referência em si mesmo ou nos outros e a

identidade pessoal ou dos outros, estejam concentrados em várias áreas do

córtex pré-frontal, sabemos que estas estão estreitamente ligadas a nosso

sistema límbico, trocando informações positivas e negativas e atualizando

constantemente nossos catálogos de codificação social.[2] Estes sistemas

interligados fazem parte de nossa teoria da rede da mente e são

fundamentais para nossas capacidades de ler a mente e nossas habilidades

de detecção de intencionalidade.

Mas existe uma terceira parte nesta cadeia, para todos os efeitos, a ponte

entre Sherlock Holmes e nosso chimpanzé interior. É baseada em uma

estrutura que figurou frequentemente à medida que separamos os vários

componentes de nosso cérebro social: o córtex cingulado anterior. Se você

se lembra, este fica bem atrás da parte frontal do cérebro e é estrutural e

funcionalmente muito ligado ao córtex pré-frontal, e também aos centros de

controle emocional, como a amígdala, a ínsula e o corpo estriado.[3] Tem-se

sugerido que estas células nervosas incomuns em formato de fuso podem

estar ligadas à comunicação de alta velocidade necessária para manter a

atividade no cérebro social.[4]

Então, que função especial tem esta área bem situada e especialmente

dotada de terreno neural? Ficou claro que a parte anterior do córtex

cingulado está envolvida em uma gama extraordinária de tarefas. Por um

lado, tem um papel fundamental no controle cognitivo, é seguramente

ativada quando alguém comete um erro (como em uma tarefa Go/NoGo);

por outro lado, parece ser a chave para mecanismos evolutivos, reagindo de

forma distinta a diferentes “colorações” positivas ou negativas associadas

com feedback de tarefas, e mostra mudança emocional acentuada se sofre

uma lesão.[5]

Uma revisão muito influente, publicada em 2000 pelos pesquisadores da

neurociência George Bush (é, ele ouve muito isso), Phan Luu e Michael

Posner, relatou que uma meta-análise detalhada de um leque de estudos nesta área sugeriu que podemos mapear amplamente as funções cinguladas

anteriores em duas áreas.[6] Qualquer ativação associada com tarefas

cognitivas estava relacionada com a parte dorsal do cingulado anterior

(dCAA), enquanto a ativação associada com a emoção mais provavelmente

era encontrada nas áreas ventrais (vCAA). O modelo proposto com base

nesta revisão destacava o papel do dCAA como um sistema de detecção de

erros; suas ligações com os centros da emoção lhe conferem um papel

evolutivo e, assim, as consequências dos erros são registradas e o

comportamento é ajustado. O sempre ocupado dCAA também monitora as

dificuldades associadas com reações conflitantes (como aquelas que vimos

nas tarefas Stroop ou Go/NoGo), quando é preciso tomar uma decisão sobre

qual reação pode ou não levar a um erro cometido.

 

Figura 3: O cingulado anterior.

Bush e colaboradores acharam que estes papéis de “avaliação de erros” e

“monitoramento de conflitos” do dCAA faziam um trabalho admirável

unindo as descobertas de pesquisas, mas observaram alguns enigmas. Um

deles foi que algumas delas mostraram evidências claras de atividade

antecipatória do dCAA (por exemplo, depois de dadas as instruções das

tarefas, mas antes que qualquer estímulo fosse apresentado), que não se

encaixa em seu modelo do dCAA como monitor constante de

acontecimentos. Agora, naturalmente, podemos ligar este aspecto da

atividade cingulada ao papel de estabelecer um precedente – será que o

dCAA está codificando um acontecimento como uma situação em que um

erro pode ser cometido?

Um olhar um tanto diferente sobre o papel do dCAA foi dado por

Matthew Lieberman e Naomi Eisenberger, da tarefa Cyberball. Se você se

lembra, eles propuseram um medidor ou sistema de “sociômetro” como

parte do cérebro social que monitora constantemente nossos níveis de

autoestima.[7] Este sistema de alarme será ativado em circunstâncias nas

quais esses níveis possam estar abaixo do que é necessário para manter

nosso bem-estar social, principalmente em momentos que indiquem

rejeição ou exclusão social. Lieberman e Eisenberger colocam o dCAA no

palco central em sua rede de sociômetro, com base na observação de que a

reação à rejeição social era a mesma à da dor física, ambas seguramente

associadas com atividade do CAA.* [8]

Lieberman chama o CAA de “sistema de alarme” do cérebro, com um

sistema de detecção cognitivo, que acompanha os problemas que exigirão

reações, avalia erros e verifica mensagens conflitantes, e um mecanismo de

sondagem emocional, que indicará quaisquer problemas e impelirá o dono

do cérebro a ativar/desativar a mudança de rumo ou a fazer o que for

preciso para manter suas atividades sociais nos trilhos e o tanque de

combustível da autoestima cheio. O foco está em evitar quaisquer

acontecimentos que ameacem de alguma forma a autoestima. O sistema é

ligado com o córtex pré-frontal e tem certo nível de controle sobre quanta

angústia é associada com a dor da autoestima em queda; uma atividade maior aqui é associada a níveis mais baixos de angústia diante da dor social.

[9]

Soar o alarme desencadeará uma cadeia de acontecimentos. Suponha,

por exemplo, que alguém sugeriu que você pedisse uma promoção no

trabalho. Tomando isso inicialmente como uma lisonja, você começa a

atualizar o currículo e verificar os critérios de promoção. (Já está claro que

você não estudou na escola “se joga!”.) Depois, seu crítico interior

ultracauteloso começa a disparar alarmes – epa, pare um minuto e pense no

que isso pode acarretar. Quantos daqueles quadradinhos da promoção você

marcou? Será que você vai trabalhar com pessoas diferentes? Você é esse

tipo de pessoa? O que vai acontecer se cometer um erro (muito mais

provavelmente se estiver trabalhando em um nível mais alto)? Será que esse

é mesmo o “seu” tipo de trabalho? Pense em como você está confortável

com o que faz agora – o salário é péssimo (e você tem certeza de que ganha

menos do que alguns colegas, mas não vamos fazer uma cena), porém, você

acha o trabalho fácil e o faz há tanto tempo que raras vezes erra em alguma

coisa. É conhecido como um par de mãos confiável – não se coloque numa

situação em que as pessoas pensem ter cometido um erro ao promoverem

você. Sim, você deve jogar a solicitação no lixo – ufa, escapou por pouco!

Em termos da neurociência, a reação primária será um “pare” ou do tipo

inibitória. Depois de sinalizado um erro ou possível descompasso, o

comportamento constante precisa ser “desativado” e respostas alternativas,

procuradas. Sistemas adicionais então podem entrar em jogo; talvez uma

reavaliação, envolvendo o córtex pré-frontal, que atenuará o componente

afetivo e evitará esgotamento demasiado das reservas de autoestima. Assim,

em vez de uma reação do tipo chimpanzé (“Está com medo? Vá assim

mesmo”), existe um comando do tipo banana de “Está com medo? Pois saia

daí o mais rápido que puder”. Então, o que determina se nós temos um

chimpanzé ou uma banana?

