Gênero e os Nossos Cérebros
5. O cérebro do século XXI
PARTE DOIS
CAPÍTULO 5:
O CÉREBRO DO SÉCULO XXI
O cérebro é uma máquina de inferências, gera hipóteses e fantasias que são testadas em
comparação com dados sensoriais. Dito de forma simples, o cérebro é – literalmente –
um órgão fantástico (fantástico: do grego phantastikos, a capacidade de criar imagens
mentais).
KARL J. FRISTON[1]
Como vimos no Capítulo 1, o uso da imagem de ressonância magnética
funcional (fMRI) para medir a estrutura e a função cerebrais transformou o
acesso do público ao que acontecia no cérebro (para melhor e para pior).
Converter os sinais associados com a medição do fluxo sanguíneo
oxigenado no cérebro (a reação dependente de nível de oxigênio sanguíneo
ou BOLD) em imagens codificadas por cores passou a ser uma peça
brilhante de marketing, mas também uma espécie de espada de dois gumes.
O “fascínio sedutor” das imagens produzidas por sistemas de fMRI foi uma
dádiva para os fornecedores de neurolixo, que saltaram para o bonde do
cérebro a fim de nos convencer de que a solução para detectar mentiras,
checar intenções de voto, prever crises financeiras mundiais e –
naturalmente – identificar a diferença entre pessoas multitarefa e leitores de
mapas, agora estava prontamente disponível no centro de scan cerebral
mais perto de você.
Entretanto, até o mais dedicado dos pesquisadores de imagens cerebrais
percebeu que, embora localizar diferenças no fluxo sanguíneo fosse uma
boa maneira de responder a algumas perguntas do tipo “onde” no cérebro, a
escala de tempo destas mudanças era lenta demais para responder ao
“quando” e ao “como”. Nikos Logothetis, diretor do Instituto Max Planck
para a cibernética biológica em Tübingen, descreveu a fMRI como “A lente
de aumento que nos leva ao microscópio de que realmente precisamos”.[2]
Foi um grande começo, e, na verdade, é a fonte de quase todo o material até
hoje sobre diferenças sexuais no cérebro. A ressonância magnética
funcional se encaixou maravilhosamente na abordagem existente de
cartografia que caracterizou a caçada por estas distinções. Ainda está
firmemente arraigada na consciência do público como a fonte da prova
necessária de que existem coisas como um cérebro feminino e um cérebro
masculino, e eles funcionam de formas diferentes. Mas novas maneiras de
modelar a atividade cerebral sugerem que precisamos rever, mais uma vez,
este antigo pressuposto.
Do BOLD ao BOINC, via aipo e SQUIDS
O século XXI viu uma mudança no que agora procuramos no cérebro. A
conectividade é a palavra de ordem nos círculos de imagem cerebrais, e os
pesquisadores desta área estão preocupados em gerar “mapas rodoviários”
do cérebro pela localização das conexões entre diferentes estruturas.[3]
Agora podemos ver como as estruturas cerebrais são interligadas de modo a
formar “montagens” complexas que fundamentam todos os aspectos de
nosso comportamento e nos permitem experimentar e compreender o
mundo e (assim se espera) uns aos outros.
Como eles são fisicamente ligados é importante, e agora temos técnicas
que nos permitem mapear as vias no cérebro. Uma técnica chamada
imagem do tensor da difusão (DTI, diffusion tensor imaging) agora é
amplamente usada para identificar as características da massa branca, os
feixes de fibras nervosas isoladas por gordura que unem as diferentes
estruturas.[4] A base desta técnica é a medição da facilidade (ou não) do
transporte de água pelos feixes de fibras (um colega comparou isto à
demonstração de ciências do primário de colocar um bastão de aipo em
tinta azul, verde ou vermelha e acompanhar até onde e com que rapidez a
tinta penetra no aipo). Com os avanços tecnológicos, estes “mapas rodoviários” estão se tornando cada vez mais detalhados e podemos
distinguir as principais estradas a partir das vias principais especializadas
ou talvez as menores, mas ainda assim importantes, estradas secundárias.
