Gênero e os Nossos Cérebros

Gina Rippon · Capítulo 8 de 46

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Gênero e os Nossos Cérebros

3. A ascensão da psicobaboseira

CAPÍTULO 3:

 

A ASCENSÃO DA PSICOBABOSEIRA

 

O surgimento da psicologia no século XX nos deu outro caminho a

explorar na busca pelas diferenças sexuais. Como esta nova ciência

informou nossa compreensão dos cérebros e do comportamento de homens

e mulheres?

Helen Thompson Woolley, ela mesma psicóloga e pioneira nos estudos

de diferenças de gênero, resumiu em 1910:

 

Talvez não exista campo que aspire a ser científico em que o viés pessoal flagrante, a

lógica martirizada em apoio a um preconceito, afirmações infundadas e até disparates

sentimentais tenham rédeas tão soltas como neste.[1]

 

Isso é espelhado pelas palavras de Cordelia Fine, que diz em 2010:

 

Mas quando seguimos a pista da ciência contemporânea, descobrimos um número

surpreendente de hiatos, pressupostos, incoerências, metodologias fracas e saltos de fé

– assim como vários ecos do passado insalubre.[2]

 

Estas duas declarações incisivas sobre os estudos de diferenças sexuais e

de gênero na psicologia, com exatos cem anos de diferença, sugerem que a

única disciplina que deveria poder lançar alguma luz objetiva na questão

tensa das diferenças em aptidão, capacidade e temperamento, apoiada por

alguns dados empíricos dignos, interpretados objetivamente, não

correspondeu a essas expectativas.

O envolvimento da psicologia com a história da caçada às diferenças

sexuais compreende duas contribuições principais. A primeira tem relação

com o surgimento da teoria da evolução, enfatizando nossa capacidade de

adaptação como a base para nosso sucesso passado e continuado. No fundo,

uma teoria sobre as diferenças individuais em características biológicas, a evolução rapidamente estendeu seu alcance a explicações não só das

diferentes habilidades individuais, mas também das funções de distintos

papéis sociais, determinados por diferenças na biologia. Uma linha dizia

que as diferenças sexuais tinham sua finalidade e era papel dos teóricos da

evolução explicá-la.

O segundo é o papel da disciplina emergente da psicologia experimental,

com sua ênfase em dados numéricos. Desconfortável com a natureza

anedótica de estudos de caso e observações clínicas iniciais, surgiu uma

“indústria” da psicometria, desenvolvendo testes e questionários complexos

para gerar pontuações numéricas a serem ligadas não só a medições de

capacidade, mas também a conceitos bem mais amorfos, como

“masculinidade e feminilidade”. O jogo dos números conferia um verniz de

objetividade à lista confiável das diferenças sexuais que estavam gerando.

 

A evolução da evolução

 

A publicação de A origem das espécies, de Charles Darwin, em 1859, e de

A descendência do homem[3], em 1871, proporcionou todo um novo

arcabouço para explicar as características humanas. Estas obras

revolucionárias deram insights sobre a origem biológica das diferenças

individuais, físicas e mentais, e naturalmente eram a fonte ideal de

explicações das diferenças entre homens e mulheres. E, é claro, Darwin

abordara especificamente estas questões por meio de sua teoria da seleção

sexual, efetivamente sobre a dança da atração sexual e a escolha de

parceiros. Os integrantes de um sexo exibem seus predicados para atrair um

parceiro, e os do sexo oposto escolhem segundo um conjunto de critérios

específicos da espécie – olhos na cauda, se você for um pavão, coaxar mais

grave, se você for um sapo –, que supostamente sinalizam sua “aptidão

reprodutiva”. Os predicados em seres humanos podiam incluir equipamento

físico de primeira linha, mas também os comportamentos associados e tipos

de caráter – competitivo e combativo para os homens, submisso e conciliatório para as mulheres. Da mesma forma, existiam diferenças

fundamentais nos papéis em seu conjunto associado de habilidades; o

macho dominante exigia maior força e superioridade intelectual necessários

para enfrentar o mundo, enquanto as fêmeas do lar só precisavam de “calmo

amor materno e uma serena vida doméstica”.[4]

