Gênero e os Nossos Cérebros

Gina Rippon · Capítulo 21 de 46

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Gênero e os Nossos Cérebros

Conclusão: Criando filhas destemidas (e filhos solidários)

CONCLUSÃO:

 

C * RIANDO FILHAS DESTEMIDAS

(E FILHOS SOLIDÁRIOS)

 

Vimos como nosso fantástico cérebro plástico é imerso em um mundo

generificado, um mundo que há centenas de anos vem tratando os sexos de

forma diferente. Podemos ter avançado dos dias do gorila de duas cabeças,

mas mesmo no século XXI ainda podemos encontrar evidências de um

mundo construído para dar diferentes oportunidades a homens e mulheres,

com base em estereótipos antigos de diferenças em capacidades,

temperamentos e preferências. Desde o momento do nascimento (e mesmo

antes), nosso cérebro ávido por regras é confrontado com as diferentes

expectativas de familiares, professores, empregadores, a mídia e, por fim,

de nós próprios. Mesmo com o surgimento de uma incrível tecnologia de

imagem cerebral e evidências de diminuição e desaparecimento de

diferenças, homens e mulheres ainda engolem o conceito de o cérebro

masculino e o cérebro feminino, que determinará o que eles podem fazer ou

não, o que realizarão ou não. Tudo regado a uma forte dose de

neurobaboseira.

Mas os neurocientistas podem avançar e estão avançando o debate. A

questão das diferenças sexuais no cérebro é contestada. Se elas existem, de

onde vêm? E o que significam para o dono do cérebro? Vimos que nosso

cérebro é um sistema que procura por regras, gerando previsões baseadas

no mundo em que opera para nos guiar por ele. Assim, para entender como

cérebros diferentes chegam a destinos diferentes (porque eles chegam

mesmo), percebemos que precisamos estar muito mais conscientes de

exatamente que regras sociais (certas ou erradas) existem aí fora a serem

absorvidas. Uma compreensão emergente da perpétua plasticidade do cérebro implica que precisamos considerar que experiências

transformadoras nosso cérebro encontrará pelo caminho.

A plasticidade cerebral não trata apenas de dirigir um táxi e fazer

malabarismos (apesar de estes insights se mostrarem intrigantes), mas do

impacto que atitudes e crenças podem ter em nosso cérebro flexível.

Entendê-lo como um sistema de aprendizagem profunda significa que

podemos ver, assim como Tay, a infeliz chatbot da Microsoft, como um

mundo tendencioso produzirá um cérebro tendencioso. Precisamos registrar

o bombardeio generificado que vem da mídia cultural e das redes sociais

virtuais, bem como de familiares, amigos, empregadores, professores (e nós

mesmos), e entender o impacto muito verdadeiro que isto tem em nosso

cérebro.

A neurociência cognitiva do desenvolvimento está nos mostrando como

os bebês e seus cérebros são sofisticados. Antigamente pensávamos neles

com desprezo, como seres meramente “reativos” e “subcorticais”. Mas

desde o primeiro dia (e possivelmente antes disso) estas esponjas sociais

diminutas, plenamente equipadas com “kits de iniciação corticais”, estão se

incorporando a suas redes sociais reais e procurando por regras de

engajamento social em seu mundo. Assim, precisamos manter o alerta para

o que elas podem encontrar por aí.

Estamos apenas começando a perceber que temos uma segunda “janela

de oportunidade” para observar a construção e desconstrução de redes

cerebrais e o (possível) surgimento de um ser social adulto. A adolescência

marca um período de reorganização dinâmica das redes cerebrais, uma

“necessidade no nível do sistema” que vê uma mudança de conexões locais

e dentro do sistema para conexões globais mais amplas entre diferentes

partes cerebrais.[1] Estas mudanças são quase tão drásticas quanto aquelas

que acompanhamos no cérebro de bebês. Como os adolescentes são (em

geral) um grupo mais acessível e submisso do que recém-nascidos, existe a

possibilidade de neurocientistas conseguirem identificar essas mudanças na

organização cerebral ao mesmo tempo em que acompanham mudanças no

comportamento.

