Gênero e os Nossos Cérebros

Gina Rippon · Capítulo 11 de 46

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Gênero e os Nossos Cérebros

6. Seu cérebro social

CAPÍTULO 6:

 

 

SEU CÉREBRO SOCIAL

 

Somos programados para sermos sociais. Somos impelidos por motivações profundas

para permanecermos ligados a amigos e familiares. Somos naturalmente curiosos sobre

o que acontece na mente dos outros. E nossas identidades são formadas pelos valores

que tomamos emprestado dos grupos que chamamos de nossos.

MATTHEW D. LIEBERMAN[1]

 

Se você achava bastante complicado entender como nós, como indivíduos,

interagimos com nosso mundo complexo e carregado de informações, então

entender como interagimos uns com os outros é pior em muitas magnitudes.

Assim como lidamos com nossas vontades, nossas necessidades, as crenças

e os desejos, temos de prever o mesmo nos outros, em geral com base em

algum conjunto de regras misteriosas e tácitas. Precisamos “etiquetar”

nossa lista de contatos para classificar nosso mundo em tipos de pessoas,

situações, acontecimentos que serão bons ou ruins para nós, ou farão com

que nos sintamos bem ou mal. Nosso cérebro (automática e

inconscientemente) dará uma “curtida” a membros de nossos vários

endogrupos, estimulando-nos a procurar estas pessoas e ficar com elas. E

ele pode, com igual rapidez e automatismo, ligar um “alerta de ameaça” a

pessoas que não foram projetadas como parte de nossa rede social real,

desencadeando uma reação “evasiva” que pode ser de difícil superação.

Parte de nossa capacidade de sermos sociais implica que tenhamos uma

tendência embutida ao viés, tanto positiva como negativamente. [2]

Como parte de tudo isso, precisamos de um senso claro de identidade

pessoal, de quem somos e como podemos nos descrever aos outros (ou

como podemos preencher nosso perfil em uma rede social na internet), e de

um sentimento do lugar a que pertencemos em quaisquer das numerosas redes sociais reais em que nos vemos enredados. Aqui também existe um

aspecto emocional pitoresco. Precisamos de uma boa dose de autoestima,

um orgulho de nossos pontos fortes, reforçado por reações positivas

daqueles que nos cercam, dando-nos um espírito de grupo. E qualquer golpe

nesta autoestima pode desencadear uma cascata de reações cerebrais e

comportamentais capazes de ter consequências catastróficas para nosso

bem-estar.

Desde o momento em que nascemos, procuramos o tipo de informação

necessária para nos tornarmos sociais. Concentramo-nos em rostos, nossa

audição é sintonizada com o som dos sotaques familiares, rapidamente

distinguimos o conhecido do desconhecido. Podemos até ter um app “aah”

que nos garanta que nossos sorrisos cativantes e gorgolejos alegres

despertem algum comportamento de vínculo recíproco da parte de nossos

outros significativos (ou até, quando somos muito novos, de estranhos, mas

isto rapidamente desaparece quando passamos a distinguir os endogrupos

dos exogrupos). Como veremos, nosso cérebro é extraordinariamente

permeável a esses dados sociais, e as mensagens que absorvemos podem ter

um efeito profundo em como nos comportamos.

Nosso poderoso cérebro previsor, que lida com as visões e os sons

cotidianos que nos cercam, também é equipado para extrair do mundo as

regras necessárias de engajamento social.[3] Na verdade, o comportamento

social tem forte relação com a previsão; vamos adquirir um conjunto de

roteiros que delineiam as regras para situações sociais e torná-las

previsíveis para nós, permitindo-nos falar e fazer o que é certo e evitar as

gafes. E parte desses roteiros incluirão estereótipos – atalhos sociais que

nos permitem o acesso rápido (mas não necessariamente correto) a todo um

leque de expectativas sobre como alguém se comportará, como pode reagir

a nós, se serão sociáveis e desejarão formar uma rede, ou se serão pessoas

rabugentas e meio solitárias. E os estereótipos também podem ser

incorporados em nosso senso de identidade – o que se espera de Alguém

como Você? Se sou homem ou mulher, como devo me comportar, com o

que (e com quem) devo brincar, o que serei quando crescer, com quem

trabalharei, quem vai querer trabalhar comigo?

A pesquisa deste cérebro social tem recebido ênfase fundamental dos

pesquisadores de imagens do cérebro deste século. Marca uma mudança no

foco, do cérebro individual e suas habilidades para as interações entre o

cérebro e seu ambiente e, de fato, entre um cérebro e outro.[4] O

mapeamento daquelas áreas cerebrais que estavam envolvidas na cognição,

como visão, linguagem, leitura ou solução de problemas de alto nível, foi

um alvo inicial da imagem cerebral funcional, e foram elaboradas muitas

formas diferentes de testar os vários componentes destes processos. O

mapeamento daquelas partes do cérebro que são envolvidas na cognição

social é muito mais desafiador porque, devido à sua própria natureza, é

difícil imitar as tarefas sociais nos confins de escâners cerebrais

claustrofóbicos e barulhentos. Mas o que não falta a neurocientistas sociais

é inventividade.

Oferecer-se como voluntário para participar de uma experiência de

imagem cerebral às vezes implica que você fique deitado ali, olhando

apresentações intermináveis de tabuleiros de xadrez em preto e branco ou

grades rotativas pelo que parecem muitas horas, tentando desesperadamente

não cochilar enquanto os neurocientistas testam sua mais recente teoria

sobre a atividade gama no córtex visual.[5] O tipo de tarefa elaborado para

investigar o cérebro social sem dúvida é mais interessante. Você pode se ver

classificando adjetivos como “sem-jeito”, “inteligente”, “atraente” e

“popular” em termos de como o descrevem, ou ao seu melhor amigo, ou

uma celebridade famosa, ou até mesmo Harry Potter, assim os

pesquisadores podem ver como o cérebro processa o self comparado com

outras informações.[6] Ou eles podem lhe mostrar imagens de alguém

batendo o martelo no polegar (vendo o quanto você “partilha da dor do

outro”), com uma guinada a mais porque você já classificou este outro em

uma escala de “confiabilidade”.[7]

O resultado de tanta diversão no escâner foi o mapeamento de uma rede

de áreas denominadas de o “cérebro social” e sua ligação a aspectos

específicos do comportamento social.[8] A rede de cérebro social abrange

algumas das partes evolutivamente mais antigas de nosso cérebro, bem

como muitas das mais novas. As partes mais antigas, bem enterradas nele, incluem áreas do cérebro associadas a reações emocionais, como a raiva, o

prazer ou a repulsa, assim como sinalizam ameaça ou recompensa. Embora

“ser social” seja identificado como uma de nossas mais recentes e mais

sofisticadas formas de comportamento, ainda se fundamenta em reações

emocionais muito básicas, que podem ser expressas em termos de

“abordagem”, ou “evasivas”, ou talvez “deslizar para a direita” ou “deslizar

para a esquerda”, em termos da mídia social de hoje.

