Gênero e os Nossos Cérebros
7. Os bebês importam – Comecemos do começo (ou até um pouco antes)
PARTE TRÊS
CAPÍTULO 7:
OS BEBÊS IMPORTAM – COMECEMOS DO COMEÇO
(OU ATÉ UM POUCO ANTES)
Dos brinquedos pelos quais é cercada em seus primeiros anos às atitudes e
expectativas de professores na escola primária (assim como os pais que, por
mais que tentem, terão diferentes crenças e esperanças para suas filhas);
passando pelo alvorecer da consciência de gênero e dos estereótipos de
gênero; da presença ou ausência de exemplos e do poder da pressão dos
colegas e das mudanças cerebrais na adolescência, a decisões educacionais
e ocupacionais e entrando em profissões e/ou na maternidade: uma menina
e seu cérebro não seguirão o mesmo caminho que um menino e o dele.
Olhando pela janela de uma unidade neonatal, se todos os bebês
estivessem embrulhados em mantas de cor neutra, você teria dificuldade
para saber quais são meninas e quais são meninos. Existem alegações,
porém, de que em questão de dias seria possível distinguir um do outro,
mesmo que estivessem embrulhados em mantas de cores neutras. Pendure
um móbile feito de peças de trator sobre um berço e a atenção extasiada do
bebê lhe dirá que é um menino; se, por outro lado, o bebê que balbucia
parece mais encantando com seu rosto, então é muito provável que seja uma
menina.[1] Mas, como veremos, existem problemas com essas alegações e,
de todo modo, apesar do que a brigada da organização cerebral pode nos
dizer, estas diferenças comportamentais não revelam nada sobre os cérebros
por trás delas. Se realmente quisermos alegar que os cérebros de menino e
menina são diferentes, não deveríamos olhar seus cérebros?
Graças mais uma vez aos recentes avanços tecnológicos, temos uma
ideia muito melhor de como são os cérebros de bebês quando eles chegam,
ou mesmo antes. Também aconteceram progressos na psicologia do
desenvolvimento, agora fundamentada por novos modelos de compreensão da relação entre o cérebro dos bebês, o mundo em que são imersos e o
comportamento que surge como consequência disto. Isto nos dá insights
sobre como são incríveis os bebês e seus cérebros. Mas estes insights
também soam como sinos de alarme sobre o mundo em que estão sendo
mergulhadas estas esponjas cerebrais e suas donas.
Janelas para o cérebro do bebê
Ver o cérebro de recém-nascidos é algo que só recentemente pudemos fazer
– a maioria das observações iniciais sobre cérebros de recém-nascidos se
baseavam em bebês que foram monitorados porque eram extremamente
prematuros, ou naqueles que morreram no parto ou antes dele. Mas agora
podemos usar nossas novas técnicas de imagem cerebral e ver as estruturas
nos cérebros mínimos dos bebês nascidos a termo, sem distúrbios cerebrais
e também, o que é mais empolgante, a formação de conexões e vias. E
podemos até fazer a pergunta de um milhão de dólares: os cérebros das
meninas são diferentes dos cérebros dos meninos?
Vale a pena destacar aqui que a imagem cerebral de bebês é uma das
tarefas mais desafiadoras que os neurocientistas podem enfrentar. Se lermos
nas entrelinhas de qualquer artigo de imagem cerebral em que os
participantes eram adultos, notaremos referências a “dados perdidos devido
a movimento excessivo”, ou “participante descartado por fracasso em
completar a tarefa” e “conjuntos de dados incompleto”. O que isto significa
é que a cobaia supostamente disposta foi incapaz de ficar imóvel, dormiu,
esqueceu-se da tarefa pela metade do caminho ou apertou o botão “pare, por
favor” porque superestimou a capacidade da bexiga. Então, imagine como é
muito mais complicado com os bebês. Cada sessão de coleta de dados quase
invariavelmente é precedida de uma sessão de aclimatação, com os
pesquisadores mostrando a seus participantes mínimos (e acompanhantes de
idade adulta) no que eles estão se metendo. Isto pode incluir visitas extra à
sala de scan, fazer CDs de ruídos da máquina para tocar antecipadamente, ou programar visitas ao scan que coincidam com os horários de sono ou
vigília, dependendo de quais círculos cognitivos queremos fazer os bebês
atravessarem. O movimento no escâner é um grande problema para os
pesquisadores e os bebês não são famosos por sua imobilidade cooperativa.
Um promissor rumo para o mapeamento do cérebro do bebê é o
desenvolvimento da espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS, near-
infrared spectroscopy).[2] Baseia-se no mesmo princípio dos aparelhos de
fMRI, de que o fluxo sanguíneo flui a partes mais ativas do cérebro e os
níveis de oxigênio sanguíneo mudam em paralelo com a atividade. Os
aparelhos de NIRS fazem uso do fato de que a luz é refletida de forma
diferente de vasos sanguíneos, dependendo do nível de oxigenação. Na
prática, painéis de lanternas mínimas são presos a couros cabeludos, a luz
infravermelha é acesa pelo crânio na superfície do cérebro e detectores no
couro cabeludo medem a luz refletida. Os níveis variáveis de oxigênio no
sangue podem ser calculados vendo-se os diferentes comprimentos de onda
de luz refletida. Isto permitiu um mapeamento muito mais eficiente da
função cerebral e sua ligação com o comportamento, dando-nos todo um
novo quadro dos bebês e seus cérebros impressionantes.
Desde o momento da concepção, o cérebro do bebê terá um crescimento
incrivelmente rápido. Sabemos que até neurocientistas sóbrios usaram
termos como “exuberantemente” e “vigorosamente” e citaram estatísticas
impressionantes sobre a formação, antes do nascimento, de 250 mil células
nervosas por minuto e setecentas novas conexões entre células nervosas por
segundo.[3] O crescimento mais drástico nas células nervosas é concluído
no final do segundo trimestre; outros acontecerão mais para o final da
gestação e mesmo depois disso, mas a maior parte dos elementos estão em
seu lugar bem antes que o cérebro do bebê conheça o mundo. No terceiro
trimestre, está claro que as vias já estão sendo estabelecidas, porque há um
aumento na massa branca, o que indica conexões no cérebro.[4]
Espantosamente, novos desenvolvimentos na imagem cerebral implicam
que também podemos ver o surgimento das primeiras redes nestes cérebros
mínimos enquanto o bebê ainda está no útero.[5] O cérebro dos adultos é
organizado em conjuntos padrão de redes, ou módulos, com cada rede focalizada em tipos específicos de tarefas – assim, o fato de que estas redes
são evidentes em bebês mesmo antes de nascerem é um sinal claro de como
as crianças estão “preparadas para a experiência” quando chegam.
