Gênero e os Nossos Cérebros
13. Por dentro de sua linda cabecinha – Uma atualização do século XXI
CAPÍTULO 13:
POR DENTRO DE SUA LINDA CABECINHA – UMA
ATUALIZAÇÃO DO SÉCULO XXI
Está claro que percorremos um longo caminho desde a ideia de Gustave Le
Bon de que as mulheres “estão mais próximas das crianças e dos selvagens
do que de um homem adulto e civilizado” e que as inovações em tecnologia
neste século e no anterior, como a fMRI, nos deram uma ideia mais
complexa e refinada de como funciona nosso cérebro. A chegada da fMRI
deu oportunidade a um acesso muito melhor ao que acontece no cérebro e
também deve ter tido impacto na busca por respostas à velha pergunta, se o
cérebro das mulheres é diferente daquele dos homens. No Capítulo 4,
acompanhando um ciclo de modismo, vimos que graças à interpretação
equivocada das novas e empolgantes imagens, a fMRI não teve lá muito
sucesso na superação dos estereótipos ou no desafio ao status quo. Uma
maré de neuromodismo e neurolixo lavou a promessa da imagem cerebral
para o Vale da Desilusão e a nova tecnologia da neuroimagem, combinada
com um elenco de apoio de psicólogos e neuroendocrinologistas, contribuiu
mais para a sustentação dos estereótipos do que para sua eliminação. Quem
sabe agora, alguns anos depois, tenhamos chegado enfim à Ladeira do
Encantamento?
A neuroimagem passou por um processo de colocação da casa em
ordem, e existem novos modelos de como o cérebro funciona e interage
com seu mundo, como vimos ao longo deste livro. A última década, mais
ou menos, viu tentativas concentradas por parte da comunidade de
neurociência cognitiva de abordar a “neurobobagem” que trouxe certo
descrédito a suas atividades.[1] Tentativas de instruir e informar a eles
mesmos e a seus ouvintes foram extensivamente transmitidas, e houve melhoras drásticas na qualidade e na quantidade das técnicas disponíveis e
em como os resultados são interpretados.
Então como o estudo do sexo, do gênero e do cérebro se saiu nessa
faxina? Deve haver uma chance muito maior de descobrir novas respostas
àquelas que, agora, são perguntas muito antigas sobre os cérebros de
homens e mulheres – não deve?
Já jogamos o neurolixo fora?
Sabemos que o resultado da pesquisa de imagem cerebral inicial sobre as
diferenças sexuais foi adotado com entusiasmo e frequentemente mal
interpretado por nossos fornecedores de neurolixo. Isto aconteceu apesar do
que os pesquisadores realmente diziam ter encontrado, mas às vezes por
causa disso. O neuromodismo inicial foi alimentado por um entusiasmo
compreensível, mas descabido, e mais tarde abastecido pelo uso emergente
de comunicados à imprensa para “elevar” as descobertas de universidades
ou centros de pesquisa. Seguindo a onda de críticas que nos levaram ao
Vale da Desilusão, os pesquisadores agora estão mais conscientes de que é
necessário ter cuidado no viés que eles imputam às próprias descobertas em
seus artigos publicados e o viés que permitem ao departamento de
marketing. Se os tamanhos do efeito em seus dados são pequenos, por
exemplo, então não devem ser usados termos como “fundamental”,
“significativo” ou “profundo”.
Para ver se chegamos tão longe quanto pensamos, vamos examinar um
estudo publicado em 2014 que analisou as diferenças sexuais em padrões de
conectividade no cérebro que, como sabemos, tornaram-se uma nova área
de foco dos neurocientistas, em lugar de remoer os mesmos velhos debates
do “tamanho é documento”.[2] Graças à técnica usada pelos pesquisadores,
foi possível fazer 34.716 comparações; destas, somente 178 mostraram
diferenças entre homens e mulheres, com tamanhos do efeito (indicados pelos pesquisadores) bem pequenos (0,32). Isto é, somente 0,51% das
diferenças testadas revelaram diferenças entre homens e mulheres.
Espantosamente, porém, os autores ainda descreveram essas diferenças
como “proeminentes”. Observaram no artigo que “no todo, os cérebros de
homens e mulheres são mais semelhantes do que diferentes”, mas o título
do artigo e as palavras-chave relacionadas incluem as palavras “diferenças
sexuais” – assim, há uma probabilidade muito forte de que este artigo caia
na pilha que serve de “prova” para as evidências dessas diferenças, apesar
de a evidência real ser bem o contrário. Recorrendo a um conjunto de dados
impressionante, com 1.275 participantes no todo, o único critério de
exclusão foram problemas de saúde ou com o escâner, ou dados
comportamentais que foram coletados, e as únicas informações adicionais
usadas para os 722 participantes resultantes foram o sexo e a idade (312
homens, 410 mulheres, com idades entre oito e 22 anos). Não havia
informações adicionais sobre anos de escolaridade, ocupação ou status
socioeconômico. Assim, certamente não é a Ladeira do Encantamento que
teríamos esperado.
Mesmo sem que os próprios pesquisadores piorem o problema, às vezes
a mídia vai além e cria seu próprio viés. Uma história de diferenças sexuais
sem mencionar o cérebro? Isto pode ser remediado facilmente!
