Gênero e os Nossos Cérebros

Gina Rippon · Capítulo 20 de 46

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Gênero e os Nossos Cérebros

14. Marte, Vênus ou Terra? Erramos a respeito do sexo esse tempo todo?

CAPÍTULO 14:

 

MARTE, VÊNUS OU TERRA? ERRAMOS A RESPEITO DO

SEXO ESSE TEMPO TODO?

 

Quanto mais aprendemos sobre sexo e gênero, mais estes atributos parecem existir em

um espectro.

AMANDA MONTAÑEZ[1]

 

Como vimos, a caçada pelas diferenças entre os cérebros de homens e

mulheres foi vigorosamente perseguida por séculos com todas as técnicas

que a ciência podia reunir. Havia uma certeza, tão velha quanto a vida, de

que homens e mulheres são diferentes. As mulheres empáticas, emocional e

verbalmente fluentes (brilhantes na recordação de aniversários) quase

podiam pertencer a uma tribo diferente dos homens sistematizadores,

racionais e com habilidades espaciais (ótimos com um mapa).

A alegação que estivemos examinando até agora é de que existem dois

grupos distintos de pessoas que pensam, comportam-se e se realizam de

formas diferentes. De onde podem vir estas diferenças? Vimos os antigos

argumentos sobre a “essência” de homens e mulheres e os processos

biologicamente determinados, fixos e programados que fundamentam estas

diferenças evolutivamente adaptativas. Examinamos as alegações mais

recentes de que estas diferenças são socialmente construídas, de que

homens e mulheres aprendem a ser diferentes, modelados desde o

nascimento por atitudes específicas, expectativas e oportunidades

generificadas determinantes de um papel disponível em seu ambiente. E

refletimos sobre versões ainda mais recentes do conhecimento da natureza

entrelaçada da relação entre cérebros e a cultura em que eles funcionam,

uma compreensão de que as características de nosso cérebro podem ser tanto uma construção social quanto a cópia impressa de um projeto

genético.

Porém, qualquer que seja a causa, a premissa básica é de que existem

diferenças que precisam de explicação. Assim, estejamos enchendo crânios

vazios com alpiste, acompanhando a passagem de isótopos radiativos pelos

corredores do cérebro ou testando a empatia ou habilidades de cognição,

encontraremos estas diferenças. Separadamente e juntos, e ao longo dos

séculos, psicólogos e neurocientistas vêm buscando uma resposta para a

pergunta: o que torna homens e mulheres diferentes? As respostas têm sido

extensamente pesquisadas, amplamente relatadas, recebidas com

entusiasmo ou fortemente criticadas.

Mas, no século XXI, psicólogos e neurocientistas começam a questionar

a pergunta. Como homens e mulheres são diferentes, não só no nível do

comportamento, mas até no nível mais fundamental do cérebro? Gastamos

todo esse esforço examinando dois grupos separados que, na verdade, não

são tão diferentes, e talvez nem sejam grupos distintos?

 

O sexo redefinido

 

Segundo Daphna Joel, há muito supusemos que a classificação das pessoas

como “mulher” e “homem” se baseia no modelo 3G, de que os seres

humanos podem ser classificados em duas categorias puras, de acordo com

sua composição genética, gonadal e genital.[2] Uma pessoa XX terá ovários

e uma vagina; uma pessoa XY terá testículos e um pênis. As exceções a esta

regra, por exemplo, em pessoas nascidas com a genitália ambígua ou que

mais tarde desenvolve características sexuais em desacordo com seu gênero

atribuído, eram vistas como anomalias intersexo ou distúrbios de

desenvolvimento sexual (DDS), exigindo tratamento médico, possivelmente

incluindo intervenções cirúrgicas muito prematuras.[3]

Em 2015, um artigo na Nature de Claire Ainsworth, jornalista

especializada em ciência, chamou a atenção para o fato de que “o sexo pode

ser mais complicado do que parece”.[4] Ela contou histórias de casos

mostrando que as pessoas podiam ter conjuntos de cromossomos

misturados (algumas células XY, outras XX), com as técnicas emergentes

do sequenciamento de DNA e da biologia celular revelando que isto de

forma alguma era uma ocorrência rara. E as evidências de que a expressão

dos genes que determinam as gônadas pode continuar depois do nascimento

abalou o conceito de diferenças sexuais físicas e básicas como pré-

programadas. Deveria existir uma definição mais ampla de diversos tipos de

desenvolvimento sexual, inclusive variações na produção de

espermatozoides, variações amplas nos níveis hormonais, ou diferenças

anatômicas mais sutis na estrutura peniana? Isto pode revelar que as

manifestações do sexo biológico ocorrem em um espectro, que incluiria

variações sutis e também moderadas, em vez da “divisão binária”

dominante até hoje. Esta abordagem, assim, incluiria, em vez de excluir, as

DDS, deixando-as de rotular como exceções à regra.[5]

Porém, esta não era bem a notícia original que parecia, como observou

Vanessa Heggie, uma jornalista do Guardian.[6] Em um artigo de 1993, “Os

cinco sexos”, Anne Fausto-Sterling já havia sugerido (como indicou o título

do artigo) que precisamos de pelo menos cinco categorias de sexo para

cobrir as ocorrências intersexuais.[7] Ela achava que este agrupamento

deveria incluir homens com testículos e alguma características femininas, e

mulheres com ovários e algumas características masculinas, bem como os

hermafroditas “verdadeiros”, com um testículo e um ovário. As observações

de Fausto-Sterling tinham um contexto político e ela pensava que a

sociedade precisava abandonar “o pressuposto de que em uma cultura

dividida pelos sexos as pessoas só podem perceber seu maior potencial para

a felicidade e a produtividade se têm certeza de pertencerem a um dos dois

únicos sexos reconhecidos”.

