Gênero e os Nossos Cérebros
9. As águas generificadas em que nadamos – O tsunami rosa e azul
CAPÍTULO 9:
AS ÁGUAS GENERIFICADAS EM QUE NADAMOS – O
TSUNAMI ROSA E AZUL
As crianças buscam ativamente significado no mundo social que as cerca e querem
entendê-lo, e o fazem usando dicas de gênero proporcionadas pela sociedade para
ajudá-las a interpretar o que elas veem e ouvem.
C. L. MARTIN E D. N. RUBLE, 2004[1]
Embora os bebês humanos pareçam muito passivos e indefesos quando
nascem, com cérebros aparentemente ainda nos estágios bem iniciais de
desenvolvimento, está claro que eles chegam com kits corticais de partida
muito sofisticados. Sua capacidade de esponja para absorver informações
sobre o mundo que os cerca indica que precisamos prestar atenção ao que o
mundo diz a eles. Quais regras e diretrizes vão encontrar? Existirão regras
diferentes para bebês diferentes? E quais acontecimentos e experiências
podem determinar seu destino final?
Entre os primeiros, mais ruidosos e mais persistentes sinais sociais que
um bebê pode captar estão, naturalmente, as diferenças entre meninos e
meninas, homens e mulheres. Mensagens sobre sexo e gênero estão em
quase toda parte para onde olhamos, das roupas e brinquedos para crianças,
passando por livros, instrução formal, empregos e a mídia ao sexismo
“casual” cotidiano. Uma rápida pesquisa pelo supermercado pode gerar
uma lista de produtos inutilmente divididos por gênero – sabonete líquido
(“Banho de chuva tropical” se você é mulher; “Terapia Muscular” para os
homens), pastilhas para garganta, luvas para jardinagem, mix de frutas
secas (Mix Energia para os homens e Mix Vitalidade para as mulheres),
caixas de chocolate de Natal (ferramentas para meninos, joias e maquiagem
para meninas) – garantindo um tema constante segundo o qual, mesmo quando só estamos pensando em gargantas inflamadas ou em podar as
plantas, precisamos marcar com um rótulo de gênero, para ter certeza de
que “homens de verdade” não usem o tipo “errado” de luvas de jardinagem,
ou que “mulheres de verdade” não usem por acidente o sabonete “Terapia
Muscular” para homens.
Em junho de 1986 eu estava em uma maternidade, tendo acabado de dar
à luz a Filha nº 2. Foi a noite em que Gary Lineker marcou três gols
consecutivos na Copa do Mundo; nove bebês nasceram naquela noite, oito
meninos e uma menina (a minha) e disseram que todos, exceto esta última,
chamavam-se Gary (bem que fiquei tentada). Eu trocava observações com
minha vizinha (não sobre futebol), quando tomamos consciência do que
parecia a aproximação de um trem a vapor, mais alto a cada segundo:
nossos bebês nos eram trazidos em carrinhos. Minha vizinha recebeu seu
pacote embrulhado em azul, com as palavras de aprovação: “Aqui está o
Gary. Um par de pulmões de rachar!” A enfermeira, em seguida, entregou-
me meu pacote, embrulhado em uma manta amarela (uma vitória feminista
inicial e de difícil conquista), com uma fungadela perceptível. “Aqui está a
sua. A mais barulhenta de todos. Não é bem uma mocinha!” Assim, à tenra
idade de dez minutos, minha filha minúscula teve seu primeiro encontro
com o mundo “dos gêneros” a que acabara de chegar.
O papel dos estereótipos é tamanho neste mundo que, se solicitados,
podemos inquestionavelmente gerar listas de quais pessoas (ou lugares, ou
países, ou empregos) são “parecidos”. E se compararmos os resultados de
um levantamento desses com aqueles gerados por nossos colegas ou
vizinhos, encontraremos um alto nível de consenso. Os estereótipos são
atalhos cognitivos, imagens em nossa cabeça que, quando encontramos
pessoas, situações ou acontecimentos, ou prevemos fazer isso, permitem
que nosso cérebro siga seu SMS preditivo e preencha os espaços para gerar
rapidamente um precedente útil que norteará nosso comportamento. Eles
fazem parte de nossos depósitos semânticos sociais e da memória social,
compartilhados com outros membros de nossa rede social real.
Voltemos ao final dos anos 1960, quando uma equipe de psicólogos
concebeu um questionário do estereótipo.[2] Eles pediram a universitários que relacionassem os comportamentos, as atitudes e as características de
personalidade que acreditavam ser típicas de homens ou de mulheres. As
características tipicamente femininas foram agrupadas sob um título, as
tipicamente masculinas, sob outro. Foram 41 itens em que houve pelo
menos 75% de consenso e estes foram designados por rótulos
estereotipados. Os itens “femininos” incluíam descrições de mulheres como
“dependentes”, “passivas” e “emotivas”, enquanto os homens eram
“agressivos”, “autoconfiantes”, “arrojados” e “independentes”. Este passou
a ser o Questionário de Estereótipo Rosenkrantz, que mediu a concordância
com os itens relacionados como um índice da extensão do pensamento
estereotipado dos participantes. Uma questão importante extra é que os
estudantes foram solicitados a classificar quais características pensavam ser
mais desejáveis socialmente; todos classificaram as características
masculinas como mais desejáveis.
Trinta anos depois da criação do levantamento, os itens originais do
questionário voltaram a ser testados.[3] Houve certa evidência de mudança
no pensamento estereotipado, com um número bem menor de itens
seguramente classificados como tipicamente masculinos ou femininos.
Qualquer coisa relacionada com viver ou expressar a emoção ainda era
firmemente feminina, mas a mulher típica não era mais classificada como
menos lógica, direta ou ambiciosa. O homem típico ainda era mais
agressivo, mais dominante e menos gentil. Houve uma mudança
significativa naquelas características femininas “novas” consideradas mais
socialmente desejáveis, levando os autores a especular que a “exposição das
pessoas a mulheres em uma gama muito ampliada de papéis” estava por trás
das mudanças nos estereótipos de gênero.
Porém, uma revisão independente sugeriu outra coisa.[4] Os
pesquisadores aqui compararam as respostas de um questionário de 1983,
que pedia a participantes que identificassem características masculinas-
femininas (semelhante ao estudo de Rosenkrantz), com respostas ao mesmo
questionário em 2014. A única mudança nas atitudes nos trinta anos que se
passaram dizia respeito aos comportamentos típicos das mulheres, em que
houve um aumento na estereotipia de gênero, e a única tarefa atribuída igualmente a homens e mulheres era “lidar com questões financeiras”.
“Atividade” ou ação ainda eram vistas como características essenciais
atribuídas a homens, abrangendo características como competência e
independência, enquanto “comunhão” ou formação de redes ainda eram
vistas como atributos essenciais femininos, associados com o calor humano
e cuidados com os outros; o mesmo conjunto de ocupações ainda era visto
como tipicamente masculino ou feminino (por exemplo, política X
assistente administrativo); e, talvez menos surpreendente, homens e
mulheres ainda eram diferenciados no mesmo conjunto de características
físicas (como altura e força). Assim, talvez tenha sido otimista demais o
relato inicial de que a estereotipia de gênero sucumbia a mudanças sociais.
Sugeriu-se que existiam dois importantes processos que podiam prever a
mudança nos estereótipos, ou sua estabilidade. Se os estereótipos de gênero
são baseados em observações em tempo real de homens e mulheres, então
as mudanças contínuas na sociedade deveriam induzir mudanças nos
estereótipos. Mas se os estereótipos são mais profundamente arraigados,
então não seriam alterados pelas mudanças na sociedade. Os estereótipos
podem ser mais firmemente incorporados na psique social pela operação de
processos como o “viés de confirmação”, em que mais provavelmente
valorizamos ou acreditamos em evidências que deem apoio às crenças que
já temos, ou até o backlash, em que há uma ênfase nas consequências
negativas de tentar superar estereótipos preexistentes.[5]
Como vimos, nosso cérebro social é uma espécie de coletor de regras,
procurando as leis de nossos sistemas sociais e as características
“essenciais” e “desejáveis” com que devemos capacitar nosso self para nos
encaixarmos em nossos endogrupos identificados. Isso inevitavelmente
incluirá informações estereotipadas sobre como são as “pessoas como nós”,
como devemos nos comportar, o que podemos e não podemos fazer. Parece
haver um limiar relativamente baixo ligado a este aspecto de nossa
identidade pessoal, na medida em que pode ser desencadeado ou sofrer
priming com muita facilidade. Já vimos como pode ser muito discreta a
manipulação que induz à reação de ameaça do estereótipo.[6] Você não
precisa de muitos lembretes de que é uma mulher de desempenho fraco para se tornar uma mulher de desempenho fraco. Ou mesmo só de um lembrete
de que você é mulher, com seu self fazendo o resto. Isto é demonstrado até
em meninas de quatro anos, em que se associa colorir a imagem de uma
menina brincando de boneca com um desempenho mais fraco nos testes de
cognição espacial.[7]
As redes cerebrais associadas com o processamento e o armazenamento
de rótulos sociais são diferentes daquelas associadas com o processamento
e o armazenamento de itens mais do tipo conhecimentos gerais.[8] E as
redes de processamento de estereótipo se sobrepõem àquelas associadas
com o processamento do self e a identidade social. Assim, as tentativas de
desafiar os estereótipos, em particular aquelas relacionadas com um
autoconceito (“Sou um homem, portanto...”; “Sou uma mulher,
portanto...”), acarretarão mais do que um ajuste rápido para uma reserva de
conhecimentos gerais, apesar de bem fundamentada. Crenças como estas
são profundamente incorporadas em um processo de socialização que está
no cerne de ser um humano.
Alguns estereótipos têm seu próprio sistema de reforço embutido que,
depois de desencadeado, impelirá o comportamento atribuído à
característica estereotipada. Por exemplo, pensem no efeito da ameaça do
estereótipo sobre o desempenho espacial, em que o desempenho em uma
tarefa de rotação mental pode ser alterado quando se invoca um estereótipo
positivo ou negativo.[9] Como veremos adiante, estereotipar os brinquedos
que são “para meninas” ou “para meninos” pode afetar a gama de
habilidades que eles adquirem; as meninas que pensam que Lego é para
meninos são mais lentas nas tarefas baseadas em construção.[10]
E às vezes os estereótipos podem servir como uma forma de gancho ou
bode expiatório cognitivo, em que o fraco desempenho ou a falta de
capacidade podem ser atribuídos exatamente ao déficit característico deles.