Ninguém precisa ser neurocientista para saber que adolescentes têm

dificuldades com a regulação das emoções e a inibição de impulsos, assim

como parecem ser excessivamente suscetíveis à pressão de colegas e à

rejeição social.[2] Todos esses processos, como sabemos, são características

essenciais das atividades do cérebro social e podem ser modelados por

investigação no escâner. Como uma compreensão das atividades do cérebro

social parece estar no cerne da compreensão de como o cérebro interage

com seu mundo, de como um senso emergente de self pode ser refletido no

cérebro e no comportamento, então um foco nestes processos na

adolescência talvez traga insights, por exemplo, de como as regras sociais e

outros aspectos influentes podem determinar processos corticais.[3]

A neurociência social cognitiva está se colocando no palco central,

fazendo-nos perceber que a construção de nós mesmos como seres sociais

talvez seja o triunfo mais poderoso da evolução cerebral. Está claro que

compreender o cérebro social pode nos dar uma lente imensamente eficaz

para investigar como um mundo generificado pode produzir um cérebro

com essa mesma divisão, como os estereótipos de gênero são uma ameaça

muito real baseada no cérebro que pode desviá-los do ponto final que eles

merecem. Compreender a importância da autoestima e de processos como o

autossilenciamento nos dará um manejo muito melhor das bases cerebrais

dos hiatos de gênero e do insucesso.[4] Se soubermos como é construído um

“limitador interior”, teremos uma possibilidade melhor de recalibrá-lo para

que seja um componente útil de nosso cérebro social.

Agora que sabemos que explicações para todo tipo de hiato de gênero

são um emaranhado de processos baseados no cérebro e no mundo,

devemos perceber que resolver o problema envolverá desemaranhar cada

um dos fios para saber se podemos pensar em uma versão melhor.

 

O cérebro importa – não culpem a água?

Um dito popular afirma que se temos vazamento em um cano, não devemos

culpar a água. Substituir todo o cano pode ser uma solução de longo prazo,

mas às vezes pode ser útil encontrar meios de deter o vazamento.

Examinamos a contínua sub-representação de mulheres na ciência como

um estudo de caso exatamente do tipo de teia emaranhada de diferentes

fatores que podem alicerçar uma questão dessas. Isto pode incluir uma

visão de mundo da ciência como uma instituição masculina, com os

cientistas quase invariavelmente sendo homens, proporcionando um

ambiente frio para mulheres que queriam ser cientistas, ou uma visão de

mundo de mulheres (comumente compartilhada pelas próprias mulheres)

como carentes da aptidão e do temperamento necessários, incapazes,

desconectadas, desiludidas. Vide o famoso incidente do memorando do

Google no verão de 2017.[5]

Diante desta conjunção de características excludentes, as mulheres

podem sucumbir a uma profecia autorrealizável de ameaça do estereótipo.

E, assim, o ciclo continua. Será que as descobertas “paradoxais” de que os

hiatos de gênero na ciência são maiores em países com a maior igualdade

de gênero realmente dão apoio ao argumento de que as mulheres, onde têm

mais liberdade de opções, naturalmente gravitam para carreiras não

científicas?[6] Ou será que onde têm mais liberdade de opções, elas

naturalmente gravitam para longe de locais de trabalho pouco acolhedores,

em particular onde seu treinamento comportamental e cortical instilou nelas

uma crença de que estes locais não lhes servem?