Podemos, ainda, com técnicas altamente especializadas aplicadas a animais
não humanos, começar a ver a própria construção da estrada, observar
processos da célula nervosa estendendo-se a outros nervos e começando a
definir as futuras vias de comunicação.[5]
Os neurocientistas também procuram entender como estruturas cerebrais
diferentes trabalham juntas para resolver problemas impostos por nosso
mundo. Passamos a perceber que o cérebro é um sistema dinâmico, sempre
ativo (mesmo quando supostamente está em “repouso”), assim também
precisamos ser capazes de medir o “fluxo de tráfego” nessas rodovias,
observar a direção do movimento, ver como flui e reflui, dependendo da
demanda feita ao cérebro.[6] E precisamos de alguma ideia sobre a natureza
do tráfego – estamos vendo mudanças grandes e lentas na atividade que
podem indicar o sono, ou vemos mudanças rápidas e pequenas em
determinadas áreas que podem indicar movimento (ou a intenção dele)? Ou,
ainda mais misteriosamente, estamos vendo as atividades muito rápidas que
parecem capazes de sinalizar por áreas amplas do córtex, via conexões não
físicas, para chegar a áreas geograficamente muito distantes (em termos do
tamanho do cérebro) para de súbito entrar em ação simultaneamente, em
vez do sinal de trânsito coordenado ou dos sistemas de sinalização
projetados para garantir o fluxo tranquilo das redes de rodovias ou
ferrovias?[7]
A identificação do desenvolvimento destas conexões tem nos mostrado
que aforismos conhecidos como “células que disparam juntas permanecem
conectadas” e “use ou perca” são muito inadequados quando vemos como o
cérebro muda com o tempo, o tempo todo. Essas mudanças fundamentam o
que agora sabemos sobre a permanente flexibilidade cerebral e como o ir e
vir entre o cérebro e seu mundo é espelhado nesses padrões de
conectividade.
Para identificar tudo isso, os pesquisadores de imagens cerebrais do
século XXI usam diferentes sistemas e medições. Sabemos que a comunicação no cérebro acontece entre células nervosas ou neurônios. As
mensagens são transmitidas entre estas células por meio de
(aproximadamente) 100 trilhões de conexões por meio de mudanças
eletroquímicas mínimas, em escalas de milissegundos, belamente
orquestradas por um leque de sistemas de controle que evoluíram em nosso
cérebro.
Para uma compreensão não invasiva e cotidiana de como funciona o
cérebro humano, precisamos poder localizar essas mudanças em tempo real,
de fora da cabeça. A abordagem do EEG, disponível no século passado, deu
alguns insights iniciais, mas é difícil obter um sinal “limpo” quando ele é
distorcido por sua passagem dentro do cérebro, por membranas encefálicas,
crânio, pele e cabelo. É aí que entra a magnetoencefalografia (MEG).[8] A
física básica nos mostrou que sempre que uma corrente elétrica flui, é
criado um campo magnético. E os campos magnéticos do cérebro não são
distorcidos da mesma forma que as correntes elétricas, portanto, identificar
as mudanças nos campos magnéticos é um jeito muito mais preciso de
“observar o cérebro”.
Como sempre, isso não é tão fácil quanto parece. Os campos magnéticos
associados a atividade cerebral são diminutos. São cerca de 5 bilhões de
vezes mais fracos do que os de um ímã de geladeira, mais fracos que o
campo magnético terrestre ou os que podemos encontrar em qualquer
laboratório. Podem ser distorcidos por qualquer objeto metálico (inclusive o
metal em sobrancelhas tatuadas, como descobri, para meu desgosto, durante
um evento de demonstração aberto ao público). Assim, precisamos usar
sensores extraordinariamente sensíveis conhecidos como dispositivos
supercondutores de interferência quântica (gerando SQUID [“lula”] como
um ótimo acrônimo para superconducting quantum interference devices),
que só funcionam em temperaturas extremamente baixas – cerca de 270°C
abaixo de zero. Para mantê-los superfrios, os SQUIDs são colocados em um
capacete no formato da cabeça, meio parecido com um antigo secador de
cabelo, e cobertos de hélio líquido, e toda a estrovenga precisa ser abrigada
em uma sala especialmente construída, com escudos magnéticos para
bloquear a entrada de outros campos magnéticos.