Considere um estudo recente, publicado em 2014, que monitorou
mudanças em diferenças sexuais em determinadas habilidades cognitivas
por várias décadas e em diversas partes da Europa.[3] Houve evidências de
aumentos gerais na habilidade com o tempo, como se pode esperar de um
acesso mais amplo à educação formal entre os anos 1920 e 1950. Em alguns
casos, podemos ver a diminuição ou o desaparecimento de diferenças de
gênero; em outros (como a memória episódica), podemos ver aumentos
maiores nas mulheres com o tempo, resultando em diferenças de gênero
mais expressivas nesta habilidade específica. Os autores do estudo imputam
este resultado a mudanças na sociedade, concluindo que “nossos resultados
sugerem que estas mudanças acontecem como consequência de as mulheres
ganharem mais do que os homens com as melhorias sociais ao longo do
tempo, aumentando, portanto, sua capacidade cognitiva geral mais do que eles”. Também havia evidências de um hiato de gênero constante, mas em
decréscimo, em habilidade numérica em favor dos homens.
Mas adivinha só? A existência deste hiato (e não sua diminuição) é que
foi o foco do jornal Daily Mail. Sua manchete dizia: “Cérebros de mulheres
realmente SÃO diferentes da mente dos homens, com as mulheres
possuindo melhor memória e os homens se superando em matemática”.[4]
Supondo que seus leitores talvez não recorressem ao estudo original, o
jornal prestativamente interpretou esta descoberta para eles como se segue:
“Pensava-se que as diferentes forças podem ser explicadas pelas diferenças
na biologia do cérebro, bem como no modo como os sexos são tratados pela
sociedade.” Entretanto, uma olhada no texto original revela que não
aparecem nem a palavra “cérebro”, nem a palavra “biologia”. Isso nos leva
além da interpretação equivocada, a uma quase ficcionalização, tudo em
nome da sustentação do status quo.
O problema do “telefone sem fio”
Até descobertas de pesquisa confiáveis e válidas podem ser vítimas do
problema do “telefone sem fio”. O canal da ciência ao jornalismo científico
nem sempre foi direto – às vezes divergente, por meio de comunicados à
imprensa e editores de jornais, e especialistas que os jornalistas conseguiam
encurralar para que tecessem comentários. Acrescentem os sistemas de
“pesca de arrasto” da ciência on-line, que colhe manchetes quentes e lhes dá
seu próprio viés, e passando por tantas mãos, as histórias podem ficar
completamente desfiguradas, com a versão final às vezes tendo muito pouca
relação com sua origem.
As manchetes apelativas podem esconder a verdade dos olhos ocasionais
ou incautos. “Cérebro regula diferenças de comportamento social em
homens e mulheres”, trombeteou um artigo na Neuroscience News em
2016.[5] O artigo foi prestativamente ilustrado por uma clássica seção
transversal de duas cabeças humanas contendo cérebros, uma cor-de-rosa, outra azul (com os símbolos masculino e feminino, por precaução, caso a
codificação de cores passasse batido). O estudo original mostrou que
diferentes neurossubstâncias influenciavam a agressividade e o
comportamento de dominância de formas diferentes em participantes
femininos e masculinos. O artigo fazia referência ao significado que isto
poderia ter para a compreensão e o tratamento de “diferenças sexuais
proeminentes” na depressão e na ansiedade femininas e no autismo e
TDAH masculinos.
Só no quarto parágrafo do artigo foi que soubemos que este estudo foi
realizado em hamsters. Eles podem mesmo sofrer de versões próprias de
estresse pós-traumático ou TDAH, mas sua relevância para a condição
humana é, na melhor das hipóteses, discutível.
Esse tipo de problema também é ilustrado pela jornada do periódico ao
recurso on-line. Um artigo de periódico apelativamente intitulado “Células
Esr1+ no Controle Hipotalâmico Ventromedial da Agressividade Feminina”
era uma investigação sobre as bases cerebrais da agressividade em
camundongos fêmeas.[6] As descobertas sugeriram que elas podem ser
diferentes daquelas dos camundongos machos (que não foram testados).
Um jornalista entrou em contato com uma importante pesquisadora
neurocientista sobre o potencial significado “humano” do estudo; em
resposta, a pesquisadora escreveu uma réplica cuidadosa e bem pensada, e
enviou a colegas para verificar se sua visão cautelosa era representativa da
opinião na área.[7] Dois pontos importantes ressaltados pela pesquisadora
eram que o estudo foi realizado apenas em fêmeas (assim, falar em
diferenças sexuais era forçar a barra) e que os participantes eram
camundongos, então o significado humano podia ser limitado. Até aí, tudo
bem.
Portanto, algumas semanas depois foi um tanto surpreendente ver a
manchete “Ciência explica por que algumas pessoas gostam de BDSM e
outras não”, com a útil ilustração de uma imagem atraente de casal
(humano) pouco vestido, ligado pelo que possivelmente era um cinto de
couro (levo uma vida recatada), acompanhado de uma frase de introdução:
“Você gosta de pegar pesado até mesmo na cama? Bom, estudos recentes alegam que o sexo e a agressividade podem andar de mãos dadas no cérebro
humano!”[8] Rastreando a tortuosa cadeia de proveniência, revelou-se que
isto se referia ao mesmo estudo de camundongos e hipotálamo que fora
cautelosamente comentado anteriormente. Outro exemplo de como a
ciência pode ser embaralhada em sua jornada ao domínio público.