Darwin afirmou com clareza que a única diferença fundamental entre

homens e mulheres era que as mulheres, em virtude de serem menos

altamente evoluídas do que os homens, eram membros inferiores da raça

humana. É de fato arrepiante pensar que o autor de uma das teorias

científicas mais importantes tivesse essas opiniões sobre metade da

população que estudou:

 

A principal distinção nas capacidades intelectuais dos dois sexos é exibida pelo homem

que atinge uma eminência superior, qualquer que seja sua ocupação, do que as mulheres

podem atingir – quer exija pensamento profundo, raciocínio ou imaginação, ou

meramente o uso dos sentidos e das mãos.[5]

 

Com relação às diferentes funções que homens e mulheres podiam ter na

sociedade, as opiniões de Darwin eram de que a capacidade reprodutiva das

mulheres era o principal fator determinante para seu lugar na hierarquia.

Como processo fisiológico fundamental, mas básico, não exigia os atributos

mentais superiores que a evolução conferiu aos homens; efetivamente, a

preocupação dele era que qualquer tentativa de expor a fêmea da espécie às

demandas de qualquer educação formal ou independência pudesse

prejudicar este processo.

Darwin nem mesmo se incomodou com as sutilezas da

complementaridade, uma visão (vimos no Capítulo 1) baseada na ideia de

que os papéis dos homens e das mulheres na sociedade eram determinados

por certos traços herdados, sendo a natureza gentil, carinhosa e suavemente

prática das mulheres o perfeito reflexo para a persona poderosa, pública e

intensamente racional característica dos homens. Embora um pouco mais

cortês que a perspectiva darwinista, não devemos ter a ilusão de que este foi

o alvorecer de algum progresso rumo à igualdade de gênero:

A ideia da complementaridade – isto é, a crença de que os traços, os pontos fortes e

fracos de um grupo são compensados ou aprimorados pelos traços e pontos fortes e

fracos de outro – é um meio excepcionalmente potente de manter as desigualdades de

poder entre os grupos, porque indica que qualquer percepção de desigualdade é ilusória

e que a verdadeira base para a discriminação entre os grupos é fundamentada nas forças

e fraquezas relativas de cada grupo.[6]

 

Enquanto revisava a contribuição da psicologia para a construção de

diferenças de gênero no final do século XIX, a psicóloga Stephanie Shields

escreveu sobre esta armadilha da complementaridade e mostrou como ela

passou a ser ligada à teoria da evolução e depois usada como justificativa

para a existência de hierarquias sociais. Um grande foco estava no papel das

mulheres como mães e donas de casa, o que significava que eram

necessárias por serem carinhosas, erráticas e capazes de se concentrar em

detalhes cotidianos, o que aparentemente as tornava incapazes de

pensamento abstrato, criatividade, objetividade e imparcialidade

necessários ao grande pensamento e à realização científica.

Emocionalmente, era mais provável que as mulheres fossem sensíveis e

instáveis quando comparadas com a força passional dos homens, evidente

no ímpeto para a realização, a criação e a dominação.[7]

Este aspecto da contribuição da psicologia para o estudo das diferenças

sexuais não se baseava em nenhuma medição, mas em opiniões

verbalizadas por gente como Herbert Spencer e Havelock Ellis. Como

observa acerbamente Shields: “É desnecessário dizer que as listas de traços

atribuídos a cada sexo não derivaram de pesquisa empírica sistemática, mas

recorreram fortemente ao que já se acreditava como verdade a respeito de

mulheres e homens.”[8]

A ideia da complementaridade persistiu e encontrou lar no campo da

psicologia evolucionista, disciplina surgida no século XX que funde as

bases biológicas da sociedade com o estudo das características psicológicas

humanas.[9] Supõe-se que o comportamento humano é composto de muitos

conjuntos de funções, ou “módulos”, e cada um deles evoluiu para resolver

uma espécie de problema que podemos encontrar em qualquer fase da vida.