Ao rever este raciocínio em 2000, ela notou que, embora eles tenham se

mostrado controversos na época, grande parte do pensamento sobre pessoas

“intersexo” mudou nos poucos anos seguintes, ao ponto de a profissão

médica ter assumido uma atitude muito mais cautelosa para com o

desenvolvimento sexual aparentemente anômalo.[8] Houve até a sugestão de que o gênero não deveria ser determinado pelos genitais, mas que

certamente deveria ser reconhecida a existência de mais de duas categorias

(porém definidas).

Assim, temos um desafio na camada mais fundamental de nossa cadeia

de argumentos. Será que os seres humanos podem ser claramente

diferenciados em duas categorias – homem e mulher – com a associação a

cada uma determinada pelos genes, pelas gônadas e genitais, e com as

diferenças nestes claramente definidas e facilmente identificáveis? Parece

que um genótipo pode ser heterogêneo e variável, e que é possível desviar o

fenótipo emergente de seu destino original. O professor e neurobiólogo Art

Arnold mostrou que podemos separar a influência dos cromossomos das

gônadas e que estas podem variar de forma independente, com efeitos bem

diferentes nas características físicas e no comportamento.[9] Os níveis

hormonais podem flutuar muito dentro dos grupos e entre eles, e como uma

função de diferentes contextos e diferentes estilos de vida. Os genitais,

mesmo quando claramente identificáveis, como os lábios vaginais e o pênis,

podem apresentar uma variedade impressionante de formas. Existe um

artigo maravilhosamente ilustrado da Scientific American sobre a

complexidade extraordinária da determinação do sexo que nos faz perguntar

se chegamos a um produto final que parece até remotamente classificável

em apenas duas categorias.[10]

 

E o cérebro?

 

A linha seguinte de argumentação foi de que, como homens e mulheres

podem ser anatomicamente segregados, o mesmo pode ser feito com seus

cérebros. Seja em tamanho, estrutura ou função, deve ser possível encontrar

essas características que distinguiriam o cérebro de um homem daquele de

uma mulher. Como vimos, a busca por estas diferenças tem sido uma

cruzada de séculos, da leitura de calombos cranianos à medição do fluxo

sanguíneo no cérebro, e certamente a história não tem sido de progressão linear. Em 1966, a única região cerebral identificada como relevante para

entender as diferenças sexuais era o hipotálamo.[11] As coisas certamente

mudaram desde então; foram quase trezentos estudos de imagem de

diferenças sexuais ou de gênero no cérebro humano nos últimos dez anos,

com centenas de relatos de diferenças sexuais em dezenas de diferentes

características cerebrais.

Como vimos no Capítulo 4, embora as técnicas envolvidas com o exame

do cérebro claramente estejam mais sofisticadas do que calombos e

chumbo, muitos argumentos permaneceram os mesmos. Estabelecer

distinções cerebrais envolve, primeiramente, um consenso sobre como

diferentes estruturas devem ser medidas, e isto ainda não foi alcançado

atualmente. Por exemplo, existe um consenso de que é necessário realizar

alguma correção de tamanho para comparar cérebros de homens com

cérebros de mulheres; mas, como vimos, ainda existem discussões sobre em

que devem se basear estas correções. Devem ser no volume total do cérebro

ou no volume cerebral intracraniano, na altura, no peso ou no tamanho da

cabeça, todas as anteriores ou apenas uma delas? Sabemos que havia uma

antiga lista daquelas áreas cerebrais em que foram encontradas diferenças

sexuais “confiáveis”. Isto inclui a sugestão de que as duas estruturas-chave

do cérebro, a amígdala e o hipocampo, são maiores nos homens.

Aparentemente, isso foi confirmado em uma meta-análise em 2014, que

examinou mais de 150 estudos.[12]

Porém, no mundo da imagem cerebral, as atualizações chegam a jato e

técnicas cada vez mais sutis nos permitem rever certezas do passado sobre

as diferenças cerebrais. A região candidata du jour de ontem para a

compreensão da diferença sexual pode ser a reconsideração do hipocampo

de hoje. Mesmo nos quatro anos desde a revisão mencionada aqui, uma

nova pesquisa contestou algumas daquelas conclusões. A equipe de Lise

Eliot da Universidade Rosalind Franklin, em Chicago, realizou meta-

análises de dados estruturais do hipocampo e da amígdala, em 2016 e 2017,

respectivamente.[13] Em ambos os casos, demonstraram que as alegações

iniciais de que estas estruturas eram maiores nos homens do que nas

mulheres não tinham fundamento e que as diferenças diminuíram acentuadamente ou desapareceram quando as medidas foram corrigidas

para o volume cerebral intracraniano.

Está ficando cada vez mais claro que as estruturas dentro do cérebro são

cuidadosamente dimensionadas como uma função do tamanho cerebral,

possivelmente para otimizar necessidades metabólicas ou a comunicação

intercelular. Isso significa que quaisquer relatos de diferenças sexuais nas

estruturas cerebrais que não fizeram alguma forma de ajuste de volume não

dão um quadro preciso.

