Gênero e os Nossos Cérebros
2. Os hormônios furiosos dela
CAPÍTULO 2:
OS HORMÔNIOS FURIOSOS DELA
Em qualquer discussão sobre as diferenças sexuais entre cérebros humanos
e qualquer ligação com comportamento, uma pergunta frequente é: “E os
hormônios?”. A crença de que as diferenças sexuais no comportamento são
ligadas à ação desses mensageiros químicos como são com a ação do
cérebro é firmemente arraigada nas explicações biológicas populares de
nossas habilidades, aptidões, interesses e capacidades. O sucesso (ou
fracasso) financeiro, habilidades de liderança, a agressividade e até a
promiscuidade foram atribuídas ao alto nível de testosterona nos homens,
enquanto as habilidades de criação dos filhos, ótima memória para
aniversários e talento para costura e bordado, pelo visto, reduzem-se a seus
níveis de estrogênio.[1] Na verdade, alega-se que os hormônios são
diretamente responsáveis pelas diferenças sexuais no cérebro, com a
presença ou ausência da exposição pré-natal à testosterona determinando o
desenvolvimento do cérebro em vias masculinas e femininas divergentes.[2]
Com a descoberta do primeiro hormônio no início do século XX, a
atenção se concentrou no controle químico do comportamento, com as
gônadas e glândulas sendo medidas e manipuladas para ver como afetavam
o comportamento de quem as possuía.
Foi um fisiologista franco-mauritano, Charles-Edouard Brown-Séquard,
o primeiro a especular que existiam algumas substâncias químicas
secretadas na corrente sanguínea que podiam controlar órgãos à distância.[3]
Ele testou isto preparando um coquetel de testículos de cães e porquinhos-
da-índia, que ele próprio bebeu corajosamente, e relatou depois uma
sensação de maior vitalidade e clareza mental. A secretina, a primeira
destas substâncias a ser identificada, foi descoberta em 1902 por um médico
inglês, Ernest Starling, enquanto trabalhava com um fisiologista, William
Bayliss.[4] Eles demonstraram que esta substância, que agora batizaram de
hormônio (do grego para “pôr em movimento”), era feita por glândulas no
intestino delgado e podia estimular o pâncreas. Depois disto, acelerou-se a
descoberta de muitos locais de produção e ação destes agentes de controle
químico, ou biorreguladores. Como era de se esperar, a pesquisa do controle
do comportamento relacionado com o sexo e das diferenças sexuais teve
prioridade na lista dos primeiros projetos.
Os andrógenos, estrógenos e progestógenos, os hormônios que
determinam o desenvolvimento dos órgãos sexuais e controlam o
comportamento reprodutivo, foram identificados no final dos anos 1920 e
inícios dos anos 30, embora os efeitos de testes de transplante em vários
animais tenham sido estudados desde o século XVIII.[5] Da mesma forma,
no final do século XIX, descobriu-se que o extrato ovariano era eficaz no
tratamento dos fogachos, indicando a existência de alguma secreção
especificamente feminina relacionada com a menstruação.[6]
Um andrógeno fundamental, a testosterona, foi batizado em 1935
quando isolado de testículos de touro. O professor de química que
descobriu a testosterona, Fred Koch, mostrou que galos ou ratos castrados
podiam ser remasculinizados se recebessem injeções deste hormônio. Por
exemplo, mostrou-se que a crista encolhida de um galo castrado volta a sua
glória anterior.[7] Esta foi a base para alguns tratamentos bizarros que
alegavam melhorar a virilidade (em uma hora de folga, talvez você queira
descobrir o que acarreta ser “steinachized”).[8]
Com relação aos chamados hormônios femininos, em 1906 foi
demonstrado que secreções dos ovários produziam atividade sexual cíclica
em fêmeas não humanas.[9] Estas foram batizadas de estrógenos, dos termos
gregos oistrus (desejo louco) e gennan (produzir – dá para imaginar o
gênero dos cientistas que lhes deram esse nome.) Os diferentes estrógenos
(estrona, estriol e estradiol) foram isolados como hormônios e sintetizados
no início da década de 1930. Mostrou-se, por exemplo, que induziam o
início da puberdade em fêmeas animais não humanas e podiam induzir um
comportamento sexual de fêmea em ratos machos.[10]
Algo que devemos observar é que, embora os andrógenos sejam
descritos como hormônios masculinos e estrógenos e progestógenos como
hormônios femininos, eles são encontrados em todos nós, homens e
mulheres (embora houvesse uma sugestão inicial de que o estrogênio
encontrado nos homens na verdade viesse de seu consumo de arroz e
batata-doce – deste modo, presumivelmente, liberando o campo de pesquisa
para atribuir os aspectos negativos do estrogênio apenas à versão natural e
imutável encontrada nas mulheres).[11] São os níveis de cada um deles que
variam entre homens e mulheres; a escala da testosterona naturalmente
costuma ser mais elevada em homens do que em mulheres, e o estrogênio
mais elevado em mulheres do que em homens, mas é melhor ter em mente
este processo dual quando considerarmos explicações de diferenças sexuais
relacionadas com hormônios no comportamento.