Mas, acredite se quiser, vale a pena! Quando comecei a trabalhar no
Aston Brain Centre em 2000, tinham acabado de instalar o primeiro sistema
MEG de cabeça inteira no Reino Unido. As técnicas desenvolvidas no
Aston e em outros centros nos permitiram não só obter medidas exatas de
quando acontecem as mudanças na atividade cerebral, mas também um
quadro muito mais preciso de onde elas vêm. Também podemos medir a
“tagarelice” do cérebro, as diferentes frequências do sinal medido. Na
verdade, é exatamente isso que Hans Berger captou há todos aqueles anos
quando inventou o EEG; a maioria das pessoas estará familiarizada com a
frequência de “ondas alfa”, mas existem outros ritmos – alguns mais lentos,
outros mais rápidos – que agora sabemos ser ligados a diferentes tipos de
comportamento. Assim, a MEG nos colocou mais perto do que é conhecido
como o Santo Graal da imagem cerebral: saber o onde, o quando e o que da
sua atividade. Podemos usar esses dados para observar o engate e desengate
de diferentes redes cerebrais e identificar o ir e vir de mensagens enquanto
o cérebro cuida de sua vida.[9] No Aston Brain Centre, por exemplo,
estamos desenvolvendo “perfis de conectividade” de crianças no espectro
autista e ligando-os a seus padrões atípicos de comportamento.[10]
Outros avanços na imagem cerebral usam combinações de técnicas,
como o EEG e a fMRI, para penetrarmos ainda mais no cérebro humano
vivo (pelo menos metaforicamente). É claro que nem todos os avanços
recentes na compreensão do cérebro se reduzem a pesquisas com imagens
cerebrais. Os geneticistas estão descobrindo o código que aponta como e
onde são determinadas as conexões cerebrais;[11] bioquímicos e
farmacologistas examinam os papéis das muitas dezenas de mensageiros
químicos no cérebro;[12] cientistas da computação elaboram programas para
modelar circuitos dinâmicos e redes “semelhantes ao cérebro”;[13] biólogos
tentam ver se conseguem aplicar técnicas de sequenciamento de DNA à
identificação de conexões entre células nervosas (código de barras de
conexões neuronais individuais, conhecido também como BOINC,
barcoding of individual neuronal connections).[14] Podemos até fazer
células nervosas individuais se “acenderem” usando corantes fluorescentes
ou codificando geneticamente células ativas para reagirem à luz.[15] Há investimentos imensos em projetos de pesquisa do cérebro, e até os mais
pessimistas podem reconhecer quanto progresso foi obtido no campo da
tecnologia de imagem cerebral. Percorremos uma longa estrada desde o
preenchimento de crânios vazios com alpiste.
Time Cérebro
Então, o que aprendemos com essas técnicas de ponta? O quanto elas
alteraram nossa visão do cérebro humano? Uma das descobertas é de que é
muito raro que qualquer parte isolada do cérebro seja a única responsável
por alguma coisa, com exceção do nível muito básico de processamento
sensorial. Quase todas as estruturas cerebrais são impressionantemente
multitarefa e se envolvem em uma ampla gama de diferentes processos.
Um ótimo exemplo desta natureza multitarefa é a estrutura em nossos
lobos frontais chamada córtex cingulado anterior.[16] Foi denominado a
parte do “neurocircuito da farsa” por aqueles que procuram soluções
baseadas no cérebro para a detecção de mentiras. Mas ele também mostrou
envolvimento no processamento da linguagem, em particular associado com
o significado das palavras, com reações inibidoras como parte de nossas
habilidades sociais e cognitivas, com a ligação das informações cognitivas
com o processamento emocional e muito mais. Assim, se existem alegações
de que um grupo de pessoas tem certa parte do cérebro maior do que em
outro grupo, isto não nos diz necessariamente nada de útil a respeito das
habilidades específicas do primeiro grupo. Se a cobertura populista liga
determinada parte do cérebro com uma tarefa específica, ou não entenderam
a pesquisa, ou não estão contando a história toda (ou as duas coisas).
Cuidado com o ponto de Deus![17]
Também acontece que é muito raro qualquer área do cérebro funcionar
sozinha quando ampara o comportamento. Como vimos nos capítulos
anteriores, os estudos iniciais do cérebro sugeriram que podemos
compartimentalizá-lo em áreas para habilidades específicas – em geral mostrando os danos em uma determinada área como causa de uma perda no
reconhecimento facial, ou na linguagem, ou na memória. Ligue isto às
teorias evolucionistas da época e estava proposto o modelo “canivete
suíço”, com o cérebro feito de componentes especializados para diferentes
habilidades.[18] Agora sabemos que esta proposta de um cérebro composto
de unidades mínimas e dedicadas não se encaixa bem com seu
funcionamento real.
Modelos mais novos, baseados na capacidade de obter imagens da
dinâmica do cérebro, em vez de produzir imagens estáticas, mostram que
muitas partes do cérebro são simultaneamente envolvidas em todos os
aspectos do comportamento, formando uma rede de vida curta, depois
rapidamente desacopladas, em escalas de tempo cuja captura seria difícil
com as técnicas de fMRI.[19] Assim, mais uma vez, se um grupo é
caracterizado por uma diferença de tamanho em determinada área do
cérebro, isto não significa necessariamente que este grupo é melhor em
dada habilidade. O que importa é com que frequência os diferentes
componentes da rede operam juntos, não o tamanho de um integrante
isolado da rede (que, de todo modo, pode estar ligado a várias habilidades
diferentes).