 

O sociômetro e o “limitador interior”

No capítulo sobre o cérebro social, nos deparamos com a ideia de um

medidor interno ou sociômetro medindo nossos níveis de autoestima e

alertando nosso sistema de alarme baseado no dCAA se as leituras estão na

zona perigosamente baixa.

Em seu livro sobre o cérebro social, Matthew Lieberman descreve

problemas com os dois sistemas de alarme em sua casa. Eles compreendem

uma campainha que não toca (um sistema sonoro com defeito) e um detetor

de fumaça em que um sensor defeituoso faz com que o alarme dispare na

ausência de qualquer fumaça (um sistema de detecção com defeito).[10]

Neste mesmo espírito, gostaria de lhes contar um pouco sobre um sistema

de alarme defeituoso em minha vida para exemplificar um componente com

possíveis problemas de que precisamos estar conscientes em nosso

sociômetro interior. Minha casa é uma construção antiga, aos poucos

convertida por nossos predecessores com o passar das décadas, e as muitas

e variadas partes da rede elétrica refletem esta história. Logo depois de nos

mudarmos, a instalação de uma lâmpada a mais na varanda exigiu outro

circuito elétrico (extraordinariamente caro). O que se seguiram foram

semanas de frequentes cortes totais de energia, inexplicáveis e

aparentemente aleatórios. Várias visitas (igualmente caras) de eletricistas

confusos depois, revelou-se que o problema estava no novo disjuntor

instalado – orgulhosamente atendendo a todas as exigências nuançadas de

controle de uma iluminação moderna de varanda, mas constantemente

entrando em pânico com os caprichos da eletricidade dos tempos de Edison

com a qual agora ele também se via conectado. Tocar aquele interruptor

meio duro no quarto do segundo andar? Alguém abrindo a porta do

roupeiro? Pensando em usar o ferro de passar, talvez? Bastava qualquer

leve sugestão de atividade incomum e o nosso disjuntor supersensível

pegava a linha de menor resistência (desculpem-me) e desligava tudo.

Assim, ao contrário do sistema de detecção de fumaça de Matthew

Lieberman, o sensor não tinha defeito nenhum, só era sensível demais.

Como este disjuntor, acho que podem existir diferenças individuais

muito acentuadas no limiar acima do qual pode ser ativado nosso sistema de

alarme do sociômetro. Como vimos, algumas pessoas conseguem desprezar uma rejeição no trabalho com um toque de racionalização eficiente a

posteriori; outras mergulharão em um Vale da Desilusão, o sociômetro

despencando rapidamente para a zona vermelha. O resultado de um

sociômetro ativado pode não ser um incidente de curto prazo pare-no-sinal-

vermelho; ao longo de toda sua vida, ele pode afastar a pessoa de

acontecimentos potencialmente positivos, ou impedir que ela tome alguma

decisão reconfortante.

O que determina o limiar deste sistema? Nós nascemos com algum

mecanismo interno ou as regras do nosso mundo podem ser incorporadas a

ele? E se as regras são generificadas, temos então um sociômetro orientado

por elas?

O sociômetro é apresentado como um sistema reativo, não preditivo.

Mas poderá também ter uma função de barômetro, em que as leituras do

medidor podem dar uma previsão do que está reservado para nós? Como

falamos anteriormente, Bush e colaboradores comentaram sobre a natureza

antecipatória da atividade do CAA em algumas tarefas, e nosso modelo do

século XXI da natureza preditiva do cérebro sugere que os sistemas de

monitoramento estão em busca tanto do que pode acontecer quanto do que

está acontecendo. Uma revisão recente da atividade do dCAA pelo grupo

de neuroimagem da Universidade de Oxford identificou especificamente

um papel atualizador em seu controle de comportamento.[11] Ao sinalizar

erros ou recompensas do passado, ele guiou decisões sobre se seria

aconselhável continuar com os mesmos padrões de comportamento ou se

era hora de experimentar uma tarefa diferente.

Em muitas circunstâncias, particularmente com relação a atividades

sociais, podemos invocar acontecimentos do passado para ter um controle

das regras do engajamento. Mas com muita frequência nossas reflexões

íntimas têm relação com a previsão do futuro: como alguém pode receber

sua candidatura a emprego, o que pode acontecer se você mudar de

emprego, pedir uma promoção, levantar a mão em uma sala de aula, como

você não pode ter aptidão ou sucesso, ou não pode desfrutar do evento para

o qual convidaram. Como exemplo, as reações à ameaça do estereótipo que

encontramos anteriormente podem ser vistas como uma reação antecipatória; a antena de identidade sua e de seu grupo estão se torcendo

com a percepção de que você está em uma situação em que um golpe na

estima está em jogo e você pode se sair mal, cometer erros, se ferrar.

Esta parte do sistema também pode dar defeito, no sentido de que a

antecipação pode não combinar com o que realmente acontece. Uma queda

na pressão nem sempre significa chuva e, assim, pode ser seguro sair sem

um guarda-chuva. Mas se o medidor está ajustado para pecar pelo excesso

de cautela, então os alertas inibitórios serão muito mais ouvidos do que o

necessário. E, é claro, o fracasso em descobrir se a realidade combina ou

não com a antecipação reforçará este comportamento de evasão, porque não

será registrado nenhum erro de previsão. Se você não sair, não se molhará.

Além disso, se o custo estimado das consequências antecipadas (um golpe

na autoestima) é ajustado em um valor muito maior que o benefício de as

ignorar (eu podia provar que todos estão errados aceitando aquele

emprego), então nosso dCAA, que monitora conflitos e limita

comportamentos, vencerá.

Para algumas pessoas, esta antecipação ansiosa é tão dominadora que

elas relutam ou até são incapazes de se envolver com possíveis vicissitudes

da vida cotidiana,[12] o que sugere que a parte preditiva de seu sociômetro é

ao mesmo tempo excessivamente ativa e focalizada em resultados

negativos. Podemos considerar uma versão do sociômetro que não seria

nada útil em nossa rede cerebral social. Esta versão é sensível demais e

pode pisar desnecessariamente nos freios do comportamento; ela é impelida

por uma análise preditiva de custo-benefício permanentemente ajustada em

“não vale o esforço”. Para usar uma metáfora do monitoramento, é como se

o limitador de velocidade estivesse ajustado baixo demais e nosso cérebro

ficará bem abaixo até dos limites de velocidade mínimos, manobrando-os

cautelosamente por uma pista interior ultrassegura.

Assim, temos um sistema baseado no cérebro, um limitador interior, que

normalmente age como um centro de controle adaptativo e influente no

cérebro social, mas cujos ajustes foram alterados para fazer dele um freio

excessivamente ativo no comportamento constante. Com base no modelo

do sociômetro, o cerne deste sistema é o dCAA. As consequências de nosso limitador cauteloso, portanto, serão evidentes nos problemas com

autoestima, ansiedade e comportamento inibido demais. Como veremos, é

possível caracterizar as diferenças sexuais/de gênero em processos cerebrais

sociais em termos de atividade excessiva nos sistemas do dCAA, o que

pode ajudar a explicar de onde vêm esses hiatos de gênero no poder e na

realização.