 

Figura 2: O cérebro social.

 

Este processo de “avaliação” é associado inicialmente com atividade em

uma das partes mais antigas de nosso cérebro, a amígdala. [9] A amígdala é

uma estrutura quase amendoada, enterrada abaixo do córtex nos hemisférios

direito e esquerdo. Tem um papel central na percepção e na expressão das

emoções. Com relação a habilidades sociais, a amígdala parece ser útil no

processamento em alta velocidade de expressões faciais emocionais, particularmente as potencialmente ameaçadoras. Também parece

“etiquetar” a associação a um grupo, por exemplo, identificando integrantes

úteis, como os pais ou cuidadores.[10] A marcação também parece se aplicar

à codificação de exogrupos, como a ativação da amígdala mostrou em

resposta a pessoas de outras raças.

Enquanto isso, uma das partes mais novas do cérebro, o córtex pré-

frontal, está envolvida no controle de processos abstratos como a

autorreflexão e a identidade própria – um sistema de orientação baseado no

“eu”, sinalizando e selecionando opções que podem ser boas ou ruins para

nós, satisfazendo nossos gostos e aversões.[11] Além disso, está envolvido

na identificação de “outros”, os contatos por aí que podem ou não fazer

parte de nossas redes sociais reais. Este sistema está ligado a nossas

habilidades sociais de leitura das mentes, nossa compreensão dos outros, de

seus pensamentos, desejos e crenças. Estes processos se estendem a nosso

armazenamento de memórias, onde guardamos informações sobre nosso

mundo social e as redes sociais reais, inclusive a caracterização de perfis

para nos ajudar, por exemplo, a tomar decisões de endogrupo em

contraposição a exogrupos.

Existem também conexões íntimas com os sistemas que controlam o

movimento, de modo que as ações e reações associadas com o

comportamento social possam ser supervisionadas, garantindo que façamos

o movimento certo ou inibindo aqueles errados, ou, como parte de nossa

condução no mundo social, entender as intenções por trás dos atos dos

outros.[12] Precisamos de feedback quando cometemos erros, com um

sistema de “parada” semelhante a um freio e um sistema de leme para nos

ajudar a alterar o curso.

Um terceiro sistema nesta rede de mecanismos de controle forma a ponte

entre nossas estruturas de controle emocional impetuoso e nossos sistemas

sociais de entrada/saída de alto nível. Em vez de um limitador de

velocidade em um motor, ele estará monitorando nossas atividades e se

intrometerá para impedir um desvio por estradas socialmente inadequadas.

[13]

O self e a dor social

 

Vamos dar uma olhada naquelas partes do cérebro que estão mais

preocupadas com nosso self, com quem sentimos que somos e queremos

(ou não queremos) ser. Os neurocientistas da cognição social terão acesso a

isto levando você a trabalhar com os adjetivos que melhor descrevem sua

personalidade, ou a refletir sobre memórias autobiográficas que só você

conhece ou que sejam especiais, ou contar de suas reações emocionais a

diferentes imagens, até a olhar imagens de celebridades e decidir que

semelhança você tem com pessoas como Rihanna ou Daniel Craig.[14]

Do ponto de vista evolutivo, o córtex pré-frontal é a parte mais nova de

nosso cérebro e fica no meio ou na parte medial desta estrutura mais

comumente ativada quando estamos refletindo sobre nossos vários selves. A

pesquisa mais recente nas leituras destas redes cerebrais sugere que este

processo é uma constante “obra em progresso”, de forma que mesmo

quando nosso cérebro supostamente está em repouso (sem realizar nenhuma

tarefa em particular), nossas redes de self estão ativas. É como se nossa

antena da identidade pessoal se mexesse constantemente, atualizando o que

acontece em nosso sistema social de “navegação no mundo”.[15]

Acontece que não só mantemos um catálogo detalhado de nossas

características pessoais, mas precisamos que seja acompanhado de algum

tipo de fator tranquilizador de bem-estar. Embora existam alguns que

parecem barganhar o jeito que têm em seu mundo social em termos de “é

isto que eu sou, é pegar ou largar”, independentemente das consequências

sociais, para a maioria de nós a autoestima é muito determinada pelo nível

de nossa inserção nos grupos sociais em que nos encontramos. Os golpes a

esta autoestima podem causar fortes reações no cérebro. Isto foi

demonstrado pelos neurocientistas cognitivos mais engenhosos.

Uma tarefa popular é a Cyberball, teste desenvolvido por Matthew

Lieberman e Naomi Eisenberger em seu laboratório de neurociência

cognitiva social na Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA).

[16] A Cyberball é um jogo de bola on-line em que informam que você é um

dos três participantes, com os outros dois representados por pequenas figuras de desenho animado. Segundo a fachada, todos os três passam por

um scan do cérebro enquanto jogam Cyberball pela internet. A partida

começa e a bola é jogada de um lado a outro entre os três. Mas depois os

outros dois param de lhe jogar a bola e você só pode assistir os dois se

divertindo. Se você é como a maioria dos participantes de Lieberman e

Eisenberger, isto causará uma irritação e/ou perturbação verdadeira, e você

classificará a experiência como “extremamente frustrante” ou “dolorosa”

quando tiver essa chance.