No nascimento, o cérebro de uma criança que acabou de vir ao mundo
pesa cerca de 350 gramas, aproximadamente um terço do peso de um
cérebro adulto de 1.300 a 1.400 gramas. O volume cerebral (uma medida
melhor do tamanho do cérebro) é de cerca de 34 centímetros cúbicos, de
novo aproximadamente um terço do cérebro adulto. Os meninos tendem a
ter cérebros maiores em volume do que as meninas, mas esta diferença
desaparece quando consideramos o fato de que os meninos pesam mais ao
nascimento. A área de superfície é de cerca de 300 centímetros quadrados, e
as cristas e os vales característicos, causados pela dobra do cérebro no
crânio, são surpreendentemente semelhantes àqueles do cérebro de um
adulto.[6]
Depois que o bebê nasce, a taxa drástica de crescimento continua –
inicialmente em cerca de 1% ao dia, depois aos poucos “desacelerando”
para cerca de 0,5% ao dia após os primeiros noventa dias. A essa altura, seu
tamanho passou do dobro. A taxa de crescimento não é a mesma em todo o
cérebro; vemos mudanças mais rápidas naquelas áreas associadas com as
estruturas mais básicas, como as que controlam a visão e o movimento. A
maior mudança acontece no cerebelo, que controla o movimento, e supera o
dobro do tamanho nos três primeiros meses, em comparação com o
hipocampo, um elemento fundamental nos circuitos de memória, que só
mostra uma alteração no volume de cerca de 5% (o que possivelmente
conta para o motivo de ninguém se lembrar de aprender a andar).[7]
Quando uma criança tem seis anos de idade, seu cérebro terá cerca de
90% do tamanho do cérebro adulto (ao contrário, é claro, do corpo, que
ainda tem para onde espichar). A parte da massa cinzenta deste crescimento
é associada com o aumento drástico no desenvolvimento dos dendritos – os
locais receptores ramificados nas células nervosas – e com a proliferação
das sinapses, locais de interconexão no sistema nervoso. Assim, há uma
grande ênfase em fazer conexões; na verdade, há mais conexões sinápticas
no cérebro de bebês do que no de adultos, quase o dobro, refletindo o entusiasmo no início da jornada do cérebro para juntar tudo com todo o
resto.[8] Durante a infância e a adolescência, há uma poda gradual até que se
alcançam os níveis adultos.
Por baixo deste crescimento superficial, muitas outras conexões de curto
prazo aparecem e desaparecem com muita rapidez. Depois de estabelecidas,
as conexões são isoladas com mielina, a bainha de gordura branca em volta
de cada fibra nervosa que ajuda a atividade nervosa a fluir mais
rapidamente. Esta é uma época de muitos destinos possíveis e muitas
alternativas possíveis.
Antigamente se pensava que este crescimento inicial impressionante se
devia unicamente à formação das conexões entre as células nervosas. Ao
contrário de todas as outras células em nosso corpo, a compreensão era de
que as células nervosas não eram substituíveis; temos grande parte de nossa
dotação no início, as conexões entre elas crescendo drasticamente a partir
do nascimento, com a ocasional organização ou poda, e qualquer perda
celular causada por acidente ou doença e, por fim, o envelhecimento era
permanente e insubstituível. Por implicação, isto parecia confirmar a
natureza amplamente fixa do cérebro; se todos os elementos básicos
estavam em seu lugar ao nascimento, então talvez parte do que era feito
com esses elementos possa ser atribuída ao mundo, mas grande parte era
predeterminada pelo que já tínhamos antes de sairmos do útero. Os “limites
impostos pela biologia” são uma máxima citada com frequência em
discussões sobre as diferenças cerebrais.
Contudo, a versão da “recém-nascida com o número de neurônios do
adulto” não conta toda a história. Agora sabemos que o número total de
neurônios no córtex da bebê cresce mais de 30% nos três primeiros meses
de vida.[9] Também sabemos que podemos adquirir, e adquirimos, novas
células nervosas, embora em uma oferta muito mais limitada do que no
início de nossa vida.[10] Como você pode imaginar, dadas as implicações
para a recuperação de lesões ou doença no cérebro (ou apenas o puro e
simples envelhecimento), este processo de “neurogênese” é intensamente
estudado.[11] Mas grande parte do drástico crescimento se deve ao
crescimento de conexões neuronais, o estabelecimento das redes de comunicação, em particular nos dois primeiros anos de vida. As conexões
locais dentro de áreas aparecem primeiro, como se fossem redes de ruas
dentro de vilarejos, e depois aparecem redes mais distribuídas, conectando
estruturas mais distantes.[12] A cabeça de uma bebê em geral crescerá cerca
de 14 centímetros na circunferência durante os dois primeiros anos de vida,
criando essa explosão de massa branca no cérebro.[13] São as funções
sensoriais e motoras mais básicas que amadurecem primeiro, com aquelas
redes preocupadas com habilidades cognitivas superiores sendo conectadas
mais tarde e por períodos muito mais prolongados, até o início da idade
adulta (com uma fase especial reservada para a puberdade).[14] Mas, como
veremos, mesmo este sistema aparentemente primitivo pode realizar tipos
bem complexos de processamento de informações e produzir alguns níveis
surpreendentemente sofisticados de comportamento.
Estas mudanças drásticas no cérebro do bebê, e a ordem com que
acontecem, são universalmente válidas para todos os bebês humanos. Mas,
como acontece na maioria dos processos biológicos, existem variações
individuais na extensão das mudanças em seu tempo. O cérebro de alguns
bebês cresce um pouco mais rápido do que em outros, alguns chegam ao
produto acabado, ou “ponto final do desenvolvimento”, mais cedo ou mais
tarde do que outros. Uma questão fundamental na neurociência do
desenvolvimento é o que isto pode significar para quem possui o cérebro.
Será que estas diferenças individuais têm importância para os padrões de
comportamento posteriores? Poderemos localizar a origem de diferenças
adultas nos cérebros de bebês? E se pudermos, isto significaria que estas
diferenças são predeterminadas e inatas? Ou que fatores a influenciar o
desenvolvimento inicial são espetacularmente importantes?
Cérebro azul, cérebro rosa?
Coerente com o que já vimos sobre a história da pesquisa cerebral, uma das
primeiras perguntas feitas a partir das descobertas emergentes sobre cérebros de bebês é se o cérebro das meninas é diferente do dos meninos.
Nos primeiros dias da imagem cerebral, esta era uma questão difícil de
abordar, porque geralmente o número de bebês em um estudo era muito
pequeno, assim, era complicado fazer comparações estatísticas válidas entre
meninas e meninos. Porém, graças às novas técnicas de scan especializadas
e a bancos de dados acumulados, estamos pelo menos começando a abordar
a questão, embora as respostas sejam muito díspares. A essa altura, talvez
você esteja pensando que já contestamos essa abordagem de “caçada às
diferenças”. Mas um dos pressupostos mais fundamentais em todo o debate
“culpe o cérebro” é o de que o cérebro feminino é diferente do masculino
porque eles começam desse jeito, que as diferenças são pré-programadas e
evidentes em todas as fases iniciais possíveis que podemos medir.