 

Autoestima

 

Quando examinamos o cérebro social no Capítulo 6, um senso de self ou

identidade pessoal foi visto como resultado essencial das atividades de

nosso cérebro social. E essas atividades concentravam-se em fazer o que

fosse necessário para garantir que a identidade pessoal fosse positiva,

procurando as melhores maneiras de garantir altos níveis de valor pessoal e

autoestima. Nosso sociômetro baseado no cérebro manterá uma verificação

contínua de nossos níveis de autoestima, evitando os perigos da rejeição

social e a ativação consequente dos mesmos mecanismos da dor que

estariam ativos se estivéssemos para quebrar um braço ou uma perna.

Sugeriu-se que manter ou melhorar os níveis de autoestima pode ser quase

tão fundamental para nosso bem-estar quanto alimentação e abrigo

adequados. Níveis patologicamente baixos de autoestima estão associados

com uma série de problemas mentais, como depressão e distúrbios

alimentares.[13] Talvez seja devido a este papel central da autoestima em

tantas áreas de comportamento que ela seja, indiscutivelmente, um dos

construtos mais amplamente estudados nas ciências sociais dos dias de hoje,

como alegaram em 2016 em um imenso estudo intercultural da autoestima,

com um exame total de mais de 35 mil estudos sobre a autoestima ou

medida de identidade pessoal.[14]

Uma descoberta quase universal destes milhares de estudos foi de que

sempre existem diferenças de gênero na autoestima, com os homens

sistematicamente pontuando mais.[15] E isto não acontece apenas nos países WEIRD (Western, Educated, Industrialised, Rich and Democratic, isto é,

ocidentais, instruídos, industrializados, ricos e democráticos). Esse estudo

imenso testou quase um milhão de pessoas on-line, em 48 países, e

encontrou hiatos de gênero significativos em cada um deles. Em todos os

países, as mulheres tiveram uma pontuação mais baixa na autoestima, mas,

como se pode esperar, o tamanho do efeito não era o mesmo em todos os

países. Onde existiam as maiores diferenças? Entre os dez mais, estavam

Argentina, México, Chile, Costa Rica e Guatemala (mostrando que as

culturas de alguns países da América Central e do Sul têm um grande

problema de autoestima em suas populações femininas), seguidos por Reino

Unido, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia (sugerindo que

não é de forma alguma um problema exclusivo da América do Sul). As

diferenças menores foram encontradas em países asiáticos como Tailândia,

Índia, Indonésia, China, Malásia, Filipinas, Hong Kong, Cingapura e Coreia

do Sul.

Os pesquisadores também coletaram um leque de variáveis

sociopolíticas, como o PIB (produto interno bruto) per capita, os dados do

Índice de Desenvolvimento Humano (expectativa de vida, níveis de

alfabetização e matrículas escolares) e os dados do Índice de Hiato de

Gênero (diferenças de gênero na participação econômica e na oportunidade,

realização educacional, empoderamento político, saúde e sobrevivência),

que foram todos levados em consideração e avaliados para se saber como

podiam ter contribuído para as variações nos hiatos de autoestima

encontrados. A universalidade da autoestima feminina mais baixa podia ser

explicada por fatores biológicos que evidentemente não foram medidos ali,

mas a gama de diferenças sugeria a operação de fatores adicionais

exacerbantes ou protetores. Talvez paradoxalmente, o quadro geral surgido

foi de que quanto mais rico, mais desenvolvido e mais igualitário era um

país, maior o hiato de gênero.

Como observaram os autores, isso tem paralelos nas descobertas de

outro grande estudo, desta vez examinando diferenças de personalidade,

que mostrou que as diferenças sexuais eram maiores em culturas prósperas,

saudáveis e igualitárias.[16] Aqui, a interpretação foi de que as diferenças inatas talvez pudessem “divergir naturalmente”, a “verdadeira natureza

biológica” das diferenças sexuais não era mais mascarada por fatores

sociopolíticos. Na verdade, foi este estudo que atraiu a imaginação de

James Damore, o autor do memorando do Google que mencionei

anteriormente, embora David Schmitt, pesquisador-chefe que realizou o

estudo, achasse que Damore o tenha entendido e interpretado mal. Mas

Schmitt certamente enfatizou uma base biológica para as descobertas

relatadas. Será que as diferenças de autoestima (ou melhor, as semelhanças,

porque cada país mostrou um déficit na autoestima feminina) podiam ser

relacionadas a fatores semelhantes, de novo culpando a biologia por alguma

suposta deficiência? Houve pouca pesquisa da origem biológica das

diferenças de gênero na autoestima, embora, como veremos, seja possível

explorá-las em termos do sociômetro neural proposto por Lieberman e

Eisenberger, em particular porque ele pode abranger os fatores sociais

explorados aqui.

Outra explicação possível foi formulada em termos de processos de

“comparação social”. Em algumas culturas, como podemos corresponder a

membros de grupos além do nosso, este é um aspecto fundamental da

identidade pessoal, uma espécie de processo de verificação da concorrência.

É mais comum nas culturas ocidentais desenvolvidas; em culturas não

ocidentais, é mais comum comparar a si mesmo somente com membros do

próprio grupo. As menores diferenças de autoestima encontradas no estudo

citado estavam em países asiáticos como a Tailândia, assim, os

pesquisadores sugeriram que as mulheres ali eram culturalmente

“protegidas” das consequências negativas das comparações intergênero.

Deste modo, parece haver uma diferença sexual/de gênero mundial nos

níveis de autoestima. Será que esta pode ser a base dos hiatos de gênero na

realização ou até no engajamento com as possíveis fontes de realização?

Até agora, as explicações dos hiatos de gênero foram formuladas em termos

de habilidades cognitivas baseadas no cérebro, geneticamente determinadas,

hormonalmente organizadas, fixas e independentes do contexto. A revisão

das supostas diferenças nessas habilidades no século XXI revelou que elas

são ou pequenas demais para explicar os hiatos de gênero que examinamos,

ou estão diminuindo ou talvez nunca tenham existido.[17] Devemos, então,

voltar nossa atenção aos processos sociais baseados no cérebro? As

variações na identidade pessoal que indicam diferenças de gênero na

autoestima nos dariam outra fonte de explicações?

Quais podem ser os mecanismos cerebrais por trás desta autoestima

baixa? Sabemos que a verdadeira rejeição social, que reduz a autoestima,

ativa mecanismos de dor envolvendo sistemas de processamento de

emoções e uma parceria córtex pré-frontal-CAA.[18] Alexander Shackman e

sua equipe, do laboratório de Richard Davidson, da Universidade de

Wisconsin-Madison, concentraram-se no CAA como um eixo em que as

informações sobre as consequências negativas da atividade podem ser

ligadas a “centros de controle de ação”, que inibirão ações para evitar a dor

que causam.[19] Assim, no CAA temos um sistema de codificação social

que pode estar relacionado a um sistema de ação (ou inação) social.