O neurolixo e o problema
do “Acerte a toupeira”
Pior ainda, mesmo as fontes que claramente foram identificadas como
neurolixo ainda são sequestradas pela causa do debate cérebro feminino-
masculino. Justo quando se pensava que estávamos seguros para ter
discussões bem pesquisadas e fundamentadas sobre onde e por que as
diferenças sexuais no cérebro podiam ser encontradas, e o que elas podem
significar para quem possui o cérebro, pipoca uma velha composição de
neurolixo.
Você se lembrará dos meus comentários pouco elogiosos sobre o livro
Como as mulheres pensam, de Louann Brizendine, em geral identificado
como uma farta fonte de afirmações imprecisas e/ou de origem obscura
sobre diferenças sexuais, e agora também um filme (atualmente com uma
classificação de 31% no site Rotten Tomatoes).
Alguns colegas e eu recebemos o contato de um jornalista da Newsweek
para comentar o filme e confirmar uma lista de algumas alegações da
neurociência que nele aparecem. Alguns destes “fatos” se mostraram
particularmente desconcertantes. Por exemplo, “A fofoca é fundamental
para a construção de laços sociais, assim, o cérebro das mulheres tem um
sistema ‘programado’ de recompensa por dopamina por fofocar” (isto
parece remontar a versões paleolíticas da revista Hello!, prestativamente
apoiadas, supõe-se, por descobertas de endocrinologistas paleolíticos). E
infelizmente eu desisti da briga depois desta alegação: “Assim, sei que disse
que as mulheres procuram consenso, mas, se a amígdala é ativada, sua adrenalina pode lhe dar confiança suficiente para sobrepujar o instinto de
ser cooperativa.” Joguei o trecho no Google para tentar entender o que
diabos significava, e fui direcionada a um site sobre a “psicofarmacologia
da pornografia pictórica” e outro sobre comportamento de cavalos. O que
acho que dizia tudo (os dois sites eram mais intrigantes que o filme!).[9]
O filme não vai minar sozinho todas as tentativas sérias da neurociência
de chegar à verdade, mas ainda é outro eco a acrescentar àquele que circula
no éter sem ser questionado. Parece que ainda não conseguimos jogar fora o
neurolixo de uma vez por todas.
O neurossexismo vive?
Você se lembrará de que Cordelia Fine cunhou o termo “neurossexismo”
com o fim de chamar atenção para as práticas problemáticas na própria
neurociência que podiam contribuir para a sustentação de estereótipos e a
crença na programação cerebral.[10] Como estamos nos saindo neste front?
Alguns estudos iniciais de imagem do cérebro concentraram-se em
diferenças sexuais no tamanho de determinadas estruturas, como o corpo
caloso ou o hipotálamo, como possível fonte de certas diferenças no
comportamento e na capacidade (ecoando a abordagem dos “140 gramas
desaparecidos” do século XIX). Porém, abordagens mais sofisticadas para
calcular aspectos relacionados com o tamanho do cérebro, como seu
volume como base para o tamanho da cabeça, revelaram que, falando de
forma simples, era o tamanho do cérebro, e não seu sexo, que determinava
o tamanho de diferentes estruturas dentro dele.[11] Mais recentemente, isto
se mostrou verdadeiro sobre as vias entre diferentes estruturas. Mais uma
vez, para falar com simplicidade, cérebros maiores têm vias mais longas (e
possivelmente mais fortes) para lidar com as distâncias a mais. Se
compararmos cérebros grandes (de homens e mulheres) com cérebros
pequenos (idem), descobriremos que o tamanho, e não o sexo, é mais
importante.[12] Assim, os pesquisadores de imagens do cérebro que estão interessados em comparar homens e mulheres precisam considerar cálculos
adicionais em sua análise e, um aspecto importante, demonstrar que fizeram
isso.
Eu disse anteriormente que ainda não sabemos que relação existe entre
estrutura e função cerebrais. Será que ter uma amígdala maior torna a
pessoa mais agressiva? Ter uma proporção mais elevada de massa cinzenta
em relação à branca a torna mais inteligente? Se não sabemos as respostas a
estas perguntas, vale a pena continuar a usar nossas ainda mais sofisticadas
técnicas de imagem cerebral para examinar o tamanho de diferentes partes
do cérebro, numa espécie de missão de neocraniologia?
Por um lado, estão desaparecendo as antigas alegações relacionadas com
o tamanho, em particular diante de correções detalhadas de tamanho de
cabeça ou cérebro (embora, como vimos, ainda existam argumentos sobre
que correção de tamanho cerebral usar). Duas meta-análises recentes
mostraram que as diferenças antes confiáveis entre mulheres e homens na
amígdala e no hipocampo, duas estruturas fundamentais no cérebro, foram
eliminadas depois de feitas estas correções.[13] Por outro lado, parece que
surgem novas versões destas alegações, em parte, estimuladas pelo acesso a
conjuntos de dados maiores sobre imagem cerebral que agora estão
disponíveis.