Por exemplo, a síndrome pré-menstrual tem sido usada para explicar ou ser
a culpada de acontecimentos que podem igualmente ser atribuídos a outros
fatores, como vimos no Capítulo 2. Um estudo mostrou que era provável
que as mulheres culpassem seus problemas biológicos relacionados com a menstruação pelo estado de espírito negativo, mesmo quando fatores
situacionais podiam ser igualmente a origem das dificuldades.[11]
Alguns estereótipos são proscritores e descritivos: assim como enfatizam
aspectos negativos de capacidade ou temperamento, parecem “impor a lei”
sobre que atividade é adequada ou inadequada para a pessoa que está sujeita
a seus mandamentos. De forma mais significava, eles reforçam sinais
persistentes de que um grupo é melhor do que outro em atividades
importantes, que existem coisas que integrantes de um grupo simplesmente
“não podem” fazer e devem evitar, um ângulo “superior/inferior”. O
estereótipo de que as mulheres não sabem fazer ciência implica que elas
não fazem ciência, deixando a ciência como uma instituição masculina,
cheia de cientistas homens (ajudados por algum gatekeeping muito
determinado). Os estereótipos de hoje são mais sutis do que o rótulo do
gorila-de-duas-cabeças, mas, como detalhou Angela Saini em seu livro
Inferior, existem muitos exemplos de como “a saúde das mulheres, seu
trabalho e seu comportamento, do nascimento à velhice, têm sido
caracterizados como menos adaptativos ou menos socialmente úteis do que
nos homens”.[12]
Isto faz eco a um estudo de 1970, em que apareceram psicólogos clínicos
(homens e mulheres) traçando uma distinção clara entre as características
de um adulto típico e saudável e aquelas de uma mulher típica e saudável. O
que é mais preocupante, as características que relacionaram como
tipicamente femininas (dependente, submissa) não eram características de
uma pessoa que eles pudessem considerar psicologicamente saudável. A
conclusão deles traça um retrato arrepiante de uma vida de baixas
expectativas: “Assim, para que uma mulher seja saudável do ponto de vista
do ajuste, ela deve se adaptar e aceitar as normas comportamentais para seu
sexo, embora estes comportamentos sejam menos socialmente desejáveis e
considerados menos saudáveis para o adulto maduro e competente de modo
geral.”[13]
No ano passado, um levantamento da organização de caridade
Girlguiding do Reino Unido relatou que meninas, já aos sete anos, sentiam-
se enclausuradas pela estereotipia de gênero.[14] Em um levantamento de cerca de 2 mil crianças, descobriram que quase 50% sentiam que era
reduzida sua disposição de falar alto e participar na escola. Um
comentarista do levantamento observou: “Ensinamos as meninas que
agradar aos outros é a virtude mais importante e que ser bem-comportada
depende de ser calada e delicada.”[15] Está claro que estes estereótipos não
são inofensivos, mas têm verdadeiro impacto nas meninas (e nos meninos)
e nas decisões que elas tomarão sobre sua vida. Devemos lembrar que o
cérebro social em desenvolvimento de nossas crianças sempre estará em
busca de regras e expectativas que acompanham ser um membro de uma
rede social real. Está claro que os estereótipos de gênero/sexo dão diretrizes
muito diferentes a meninas e meninos, e que aquelas que são apresentadas a
nossas pequenas mulheres não parecem lhes dar uma jornada desimpedida e
confiante para os possíveis pináculos da realização.
Detetives mirins de gênero
Em vista do bombardeio de gênero incansável da mídia cultural e das redes
sociais virtuais evidente no século XXI, é provável que os estereótipos
associados tenham priming e incorporação mais frequente em nossa
compreensão das “exigências” sociais do gênero com que nos
identificamos. Estatísticas alarmantes indicam que crianças muito novas
têm pronto acesso a estas fontes de informação generificadas; 21% de
crianças de três anos ficam on-line diariamente e 28% das crianças de três a
quatro anos são expostas a tablets.[16] Nos Estados Unidos, os dados de
2013 indicam que 80% das crianças de dois a quatro anos usam dispositivos
móveis, quando em 2011 eram 39%.[17]
Assim, a “codificação de gênero” ou a “sinalização de gênero” faz parte
do mundo em que está imerso o cérebro ávido por informações de nossos
pequenos humanos, desde o primeiríssimo dia. E será que nossos bebês e
crianças captam mensagens como estas? Estarão elas prestando atenção a brinquedos codificados por cores, brincadeiras divididas por gênero e quem
pode brincar na casinha infantil? Pode apostar que sim!
Há muito tempo sabemos que até crianças muito novas são detetives
ávidas de gênero, procurando ativamente pistas sobre gênero, quem faz o
quê, quem pode brincar com quem e com o quê. Psicólogos do
desenvolvimento, monitorando o uso da linguagem generificada em
crianças novas, observando-as brincar ou pedindo que classifiquem imagens
ou objetos como “coisas de meninos” ou “coisas de meninas”, relataram
que as crianças, já aos quatro ou cinco anos, tinham uma consciência bem
desenvolvida das diferenças entre homens e mulheres, não só em termos de
sua aparência e do que normalmente vestiam, mas também da ligação
destas diferenças às coisas que as pessoas podem fazer: os homens eram
bombeiros, as mulheres eram enfermeiras; os homens faziam o churrasco e
aparavam a grama, as mulheres lavavam os pratos e a roupa. E elas também
sabiam rotular objetos cotidianos como masculinos (martelo) ou femininos
(batom), e brinquedos como “de meninos” ou “de meninas”.[18]
Mas será que nossos detetives mirins de gênero começam a entender
essas diferenças ainda mais cedo do que suspeitávamos? Supunha-se que
esse tipo de habilidade social surgia depois que uma criança aprendia a falar
e socializar. De todo modo, era difícil testar até que ponto crianças muito
novas podiam desenvolver “esquemas” precoces de gênero, redes de
informações conectadas sobre homens e mulheres. Mas depois de aplicadas
a esta questão as técnicas de “observação de bebês” descritas nos capítulos
anteriores, a sofisticação precoce que vimos em nossos minimagistrados e
cientistas bebês ficou evidente aqui também.
Uma regra muito precoce que nossos “aprendizes profundos” minúsculos
captam é a das ligações entre as principais diferenças físicas em homens e
mulheres – que existem vozes agudas e graves, e que isto em geral combina
com diferentes tipos de rostos. Segundo um paradigma de olhar
preferencial, crianças de seis meses olharão por mais tempo para vozes
agudas combinadas com rostos masculinos, ou vozes graves combinadas
com rostos femininos, mostrando que foi violado seu precedente
perfeitamente estabelecido de quem tem voz aguda e voz grave. Assim, bem cedo, os pequenos humanos notam que em geral existem dois grupos
de pessoas que podem distinguir de modo fiável.[19]
O surgimento da linguagem nos dá insights claros da atividade de coleta
de pistas de nossos detetives mirins do gênero. Usar rótulos específicos de
gênero, como “menina” em vez de “criança”, parece muito precoce na linha
do tempo do desenvolvimento da linguagem. Uma equipe de psicólogos de
Nova York identificou a emergência destes rótulos em um grupo de crianças
com idade entre nove e 21 meses e descobriu que havia pouca evidência de
rotulação de gênero antes dos 17 meses, mas aos 21 meses a maioria das
crianças usava apropriadamente múltiplos rótulos como “homem”,
“menina” e “menino”. E isto incluía a rotulação de si mesmos (“eu
garotinha”), bem como a rotulação de pessoas e coisas no mundo que as
cercava.[20]
Os pesquisadores também notaram que as meninas produziam estes
rótulos antes dos meninos. Eles propuseram a socialização como uma
possível explicação para isto, observando que roupas e enfeites “de menina”
eram mais peculiares (o fenômeno “PFD” – que você saberá que significa
“pink frilly dress”, o “vestidinho rosa de babados”) e, assim, que as
meninas recebem pistas visuais precoces sobre quais indivíduos são
mulheres e o que essas mulheres devem vestir. Um estudo posterior de
alguns integrantes desta equipe mostrou que era muito mais provável que
meninas de três a quatro anos passassem por uma fase de “rigidez de
gênero” em sua aparência, mostrando oposição implacável a vestir qualquer
coisa diferente de saias, tutus, sapatilhas de balé e, sim, vestidinhos rosa de
babados.[21]
E as pistas que nossas jovens detetives estão captando não são só a
respeito delas mesmas. As crianças mostram um nível surpreendentemente
precoce também de conhecimento geral de gêneros, rotulando objetos ou
acontecimentos no mundo como “apropriados para o gênero”. Mostre a uma
criança de 24 meses a foto de um homem passando batom ou uma mulher
colocando uma gravata e certamente você chamará a atenção dela.[22]
Junto com a capacidade de reconhecer com precisão as diferentes
categorias de gênero e suas características associadas, as crianças parecem fortemente motivadas a se encaixar com as preferências e atividades de seu
próprio sexo, como a pesquisa PFD já indicou. Depois que elas entendem a
que grupo pertencem, podem se tornar bem rígidas nas escolhas que fazem
sobre com quem e de que querem brincar. Elas também podem ser bem
impiedosas com a exclusão de quem não pertence a seu grupo; muito
parecidas com membros recém-iniciados em uma sociedade exclusiva, elas
garantem que seguirão servilmente as regras e são severas na garantia de
que os outros também as obedeçam. Elas darão declarações muito firmes
sobre o que meninas e meninos podem e não podem fazer, às vezes parecem
ignorar deliberadamente contra-exemplos (uma amiga minha cirurgiã
pediatra ouviu do filho de quatro anos a certeza de que “só os meninos
podem ser médicos”) e expressar surpresa quando lhes mostram exemplos,
como mulheres que são pilotas de caça, mecânicas de automóveis ou
bombeiras.[23] Até cerca de sete anos, as crianças são muito inflexíveis em
suas crenças sobre características de gênero e seguirão obedientemente a
rota montada para elas por seu satélite de navegação de gênero.