Examinemos, então, as evidências desta alegação.
Como acontece com tantos dados nesta área, a descoberta de diferenças
parece ser uma função da medição usada. Um grupo de pesquisadores,
usando o volume total do cérebro ao nascimento, relatou que não havia
diferença significativa entre bebês meninas e meninos.[15] Por outro lado,
pesquisadores do Laboratório de Desenvolvimento do Cérebro de Rick
Gilmore, na Universidade Estadual da Pensilvânia, declaram firmemente
que “o dimorfismo sexual está presente no cérebro neonatal”. Um dos
estudos informou que os bebês meninos têm 10% a mais de massa cinzenta
cortical e 6% a mais de massa branca do que as meninas, embora esta
diferença diminua enormemente depois que se leva em consideração o
volume cerebral maior dos meninos,[16] e as diferenças desapareceram
inteiramente em outro artigo de pesquisa depois da mesma correção.[17]
Mesmo que comecem mais ou menos iguais, existe evidência melhor de
que o cérebro dos meninos cresce mais rapidamente do que o das meninas
(em cerca de 200 milímetros cúbicos por dia). E o crescimento continua por
mais tempo, com um cérebro maior no fim. O volume cerebral nos meninos
chega ao auge quando eles têm 14,5 anos, se comparados com as meninas,
cujo auge chega aos 11,5 anos. Em média, o cérebro dos meninos é cerca de
9% maior que o das meninas. Ao mesmo tempo, o auge das massas branca
e cinzenta parece anterior nas meninas (lembrem-se de que, depois dos primeiros dias inebriantes do crescimento da massa cinzenta, seu volume
começa a diminuir à medida que tem início a poda do cérebro), mas, depois
que foram feitos ajustes para o volume total cerebral, essas diferenças
desapareceram. Porém, os autores de uma revisão das mudanças no cérebro
em desenvolvimento são muito claros a respeito do que isto significa:
As diferenças no tamanho total do cérebro não devem ser interpretadas no sentido de
transmitirem qualquer vantagem ou desvantagem funcional. As medidas estruturais
brutas podem não refletir diferenças sexualmente dimórficas em fatores funcionalmente
relevantes como a conectividade neuronal e a densidade de receptores. Isto é ainda mais
destacado pelo grau extraordinário de variabilidade visto em volumes e formatos gerais
de trajetórias individuais neste grupo cuidadosamente selecionado de crianças
saudáveis. Crianças funcionalmente saudáveis da mesma idade podem ter 50% de
diferenças no volume cerebral, enfatizando a necessidade de cautela com relação às
implicações funcionais do tamanho absoluto do cérebro.[18]
Esta advertência claramente passou despercebida pelo movimento das
escolas de sexo único, com sugestões de que os neurocientistas mostraram
que devemos escalonar o currículo para meninos e meninas a fim de levar
em conta a diferença no tamanho do cérebro (isto é, ensinar a meninos de
14 anos as mesmas coisas que você ensina a meninas de dez anos).[19] Serão
sombras da incompreensão básica do que significa o tamanho do cérebro
que fundamentou os alegres defensores dos “140 gramas a menos” do
século XIX?
E as diferenças esquerda-direita no cérebro de bebês meninas e meninos?
Invocadas como a base das diferenças entre homens e mulheres em
habilidades como o processamento espacial e da linguagem, podemos
encontrar essas diferenças tão cedo? Existem relatos de diferenças
estruturais direita-esquerda em todos os bebês ao nascimento, em geral em
relação ao volume de algumas estruturas fundamentais maiores no lado
esquerdo do que no direito.[20] É interessante observar que isto é o contrário
do padrão mais característico de crianças mais velhas e adultos, o que
mostra que este padrão não é fixo ao nascimento, mas surge com o tempo,
talvez relacionado com o aparecimento de diferentes habilidades e/ou o
efeito de diferentes experiências.
Embora exista uma concordância geral acerca da existência desta
assimetria cerebral desde o nascimento, a existência de diferenças sexuais,
como sempre, é discutível. A resposta, de novo, parece variar segundo a
medição feita. Em 2007, o laboratório de Gilmore, examinando volumes
cerebrais, relatou que bebês meninos e meninas têm padrões semelhantes de
assimetria.[21] Em 2013, pesquisadores do mesmo laboratório usaram
medições diferentes, como a área de superfície e a profundidade dos sulcos
(a profundidade dos vales na superfície do cérebro, causadas pela dobra).
Neste exemplo, parece que surgiram diferentes padrões de assimetria.[22]
Por exemplo, um determinado “vale do cérebro” era até 2,1 milímetros mais
profundo no lado direito de meninos. Porém, no espírito de examinar
atentamente o que se pretende dizer com “diferente”, devemos observar que
o tamanho do efeito desta diferença era de 0,07. Se você se lembra de nossa
discussão no Capítulo 3, isso seria descrito como “remotamente pequeno”.
Sem dar uma ideia de exatamente qual pode ser o significado funcional de
uma ruga hemisférica direita mais funda, descrever essas descobertas como
evidência de “dimorfismos sexuais consideráveis de assimetrias estruturais
corticais presentes ao nascimento” deve pelo menos parecer meio suspeito.
[23]
Um aspecto a mais da motivação para medir diferenças sexuais na
assimetria hemisférica é a ligação com os hormônios pré-natais e a sugestão
de que a exposição diferencial a estes hormônios, em particular a
testosterona, terá um impacto diferente nas assimetrias cerebrais direita-
esquerda.[24] O laboratório de Gilmore aborda explicitamente esta questão
ao examinar a relação entre as diferenças sexuais nos cérebros em que
relataram medições genéticas de sensibilidade a andrógenos e também na
proporção dedos 2D:3D (como vimos no Capítulo 2). Os pesquisadores
usaram as diferenças bem acentuadas entre meninos e meninas no volume
absoluto de massas cinzenta e branca em diferentes partes do cérebro para
examinar este efeito hormonal – mas estas diferenças na verdade
desapareceram quando as medições foram corrigidas para o volume
intracraniano (o volume do cérebro como função do tamanho da cabeça –
lembrem-se, os meninos têm a cabeça maior). Embora isto não se refletisse no resumo do artigo, reconhece-se que não havia evidências de que a
sensibilidade a andrógenos (como mostrou a análise genética) ou a
exposição a eles (como mostrou a proporção de dígitos) tivesse relação com
suas medidas de diferenças sexuais no cérebro. Como os próprios
pesquisadores escreveram, “as diferenças sexuais na estrutura cortical
variam de forma complexa e muito dinâmica em toda a expectativa de vida
humana”.[25] E sem dúvida variam.