Um foco no negativo é característico do funcionamento normal do

sociômetro – somos mais levados a evitar a leitura zerada de nossos níveis

de autoestima do que a registrar quando eles estão cheios. Mas um foco

anormal no negativo é característica da depressão clínica, em que

numerosos estudos relataram maior reatividade ao feedback negativo, maior

processamento de expressões faciais negativas, como a tristeza ou o medo,

melhor memória para imagens ou acontecimentos negativos.[20] Com

relação às condições clínicas associadas à baixa autoestima, como o

distúrbio de ansiedade social ou a depressão, cuja incidência é muito maior

nas mulheres, havia um foco na autocrítica ou em uma visão negativa do

self como característica-chave nestes distúrbios.[21] Assim, como acontece

com um foco externo no negativo, este foco também se volta para dentro.

A autocrítica é uma forma de avaliação pessoal negativa, dirigida a

vários aspectos do self, como a aparência, o comportamento, os

pensamentos e características de personalidade. Existem boas evidências de

que a autocrítica excessiva é um fator de vulnerabilidade no

desenvolvimento da depressão, é correlacionada com nível de gravidade e

prevê futuros episódios e até o comportamento suicida.[22] O “senso de self”

de uma pessoa, ou o valor que ela se dá, nem sempre é positivo e pode haver dias (ou, infelizmente para algumas pessoas, longos períodos de

tempo) em que a leitura de nosso sociômetro é baixa ou zerada. Nossa

autoestima é baseada em nossa avaliação de muitos atributos diferentes,

inclusive aparência física e capacidade intelectual, nossas realizações do

passado e esperança daquelas futuras, associação com os endogrupos

“certos” ou, atualmente, comparação com celebridades e histórias de

sucesso nas redes sociais virtuais. Assim, existem muitíssimos meios em

que podemos nos ver aquém dos padrões que estabelecemos para nós ou

dos padrões que acreditamos que esperam de nós. Em algumas pessoas, isso

pode levar a uma saraivada constante de autocrítica e julgamento negativo

de si. Este crítico interior poderoso é a voz dominante; se as coisas vão mal,

claramente é por nossa culpa e isso é uma medida de nossa inferioridade.

Encontramo-nos em um estado elevado de monitoramento de erros, em

geral associado com impacto negativo e inibição de resposta. Em outras

palavras, meneamos a cabeça de vergonha, calamo-nos e nos desligamos.

Estudos psicológicos revelaram consistentemente que as mulheres são mais

autocríticas e é muito mais provável que depreciem seu desempenho no

trabalho e tenham um medo maior da reprovação do que os homens.[23]

Como sabemos por nosso exame da função cerebral social, o

monitoramento de erros é a principal característica do eixo CAA-córtex

pré-frontal.[24] Assim, deve ser possível identificar as bases cerebrais da

autocrítica e descobrir até que ponto essa autoavaliação negativa se reflete

no nível cerebral. Se você se lembra do Capítulo 6, foi o que a pesquisa

realizada no Aston Brain Centre mostrou quando estudávamos as bases

cerebrais da autocrítica e da autoconfiança.[25] Descobrimos que a “voz

crítica” estava associada com a ativação no sistema de monitoramento de

erros e de inibição de resposta, o córtex pré-frontal e o CAA. A “voz

tranquilizadora” não ativava o sistema de monitoramento de erros, mas

estava associada com a ativação em áreas cerebrais coerentes com o

comportamento empático. E foram vistos níveis mais altos de ativação no

sistema de monitoramento de erros e inibição do comportamento naqueles

participantes que se classificaram como tipicamente autocríticos na vida

diária.

Deste modo, parece que um “crítico interior” muito diligente pode estar

ativando aquelas partes de nosso sistema de autorreferência que estão em

busca de erros, constantemente sinalizando erros e colocando freios em

escaramuças sociais dolorosas, em vez de nos desviar para ruas secundárias

tranquilas, pequenas e seguras.

 

Sensibilidade à rejeição

e autossilenciamento

 

Como sabemos, a dor da rejeição social ativa as mesmas áreas da dor física,

uma medida de como nosso senso de integração é importante para o bem-

estar. Em vista da natureza repulsiva destas experiências, precisamos de um

mecanismo sensor que nos mantenha na procura por possibilidades de

rejeição – um precedente de rejeição. O desejo de evitá-la geralmente é,

portanto, adaptativo, mas em alguns casos o mecanismo parece ser

excessivamente ativo. Esta “sensibilidade à rejeição” é definida como “a

tendência a esperar ansiosamente, perceber prontamente e reagir

intensamente à rejeição”.[26]

Um questionário de sensibilidade à rejeição pode resultar em uma

medida de sensibilidade à rejeição (SR) alta ou baixa, com as pessoas

participantes indicando o quanto podem ficar preocupadas ou ansiosas com

a possível rejeição em um leque de diferentes situações, como “Você aborda

um(a) amigo(a) íntimo(a) para conversar depois de fazer ou dizer algo que

o(a) aborreceu seriamente”, ou “Você pede ajuda à supervisão com um

problema que tem no trabalho”.[27] Para aqueles de SR elevada, a rejeição

em si (seja real ou percebida) pode levar a uma gama de diferentes

comportamentos. Uma resposta comum pode ser a agressividade, medida

em estudos de laboratório pelo que é chamado, de forma intrigante, de

“paradigma do molho de pimenta”.[28] Basicamente, as pessoas que

acabaram de viver uma rejeição induzida experimentalmente pelo parceiro

antes desconhecido, em um cenário de laboratório, têm a oportunidade de alocar uma quantidade de “molho de pimenta” ao parceiro, junto com a

informação “revelada por acaso” de que ele não gosta de molho de pimenta.

A quantidade de molho dada é tomada como medida da sua agressividade

para com eles. O uso desta e de outras medições indica que, para algumas

pessoas com SR elevada, a rejeição será seguida pela agressividade.

Para outros, porém, a reação mais provavelmente levará ao retraimento e

a repercussões negativas, possivelmente até tendendo à depressão clínica. A

rejeição social é fortemente associada com o início da depressão. A reação

“internalizante” adversa associada com a depressão é muito mais

característica de mulheres, que têm o dobro da probabilidade dos homens

de sofrer de distúrbios de depressão clínica. Este comportamento foi

descrito como uma tendência ao “autossilenciamento”, a inibir quaisquer

pensamentos e sentimentos ou ações preferidas que possam ser percebidas

como possíveis causas de conflito ou rejeição. Este conceito do

“autossilenciamento” foi desenvolvido nos anos 1990 pela psicóloga Dana

Crowley Jack e descrito em associação com uma queda na autoestima e em

sentimentos de uma “perda de identidade”.[29] É particularmente ligado a

relações significativas e descreveu o processo pelo qual as mulheres

sentiram que tinham de sacrificar as próprias necessidades ou não declarar

seus sentimentos se percebessem que isso poderia causar conflito.