Isto foi chamado de modelo “canivete suíço” da mente, com milhares de componentes especializados, cada um deles garantido por estruturas

cerebrais associadas, que surgiram ao longo do tempo evolutivo, segundo a

necessidade.[10] E parece que existem dois tipos de canivete: um (cor-de-

rosa, presumo) equipado com as ferramentas para tranquilizar, administrar o

lar, criar os filhos, tarefas para a fêmea da espécie, enquanto o outro (um

azul-marinho marcial), além de ser maior e mais resistente, tem o essencial

para a vida de atirar lanças, do poder político e do gênio científico que

formam o quinhão do macho da espécie.

Os psicólogos evolucionistas colocam-se firmemente sob a rubrica de

cientistas-como-explicadores-do-status-quo. Efetivamente, eles retrocedem

do que parece ser um fato estabelecido hoje em dia; encontram uma

explicação na história evolutiva que se encaixe neste fato e a apresentam

como a justificação para o status quo. Um exemplo que encontraremos

adiante é da suposta preferência das mulheres pelo rosa, referida pelas

neurocientistas visuais Anya Hurlbert e Yazhu Ling em 2007.[11] A

explicação psicológico-evolutiva que elas dão é de que, como a metade que

coleta de uma equipe de caçadores-coletores, as mulheres evoluíram uma

preferência diferencial pelo rosa para que estivessem melhor equipadas para

encontrar frutos silvestres, em comparação com a outra metade caçadora de

mamutes, mais sintonizada com a extremidade azul do espectro, que lhes

permite correr os olhos com eficácia pelo horizonte. Além disso, os homens

são melhores na corrida (para seguir os ditos mamutes) e em tarefas

visuoespaciais, como orientar o arremesso da lança (para matar o dito-cujo).

Uma mensagem fundamental que recebemos da psicologia evolucionista

é que nossas capacidades e características comportamentais são inatas,

biologicamente determinadas e (agora) fixas (mas não fica tão claro por que

as habilidades que eram patentemente flexíveis e adaptativas no passado

agora se tornaram imutáveis). Embora a necessidade destas habilidades e

capacidades esteja em nosso passado evolutivo, elas ainda podem ter

consequências para nossa vida no século XXI.

Empatizadores e sistematizadores

 

Uma teoria psicológica contemporânea que tem um pé (para falar a

verdade, provavelmente os dois) no campo da psicologia evolucionista é a

teoria empatizador-sistematizador de Simon Baron-Cohen, mencionada

brevemente no capítulo anterior.[12] Baron-Cohen designa estas duas

características como as forças propulsoras do comportamento humano.

Empatizar é a necessidade (e capacidade) de reconhecer os pensamentos e

emoções dos outros e reagir a eles, não só no nível do tipo catalogador-

cognitivo, mas em um nível afetivo, em que qualquer emoção dos outros

desencadeia uma reação correspondente, tornando compreensível e

previsível o comportamento desses outros. É a capacidade de sintonizar

com os sentimentos dos outros que Baron-Cohen chama de “um salto de

imaginação para a cabeça dos outros”;[13] é natural, não exige esforço e é

essencial para a comunicação eficaz e as redes sociais reais. Sistematizar,

por outro lado, é um impulso para “analisar, explorar e construir um

sistema”,[14] sentir-se atraído a acontecimentos ou processos baseados em

regras, ou até precisar deles, tornar seu mundo previsível pela extração de

princípios organizacionais do que acontece a sua volta.

À moda da verdadeira psicologia evolucionista, a origem destas

características aparentemente está em nosso passado ancestral e sua

existência continuada nos seres humanos do século XXI tem implicações

para quem faz o quê. Características de empatizar e sistematizar claramente

foram distribuídas e canalizadas segundo linhas de gênero. De acordo com

Baron-Cohen, o empatizar ajudou nossas ancestrais a criar redes de

cuidados das crianças para garantir que as futuras gerações fossem bem

nutridas, sustentou sua tendência a formar grupos de fofoca para garantir

que elas estivessem a par de qualquer circuito de informações úteis e as

ajudou a se adaptar a conspecíficos geneticamente não relacionados (em

outras palavras, “contraparentes”).[15] Com relação ao que isto significa

para as empatizadoras de hoje, Baron-Cohen nos informa, como um

consultor vocacional: “As pessoas com o cérebro feminino dão as mais

maravilhosas conselheiras, professoras primárias, enfermeiras, cuidadoras, terapeutas, assistentes sociais, mediadoras, coordenadoras de grupos ou

gestoras de pessoas”.[16]