Mais tarde, pode parecer que as crianças aceitam mais as exceções a
regras de gênero sobre quem é ou não melhor em determinada atividade,
mas isto pode mostrar, de forma preocupante, que suas crenças podem
simplesmente ter “entrado na clandestinidade”. Por definição, estas crenças
“implícitas” são de difícil acesso, mas foram encontrados meios para tanto.
Isto foi demonstrado por uma versão da tarefa Stroop que conhecemos no
Capítulo 6. Se você se recorda, se a palavra “verde” é escrita em verde,
podemos nomear a cor escrita com muita rapidez. Se, entretanto, a palavra
“verde” é escrita em vermelho, nossa velocidade se reduz drasticamente.
Isto é uma medida do efeito de interferência causado por um descompasso
entre os diferentes tipos de informações que processamos. Em uma versão
auditiva astuta deste teste, os ouvintes têm de identificar o sexo da pessoa
que diz determinadas palavras, algumas estereotipadamente masculinas
(futebol, rude, soldado) ou femininas (batom, maquiagem, cor-de-rosa).
Crianças já aos oito anos foram muito, mas muito mais lentas e cometeram
muito mais erros quando ouviram “descompassos” (como uma voz
masculina dizendo “batom” ou uma voz feminina dizendo “futebol”).[24] Portanto, em sua breve vida, parece que as crianças novas já geraram algum
mapa internalizado das coisas associadas com ser homem ou mulher, que
talvez as esteja guiando subliminarmente para pontos finais
predeterminados.
Nossos detetives mirins rapidamente estão descobrindo sobre
estereótipos de gênero, aqueles atalhos cognitivos ou “imagens em nossa
cabeça” que reúnem em dois pacotes separados muitas características
supostamente específicas de gênero, com rótulos de conteúdo bem
diferentes.
Rosificação
Se existe uma coisa que caracteriza a sinalização social das diferenças
sexuais no século XXI é a ênfase maior em “rosa para meninas e azul para
meninos”, com a “rosificação” das meninas talvez trazendo a mensagem
mais estridente. Roupas, brinquedos, cartões de aniversário, papel de
presente, convites para festas, computadores, telefones, camas, bicicletas –
escolham o que quiserem, o pessoal de marketing parece preparado para
“rosificar” tudo. O “problema do rosa”, agora com muita frequência com
uma forte ajuda da “princesa” na mistura, tem sido tema de uma discussão
preocupada mais ou menos na última década.[25] A jornalista e escritora
Peggy Orenstein comentou sobre isso em seu livro de 2011, Cinderella Ate
My Daughter: Dispatches from the Front Lines of the New Girlie-Firl
Culture, notando que havia mais de 25 mil produtos da Princesa da Disney
no mercado.[26] O tema desta rosificação galopante foi aberta e
frequentemente criticado, em livros como este e muitos outros, assim, achei
que eu não precisaria cobrir de novo a questão do rosa. Mas, infelizmente
para todos nós, este é outro problema Acerte a Toupeira e mostra evidências
de que não vai sumir tão cedo.
Para uma palestra que dei recentemente, eu explorava a internet em
busca de exemplos daqueles cartões cor-de-rosa pavorosos de “É uma Menina” quando me deparei com algo ainda mais medonho e meu queixo
caiu: festas de revelação de gênero ou o “chá-revelação”.[27] Se você ainda
não ouviu falar nisso, são algo assim: lá pela vigésima semana de gestação,
em geral é possível saber o sexo da criança esperada por um exame de
ultrassonografia e, assim, aparentemente, desencadeia-se a necessidade de
dar uma festa cara. Existem duas versões e ambas são o sonho de consumo
do marketing. Na versão 1, você decide continuar na ignorância e instrui o
pessoal técnico da ultrassonografia a colocar a notícia empolgante em um
envelope lacrado e mandar à organização escolhida para sua festa de chá-
revelação. Na versão 2, você mesma descobre, mas decide dar a notícia na
festa. Você então convoca familiares e amigos para o evento por meio de
convites que trazem uma pergunta como “Um saltitante ‘ele’ ou uma
lindinha ‘ela’?”, “Pistolas ou Purpurina?”, ou “Fuzil ou Fofoca?”. Na festa
em si, você pode ser confrontada com um bolo com cobertura branca que
pode ser cortado e revelar o recheio azul ou rosa (ele também pode ser
decorado com as palavras “Gatinho ou Gatinha, corte para saber”).
Ou pode ser uma caixa lacrada que, quando aberta, libertará uma frota de
balões cheios de hélio, cor-de-rosa ou azuis; uma roupa embrulhada da loja
para bebês mais próxima que será aberta e revelará a criação rosa ou azul
em que você meterá sua criança recém-nascida; até uma piñata que você e
seus convidados podem martelar até que solte uma enxurrada de guloseimas
cor-de-rosa ou azuis. Existem jogos de adivinhação que parecem envolver
patos (“Waddle it be?”, corruptela de “What will it be?”, “O que será?”) ou
abelhas de brinquedo (“What will it bee?”), ou algum tipo de rifa em que,
ao chegar, coloca-se o nome do convidado em um pote e quem vencer
ganha um prêmio após feita a revelação. Ou (o preferido daqueles de pior
gosto) você recebe um cubo de gelo contendo um bebê de plástico e, em
uma corrida de “minha bolsa estourou”, tenta encontrar o meio mais rápido
de derreter seu cubo para revelar se o bebê é cor-de-rosa ou azul. Caso você
pense que estou inventando tudo isso, aqui está uma citação direta de um
site que aconselha como dar uma dessas festas: “Seja simples com
coquetéis, velas, pratos, copos, guardanapos, tudo em rosa e azul – escolha
o objeto que quiser. (Eu até coloquei toalhas cor-de-rosa e azul para os convidados no banheiro!) Em lugar de uma tigela de Doces, tenha uma
Tigela da Revelação.”[28]
Então, vinte semanas antes de os pequenos humanos chegarem, talvez o
mundo já os esteja metendo firmemente em uma caixa cor-de-rosa ou azul.
E está claro, por vídeos no YouTube (sim, fiquei obcecada), que, em alguns
casos, valores diferentes são ligados à rosice ou azulzice da notícia. Alguns
vídeos mostram irmãos assistindo à empolgação da “revelação” e não é
difícil se perguntar o que as três irmãzinhas entendem dos gritos de “Até
que enfim!” que acompanharam a cascata de confete azul. Só uma
diversãozinha inofensiva, talvez, e um triunfo do marketing, certamente,
mas é também uma medida da importância que está ligada a esses rótulos
de “menina”/“menino”.
Até as tentativas de nivelar o campo de jogo atolaram na maré cor-de-
rosa – a Mattel produziu uma Barbie STEM para estimular o interesse das
meninas em tornarem-se cientistas. E o que a nossa Barbie Engenheira sabe
construir? Uma máquina de lavar cor-de-rosa, um guarda-roupa giratório
cor-de-rosa e um carrossel cor-de-rosa para joias.[29]
Talvez você esteja se perguntando por que afinal isso tudo importa.[30]
Tudo se resume ao debate se a rosificação sinaliza uma divisão biológica
natural (fixa, programada, sem sofrer interferências) ou reflete um
mecanismo de codificação socialmente construído (possivelmente
associado com necessidades sociais do passado, mas com o potencial de ser
reconstruído à luz das exigências sociais cambiantes). Se isto for de fato o
sinal de um imperativo biológico, então talvez deva ser respeitado e
apoiado. Se estivermos olhando uma criação social, precisamos saber se a
codificação binária associada ainda serve bem aos dois grupos (se é que um
dia serviu). Além da sinalização de gênero garantir que os homens não
usem sem querer sabonete líquido de lavanda e camomila, o cérebro
viajante de nossas meninas foi ajudado a ser afastado de brinquedos de
construção e livros de aventura, e as contrapartes dos meninos de jogos de
panelas e casas de bonecas?
Talvez devamos verificar primeiro se o poder da maré cor-de-rosa tem
alguma base biológica. Como dissemos no Capítulo 3, uma preferência feminina pelo rosa já foi colocada em termos evolutivos. Em 2007, uma
equipe de cientistas visionários sugeriu que suas descobertas desta
preferência estavam relacionadas a uma necessidade muito antiga de as
fêmeas da espécie serem eficazes “coletoras de frutas”.[31] A reatividade ao
rosa “facilitaria a identificação de frutas maduras e amarelas ou folhas
vermelhas comestíveis integradas na folhagem verde”. Uma extensão disso
foi a sugestão de que a rosificação também é a base da empatia – auxiliando
nossas cuidadoras a captar aquelas mudanças sutis no tom da pele que
correspondem a estados emocionais. Tendo em mente que o estudo,
realizado em adultos, usou uma tarefa de escolha simples e forçada
envolvendo retângulos coloridos,* este é um acorde esticado, mas
claramente tangido, com a mídia, que aclamou de modos variados as
descobertas como prova de que as mulheres eram “programadas para
preferir o rosa” ou que “garotas modernas nascem para se decidir pelo
rosa”.[32]
Porém, três anos depois, a mesma equipe realizou um estudo semelhante
em bebês de quatro a cinco meses, usando os movimentos oculares como
medida de sua preferência pelos mesmos retângulos coloridos.[33] Não
descobriram nenhuma evidência de diferenças sexuais, com todas as
crianças preferindo a ponta vermelha do espectro. Esta descoberta não foi
acompanhada do alvoroço da mídia que recebeu a primeira. O estudo com
adultos foi citado quase trezentas vezes como apoio à ideia das
“predisposições biológicas”. O estudo com bebês, em que não encontraram
diferenças sexuais, foi citado menos de cinquenta vezes.
Os pais e mães exclamarão que deve haver algo fundamental nesta
preferência por rosa quando eles descobrem que tudo é varrido pela maré da
princesa cor-de-rosa mencionada anteriormente, apesar de seus esforços na
“criação com gênero neutro” de suas filhas. Crianças já aos três anos
atribuirão gêneros a animais de brinquedo com base na cor; rosa e roxo são
para animais meninas e azul e marrom para animais meninos.[34]
Certamente deve haver um motor biológico por trás do surgimento de uma
preferência assim tão cedo e tão determinada, não?