A essa altura, você deve ter deduzido que a resposta simples à questão de
existirem diferenças sexuais no cérebro no nascimento ou na primeira
infância é “não sabemos”. O consenso geral parece ser de que existem
poucas diferenças sexuais estruturais no cérebro no nascimento, se
existirem, depois de consideradas variáveis como o peso ao nascimento e o
tamanho da cabeça. Fiz um levantamento no motor de busca PubMed sobre
a pesquisa de medições estruturais e funcionais em cérebros de bebês
humanos nos últimos dez anos. Eram 21.465; apenas 394 delas relataram
diferenças sexuais.
Agora o foco se volta para as medidas de conectividade no cérebro de
bebês (como foram feitas em estudos de imagens cerebrais de adultos) e em
seu exame em busca de provas de diferenças sexuais. Hoje sabemos que
existem evidências de conectividade funcional muito sofisticada no cérebro
mesmo antes do nascimento, com provas de formação precoce das redes
complexas que fundamentam o comportamento adulto.[26] Um artigo
recente (novamente do laboratório de Gilmore) sugeriu que existem
diferenças na velocidade e na eficiência em que estas redes são unidas nos
dois primeiros anos de vida, com os meninos mostrando conexões mais
rápidas e mais fortes nas redes frontoparietais, assim chamadas devido a seu
papel na ligação da áreas frontais com as áreas parietais mais posteriores.
[27] Será interessante ver se descobertas como esta podem ser reproduzidas
em diferentes laboratórios e com amostras maiores, mas, repito, não fica
claro o que isto significa em termos de diferenças comportamentais.
A dinâmica de como e quando são formadas as conexões funcionais no
cérebro poderá nos dar um insight muito maior sobre a relação entre a
função cerebral e o mundo do que examinar obsessivamente medidas cada vez mais minúsculas de partes ainda mais mínimas do cérebro. Entender
como essas conexões são fixas ou fluidas nos dará um guia muito melhor
sobre a origem e os significados de quaisquer diferenças em quaisquer
cérebros, que pertençam a homens ou mulheres, ou ligados a
comportamento típico ou atípico. No geral, existe um número crescente de
estudos examinando os detalhes de cérebros de bebês, suas características e
como eles mudam com o tempo. Isso é um empreendimento
impressionante, quando consideramos as drásticas mudanças que
acontecem nos primeiros anos, diária ou semanalmente, se não em escalas
de tempo de horas. Deve ser um pouco como tentar contar o número de
grãos de areia que escorrem por uma ampulheta. Praticamente todos os
grupos de bebês estudados incluem meninas e meninos, e ainda assim
poucos relatam diferenças sexuais. Procurei por autores destes estudos e
perguntei se tinham verificado alguma diferença sexual e em geral eles
respondem ou que não as encontraram, ou que o tamanho das amostras era
pequeno demais para fazer comparações significativas. Mesmo onde é
explicitamente explorada, é escassa a evidência de quaisquer meios
confiáveis de diferenciar as estruturas em cérebros de meninas daquelas de
cérebros de meninos, no início de sua jornada na vida. Assim, para dar a
esta campanha da “caçada às diferenças” um julgamento imparcial, talvez
precisemos ver como e por que as diferenças podem surgir e se isto tem
ligação com o desdobramento interno de algum programa fixo nesses
cérebros mínimos, ou se existe a ação de agentes externos.
A plasticidade no cérebro de bebês
Sabemos que é no desenvolvimento cerebral inicial, especialmente no
estabelecimento de diferentes vias e o surgimento de conexões entre as
células nervosas, que o cérebro se encontra em seu estado mais plástico e
mais moldável. Embora o tempo e o padrão de crescimento possam refletir
o desdobramento cuidadosamente orquestrado de algum projeto genético, a expressão deste projeto, omissões, inclusões e até desvios quase
invariavelmente serão afetados pelo que acontece no mundo e como esse
cérebro em crescimento pode interagir com ele. O desenvolvimento
cerebral é entrelaçado com o ambiente em que se desenvolve – o cérebro é
extraordinariamente reativo às informações fornecidas pelo mundo, mas se
a informação é deficiente, ele espelhará esta deficiência.
Às vezes, o problema é o mundo. Um estudo de caso horripilante é a
história dos órfãos romenos.[28] Em 1966, o então líder comunista romeno
Nicolae Ceausescu introduziu uma política “natalista” que pretendia
aumentar a força de trabalho ao proibir a contracepção e o aborto, e tributar
quem tivesse poucos filhos. Isso, combinado com os níveis crescentes de
pobreza e a superpopulação, resultou em muitas milhares de crianças
colocadas em orfanatos estatais. Em mais de 80% dos casos, elas tinham
menos de um mês de idade. Eram deixadas em seus berços (às vezes
amarradas a eles) por mais de vinte horas por dia; os cuidadores (que, como
ficou evidente pelo estado das crianças, eram de modo geral negligentes e
com frequência abusivos) “cuidavam” de dez a 12 crianças cada um. Aos
três anos, as crianças eram transferidas a outros orfanatos e outra vez
quando chegavam aos seis anos; algumas podiam ser reclamadas pelas
famílias quando tinham uns 12 anos de idade, para trabalhar. Muitas fugiam
ou eram jogadas nas ruas. É difícil imaginar uma privação social mais
prolongada e severa nessa escala maciça.
Depois da revolução romena em 1989, estas condições foram
descobertas e grandes esforços feitos para melhorá-las. Muitas crianças
encontradas em instituições nesta época foram oferecidas à adoção, e
algumas foram acompanhadas por pesquisadores para tentar avaliar que
danos foram causados e se seria possível alguma recuperação.[29] Os efeitos
desta privação inicial podiam ser vistos no nível do cérebro e do
comportamento. Havia déficits cognitivos graves, com baixa pontuação
geral em testes de QI e em geral pouca ou nenhuma linguagem. Eram
comuns os problemas de atenção semelhantes àqueles vistos em crianças
com diagnóstico de TDAH, bem como uma incidência alta de agressividade
e impulsividade. Embora muitas habilidades cognitivas tenham alcançado níveis normais no prazo de um ano, em particular entre as crianças mais
novas, as famílias adotivas ainda contavam que os filhos tinham problemas
emocionais e comportamentais acentuados, em particular associados com
habilidades sociais.[30] Uma característica comportamental dos órfãos
romenos, e, na verdade, de muitas crianças institucionalizadas, foi descrita
como “amizade indiscriminada”; as crianças se aproximavam de qualquer
um, inclusive adultos que nunca viram na vida, de braços estendidos para
serem apanhadas no colo, agarrando-se às pernas de completos estranhos.
Depois de obterem uma reação, em geral elas “se desligavam”, ficavam
moles, exigiam ser baixadas. No contexto de uma história de muito pouco
contato humano, é quase como se elas estivessem cientes do início de
algum roteiro social, mas não soubessem como terminava.