Outra tarefa para esculachar a autoestima envolve o que entra na conta

de um jogo de “primeiras impressões”.[17] Você forma um par com outro

participante (na verdade, um assistente de pesquisa) para uma sessão de

avaliação de entrevista. A entrevista compreende perguntas muito pessoais,

como “Do que você tem mais medo?” e “Qual é sua melhor qualidade?”

Dizem-lhe que, enquanto estiver no escâner, sua entrevista gravada será

reproduzida para outra pessoa participante, que então classificará as

impressões de você que surgem à medida que a entrevista é tocada. A

classificação será feita em um painel eletrônico de 24 botões, cada um deles

carregando um adjetivo, como “irritante”, “inconstante”, “sensível” ou

“gentil”. Você pode ver as reações neste painel por meio de um cursor que

se desloca e clica em um novo botão a intervalos de dez segundos. Depois

de cada palavra de feedback, solicitam que você pressione um entre quatro

botões para indicar como se sente, de 1 (muito mal) a 4 (muito bem). A

grade de feedback, porém, na verdade é uma gravação com 45 adjetivos, 15

positivos (“inteligente”, “interessante”), 15 neutros (“realista”, “loquaz”) e

15 negativos (“maçante”, “superficial”), mostrados em ordem aleatória. O

objetivo é ver como seu cérebro reage quando você vê o cursor pairar sobre

“maçante” enquanto a gravação chega à parte em que lhe solicitam indicar

sua melhor qualidade. Assim, em essência, é um teste muito cruel.

Só para mostrar que os neurocientistas cognitivos sociais estão

antenados com a cultura, eles também pensaram em cenários do tipo Tinder

e Big Brother para fazer os participantes se sentirem mal.[18] Aos

participantes no escâner são mostradas fotos de pessoas que supostamente

cederam fotografias para serem curtidas ou descurtidas. Os participantes então são solicitados a “responder às pessoas com curtidas ou descurtidas”,

seguido de feedback de que resposta foi despertada por sua própria foto. A

rejeição social máxima é entendida quando uma reação de “curtir” de sua

parte recebe uma de “descurtir” de coparticipantes invisíveis.

Uma versão mais elaborada da tarefa de primeiras impressões

mencionada aqui foi baseada em um teste de seleção para o Big Brother, em

que as pessoas participantes eram levadas a acreditar que elas e outras duas

(invisíveis) eram classificadas por seis jurados sobre se tinham ou não as

características para seguir à próxima rodada (“o jurado David agora está

classificando você quanto à atratividade social”, ou “a jurada Suzanne agora

vai classificar você quanto à sensibilidade emocional”).[19] Como você deve

ter calculado (embora quem participou aparentemente nunca o tenha feito),

era uma armação, projetada para gerar reações cerebrais e comportamentais

quando alguém era classificado como “pior” ou “melhor” em alguma

característica socialmente atraente.

Então, como nosso cérebro reage a saber que somos maçantes, ou que

ninguém quer jogar conosco, ou a ver alguém deslizar para a esquerda em

vez de a direita quando confrontado com nosso perfil? Muitas respostas a

esta pergunta vieram do trabalho dos pesquisadores que conceberam a

tarefa Cyberball e o resultado causou uma bela agitação na comunidade de

neurociência cognitiva social, mas também fora dela. Estas descobertas

teriam consequências importantes para nossa compreensão do que

realmente significa a dor social para nós.

Parece que existem paralelos muito próximos entre o jeito como nosso

cérebro lida com a dor física e com a dor social.[20] Como se já não fosse

crueldade suficiente ter seu ego esmagado enquanto participa de um estudo

de imagem cerebral, às vezes, em nome da ciência, espera-se que você

sucumba a níveis crescentes de choque elétrico ou estímulo ao calor. Depois

lhe solicitam que classifique a experiência em graus que vão, neste último

caso, do eufemismo “calor confortável” a “nocivo”.

Duas áreas principais do cérebro são ativadas quando passamos por essas

experiências, o córtex cingulado anterior e a ínsula. O córtex cingulado é

uma daquelas estruturas de ligação no cérebro que ficam espremidas entre centros de controle emocional evolutivamente mais antigos e nosso córtex

de processamento de informações de alto nível, mais novo. Ele cerca o

corpo caloso, a ponte de fibras que conecta as duas metades do cérebro (que

conhecemos no Capítulo 1). A parte frontal (ou anterior) é encontrada

imediatamente atrás do córtex pré-frontal, com a parte de trás (posterior)

estendendo-se para os centros de controle emocional mais antigos. É

estruturalmente bem situado, então, para ligar essas áreas de controle

emocional com os sistemas de processamento de informações de alto nível

encontrados no córtex frontal – o que significa que o córtex cingulado

anterior (ou CCA, para resumir) parece ser um participante fundamental em

nossa vida social.

A ínsula tem uma ligação anatômica estreita com o CCA. É encontrada

dentro da longa dobra na lateral do cérebro e parece estar associada com

alguns julgamentos de valor sobre situações, principalmente relacionando-

os a sensações corporais (pense em estômago revirado, coração disparado,

palmas das mãos suadas) – o que não é insensato quando associadas com

um pesquisador dizendo à pessoa que está prestes a aumentar o estímulo de

calor a “nocivo”.

Repetidas vezes, os estudos mostraram que a dor física ativa as mesmas

redes da dor social. Você talvez esteja pensando, o que isso tem a ver com o

ser social? Em sua maioria, as atividades de grupo normalmente não

envolvem levar choques elétricos ou queimar seus conspecíficos. Mas

parece que, no curso da evolução de nosso impulso para sermos sociais, o

cérebro se constituiu com base em mecanismos de motivação existentes. A

fuga da dor real é uma das forças motivadoras mais poderosas do mundo,

levando-nos a esforços extraordinários para evitar ou escapar da fonte de

qualquer sofrimento. O fato de que a dor da rejeição social é impelida pelas

mesmas redes que fundamentam nossa experiência dessa dor mostra como

o impulso para ser social é central ao comportamento humano. A exclusão

ou a classificação como maçante pode ferir tanto quanto um choque

elétrico.

Nosso envolvimento em redes sociais reais parece tão essencial à nossa

sobrevivência que temos um mecanismo de “dor social”, que nos alerta para a necessidade de repensar nosso comportamento, mudar os planos, só para

que voltemos a nos envolver com nossos companheiros seres humanos.