Em vez de se concentrar no tamanho de diferentes estruturas, agora há

um interesse maior nos padrões de conexões para a compreensão das

ligações cérebro-comportamento. No Capítulo 4, vimos um estudo do

laboratório de Ruben e Raquel Gur, um dos primeiros a aplicar medidas de

conectividade estrutural ao estudo das diferenças sexuais, que alegou

encontrar maior conectividade intra-hemisférica nos homens e inter-

hemisférica nas mulheres.[14] Entretanto, como discutimos em nossa

jornada pelo neuroabsurdo e o neurossexismo, este estudo tinha problemas,

em particular com relação à ênfase demasiada que os autores (ou os autores

dos comunicados à imprensa) deram ao significado destas descobertas, que

não refletiriam precisamente a extensão destas diferenças. Além disso, ficou

claro que a questão do “tamanho importa” é válida aqui também: as

descobertas do laboratório de Lutz Jänke em Zurique mostraram que quanto

maior o cérebro, mais fortes são as conexões dentro dos hemisférios e, o

que é importante, isso independe do sexo de quem o possui (embora,

naturalmente, a maioria dos cérebros maiores pertença a homens).[15] Mais

uma vez, podemos ver isto como uma questão de escala. À medida que os

cérebros aumentam, aumentarão as distâncias entre eixos fundamentais de

processamento, portanto, é preciso haver um mecanismo para garantir que a

velocidade de processamento não seja comprometida. Países maiores

precisam de estradas melhores.

A outra questão fundamental a ser levada em conta é a da plasticidade do

cérebro. Como vimos, as experiências de vida e as atitudes nela podem

modelar e remodelar cérebros e, assim, tentar medir estruturas em cérebros

como se fossem pontos finais fixos, sem considerar as experiências transformadoras para o cérebro que elas podem ter sofrido, provavelmente

será, na melhor das hipóteses, de valor limitado. Pesquisadores que

encontraram diferenças de tamanho/sexual na amígdala e no hipocampo,

como antes dito, reconhecem isso, e observam que notoriamente as duas

estruturas podem ser influenciadas pela experiência e o estilo de vida.

Precisamos saber que tipo de vida estes cérebros tiveram – seus donos

provavelmente tiveram graus variáveis de escolaridade, diferentes

ocupações ou experiências de vida diferentes surgindo de seu status

socioeconômico.

Você pode se perguntar se, depois de todo esse tempo e esforço, pode ser

a hora de pedir uma trégua durante essas tentativas de décadas de gerar um

catálogo de diferenças em estruturas e vias cerebrais. Daphna Joel e

Margaret McCarthy propuseram um arcabouço melhorado para interpretar

diferenças sexuais, que podem fazer o campo avançar.[16] Elas sugerem

quatro perguntas adicionais que talvez precisemos fazer sobre quaisquer

diferenças que sejam encontradas. Primeiramente, elas são persistentes ou

transitórias ao longo da vida – estamos falando de diferenças sempre

presentes ou de diferenças que, digamos, aparecem e desaparecem com

diferentes níveis hormonais? Ou das que aparecem na infância e

desaparecem depois da adolescência? Em segundo lugar, elas são

dependentes ou independentes do contexto: só serão encontradas em

determinadas circunstâncias ou culturas ou são universais? Em terceiro

lugar, são claramente dimórficas (sem sobreposição), existem muitas

sobreposições, ou elas são caracterizadas melhor como um contínuo? E, por

fim, elas podem ser diretamente atribuídas ao sexo biológico (por meio de

cromossomos ou hormônios), ou surgem devido a efeitos indiretos, como

expectativas sociais e normas culturais (no caso humano) que podem variar

em função de a pessoa ser homem ou mulher? Assim, precisamos perguntar

não só se existe uma diferença, mas que diferença pode ser.

Este arcabouço certamente propõe uma resposta mais nuançada à eterna

pergunta “Então, quais são as diferenças sexuais no cérebro?”, e talvez até

levem menos ao costumeiro revirar de olhos quando começamos a

responder com “Bom, depende do que você quer dizer por diferente...”

Ou deveríamos apenas parar inteiramente de procurar pelas diferenças?

 

O cérebro mosaico

 

Na busca por diferenças sexuais no cérebro, o pressuposto subjacente, é

claro, é de que os cérebros das mulheres serão distintos dos cérebros dos

homens. Como as séries televisivas de detetives que parecem capazes de

identificar partes corporais descobertas, será que existe algum conjunto de

pistas confiáveis de que este é um cérebro feminino e aquele é um cérebro

masculino?

Em 2015, uma equipe liderada por Daphna Joel, da Universidade de Tel

Aviv, relatou os resultados de uma investigação longa e muito detalhada de

mais de 1.400 scans cerebrais de quatro laboratórios diferentes.[17]

Examinaram os volumes de massa cinzenta em 116 regiões de cada cérebro.