A estrutura e a função cerebrais destas crianças pareciam ter sido
afetadas por suas experiências iniciais. Foram vários os relatos mostrando
que o volume de células nervosas nos cérebros era menor do que o de
grupos compatíveis de crianças, em geral um sinal de que os sistemas de
comunicação entre estas células tinham sido restringidos.[31] O exame da
massa branca, uma medida da integridade das vias das células nervosas no
cérebro, também mostrou uma redução significativa na eficiência destas
vias. Em um dos estudos mais recentes do Projeto de Intervenção Precoce
de Bucareste, a equipe contou sobre volumes de massa cinzenta
significativamente menores no cérebro de crianças que sempre estiveram
em instituições, daquelas que estiveram ou não nelas, ou nas que foram
adotadas, comparados a crianças que nunca foram institucionalizadas.[32]
Porém, as comparações de massa branca foram mais otimistas, mostrando
que as crianças adotadas, neste caso, não eram diferentes do grupo controle,
embora as que permaneceram no orfanato mostrassem volumes reduzidos.
A equipe também conseguiu mostrar melhorias acentuadas no sinal de EEG
das adotadas se comparadas com as medidas que tiraram quando
começaram a estudar as crianças, e quanto mais nova a criança quando
adotada, maior a melhora em seu EEG. Os pesquisadores interpretaram isto
em termos esperançosos, sugerindo que essas mudanças podiam ser
tomadas como medidas da possibilidade de “alcance” no desenvolvimento.
Parece que um foco nas redes cerebrais, e não em estruturas específicas,
pode ser uma indicação muito melhor do que o ambiente inicial devastador
fez com esses cérebros em desenvolvimento. Em termos de nosso interesse
em como o cérebro pode ser plástico (para o bem ou para o mal), este é um
insight útil. Nim Tottenham, agora na Universidade de Colúmbia, e suas
equipes de pesquisa investigaram o problema da amizade indiscriminada
para saber se podiam identificar as bases cerebrais deste comportamento
social atípico. Em um estudo, examinaram 33 crianças, com idades entre
seis e 15 anos, criadas em instituições estrangeiras nos três primeiros anos
de vida, antes de serem adotadas nos Estados Unidos.[33] Estas crianças
mostravam uma incidência muito maior desta amizade indiscriminada do
que um grupo de comparação de crianças com criação típica. Enquanto
estavam em um escâner de fMRI, elas viam imagens ou de sua mãe, ou de
estranhos “compatíveis”, com expressões felizes ou neutras. A tarefa era
identificar se as pessoas que viam estavam felizes ou não, mas o verdadeiro
interesse dos pesquisadores era saber se o cérebro das crianças reagiria de
forma diferente às imagens de suas mães se comparados com aquelas de
estranhos. Eles se concentraram na amígdala, que, como vimos no Capítulo
6, é uma parte do cérebro social ativada por informações associadas às
relações sociais. O que descobriram foi que, no grupo de comparação, a
reação da amígdala a estranhos era muito menor do que a reação à mãe;
mas nas crianças anteriormente institucionalizadas, a reação era a mesma,
quer a pessoa vista fosse a mãe ou uma estranha. Também houve evidências
de conectividade reduzida entre a amígdala e outras partes do cérebro,
inclusive o córtex cingulado anterior, sugerindo que a rede cerebral social
não estava bem estabelecida. Quanto menor a diferença entre mãe e
estranha no grupo antes institucionalizado, e quanto mais tempo elas
passaram em uma instituição antes de serem adotadas, mais alta a
pontuação na escala de amizade indiscriminada.
Felizmente, são raros eventos adversos extremos como este. Mas o
cérebro em desenvolvimento é tão plástico que mesmo adversidades mais
leves da infância, como uma discussão familiar significativa, a exposição a
maus-tratos emocionais ou poucos cuidados parentais podem ter seus
efeitos, em particular na rede cerebral social.[34] Graças à própria
plasticidade que fundamenta a flexibilidade e a adaptabilidade do cérebro
humano, seu mundo pode influenciar um processo fortemente programado
ou até se desviar dele, às vezes a destinos dos quais talvez não exista um
retorno fácil. Esta adaptabilidade pode significar um mundo de
vulnerabilidades ou de possibilidades.
O que o cérebro do bebê pode fazer?
Quando chegam, os bebês humanos não parecem capazes de fazer muita
coisa. Diferentes animais têm diferentes capacidades e habilidades ao
nascimento; alguns, conhecidos como animais “precociais”, surgem
relativamente prontos para ser independentes, capazes de ficar de pé e
mamar nos primeiros minutos – as girafas são um exemplo favorito. Outros,
conhecidos como animais “altriciais”, são bem indefesos, possivelmente
cegos, surdos e incapazes de se mover, e continuam dependentes de quem
cuida deles por períodos de tempo relativamente longos. O tempo em que
os bebês humanos são dependentes dos cuidados dos outros os coloca
firmemente no segundo grupo (junto com os ratos, os gatos e os cães, entre
outros).
Sugeriu-se que o tamanho que o cérebro terá quando a pessoa for adulta
é um fator do quanto a pessoa (e seu cérebro) estava desenvolvida ao
nascer. E o tamanho do canal de parto pelo qual fazemos nossa entrada
interfere neste fator. Para a espécie humana, as alterações na pelve que nos
permitem andar eretos impõe limites ao tamanho do canal de parto e, assim,
a cabeça do bebê tem limitações de tamanho antes que eles precisem fazer
seu aparecimento no mundo. A natureza bondosamente (e felizmente)
determinou que se sua prole tão esperada um dia terá uma cabeça de 56
centímetros, então seu corpo pede tempo depois que a cabeça temporária da
anfitriã possa caber em um gorro de tricô de 35 centímetros.
A desvantagem é o desamparo físico da recém-chegada, mas um dos
alegados pontos positivos de ser altricial é que (bem literalmente) há espaço
para desenvolvimento cerebral pós-natal. Ser uma girafa implica que o
cérebro ao nascimento permitirá que ela se coloque de pé e toque a vida
prontamente, mas depois desta realização a girafa só cresce, mas não fica
mais inteligente. Por outro lado, o potencial para o desenvolvimento do
cérebro de bebês humanos é enorme. E é aqui que entra o argumento do que
pode parecer uma divagação sobre os bebês de girafa – os bebês humanos
chegam ao mundo com cérebros inacabados. Entender como e por que estes
cérebros inacabados mudam pelo caminho que percorrem fará parte de
qualquer tentativa de compreender quaisquer diferenças entre cérebros e o
comportamento e as personalidades que eles alicerçam.
Assim, o que um cérebro humano inacabado pode fazer quando chega?