A técnica de imagem inicial do cérebro foi mais uma expedição de
cartografia, procurando por onde as coisas aconteciam nele; mas agora que
podemos ler com mais eficiência os sinais cerebrais, a ênfase está mais em
como o cérebro faz o que faz, na identificação das mudanças fugazes no
“código cerebral” que sinalizam a breve formação de uma rede para
resolver um problema ou a construção de um padrão com o qual comparar o
lote seguinte de dados. Foram dados passos imensos na decodificação deste
tipo de informação. Assustadoramente, agora está se tornando possível
“alimentar” dados da atividade cerebral a partir de experiências em que os
participantes olham imagens em um programa de computador, que pode
então fazer uma conjectura muito boa do que estava olhando quem porta o
cérebro. Assim, começamos a entender como o cérebro usa as informações
que o mundo lança a ele.[20]
Apesar de todo este progresso, devo reconhecer que ainda estamos muito
longe de entender como toda essa atividade se traduz em comportamento,
como pode explicar diferenças entre os indivíduos, ou entre grupos de
indivíduos. Mas descobrimos mais sobre como nosso cérebro cuida de seus
assuntos, como pode mudar flexivelmente suas transações com o mundo e
(o que é importante) como o mundo pode mudá-lo.
O cérebro permanentemente plástico
Uma das inovações mais importantes na ciência do cérebro nos últimos
trinta anos, mais ou menos, é a compreensão de como ele é plástico ou
moldável, não só nos primeiros anos de desenvolvimento, mas por toda a
nossa vida, refletindo nossas experiências e as coisas que fazemos e,
paradoxalmente, as coisas que não fazemos.
Esta é uma grande mudança de nossa compreensão inicial de como o
cérebro se desenvolveu, baseada na concepção de que havia padrões fixos e
predeterminados de crescimento e mudança que se desenrolavam por
períodos determinados de tempo, com desvios importantes somente por
meio de acontecimentos relativamente extremos durante esses períodos.[21]
Sabíamos que a fase cerebral infantil de proliferação maciça de conexões
entre células nervosas e o estabelecimento de vias era uma época de
tremenda flexibilidade em potencial.[22] O foco aqui, em geral, estava no
fracasso para estabelecer competências essenciais se o estímulo certo não
chegasse na época certa, mas, em circunstâncias normais, as conexões
pareciam se desenvolver seguindo linhas padrão em todos os cérebros.
Embora estivesse claro que existia certa quantidade de redundância em
cérebros muito jovens, com as crianças capazes de se recuperar da perda de
uma quantidade significativa de tecido encefálico, supunha-se que tínhamos
chegado ao ponto final do desenvolvimento depois que o crescimento das
estruturas estivesse encerrado e as conexões estivessem em seus lugares. As
estruturas e conexões no cérebro eram programadas, fixas e imutáveis. A biologia era, infalivelmente, destino. Não havia a oferta de nenhuma
atualização, nem de novos sistemas operacionais, e qualquer dano futuro
era irreparável. Nascíamos com todas as células nervosas que viríamos a ter
e não havia substituições disponíveis.
A descoberta da perpétua “plasticidade dependente da experiência”
chamou a atenção para o papel fundamental que o mundo – a vida que
temos, os trabalhos que fazemos, os esportes que praticamos – terá em
nosso cérebro.[23] Não é mais uma questão de nosso cérebro ser fruto ou da
natureza, ou da criação, mas perceber como a “natureza” cerebral está
enredada com sua “criação” transformadora proporcionada pela experiência
de vida.
Uma boa fonte de evidências de processos plásticos em funcionamento
pode ser encontrada no cérebro de peritos, pessoas de excelência em
determinada habilidade, para ver se alguma estrutura ou rede em particular
de seu cérebro é diferente da norma ou se o cérebro processa de um jeito
diferente as informações relacionadas com a habilidade. Por sorte, assim
como ter um determinado talento, estes peritos também parecem dispostos a
ser cobaias para pesquisadores da neurociência. Os músicos são uma opção
popular, mas também existem judocas, golfistas, alpinistas, bailarinos,
tenistas e slackliners (precisei pesquisar do que se tratava) deitando-se
prestativamente em escâneres.[24] As diferenças estruturais em seus
cérebros, se comparadas com mortais comuns, podiam ter uma clara relação
com as demandas de sua habilidade específica – a área de controle motor da
mão esquerda era maior em músicos de instrumentos de corda, a mão
direita em pianistas; a parte do cérebro relacionada com a coordenação
mão-olhos e a correção de erros era maior em alpinistas de alto nível; as
redes ligando áreas motoras de planejamento e a execução da memória
funcional eram maiores em judocas de elite. Também ficaram evidentes
diferenças funcionais; havia níveis mais altos de ativação nas redes de
observação da ação de bailarinos; em especialistas em arco e flecha, eram
mais ativas as redes que auxiliavam a atenção visuoespacial e a memória
funcional.