Como nos primeiros estudos do cérebro, houve um entusiasmo para
explorar a ligação entre este recém-descoberto meio químico de controlar o
comportamento e as diferenças sexuais, em especial porque os hormônios
“sexuais” claramente tinham ligação com aspectos bem diferenciados do
comportamento em animais não humanos, isto é, seus diferentes papéis na
reprodução. Mas como investigá-los na espécie humana? Determinou-se
rapidamente (e felizmente) que a ingestão heroica de secreções testiculares
ou ovarianas era um tanto limitada em sua utilidade na busca pelas provas.
Do mesmo modo, seria complicado encontrar um paralelo humano para os
efeitos da castração precoce seguida por injeções de estrogênio em ratos
machos.
Além disso, quais aspectos do comportamento deveriam ser
examinados? Se estivéssemos interessados na explicação do fenômeno
social do status quo dos homens superiores de alta realização em
contraposição às mulheres inferiores e emocionalmente instáveis, então
comparar as práticas reprodutivas dos dois sexos provavelmente não se
mostraria politicamente esclarecedor, como se poderia esperar. A atenção se
concentrou no “bem conhecido” ciclo mensal de aumentos e decréscimos
da instabilidade emocional na irracionalidade fundamental das mulheres
que, como vimos no capítulo anterior, foi tão fervorosamente detalhado por especialistas homens do século XIX. Quem sabe se Brown-Séquard tivesse
experimentado o coquetel combinado com base nos órgãos femininos, não
teria vivido uma perda arrasadora de acuidade mental? O problema dos
“hormônios furiosos”, já insinuado pelas preocupações de McGrigor Allan
com a menstruação no século XIX, tornou-se a explicação du jour para a
inconveniência de dar qualquer posição de poder às mulheres.
O ciclo menstrual:
maldoso, mal-humorado ou mítico?