Se olharmos o comportamento de sua dona, podemos inferir que é um
sistema muito básico, embora altamente focalizado. A chegada da Filha nº 1
foi minha experiência em primeira mão do cérebro recém-nascido em
funcionamento, fora das páginas dos estudos de psicologia do
desenvolvimento. Rapidamente ficou claro que eu tinha produzido um
dispositivo de transmissão mínimo, mas extremamente barulhento,
programado para sinalizar continuamente algum déficit associado com seu
sistema digestivo e/ou o estado de suas partes baixas, ou apenas para dar
uma demonstração espontânea da capacidade de gerar sons. Seu cronômetro
era ajustado para a atividade máxima durante as horas de escuridão e
reiniciava mais ou menos a intervalos de 35 minutos; verificações aleatórias
seriam realizadas para garantir um constante estado de prontidão por parte
de sua força de trabalho. Ela não parecia tanto um dispositivo receptor, com
exceção de algum monitoramento altamente eficaz de sons, como passos se
afastando na ponta dos pés ou portas se fechando com hesitação, cuja
percepção imediatamente ativa seu sistema de alarme; ela certamente não
reagia à ampla gama de cantigas de ninar supostamente infalíveis, caixinhas
de música ou ciclos de rotação da máquina de lavar que conselheiros
externos garantiram que ativaria o botão de desligar. Para todos os fins, ela
parecia ser operada por um programa primitivo e nada sofisticado, presumivelmente refletindo a atividade de um cérebro primitivo e nada
sofisticado. (Ah, uma bebê girafa!)
Contudo, pesquisadores mais qualificados (e possivelmente menos
insones) conceberam meios extraordinariamente engenhosos de testar as
habilidades dos recém-nascidos e verificar se eles realmente são apenas
dispositivos receptores passivos e bem ineficientes, ou se acontece mais do
que as aparências podem sugerir. Agora podemos ter as técnicas para obter
imagens detalhadas de todo tipo de elementos mínimos no cérebro de uma
bebê, mas o que ela realmente pode fazer com este kit cortical emergente? É
aí que encontramos outro desafio para os neurocientistas do
desenvolvimento: como sabemos se uma bebê notou uma mudança no
mundo à sua volta? É difícil conseguir que ela pressione uma chave de
resposta. Como sabemos se uma recém-nascida prefere listras horizontais
pretas e brancas ou a voz da mãe, ou sabe se estamos falando com ela em
uma língua estrangeira? Não conseguimos que ela complete uma escala
Likert de 0 a 5, com o 0 sendo “não dou a mínima” a 5 significando “mais
mais mais, agora agora agora”.
Os psicólogos do desenvolvimento são como Sherlock Holmes na
concepção de meios de saber o que recém-nascidas podem ou não fazer.
Com o tempo, eles reuniram um portfólio de sinais mínimos que indicam
que a bebê está prestando atenção, que “gosta” do som ou da visão que lhes
apresentam, que ela está “escolhendo” um estímulo e não outro. Uma
medida do “interesse” de bebês é o olhar preferencial, isto é, mostrar a ela
dois estímulos de uma vez e cronometrar quanto tempo ela olha para cada
um deles, supondo-se que ela olhará mais tempo para as coisas de que
gosta.[35] Em geral há um tipo de tempo mínimo de olhar (costuma ser de
cerca de 15 segundos) estabelecido pelo pesquisador, para saber que não
estão sendo enganados por movimentos oculares aleatórios. A habituação é
outra técnica: mostra a mesma coisa repetidas vezes e mede o declínio
habitual no olhar, depois apresenta algo diferente – se a bebê olha por mais
tempo para a coisa nova, isto é considerado um indicador de que ela notou a
novidade e está prestando atenção. Outro sinal comportamental é a taxa de
sucção, medida por chupetas eletrônicas, com aumentos nestas taxas considerados uma medida do interesse ou do entusiasmo. Agora é até
possível ver uma mudança comportamental no útero, em geral comparada
com mudanças no batimento cardíaco. Assim, mesmo antes de os bebês
humanos chegarem ao mundo, podemos ter algumas pistas de como este
mundo já tem impacto em seu cérebro.[36]
Também podemos ver de perto os cérebros de bebês usando uma
medição de EEG chamada “reação de negatividade de incongruência”
(MMN, mismatch negativy response): um aumento na atividade cerebral
associado com uma reação a mudanças no ambiente do tipo “arrá – vi uma
diferença”.[37] Será que este cérebro pode dizer a diferença entre uma voz
humana e um som eletrônico, ou entre a voz da mãe e a voz de uma
estranha? Essas medidas revelaram o quanto uma recém-nascida é
consciente e reage ao mundo. Parece que há uma gama impressionante de
habilidades ao nascimento que a torna muito mais preparada para enfrentar
o mundo do que aparenta a princípio. O que também significa que o mundo
terá um impacto muito maior em seu cérebro minúsculo do que
supúnhamos anteriormente.
O mundo sonoro de um bebê
Mesmo antes do nascimento, o mundo auditivo de seres humanos
minúsculos é muito sofisticado. Um estudo mostrou que o córtex auditivo, a
parte do cérebro que monitora sobretudo o som, era maior em bebês
prematuros que, enquanto estavam na unidade de cuidados intensivos, eram
expostos a sons maternos (a voz e o batimento cardíaco da mãe) do que
naqueles que só receberam os ruídos de rotina do hospital.[38] Assim, os
bebês e seus cérebros já são seletivos sobre o que podem ouvir. Há muito
tempo se sabe que isto inclui principalmente os sons da voz da mãe, para
muitos até mesmo antes de nascerem.[39]
Alguns pesquisadores conseguiram medir reações em EEG a sons em
bebês muito prematuros (nascidos cerca de dez semanas antes).[40] Eles também mostraram que o cérebro destes bebês já distinguia sons, como as
consoantes [b] e [g], e vozes masculinas e femininas. Ao nascimento, os
bebês parecem saber a diferença entre os sons de sua língua natal, que
ativam o lado esquerdo do cérebro, e sons de uma língua diferente, que
ativam o lado direito.[41] Os recém-nascidos também parecem saber a
diferença entre sons felizes e neutros, assim eles já estão captando algumas
dicas sociais úteis.
Um estudo usou a reação MMN para demonstrar esta habilidade. Bebês
recém-nascidos ouviram versões neutras, felizes, tristes e temerosas das
sílabas “dada”.* [42] Séries de tons padrão (“dadas” neutros) eram
interrompidas aleatoriamente a determinados intervalos pelos tons
“desviantes” (“dadas” felizes, tristes ou temerosos), e as reações dos
cérebros foram comparadas. Se a “receptora” não notasse diferença
nenhuma, não seria registrada nenhuma reação incongruente. Apareceram
grandes diferenças entre reações a sílabas neutras e a cada uma das
emocionais, com as maiores reações aos “dadas” temerosos. Neste estudo,
foram testados 96 bebês, entre um e cinco dias de idade, 41 deles meninas.
Embora os pesquisadores tenham procurado explicitamente, não
encontraram nenhuma diferença sexual nas reações. Isto é interessante
porque, como veremos adiante, uma das medidas da empatia supostamente
maior nas mulheres é sua maior capacidade de resposta a informações
emocionais, inclusive a entonação da voz.[43] Assim, mesmo que as
mulheres tenham essa sensibilidade aumentada à emoção usando esta
medida, ela não parece estar presente ao nascimento.