Mas um estudo revelador das psicólogas americanas Vanessa LoBlue e
Judy DeLoache acompanhou mais atentamente com que precocidade surgia
esta preferência.[35] Quase duzentas crianças, com idades entre sete meses e
cinco anos, receberam pares de objetos, um dos quais era sempre rosa. O
resultado foi claro: até mais ou menos os dois anos, nem meninos nem
meninas tinham alguma preferência pelo rosa. Depois deste ponto, porém,
houve uma mudança drástica, com as meninas mostrando um entusiasmo
acima do acaso por objetos cor-de-rosa, enquanto os meninos os rejeitavam
ativamente. Isto ficou mais acentuado a partir dos três anos de idade. E
coincide com a descoberta de que depois que as crianças aprendem os
rótulos de gênero, seu comportamento se altera para se encaixar no
portfólio de dicas sobre gêneros e suas diferenças, que aos poucos elas estão
reunindo.[36]
Como sabemos, os cérebros fazem “aprendizagem profunda”, são
ansiosos para entender as regras e evitar “erros de previsão”. Portanto, se a
dona do cérebro e sua identidade de gênero recém-adquirida se aventuram
em um mundo cheio de poderosas mensagens cor-de-rosa solicitamente
sinalizando o que elas podem ou não fazer, o que podem vestir ou não,
então seria necessário um projeto de redirecionamento verdadeiramente
imperioso para desviar esta maré. Assim, podemos estar vendo um processo
baseado no cérebro, mas que foi desencadeado pelo mundo em que o
cérebro se encontra.
E a evidência de uma divisão rosa-azul ser um mecanismo de
codificação culturalmente determinado? Por que (e quando) o rosa passou a
ser ligado com meninas e o azul a meninos tem sido questão de debate
acadêmico bem fervoroso. Um lado alegou que antigamente era o contrário
e que, até os anos 1940, o azul era visto como a cor adequada para meninas,
possivelmente devido a sua ligação com a Virgem Maria.[37] Esta ideia foi
criticada pelo psicólogo Marco Del Giudice, que, depois de uma pesquisa
detalhada no arquivo por meio do Google Books Ngram Viewer, alegou
encontrar poucas evidências da defesa azul-para-meninas/rosa-para-
meninos. Ele batizou isto de a Pink-Blue Reversal (“Reviravolta Rosa-Azul”) e, naturalmente, seguiu-se um acrônimo (PBR); ele até o premiou
com o status de “lenda urbana científica”.[38]
Mas a evidência por algum tipo de universalidade cultural para o rosa
como uma cor feminina não tem essa força toda. Os exemplos da própria
revisão de Del Giudice sugerem que qualquer codificação por cores
relacionada com gênero estava estabelecida mais de cem anos atrás e parece
variar com a moda, ou depender de a pessoa ler o New York Times em 1893
(“Elegância para Bebês: Ah, rosa para um menino e azul para uma
menina”) ou o Los Angeles Times do mesmo ano (“A última moda para o
quarto do bebê é uma rede de seda para o novo neném [...]. A rede recebe
primeiro uma manta xadrez de seda, rosa para uma menina, azul para um
menino”). Para aumentar a confusão, o El Paso Herald publicou esta carta
em 1914: “Prezada srta. Fairfax: Pode, por gentileza, me dizer a cor usada
para meninos? Mãe Ansiosa.” O que levou a esta resposta: “O rosa é para
os meninos. Azul para as meninas. Antigamente era o contrário, mas este
arranjo parece mais adequado.” Não é uma mensagem com alguma
coerência (e infelizmente na época não existiam psicólogos por aí para
verificar alguma combinação do fenômeno do Vestidinho Azul de Babados).
Assim, o júri ainda não se decidiu sobre esta reformulação da divisão
natureza-criação em termos da origem biológica X social da rosificação.
Aqueles que contestam a ideia de que existe alguma ligação essencial entre
meninas e cor-de-rosa podem se ver seriamente sob um tiroteio. Um artigo
de Jon Henley no Guardian em 2009 conta a história de duas irmãs que
começaram a campanha Pink Stinks (“Rosa é horrível”), realçando a cultura
de consumo que escorava estereótipos prejudiciais. Em resposta, uma
sugestão nos comentários do artigo era de que as irmãs vestissem camisetas
dizendo “Sou uma comunista de esquerda maluca tentando fazer lavagem
cerebral nas meninas”.[39]
Em relação à compreensão do significado da rosificação para nossos
cérebros viajantes, a questão principal, naturalmente, não é o rosa em si,
mas o que ele representa. O rosa se tornou um sinal ou significante cultural,
um código para determinada marca: Ser uma Menina. A questão é que este
código também pode ser um “limitador de segregação de gênero”, canalizando seu público-alvo (as meninas) para um pacote
extraordinariamente limitado e limitante de expectativas e, além disso,
excluindo o público não alvo (os meninos). Tricia Lowther, da campanha
Let Toys Be Toys (“Que os brinquedos sejam só brinquedos”), observa que
os brinquedos que agora são codificados com rosa-para-meninas são quase
universalmente associados com a vestimenta (enfatizando, assim, a
importância da aparência), ou com atividades domésticas, como cozinhar ou
passar o aspirador, ou cuidar de filhotinhos fofos ou bonecas. Não há
nenhum problema nisso, mas também significa que essas princesinhas não
estão brincando com criativos blocos de armar nem têm aventuras como
super-heroínas.[40]
“Agentes de socialização”, como a famosa Barbie, podem transmitir a
meninas mensagens limitantes para a carreira profissional. Aurora Sherman
e Eileen Zurbriggen mostraram que as meninas que brincavam com bonecas
“Barbie Fashion” tinham uma probabilidade menor de escolher carreiras
dominadas pelos homens como possibilidades para elas mesmas, como
bombeira, policial, pilota, do que as meninas que usavam brinquedos mais
neutros (e os dois grupos de meninas mostraram aspirações profissionais
bem baixas, de todo modo).[41]
Paradoxalmente (e para fazer justiça ao outro lado da discussão), às
vezes o rosa parece servir como uma assinatura social que “dá permissão”
para as meninas se envolverem com o que seria visto como um domínio dos
meninos. Mas, conforme meu exemplo da Barbie STEM, a rosificação
também é ligada frequentemente com uma corrente paternalista, de que não
se pode conseguir que as mulheres se envolvam com as fortes emoções da
engenharia, ou da ciência, a não ser que as relacionemos com “aparência e
batom”, e o ideal é que sejam vistos por lentes – literalmente – cor-de-rosa.
Toy Story É claro que esta demarcação muito clara entre meninos e meninas,
codificada por cores desde o início, aplica-se aos brinquedos. O tipo de
brinquedo que as crianças usam pode ter efeitos significativos nas
habilidades que elas venham a desenvolver ou nos papéis que representarão,
assim, qualquer processo que estreite as escolhas para meninos ou meninas
deve ser visto com alarme.
Toda a questão da generificação de brinquedos e da contribuição disso
para sustentar os estereótipos tem sido o foco de muita preocupação nos
últimos anos, ao ponto em que a Casa Branca promoveu uma reunião
especial para discutir a questão em 2016.[42] Será que a escolha do
brinquedo pode ser uma trapaça para nossos cérebros viajantes? Ou eles já
foram colocados nesta rota antes do nascimento? A escolha dos brinquedos
reflete o que acontece no cérebro? Ou determina o que vai acontecer no
cérebro?
Os pesquisadores desta área podem ser muito firmes quanto ao status
quo neste aspecto do comportamento das crianças: “Meninas e meninos
diferem em suas preferências por brinquedos, como bonecas e caminhões.
Estas diferenças sexuais estão presentes na primeira infância, são vistas em
primatas não humanos e se relacionam, em parte, com a exposição pré-natal
a andrógenos.”[43] Esta declaração resume com perfeição os conjuntos de
crenças sobre a escolha de brinquedos na infância, assim, vamos explorar a
história dos brinquedos, quem brinca com o que e por que (e se isto importa
ou não) nestes termos.
A questão da preferência por brinquedos adquiriu o mesmo significado
do debate rosa-azul. Desde uma idade muito tenra, possivelmente já aos
dois meses, parece que meninos e meninas mostram preferências por
diferentes tipos de brinquedos. Podendo escolher, é mais provável que os
meninos procurem o caminhão ou a arma, enquanto as meninas podem ser
encontradas com bonecas e/ou jogos de panelas. Isto foi adotado como
prova para diferentes e variados argumentos. O campo essencialista,
apoiado pelo lobby do hormônio, alegaria que isto é um sinal de cérebros
organizados de forma diferente, seguindo suas vias canalizadas de forma
diferente; por exemplo, uma preferência precoce por brinquedos “espaciais” ou de armar é uma expressão de uma capacidade natural. O campo do
aprendizado social iria alegar que a preferência generificada por brinquedos
é o resultado da modelagem ou do reforço do comportamento das crianças
de formas adequadas para o gênero; isto pode surgir do comportamento dos
pais ou familiares ao presentearem ou pode ser o resultado de um poderoso
lobby de marketing que determina e manipula seu mercado-alvo. Um
campo cognitivo-construcionista apontaria para um esquema cognitivo
emergente em que identidades de gênero recentes agarram-se a objetos e
atividades que “pertencem” a seu próprio sexo, percorrendo o ambiente em
busca das regras de engajamento que especificam quem brinca com o quê.