O acompanhamento das alterações no comportamento das mulheres durante
o ciclo menstrual tem sido uma fonte popular de informações – e
historicamente, é claro, sustentado como motivo para que sejam mantidas
longe de posições de poder e influência. Em 1931, um ginecologista
chamado Robert Frank deu credibilidade científica a esta concepção ao
sugerir uma ligação entre os recém-descobertos hormônios e a “tensão pré-
menstrual” (agora conhecida comumente como TPM) em suas pacientes
que mostravam “atos tolos e irrefletidos” pouco antes da menstruação. Este
foi o nascimento da agora famosa “síndrome pré-menstrual” (SPM).[12]
Foi Katherina Dalton, endocrinologista britânica dos anos 1960 e 70,
quem realmente deu à SPM a identidade de uma síndrome médica ao
agrupar muitos sintomas físicos e comportamentais associados,
relacionando-os firmemente com a fase pré-menstrual e identificando uma
clara causa biológica, um desequilíbrio hormonal.[13] A SPM tornou-se um
fenômeno de ampla aceitação nas culturas ocidentais, em que os dias
anteriores ao início da menstruação supostamente são associados a drásticas
explosões de mau humor, fraco desempenho escolar ou no trabalho,
declínio geral da competência cognitiva e aumentos nos índices de
acidentes. Estimou-se que 80% das mulheres nos Estados Unidos vivem
sintomas pré-menstruais emocionais ou físicos.[14] A SPM tem um lugar
estabelecido na cultura popular, em que encontramos um consenso geral sobre o frenesi e a montanha-russa hormonal pré-menstrual, com mulheres
descontroladas sofrendo um inferno por semanas.[15]
É interessante observar que levantamentos da Organização Mundial da
Saúde sugerem a existência de variações culturais nas queixas associadas
com a fase pré-menstrual. As mudanças emocionais relatadas anteriormente
são quase exclusivamente encontradas na Europa ocidental, na Austrália e
na América do Norte, enquanto mulheres das culturas orientais, como a
China, mais provavelmente observam sintomas físicos, como retenção
hídrica, mas raras vezes mencionam problemas emocionais.[16]
Em 1970, o dr. Edgar Berman, então membro do Comitê do Partido
Democrata Americano sobre Prioridades Nacionais, declarou que as
mulheres eram ineptas para posições de liderança devido a seus “furiosos
desequilíbrios hormonais”. Segundo o raciocínio dele, somente as mulheres
na pré-menarca ou pós-menopausa seriam confiáveis porque não ficavam
irracionais por vários dias no mês. Imagine, disse ele, uma presidenta de
banco “fazendo empréstimos neste período em particular. Ou, pior, uma
mulher menopáusica na Casa Branca diante da Baía dos Porcos, o Botão e...
fogachos”.[17] Inicialmente, as mulheres foram destituídas do programa
espacial porque parecia desaconselhável ter tais “humanas
psicofisiologicamente temperamentais” a bordo de uma espaçonave.[18]
No Ocidente, o conceito de SPM é tão estabelecido que pode se tornar
uma espécie de profecia autorrealizável, usada para explicar ou ser culpada
por eventos que podem igualmente ser atribuídos a outros fatores. Um
estudo mostrou que era mais provável as mulheres culparem seus
problemas biológicos relacionados com a menstruação pelo estado de
espírito negativo, mesmo quando a origem das tribulações podia igualmente
estar em fatores situacionais.[19] Outro estudo mostrou que se eram
“enganadas” a pensar que estavam na pré-menstruação, recebendo feedback
artificial de uma medida fisiológica de aparência realista, mulheres
relatavam um número significativamente maior de ocorrências de sintomas
negativos do que aquelas que foram levadas a acreditar que estavam entre
os períodos menstruais.[20]
Mas o que é exatamente a síndrome pré-menstrual? Como você sabe se
tem? E o que a provoca? As respostas a estas perguntas não são simples.