Você pode estar pensando: quem sabe essas pessoas tornaram-se peritas
porque seus cérebros eram diferentes, antes de tudo? Apesar da dificuldade
de administrar estes estudos, os neurocientistas cognitivos também
pensavam assim. Em um estudo, por um período de mais de três meses, um
grupo de voluntários aprendeu malabarismo, com os cérebros examinados
por escâneres antes e depois de terem aprendido determinada rotina.[25]
Comparados com um grupo de controle, os malabaristas treinados
mostraram um aumento na massa cinzenta na parte do córtex visual
relacionado com a percepção de movimento e naquela parte das áreas de
processamento visuoespaciais responsáveis pela orientação visual e pela
ação da mão. Quanto maior a mudança, melhor o malabarista. Três meses
depois, os ex-malabaristas (que receberam instruções rigorosas de não
praticar a habilidade recém-descoberta) voltaram ao escâner, em que foi
mostrado que o aumento na massa cinzenta tinha retornado a sua linha
basal.
O exemplo mais famoso de plasticidade é o conhecido estudo de taxistas
londrinos realizado por Eleanor Maguire, neurocientista do UCL, e sua
equipe.[26] Maguire mostrou que quatro anos de aprendizado do
“Conhecimento”, que requer a memorização de rotas diferentes pelas mais
ou menos 25 mil ruas londrinas em um raio de quase 10 quilômetros a partir
da estação Charing Cross, resultou em aumento na massa cinzenta na parte
posterior do hipocampo, que escora a cognição espacial e a memória. Isto
não aconteceu porque eles já tivessem hipocampos maiores (ela
acompanhou aprendizes e aposentados e mapeou aumentos nos primeiros e
um decréscimo nestes últimos), nem porque eles tivessem de navegar por
rotas complexas de direção (motoristas de ônibus com rotas fixas não
mostraram o mesmo efeito). Ela também examinou aprendizes que
fracassaram no curso e descobriu que não mostraram as alterações no
hipocampo características de colegas de sucesso. Parecia haver um custo
para a perícia de mudança cerebral; taxistas de sucesso saíram-se de forma
significativamente pior em outros testes de memória espacial. Porém, os
taxistas aposentados, embora mostrassem um retorno ao volume “normal”
de massa cinzenta no hipocampo (e declínio nas habilidades de navegação específicas para Londres que tinham antes), também exibiram níveis
melhorados de desempenho em memória espacial comum. Portanto, este
grupo de estudos mostra o vaivém da plasticidade do cérebro, que muda a
alocação de recursos cerebrais que entram e saem no contexto da aquisição,
do uso e da perda de determinada habilidade.
Entender a plasticidade também tem implicações para a compreensão de
diferenças individuais no que podem parecer habilidades cotidianas. Os
estudos com taxistas podem ser tomados como uma medida da plasticidade
do cérebro, mas “o Conhecimento” é uma habilidade altamente
especializada adquirida a partir do zero na idade adulta. E habilidades mais
rotineiras? Por que algumas pessoas são melhores do que outras? Será que
isto se refletia em padrões de ativação cerebral? Será que podemos
melhorar essas habilidades e, deste modo, alterar o cérebro?
Certamente existem evidências de que ter mais experiência em
atividades relacionadas com certas habilidades pode, ao mesmo tempo,
melhorar o desempenho e mudar o cérebro. As psicólogas Melissa Terlecki
e Nora Newcombe mostraram que o uso do computador e do videogame era
um poderoso previsor de determinadas habilidades espaciais.[27] Isto
também explicava a maioria das diferenças de gênero relatadas para esta
habilidade específica – havia um nível muito mais alto de uso de
computador e videogame entre os participantes homens e parecia ser isto
que impelia suas melhores habilidades espaciais.
Parece que esse tipo de plasticidade comportamental é refletido também
em mudanças estruturais no cérebro. O psicólogo Richard Haier e
colaboradores mediram imagens estruturais e funcionais do cérebro em um
grupo de meninas antes e depois de um período de três meses jogando
Tetris, por uma média de uma hora e meia por semana.[28] Comparados com
um grupo correspondente que não jogava Tetris, os cérebros das meninas
mostraram aumento em áreas corticais associadas ao processamento
visuoespacial. Também ocorreram mudanças nas medições de fluxo
sanguíneo induzidas pelo Tetris. Em um estudo diferente, trinta minutos por
dia jogando Super Mario por um período de dois meses também se provou
uma experiência transformadora para o cérebro, com aumentos no volume de massa cinzenta do hipocampo, assim como nas áreas frontais do cérebro.
[29] É interessante observar que estas mudanças no desempenho e no
cérebro não são específicas para dada tarefa. Um estudo mostrou que 18
horas de treinamento em origami melhoraram o desempenho em rotação
mental e mudaram os correlatos cerebrais associados com ela.[30]
Ao reconhecermos a perpétua plasticidade cerebral e o papel de fatores
externos, como a experiência e o treinamento, precisaremos rever certezas
do passado sobre diferenças fixas, programadas e biologicamente
determinadas. Compreender qualquer tipo de diferença entre os cérebros de
diferentes pessoas implica a necessidade de saber mais do que idade e sexo;
precisaremos considerar que experiências de toda uma vida foram
incorporadas a esses cérebros. Se ser homem significa ter uma experiência
muito maior na construção de coisas ou na manipulação de representações
complexas em 3D (há uma semelhança incrível entre as imagens usadas em
tarefas de rotação mental e instruções de Lego), é muito provável que isto
vá aparecer no cérebro. O cérebro reflete a vida que teve, não só o sexo de
quem o possui.