Claramente existem passos que precisam ser dados na cultura da ciência

para torná-la mais atrativa a quem não se envolve atualmente ou que, com o

tempo, afasta-se dos livros.[7] Grandes passos estão sendo dados, por

exemplo, com políticas mais favoráveis às famílias, mas os hiatos de gênero

contínuos nos escalões mais altos indicam que ainda temos estrada pela

frente.[8]

Uma abordagem adicional pode ser encontrar meios de fortalecer

aquelas cujo limitador interior esteja com ajuste baixo demais (ou pode

refletir uma vida inteira de expectativas baixas). A questão do

autossilenciamento e da desvinculação precisa ser atacada.[9] Como vimos, o problema da ansiedade com a matemática nos dá insights úteis sobre as

muitas causas enredadas de desempenho abaixo da média, mostrando como

os processos de regulação das emoções pode interferir no processamento

contínuo.[10] Mas também podemos ilustrar exatamente o que está

acontecendo de errado – que potência e atratividade tem o feedback

negativo para quem sofre de ansiedade, revelado pela ativação claramente

acentuada no “sistema de avaliação de erros” em seu cérebro, como sua

atenção é desviada de possíveis fontes de apoio e a impele a jogar toalha

cedo demais.[11]

Existem meios de tornar nosso cérebro mais resistente e desativar os

processos inibidores negativos que podem levar à derrota e à desvinculação.

Os psicólogos Katie van Loo e Robert Rydell, da Universalidade de

Indiana, demonstraram que um processo muito simples de “empowerment”

vacinou meninas contra o efeito da ameaça do estereótipo.[12] Eles

mostraram que permitir que elas se imaginassem em posições de poder,

como CEOs, por exemplo, classificando os funcionários por ordem de

utilidade, podia moderar o efeito da ameaça do estereótipo em um teste

subsequente de matemática. Esse efeito foi também mostrado no cérebro,

em que o “priming de alta potência” pode reduzir os níveis de ativação

naquelas partes cerebrais associadas à interferência cognitiva.[13]

Às vezes o empowerment (o “empoderamento”) pode ser manipulado de

formas muito fáceis – psicólogos sociais mostraram que gestos simples,

como ter fotos de mulheres poderosas como Hillary Clinton ou Angela

Merkel no plano de fundo pode auxiliar oradoras nervosas.[14] A

importância de modelos no estabelecimento da identidade pessoal ou nos

desafios de superação foi bem estabelecida na psicologia social e na

neurociência cognitiva social.[15] Os modelos também podem ter um papel

fundamental no reforço de autoimagens negativas e na sinalização da

autoestima em todas as idades, e em muitas situações.

Da mesma forma, as evidências do forte impulso para pertencer a um

endogrupo podem ser aproveitadas no desenvolvimento de iniciativas de

incentivo a meninas (ou quaisquer pessoas que sejam sub-representadas).

Um ótimo exemplo é a iniciativa do grupo de campanha Women in Science and Engineering (WISE). O “Pessoas Como Eu” explora uma pauta de

“adaptação” na escolha da profissão e mostra como qualquer tipo de

personalidade pode encontrar correspondência em diferentes carreiras

científicas.[16] Esta campanha de recrutamento tem como alvo não só

meninas, para mostrar como podem combinar suas caraterísticas pessoais

com diferentes tipos de cientistas, mas também pais, professores e

empregadores, para garantir que estejam conscientes destas diferenças

individuais e que adaptem seu estímulo à ciência de acordo com isso.

Os problemas baseados na cultura claramente precisam ser resolvidos

pela correção da cultura, mas fortalecer aqueles que se envolvem com ela

pode reforçar as soluções propostas e acelerar o processo de mudança. Uma

compreensão do que leva ao engajamento ou à desvinculação pode dar

respostas a hiatos de gênero paradoxais, em que pessoas evidentemente

capazes parecem se afastar das oportunidades que aparecem.