Isto sugeriria uma ligação entre a emergência de rótulos de gênero e a
emergência da escolha generificada de brinquedos.[44]
Existem argumentos sobre as causas da preferência por brinquedos, o
que significam as preferências por brinquedos para aqueles que tentam
entender diferenças sexuais/de gênero, sejam essas pessoas os pais ou
neurocientistas cognitivos (ou ambos). Mas existem outros argumentos que
giram em torno das consequências dessa preferência. Se passarmos nossos
anos de formação brincando com bonecas e aparelhos de chá, será que isto
nos afastará das habilidades úteis que nos trazem brincar com kits de
construção ou brinquedos com alvos? Ou estas diferentes atividades podem
apenas reforçar nossas capacidades naturais, dando-nos oportunidades de
treinamento adequadas e talento aprimorado para o nicho ocupacional que
será nosso? Examinando particularmente o século XXI, se os brinquedos
que usamos trazem a mensagem de que a aparência, e com muita frequência
uma aparência sexualizada, é o fator definidor do grupo a que pertencemos,
será que existem diferentes consequências de usar brinquedos que dão a
possibilidade de ação heroica e aventura?[45] Com relação a nossa busca
nesta arena, poderia alguma dessas consequências da escolha precoce de
brinquedos ser encontrada não só no nível comportamental, mas também no
nível cerebral?
Como sempre, as questões de causas e consequências são enredadas. Se
a preferência por brinquedos “por gênero” é uma expressão de uma
realidade biologicamente determinada, então a interpretação tende a ser de que é inevitável e não devemos interferir, e que aqueles que a contestam
devem ser afastados com o mantra “Que os meninos sejam meninos e as
meninas sejam meninas” soando nos ouvidos. Especificamente para
pesquisadores, significaria que as diferenças sexuais na preferência por
brinquedos podem ser um indicador muito útil das mesmas diferenças na
biologia subjacente, uma autêntica ligação cérebro-comportamento. Por
outro lado, se a preferência generificada por brinquedos na verdade é uma
medida de diferentes informações ambientais, seria possível medir os
diversos impactos destas informações e, talvez mais importante, as
consequências de sua alteração.
Porém, antes de nos lançarmos nos prós e contras das várias teorias
ligadas à preferência por brinquedos, precisamos examinar as verdadeiras
características destas diferenças. Será uma diferença sólida, encontrada
seguramente em diferentes épocas, em diferentes culturas (ou mesmo só em
diferentes estudos de pesquisa)? Quem realmente decide o que é um
“brinquedo de menino” e o que é um “brinquedo de menina”? São as
crianças que brincam com eles, ou os adultos que os fornecem? Em outras
palavras, estamos examinando as preferências de quem?
“É claro que eu compraria
uma boneca para meu filho”
Entre os adultos, parece haver um consenso muito difundido do que
constituem brinquedos do tipo neutro, femininos ou masculinos. Em 2005,
Judith Blakemore e Renee Centers, psicólogas de Indiana, pediram a quase
trezentos universitários (191 mulheres, 101 homens) para classificar 126
brinquedos em categorias “adequado para meninos”, “adequado para
meninas” ou “adequado para ambos”.[46] Com base nestas classificações,
elas geraram cinco categorias: fortemente masculino, moderadamente
masculino, fortemente feminino, moderadamente feminino e neutro. É
interessante observar que houve um consenso quase universal entre homens e mulheres quanto aos gêneros dos brinquedos. Houve classificações
divergentes apenas quanto a nove dos brinquedos, com a diferença maior
relacionada a um carrinho de mão (classificado como fortemente masculino
pelos homens e moderadamente masculino pelas mulheres); da mesma
forma, houve alguma queda-de-braço a respeito de cavalos e hamsters de
brinquedo (classificados como moderadamente femininos pelos homens e
neutros pelas mulheres), mas não houve incidência intergênero. Assim,
pareceria que a “tipificação de brinquedos” é muito clara na mente dos
adultos. E as crianças, concordam com essas classificações? Será que todos
os meninos escolhem brinquedos de meninos e todas as meninas,
brinquedos de meninas? Para considerar isto, vejamos um estudo em
laboratório sobre a questão. Como em muitos outros exemplos que vimos,
que perguntas eram feitas, como eram feitas e como as respostas foram
interpretadas podem nos fazer parar para pensar nas alegações de que a
preferência por brinquedos é uma das diferenças sexuais mais sólidas que
os psicólogos já encontraram.
Brenda Todd, psicóloga da City University em Londres, pesquisa
brincadeiras de crianças. Seu grupo estava interessado na emergência de
preferências por brinquedos “tipificados por gênero”, assim, começaram
por um levantamento com 92 homens e 73 mulheres, com idades entre vinte
e setenta anos, para identificar como os adultos podem generificar
brinquedos, do mesmo modo que o estudo que já citamos.[47] Perguntaram
aos participantes que brinquedos vinham à mente quando pensavam em
uma garotinha ou em um garotinho. Para um menino, a resposta mais
comum foi “carro”, seguida por “caminhão” e “bola”. Para uma menina, foi
“boneca”, seguida por “equipamento de cozinha”. Os ursinhos de pelúcia
foram identificados como um brinquedo feminino, mas os pesquisadores
depois argumentaram que os meninos bebês também escolhiam ursinhos de
pelúcia, então decidiram propor um urso de pelúcia azul e outro rosa. (Você
pode refletir por que os pesquisadores, tendo identificado corretamente a
necessidade de obter alguma confirmação externa de como rotular os
brinquedos que testavam, decidiram ignorar as respostas que obtiveram. E,
além disso, jogar todo o cenário rosa-azul nessa mistura.) Todavia, na seleção final, uma boneca, um ursinho cor-de-rosa e uma panela receberam
rótulos “para meninas”, e os rótulos “para meninos” foram dados a um
ursinho azul, um carro, uma escavadeira e uma bola.
Depois que estes brinquedos rotulados por adultos são testados em
campo com crianças, será que todos os garotinhos servilmente querem o
carro/escavadeira/bola/ursinho de pelúcia azul? E todas as garotinhas
procuram a boneca/panela/ursinho de pelúcia rosa? Os brinquedos foram
dados a três grupos de crianças: um entre nove e 17 meses de idade
(identificados como a idade em que as crianças começam a se envolver em
brincadeiras independentes), outro na faixa dos 18 a 23 meses (quando as
crianças mostram sinais de aquisição de conhecimento de gênero) e um
terceiro na faixa entre 24 e 32 meses (quando as identidades de gênero se
tornam mais firmemente estabelecidas). O teste envolveu um cenário de
“brincadeira independente”, em que os brinquedos escolhidos foram
arrumados em um semicírculo, em que cada criança e uma pesquisadora
estimulava seus participantes a brincar com qualquer brinquedo que
quisessem. Um procedimento de codificação complexo deu uma medida da
escolha dos brinquedos.
Os meninos foram mais prestativos com as pesquisadoras na escolha de
“brinquedos para meninos”, mostrando um aumento estável, relacionado
com a idade, no tempo com que brincavam com o carro e a escavadeira. Se
você estiver (como deve estar) se perguntando o que aconteceu com o
ursinho de pelúcia azul e a bola, a equipe de pesquisa decidiu (a posteriori)
abandonar o primeiro porque “não houve diferença sexual significativa na
brincadeira”. Também decidiu abandonar o ursinho cor-de-rosa, porque as
crianças mais velhas não brincavam com ursinho nenhum. E depois
perceberam que havia um número desigual de brinquedos em suas duas
categorias, assim, abandonaram a bola (embora ela de fato tenha mostrado
uma diferença sexual, com os meninos brincando mais com ela do que as
meninas). Então, agora eram o carro e a escavadeira contra bonecas e
panelas. Como você se lembrará, foram os dois primeiros para cada grupo
no levantamento mencionado anteriormente. Deste modo, os dados
relatados agora eram apenas das escolhas entre os brinquedos mais estereotipados (sem brinquedos neutros ou menos fortemente divididos por
gênero para comparação). Na verdade, na seção de “depoimento” do relato
deste estudo, os pesquisadores alegaram que este era um ponto forte de seu
estudo, o resultado de uma “decisão tomada a fim de evitar a diluição de
diferenças sexuais dicotômicas na escolha de brinquedos pela introdução de
uma terceira opção”.[48]
Portanto, existe um elemento de profecia autorrealizável nas descobertas
relatadas de que, em todas as idades, os meninos brincavam por mais tempo
com os brinquedos que foram rotulados de “brinquedos de meninos”, e as
meninas com os “brinquedos de meninas”. É interessante observar que
houve uma pequena reviravolta no quadro geral. Para os meninos, um
aumento constante na brincadeira com brinquedos de meninos tinha
paralelo com uma redução na brincadeira com brinquedos de meninas, mas
a história foi diferente para as meninas. Embora as meninas mais novas
parecessem mais interessadas em brinquedos de meninas do que os meninos
em brinquedos de meninos, este interesse não se sustentou no grupo do
meio, em que houve uma queda no tempo despendido com brinquedos de
meninas. E as meninas mostraram um aumento no tempo com brinquedos
de meninos à medida que ficavam mais velhas. Os autores do estudo
interpretam prestativamente isto da seguinte maneira: “Embora inicialmente
as meninas preferissem mais brinquedos típicos de meninas, esta
preferência decresce a uma preferência meramente forte [o grifo é meu]”.
[49] Assim, embora os pesquisadores tenham admitido alegremente
aumentar as probabilidades com relação à rotulação de gênero dos
brinquedos que usaram, seus pequenos participantes não mostraram a
dicotomia clara que se poderia esperar. Em vista da ênfase colocada na
escolha do brinquedo como um forte indicador da natureza essencial das
diferenças de gênero, junto com a insistência contemporânea do lobby do
marketing de brinquedos generificados de que eles apenas refletem as
escolhas “naturais” de meninos e meninas,[50] este tipo de nuance em toda a
saga dos brinquedos deve receber mais atenção.
Talvez a questão possa ser resolvida por um recente artigo de pesquisa
que relata uma combinação de uma revisão sistemática e uma meta-análise de um leque de estudos nesta área, junto com uma análise dos efeitos das
principais variáveis, como a idade das crianças nos vários estudos, se os
pais estavam presentes ou não, até o grau de igualitarismo de gênero dos
vários países em que os estudos ocorreram. O artigo examinou 16 estudos
diferentes, envolvendo 27 grupos de crianças (787 meninos e 813 meninas)
no total.[51] Se alguma coisa pode confirmar a confiabilidade, a
universalidade e a estabilidade da preferência por brinquedos, quem sabe
não seja isto?