 

Seu sociômetro

 

Parece que temos um “medidor” ou “sociômetro” interno, sintonizado para

monitorar como estamos nos saindo no jogo social, se temos aceitação ou

não da parte dos outros em nossas redes sociais reais preferidas, ou os

endogrupos, ou se existe a probabilidade de rejeição por parte deles.[21] A

autoestima é uma medida de nossa avaliação do sucesso social e é

monitorada por nosso sociômetro. Se tivemos um dia bom, com muito

feedback positivo de nossos pares, a autoestima é elevada e nosso

sociômetro diz “cheio”; se tudo que podia dar errado de fato deu e a batata

quente parece ter parado na nossa mão, então a autoestima afundará e nosso

sociômetro estará na faixa vermelha. O impulso para garantir que a

autoestima seja mantida no máximo é potente, como demonstrado por

nossas reações a cenários de rejeição social bem banais. Isto quer dizer que

as estruturas de “dor social” também podem fazer parte dos mecanismos

cerebrais que alicerçam o sociômetro – assim, precisamos dar uma olhada

mais atenta no CCA e em suas atividades.

O CCA parece agir como um sistema de sinais de trânsito em nossa rede

social real. O cérebro social precisa garantir que nem sempre soltemos

automaticamente as respostas que podem ser sinalizadas por nossos

circuitos mais antigos e mais impetuosos. Precisamos ter algum sistema

regulatório ou de “checagem” que possa pôr um freio em uma reação

emocional exagerada e considerar qual reação pode servir melhor a nossas

necessidades, e até (talvez seja socialmente mais relevante) às necessidades

dos outros. Às vezes o sistema precisará buscar as regras manifestas em seu

mundo e pode até precisar resolver um conflito.

Existem dois tipos de tarefa que os psicólogos experimentais

conceberam para demonstrar como nosso cérebro lida com informações conflitantes e como conseguimos dar um fim ao que é chamado de “reação

prepotente”. Um experimento chama-se tarefa de Go/NoGo [ou

aprovação/reprovação] – a pessoa precisa apertar um botão com a maior

velocidade possível quando vê um sinal, mas não apertar o botão quando

aparece outro sinal.[22] Isto é mais difícil do que se pode pensar. Um dos

games on-line que minha equipe de pesquisa jogou com crianças envolve

uma viagem intergaláctica em que elas têm de disparar um foguete quando

veem um alienígena por uma abertura, mas não devem disparar o foguete

quando veem um astronauta. Enquanto o desenvolvíamos, experimentamos

com colegas de laboratório. Basta dizer que, pelo futuro do universo,

torcemos para que não coloquem muitos pesquisadores de imagens do

cérebro encarregados de nenhum botão de arma nuclear!

O outro jogo traiçoeiro é chamado de tarefa Stroop.[23] Se a palavra

“verde” é escrita em verde e a pessoa é solicitada a dar o nome da cor da

palavra escrita, pode resolver isto com muita rapidez. Se, entretanto, a

palavra “verde” é escrita em vermelho, o ritmo da participante se reduz

drasticamente. Esta é uma medição de um efeito de interferência causado

por um descompasso entre as diferentes informações que são processadas,

ou as mensagens confusas que a pessoa pode estar recebendo do mundo.

Detectar conflitos como estes também parece estar no âmbito do CAA,

em sinergia com aquela parte dos lobos frontais ligada com nossa

identidade própria, o córtex pré-frontal medial. Você está em uma situação

em que realmente gostaria de realizar determinado ato, mas socialmente

seria mais aconselhável não (deixarei que imagine seu próprio exemplo...)?

O CCA vai pisar nos seus freios (ou não!). Isso ecoa seu papel nos

mecanismos de controle cognitivos, mudando de tática depois que um erro

foi sinalizado (avaliação do erro) ou reagindo a mensagens possivelmente

confusas ou contraditórias do mundo (monitoramento de conflito).

E a ínsula? Como sua habilidade de registrar sensações corporais está

ligada com o comportamento social? Ela parece ter um talento vasto para

marcar os aspectos positivos e negativos de muitos comportamentos

diferentes. Como foi resumido por um pesquisador, a atividade em sua

ínsula estará associada a um amplo leque de atividades, “da distensão intestinal e os orgasmos, a desejar um cigarro e o amor materno, e a tomar

decisões e ao insight súbito”.[24] (Você pode estar matutando que parte

destas atividades insulares é bem antissocial, mas felizmente a evolução

social também garantiu que os sistemas de controle físicos costumem

produzir reações adequadas para a situação social.)

Uma forma pela qual foi caracterizado o envolvimento insular no

comportamento social é a codificação da quantidade de incerteza nas

situações, ou o risco envolvido, e tomar decisões baseadas quase

literalmente em seu “instinto”.[25] E, em parceria com o CCA, ela identifica

as situações em que você deve seguir e aquelas as quais é melhor evitar.

Como uma das emoções associadas à ínsula é o nojo, passa a ser bem

compreensível o comportamento aversivo a risco, ou um precedente

Go/NoGo.

Os pesquisadores da UCLA, Lieberman e Eisenberger, investigaram até

que ponto o CCA e a ínsula podem fazer parte do sistema de sociômetro.[26]

Testaram isto com a tarefa de primeiras impressões delineadas

anteriormente, medindo as reações em fMRI a classificações descritivas

pela parceria invisível, ao mesmo tempo fazendo com que participantes sem

sorte classificassem de 1 a 4 como se sentiram com o feedback. O que se

revelou foi que quanto maior a ativação no CCA e na ínsula nesta tarefa,

mais baixa a autoestima relatada.

Mas será que isto foi somente desencadeado pela tarefa em si? Nosso

sociômetro neutro pode medir a chamada autoestima “característica”, as

diferenças individuais em como as pessoas costumam se sentir a respeito de

si mesmas? Isto foi testado por uma equipe japonesa em Hiroshima, usando

a tarefa Cyberball.[27] Inicialmente, as pessoas tinham de indicar como se

sentiam a respeito de declarações como “às vezes, acho que não sirvo para

nada” ou “Sinto que sou uma pessoa de mérito”. Depois eram divididas em

dois grupos, de autoestima alta e baixa. Embora os dois grupos tenham

mostrado o aumento habitual na ativação do CCA e da ínsula quando eram

excluídos do jogo, aquelas pessoas do grupo de autoestima baixa mostraram

uma ativação muito maior nesta fase de ostracismo. Os pesquisadores

também mostraram que o grupo de autoestima baixa tinha uma conectividade maior com o córtex pré-frontal, sugerindo que este “golpe a

mais em seu orgulho” era alimentado no sistema de identidade pessoal.