Com relação à sua definição, foi observado que é “vaga e variada”.[21] Não
parece existir uma definição consensual de quais mudanças
comportamentais podem ser investigadas. Foi identificada pelo menos uma
centena de “sintomas” (sic): alguns físicos, como “dor” ou “retenção
hídrica”; outros emocionais, como “ansiedade” ou “irritabilidade”; alguns
cognitivos, como “desempenho diminuído no trabalho”; alguns até mais
indefinidos, como “capacidade crítica reduzida”. Há uma forte ênfase nos
eventos negativos. Na verdade, o questionário usado com mais frequência
para coletar dados sobre estes eventos tem o título sutil de “Questionário de
Aflições Menstruais de Moos” (Moos Menstrual Distress Questionnaire, ou
MDQ, no qual “Moos” é uma referência ao seu autor, não ao mugido de
quem faz uso dele).[22] O questionário pede a mulheres que classifiquem 46
sintomas diferentes em uma escala de “nenhuma experiência” a “aguda ou
parcialmente incapacitante”. Quase todos são comportamentais, por
exemplo, “esquecimento”, “distração” ou “confusão”, e apenas cinco são
positivos, como “explosões de energia”, “ordem” e “sensações de bem-
estar”. É interessante que os estudos tenham descoberto que as pessoas que
nunca viveram a menstruação produziram perfis indistinguíveis das
mulheres que menstruavam quando solicitadas a preencher o MDQ.* [23]
Trabalhos mais recentes mostraram que pode, de fato, haver uma ligação
entre os hormônios femininos e mudanças positivas no comportamento (o
que, naturalmente, não seria o foco daqueles da escola de Gustave LeBon,
J. McGrigor Allan e Edgar Berman). Um consenso emergente é de que as
descobertas mais confiáveis são de melhora cognitiva e processamento
afetivo associados às fases ovulatória e pós-ovulatória, em vez de os
supostos déficits que alegaram surgir na fase pré-menstrual. Em uma
revisão recente e sistemática do funcionamento cognitivo e do
processamento das emoções durante o ciclo menstrual, que incluiu
medições com fMRI e ensaios hormonais, descobriu-se que uma melhora
do desempenho na memória verbal e espacial funcional era associada com
altos níveis de estradiol.[24] Mudanças relacionadas às emoções, como melhor precisão no reconhecimento das emoções e memória emocional
aumentada, foram encontradas quando os níveis de estrogênio e
progesterona eram altos. Isto foi associado com a reatividade maior na
amígdala, parte da rede de processamento de emoções do cérebro. Ainda
não topei com nenhum Questionário de Euforia na Ovulação!
A história da SPM nos dá um bom estudo de caso do papel das profecias
autorrealizáveis na ligação entre biologia e comportamento. Um fenômeno
vago, definido por medições autorrelatadas muito tendenciosas, tornou-se
um bom gancho em que penduram eventos comportamentais, rotulados de
forma reveladora como “sintomas”, e além de tudo com ênfase nos
problemas que este fenômeno biológico pode causar nas mulheres (e em
quem as cerca). O que parecia um jeito ideal de estabelecer causa e efeito,
pela identificação de como as mudanças de comportamento são ligadas a
mudanças hormonais relacionadas com o ciclo menstrual, tornou-se mais
um exemplo de como as crenças estereotipadas podem vir a ser tão
firmemente estabelecidas que até aquelas a quem se referem passam a
acreditar nelas.**
Outras formas de estabelecer causa e efeito nos levam de volta a estudos
animais. O trabalho inicial mostrou que os hormônios podem determinar
diferenças físicas fundamentais em organismos de fêmeas e machos e que,
pelo menos em animais não humanos, também controlavam o
comportamento pertinente à reprodução, com as fêmeas no cio
apresentando-se aos machos (que obsequiosamente montavam nelas) e as
mães de recém-nascidos mostrando as adequadas habilidades de cuidados
com os filhotes.[25] Sugeriu-se que estes aspectos diferentes de
comportamento masculino e feminino eram ligados à ação de diferentes
hormônios nas vias cerebrais. Uma sugestão ainda mais radical foi a de que
os hormônios têm um papel mais fundamental e que na verdade organizam
o cérebro de forma diferente, com os hormônios masculinos levando
cérebros a desenvolverem-se segundo linhas masculinas, produzindo um
“cérebro masculino”, e os hormônios femininos produzindo um “cérebro
feminino”. Isto é conhecido como a teoria da organização cerebral.[26]
Agora sabemos que a atividade hormonal em fetos de mamíferos é
essencial para determinar seu sexo. Nos seres humanos, até cerca de cinco
semanas a partir da concepção, os fetos masculinos e femininos são
indistinguíveis no aspecto das gônadas. A essa altura, o feto feminino (XX)
desenvolverá ovários, enquanto o masculino (XY) desenvolverá testículos.