Também parece que os recém-nascidos são primorosamente sintonizados
com diferenças sofisticadas em sua paisagem sonora. A evidência de
preferências mostrou que o sistema auditivo da bebê não só tem uma
sintonia muito fina, como é mais do que um simples receptor passivo de
informações. Desde o início, novamente usando reações MMN, os
pesquisadores mostraram que uma bebê reagirá principalmente a qualquer
coisa que seja diferente, por exemplo, um som “bop” em uma série de
“bips” (conhecido na área como “desvio acústico”).[44] A diferença tinha de
ser bem acentuada antes que houvesse evidências de a bebê notar, mas não parece importar muito que ruído fosse – trechos de ruído branco
despertaram o mesmo tipo de reação que um assovio semelhante ou o som
de uma ave. Mas em dois a quatro meses de idade, há evidências de reação
diferencial a sons ambientais, como o toque de uma campainha ou o latido
de um cachorro, bem como a sons da fala e sons não verbais. É como se o
sistema auditivo da bebê começasse a filtrar o que vale sua atenção e o que
pode ser ignorado.
A perda de sensibilidade a determinados sons, se eles não aparecem na
paisagem sonora, é uma medida da plasticidade do sistema auditivo. Se sua
língua natal é o japonês, por exemplo, você não estará exposto à distinção
[r]/[l], importante no inglês.[45] Os bebês de seis a oito meses
(independentemente da língua a que foram expostos e que falarão) ainda
podem distinguir todos esses sons; mas aos dez a 12 meses, só distinguirão
aqueles sons característicos de sua própria língua. Isto foi mostrado no nível
comportamental, usando o virar da cabeça como medida de “localizar a
diferença”, e no nível cerebral, examinando-se diferentes reações evocadas
a diferentes sons.[46]
Assim, parece que nossos pequenos humanos, além de serem ouvintes
que discriminam, são capazes de pegar dicas sofisticadas como o
significado social do que podem ouvir, não só da língua que virão a falar,
mas também sons diferentes naquela língua que podem, por exemplo,
indicar a expressão de diferentes emoções.
Ah, sim, os olhos
A visão de bebês é bem menos sofisticada do que a audição. Os elementos
fundamentais da retina e dos nervos óticos estão a postos pela trigésima
semana de gestação,[47] mas, ao nascimento, o mundo da bebê será bem
nebuloso, porque o aparato ocular não se desenvolveu o suficiente para
formar imagens nítidas na retina. Elas têm dificuldade para focalizar em
objetos a mais de 20 a 30 centímetros de distância. Além disso, os dois olhos não trabalham bem juntos nos três ou quatro primeiros meses,
portanto, sua percepção de profundidade é limitada. À medida que as
informações do sistema visual começam a se tornar mais precisas e
detalhadas, o cérebro em desenvolvimento é capaz de fazer melhor uso
delas, o que se revela em mudanças comportamentais, como a bebê
conseguir acompanhar objetos em movimento ou estender a mão
precisamente para eles e pegá-los, capacidade em funcionamento por volta
dos três meses de idade.[48]
Porém, em nossa busca para verificar o quanto são sofisticados nosso
recém-nascidos supostamente indefesos, vamos dar uma olhada no que o
sistema visual do bebê pode fazer em vez do que ele não pode. O
processamento de luminância (reagir a diferenças de claro/escuro) parece
estar presente desde o nascimento. De fato, mostraram que varia com o
período gestacional (o que significa que é mais fraco em bebês prematuros),
sugerindo ser um bom exemplo de habilidade pré-programada.[49] Apesar
de sua fraca acuidade visual, desde a primeira semana elas já conseguem
discriminar entre estímulos lisos e listrados e mostram preferências por
padrões de alto contraste, como listras em preto e branco e horizontais em
vez de verticais.[50]
Ter dois olhos que trabalhem juntos permite que vejamos objetos em
profundidade e tenhamos uma visão muito menos nebulosa do mundo que
nos cerca, inclusive uma apreensão mais detalhada de coisas como rostos e
melhor oportunidade de alcançar precisamente brinquedos ou dedos. Os
olhos de recém-nascidos às vezes se mexem de uma forma independente
que é alarmante – para quem é novato como mãe ou pai, em um daqueles
muitos momentos de folga em que estiverem dispostos a tentar, procurem
mover o dedo para o nariz de seu bebê para demonstrar isso. Mas com seis
a 16 semanas de idade, os olhos começam a trabalhar juntos e sua reação a
diferentes padrões e à capacidade de acompanhar com mais precisão o
movimento mostram que eles começam a usar a visão binocular.[51] As
evidências indicam que as meninas adquirem esta habilidade antes dos
meninos e sugeriu-se que esta diferença precoce pode ser um dos fatores que confere às meninas uma vantagem quando se trata do processamento de
rostos.[52] Vamos falar do motivo para que seja assim no próximo capítulo.
Os bebês têm uma visão básica das cores desde o nascimento; os recém-
nascidos preferem estímulos coloridos ao cinza simples e, se puderem
escolher, olham por mais tempo para estímulos avermelhados e menos para
amarelados e esverdeados. Isto é válido para todos os bebês, não só as
meninas (algo em que a brigada do cor-de-rosa talvez precise pensar). Aos
dois meses de idade, eles podem mostrar diferentes reações a toda gama de
cores, ainda sem evidências de qualquer diferença sexual.[53]
É claro que os olhos são mais do que apenas dispositivos para receber
informações visuais; eles também têm uma função social. O contato visual,
ou a troca mútua de olhares, em geral é considerado um indicador primário
de envolvimento e comunicação sociais. Os recém-nascidos em geral
preferem rostos que têm os olhos abertos àqueles que os têm fechados, e
olharão por mais tempo para rostos quando os olhos estão diretamente
voltados para os deles, em vez de desviados.[54] Aos três meses, os bebês
podem ficar muito agitados se a mãe desvia os olhos e costumam agitar a
mão ou se sacudir para cima e para baixo a fim de recuperar sua atenção.**
[55]
O olhar também parece ser um dispositivo de comunicação, aparenta
indicar algo a que vale a pena prestar atenção. Bebês de quatro meses
mostraram aprender sobre objetos bastando que fossem expostos ao olhar
dirigido a eles, talvez acompanhado por um rosto temeroso ou feliz.[56] As
preferências do olhar também se mostraram uma boa medida das
habilidades emergentes; a atenção preferencial às regiões dos olhos e da
boca em um rosto estão ligadas à eficiência no processamento de faces, e
isto em si relaciona-se com o desenvolvimento da socialização.
É claro que os olhos existem para ver, e discriminar o que se olha é um
sinal inicial de análise do ambiente em busca de informações
potencialmente úteis. Além disso, saber que o que outros olhos estão
olhando pode ter algum significado é um mecanismo de coleta de
informações ainda mais sofisticado. E está claro que os bebês têm estas
habilidades sob controle nem mesmo na metade do primeiro ano de vida. [57] Uma consciência social nascente?