A partir de um subconjunto de seus scans, identificaram dez características

daquelas 116 que mostraram as maiores diferenças entre os cérebros de

mulheres e aqueles de homens; depois os dados foram cuidadosamente

codificados, respectivamente por cor-de-rosa e azul. Aquelas características

que eram mais sistematicamente maiores em homens foram chamadas de

“masculinas” e as que eram mais sistematicamente maiores em mulheres

foram chamadas de “femininas”. Quando mapearam essas características

codificadas por cores em outro subconjunto dos dados originais,

compreendendo 169 cérebros de mulheres e 112 de homens, ficou

imediatamente claro que cada cérebro exibia um verdadeiro mosaico das

características masculinas e femininas, bem como várias intermediárias.

Menos de 6% da amostra eram uniformemente “masculinas” ou

“femininas”, isto é, em que a maioria das 116 características era masculina

ou feminina, respectivamente. O resto mostrava uma ampla gama de

variabilidade entre cada cérebro, com uma coleção geral “misturada” de

masculinidade e feminilidade evidente nos cérebros diferentes. Este tipo de

distribuição também foi encontrado em outros conjuntos de dados e apareceu um padrão semelhante de resultados com vias estruturais. A

conclusão desta investigação foi de que devemos “deixar de pensar em

cérebros que recaem em duas classes, uma típica de homens e outra típica

de mulheres, e reconhecer a variabilidade do mosaico do cérebro humano”.

Este artigo teve um importante impacto na comunidade de pesquisa das

diferenças sexuais. Proporcionou uma imagem convincente da variabilidade

nos dados cerebrais de homens e mulheres e afirmou que havia tão pouca

coerência interna entre grupos divididos segundo o sexo que a ideia de um

cérebro masculino ou feminino deveria ser abandonada. Embora tenha

havido um consenso geral quanto à variabilidade em todos esses dados (e

nenhum pesquisador de imagem cerebral nesta área poderia contestar),

houve alguma preocupação de que a técnica usada estivesse “acumulando

as probabilidades” contra a descoberta de categorias puras e claras. Por

exemplo, um artigo aplicou uma técnica semelhante a faces muito desiguais

de diferentes espécies de macacos e afirmou que elas não podiam ser

distinguidas.[18] Assim, o motivo para que Joel não conseguisse agrupar

seus dados em duas pilhas puras não foi uma função dos dados, mas de

como Joel tentou organizá-los. Outros aplicaram técnicas de

reconhecimento automático de padrões e relataram que podiam identificar

corretamente uma “categoria sexual” cerebral entre 65 e 90% das vezes.

Joel defendeu sua abordagem enfatizando que a principal mensagem era de

que o leque da variabilidade nos conjuntos de dados sobre o cérebro (que

não era tão evidente nas faces de macacos) era tão extenso que, no nível

individual, seria impossível prever confiavelmente o “perfil cerebral” de

alguém apenas com base em seu sexo. Assim, não, não podemos pegar um

cérebro e preencher um conjunto de 116 quadradinhos e aparecer com a

resposta “feminino” ou “masculino”.

Joel também observa que este mosaicismo biológico também se enreda

com a questão da plasticidade. Por exemplo, mostrou-se que as

características de determinadas células nervosas, supostamente típicas de

mulheres e típicas de homens, podem mudar em função de estresse externo

e passar a ser mais masculinas ou mais femininas, respectivamente,[19] e assim os diversos padrões de um mosaico cerebral podem refletir as

diferentes experiências de vida às quais ele foi exposto.

Na extremidade mais fundamental da história sexual, então, parece que é

cada vez mais complicado conciliar as evidências que se acumulam com a

ideia de uma divisão binária pura. Com relação ao cérebro, existem quatro

questões emergentes sugerindo que pode ser a hora de sair da divisão

simplista “cérebro masculino/cérebro feminino”. Décadas de descobertas

usando técnicas de imagem cada vez mais sofisticadas ainda não

produziram nada parecido com um consenso quanto ao que pode diferenciar

um “cérebro masculino” de um “cérebro feminino”. Existem dificuldades

para saber o que diferenças estruturais no cérebro podem significar em

relação ao comportamento que queremos compreender. A questão da

plasticidade implica que uma ampla gama de fatores psicológicos precisa

ser levada em consideração quando examinamos quaisquer medidas de

estrutura ou função cerebrais, e também implica que qualquer padrão de

atividade cerebral que examinarmos pode ser considerado, na melhor das

hipóteses, somente um “instantâneo” daquele cérebro, refletindo apenas seu

perfil corrente. E as recentes descobertas de Joel chamaram a atenção para a

enorme quantidade de variabilidade em cérebros individuais no nível de

estruturas muito fundamentais, a tal ponto que uma interpretação diz que o

maior mito de todos é o de que nosso cérebro é “masculino” ou “feminino”.

[20]

 

Os hormônios furiosos?

 

E os hormônios, aqueles mensageiros químicos que controlam a maior parte

de nossas funções corporais, que há muito vêm recebendo um papel muito

especial na determinação das diferenças entre mulheres e homens? Na

verdade, como vimos no Capítulo 3, dois dos grupos hormonais – os

andrógenos e os estrógenos – são chamados de hormônios “sexuais”. A

testosterona, o andrógeno mais famoso, é conhecido como um hormônio

masculino, e o estradiol, como um hormônio feminino, apesar de ambos ocorrerem em mulheres e homens. Uma revisão recente observou que níveis

médios de estradiol e progesterona, os chamados hormônios “femininos”,

não diferem entre mulheres e homens.[21] Assim, como acontece com o

cérebro, o que parece uma medida binária de diferenças entre ambos os

sexos não tem sustentação em um exame mais atento.