Este estado de plasticidade eterna nos dá uma visão muito mais otimista
do futuro de nosso cérebro. Mas também pode nos dar insights sobre o que
está acontecendo com nosso cérebro no presente – como pode ser e será
transformado pelo que encontra em nosso mundo, como pode ser desviado
e descarrilado. Saber mais sobre a interação do cérebro com o mundo
significa que precisamos prestar mais atenção ao que está neste mundo.
Seu cérebro como um satélite
de navegação preditivo
A natureza plástica e mutável de nosso cérebro sugere que ele não é apenas
um processador de informações bastante passivo (embora imensamente
eficiente), mas, em vez disso, está constantemente reagindo e se adaptando
de acordo com os imensos feixes de informações disparados para ele todos os dias – pensamos no cérebro como um sistema de orientação proativo,
gerando continuamente previsões do que pode acontecer agora em nosso
mundo (conhecido na área como “estabelecer um precedente”).[31] O
cérebro monitora o ajuste entre estas previsões e o resultado real,
transmitindo mensagens de erro para que o precedente seja atualizado e
sejamos guiados com segurança pelas correntes incessantes de informações
com que somos constantemente bombardeados. O objetivo central deste
sistema é minimizar “erros de previsão”, gerando e atualizando com rapidez
e continuamente os precedentes com base no curso normal dos
acontecimentos. Ele recorrerá a quantidades mínimas de informação para
estimar o passo seguinte e garantir que não haja surpresas, reduzindo com
eficiência a necessidade de verificações cognitivamente perdulárias ou
“pensar demais”. À luz do feedback sobre uma divergência, seguir-se-á uma
reconstrução rápida de um novo precedente. Assim, o cérebro nos faz
navegar pelo mundo por meio de uma combinação de habilidades
preditivas, como a da digitação em celulares e navegação por satélite de
vanguarda.
Se um dia você visitar Hanói, verá uma versão da codificação preditiva
em funcionamento no trânsito. As ruas são cheias do que parece ser um
fluxo interminável e incessante de scooters, circulando roda com roda pela
largura da rua. Em minha primeira ida à cidade, perambulei pela calçada,
desanimada, esperando por um espaço que não vinha nunca. Por fim, uma
vietnamita velhinha e baixinha teve pena de mim, segurou-me pelo braço e
gesticulou para que eu fosse com ela, acrescentando as instruções “NÃO
PARE”. Com os olhos fixos em um ponto do outro lado, ela me levou pelo
fluxo de scooters e andamos firmemente por entre elas. As scooters
rodavam tranquilamente a nossa volta e conseguimos atravessar. Mais tarde
me foi explicado que o “NÃO PARE” era o ingrediente fundamental –
pilotos de scooter parecem ter o misterioso instinto de saber exatamente
onde você provavelmente estará pelo caminho enquanto se aproximam
(estabelecendo seu precedente) e ajustam a trajetória para contornar quem
atravessa. Se você parasse, não estaria onde eles esperavam e se tornaria um “erro de previsão” instantâneo – com consequências contundidas e
indignas.
Alegou-se que a capacidade de “codificação preditiva” de nosso cérebro
não é aplicada apenas a visões, sons e movimentos mais básicos, mas
também nos permite o empreendimento de processos de nível superior,
como a linguagem, a arte, a música e o humor, assim como as regras em
geral ocultas de participação social, fundamentando nossa capacidade de
prever os atos e intenções dos outros e interpretar seu comportamento em
conformidade com isso.[32] As diretrizes que empregamos são extraídas de
nosso mundo, o lado de “entrada de dados” das coisas, e usadas para gerar
regras que determinem o próximo resultado mais provável no profuso
padrão da vida, quais comportamentos são associados com que expressões
faciais ou verbais, qual intenção é sinalizada por que ato. As regras que são
extraídas podem ir de “esse cheiro em geral resulta em descobrir algo bom
para se comer” a “essa expressão facial em geral significa que alguém está
feliz”, ou regras até mais abstratas e de difícil definição de convívio social,
como entender a mudança de assunto nas conversas.