Como descrevi anteriormente neste livro, nosso impulso para sermos
sociais pode ser o segredo de nosso sucesso evolutivo, apoiado por redes
especialistas no cérebro. Portanto, será que encontramos essas redes
cerebrais sociais nos bebês? E quando e como elas podem estar ativas?
Assim como o foco inicial no estudo do cérebro humano adulto estava
no centro de habilidades cognitivas como a linguagem e a comunicação, e
em habilidades emergentes de alto nível como o raciocínio abstrato e a
criatividade, grande parte do interesse inicial no cérebro em
desenvolvimento do bebê estava em como as mudanças cerebrais tinham
paralelos em habilidades emergentes nos fundamentos da percepção e da
linguagem, junto com as capacidades de movimento e coordenação.
Supunha-se que as áreas evolutivamente mais sofisticadas do cérebro, as
áreas pré-frontais, eram funcionalmente silenciosas em recém-nascidos
humanos, enquanto outras seguiam com o crescimento da estrutura para o
básico da vida. Como estávamos enganados! Como veremos no próximo
capítulo, as habilidades sociais dos bebês podem estar bem adiantadas em
relação àquelas do comportamento mais fundamental, com suas antenas
sociais sintonizadas desde muito cedo para captar dicas vitais.
O psicólogo Tobias Grossmann, agora na Universidade da Virgínia,
revisou muitos estudos que procuraram o cérebro social na primeira
infância e concluiu que “os bebês humanos entram no mundo sintonizados
com seu ambiente social e prontamente preparados para a interação social”.
[58] Ele observa que os primeiros sinais de comportamento social nos bebês
são focalizados em si mesmos; os bebês captam pistas relevantes para eles e
suas necessidades por meio de processos como o monitoramento do olhar
ou cenários de atenção compartilhada. Agora sabemos que as bases
cerebrais para estes sinais iniciais de comportamento social envolvem
principalmente o córtex pré-frontal, a base do funcionamento cognitivo e
social superior, o que não teria sido previsto nos modelos iniciais de bebês
como “reativos, reflexivos e subcorticais”.[59] E os pesquisadores
recentemente mostraram que as principais características do olhar “social”, como o foco nas regiões dos olhos e da boca em um rosto, e a duração e
direção de olhar ativamente para aspectos fundamentais de cenas sociais
têm um forte componente genético, e, assim, são integrados desde o
princípio.[60]
Como sempre, as considerações sobre como nos tornamos seres sociais
também abrangem a questão de se existe ou não alguma evidência de
diferenças sexuais nas funções cerebrais que fundamentam este processo.
Talvez não surpreenda a ninguém, em vista da ausência acentuada de
evidências de que as estruturas cerebrais dos bebês possam ser divididas por
linhas puras menina-menino, que está se revelando igualmente difícil
encontrar diferenças sexuais muito precoces no comportamento social.
Alegou-se que as meninas recém-nascidas se envolvem em contato olho
no olho por mais tempo do que os meninos, embora não tenha sido possível
reproduzir esta descoberta.[61] Outro estudo mostrou que, embora não
existam diferenças sexuais ao nascimento, se olharmos os mesmos bebês
quatro meses depois, terão surgido diferenças bem drásticas. A frequência e
a duração do contato visual nos meninos continuaram em grande parte as
mesmas; nas meninas, quase quadruplicaram.[62]
A equipe de Simon Baron-Cohen também observou maior frequência de
contato visual em meninas de doze meses.[63] Assim, mesmo que os
meninos e meninas comecem iguais em relação a suas habilidades sociais
fundamentais, parece que surge uma diferença nos gêneros com o tempo.
Não existem evidências claras de que as mães passam mais tempo em
contato visual múltiplo com meninas do que com meninos, mas pode ser
que o maior estímulo à mobilidade e as brincadeiras turbulentas em
meninos impeçam o tempo passado em contato cara a cara, reduzindo,
assim, suas “oportunidades de aprendizado”.[64]
Uma pessoa familiarizada com esses guias de “marcos do
desenvolvimento” entregues a pais e mães novatos e apavorados deve saber
que a caraterística mais comum de qualquer forma de desenvolvimento nos
bebês é a imensa variabilidade mostrada por este grupo ansiosamente
estudado. Quando deve surgir um sorriso social? Bom, pode ser em quatro
semanas, ou talvez seis, ou pode não haver nada antes de 12 semanas. E a maravilhosa primeira palavra? Uns otimistas seis meses ou os mais realistas
12 meses? Sabemos que grande parte das coisas acontecem na mesma
ordem, mas, além disso, em geral estamos nas mãos de sabedoria popular
mais ou menos tranquilizadora de painéis de especialistas (compreendidos
por familiares supostamente de alta qualificação, agentes de saúde,
estranhos de passagem e/ou autores do pior tipo de livro neurolixo sobre
bebês). Eles quase invariavelmente nos dirão que os menininhos farão
coisas de forma diferente das menininhas e em épocas diferentes. Que grau
de habilidade têm os pequenos humanos, e estas habilidades realmente se
dividem pelas linhas puras de gênero afirmadas por esses ditos
especialistas?
Com a atenção na neurociência agora se voltando ao ser humano como
um ser social, os bebês e adultos são examinados atentamente em busca de
suas habilidades neste front. Embora os bebês pareçam muito impotentes ao
nascimento, como vimos, seus sistemas de processamento de informações
mostram um nível surpreendentemente alto de eficiência e eles logo
parecem adquirir consciência de diferenças sutis no mundo que os cerca.
Com que precocidade e o quanto eles podem usar essas habilidades como
sistemas de envolvimento social ativo? Os bebês precisam andar e falar
antes que consigam começar a assumir seu lugar no mundo como seres
sociais? Ou, na realidade, eles são seres sociais desde o começo, chatbots
pouco interativos, pegando quaisquer mensagens que o mundo lhes dê?
A resposta pode surpreender você.
* O trabalho árduo não foi só dos pesquisadores; os bebês tiveram de ouvir dois ou três blocos,
cada um deles com duzentas ocorrências destes sons, e isto é conhecido como um paradigma
oddball, ou excêntrico. Produzir esses sons deve ter sido um desafio pinteriano para a “locutora”
recrutada para o estudo, tendo de gravar na cara dura o “dada” feliz, além do “dada” triste e
assim por diante. E, é claro, para os 120 ouvintes que depois tiveram de classificar todos os sons
“dada” por sua emocionalidade ou falta dela. Nós, neurocientistas, somos muito criativos!
** Uso o termo “mãe” o tempo todo para descrever a cuidadora principal, uma vez que, na
maioria dos estudos realizados, quem cuida é a mãe da criança. Porém, naturalmente existem
muitas variações de parentalidade e se quem cuida da criança desde o nascimento é o pai, isto se
aplicaria a ele também.