A questão da plasticidade também é relevante aqui. A antiga impressão

de hormônios como motores do comportamento (ou que “põem em

movimento”, que, como vimos no Capítulo 2, é o que significa seu nome)

implica que eles são a causa de toda sorte de comportamentos. Mas a

pesquisa do século XXI que examinou os efeitos do contexto social sobre

níveis hormonais implica que precisamos repensar este papel causal e

reconhecer que os hormônios humanos são tão enredados com o que

acontece em seu mundo, e reagem a isto, quanto os cérebros humanos.[22]

No capítulo anterior, vimos o efeito de níveis de testosterona masculino de

lidar mais ou menos com sucesso com uma boneca chorando, com reduções

significativas na testosterona para os tranquilizadores bem-sucedidos. E isto

foi espelhado em situações no mundo real, com níveis variando segundo a

“prática” dos pais.

Assim como observamos o poder da sociedade e de suas expectativas

como variáveis que mudam o cérebro, está claro que o mesmo efeito é

evidente com relação aos hormônios. A endocrinologia social tem mostrado

que “andrógenos e estrógenos não são dois conjuntos distintos de

hormônios sexuais – um conjunto para as mulheres, e outro para os homens

–, mas são hormônios encontrados em todos os seres humanos [...]. Além

disso, os níveis destes hormônios não são fixos, mas dinâmicos e podem ser

influenciados por experiências sociais generificadas”.[23]

Mas precisamos recordar onde tudo isso começou, o status quo ante de

que homens e mulheres têm habilidades, temperamentos, personalidade,

aptidões e interesses amplamente divergentes, que podem ser confundidos

como membros de espécies diferentes ou até habitantes de planetas

diferentes. E esta antiga cruzada científica trata da questão “O que

diferencia homens de mulheres?”. Coçamos a cabeça com as respostas

desconcertantes que temos recebido. Mas quem sabe se, como acontece com os cérebros e os hormônios, na verdade devemos examinar a própria

pergunta?

 

Preto e branco ou tons de cinza: diminuição das

diferenças e desaparecimento de dicotomias

 

A lista preferida da psicologia quanto às diferenças de gênero, com fatores

cognitivos como capacidade verbal e espacial junto com empatização ou

sistematização, há muito tem sido aceita como diferenciações de gênero

bem-estabelecidas. Porém, como vimos no Capítulo 13, estas afirmações

confiantes começaram a ser contestadas e meta-análises de Janet Hyde em

2005 e Ethan Zell e colaboradores em 2015[24] sugeriram que a mensagem

avassaladora de décadas de pesquisa sobre milhões de participantes era de

que, na verdade, mulheres e homens eram mais semelhantes do que

diferentes e que as diferenças desapareciam com o tempo.

Agora vamos nos afastar outro passo das certezas do passado sobre as

diferentes origens planetárias de homens e mulheres. Até a hipótese da

semelhança de gêneros é baseada em um argumento do grau de diferenças e

semelhanças que realmente têm as duas categorias de homens e mulheres.

Mas vamos supor que estejamos cometendo um erro fundamental ao pensar

que existem duas categorias, antes de mais nada? Que, com relação a todas

as habilidades cognitivas, características de personalidade ou

comportamentos sociais que submetemos seriamente a meta-análises,

homens e mulheres não recaem nos dois grupos que suas diferentes

anatomias (embora mais complexas do que se pensava inicialmente) nos

levaram todos a acreditar que devem existir?

Dois artigos com títulos maravilhosos cintilam desta linha de raciocínio:

“Homens e mulheres da Terra: Examinando a estrutura latente de gênero”,

de 2013[25], e “Preto e branco ou tons de cinza: Serão as diferenças de

gênero categóricas ou dimensionais?”, de 2014,[26] de Harry Reis, da

Universidade de Rochester, no estado de Nova York, e Bobbi Carothers, da Universidade Washington, em Saint Louis. Os dois artigos voltaram

diretamente ao fundamento da questão da “diferença”. Observaram que a

comparação de dois grupos supunha, antes de tudo, que existiam dois

grupos. Se vamos colocar pessoas (ou qualquer coisa) em grupos separados,

precisaremos conhecer as regras fundamentais para a “variável de

agrupamento”, a base para tomarmos nossa decisão de quem ou o que

pertence a que grupo (conhecida como estabelecer um “táxon”). Para uma

categoria ou táxon ser significativo, seus membros devem possuir um

conjunto de características reconhecíveis que geralmente andam juntas

(coerência interna). No geral, estas características devem resultar em uma

categoria que seja reconhecivelmente distinta de outras. Isto, então,

significa que só conhecer o rótulo fixado em cada categoria (vamos chamar

de caixa, por enquanto) deve nos dar uma pista sólida do que está nesta

caixa. É claro que é exatamente isto que fazem os estereótipos – dão um

rótulo do qual, supõe-se, todo o restante seguirá.

Carothers e Reis analisaram dados de 122 medidas que supostamente

distinguiam homens de mulheres. Isto incluiu muitas medidas diferentes de

masculinidade e feminilidade, medidas de empatia, de medo do sucesso, de

interesse por ciência, e dos Cinco Grandes fatores de personalidade, como o

neuroticismo. Depois correram esses dados por três tipos diferentes de

análise projetados especificamente para mostrar se as medidas resultantes

eram ou não taxônicas (pertencentes a grupos distintos) ou dimensionais

(pertencentes a uma única escala). Quase todas as comparações por eles

examinadas mostraram que os dados se encaixavam melhor em uma só

dimensão. Claramente James Damore, o autor do memorando do Google,

não topou com esses artigos!