Este autossilenciamento foi fortemente observado não só em mulheres,

mas também em grupos minoritários. O laboratório de pesquisa SPICE

(Social Processes of Identity, Coping and Engagement, ou Processos

Sociais de Identidade, Enfrentamento e Engajamento) de Bonita London na

Universidade Stony Brook, no estado de Nova York, estudou os

mecanismos associados à ameaça de identidade social em grupos

minoritários e/ou instituições em que há um desequilíbrio de presença e

poder, em particular instituições educacionais ou corporativas.[30] Os

pesquisadores investigaram especificamente a ligação entre SR e

autossilenciamento. Com relação às mulheres, propuseram um modelo de

SR baseado no gênero para explicar as diferenças individuais em como elas

percebem e lidam com ameaças valorativas baseadas em gênero em

instituições competitivas e historicamente masculinas.

Para medir as várias manifestações e consequências desse tipo de SR,

eles desenvolveram um questionário de SR de Gênero. Apresentavam aos

participantes várias hipóteses, como “Imagine que você está começando em

um novo emprego em um escritório corporativo. No primeiro dia, a

gerência organiza uma reunião do escritório para apresentar você aos

colegas funcionários”, ou “Imagine que você trabalhou em seu emprego por

quase um ano. Uma vaga de gerente é aberta e você procura a direção para

pedir a promoção”. Os participantes, depois, tinham de indicar em uma

escala de seis pontos o quanto ficavam ansiosos ou preocupados por serem

tratados de forma diferente ou experimentar um resultado negativo devido a

seu gênero. Descobriram que homens e mulheres se relataram

familiarizados com as situações descritas no questionário, mas que as

mulheres tinham uma probabilidade significativamente maior de antecipar

com ansiedade a rejeição baseada em gênero, o que os pesquisadores

descreveram como uma forma de hipervigilância. No exame de outras

hipóteses, como situações baseadas na raça, eles demonstraram que as

mulheres não apresentaram ansiedade baseada em gênero; assim, não é

verdade que exista uma probabilidade maior de elas esperarem a rejeição

em qualquer situação.

Quando examinaram as estratégias de enfrentamento para lidar com a

rejeição, eles também descobriram que era muito mais provável que as

mulheres que trabalhavam no meio acadêmico usassem o

autossilenciamento, avaliadas por uma adaptação de um questionário

“Silenciamento do Self” para capturar o autossilenciamento em contextos

acadêmicos, do que se expressar (correndo o risco do confronto) ou

procurar ajuda. Um resultado desse processo foram níveis mais altos de

desvinculação acadêmica nas mulheres, uma abstenção da participação em

atividades acadêmicas e utilização reduzida de sistemas de apoio adicionais,

como horário de trabalho flexível ou tutoriais extras. Conscientes da

acusação de que os estudos de laboratório não costumam refletir a vida real,

os pesquisadores acompanharam um grupo de homens e mulheres por três

semanas, usando um formato de diário enquanto eles ingressavam em uma

faculdade de direito de alto padrão. Descobriram que as mulheres mostraram SR significativamente mais elevada do que os colegas homens e

tinham uma probabilidade maior de atribuir acontecimentos negativos a seu

gênero. A descoberta geral desta série de estudos foi de níveis muito mais

elevados de SR nas mulheres, levando a formas de autossilenciamento e

fuga de oportunidades de avaliação que, a longo prazo, pode comprometer

qualquer possibilidade de sucesso que a situação venha a lhes oferecer.

Essas descobertas têm paralelo com a relutância das mulheres de se

envolverem em aspectos mais desafiadores do STEM, como vimos no

capítulo anterior.

O tipo definitivo de autossilenciamento pode ser o desejo do anonimato.

Um estudo realizado em 2011 mostrou que o desempenho das mulheres em

matemática era melhor em uma situação de ameaça do estereótipo induzida

experimentalmente quando elas tinham permissão de completar um teste

usando um pseudônimo.[31] Os pesquisadores investigavam se a ameaça do

estereótipo refletia ansiedade com a reputação pessoal mais do que a

reputação do grupo com que a pessoa se identificava. Descobriram que as

mulheres, que em geral relataram níveis mais altos de preocupação com os

efeitos sobre sua reputação pessoal de se sair pior do que os homens em um

teste de matemática, melhoraram significativamente em um teste de

matemática “aprimorado para ameaças” sob um nome falso (masculino ou

feminino) do que aquelas que tentaram fazer o teste usando o próprio nome.

Um efeito desses não foi encontrado nos homens. Assim, se havia um jeito

de “desconectar o self” (ou o efeito “L’eggo my ego” [“dane-se meu ego”],

como os autores ironicamente o denominaram) de uma situação potencial

de ameaça ao self ou ao grupo, as mulheres se beneficiaram mais do que os

homens. Eis outra indicação do maior impacto da avaliação externa sobre as

mulheres, de sua necessidade de evitar a perda da autoestima e mais

trabalho para o sociômetro.

Então, quais mecanismos cerebrais podem estar em operação? Como

mostraram Lieberman e Eisenberger, a interação entre o córtex pré-frontal e

o dCAA está associada não só com a experiência da dor, mas também com

seu grau. Os participantes que relataram mais dor (social ou física)

mostraram mais ativação no CAA do que aqueles com um córtex pré-

frontal mais ativo.[32] Será que um sistema desses alicerça a antecipação da

dor associada com a sensibilidade à rejeição? Pesquisadores da

Universidade de Colúmbia investigaram isso usando imagens representando

temas de rejeição ou aceitação.[33] Espelhando reações reais à dor, as

imagens de rejeição foram associadas a níveis mais altos de atividade pré-

frontal e do CAA do que as imagens de aceitação. Porém, diferentes

padrões de atividade dentro dessas regiões diferenciaram o grupo de baixa

SR do grupo de alta SR; os indivíduos de baixa SR tinham níveis mais

elevados de atividade nas áreas pré-frontais, mostrando uma reação

semelhante à de indivíduos instruídos a reduzir ou reavaliar reações

negativas a imagens repulsivas. Isto sugere que o grupo de alta SR foi

incapaz de fazer uso do mesmo processo e não conseguiu repensar seus

medos.

Um estudo semelhante do laboratório de Eisenberger e Lieberman

examinou a atividade do CAA em reação a expressões faciais de

reprovação, identificando que havia pistas socialmente codificadas de

possível dano, em vez de o dano real que podia ser indicado por rostos

coléricos ou temerosos.[34] O estudo mostrou que os participantes de SR

alta tinham mais atividade no dCAA em reação a rostos reprovadores, mas

não a rostos que mostravam raiva ou nojo, assim, sua reação acontecia

apenas a expressões socialmente negativas. Semelhante ao estudo da

Colúmbia, houve uma correlação negativa entre SR e atividade pré-frontal,

mais uma vez sugerindo que as pessoas de SR alta eram menos capazes de

ativar recursos de avaliação ou controle por redução.