 

Nem tudo gira em torno do sexo

 

Uma mensagem fundamental neste livro é que um foco persistente na pauta

de pesquisa do cérebro, efetivamente desde o início do século XIX, foi

impulsionado pela necessidade percebida de explicar diferenças entre dois

grupos divididos por seu sexo biológico. Como vimos no último capítulo,

só estamos começando a despertar para a ideia de que atualmente não

existem evidências de haver de fato alguma diferença relevante, seja no

cérebro desses dois grupos, seja nos comportamentos que estes cérebros

apoiam. É claro que existem diferenças médias entre os grupos, mas os

tamanhos do efeito são caracteristicamente muito pequenos e basta tirar a

média para eliminar quaisquer diferenças individuais de interesse. Hoje se

contesta até a concepção de diferenças sexuais no nível biológico

fundamental.[17]

Talvez esteja na hora de repensar como a neurociência pode vir a

entender os pontos fracos e fortes, as capacidades e aptidões, as “histórias cerebrais” das pessoas, fazendo justo isto – olhando para elas. As técnicas e

os objetivos da imagem cerebral inicial preocupavam-se com descrições

genéricas de as áreas de linguagem, as reservas de memória semântica, as

áreas de reconhecimento de padrões, em todos nós. As diferenças

individuais eram tratadas como ruído e tirava-se a média dos dados dos

participantes para eliminar esta variabilidade. Por experiência pessoal,

descobertas intrigantes de diferenças significativas em participantes

isolados desapareciam depois de gerada a média do grupo. As formas

iniciais de dados e análises de dados eram rudimentares demais para dar

algum insight sobre as diferenças individuais, mas avançamos desde então.

Agora é possível gerar perfis de conectividade funcional, padrões de

atividade sintonizada relacionados com tarefa ou repouso no cérebro que,

como se alegou, são como uma impressão digital, exclusivos de cada

pessoa, suficientemente distintos para que possam ser relacionados com

quem os detêm com uma precisão de mais de 99%.[18] Assim, podemos

examinar cérebros no nível individual. E a evidência sobre o que pode

afetá-los, e quando, indica que devemos examiná-los. Precisamos entender

realmente os fatores externos que modelam estas diferenças individuais,

com as variáveis sociais, como nível de engajamento em redes sociais reais

e autoestima, e variáveis de oportunidade como prática esportiva, hobbies

ou experiência em videogames, acompanhando medidas mais padrão, como

escolaridade e ocupação. Cada uma dessas coisas pode alterar o cérebro –

às vezes de forma independente do sexo e às vezes muito próximas a ele,

mas contribuirão para o mosaico quase singular que agora sabemos que

caracteriza cada cérebro.[19]

As neurocientistas cognitivas Lucy Foulkes e Sarah-Jayne Blakemore,

ao escreverem sobre o cérebro adolescente, também exortaram que

devemos examinar aqui as diferenças individuais.[20] Elas observaram que

fatores sociais como status socioeconômico, cultura e fatores de “ambiente

dos pares”, que incluem o tamanho das redes sociais reais e a experiência

do bullying, em que havia variações individuais acentuadas, mostraram ter

impacto significativo nos perfis de atividade cerebral.

Com a disponibilidade de conjuntos de dados suficientemente grandes de

sistemas de imagem cerebral muito mais fortes e os protocolos analíticos

poderosos que agora são desenvolvidos, bem como programas

automatizados de reconhecimento de padrões, a possibilidade de examinar

as influências de variáveis múltiplas, das quais o sexo biológico pode ser

um exemplo, está a nosso alcance.[21]

Esta proposta, de forma alguma, pretende negar que as diferenças

sexuais podem importar. Sabemos que existem desequilíbrios de gênero em

problemas de saúde mental como a depressão e o autismo, bem como

problemas de saúde física, como a doença de Alzheimer e os distúrbios

imunológicos.[22] Mas, para compreender isto, precisamos reconhecer que,

a fim de desembrulhar os motivos para qualquer desequilíbrio de gênero,

não devemos supor que basta se concentrar no sexo biológico para obter as

respostas.

Uma ordem recente dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados

Unidos insistiu que toda pesquisa fundamental e pré-clínica incluísse o sexo

como uma variável biológica nos ensaios, especificamente para lançar uma

luz sobre os desequilíbrios de gênero em condições patológicas.[23] Isto

proporcionará dados adicionais valiosos sobre a influência do sexo

biológico nestes problemas. Mas os dados sobre cérebros de mosaico e a

dimensionalidade nas medidas comportamentais revelam que usar o sexo

como uma categoria genérica pode excluir influências contribuintes

essenciais e pintar um quadro enganador.