Para ter certeza de que este não era só um problema com seus métodos

de análise e que os dados seriam separados em grupos distintos, se

apropriado, eles fizeram um relato isolado usando unicamente dados

divididos em grupos, como medições físicas e realizações atléticas. As

medidas também foram eficazes na classificação confiável de atividades

estereotipadas por sexo, como gostar de pugilismo, assistir pornografia,

tomar um banho e falar ao telefone nos grupos apropriados (deixarei que você adivinhe quais atividades eram estereotipadas e relacionadas a qual

sexo). Assim, a mesma origem de nossa caçada pelas diferenças sexuais no

cérebro, de que existem distinções claras em comportamentos, aptidões,

temperamentos, gostos e aversões de homens e mulheres, parecia precisar

de uma atualização radical.

Além disso, Daphna Joel e sua equipe também usaram a abordagem de

“mosaico”, que tinham aplicado a suas medições do cérebro, no exame das

variáveis psicológicas.[27] Pegaram informações de dois grandes conjuntos

de dados abertos e, além disso, o conjunto de dados do estudo de Carothers

e Reis que mostravam especificamente as maiores diferenças sexuais.

Pegaram as variáveis de cada conjunto que mostrava as maiores diferenças

sexuais, por exemplo, características como “preocupar-se com o peso”,

“apostar”, “fazer o trabalho doméstico”, “ter hobbies ligados à construção”,

“competência em se comunicar com as mães” ou “gostar de ver

pornografia”. Depois, examinaram a distribuição de cada uma dessas

variáveis aparentemente discriminadoras em cada um dos participantes.

Quantos tinham um “conjunto correspondente” ou de características

fortemente masculinas, ou fortemente femininas? Se nossa preocupação é o

peso, então provavelmente também veremos talk shows e faremos o

trabalho doméstico? Se gostamos de apostar, também gostaremos de

pugilismo ou de ter passatempos ligados a construção? A resposta foi

“não”. Das 3.160 mulheres e dos 2.533 homens testados nestes estudos, só

pouco mais de 1% eram sistematicamente espectadores de pornografia que

gostavam de pugilismo, ou pessoas preocupadas com o peso que tomavam

banho, com os outros 99% podendo ser, digamos, apostadores inveterados

que sabiam se comunicar com suas mães.

Portanto, como acontece com os cérebros, não existe isso de um perfil

comportamental tipicamente feminino ou um perfil comportamental

tipicamente masculino – cada um de nós é um mosaico de diferentes

habilidades, aptidões e capacidades, e tentar nos colocar em duas caixas

com rótulos arcaicos deixará de apreender a verdadeira essência da

variabilidade humana.

Quanto mais examinamos todo tipo de medidas diferentes de homens e

mulheres, da biologia fundamental, passando por características cerebrais a

perfis de comportamento e personalidade, menos provável parece que estas

medidas venham de dois grupos de pessoas confiavelmente discerníveis. É

evidente que isto tem implicações para todos os nossos estereótipos

estabelecidos e para todo tipo de práticas discriminatórias baseadas,

consciente ou inconscientemente, nestes estereótipos.

 

Para além do binário – implicações para a identidade

de gênero

 

Um adjunto lógico a este possível abandono das dicotomias simples

homem/mulher é como isso pode se relacionar com todo o conceito de

identidade de gênero. Como vimos, a origem do debate sobre diferenças

sexuais supunha que existisse uma ligação inquebrável, unidirecional e

causal entre nosso sexo biológico (os genes, genitais e gônadas com que

nascemos) e nosso gênero social (como nos identificamos, que papéis as

“pessoas como nós” têm na sociedade). Isto foi supostamente provado pela

evidência incontestável de que existiam diferenças sexuais no cérebro que

causavam diferenças sexuais em aptidões, habilidades, personalidade e

identidade, que, por sua vez, explicavam as diferenças sexuais em

realização, status e posições de poder.

Mas uma vez que esta cadeia de evidências começa a ser revelada, as

certezas do passado podem ser contestadas, inclusive a ideia de que o sexo

que nos atribuíram ao nascimento é, de certo modo, relacionado com nossa

identidade pessoal. Desta forma, repensar o sexo no século XXI tem

implicações para mais do que apenas nossa compreensão do cérebro e do

comportamento. Será que sentimos que somos homens ou mulheres porque

temos um cérebro masculino ou feminino? Se não existe cérebro feminino

ou masculino, de onde vem nossa identidade de gênero?

Como ocorre com muitas coisas nesta área, precisamos ser claros com as

definições. Identidade de gênero se refere ao nosso senso como homens ou

mulheres, se nos identificamos como um homem ou uma mulher. Se alguém

parar você na rua e pedir para responder a um levantamento, como você se

descreveria? Não é a mesma coisa que preferência de gênero ou orientação

sexual, que em geral se refere a quem podemos escolher como parceiro

sexual. Os dois podem andar juntos, mas vemos que pode variar de forma

independente.