Logo depois disto, há uma onda de produção de testosterona dos testículos,
que continua até mais ou menos a décima sexta semana de gestação. Daí até
o nascimento, os níveis de testosterona são muito semelhantes em meninos
e meninas. Ao nascimento, os efeitos desta diferença nos hormônios pré-
natais normalmente são imediatamente evidentes quando olhamos a
genitália externa do recém-nascido – pênis para meninos, clitóris para
meninas. A teoria da organização cerebral propõe que a atividade hormonal
pré-natal em fetos masculinos não está apenas limitada às gônadas do
indivíduo, mas também “masculinizará” o cérebro, determinando níveis
específicos de terreno neural nos homens e distinguindo-os das mulheres,
que não passaram por essa marinada em testosterona. Essas diferenças
cerebrais determinarão, então, as diferenças em suas habilidades cognitivas
e características emocionais, e também, bem possivelmente, suas
preferências sexuais e opções ocupacionais.
A base para a teoria da organização cerebral foi um estudo inicial em
porquinhos-da-índia. Em 1959, Charles Phoenix, estudante de pós-
graduação em endocrinologia na Universidade do Kansas, trabalhando com
seu orientador William Young, e sua equipe, publicou um artigo
demonstrando que administrar testosterona pré-natalmente em fêmeas de
porquinho-da-índia as levava a mostrar comportamento de acasalamento
característico dos machos, e não das fêmeas, quando chegavam à
puberdade, tentando com entusiasmo montar em outras fêmeas.[27] Isto
sugeriu que os hormônios podem exercer um efeito muito duradouro, se
administrados bem precocemente.
Uma implicação da teoria da organização cerebral era de que, como a
estrutura e a função da genitália feminina ou masculina era fixa e
permanente, assim também eram as características femininas ou masculinas
do cérebro. Um refinamento posterior desta teoria referiu-se a um processo de ativação ou “ligação”; a organização pré-natal guiaria estruturas
relevantes no cérebro a pontos finais fixos e sexualmente distintos, e estes
então formariam o substrato para quaisquer efeitos futuros de variações nos
hormônios, mais comumente associadas com o início da puberdade. Assim,
as estruturas masculinizadas ou feminizadas do cérebro reagiriam de formas
diferentes aos hormônios masculinos ou femininos, resultando em um
“comportamento apropriado ao sexo”.
A teoria da organização cerebral parecia ser o “elo perdido” na cadeia de
argumentos de que as diferenças biológicas entre homens e mulheres
determinavam suas distinções comportamentais. Homens e mulheres eram
diferentes porque as substâncias que determinavam seu aparelho reprodutor
também determinavam estruturas e funções fundamentais no cérebro. Mais
tarde, a teoria se estendeu aos reinos de tipos de diferenças sexuais além
daquelas associadas com a reprodução, como “brincadeiras turbulentas”, ou
habilidades espaciais, ou matemáticas, supostamente associadas com a
exposição à testosterona, e os cuidados ou brincar de boneca ligados com os
níveis de estrogênio.[28]
O teste das afirmações não só exigiria monitorar hormônios, cérebros e
comportamento nos diferentes sexos, mas também envolveria experimentar
variadas manipulações hormonais dentro dos sexos e entre eles, tanto antes
como depois do nascimento. Até agora, a evidência fundamental para a
teoria se baseou na manipulação de níveis hormonais em animais via
severas intervenções físicas, como ovariectomia ou gonadectomia, e a
observação subsequente dos efeitos no comportamento, como a frequência
de cópula, posição de montar ou lordose (a postura assumida por alguns
animais, indicando receptividade sexual). Como apontamos anteriormente,
isso não é lá algo que possa ser experimentado da mesma forma na espécie
humana. Ou seria preciso aceitar que o que era realizado com animais não
humanos era um substituto apropriado para o estudo de humanos ou os
pesquisadores teriam de fazer uso de flutuações típicas e atípicas nos níveis
hormonais.
Sobre ratos e homens?
Para os biólogos da primeira metade do século XX, o uso dos chamados
“modelos animais” não era considerado incongruente. Havia o pressuposto
de alguma equivalência fisiológica entre todos os mamíferos que justificaria
conclusões extrapoladas de medidas biológicas de um grupo (ratos,
macacos) a outro (humanos).