 

Perigos e armadilhas –

neurossexismo e neurolixo

 

A neurociência cognitiva é vista corretamente como uma participante

essencial na construção de um quadro do comportamento humano em todos

os níveis de análise, do genético ao cultural. O que ela produz pode ser mais

acessível do que algumas pesquisas epigenéticas ou neurobioquímicas mais complexas e pode dar relatos mais próximos das experiências cotidianas do

público. Só que, com esta acessibilidade, deve vir a responsabilidade. Como

indicou Donna Maney, professora de psicologia na Universidade Emory, em

Atlanta, existem perigos e armadilhas associados com o relato de diferenças

sexuais; enfatizar demais os aspectos essencialistas das descobertas pode

reforçar visões deterministas biológicas infundadas.[24] O uso de termos

como “profundo” ou “fundamental”, quando os tamanhos do efeito são

mínimos, é irresponsável; ignorar as contribuições de variáveis além do

sexo é enganador. Uma “crença na biologia” traz uma mentalidade

específica a respeito da natureza fixa e imutável da atividade humana e

ignora as possibilidades dadas por nossa compreensão emergente de até que

ponto nosso cérebro flexível e seu mundo adaptável são inextricavelmente

enredados (e pode levar pessoas desinformadas, como James Damore, a

escrever memorandos equivocados a seus empregadores).

Também vale a pena ficar de olho na loucura neural que caracteriza parte

da pior divulgação científica popular, em particular no gênero da autoajuda.

Embora seja lisonjeiro nos considerarem telepatas que podem resolver

todos os problemas de relacionamento, os neurocientistas devem ter cautela

com as manchetes que podem penetrar na consciência pública e enganar e

desinformar. O neurolixo pode desacreditar o trabalho genuíno e importante

que surge nos laboratórios de neurociência. E quando já existem tantas

fontes de viés transformador do cérebro em nosso mundo, excluir um só

pode ajudar (ou só permitir que chegue ao domínio público com alertas de

“saúde cerebral” – ler esta besteira pode prejudicar seu cérebro).

 

Os bebês importam –

cuidem dos humaninhos

 

Os neurocientistas há muito identificaram os primeiros anos como os mais

plásticos de todas as fases do desenvolvimento cerebral. As novas

revelações de neurocientistas cognitivos do desenvolvimento, como com que precocidade o mundo pode ter impacto nesses cérebros minúsculos,

deve nos fazer parar para pensar neste mundo. Assim, campanhas populares

como Let Toys Be Toys[25] de fato importam – e sabemos que nosso

detetive mirim de gênero vai desencavar quaisquer “verdades ocultas”,

portanto, talvez precisemos permanecer mais firmes do que gostaríamos

quanto à “princesificação”. Se quisermos criar filhas destemidas e filhos

solidários, talvez ela possa ter um castelo de conto de fadas cor-de-rosa –

mas precisa ser construído por ela própria, e parem com os diálogos do tipo

“seja homem”. Estas coisas importam.