A conclusão geral foi de que os meninos brincavam com brinquedos
tipificados como masculinos mais do que as meninas, e as meninas com
brinquedos tipificados como femininos mais do que os meninos. Não havia
o efeito da presença de um adulto (controlando, assim, por fator “cutucão”),
o contexto do estudo (casa ou creche) ou a localização geográfica (assim,
parece valer para diferentes países). Mas não recebemos nenhum detalhe
sobre o que eram esses brinquedos ou quem decidia seu “gênero”. Os
autores desta revisão incluíram seu próprio estudo, aquele que acabamos de
ver, em que a tipificação de gênero dos brinquedos pode ser caracterizada
como bem menos objetiva do que se poderia esperar. Para ser justa, os
autores levantaram eles mesmos esta preocupação, observando, por
exemplo, que quebra-cabeças seriam classificados como “de menina” em
um estudo e neutro em outros. Nem nos deram nenhuma informação se as
crianças tinham irmãos e que brinquedos eram encontrados em seu
ambiente doméstico. Assim, não sabemos quem ou o que separou os
brinquedos em suas diferentes categorias, ou que experiência as crianças
tinham com eles (apesar de rotulados) antes de participar de um desses
estudos. Quando considerarem uma das conclusões gerais da revisão,
tenham em mente que “a uniformidade na descoberta de diferenças sexuais
nas preferências das crianças por brinquedos tipificados para seu próprio
gênero [o grifo é meu] indica a força deste fenômeno e a probabilidade de
que [ele] tenha uma origem biológica”.[52]
Também devemos pensar nas mensagens que nossos detetives mirins de
gênero estão captando sobre que brinquedos eles têm “permissão” de usar,
dado o pressuposto, nos estudos que examinamos antes, de que as crianças podem escolhê-los livremente. Mas esta rédea solta é simétrica? Meninas
procurando caminhões de brinquedo? Beleza! Meninos escolhendo um tutu
em uma caixa de fantasias? Peraí um minutinho.
Mesmo que exista uma mensagem patentemente igualitária, as crianças
são muito astutas para captar a verdade. Um estudo em pequena escala de
Nancy Freeman, especialista em formação de professores da Carolina do
Sul, ilustrou muito bem isto.[53] Pais de crianças de três a cinco anos foram
entrevistados sobre suas atitudes na criação dos filhos e solicitados a indicar
sua concordância ou discordância de declarações como “Um pai ou mãe
que pagaria aulas de balé para um filho homem está procurando
problemas”, ou “As meninas devem ser estimuladas a brincar com blocos
de construção e caminhões de brinquedo”. Os filhos, então, foram
solicitados a classificar uma pilha de brinquedos em brinquedos de meninos
ou de meninas e também a indicar quais brinquedos eles achavam que o pai
ou a mãe gostaria que eles usassem. Houve concordância quanto a quais
brinquedos eram o quê, divididos nas linhas generificadas previsíveis, com
uma concordância a mais da aprovação parental para usar brinquedos
correspondentes ao gênero: aparelhos de chá e tutus para as meninas; skates
e luvas de beisebol para os meninos (sim, algumas crianças tinham apenas
três anos). O ponto em que surgiu a desconexão foi que essas crianças
pequenas tinham uma compreensão muito clara do nível de aprovação que
receberiam por brincar com um brinquedo “intergênero”. Por exemplo, só
9% dos meninos de cinco anos pensavam que o pai aprovaria eles
escolherem uma boneca ou um aparelho de chá para brincar, enquanto 64%
dos pais alegaram que comprariam uma boneca para seu filho e 92% não
achavam má ideia aulas de balé para meninos. Com um cérebro catando
regras em busca de dicas de gênero, essas crianças ou tinham interpretado
mal a mensagem ou, como proclama Freeman no título do artigo, sabem
captar as “verdades ocultas”.
O que acontece se inventarmos propositalmente rótulos de brinquedos
“para meninos” e “para meninas”? Isto foi testado em outro grupo de
crianças de três a cinco anos, 15 meninos e 27 meninas.[54] Mostraram às
crianças uma forma para calçados, um quebra-nozes, um boleador de frutas e um espremedor de alho, ou rosa ou azul, com os objetos aleatoriamente
rotulados de “para meninas” e “para meninos”. Perguntaram às crianças o
quanto elas gostaram do brinquedo e quem pensavam que deveria brincar
com eles. Os meninos foram muito menos afetados pela cor ou pelos
rótulos, classificando-os como igualmente interessantes. As meninas,
porém, foram muito mais submissas ao rótulo de gênero em um nível,
rejeitando fortemente os brinquedos azuis de meninos e aprovando os
brinquedos cor-de-rosa de meninas. Mas elas também mostraram uma
mudança significativa na taxa de aprovação para os chamados brinquedos
de meninos se eram pintados de rosa, por exemplo, indicando nitidamente
que outras meninas podiam gostar do espremedor de alho “de menino”, se
fosse produzido em rosa. Os autores descrevem isso como um efeito de “dar
permissão às meninas”, em que o efeito do rótulo para meninos pode ser
contrabalançado por um banho de cor de menina. Que resultado dos sonhos
para a indústria do marketing!
Deste modo, pelo menos com relação aos brinquedos, as escolhas das
meninas parecem ser afetadas mais pelos sinais sociais, neste caso, rótulos
generificados verbais e de cor. Por que o mesmo não é válido para os
meninos – por que eles não ficaram igualmente entusiasmados com um
boleador de frutas “de menina”, se pudesse ser azul? Será possível que,
enquanto as meninas em geral são desestimuladas a brincar com brinquedos
de meninos e, de fato, podem de vez em quando ter permissão para escolher
um martelo ou outro (desde que tenha um cabo rosa claro, naturalmente), o
contrário não acontece, com provas de intervenção ativa, em particular dos
pais, se os meninos parecem preferir brincar com brinquedos de meninas?
Uma preocupação crescente no século XXI é o poder do marketing na
determinação da escolha dos brinquedos. Como sabemos que as crianças
são ansiosas para se encaixar em seu círculo social e que sempre estão
verificando as regras deste círculo, então elas reagirão fortemente a
mensagens sobre brinquedos “adequados para o gênero” (e, naturalmente,
sapatos e lancheiras e pijamas e bicicletas e camisetas e super-heróis e
mochilas escolares e papel de parede e fantasia de Dia das Bruxas e
adesivos e livros e colchas e kits de química e escovas de dente e raquetes de tênis – fiquem à vontade para acrescentar o produto inutilmente
generificado que quiserem!).
A extrema divisão dos brinquedos por gênero como um fenômeno
recente tem recebido muita atenção. Aqueles de nós que tivemos nossos
filhos nas décadas de 1980 e 90 sentem que o marketing dos brinquedos
para seus filhos é muito mais generificado do que na época. Mas, segundo
Elizabeth Sweet, que fez um estudo detalhado da história do marketing dos
brinquedos, pode ser assim porque vivíamos os efeitos da segunda onda do
feminismo naquela época.[55] Ela observa que havia evidências claras de
marketing de brinquedos divididos por gênero nos anos 1950, com um foco
em encaixar os pequenos humanos em seus papéis estereotipados –
limpadores de tapete de brinquedo e cozinhas para as meninas, kits de
construção e de ferramentas para os meninos. Entre as décadas de 1970 e
90, os estereótipos de gênero foram contestados muito mais ativamente e
isto se refletiu em brinquedos mais igualitários (o que podia, é claro, ser
uma boa notícia para quaisquer tentativas de reverter a tendência de
marketing de brinquedos generificados [GTM, ou gender toy trend]). Mas
isto parece ter sido eliminado nas décadas recentes, em parte, assim pensa
Sweet, devido à desregulamentação da televisão para crianças, de modo que
os programas infantis puderam ser comercializados e usados como
oportunidades de marketing, impulsionando a “necessidade” de Rainbow
Brite, She-Ra ou do próximo Power Ranger.
Campanhas populares como a Let Toys Be Toys refletiram uma
preocupação crescente com o possível poder dos brinquedos generificados,
em particular onde podem estar encorajando uma ênfase autoconstruída na
suprema importância da aparência física para as meninas. A pesquisa
sugeriu uma ligação entre os perigos deste tipo de perfeccionismo e os
problemas de saúde mental, como os distúrbios alimentares.[56] Além disso,
se as mensagens transmitidas por esses brinquedos estereotipados servem
para limitar as escolhas de qualquer dos dois gêneros, então elas são uma
fonte de estereotipia que podemos muito bem dispensar.
Deste modo, está claro que meninos e meninas brincam com brinquedos
diferentes. Mas uma pergunta a mais deve ser – por quê? Por que os meninos preferem caminhões e as meninas, bonecas? É porque eles
obedecem docilmente às regras sociais de suas famílias, das redes sociais
reais e da pressão dos magnatas do marketing? Sabemos que meninos e
meninas recebem diferentes brinquedos dos pais e que um armário de
brinquedos de menino provavelmente será diferente de um armário de
menina já aos cinco meses de idade. Assim, se procurarmos pelas regras do
engajamento, então a escolha dos brinquedos é fortemente sinalizada.
Nossos detetives mirins de gênero estão agudamente sintonizados com o
que se espera deles, e alegar que a escolha dos brinquedos é inevitável,
como a preferência pelo rosa, ignora o poder dos sinais sociais com que são
bombardeados nossos aprendizes profundos altamente sensíveis, desde uma
época extraordinariamente precoce na vida.
Mas talvez estes brinquedos estejam servindo a alguma necessidade
inata, alguma oportunidade de treinamento para garantir que você esteja
preparado para seu destino. Se os brinquedos estimulam o “ninar”, será que
você pode brincar de boneca, porque um motor primordial (um construtor
de precedente social) sabe que isto fará de você uma mãe melhor? Se sua
escolha de brinquedos é de um brinquedo de “manipulação”, será isto uma
reação a seu gene da “engenharia”?[57]
Voltamos às coletoras de frutas e aos caçadores que correm os olhos pelo
horizonte, talvez? Será que as regras sociais evoluíram para incorporar
brinquedos e assim garantir que homens e mulheres adquiram as
habilidades distintas e “apropriadas”, necessárias para os futuros papéis
sociais? Para examinar esta proposição, precisaríamos ver se existe algum
motor inato por trás da preferência pelos brinquedos. Precisaríamos
examinar a escolha de brinquedos em crianças muito novas, que
supostamente não foram expostas a influências socializantes, ou até em não
humanos, de novo com base no pressuposto de que não precisaríamos levar
em conta os fatores de socialização.