A sensibilidade à rejeição claramente tem um profundo efeito sobre

quem a vive e parece ativar um mecanismo de desligamento protetor,

resultando em desvinculação e autossilenciamento. Os resultados de estudos

de imagem cerebral sugerem que este sistema é baseado no dCAA, coerente

com seu papel no monitoramento da autoestima.[35] Este sistema,

aparentemente, pode ser modulado por informações do sistema pré-frontal,

reduzindo os níveis de angústia associados com a dor da rejeição. Mas

parece que existem diferenças individuais na disponibilidade desta

influência moduladora, com o resultado de que o poder inibidor do dCAA é descontrolado, como um limitador de velocidade sensível demais. Assim, a

SR maior nas mulheres pode refletir atividade atípica do dCAA. Isto é

coerente com o trabalho contínuo do laboratório de Eisenberg.[36] Ali, eles

mostraram que as meninas que tiveram episódios anteriores de depressão,

quando vivem um cenário de rejeição social baseado em escâner, mostraram

aumento na atividade do dCAA, bem como um aumento no estado de

espírito depressivo.

A sensibilidade à rejeição claramente tem um efeito profundo em quem a

vive. E a consequência para as mulheres parece ativar um sistema

introvertido e inibidor de “desligamento”, resultando em retraimento,

fracasso no engajamento e autossilenciamento. As versões extremas desta

reação são características da depressão clínica.[37]

 

Autoestima e ameaça do estereótipo

 

Além das consequências da rejeição ou mesmo do medo dela, outras fontes

de ataque às reservas de autoestima, com consequências para o desempenho

e o comportamento, podem ser vistas no processo da ameaça do estereótipo.

[38] Os efeitos da ameaça do estereótipo foram demonstrados em homens e

mulheres,[39] assim, seria necessário determinar que os níveis mais baixos

de autoestima nas mulheres não estão apenas relacionados com uma

suscetibilidade maior à ameaça do estereótipo e/ou reações a ela. Isso foi

investigado em uma série de estudos realizados pela psicóloga Marina

Pavlova.[40] O objetivo foi induzir a ameaça do estereótipo em uma tarefa

anteriormente neutra e medir quaisquer efeitos resultantes, inclusive

diferenças de gênero. Os participantes realizaram uma simples tarefa de

organização de cartões e ou receberam mensagens positivas explícitas,

como “Os homens costumam ser melhores nesta tarefa” (a mensagem

implícita seria “Então as mulheres costumam ser piores”), ou mensagens

negativas explícitas, como “Os homens costumam ser piores nesta tarefa”

(com a mensagem implícita “Então as mulheres costumam ser melhores”).

O resultado disto foram claras diferenças entre homens e mulheres. Na

condição “negativa feminina”, as mulheres mostraram desempenho

significativamente pior do que o grupo de controle e os homens se saíram

significativamente melhor. Na condição “positiva feminina”, as mulheres

mostraram alguma melhora no desempenho, mas houve pouca mudança nos

homens neste grupo. Na condição “positiva masculina”, houve desempenho

melhorado dos homens, mas uma queda drástica no desempenho das

mulheres, que recebiam a mensagem implícita de que provavelmente se

sairiam mal na tarefa. Quando surgiu a mensagem “negativa masculina”,

houve um efeito bem paradoxal. Os homens mostraram alguma

deterioração no desempenho, mas também as mulheres, embora elas

devessem ter reagido positivamente à mensagem de que, como os homens

costumavam se sair pior, as mulheres deveriam se sair melhor.

No geral, então, os homens reagiram como esperado a mensagens

explícitas de que, como homens, eles se sairiam melhor ou pior na tarefa,

mas foram menos responsivos às mensagens implícitas. As mulheres, por

outro lado, foram afetadas mais adversamente pelas mensagens implícitas,

mostrando níveis inferiores de desempenho com uma instrução negativa

implícita (esta é uma tarefa realizada melhor por homens), mas também

com uma mensagem supostamente positiva que podia ter sido inferida da

mensagem de que os homens costumavam se sair mal. Os pesquisadores

sugeriram que as mulheres talvez tivessem interpretado isto com o

significado de que se os homens se saíam mal nesta tarefa, então elas (como

mulheres) provavelmente teriam um desempenho ainda pior. Não houve

entrevista com os participantes para verificar isso, mas o mesmo efeito não

foi visto nos homens, assim, as mulheres claramente reagiam a uma

diferente mensagem persistente. Na verdade, das quatro condições, o

desempenho das mulheres sugeria que elas recebiam mensagens negativas

de três delas, e apenas a mensagem explícita “as mulheres são melhores

nisso” resultava em uma pequena melhora. Essas descobertas são coerentes

com aquelas de Bonita London, da sensibilidade aumentada à rejeição em

mulheres que vimos anteriormente, indicando alguma forma de

hipervigilância nas mulheres a uma possível avaliação negativa em situações baseadas em gênero. A não ser que a mensagem seja claramente

enunciada, os homens parecem alegremente inconscientes (ou, pelo menos,

muito menos suscetíveis) à possibilidade de fracasso, enquanto as mulheres

parecem até procurá-lo, a ponto de reinterpretarem uma possível mensagem

positiva.

Como vimos antes, uma das consequências da ameaça do estereótipo é

que o cérebro envolve redes irrelevantes para tarefas, aquelas associadas

com codificação emocional e autorreferência; em outras palavras, as

conhecidas áreas límbicas e a parceria pré-frontal-CAA.[41] Vimos isso no

capítulo passado, quando examinamos as bases cerebrais da ansiedade com

a matemática. Quando participantes sabiam que a tarefa de matemática na

qual iam embarcar era “diagnóstica de sua inteligência em matemática”,

havia padrões muito diferentes de resposta entre aqueles que souberam que

a tarefa foi descrita como uma medida de estratégias preferidas para a

solução de problemas. E houve muito mais sensibilidade a feedback

negativo e desvinculação mais rápida de possíveis fontes de apoio. Tudo

isso é muito coerente com as consequências comportamentais da SR e

também com os padrões de atividade cerebral associados a este processo.

Assim, a atividade cerebral durante a ameaça do estereótipo e situações

relacionadas é coerente com a ação de uma espécie de atualização de perfil

de Facebook, com um foco específico em feedback negativo associado com

erros. As evidências de que as mulheres são mais suscetíveis à ameaça do

estereótipo negativo, seja real ou inferida, junto com sua maior

suscetibilidade a SR, sugerem que elas têm um sistema inibidor ou

“limitador interior” muito mais ativo ou, pelo menos, mais sensível. Como

sabemos, estas atividades são focalizadas em torno do CAA, parte de um

poderoso sistema de controle comportamental socialmente focalizado, que

também codifica valores positivos e negativos em nosso mundo. Que outros

aspectos do comportamento podem estar associados a um sistema de

avaliação de erros excessivamente ativo, com uma abordagem à vida que é

por demais cautelosa e avessa aos riscos?

Açúcar, tempero e tudo que há de bom

 

O desenvolvimento da identidade pessoal está relacionado a uma

compreensão destes aspectos de seu comportamento que ganharão

reconhecimento positivo, que são “adequados” ao grupo a que pertencemos.

Manter esses padrões de comportamento deve garantir que continuemos a

ser aceitos por nosso endogrupo significativo e evitemos a verdadeira dor

da rejeição social.