Um recente artigo de uma equipe chefiada por Stuart Richie, psicólogo
da Universidade de Edimburgo, relata diferenças sexuais em um grupo
compreendido por 2.750 mulheres e 2.466 homens.[14] Uma das coisas
interessantes de observar neste estudo é como as descobertas são relatadas,
no artigo e no comentário público subsequente. O resumo do artigo faz
referência a homens terem volumes brutos (isto é, não corrigidos), áreas
brutas de superfície e conectividade de massa branca mais elevados,
enquanto as mulheres têm maior espessura cortical bruta e aspectos mais
complexos de massa branca. Estas diferenças são ilustradas no texto por
curvas distintas em cor-de-rosa e azul, anotadas com dados de tamanho do
efeito bem grandes. As diferenças em volume total do cérebro, volume da
massa cinzenta e volume da massa branca são particularmente chamativas.
Porém, depois que os autores corrigiram estas medidas para o tamanho do cérebro, muitas diferenças desapareceram e aquelas que ficaram foram
significativamente reduzidas. Isto foi plenamente reconhecido no texto, mas
a impressão inicial para um jornalista potencialmente incauto podia bem ser
de que estas diferenças eram altamente significativas (no sentido popular e
estatístico do termo).
Na verdade, o trabalho foi comentado em um artigo de título
entusiasmado “Por que uma mulher não pode ser igual a um homem?”,
descrito como “uma espécie de caia na real” para aqueles que acreditavam
que não existiam diferenças entre cérebros de homens e mulheres.[15] O
autor também jogou na mistura uma “ligação bem estabelecida entre
volume cerebral e QI”, estranhamente citando em apoio a isto um artigo
cujos autores alegaram, como uma de suas principais descobertas, que “o
tamanho do cérebro não é uma causa necessária para as diferenças humanas
no QI”.[16] Assim, o que alguém pode chamar de falta de cautela no artigo
original resultou em uma manchete quente para um jornalista mal
informado, saudando-o como um caia na real neural.
Esse tipo de salto rápido nas evidências confirmatórias de diferenças
entre os gêneros no cérebro também ficou evidente em um acontecimento
recente ainda mais preocupante. Um artigo da Universidade de Wisconsin-
Madison relatou os resultados de um estudo de estruturas cerebrais em 143
bebês de um mês (73 meninas e 70 meninos).[17] Este foi um estudo em
larga escala sobre bebês saudáveis nascidos a termo, usando um escâner de
alta resolução, assim, foi um conjunto de dados importante para esta área de
pesquisa. Sabemos que, no passado, alegou-se que as diferenças homem-
mulher eram evidentes ao nascimento e que isto apoiaria fortemente o ponto
de vista determinista biológico, mas, o que é fundamental, que havia uma
carência de estudos de larga escala sobre bebês com desenvolvimento típico
em apoio a isto. Será que este estudo seria o juiz?
Os autores do artigo relataram diferenças sexuais acentuadas em volume
total do cérebro, massa cinzenta e massa branca. Mais uma vez, isto foi
rapidamente disseminado na esfera pública, desta vez feita por uma fonte de
sumários de pesquisa on-line que apresentou este relato como uma
importante inovação na busca por explicações de diferenças homem-mulher no comportamento. A fonte concluiu que “fingir que estas diferenças
sexuais precoces não existem não nos ajudará a tornar a sociedade mais
justa”.[18] O problema foi que as descobertas relatadas estavam erradas.
Embora os pesquisadores tenham alegado ter corrigido para o tamanho do
cérebro, um neurocientista com olhos de águia observou que os dados no
artigo não condiziam com esta alegação. Os autores foram procurados,
fizeram uma verificação rápida, seguiu-se uma reanálise e todas as
diferenças significativas alegadas desapareceram.
Foi lançada rapidamente uma correção, publicada nos sites do periódico
e do sumário de pesquisas.[19] Mas houve um hiato de dois meses entre
estes acontecimentos, e as redes sociais on-line já haviam atacado.
Referências ao artigo já haviam aparecido no Facebook com um comentário
revelador: “Para falar a verdade, muito recentemente tive uma discussão
sobre isso com uma pessoa que alegou ter diploma na área. Esfregar isso na
cara dela vai me deixar tão feliz”. Isso ainda pode ser encontrado no
Pinterest também.[20]
Nesses dias de câmaras de eco ideológico, são as fake news, ou, neste
caso, as neuro-fake-news, que pegam, mesmo que refutadas posteriormente.
O problema do iceberg
Existem evidências ainda de que o “problema do arquivo” ou “problema do
iceberg” está vivo e vai bem, obrigada. Como mencionei no Capítulo 3, esta
é a antiga questão de um viés de comunicação em que são publicados
somente aqueles estudos que encontraram diferenças e são arquivados os
que não encontram.[21] Um jeito de verificar isto é calcular as proporções
esperadas de diferenças significativas ou não em um campo de pesquisa,
dados os tamanhos do efeito conhecidos das diferenças que investigamos.
Depois, comparamos isso com o que realmente obtivemos.