Aqueles macacos desgraçados
de novo, não
Os recém-nascidos não conseguem estender a mão e pegar nada. Eles são
reféns dos brinquedos que recebem de quem cuida deles. Essas pessoas
provavelmente terão suas próprias ideias sobre o que é adequado para seus
minúsculos encargos, mesmo que só para garantir que seja o brinquedo que
foi dado por quem esteja prestes a fazer uma visita.
Sabemos que a aparente preferência mostrada por meninos recém-
nascidos por móbiles e meninas por rostos foi refutada de modo geral e
nunca foi reproduzida. Gerianne Alexander, da UCLA, mediu o tempo e a
frequência do olhar em crianças de quatro a cinco meses que viam bonecas
e caminhões, com a medida de frequência sugerindo uma preferência das
meninas por bonecas.[58] Mas, como vimos anteriormente, já existem
provas de diferenças de gênero no ambiente de brincadeiras de bebês desde
os cinco meses, assim, é difícil extrair uma resposta definitiva à pergunta se
a preferência por brinquedos está presente desde o nascimento. Acrescente
alguns irmãos mais velhos na mistura, junto com avós ou babás conscientes
de gênero, e fica complicado ver como se pode obter provas desta
afirmação. Naturalmente, a ideia é de que os recém-nascidos supostamente
nos dão uma oportunidade de ver o comportamento pré-socialização,
embora aqueles chás-revelação de gênero sugiram que esses bebês não
estão entrando em um mundo isento de expectativas.
Mas existe (de novo, supostamente) outro jeito de descobrir que
brinquedos podem ser escolhidos por indivíduos “não socializados”.
Segundo minha experiência, sempre que se debate o “caráter inato” das
crianças em relação à preferência por brinquedos, a certa altura alguém
dirá: “Mas e os macacos?” Isto porque um atraente “mito do macaco”
acompanhado, em alguns casos, de um pequeno vídeo convincente, entrou
na consciência do público como prova de que as preferências por
brinquedos não são socialmente construídas, mas biologicamente baseadas.
Certa vez apareci em um programa matinal da Sky News depois de uma
alegação de que uma escassez de cuidadores pode ser “curada” deixando
que os meninos brinquem com bonecas.[59] Pediram-me para checar o áudio
justo quando o apresentador anunciou em meu fone de ouvido que eles
mostrariam o clip do macaco antes de meu aparecimento. Assim, em algum
lugar nos arquivos da Sky News, há uma gravação de minha exclamação
exasperada e pelo visto claramente audível: “Esses macacos desgraçados de
novo, não!”
Várias versões deste vídeo mostram macacos machos avidamente
pegando brinquedos com rodas, quase parecendo fazer “vrum vrum” com
eles, como os meninos pequenos fazem com os caminhões, enquanto suas
contrapartes fêmeas podem ser vistas aninhando brinquedos semelhantes a
bonecas. Como os macacos, segundo se alegou, não podem ter sido
expostos a processos de socialização de gênero, esta divisão “clara” entre
gêneros é prova de que a preferência por brinquedos é um reflexo de algum
viés biológico, uma expressão “natural” de predisposições baseadas em
gênero ou para “manusear” ou “aninhar”, com toda uma série de
consequências rio abaixo nas escolhas de estilo de vida e futuras profissões.
Existem dois estudos citados com frequência neste esforço de
desvencilhar “natureza” de “criação”. Um deles é da professora Melissa
Hines, agora diretora do Centro de Pesquisa do Desenvolvimento de Gênero
da Universidade de Cambridge.[60] Junto com Gerianne Alexander, ela
estudou a preferência por brinquedos em macacos vervet. Um grupo grande
de macacos (machos e fêmeas) recebeu seis diferentes brinquedos, um de
cada vez (uma viatura policial, uma bola, uma boneca, uma panela, um
livro ilustrado e um cachorro de pelúcia) e foi medido quanto tempo de
contato os macacos tiveram com cada brinquedo. As descobertas foram
depois relatadas em termos de categorias de gênero nos brinquedos, com a
viatura policial e a bola sendo consideradas “masculinas”, a boneca e a
panela “femininas” e os outros dois brinquedos, neutros. Esta generificação
obviamente foi em prol das pesquisadoras; os macacos, supomos, não
estavam familiarizados com o conceito de utensílios de cozinha – nem,
aliás, de viaturas policiais.
O que se descobriu foi que os macacos machos passavam mais tempo
com um dos brinquedos neutros (o cachorro) e períodos aproximadamente iguais com a bola e a viatura policial “masculinas” e a panela “feminina”.
As fêmeas passaram mais tempo com a panela e o cachorro, seguidos pela
boneca, com um tempo menor com a bola e a viatura policial. Assim, o
“gênero” dos macacos não estava bem alinhado com aqueles dos
brinquedos com que tiveram contato. Mas o resumo geral das descobertas,
embora estatisticamente correto, encobriu muito este fato, referindo-se a
simples comparações gerais que mostravam que as fêmeas passaram mais
tempo com os brinquedos femininos e os machos, com brinquedos
masculinos. Não se falou no vencedor geral, o cachorro de pelúcia de
gênero neutro, nem na atração dos machos pela panela.[61] O artigo também
continha imagens de uma fêmea com a boneca (embora não fosse o
brinquedo preferido de modo geral) e um macaco macho com a viatura
policial (de novo, não era o preferido deles). Quando os brinquedos foram
reagrupados por linhas sem gênero, se os brinquedos eram como animais
(cachorro, boneca) ou objetos (panela, pote, livro, carro), não foi encontrada
nenhuma diferença sexual na preferência dos macacos por brinquedos.
O segundo exemplo frequentemente sacado em defesa do campo da
“natureza” é um estudo posterior, desta vez com macacos rhesus,
envolvendo uma comparação mais simples, em que deram a eles a escolha
entre brinquedos de pelúcia (ou macios) e brinquedos com rodas.[62] Neste
caso, havia uma hipótese mais explícita sobre que preferência por
brinquedos podia ser demonstrada, visando a oportunidade de “manusear
ativamente” ou de “ninar”. Parece que as macacas não distinguiam muito
entre brinquedos de pelúcia ou com rodas, enquanto os machos mostraram
uma preferência acentuada, claramente desprezando os de pelúcia pela
chance de interagir com aqueles com rodas. Devemos observar que, embora
as fêmeas tenham manuseado menos os brinquedos com rodas do que os
machos (tocando neles em média 6,96 vezes, comparadas com as 9,77
vezes dos machos), houve uma sobreposição nas pontuações (um tamanho
do efeito moderado de 0,39). Também deve ser particularmente observado
que quase metade do grupo original de macacos machos e quase dois terços
das fêmeas não deram a mínima para os brinquedos, interagindo com eles
tão raramente que foram excluídos do estudo.
Para resumir os resultados, os autores declaram que “a magnitude de
preferência por brinquedos com rodas em detrimento de brinquedos de
pelúcia diferiu significativamente entre machos e fêmeas”.[63] Embora,
repito, isto seja estatisticamente verdadeiro, mascara o fato de que ambos
mostraram um nível muito semelhante de interesse pelos brinquedos com
rodas (e que, embora os machos tenham brincado menos com os de pelúcia,
houve uma variabilidade enorme neste efeito, e, assim, alguns machos
ficaram muito entusiasmados com os Ursinhos Pooh e as bonecas de pano).
Os autores desses estudos enfatizam fortemente que os macacos machos
“mostram mais interesse do que as fêmeas em brinquedos de meninos”.
Mas, como vimos, no primeiro estudo as diferenças refletiam o fato de que
as fêmeas vervet não ficaram assim tão interessadas nos brinquedos de
meninos (a viatura policial), enquanto no segundo estudo os machos rhesus
não preferiram o brinquedo de menina, mas as fêmeas ficaram muito felizes
com qualquer dos dois tipos (mas, em nome da total revelação, devemos
observar que um dos brinquedos com rodas era um carrinho de
supermercado).
A essa altura talvez você esteja revirando os olhos, o que é
compreensível, e pensando “chega de macacos!”. Mas esses macacos não
vão embora. Uma matéria no noticiário sobre se estimular meninos a
brincar com bonecas pode aumentar o número de cuidadores no Reino
Unido? Roda o vídeo dos “macacos com brinquedos”. O programa Horizon,
da BBC, que pergunta se seu cérebro é masculino ou feminino? É
imprescindível uma visita rápida com uma braçada de brinquedos a um
santuário de macacos. Em um debate entre Elizabeth Spelke e Stephen
Pinker sobre a aptidão natural (ou a falta dela) das mulheres para a ciência,
as descobertas dos macacos foi um dos exemplos citados por Pinker como
prova da base biológica das diferenças sexuais nas aptidões científicas.
Assim, nossa busca por claras preferências por brinquedos em indivíduos
pré-socializados, sejam humanos ou símios, ainda não revelou uma base
sólida para a sugestão de que esta é uma boa medida indicadora para
fundamentar as diferenças inatas de sexo/gênero. Então, em vez de olhar
para o lado da “escolha de brinquedos” desta equação biologia-igual-a-destino (vulgo bolinhas X caminhões), temos de examinar mais atentamente
o lado da biologia.
Furacões hormonais
A caçada por evidências de aspectos inatos de preferências por brinquedos
nos levou, até agora, a pesquisar bebês humanos e macacos. Uma terceira
linha dessa busca tem sido procurar os efeitos de hormônios pré-natais, em
particular a exposição pré-natal a andrógenos. Como vimos no Capítulo 2,
as alegações para os efeitos masculinizantes destes hormônios foram além
da mera determinação de genitais à configuração organizacional da
estrutura e da função cerebrais e, daí, ao comportamento.[64] Evidentemente
existe uma dificuldade ética na exploração do papel causal dos hormônios
em humanos pela manipulação de níveis hormonais e a observação dos
efeitos, assim, os pesquisadores se voltaram para fontes “naturais” destas
informações, em que fetos têm sido expostos a altos níveis de hormônios do
sexo oposto, como as meninas com hiperplasia adrenal congênita (HAC).