Um programa de 2017 da BBC intitulado No More Boys and Girls

investigou a extensão de crenças estereotipadas de sexo/gênero em meninas

e meninos de sete anos e, acompanhando-os por um período de mais de seis

semanas, viu o que aconteceu quando tentaram eliminar ao máximo as

influências estereotipadas da sala de aula.[26] Isso mudou a crença pessoal

que eles tinham sobre seu comportamento? Os créditos de abertura eram

desanimadores, com menininhas enfatizando a importância de ser bonita e

os meninos imaginando que podiam “chegar a ser presidentes”. Houve

muitos outros momentos que provocam reflexões; o nível de autoestima das

meninas (aos sete anos de idade) era muito mais baixo do que o dos

meninos; o professor (homem) não tinha consciência de que rotulava os

alunos por gênero (“parceiro” para os meninos, “docinho” para as meninas),

mas de boa vontade aderiu a um regime de aperfeiçoamento pessoal; as

meninas subestimaram imensamente sua habilidade em um jogo de força (e

choraram quando conseguiram uma alta pontuação), enquanto os meninos

superestimaram a deles (e tiveram um ataque de birra daqueles quando

ficaram na última colocação). Conhecemos uma mãe que permitia que a

filha acumulasse um armário cheio de roupas de princesa; outra mãe

concordando que provavelmente não deixaria a filha vestir uma camiseta

cor-de-rosa proclamando “Nascida para Ser Mal Paga” (embora existissem

vários exemplos do gênero “Nascida para Ser Esposa de Jogador de

Futebol”). Houve algumas mudanças, mesmo que apenas por seis semanas;

as meninas ficaram mais confiantes e a ideia do futebol misto se provou, no

fim, um sucesso.

Mas talvez o mais preocupante tenha sido o status quo inicial revelado

no começo. Como sabemos, aos sete anos, nossos detetives mirins de

gênero (eles e seus cérebros) já terão procurado por gêneros por mais de

metade da vida, revirando o lixo rotulado por gênero em busca de afirmação

de sua identidade e do que isto significa, não só para o presente, mas para o

futuro. As escolas podem ter um importante papel na identificação e, se

necessário, na tentativa de desfazer os efeitos da estereotipia de gênero, em

particular com relação às expectativas baixas que podem criar.

 

Não deixe rolar – as águas generificadas em que

nadamos

 

Tem uma piada sobre o Peixe Um e o Peixe Dois nadando juntos quando

encontram pelo caminho o Peixe Três. “Como está a água?”, pergunta o

Peixe Três. “Hmm... tá ótima”, diz o Peixe Um. Pouco tempo depois, o

Peixe Dois se vira para o companheiro e pergunta, “Que água?”. A moral

desta história é que talvez estejamos alegremente inconscientes do mundo

pelo qual nos movemos. No século XXI, os estereótipos de gênero são mais

ubíquos do que nunca, com o bombardeio tão constante que podemos muito

bem nos desligar, alegar que não é relevante para como levamos a vida,

supor que isto foi resolvido, ou menosprezar tentativas de abordar o

problema como mera questão do politicamente correto.

Precisamos lembrar que os estereótipos servem a um propósito – são

atalhos cognitivos com que nos entendemos muito mais rapidamente com o

mundo. Eles podem reforçar o self, seja porque se mostram úteis e todas as

menininhas sentam-se em silêncio completando os álbuns de figurinhas

enquanto os menininhos correm pelo campo de futebol lá fora, ou porque

eles contêm um elemento de realização pessoal: “As mulheres são ruins em

matemática; aqui está uma tarefa de matemática, meninas; vocês não se

saíram tão mal.” E eles servem ao propósito de nosso cérebro preditivo,

fornecendo informações para o estabelecimento de um precedente, raras vezes sendo associado a um erro de previsão e refletindo fielmente a cultura

em que o cérebro opera.

Onde os estereótipos são ligados à identidade pessoal, eles se tornam

firmemente incrustados no funcionamento do cérebro social, até com a

sugestão de que têm seu próprio local cortical separado.[27] Isto certamente

é válido para os estereótipos de gênero. Os ataques nesta classe de

estereótipo podem equivaler a um ataque à autoimagem de uma pessoa,

assim será defendido com ferocidade. Até permitir a loucura do Twitter,

alguns dos tuítes mais desagradáveis que recebi depois de meu

envolvimento no programa No More Boys and Girls tinham acusações de

apoiar a pauta de engenharia social da BBC e até referências mais

desagradáveis a “interferir com as crianças”.

Precisamos desafiar insistentemente os estereótipos de gênero. Podemos

ver como eles estão modelando a vida de crianças novas, como servem

como gatekeepers para os escalões mais elevados do poder, da política, dos

negócios, da ciência, bem como possivelmente contribuem para problemas

de saúde mental, como a depressão ou os distúrbios alimentares.