Na batalha contra o problema do iceberg, John P. A. Ioannidis, professor
de medicina, pesquisador de saúde e política e estatística na Universidade Stanford, tem sido o flagelo da prática estatística medíocre na pesquisa
clínica mais ou menos pela última década, e mostrou como a ciência precisa
ter mais consciência da necessidade de se autocorrigir, manter um sumário
sempre vigilante sobre descobertas que não podem ser reproduzidas ou
anomalias em conjuntos de dados publicados. Em 2018, ele e sua equipe
voltaram a atenção para estudos de neuroimagem de diferenças sexuais.
Examinaram a proporção daqueles que relataram diferenças em comparação
com os que relataram semelhanças ou não viram diferenças.[22] Dos 179
artigos examinados, apenas dois destacavam no título o fato de que não
tinham descoberto diferença nenhuma. No geral, 88% relataram alguma
diferença significativa. Como os autores observaram, esta alta “taxa de
sucesso” é implausível. A equipe também examinou a relação entre o
tamanho da amostra (número de participantes em um estudo) e o número de
áreas cerebrais em cada estudo em que as diferenças sexuais foram
identificadas. Deveria haver uma correlação entre estes dois fatores, porque
estudos menores e fracos normalmente esperavam encontrar menos áreas de
ativação significativa. Por mais que tentassem, porém, os pesquisadores não
conseguiram encontrar esta relação estatística esperada. Parecia que
existiam muito mais descobertas “positivas” do que se teria esperado nos
estudos de pequena escala, que relatavam apenas praticamente o mesmo
número de áreas significativas dos estudos de escala maior. Isto pode se
dever a uma variedade de motivos, que vão de os pesquisadores
apresentarem apenas artigos com descobertas positivas, ou periódicos que
só publicavam artigos com descobertas significativas, ou pesquisadores
ocultando as negativas.
Dado que as diferenças entre os sexos são muito pequenas, fato
plenamente reconhecido até pelos mais ardorosos defensores da posição
determinista biológica, a pesquisa que procura diferenças sexuais não deve
mostrar esta “taxa de sucesso” imensa. Tem-se visto que a crença na
abordagem da “pré-programação” às diferenças sexuais é fortemente
reforçada pelos relatos de “diferenças cerebrais”, como aqueles examinados
pelo grupo de Ioannidis, assim, é preocupante para todos nós quando este
corpo de trabalho se mostra tendencioso desta forma.[23] As evidências da neurociência são uma influência externa poderosa nos efeitos
transformadores do mundo sobre o cérebro, na sustentação de estereótipos e
na catalogação do self e de outros perfis por nossos cérebros sociais que
coletam regras. Assim, quando obtemos uma visão distorcida, talvez a
verdade, mas não toda a verdade, então nós – e nosso cérebro – somos
induzidos ao erro.
Plasticidade, plasticidade, plasticidade –
e o problema rígido do sexo[24]
Vimos com que precocidade a imagem cerebral supôs que as estruturas e
funções cerebrais, em um ser humano adulto e saudável, costumavam se
tornar “programadas” no cérebro e eram estáveis e fixas. Isto significava
que sempre que experimentávamos uma tarefa de linguagem, um paradigma
visual ou um exercício de tomada de decisão com um participante,
devíamos obter padrões de ativação e imagens semelhantes, se não
idênticos, mensuráveis a qualquer momento e de fácil reprodução, se
necessário. Assim, se comparássemos homens e mulheres, além de garantir
que os participantes não tivessem um histórico neurológico incomum, não
ingerissem nenhuma droga que alterasse o cérebro e falassem de forma
ampla, na mesma faixa etária, então o que realmente precisaríamos saber
dos homens e mulheres que participavam era só isso mesmo, se eram
homens ou mulheres.
E suporíamos que todas as participantes seriam representativas do grupo
que rotularíamos de “mulheres” e os homens do grupo rotulados de
“homens”. Se, por exemplo, testássemos habilidades de linguagem em
mulheres, suporíamos que a amostra de “oportunidade” que escolheríamos
em um ano (com muita frequência de estudantes de graduação ou pós-
graduação) seria praticamente a mesma de uma amostra similar que
escolheríamos no ano seguinte, se decidíssemos repetir o estudo. E depois
explicaríamos quaisquer diferenças de grupo que encontrássemos em termos de sua masculinidade ou feminilidade. Escolheríamos esses dois
grupos com base em suas diferenças “naturais” e se seu desempenho fosse
diferente, ou o cérebro parecesse diferente, então teria de ser assim porque
os homens eram diferentes das mulheres.
A descoberta da plasticidade vitalícia e dependente de experiência no
cérebro humano implica que precisamos prestar atenção em mais do que
apenas o sexo e a idade de nossos participantes no estudo das diferenças
sexuais/de gênero no cérebro. Mas parece que os “holofotes da
plasticidade”, as evidências cada vez mais fortes de como nosso cérebro é
moldável por suas experiências de toda uma vida, raras vezes se voltam
para o debate das diferenças-sexuais-no-cérebro.