Uma medida muito precoce do “bom comportamento” em crianças é a

capacidade de autorregulação, de dirigir seu comportamento e sua atenção à

tarefa a ser realizada.[42] Isso pode envolver prestar muita atenção a regras e

inibir comportamentos inadequados, como correr pelo ambiente, gritar e

assim por diante. Com frequência tem relação com a aptidão escolar (assim,

é de se esperar que a criança seja muito nova) e também com realizações

precoces na escola. Os relatos de pais e professores sugerem que esta

capacidade surge mais cedo nas meninas e que elas continuam a se

comportar melhor que os meninos em sala de aula.

Mas, como sabemos, o autorrelato nem sempre é confiável. Um grupo de

pesquisadores americanos conceberam uma medida mais direta do

comportamento de autorregulação baseada no jogo “cabeça, ombro, joelho

e pé”.[43] As crianças participantes souberam que se o pesquisador gritasse

“Toquem a cabeça!”, elas teriam de tocar os dedos do pé e vice-versa, ou se

ouvissem para tocar os joelhos, tinham de tocar os ombros. Isto resulta no

acrônimo HTKS – de Head toca Toes, Knees toca Shoulders. A ideia é que

as crianças têm de prestar atenção, lembrar-se das regras e inibir a primeira

reação para fazer o contrário (muito parecido com o jogo de “Seu mestre

mandou”). Um estudo realizado em Michigan examinou o desempenho

nessa tarefa de autorregulação em crianças de cinco anos nos períodos do

outono e da primavera no ano do jardim de infância.[44] As meninas se

saíram melhor que os meninos nas duas fases do teste, confirmando as

classificações de professores obtidas na mesma época. A tarefa HTKS

também foi usada em um levantamento intercultural comparando a

autorregulação nos Estados Unidos e em Taiwan, Coreia do Sul e China.[45] A escolha de países asiáticos foi em parte motivada para comparar culturas

em que havia uma história de expectativas comportamentais generificadas

muito específicas, esperando-se que as meninas fossem mais passivas e

submissas. Este estudo mostrou que, embora as classificações de

professores tenham relatado que as meninas foram mais autorreguladas, na

verdade elas não se saíram melhor que os meninos na tarefa HTKS, uma

medição direta de comportamento. Assim, existe uma impressão quase

universal entre professores de que as meninas são mais autorreguladas, o

que nem sempre encontra apoio na realidade. Mas sabemos que as

expectativas de professores podem servir como um viés poderoso na

produção de comportamentos, deixando uma mensagem clara de que as

meninas são bem-comportadas e boas na autorregulação.

Um aspecto da autorregulação é que você invariavelmente terá de inibir

alguns padrões de comportamento, possivelmente aqueles associados à

espontaneidade e à impulsividade, e se concentrar nos que valerão

pessoalmente a maioria dos pontos, reforçando sua identidade pessoal e

dando uma imagem positiva do grupo a que você pertence, melhorando sua

identidade conjunta. Certamente isso ajudará a evitar eventos negativos ou

desagradáveis que podem suscitar reprovação.

Um antigo conceito na psicologia da personalidade, elaborado por

Jeffrey Gray nos anos 1970, é de um sistema de inibição do comportamento

(BIS, behavioural inhibition system) sensível a acontecimentos negativos

no mundo e que inibirá aqueles padrões de comportamento associados com

a punição ou a não recompensa. O comportamento do tipo BIS é avaliado

por questionários autorrelatados, inclusive itens como “Sinto muita

preocupação ou aborrecimento quando penso ou sei que alguém está com

raiva de mim” e “Tenho medo de cometer erros”. Isto tem contraste com o

sistema de ativação comportamental (BAS, behavioural activation system),

um sistema de procura por recompensas (“Anseio pela empolgação e por

novas sensações”), em geral associado ao comportamento impulsivo. O

papel atribuído ao BIS é de processar a ameaça e deter o comportamento

constante que pode levar a consequências negativas; isto é, em termos

contemporâneos de cérebro preditivo, estabelecer um precedente de “alerta”. As mulheres mostram níveis mais altos de comportamento do tipo

BIS, também associado a índices mais altos de distúrbios como a ansiedade

e a depressão.[46]

Como você já deve ter deduzido, estas funções BIS são coerentes com as

funções de monitoramento de conflitos, interrupção da ação e

autorregulação identificadas como características do dCAA. Estudos

mostraram que as pontuações mais altas no BIS são associadas com a

amplitude das reações cerebrais relacionadas com erros em Go/NoGo, cuja

origem está ali.[47] Assim, acumulam-se evidências de que os processos de

autorregulação inibidora mais comumente encontrados em meninas têm

ligação com atividade aumentada em um sistema de monitoramento da

autoestima, um sistema baseado no CAA. Mas de onde pode vir esta

autorregulação? Será que as meninas nascem bem-comportadas, ansiosas

por agradar, avessas ao risco ou à luta? Elas chegam ao mundo com um

limitador interior predeterminado que as conduzirá cautelosamente por vias

mais seguras? Ou existe algo em seu mundo que pode empurrá-las para

esses rumos?

No início da vida acadêmica, por vários anos tive o papel nada invejável

de ser a encarregada das admissões para nosso curso de graduação em

psicologia. Isto significava que eu tinha de vasculhar milhares de

candidaturas e lhes mostrar o polegar para cima ou o polegar para baixo, em

caso de rejeição. Também significava que eu precisava examinar em

detalhes as declarações e referências pessoais que acompanhavam essas

candidaturas, as últimas em geral me dando mais insight sobre quem as

escrevia do que sobre o candidato (uma das minhas preferidas era “Este

jovem precisa ser deixado no rio sem um remo”). É claro que os professores

garantiam que os candidatos eram paradigmas de quaisquer virtudes que

eles julgassem ser o alvo da busca dos encarregados de admissões. Mas

também podia haver um elemento pesado de “que se danem os falsos

elogios”, em que pairava a impressão de que o docente não podia falar

francamente “nem perca seu tempo”, mas também não conseguia encontrar

nada academicamente valioso no histórico do aluno que pudesse influenciar

a decisão. Para mim, “sempre bem apresentada”, “útil com crianças novas” ou “sempre trabalha com boa apresentação” recaíam firmemente nesta

categoria. E (aqui levanto as mãos aos céus – esta é a única impressão

pessoal e com o benefício de muita reflexão posterior) acredito que só via

isso em referências a meninas. Mas isso seria coerente com o estudo que

examinamos no Capítulo 10, em que as “cartas de garantia mínima” (“Sarah

é tranquila de se conviver”) em candidaturas da faculdade de medicina eram

muito mais comuns para candidatas mulheres.

Será que as meninas são elogiadas por coisas diferentes dos meninos?

Em vista do papel do feedback social na formação da identidade pessoal, é

importante entender se este feedback é distribuído de forma desigual. Na

educação, certamente parece haver uma espécie de sistema assimétrico de

elogios. Enquanto os meninos são mais elogiados por fazer bem as coisas,

as meninas recebem mais elogios pelo bom comportamento.[48] Da mesma

forma, elas são mais criticadas por cometer erros, enquanto os meninos

recebem críticas pelo mau comportamento. Isto significa, de modo geral,

que é dada mais atenção positiva ao bom comportamento das meninas do

que para sua capacidade acadêmica (com o efeito contrário para os

meninos).