Por outro lado, outros estudos, desta vez usando a tarefa do tipo Tinder,

mostraram que se a pessoa recebe um feedback positivo, se ela foi curtida,

isto foi novamente sinalizado pela atividade no CCA, mas agora

acompanhada por atividade em outra parte do cérebro, o corpo estriado.[28]

O corpo estriado é uma fração mais antiga de nosso cérebro, parte de um

sistema de processamento de recompensas, e parece particularmente

orientado para dar feedback sobre o valor de um acontecimento. Se você

anteriormente “curtiu” um indivíduo cuja foto lhes foi apresentada no

escâner, seu corpo estriado estará muito mais ativo se este indivíduo

também curtir você. O corpo estriado também é ativado quando as pistas do

ambiente sinalizam que algo agradável está para acontecer, como, por

exemplo, um rosto atraente prestes a ser mostrado. Também fica ativo

quando uma dica parece ter sido mal interpretada e um rosto sem

atratividade aparece diante da pessoa. Isto é conhecido como um erro de

previsão de recompensa e tem paralelo com o tipo de codificação preditiva

delineado no capítulo anterior, inicialmente relatado no contexto de

processos cerebrais mais básicos, como a visão ou a audição.[29] Aqui

também há um elemento social; seu corpo estriado será mais ativo se,

digamos, você vencer um jogo quando outras pessoas estão assistindo.

Segundo o mesmo raciocínio, é provável que você dê mais dinheiro em um

jogo de caridade se outros estiverem assistindo, e isto é acompanhado por

uma atividade maior no corpo estriado.

Assim, parece que temos toda uma rede de sociômetros em

funcionamento. Situações que levam à estima social mais baixa resultarão

em atividade aumentada do CCA e da ínsula e uma baixa leitura em seu

sociômetro, enquanto um reforço na autoestima de um combo CCA/corpo

estriado levaria seu sociômetro de volta a uma leitura positiva.

Às vezes, uma autoimagem negativa nem sempre é associada com baixas

“pontuações” em algum sistema de classificação social, mas parece ter se

gerado sozinha. O status socioeconômico (SSE) pode ser um fator-chave

nos níveis de capacidade em habilidades como cognição espacial e linguagem, assim como algumas formas de processamento de memória e

emocional, mesmo quando outras características como o QI, o gênero e a

etnia são levados em consideração.[30] Este efeito também aparece no

cérebro, com evidências de tamanho reduzido em partes responsáveis pela

memória e a compreensão das emoções. É possível que estas diferenças

cerebrais reflitam aqueles aspectos do mundo que variam com o SSE, como

acesso à instrução formal, a riqueza da linguagem ambiental e também

fatores de estresse adicionais associados com a renda mais baixa, a dieta

mais pobre e o acesso limitado a assistência médica. Todos os fatores que

nossa consciência mais recente da plasticidade eterna do cérebro agora nos

levaria a chamar de elementos mundanos transformadores do cérebro.

É intrigante que um estudo de 2007 tenha mostrado que os autorrelatos

de status social subjetivo baixo também podem afetar estas partes do

cérebro.[31] Mostraram a participantes do estudo a imagem de uma escada

de classificação social, com o “melhor” em termos de dinheiro, instrução e

emprego no topo, e o “pior” na base. As pessoas tinham então de marcar

com um X o degrau que melhor descrevesse seu status atual. Os

pesquisadores descobriram que o tamanho do CCA – que, como vimos, é

importante na ligação de habilidades emocionais e cognitivas como o efeito

de cometer erros – variava mais como função do SSE percebido das pessoas

do que de seu SSE real. Em outras palavras, onde a pessoa sente que estava

na hierarquia também tinha associação com diferenças nas mesmas áreas

cerebrais.

Um estudo de meu próprio laboratório demonstrou que as atitudes

negativas e positivas em relação a nós mesmos se refletem em diferenças na

atividade cerebral.[32] As pessoas foram expostas a cenários “emocionais”,

como “Uma terceira carta seguida de rejeição a emprego chega pelo

correio” e são solicitadas a imaginar uma reação de autocrítica (“Não me

surpreende, eu sabia que nunca teria uma chance; sou um fracasso”) ou

tranquila (“Não me surpreende, a concorrência seria muito forte; sempre foi

um tiro no escuro”). A autocrítica estava associada com uma atividade

muito maior no CCA (de novo), enquanto padrões de ativação associados a

tranquilidade se concentravam mais nas áreas frontais do cérebro.

Assim, o CCA não é necessariamente um intermediário imparcial nos

acontecimentos no cérebro social e pode estar associado, pelo menos em

algumas pessoas, com leituras desnecessariamente baixas no sociômetro.

 

Nós e eles

 

Da mesma forma que o senso de self pode ser medido em um escâner,

também pode ser o senso do “outro”, envolvendo o mesmo tipo de tarefa,

usando adjetivos ou histórias, mas desta vez indaga-se ao participante como

o outro é ou o que faria.[33] Não surpreende que exista uma sobreposição

muito próxima entre as áreas envolvidas nestes dois tipos de avaliação, com

o córtex pré-frontal medial como um elemento-chave. Mas o processamento

social é primorosamente sintonizado nesta parte de nosso cérebro, e os

pesquisadores mostraram que julgamentos do “eu” e dos “outros” ativam

partes ligeiramente diferentes de nosso córtex pré-frontal medial. Assim,

esta parte fundamental do ser social é apoiada por uma rede de sintonia

muito fina, garantindo que tenhamos feedback constante sobre nós e como

nos combinamos com aqueles que nos cercam.