A neurociência pode ter importância nisto. Pode ajudar a formar uma

ponte no hiato entre os velhos argumentos natureza X criação e mostrar

como nosso mundo pode afetar o cérebro. Os neurocientistas podem desviar

as pessoas da mentalidade fixa de que estamos presos à biologia que a

natureza nos deu. Podemos garantir que quem possui o cérebro tenha

consciência do recurso flexível e maleável que essas pessoas têm na cabeça,

mas também tornar nossa sociedade consciente da natureza transformadora

que têm os estereótipos negativos (de qualquer tipo) para o cérebro, que

podem levar ao autossilenciamento, à culpa pessoal, à autocrítica e a uma

autoestima em baixa. Apesar das ondas iniciais de neurobobagem e

neurodisparates, as explicações da neurociência nem sempre são uma

bobajada sedutora.

Talvez não seja tão simples como parece desafiar as visões

estereotipadas sobre sexo e gênero. Chamar a atenção para as evidências de

viés racial tem induzido muito facilmente a culpa e a determinação futura

de reduzi-lo; as evidências de viés de gênero podem ter uma reação bem diferente. O “acusado” pode negar o viés (“Acho as mulheres

maravilhosas”), justificar o viés (“O lugar das mulheres não é na ciência

mesmo”), chamar de “supersensível” quem reclama ou tentar ignorar

“verdades inconvenientes”.

O quanto estes desafios são importantes? Será que não estamos falando

apenas sobre frivolidades do marketing? Câmaras de eco baseadas no

Twitter que podemos ignorar tranquilamente? Mas ainda existem problemas

a resolver. Os hiatos de gênero ainda são abundantes; as tentativas de

abordar a ausência de mulheres na ciência e na tecnologia têm tido um

sucesso limitado, resultando em um desperdício de capital humano

desesperadamente necessário; a maior incidência de depressão e ansiedade

social e distúrbios alimentares em mulheres pode ser um desperdício de

vidas humanas.

Outra linha de preocupação é a possibilidade, até a probabilidade, de que

os estereótipos sirvam como uma camisa de força biossocial, uma forma de

“coerção cerebral”. Os progressos na teoria da evolução podem ter muita

importância em nosso pensamento sobre as características limitantes dos

estereótipos.[28] Uma alegação repetida com frequência é de que os hiatos

de gênero refletem diferenças geneticamente determinadas e firmemente

arraigadas, que continuam sólidas diante de tentativas bem-intencionadas,

mas, no fim, infrutíferas, de nivelar o campo de jogo. Mas talvez fatores

sociais e culturais tenham importância muito maior no que parecem

diferenças biologicamente fixas. Talvez estas diferenças pareçam fixas por

refletirem exigências resolutamente estratificadas deste ambiente. Talvez a

origem da estabilidade (ou a falta de mudança, dependendo de sua

perspectiva) venha de um “ambiente fixo”. Como vimos neste livro, a

socialização longa e intensiva vivida pelos bebês humanos é repleta de

ênfase nas diferenças entre os sexos, por meio de brinquedos

estereotipados, roupas, nomes, expectativas e modelos. E sabemos que

nosso cérebro refletirá estas informações. Talvez os estereótipos estejam

metendo numa camisa de força nosso cérebro plástico e flexível. Então,

sim, é importante desafiá-los.

* * *

 

Viés pra cá, viés pra lá. Vamos encerrar lembrando Tay, a chatbot de

sistema de aprendizagem profunda que se lançou com entusiasmo no

Twitter para ver se podia aprender alguma “conversa despreocupada e

lúdica” ao interagir com usuários daquela rede social virtual. Tay começou

tuitando sobre como os “humanos são superlegais” e acabou virando uma

“babaca sexista e racista”[29] em 16 horas. O mundo da camisa de força dos

estereótipos a que está exposto nosso cérebro pode ter o mesmo efeito.

“Sou melhor do que isso”, tuitou a pobre Tay antes de a desativarem.[30]

O mesmo pode ser dito de nossos cérebros.

 

* Ver www.dauntlessdaughters.co.uk.