Você pode sentir certo alarme com a ideia de que o responsável por nos
orientar pelo mundo aparentemente não é o evoluído, hipereficiente e quase
infalível sistema de processamento de informações que você imaginou; na
verdade, é mais uma máquina neural de apostas, mesmo que seja
autocorretiva. Com efeito, os pesquisadores produziram artigos com títulos
como “Surfando na incerteza”, “O que virá agora” e “Entrando no grande
jogo da adivinhação”.[33] Na maior parte do tempo, é claro, nosso cérebro é
mesmo hipereficiente – suas melhores conjecturas, com o nível certo de
precisão por trás, quase sempre nos dá o bilhete vencedor. Mas o fato de
que o sistema não é infalível é revelado por fenômenos como as ilusões de
ótica, em que podemos ver um triângulo onde não existe nenhum, só porque
determinada configuração de formas normalmente é associada à presença
de um triângulo. O sistema pode ser levado enganosamente a “se
equivocar” no estabelecimento de precedentes. Se está ocupado com a
solução de um problema muito específico, o cérebro pode deixar passar
informações que dizem que algo mais acontece ao mesmo tempo e perder esse erro de previsão fundamental. Nossa atenção ao que acontece à nossa
volta pode ser muito, mas muito seletiva e podemos tranquilamente ignorar
algo que está em plena vista, mas é inesperado.[34]
Mas às vezes os atalhos velozes podem nos decepcionar mais
seriamente. Os modelos ou “imagens guia” do cérebro podem ser
generalizados demais, agrupando diversas variedades de informações em
uma única categoria para reduzir a quantidade que precisa ser analisada e
classificada, em particular se for o que está em oferta no mundo. Nosso
cérebro, na verdade, é o estereotipador definitivo, às vezes chegando a
conclusões muito rápidas com base em muito poucos dados ou em fortes
expectativas, advindas de experiência pessoal passada ou das normas
culturais e expectativas do que nos cerca. Um artigo das psicólogas Lisa
Feldman Barrett e Jolie Wormwood no New York Times descreve o
fenômeno do “realismo afetivo”, em que seus sentimentos e expectativas
afetam o processo de previsão e sua percepção.[35] Você, literalmente, vê as
coisas de forma diferente. O artigo usou o exemplo da estatística recém-
lançada sobre tiros dados pela polícia em pessoas desarmadas, no qual os
policiais, no contexto de enfrentamento da pessoa suspeita, confundiram
com armas objetos como celulares e carteiras. As autoras também falam de
estudos em que um rosto neutro, quando visto em paralelo com um rosto
carrancudo subliminarmente apresentado, era percebido como menos
confiável, pouco atraente e com maior probabilidade de cometer um crime.
Assim, os dados e expectativas externos podem desviar e distrair nosso
sistema de orientação preditivo, útil em outras situações. Os estereótipos
podem mudar e mudam como vemos o mundo.
Os modelos de doença mental ou comportamento atípico recém-surgidos
também começam a incorporar esta ideia de codificação preditiva. Minha
própria pesquisa atual concentra-se na ideia de que uma falha neste
processo em cérebros autistas pode fundamentar muitas dificuldades que
eles apresentam. Não conseguir criar um precedente satisfatório implica que
a vida é cheia de erros de previsão, não se pode extrair nenhuma regra, e o
mundo torna-se um espaço perturbador, barulhento e imprevisível, a ser evitado a todo custo ou domado pela imposição de rotinas repetitivas
rigorosas.[36]
Também acontece que o sistema talvez não distorça o que está
acontecendo no mundo, mas possa, com demasiada precisão, refleti-lo com
exatidão. Em 2016, a Microsoft lançou uma chatbot chamada Tay, baseada
em um programa interativo de compreensão de conversas, que foi treinada
on-line para se envolver em “conversas informais e despreocupadas” ao
interagir com usuários do Twitter.[37] Em 16 horas, Tay teve de ser
desativada: começando a tuitar que os “humanos são superlegais”, ela
rapidamente tornou-se uma “babaca sexista e racista” graças aos múltiplos
tuítes carregados de preconceito que recebia. Embora algumas respostas de
Tay fossem apenas imitação, também houve evidências de regras gerais
extraídas de temas comuns, resultando em declarações que nunca foram
feitas especificamente, como “o feminismo é uma seita”, mas que Tay tinha
“aprendido” ao reunir o que sabia sobre as características das seitas com as
declarações que recebia sobre o feminismo.
O processo por trás desta experiência é modelado em um sistema de
treinamento de computadores chamado “aprendizagem profunda”.[38] Os
computadores são programados para extrair padrões das informações e
“treinar a si mesmos”, para chegar a representações cada vez mais
nuançadas do mundo, em vez de serem programados para realizar tarefas
específicas. Isto está no cerne dos desenvolvimentos atuais na inteligência
artificial computadorizada e tem paralelos nos modelos contemporâneos de
como o cérebro aprende. E, assim como a pobre e velha Tay descobriu, se o
mundo do qual nosso cérebro recebe dados é sexista, racista ou grosseiro,
então os precedentes que guiam nossa experiência do mundo podem muito
bem ser iguais.