Agora sabemos que adquirir diferentes tipos de perícia, jogar
videogames, até ser exposto a diferentes expectativas sobre o que podemos
realizar, podem mudar nosso cérebro. Por exemplo, se você estiver
interessado em diferenças na cognição espacial, talvez precise saber que
experiências relevantes têm seus participantes. Eles jogam muito
videogame? Praticam esportes, possuem hobbies que envolvam alguma
habilidade espacial? Seu trabalho envolve alguma consciência espacial?
Como vimos em nosso exame do mundo generificado a que nosso cérebro é
exposto, é mais do que possível que isto se cruze com se somos mulheres
ou homens. Assim, a pesquisa de neuroimagem precisa considerar isto
quando projeta estudos e analisa e interpreta resultados; precisamos
reconhecer que os cérebros são irrevogavelmente enredados com os mundos
em que operam e, assim, para entendê-los, precisamos examinar seus
mundos também.
Isto é particularmente verdadeiro quando os pesquisadores interrogam os
conjuntos de dados de neuroimagem muito grandes que agora estão
disponíveis. Laboratórios do mundo todo colaboram para compartilhar as
medidas coletadas no curso de seus próprios estudos, para garantir que
existam grandes coleções centrais de medições de estruturas e funções
cerebrais a que tenham acesso todos os neuropesquisadores, para testar suas
próprias teorias ou verificar o caráter generalizante das descobertas. Em vez de números de participantes nas dezenas ou vintenas, agora examinamos
centenas, até milhares de scans cerebrais.
Um artigo relatou a análise de dados em estado de repouso (isto é, dados
de atividade cerebral quando os participantes estavam apenas deitados em
um escâner, sem ter de realizar alguma tarefa) de mais de 1.400
participantes.[25] Ao verem as medidas de conectividade nesses cérebros, os
pesquisadores relataram que a idade e o sexo eram importantes fatores
diferenciais em várias formas de comparação de conectividade cerebral,
ilustrando prestativamente estes relatos com gráficos de sino cor-de-rosa e
azul. Isto na verdade serviu para indicar o quanto se sobrepunham os dados
de mulheres e homens – mas não deram nenhum tamanho do efeito.
Embora dados demográficos, como anos de escolaridade ou ocupação,
estivessem disponíveis do conjunto central de dados, os autores não
levaram isto em conta ao fazer as comparações. Assim, este artigo parecia
um apoio impressionante à visão determinista biológica a partir de um
enorme conjunto de dados. Entretanto, não foram consideradas as principais
características relacionadas com a plasticidade. Todos os participantes
tinham idades entre 18 e sessenta anos, logo, todos tinham muito tempo
para que experiências de vida generificadas afetassem o cérebro e o
comportamento.
Se ainda estivermos fazendo as mesmas perguntas, com a mesma
mentalidade, as respostas não serão necessariamente melhores, mesmo que
tenhamos a melhor tecnologia e os melhores conjuntos de dados. Um
número crescente de comparações de conjuntos de dados cada vez maiores
não nos deixará mais perto de entender nosso cérebro se nos concentramos
apenas em características biológicas binárias e continuamos a ignorar
fatores psicológicos, sociais e culturais. Pode não haver muitos taxistas
malabaristas, nem violinistas que fazem slackline entre as pessoas
estudadas, mas podem apostar que haveria uma variedade bem ampla de
experiências educacionais, de ocupações, até de prática esportiva ou de
outros hobbies em um grupo de pelo menos 1.400 pessoas.
E parece que não são só os cérebros em si que refletem o mundo em que
operam; novas evidências mostram que também precisamos reconhecer como as atividades dos hormônios são enredadas com o mundo em que nós,
seres humanos, vivemos.[26] Junto com a descoberta de que o
desenvolvimento cerebral não é um desenrolar unidirecional de um modelo
predeterminado, mas um processo dinâmico de mudanças que refletem
interações com o ambiente, está ficando claro que flutuações em níveis
hormonais refletem o que acontece a nossa volta, da mesma forma. Longe
da caracterização “biologia ao volante” de hormônios como a testosterona,
está claro que os níveis hormonais podem ser impelidos por envolvimento
em atividades sociais.
Um exemplo espantoso disto é que os níveis de testosterona em pais vão
variar em função de quanto tempo eles passaram cuidando dos filhos. E isto
pode também refletir expectativas culturais. Em um estudo de dois grupos
diferentes na Tanzânia, no grupo em que era normal os pais cuidarem dos
filhos, os níveis de testosterona eram mais baixos do que no grupo em que a
prática não era normal.[27]
Este efeito “inteligente” da testosterona foi perfeitamente demonstrado
pela neuroendocrinologista social Sari van Anders, usando uma boneca que
chora e três grupos de homens incautos.[28] (Este é um daqueles estudos no
qual eu sinceramente gostaria de estar do outro lado daqueles espelhos
falsos comuns em laboratórios de psicologia experimental ou nas salas de
interrogatório de dramas criminais da televisão.) Um grupo tinha de apenas
ouvir o choro do bebê, sem nenhuma possibilidade de intervir; um grupo
tinha permissão para interagir com a boneca que, porém, era programada
para chorar, independentemente do que a pessoa fizesse (eu estou
acostumada com bebês humanos que exibem as mesmas características); e o
terceiro grupo de sorte tinha uma boneca programada para, por fim, reagir a
uma das várias atividades de “cuidados” oferecidas (alimentação, troca de
fraldas, colocar para arrotar etc.). Os níveis de testosterona na saliva foram
medidos antes e depois da experiência com a boneca. O grupo “calmante de
sucesso” mostrou uma diminuição significativa na testosterona, enquanto o
grupo que “só ouvia” mostrou um aumento significativo. O grupo que
interagiu sem sucesso algum com a boneca mostrou pouca mudança nos
níveis antes e depois. Van Anders sugere que as variações nos níveis de testosterona refletiam o contexto social, a disponibilidade ou não de alguma
ação que “resolvesse o problema”, porque o estímulo era sempre o mesmo
em cada grupo. Portanto, do mesmo modo que o nosso cérebro é sempre
plástico, nossos níveis hormonais não são tão fixos como se pensava.