Carol Dweck, psicóloga de Stanford, propôs um modelo de

“mentalidade” para entender a motivação humana.[49] Falando de forma

ampla, uma “mentalidade fixa” indica uma crença determinista em que seu

portfólio de habilidades compreende o que a natureza lhe deu. Isto

determinará grande parte de seu progresso pelos desafios da vida e há

pouco que você possa fazer para mudar as coisas. Como alternativa, uma

“mentalidade de desenvolvimento” tem relação com uma crença de que

suas habilidades sempre podem ser desenvolvidas, de que você adotará os

desafios, acolherá as críticas e sempre terá disposição para aprender. O

desenvolvimento de mentalidades fixas ou de desenvolvimento está ligado

aos elogios feitos nas fases mais importantes do desenvolvimento. Embora

a teoria tenha se provado controversa, com problemas na avaliação de

estratégias de intervenção sugeridas em ambientes educacionais, a pesquisa

de fundo deu alguns insights sobre as diferentes formas com que o elogio é

dado a meninas e a meninos.

Dweck sugere que uma ênfase constante em aspectos não intelectuais do

trabalho, como “esmero” ou “falar com clareza”, podem ter o efeito de

desvalorizar o elogio (se houver algum) sobre o resultado do trabalho em si.

Dizer somente que algo é “arrumado” não nos dá muito insight sobre o

quanto apreendemos dos princípios básicos dos problemas de matemática

ou do dever de história. E havia um grande desequilíbrio em até que ponto

meninos e meninas receberam esse tipo de feedback, com muito feedback

positivo dado a meninas devido ao esmero e assim por diante, enquanto os

meninos receberam uma atenção muito menor a estes aspectos não

intelectuais de seu trabalho. Com relação ao conteúdo real do trabalho, em

um eco das observações educacionais notadas anteriormente, a atenção das

meninas mais provavelmente era atraída a seus erros, enquanto era mais

provável que os meninos recebessem elogios quando faziam as coisas

certas. Assim, meninas e meninos recebiam mensagens diferentes; para as

meninas, fazer bem-feito não era uma medida da capacidade, mas sim ter

uma boa caligrafia e fazer uso eficaz de marcadores de texto e réguas. A

mensagem persistente pode ser a de que seu dever de casa “sempre bem

apresentado” poderia contrabalançar a ausência básica de capacidade,

evidente nas muitas vezes em que professores tiveram de chamar atenção

para seus erros. Por outro lado, os meninos recebiam a mensagem “você

tem talento” sempre que possível, com um suspiro quase abafado e

infrequente por seu desalinho.

Outra questão que psicólogos educacionais notaram é que o “elogio à

pessoa” (“você deve ser muito inteligente”) tem um efeito diferente sobre as

consequências do fracasso do que o “elogio ao desempenho” (“você deve

ter se esforçado muito”).[50] O elogio à pessoa parece muito motivador,

como alguém que está entendendo bem as coisas, mas se começa a entender

mal, é mais provável que fique desmotivado e desista da tarefa (e o tipo de

resposta “parece que perdi o entusiasmo”). Aqueles que recebem elogios

por seu desempenho, por outro lado, lidam melhor com o fracasso e

provavelmente persistirão. A explicação dada é que o elogio à pessoa

enfatiza aspectos da identidade pessoal mais do que o elogio ao

desempenho, de modo que se seu fator de bem-estar vem do elogio à pessoa, então o fracasso significa que seu senso de valor pessoal está

levando uma surra, ou induz uma sensação de que esta tarefa obviamente

não é o tipo de coisa em que a pessoa é boa. O elogio ao desempenho, por

outro lado, relaciona-se mais especificamente com a tarefa e, assim, um

pouco mais de esforço pode garantir a conclusão da tarefa.

As diferenças de gênero nos efeitos destes tipos distintos de elogios

foram demonstradas em crianças de nove a 11 anos.[51] Em um estudo,

acompanhando alguns sucessos e fracassos em diferentes quebra-cabeças,

ofereceram às crianças um dos quebra-cabeças que elas não conseguiram

resolver como um presente no final das sessões. As meninas que receberam

o elogio à pessoa quando tiveram sucesso tinham uma probabilidade muito

maior de rejeitar o quebra-cabeças em que fracassaram do que as meninas

que receberam elogios ao processo. Os meninos, por outro lado, tinham

uma probabilidade maior de querer levar para casa o quebra-cabeças em

que fracassaram, especialmente se o desempenho na tarefa foi associado

com o elogio à pessoa.

Assim, ainda em questões nas quais meninos e meninas são elogiados da

mesma forma, o elogio com elementos de autorreferência pode ter

consequências negativas futuras para as meninas quando elas fracassam. É

interessante observar que os pesquisadores repetiram este estudo com

crianças em idade pré-escolar, entre quatro e cinco anos, e não encontraram

diferenças de gênero. Assim, esta sensibilidade diferencial aos elogios não é

evidente nos primeiros anos.[52]

Se examinarmos os hiatos de gênero no comportamento social e as

medidas de autoestima, começaremos a ter um quadro muito distinto para

homens e mulheres. E isso claramente tem ligação com diferentes padrões

de comportamento, surgindo de diferentes sensibilidades em um mecanismo

limitador interior baseado no cérebro. Este mecanismo impele um processo

de autoconfiguração e auto-organização, baseia seu limiar e induz às regras

do engajamento social que absorve. Seu limiar será definido e redefinido de

acordo com o programa de recompensas e punições, de aprovação e

reprovação que ele encontra no mundo. Ele será supersensível às diferentes mensagens sociais que capta, ao mundo generificado que encontra, e

ajustará sua configuração de acordo com isso.

O que isso pode significar para as pessoas que parecem começar a vida

sem diferenças distinguíveis além de alguma parafernália física associada

com a reprodução, e com conjuntos aparentemente semelhantes de

habilidades cognitivas? Se são introduzidas mensagens acentuadamente

diferentes, ou conjuntos de dados, o resultado pode ser um portfólio

acentuadamente diferente de reações. Se seu mundo estabelece limites

muito diferentes sobre seu desempenho, então o seu limitador interior pode

impelir você a um caminho muito diferente.

 

* Bush excluiu explicitamente os estudos da dor de sua revisão da atividade do CAA, por não ser

relevante para sua divisão cognição X emoção, mas Lieberman e Eisenberger acharam que a

reação à dor resumia exatamente o envolvimento de ambos os processos, indicando a ocorrência

de um evento doloroso e a angústia associada a ele. Eles observaram que nos estudos da dor

física, aqueles que relataram níveis mais altos de angústia associada à dor tinham mais atividade

no CAA, enquanto os que tinham mais atividade no córtex pré-frontal relataram menos angústia.

Assim, havia um mecanismo de controle de cima para baixo que podia modular este aspecto da

atividade do CAA.