Como esta associação em grupo parece ter sido essencial à nossa

sobrevivência e nosso progresso em termos evolutivos, evidentemente é

importante que sejamos bons no reconhecimento de quem faz parte de

nosso endogrupo e também que tenhamos certeza de fazermos as coisas

certas para garantir sua sobrevivência. Acontece que os seres humanos e

seus cérebros são categorizadores inveterados e têm uma miríade de

maneiras de colocar a si mesmos e os outros em grupos – seja por idade,

etnia, time de futebol, status social ou, naturalmente, gênero.[34] E este não

é apenas um exercício de rotulagem; a dimensão “nós” versus “eles” pode

mudar todo tipo de processo social. O precedente que o cérebro

estabelecerá refletirá o que parece ser uma das partes mais importantes de

nosso comportamento social, distinguindo endogrupo de exogrupo.

Um estudo mostrou que mesmo que você divida as pessoas

aleatoriamente em time azul e time amarelo, e as façam distribuir dinheiro

ou a integrantes de seu próprio time, ou aos do time de outra cor, houve

mais ativação na rede de identidade pessoal quando elas alocaram dinheiro

para o próprio grupo do que quando o entregaram aos outros.[35] O

laboratório de James Rilling, em Atlanta, também mostrou que os

indivíduos que foram aleatoriamente atribuídos a um grupo Vermelho ou a

um grupo Preto, com base em um falso teste de personalidade, mostravam

diferentes padrões de atividade cerebral durante o jogo de cooperação se os

parceiros fossem membros da mesma equipe, do que se pertencessem a um

time diferente.[36]

As áreas do cérebro ativadas durante a tarefas de categorização social se

sobrepõem estreitamente com aquelas envolvidas nas reações de identidade

“eu” e “outro”, em particular no córtex pré-frontal medial. Assim, os grupos

a que sentimos pertencer são mais estreitamente ligados à nossa identidade

pessoal, o que significa que como aqueles grupos são percebidos, por eles e

pelos outros, se tornará estreitamente enredado com a visão que temos de

nós mesmos.

Porém, precisamos mais do que um sistema de reconhecimento do

“outro”, se quisermos interagir com eles socialmente. Como indivíduos,

você será muito competente para saber o que pensa, o que sabe sobre a

situação em que se encontra, o que pode pretender fazer no dia de hoje. Isso

é conhecido como compreensão de seu próprio “estado mental”.

Naturalmente, entender o que os outros estão pensando ou quais são suas

intenções é um processo muito mais complicado e fundamental em nosso

comportamento social. Requer que de algum jeito consigamos entrar na

cabeça dos outros, que nos tornemos “telepatas”, que possamos

“adivinhar”; em outras palavras, que tenhamos o que é chamado de uma

“teoria da mente”.[37] Tarefas em scan como desenhos animados e

pegadinhas que lhe pedem para inferir o que está acontecendo ao ver o

comportamento dos outros, ou mesmo vendo se podemos prever o

comportamento dos outros participando de jogos como pedra-papel-tesoura,

ativarão o córtex pré-frontal medial e o CCA.[38] Estes estão ligados a uma área do cérebro chamada de junção temporoparietal (felizmente abreviada

como JTP), que parece estar envolvida com a compreensão e a

decodificação do movimento dos outros, um “detector de intencionalidade”.

Há até uma sugestão de que parte de nosso repertório social é um

“sistema especular” embutido no cérebro. Se assistimos alguém fazer um

movimento, então as mesmas partes do cérebro se tornam ativas quando

fazemos o movimento nós mesmos.[39] Sugeriu-se que o mesmo processo

pode acontecer se tentarmos interpretar diferentes emoções ao analisar as

expressões faciais ou outras dicas não verbais das pessoas. Nosso próprio

espelhamento interno dos diferentes movimentos faciais associados com a

felicidade ou a tristeza nos permite “entender” se a pessoa a quem pertence

o rosto se sente feliz ou triste.[40]

Alegou-se inicialmente que esta era a base geral da empatia, mas agora

está mais ligado à nossa decodificação dos sentimentos dos outros em vez

de partilhar sua “cor emocional”; é mais um processo “Entendo sua

situação” do que “Partilho de sua dor”.[41] Embora possamos obter uma

compreensão dos chamados roteiros sociais com habilidades cognitivas de

alto nível, também seria necessário um mecanismo de compartilhamento

emocional para tornar o processo verdadeiramente social.

A ideia de o cérebro ter um sistema de espelhamento que nos permite

realizar simulações do que os outros fazem para entender por que estão

fazendo aquilo ou como se sentem provou-se atraente a muitos

neurocientistas cognitivos sociais. O trabalho demonstrando os estreitos

paralelos entre padrões cerebrais quando estamos vivendo uma emoção

(como o nojo ou a tristeza) e quando a estamos observando nos outros

mostra-se uma fonte poderosa de apoio à ideia do sistema de espelhamento.

[42] Atualmente, quase todo modelo de cérebro social que podemos tomar

incorpora um sistema como este.

E quais são as bases cerebrais deste sistema de espelhamento? Envolve a

JTP, permitindo-nos descobrir quais podem ser as intenções do outro. Por

exemplo, existe alguém correndo na minha direção – a pessoa aproxima-se

de mim de um jeito ameaçador, ou pode ser porque estou parada debaixo de

um toldo e começa a chover? Enquanto tentamos entender isto, partes de nosso sistema motor e do córtex pré-frontal estarão ajudando. A codificação

afetiva adequada parece vir da ativação da ínsula anterior, do CCA e, de

novo, de partes do córtex frontal.

Assim, temos um sistema de radar social complexo e sofisticado,

constantemente decodificando sinais sociais, avaliando erros, atualizando

informações sobre nossos vários selves e sobre aqueles que nos cercam,

representando roteiros sociais e interpretando os cenários sociais em que

nos vemos envolvidos. Nossa antena social está sempre em movimento,

captando as regras do engajamento social, examinando o mundo em busca

de orientação sobre qual é e qual não é nosso lugar, e quem faz parte ou não

dos grupos sociais com que nos identificamos, ou queremos nos identificar.