Existiriam outros aspectos de nossa condição humana que não podemos
mais supor que sejam fixos? Acontece que nossos perfis de personalidade
também podem mudar com o tempo. Mesmo aceitar que em geral fica claro
o que um questionário de personalidade tenta medir ou o efeito de
“desejabilidade social” de pensar em respostas a qualquer inventário de
perfil pessoal que retratará a pessoa na luz mais positiva, em geral se
supunha que as medidas individuais, por exemplo, do que é chamado de os
“Cinco Grandes” fatores de personalidade (abertura, conscienciosidade,
extroversão, amabilidade e neuroticismo) eram muito estáveis. O pensador
do século XIX William James, conhecido como o “pai da psicologia
americana”, chegou a descrever a personalidade como “fixa como gesso”
depois da faixa dos trinta anos.[29]
Isto se relaciona perfeitamente com o modelo de que as características de
personalidade, certamente em adultos, eram um reflexo de nossas
características biológicas (fixas). Mas um estudo recente, combinando
dados de 14 estudos longitudinais, em que as medidas que foram tomadas
em pelo menos quatro ocasiões diferentes estavam disponíveis para quase
50 mil pessoas, mostrou que a natureza “de gesso” da personalidade é
qualquer coisa, menos isso.[30] Em todos os estudos, todas as características,
exceto a amabilidade, mostraram reduções significativas com o tempo (esta
última mostrou irritabilidade crescente em alguns estudos e encanto
crescente em outros). As explicações incluíam uma espécie de efeito
pragmático de “mostrar o que há de mais positivo” em que, como uma
jovem pessoa/personalidade, você podia convencer como “otimamente”
conscienciosa e extrovertida, mas se acalmaria um pouco com a idade (isso
tem o nome delicioso de efeito Dolce Vita). Também houve evidências
claras de que nem todos mudam no mesmo ritmo, nem na mesma direção.
De modo geral, então, pareceria que nossa personalidade, nosso perfil
exterior, não é um ponto estável e fixo em nossa jornada pela vida, mas pode variar consideravelmente. Esta descoberta, naturalmente, pode apenas
refletir as vicissitudes das várias maneiras de avaliar a personalidade, mas
pode também refletir o jeito com o qual quem queremos que as pessoas
pensem que somos está enredado com fatores sociais, como os aspectos
“quem pergunta”, “por que pergunta” ou “quando perguntam”. Assim,
temos personalidades plásticas e flexíveis da mesma forma que temos
biologias plásticas e flexíveis.
Diminuição das diferenças?
A avaliação de características de personalidade foi apenas uma das
contribuições da psicologia ao debate das diferenças sexuais/de gênero que
examinamos no Capítulo 3. Outra proposta essencial foi a catalogação
detalhada das habilidades cognitivas que alegaram distinguir
confiavelmente mulheres de homens. Será que esta lista preferida resistiu ao
teste do tempo, ou precisamos revisá-la?
O estudo psicológico das diferenças sexuais no comportamento atraiu
um nível razoável de críticas, do escárnio incisivo das observações de
Helen Thompson Woolley para com as contribuições da psicologia no início
do século XX, ao exame pericial de Cordelia Fine de décadas de pesquisa
mal interpretada, incompreendida e deturpada no início deste século.
Nenhuma das duas fez objeções fundamentais à realização da pesquisa, e
sim a como era feita: ambas achavam que a área era caracterizada por uma
prática científica fraca, que lançava dúvidas sobre muitas conclusões.
Com relação às habilidades cognitivas, como vimos no Capítulo 3,
Eleanor Maccoby e Carol Jacklin fizeram um ótimo trabalho organizando o
campo no início dos anos 1970, deixando-nos com capacidade verbal,
capacidade visuoespacial, capacidade matemática e agressividade como
características fiáveis que podiam diferenciar homens de mulheres. Nesta
fase, deu-se pouca atenção a quaisquer fatores contributivos além do sexo
biológico – supunha-se que desde que soubéssemos se os participantes marcavam o quadradinho “mulher” ou “homem”, então todo o resto
(exceto, talvez, a idade) era irrelevante.