Em termos de tentar entender o surgimento de diferenças sexuais e o
papel das interações cérebro-ambiente, os neurocientistas têm ficado
fascinados ao ver que um dos problemas destes sistemas de aprendizagem
profunda é que se os dados recebidos têm vieses intrínsecos, então esta é a
regra que o sistema aprenderá. Se um sistema tenta gerar uma regra
associada com imagens de cozinhas, ele ligará estas a mulheres porque é o
que encontra no mundo que explora.[39] Quando pediram ao software para
completar a declaração “O homem está para programação de computadores
como a mulher está para X”, ele deu a resposta “cuidar da casa”. Da mesma
forma, um pedido para caracterizar líderes de empresas ou CEOs produziu
listas e imagens de homens brancos. Um estudo recente mostrou que a
simples entrada de dados de linguagem em um sistema que aprendia a
reconhecer imagens não só revelou viés significativo de gênero, mas
também o ampliou.[40] Assim, “cozinhar” pode mais provavelmente
envolver mulheres do que homens em 33% das vezes, mas o modelo de
computador que aprende alegremente a identificar imagens de preparação
de comida pode rotular como uma atividade feminina em até 68% das
vezes, tendo localizado o desequilíbrio na web em exemplos de quem “fez”
a comida.
Os pesquisadores que “treinaram” este modelo verificaram outros
exemplos de linguagem da internet que podem entrar nestes sistemas de
aprendizagem, e descobriram que 45% dos verbos e 37% dos objetos
mostraram algum viés de gênero de mais de dois para um; isto é, era duas
vezes mais provável que alguns verbos e determinados objetos fossem
associados com um gênero e não com outro. Eles então passaram a mostrar
como é possível condicionar o modelo a refletir o viés com mais precisão.
Primeiro, não fizeram comentários quanto à sua existência (embora tenham
chamado o artigo de “Homens também gostam de fazer compras”).
Assim, na compreensão atual do cérebro, reconhecemos cada vez mais
que o que nosso cérebro faz no mundo depende muito das informações que
extraiu dele, e as regras que gerou para nós se baseiam nestas informações.
Para estabelecer seus precedentes, o cérebro agirá como um ávido sistema
de “aprendizagem profunda”. Se as informações que ele absorve têm algum
viés, talvez com base em preconceitos e estereótipos, não é difícil ver qual
pode ser o resultado. Assim como os resultados da confiança excessiva em
uma navegação por satélite desinformada, podemos nos ver dirigindo por
vias inadequadas ou tomando desvios desnecessários (ou podemos até
desistir inteiramente da viagem).
A principal questão aqui é como nosso cérebro determina o modo como
reagimos ao mundo, e como este reage a nós está muito mais enredado com
este mundo do que costumávamos pensar. As diferenças cerebrais (e suas
consequências) serão tão determinadas pelo que é encontrado no mundo
como por qualquer projeto genético ou marinada hormonal, portanto,
compreender estas diferenças (e suas consequências) exigirá um olhar
atento ao que acontece fora de nossa cabeça, além de dentro dela.
Outra mudança em foco no século XXI tem sido qual aspecto do
comportamento humano nós, neurocientistas, tentamos explicar. Grande
parte da especulação sobre a evolução do cérebro humano tem se
concentrado na emergência de habilidades cognitivas de alto nível, como a
linguagem, a matemática, o raciocínio abstrato e o planejamento e a
execução de tarefas complexas, e como isto contribuiu para o sucesso do
Homo sapiens. Mas existe um foco cada vez maior na ideia de que o
sucesso humano se baseou no fato de que aprendemos a viver e trabalhar de
forma cooperativa, a decodificar as regras sociais invisíveis indicadas por
expressões faciais e pela linguagem corporal ou que simplesmente pareçam
ser entendidas por membros do “endogrupo”.[41] Precisamos entender quem
são os membros de nosso grupo e como devemos nos comportar para
sermos aceitos por eles. Também precisamos localizar aqueles que não são
membros do grupo e por quê. Precisamos ler os pensamentos de nossos
companheiros seres humanos e entender suas crenças e intenções, suas
esperanças e seus desejos, ver as coisas da perspectiva deles e prever como
isto pode influenciar seu comportamento, assim ajustando nosso próprio
para abranger, ou talvez frustrar, os objetivos dos outros.
A exploração do como e do quando nós, seres humanos, usamos nosso
cérebro para nos tornar seres sociais levou a um novo ramo de neurociência
cognitiva, a neurociência cognitiva social, e a um novo modelo do cérebro:
o “cérebro social”.[42] Os neurocientistas cognitivos sociais exploram o
terreno neural por trás de nosso impulso para integrar as muitas redes
sociais e culturais que nos cercam e, além disso, mostrar como o
enredamento de nossos cérebros com estas redes dará forma a eles.