 

Estereótipos

 

As informações que nossos cérebros sociais buscam nem sempre serão um

perfil muito detalhado e nuançado de cada indivíduo ou situação que

encontremos. Na verdade, é muito mais provável que seja um esboço

abreviado e genérico de “pessoas como eu” ou “pessoas como eles”. Assim,

as informações que entram em nosso satélite de navegação social talvez não

sejam inteiramente precisas e podem até ser enganosas. Dou-lhes as boas-

vindas ao mundo dos estereótipos e do preconceito.

Os estereótipos são definidos pelo Oxford English Dictionary como

“uma imagem ou ideia de determinado tipo de pessoa ou coisa que se

tornou fixa por ser amplamente sustentada”. O pressuposto é de que cada

integrante de determinado grupo mostrará as características que

supostamente são típicas daquele grupo. Frequentemente essas

características são negativas – escoceses são muquiranas, docentes cabeças-

de-vento, pessoas louras são avoadas – e às vezes se referem a determinadas

habilidades ou à falta delas. As mulheres não sabem fazer contas ou ler

mapas; os homens não choram e não perguntam como chegar a certo

endereço.

Qual é o grau de ligação entre as atividades de nossa rede cerebral social

e este registro de preconceitos e estereótipos que, gostemos ou não, podem

prontamente ser encontrados no mundo? Com que profundidade esse tipo

de informação pode estar incorporado no sistema que é a base de nossa

identidade pessoal, nossa associação a grupos e todas as interações que

teremos por toda a vida?

Existem evidências de que o cérebro processa as categorias sociais

associadas com estereótipos de forma diferente do modo como processa

outros conhecimentos semânticos mais gerais. Em um estudo, durante scan

em fMRI, quem participou recebeu uma tarefa de conhecimento semântico.

[43] Mostraram-lhes um rótulo de “características”, como “vê comédias

românticas”, ou “tem seis cordas”, ou “cresce no deserto”, ou “consome

mais cerveja”. As pessoas tinham de combinar isto com um par de rótulos

de “categoria social” (como “homens” ou “mulheres”, “gente de Michigan”

ou “de Wisconsin”, “adolescentes” ou “banqueiros de investimento”,

“lutadores de sumô” ou “professores de matemática” – tem-se a impressão

de que os pesquisadores se divertiram ali) –, ou rótulos de “categoria não

social” (como “violinos” ou “violões”, “tornados” ou “furacões”, “limas”

ou “amoras”). A ideia era ver se a informação transmitida pelos rótulos e

pelas características não sociais era processada nas mesmas áreas do

cérebro daqueles sociais. O questionamento sobre violões ou violinos tendo

seis cordas ativava as áreas padrão da linguagem e da memória, nos lobos

frontal e temporal. A ativação nestes depósitos de “conhecimentos gerais”

também era vista com as categorias sociais, mas havia um processamento

adicional elaborando os fatos básicos. As escolhas sociais sobre gente de

Wisconsin ser “quadrúpede” ou “ficar vermelha quando bebe álcool”

envolvia aquelas áreas do cérebro mais comumente ativadas por tarefas do

tipo teoria da mente, inclusive o córtex pré-frontal medial e a JTP, em

conjunção com atividades de avaliação de si e dos outros pela amígdala.

Assim, embora alguns aspectos das informações sociais possam ser

armazenados em uma base de conhecimento “neutra”, são processados

separadamente e “marcados” com inferências sobre o que se pode esperar

de membros de uma categoria específica, sejam positivas ou negativas, coerentes ou incoerentes com os padrões do endogrupo, e como se

relacionam com nosso senso de identidade.

As consequências de atitudes no mundo podem alterar a estrutura e a

função cerebrais. A interseção de estereótipos e da autoimagem nos diz algo

sobre como o que acontece em nosso cérebro social pode interferir em

nossos processos cognitivos. Se nosso portfólio de autoimagem inclui a

associação a um grupo negativamente estereotipado, então a ativação deste

fato em particular pode produzir a profecia autorrealizável ou efeitos de

“ameaça do estereótipo” que vimos no Capítulo 3.

A ameaça do estereótipo funciona no nível pessoal, mas também é um

desafio à identidade social da pessoa, porque dá evidências de que a

categoria social a que pertencemos é negativamente avaliada pelos outros.

[44] Também se sugeriu que as pessoas lutam em situações de ameaça do

estereótipo porque elas começam a pensar demais nos problemas com que

se deparam. Consumirão grande parte de seus recursos cognitivos no

automonitoramento e na verificação de erros, assim como sofrerão dos

efeitos a mais do estresse induzido pela sensação de serem julgadas, das

expectativas negativas de seu desempenho.[45] Estudos de imagem do

cérebro sobre o efeito da ameaça do estereótipo mostram que ela tem

correlatos neurais específicos, coerentes com o envolvimento de regiões

associadas com o processamento social e emocional (inclusive, de novo, o

CCA) em vez daqueles que teriam sido mais adequados para a tarefa em si.

[46]

Maryane Wraga, neurocientista cognitiva do Smith College nos Estados

Unidos, demonstrou a ameaça e o efeito lift do estereótipo em uma série de

estudos. [47] Concebeu uma versão da tarefa de rotação mental em que as

pessoas participantes ou têm de imaginar a rotação de uma forma com um

desenho em um ponto específico de modo que se encaixe em um ponto de

observação (tarefa de rotação de objeto), ou imaginam “girar” elas mesmas

a um local atrás do ponto de observação (tarefa de autorrotação). Depois,

precisam decidir se ainda seriam capazes de ver o desenho. A versão de

rotação de objeto foi descrita como aquela em que os homens se saíram

melhor; a tarefa de autorrotação, como uma forma de ter perspectiva, em que as mulheres se saíram melhor, de modo geral. Wraga relatou que em

versões “neutras” das tarefas, as mulheres ainda tiveram um desempenho

abaixo da média dos homens. Mas se dissessem que as mulheres

costumavam se sair melhor nesse tipo de tarefa, esta diferença desaparecia,

mostrando o efeito lift do estereótipo. Do mesmo modo, se dissessem aos

homens que a tarefa era uma luta para os homens, eram eles que cometiam

mais erros.