É de se pensar que a equivalência comportamental seria um problema
um pouco maior. Poderíamos equiparar, por exemplo, o comportamento de
aprendizagem de um rato em labirinto com as habilidades cognitivas
espaciais de um homem? O pensamento psicológico predominante na época
era o do behaviorismo, escola de pensamento baseada na ideia de que era
adequado traçar paralelos entre o comportamento humano e o não humano.
O behaviorismo declarava que o único tema aceitável para a psicologia era
as atividades e acontecimentos que pudessem ser claramente observados,
objetivamente medidos e registrados, e depois interpretados segundo regras
consensuais.[29] Não havia apelo a pensamentos ou sentimentos íntimos; as
regras do comportamento podiam ser extraídas pela criação de tarefas
cuidadosamente controladas e a observação das consequências da
manipulação de variáveis hipotetizadas. Como ocorreu a aprendizagem?
Crie uma situação de aprendizagem, manipule as principais variáveis e veja
o que aconteceu. Será que podemos aumentar as taxas de reação? Manipule
algumas recompensas (ou “reforços positivos”). Poderíamos reduzir as
taxas de reação? Experimente algumas punições (ou “reforços negativos”).
Não importava que tipo de espécie produzia as reações que
condicionávamos – nenhuma introspecção complicada podia interferir na
geração de teorias científicas do comportamento. Assim, o que era válido
para pombos ou ratos brancos podia ser considerado válido para a espécie
humana, e era perfeitamente aceitável extrapolar do comportamento animal
para o humano.
Os modelos animais foram usados para testar muitos aspectos diferentes
do comportamento, não apenas o simples processo de aprendizagem, mas
também habilidades cognitivas de alto nível, como a cognição espacial (aprendizagem do labirinto) ou habilidades sociais como a criação (o
cuidado com os filhotes). Procurava-se paralelos entre tipos de
comportamento não humanos e humanos, assim sendo possível medir os
efeitos de intervenção direta nos primeiros, uma vez que, por motivos
éticos, seria complicado realizar as experiências necessárias nos últimos.
Será que existe um motivo biológico para os meninos serem mais ativos do
que as meninas (esqueça por um momento se esses níveis de atividade são
realmente diferentes)? Podemos medir o efeito da “brincadeira turbulenta”
expondo embriões femininos a altos níveis de testosterona. Serão os
hormônios que conferem um instinto maternal às mulheres? Experimente
manipular o estrogênio em fêmeas de ratos e veja o que acontece com o
“resgate de filhotes” ou as “lambidas anogenitais”.[30]
É por esse motivo que nossa compreensão inicial da ligação entre
hormônios e comportamento (e, de fato, entre o cérebro e o
comportamento) veio do estudo de animais não humanos. As descobertas
“estabelecidas” de ligações entre as diferenças sexuais no cérebro e o
comportamento podem se referir à pesquisa sobre o tamanho do núcleo de
controle do canto em mandarins e canários (os machos são os canoros e têm
núcleos maiores).[31] Às vezes a tradução se complica e pode haver uma
prestidigitação perceptível em que é preciso examinar com muita atenção
para perceber que os estudos sobre comportamentos sexualmente
dimórficos, que supostamente são de relevância para entender o mal de
Alzheimer e o autismo, na realidade foram realizados em camundongos.[32]
Você ficaria surpreso ao ver a frequência com que alguns dos mais
negligentes escritores de divulgação científica de algum modo se esquecem
de dizer que a pesquisa que eles estão mencionando para embasar seu
meme particular sobre diferenças sexuais foi realizada em aves canoras ou
arganazes, não em pessoas.[33]
Mas suponha que você queira testar as diferenças de sexo/gênero em
características de personalidade, capacidades matemáticas ou opções
profissionais. Ou interesses, em vez de capacidades. Ou identidade de
gênero. Neste caso, os modelos animais não servem de paralelo. Somos
incapazes de dosar cuidadosamente as mudanças na medição do comportamento contra mudanças em níveis hormonais, o que deveria,