Essas meninas foram identificadas como uma oportunidade “ideal” de
investigar o poder das forças biológicas sobre as pressões sociais, ou,
naturalmente, o contrário. Será que essas meninas mostram que a exposição
a hormônios “masculinizantes” vencerá o impulso da sociedade para que
elas sejam “femininas”? As meninas HAC brincam de um jeito diferente, e
com brinquedos diferentes, de suas irmãs não afetadas pelo problema?
Estão surgindo evidências de que este aspecto de seu comportamento com
certeza parece menos fortemente generificado.[65]
Um estudo recente de Melissa Hines e sua equipe em Cambridge lançou
uma luz interessante sobre as contribuições potencialmente divergentes de
processos de desenvolvimento de base biológica e pressões da socialização.
[66] Ela examinou a escolha de brinquedos no contexto dos processos de
autossocialização, manipulando as dicas que podem dizer às crianças se um
brinquedo era para menina ou para menino, ou os rotulando como tais, ou permitindo que as crianças observassem as escolhas feitas por outras
mulheres e homens.
O estudo envolveu meninas e meninos HAC com idades entre quatro e
onze anos, junto com grupos controle correspondentes, meninos e meninas.
Os rótulos de gênero foram ligados a brinquedos neutros – um balão verde,
um balão prateado, um xilofone laranja e um xilofone amarelo. Disseram às
crianças que os balões e xilofones de uma cor eram para meninos e os
balões e xilofones de outra cor eram para meninas. Depois as crianças
tinham a chance de brincar com eles. O tempo que as crianças passaram
com cada um dos brinquedos foi cronometrado e depois disso as crianças
contaram aos pesquisadores qual dos dois balões e qual dos dois xilofones
elas mais gostaram.
As crianças também foram envolvidas em um protocolo de
“modelagem”. Observaram quatro mulheres adultas e quatro homens
adultos escolhendo um de 16 pares de objetos de gênero neutro (como uma
vaca de brinquedo ou um cavalo de brinquedo, uma caneta ou um lápis).
Em cada caso, os “modelos” femininos sempre escolhiam o mesmo de cada
par, com cada homem escolhendo o outro. As crianças depois foram
indagadas que objeto de cada um dos 16 pares elas preferiam.
As crianças-controle mostraram os efeitos esperados da rotulação e da
modelagem, com as meninas preferindo objetos rotulados para meninas e
brincando com eles, ou escolhendo aqueles objetos que tinham sido
escolhidos pelas mulheres adultas. E o mesmo se aplicou aos meninos. Mas
as meninas HAC mostraram um tempo de brincadeira significativamente
reduzido e uma preferência menor por aqueles brinquedos que foram
identificados como “de meninas”, ou pela rotulação, ou pela modelagem.
Hines e sua equipe interpretaram estas descobertas como um reflexo dos
efeitos hormonais sobre processos de autossocialização, especificamente
nas meninas. As preferências reduzidas exibidas pelas meninas HAC foram
consideradas um reflexo da suscetibilidade reduzida às pressões de
socialização que seriam indicadas por rotulação de brinquedos ou percepção
dos atos “correspondentes ao gênero” de adultos.
Isto complementa o estudo que vimos anteriormente, em que o efeito
intergênero específico da cor-de-rosa para meninas foi interpretado como
uma demonstração da maior conformidade delas para com as regras sociais,
interpretando a cor rosa de um brinquedo como “ter permissão” para adotá-
lo, mesmo que apenas temporariamente, como uma escolha adequada para
o gênero. Será que uma diferença sexual fundamental pode ser encontrada
em uma sensibilidade diferencial a regras sociais, um impulso maior para
obedecer a essas regras? Ou, quem sabe, isto reflete uma pressão de
socialização maior para a conformidade das meninas? Ou uma coisa está
enredada na outra? Guarde essa ideia – voltaremos a ela no Capítulo 12.
Este modelo proporciona uma importante reconsideração dos processos
simplistas e unidirecionais da organização cerebral e reconhece um papel
central de fatores externos (da mesma forma que a epigenética transformou
nossa compreensão da relação entre um projeto genético e o resultado
fenotípico). Isto nos dá uma perspectiva teórica muito mais flexível com
que interpretar as descobertas até agora e proporciona uma compreensão
não só de como a atividade hormonal atípica pode ser refletida no
comportamento relacionado com o gênero, mas também, antes de mais
nada, do surgimento deste comportamento.
As consequências da escolha do brinquedo
E se a escolha do brinquedo não for uma manifestação de um processo
predeterminado, parte de uma jornada a um ponto final adequado, mas, na
verdade, ele mesmo um determinante deste ponto final? Será que os
brinquedos com que você brinca, talvez impostos pelos agentes de um
mundo generificado, podem mesmo guiar a um determinado caminho – ou,
o que é mais preocupante, desviar dele?
Os meninos mostram evidências de habilidades superiores de
processamento visuoespaciais já aos quatro ou cinco anos de idade[67] e esta
capacidade parece ser a mais forte de todas as diferenças de gênero (muito
pequenas) que estivemos discutindo,[68] embora seja uma diferença que
mostra alguns sinais de diminuição e pode desaparecer inteiramente se a
testarmos de forma diferente.[69] Porém, como veremos, existe um foco
nesta capacidade em particular (ou na falta dela) como o motivo para a sub-
representação das mulheres em áreas científicas. Assim, se tivermos
esperança de que nossa garotinha cresça e se torne cientista, devemos
cuidar para que esta rota cerebral permaneça desimpedida.
Sabemos que partes específicas do cérebro estão envolvidas no
processamento espacial – mas experimentar as tarefas espaciais (que podem
envolver brinquedos de montar e videogames) mudam essas partes do
cérebro? A resposta é um firme “sim”, como vimos no Tetris e nas
atividades de malabarismo que examinamos no Capítulo 5 – a pesquisa
recente tem mostrado que o que eram diferenças sexuais aparentes na
cognição espacial na verdade se deviam a uma experiência com
videogames.[70] Quando os dados foram reavaliados com a experiência de
jogos como principal efeito, as diferenças foram muito mais fortes (e, o que
é interessante, não interagiram com diferenças sexuais, e, assim, as meninas
que jogam videogames tinham a mesma superioridade dos gamers
meninos).
As psicólogas Christine Shenouda e Judith Danovitch mostraram que os
blocos de Lego são também um participante neste debate, com uma
associação entre uma tarefa de montar com blocos de Lego e atitudes
estereotipadas para com meninas e com o que elas podem brincar.[71] Como
dissemos anteriormente neste capítulo, as meninas de quatro anos eram
significativamente mais lentas que outras na conclusão da tarefa se antes
fossem expostas a uma tarefa de “ativação de gênero” (colorir a imagem de
uma menina segurando uma boneca). Em outra experiência, depois de ler
uma história sobre uma criança sem gênero específico que ganhou uma
competição de blocos de montar, pediram às meninas para repetir a história,
e os pesquisadores observaram que pronome as crianças usavam quando se
referiam ao vencedor desta competição. Um pronome masculino foi usado
em quase três de cinco casos (59% das vezes), mais que o dobro da
frequência do neutro (27%) e nada menos que quatro vezes mais que um feminino (14%). Se meninas desta idade são afastadas de experiências úteis
com brinquedos de montar, então a existência desse tipo de sugestão
generificada merece atenção. Quando o treinamento em jogos como o Tetris
pode mostrar que altera drasticamente o cérebro e o comportamento
associado, a ausência de experiências assim é uma mudança de rumo séria
para nossos cérebros viajantes.
Estradas não percorridas
Existem fortes mensagens generificadas por aí afora, talvez mais potentes
do que nunca. A sinalização de gênero está em vigor mesmo antes que
nossos pequenos humanos cheguem, e suas primeiras experiências serão de
sinais codificados por cores sobre qual caminho está aberto para eles e
quais não estão, quais oportunidades de treinamento estarão disponíveis e
quais não estarão.
Exploramos os primeiríssimos pontos em que os cérebros encontram o
mundo. Vimos como são inesperadamente sofisticados os cérebros dos
bebês, em particular com relação às redes de adultos que fundamentam o
comportamento social – o radar do olhar, por exemplo, sintonizado desde
muito cedo nas nuances de quem é ou pode ser um outro significativo. Em
paralelo, testemunhamos a compreensão extraordinariamente avançada das
regras do engajamento social mostradas por humanos diminutos – abaixo os
Estorvos e vida longa aos Ajudantes! Vimos como os antigos debates
natureza X criação, inato X aprendido não apreendem realmente os
múltiplos fatores enredados que nossos cérebros viajantes encontrarão. E
um fio constante neste emaranhado é que esses cérebros encontrarão
mensagens generificadas muito claras sobre o que é “para” meninas e
“para” meninos, mensagens do tipo “meninas serão meninas” e “meninos
serão meninos”. Estas mensagens podem ser transmitidas por estereótipos
externos ou internos, por crenças generificadas sobre atitudes femininas e
masculinas e os papéis “apropriados”, firmemente arraigados em um senso de self construído desde o primeiro dia (se não antes). Nossos focos no rosa
e nos brinquedos servem como um insight de como este processo começa
cedo. Existe uma visão intrigante segundo a qual as meninas podem ser
mais suscetíveis a esta divisão – mais prontamente se servindo do molde
feminino da sociedade. E que os meninos, apesar dos protestos dos pais que
comprariam tutus, têm muito claro que será mais sensato ficar longe de
tiaras. Assim, as placas de sinalização e os desvios generificados nos
mundos aos quais são expostos nossos cérebros em desenvolvimento estão
presentes e são poderosos desde o comecinho.
Mas, à medida que crescemos, não superamos nem nos livramos do
poder dos estereótipos – eles podem continuar a moldar nosso cérebro e
nosso comportamento por toda a vida.
* Escolhas forçadas significam que comparamos itens e temos de escolher um – não existem
opções como “não ligo”, “não me importo”, “não sei”. Neste caso, exibiam dois retângulos e era
preciso indicar qual deles você preferia (e, assim, talvez você não pudesse gostar de nenhum dos
dois, mas desgostar menos de um que do outro).