Em seguida, ela repetiu o estudo em um escâner de fMRI com três

grupos de mulheres.[48] Aquelas com mensagens positivas se saíram

significativamente melhor do que as da versão negativa, que se saíram pior

do que um terceiro grupo que recebeu mensagens neutras. Isto também se

refletiu nos padrões de sua ativação cerebral; aquelas que tiveram

mensagens positivas e melhor desempenho mostraram mais ativação nas

partes do cérebro apropriadas para a tarefa, as áreas que lidavam com o

processamento visuoespacial. O grupo que recebeu a mensagem negativa e

teve o pior desempenho mostrou mais ativação naquelas áreas que lidam

com o processamento de erros (nosso velho amigo, o córtex cingulado

anterior, de novo). A sugestão é de que a ameaça do estereótipo traz um

fardo a mais à tarefa – é ativado o sistema de avaliação de erros no cérebro

atormentado, a ansiedade mobiliza o sistema de regulação das emoções e os

recursos atencionais são desviados.

É interessante observar que podemos identificar as mudanças cerebrais

associadas com a aquisição ou a absorção de um estereótipo e também

mostrar como nosso cérebro reage quando há uma desconexão entre a

expectativa criada por esse estereótipo e o que acontece na realidade. Em

um estudo de Hugo Spiers, da University College London, e sua equipe, os

participantes receberam diferentes tipos de informação sobre grupos

fictícios, algumas boas (como “deram um buquê de flores à mãe”) e

algumas ruins (como “roubou uma bebida de uma loja”).[49] A distribuição

desses fragmentos foi “fixa”, e assim, aos poucos, um grupo acumulava

mais pontos bons e outro, mais pontos ruins. Os pesquisadores conseguiram

identificar, em um ensaio após outro, como se formavam os estereótipos

negativos sobre os “bandidos” e os “mocinhos”.

Como vimos antes, o banco de memória social estereotipante é

parcialmente associado com atividade no lobo temporal, uma área associada

com a memória em geral, e também com determinados aspectos da

linguagem. Se fôssemos solicitados a indicar se homens ou mulheres teriam

“maior probabilidade de gostar de comédias românticas”, ou se o

“atletismo” era mais característico de indivíduos negros ou brancos, quem

se tornaria ativo seria o lobo temporal. Acontece que nosso cérebro presta

muito mais atenção às coisas ruins enquanto forma um quadro de um grupo;

informações negativas da variedade “eles-roubam-bebidas” foram

processadas muito mais ativamente enquanto o cérebro criava o perfil

desses novos grupos.

Em consonância com nosso modelo cerebral como nosso guia pela vida

ao conceber modelos com os quais comparar os acontecimentos da vida,

houve uma forte reação quando uma informação inesperada era relacionada

a um grupo. Era muito mais forte quando a informação contrariava um

estereótipo negativo emergente – um bandido comprando flores para a mãe,

por exemplo – em comparação com a reação ao mesmo tipo de transgressão

de um mocinho. A rede que mostrou mais atividade a este “erro de

previsão” foi encontrada nas áreas frontais do cérebro, em uma parte da

rede social cerebral que se torna ativa quando uma tarefa envolve atualizar

impressões do comportamento dos outros.

Assim, nosso cérebro não só é mudado por dados concretos a respeitos

de visões e sons no mundo, ou por experiências e acontecimentos muito

específicos; ele absorve e reflete as atitudes e expectativas daqueles que nos

cercam.

Mostramos como nosso cérebro preditivo pode gerar padrões para nos

guiar pelo mundo. Da mesma forma, esse cérebro usará as informações

sociais que permeiam o mundo para definir os modelos sociais, não só

sobre o que devemos esperar dos outros, mas também do que devemos

esperar de nós. Os estereótipos são transformadores do cérebro e, como

veremos, dão uma orientação extraordinária na determinação do ponto final

de nosso comportamento e de nosso cérebro.

Assim, temos conjuntos complexos de redes em operação que nos

permitem nos tornar seres sociais, assumir nosso lugar nas arenas sociais.

Parece ser uma parte fundamental de nossa sobrevivência que estejamos

constantemente envolvidos em “fazer o jogo social”, monitorando o que

acontece à volta, aprendendo e reaprendendo as regras sociais do

engajamento. Evitar a rejeição social ou certificar-se de que se faz o que é

certo para ser socialmente aceito é um pano de fundo constante para o

engajamento do cérebro com o mundo e pode comprometer seus recursos

de processamento mais continuamente do que outras atividades mais

“cognitivas”.

A posse dessa poderosa rede social cerebral foi aclamada como a base de

nosso sucesso evolutivo: nossa capacidade de cooperar, alterar o

comportamento para nos encaixarmos nas normas sociais dos grupos em

que operamos, desenvolver uma identidade pessoal que se coadune com

quem nos cerca.[50] Mas é preciso soar um alerta: nossa compreensão das

regras de engajamento social, que determinam nosso lugar no mundo e

nossa jornada por ele, podem se basear em informações tendenciosas, em

diretrizes que não combinam mais com os fins pretendidos (se é que um dia

combinaram). Examinar como essas regras parecem diferentes para

meninas e meninos, mulheres e homens, pode revelar que este importante

avanço evolutivo não serviu bem aos dois sexos.

Mas quando é que tudo isso começa? Sempre soubemos que os

primeiros anos são uma época de enorme plasticidade do cérebro, que

fundamentam todas as habilidades necessárias que nossos bebês humanos

indefesos têm de adquirir.[51] As mudanças físicas que acontecem nos

cérebros dos bebês desde o momento do nascimento (e mesmo antes) são

espantosas; coerentes com nossa compreensão da importância da

conectividade no cérebro, agora sabemos que a maior parte destas

mudanças é associada com o estabelecimento de muitíssimas vias

diferentes, até mais, na verdade, do que esses bebês aprenderão quando

adultos. As habilidades básicas de sobrevivência vêm com muita rapidez;

sabemos que os bebês logo aprendem a entender as informações sensoriais

e perceptivas em seu mundo e começam a se mover com eficiência por ele. Mas estamos começando a entender que esses humanos minúsculos, que

parecem tão indefesos ao nascimento, na verdade são coletores altamente

sofisticados e ávidos por regras que, com seu cérebro plástico, flexível e

moldável, são muito mais concentrados do que pensamos no aprendizado de

regras de engajamento social em seu mundo. E que eles começam cedo,

muito cedo mesmo.