Sabemos que as crianças são detetives mirins de gênero, trabalham nesse

caso desde cedo, e por volta dos três anos concluem que sentem ser de um

gênero, e o que isto significa para como devem se comportar, como devem

se vestir e com que brinquedos podem brincar. E este gênero quase

invariavelmente é ligado a sua percepção de diferenças anatômicas – os

meninos têm pênis e as meninas, não. Com base nisto, sempre que “têm as

evidências” ou dicas, como tamanho do cabelo, ou o nome, elas atribuem

gêneros diferentes aos outros de seu círculo social e declaram firmemente

as regras fundamentais associadas a cada gênero.[28] Ai de qualquer

transgressor – as próprias crianças são a polícia de gênero mais

intransigente!

Como isso começa cedo na vida, existe uma escola de pensamento que

diz que a identidade de gênero se deve à expressão de fatores biológicos

inatos. Da mesma forma que nosso sexo genético ou hormonal foi

identificado como a causa de diferenças sexuais no cérebro e no

comportamento, os processos biológicos são considerados fundamentos

para a emergência da identidade de gênero.[29] Você pode “se sentir”

homem ou mulher porque tem um cérebro masculino ou feminino,

organizado e canalizado pela ação de fatores genéticos e hormonais. Os

relatos de que meninas com hiperplasia adrenal congênita mostram baixos

níveis de satisfação com seu sexo feminino atribuído foram citados como

provas da determinação biológica da identidade de gênero.[30] Da mesma

forma, o caso de David Reimer, o menino criado como menina que

conhecemos no Capítulo 2, mostra o caráter extraordinário com que os

esforços determinados de socialização foram aparentemente insuficientes para estabelecer uma identidade de gênero em conflito com aquela

biológica.[31]

Mas e se você sentir uma desconexão entre o que sua biologia lhe diz e o

gênero com o qual se identifica, apesar de todas as evidências necessárias e

das mensagens muito poderosas que sua cultura lhe passa de que as duas

coisas andam juntas? A ponto de você se ver tão infeliz que está disposto a

se submeter a procedimentos médicos drásticos, inclusive cirúrgicos, para

alterar seu sexo biológico de modo que combine com o gênero com o qual

você se identifica? É uma decisão talvez compreensível, se você está imerso

em uma cultura cuja biologia é identificada insistentemente como a

principal “causa” do gênero.

Nos dias de hoje, a identidade de gênero é um tema polêmico. Um

levantamento de 10 mil pessoas realizado pela Comissão de Igualdade e

Direitos Humanos em 2012 indicou que aproximadamente 1% da população

relata este tipo de desconexão.[32] Embora isto nem sempre resulte em

intervenção médica, existe um aumento bastante drástico nas pessoas que

seguem este caminho. Em 2017, a Sociedade Americana de Cirurgiões

Plásticos informou um aumento de 19% em relação ao ano anterior na

cirurgia de redesignação de gênero (3.250 operações no total).[33] No Reino

Unido, com a dificuldade de acesso a todas as estatísticas, embora o Serviço

Nacional de Saúde realize algumas cirurgias, a maioria é feita

privadamente; mas um relatório da Comissão das Mulheres e das

Igualdades da Câmara dos Comuns em 2015 contou que os

encaminhamentos para clínicas de identidade de gênero crescem cerca de

25 a 30% ao ano.[34]

Outro fator que tem atraído comentários é um aumento drástico no

número de crianças que se declaram invariantes quanto ao gênero e uma

diminuição na idade em que isso acontece. Uma reportagem no Telegraph

em 2017 dizia que, em quatro anos, quadruplicou o número de crianças com

menos de dez anos a visitar a única instalação do NHS (Serviço Nacional de

Saúde) para crianças transgênero, de 36 em 2012/13 para 165 em 2016/17.

[35] Também se observou que 84 crianças com idades entre três e sete anos

foram encaminhadas em 2016/17, comparadas com vinte em 2012/13. Um aspecto controvertido disto é que uma forma de tratamento envolve o uso

de hormônios bloqueadores da puberdade, às vezes seguidos por hormônios

intergênero para permitir o desenvolvimento dos caracteres sexuais

secundários do gênero com o qual a criança/adolescente deseja se

identificar.

Em 2015, a revelação de que Bruce Jenner, decatleta olímpico, estava

transicionando para se tornar Caitlyn Jenner certamente colocou a questão

sob os holofotes do público.[36] E a afirmação dela de que “meu cérebro é

muito mais feminino que masculino” resumiu uma alegação frequente de

pessoas transgênero de que elas sentem como se tivessem um cérebro

masculino em um corpo feminino (ou o contrário) ou, falando mais

coloquialmente, que elas nasceram na “caixa errada”. Elas sentem que algo

deu errado com sua ligação biologia-gênero e, assim, desejam realinhá-la

mudando sua biologia para que seja coerente com o gênero com que se

identificam. Mas será que devemos contestar esta ligação? Devemos

contestar o conceito de alguma caixa pré-rotulada em que estão sendo

colocados os seres humanos?