Mas isso mudou aos poucos, à medida que ficava claro que variáveis
ambientais precisavam ser consideradas junto com as biológicas, não como
alternativas, mas como parte do mesmo processo. É até possível identificar
o aparecimento desse pensamento comparando-se os prefácios às quatro
edições do excelente livro Sex Differences in Cognitive Abilities, de Diane
Halpern, publicadas entre 1987 e 2012.[31] Halpern notou a crescente
contribuição de técnicas de neurociência cognitiva, inclusive evidências da
natureza transformadora de acontecimentos ambientais para o cérebro, e a
crescente politização da área de pesquisa. Ela também chefiou o grupo de
psicólogos que, depois do notório discurso de Larry Summers, produziu um
resumo qualificado do estado atual da pesquisa de diferenças sexuais na
ciência e na matemática.[32] Assim, como alguém com uma visão
abrangente da paisagem deste tipo de pesquisa, uma característica em
particular notada por ela foi que estas diferenças na verdade estavam
diminuindo ou desaparecendo, ou até revertiam, em várias culturas.
Evidências como estas tornam cada vez mais difícil sustentar que as
diferenças são determinadas biologicamente, pela genética, por hormônios
ou por ambos.
Em 2005, Janet Hyde (que, na verdade, tem a cátedra Helen Thompson
Woolley de psicologia e estudos femininos na Universidade de Wisconsin-
Madison) revisou 46 meta-análises destes estudos, junto com os resultados
de muitas investigações sociais e de personalidade em algumas medidas de
“bem-estar psicológico”, como “autoestima” e “satisfação na vida”, com
alguns comportamentos motores como lançar ou saltar.[33] Como a essa
altura você saberá, cada meta-análise em si terá revisado dezenas, se não
centenas de artigos de pesquisa diferentes, assim, está claro que a indústria
da “psicologia das diferenças sexuais” foi imensamente produtiva.
Hyde chegou à conclusão impressionante de que, ao contrário do
“modelo de diferenças” atual, enfatizando as distinções quase dimórficas
entre homens e mulheres, os dados mostravam que homens e mulheres
eram semelhantes na maioria das variáveis psicológicas, mas não em todas. Dos 124 tamanhos efeito revelados pela meta-análise, 78% eram pequenos
ou próximos de zero, inclusive alguns relacionados aos velhos favoritos,
como a capacidade matemática (+0,16) e comportamento de auxílio
(+0,13). Muito poucos podiam ser considerados grandes (mais de 0,6).
Tendo em mente que grande parte do estudo de diferenças entre os
gêneros aconteceu para justificar por que os homens estão em posições de
poder e influência (e as mulheres não), as características que mostravam as
maiores diferenças entre homens e mulheres provavelmente não serão
encontradas em muitas descrições de cargo para futuros capitães da
indústria. Elas incluíam a masturbação (uma “variável social e de
personalidade”, pelo visto, com um tamanho do efeito gritante de +0,96) e
velocidade de arremesso (+2,18), bem como distância de arremesso (+1,98).
Se você pensava que a coleção de 46 meta-análises de Hyde foi um
indicador impressionante da produção da psicologia nesta questão, só dez
anos depois Ethan Zell e colaboradores reuniram 106 meta-análises para
realizar uma forma de avaliação de tamanho do efeito de alto nível
(conhecida como metassíntese).[34] De fato, esta pretendia especificamente
ser uma avaliação da hipótese de semelhanças de Hyde. Segundo seus
cálculos, eles tinham dados de mais de 20 mil estudos individuais e mais de
20 milhões de participantes. Foi um teste impressionante em seus detalhes.
O que descobriram? O tamanho do efeito geral, em todas as diferentes
características incluídas pelos pesquisadores, era de +0,21, com 85% das
diferenças homem-mulher sendo muito pequenas ou pequenas. A maior
diferença que encontraram, em características masculinas X femininas, foi
um tamanho do efeito de +0,73, então não era extremo, mesmo
considerando a natureza da característica medida. A conclusão foi que sua
metassíntese dava apoio “convincente” à hipótese de semelhanças de
gênero.
Em um exame mais atento de estudos mais bem realizados em grupos
maiores de pessoas, esses dois exemplos ilustram que aparentemente estão
desaparecendo com rapidez itens da lista preferida da psicologia sobre
diferenças em habilidades cognitivas e perfis de personalidade. Sabe
aquelas diferenças confiáveis no desempenho em matemática identificadas por Maccoby e Jacklin? Acabaram-se. E a superioridade feminina confiável
em habilidades verbais? Ínfimas em muitas medidas diferentes, inclusive
vocabulário, compreensão de leitura e redação, tendo a fluência verbal
como única possível candidata a uma diferença, mas com um tamanho de
efeito de apenas -0,33, não é uma variável imensamente preditiva. Para
fazer justiça, é verdade que estudos de capacidade de rotação mental
produziram um tamanho de efeito médio, contudo apenas moderado, de
0,57 – como vimos, isto pode variar em função do tipo de teste usado na
medição e também pode desaparecer com o treinamento.
Assim, o indicador confiável da psicologia de como os homens diferem
das mulheres, que não só deu apoio a um sistema de crença secular, mas
também, em alguns casos, fundamentou a pauta de pesquisa de laboratórios
de ponta, parece precisar de uma atualização radical.
Será mesmo possível que tenhamos errado a respeito do sexo esse tempo
todo?