Vimos as dificuldades para as mulheres associadas com uma convicção

inabalável de que sua biologia determina seus interesses, aptidões,

personalidade, ocupação e assim por diante. Talvez isto também se estenda

àqueles que questionam sua identidade de gênero. Os empurrões ubíquos e

insistentes do marketing que divide, o implacável bombardeio generificado

das redes sociais virtuais e dos locais de entretenimento, a constante

disponibilidade de exibições definidas por gênero podem resultar em um

estereótipo muito mais rígido e normativo do que já vimos antes sobre o

que significa ser homem ou mulher. Assim, se “nenhuma das anteriores”

parece ser sua resposta às características esperadas de você como menino

ou menina, pode ser simplesmente que exista um problema com a pergunta

do que faz um menino ou uma menina, e não com suas respostas.

Desmascarar o mito do cérebro masculino ou do cérebro feminino deve ter

implicações para a comunidade transgênero que, assim esperamos, serão

consideradas positivas.

O sexo ainda importa – não matem a mensageira!

 

Uma consequência de esticar a cabeça acima do parapeito Marte/Vênus e

observar que diferenças “bem estabelecidas” nos cérebros e

comportamentos de homens e mulheres na verdade não são assim tão bem

estabelecidas, e pode ser que elas nem existam, é que talvez continuemos a

atrair o que pode ser chamado educadamente de “comentário adverso”.

Valorizo muito um comentário incisivo de Cristina Odone, escrevendo

no Telegraph: “Tenha pena da cientista. Trancada em laboratórios,

manuseando frascos cheios de fluidos tóxicos, cercada de camundongos

brancos e jalecos brancos – não admira que às vezes ela perca o bom senso.

Este parece ser o caso de Gina Rippon.”[37] Levo ainda em consideração a

tarefa de esposar uma teoria que “cheira a feminismo com um fetiche de

igualdade”. Tentarei escamotear outra descrição de uma série de

comentários no Daily Mail de que eu sou “cheia de truta” (estou supondo

que é um erro de grafia e não uma crítica a meus hábitos de comer peixe). E

acrescente na mistura “megera velha e rabugenta” e “otária da ação

afirmativa pós-menopausa” e você terá começado a entender o quadro.

Espero que duas coisas tenham ficado claras em nossas discussões, até

agora, na área da pesquisa das diferenças sexuais e suas descobertas. A

primeira é que uma compreensão plena de quaisquer diferenças sexuais que

existam e, ainda mais importante, de onde elas vêm, é crucial, em particular

com relação a qualquer coisa pertinente ao cérebro. Isto porque explicações

incompletas baseadas no cérebro costumam contribuir erroneamente para

uma crença na inevitabilidade fixa de um status quo, seja em quem tem

sucesso na ciência ou em quem sabe ou não ler mapas. E isto pode levar a

estereótipos contraproducentes, vieses conscientes ou inconscientes

desinformados e um possível desperdício significativo de capital humano.

A segunda é que estas críticas não são uma negação da existência de

alguma distinção sexual. Em vista da necessidade de entender direito esse

tipo de pesquisa, é importante que qualquer pesquisa sobre as diferenças

sexuais seja bem projetada, com a escolha criteriosa de variáveis

dependentes e independentes que estão para ser examinadas, grupos adequadamente selecionados de participantes e análise e interpretação

atenta dos dados. Depois que isto está seguramente em operação,

começaremos a acumular um portfólio genuinamente mais útil de

descobertas. Aqueles que se referem às pessoas como eu e minhas colegas

como “antidiferenças sexuais” ou “negadoras das diferenças sexuais”

parecem não ter entendido a questão. Da mesma forma, a acusação de que

estamos colocando em risco a vida das mulheres ao evitar a pesquisa de

diferenças sexuais é desconcertante (e também incorreta).[38] Os estudos de

diferenças sexuais estão vivos e passam bem, como vimos por todo este

livro, e assim me surpreende que este movimento de guerrilha de

“neurociência feminista” (ou “feminazi”), a que aparentemente eu pertenço,

não tenha um sucesso estrondoso!

Existem claras indicações de que há diferenças sexuais acentuadas na

incidência de problemas físicos e mentais. Evidentemente, é essencial

identificar o quanto o sexo ou o gênero de uma pessoa contribuiu para isto.

A questão fundamental é olhar para além da simples categoria de sexo, não

parar aí quando fica claro que este pode ser um fator influente, mas ver que

outros fatores podem estar emaranhados com ele. Será que mais mulheres

do que homens sofrem de depressão devido a fatores genéticos ou

hormonais relacionados com o sexo, ou devido a um “déficit de autoestima”

associado a um estilo de vida altamente generificado? Ou as duas coisas?

Se pudermos resolver questões como estas, veremos um progresso

considerável na área das diferenças sexuais/de gênero.

As descobertas que consideramos neste capítulo sugerem que o quadro

será distorcido se examinarmos o sexo biológico em termos das diferenças

categóricas que ele causa. É bem melhor pensar nisso como uma variável

dimensional contínua que pode exercer influências – profundas, moderadas

ou talvez apenas banais – no processo que tentamos entender ou no

problema que tentamos resolver. Pelo que examinamos até agora, o termo

“influência” pareceria um reflexo muito mais preciso do papel que o sexo

biológico pode ter na jornada de nosso cérebro pela vida.

Sem dúvida nenhuma, o sexo importa; esta não é uma “verdade

inconveniente”, mas é uma verdade que precisa ser revelada com cuidado. Precisamos ir “além do binário”, parar de pensar em “o cérebro masculino”

ou “o cérebro feminino” e ver nosso cérebro como um mosaico de

acontecimentos passados e possibilidades futuras.