E as pessoas sistematizadoras? Seu jeito de lidar com o mundo as torna

competentes na elaboração de, por exemplo, que tamanho deve ter uma

flecha e como fixar melhor uma lâmina de machado, regras para rastrear

animais e a previsão do tempo, e as leis dos sistemas de posições sociais

(para alcançar a maior altitude possível nelas). Sua falta associada de

empatia as torna competentes para matar membros de outras tribos (ou

membros da própria tribo, se atrapalharem a subida na escada social). Sem

perder tempo com as sutilezas sociais associadas com ser empático, também

significa que podem ser um “solitário adaptativo”, “satisfeito em fechar-se

[em si mesmos] por dias sem muita conversa, a se concentrar longa e

profundamente no sistema que era o projeto corrente [deles]”.[17] Em

termos atuais, isto aparentemente faria dos sistematizadores “os mais

maravilhosos cientistas, engenheiros, mecânicos, técnicos, músicos,

arquitetos, eletricistas, encanadores, taxonomistas, cataloguistas,

banqueiros, ferramenteiros, programadores ou até advogados”.[18]

É fácil detectar mais do que um sopro de complementaridade aqui: as

tendências marciais e a inventividade altamente focalizada de um grupo

perfeitamente amparadas por sua equipe de apoio atenciosa com sua rede de

contatos. Não tem sentido conjecturar quem termina ganhando um salário

mais alto nesta hipótese.

Mas como sabemos se uma pessoa é empatizadora ou sistematizadora?

Uma teoria psicológica contemporânea, embora tenha base no passado

evolutivo, deve ter meios de gerar alguma medição objetiva destas

caraterísticas ou traços em qualquer indivíduo ou grupo de indivíduos. O

laboratório de Baron-Cohen gerou sua própria medição da empatia,

conhecida como o Quociente de Empatia (ou QE), e de sistematização, o

Quociente de Sistematização (ou QS), por meio de questionários

autorrelatados consistindo em uma série de declarações com que os

participantes tinham de indicar sua concordância ou divergência.[19] As

declarações do QE incluem itens como “Gosto muito de cuidar dos outros”

e “Se eu vir um estranho em um grupo, penso que cabe a ele fazer um esforço para se integrar”; enquanto as declarações do QS incluem “Quando

viajo de trem, costumo imaginar exatamente como as ferrovias são

coordenadas” e “Não tenho interesse pelos detalhes de taxas de câmbio,

taxas de juros, ações e participações” (é claro que a resposta à última é

“discordo fortemente”, para quem é do tipo S). Também há versões infantis

destes testes, ou melhor, versões respondidas pelos pais, em que um genitor

classifica sua concordância com declarações como “Meu filho não se

importa se as coisas na casa não estão no lugar certo” ou “Quando brinca

com outras crianças, meu filho se reveza espontaneamente e divide os

brinquedos”.[20] A combinação das pontuações é uma forma de gerar um

perfil de empatizador ou sistematizador. Estudos usando este teste indicam

que, em média, é mais provável que as mulheres tenham um perfil de

empatizadoras e os homens, de sistematizadores.

Você notará que estas medições, na verdade, dependem das opiniões de

cada pessoa sobre si própria (ou de como são seus filhos). Podemos refletir

sobre quantos pais calmamente marcam os quadradinhos que rotulariam a

prole como ladrões antissociais de brinquedos. O problema com esse tipo

de autorrelato é geral, e voltaremos a ele adiante, mas vale a pena

considerar esta ideia com um pouquinho de ceticismo quando lemos sobre

as pontuações de pessoas QE ou QS.

Para testar a validade destas medições autorrelatadas, é preciso encontrar

um exemplo desse tipo de comportamento ou habilidade relevante que se

pode prever a partir de uma pontuação QE alta ou uma pontuação QS baixa,

ou qualquer mistura das duas e ver o quanto as duas medições batem. Em

outro teste do laboratório de Baron-Cohen, mostram imagens sem corpo de

um par de olhos, junto com quatro palavras descritivas como “inveja”,

“arrogância”, “pânico” ou “ódio”.[21] É preciso então escolher a emoção

mostrada por estes olhos. Quando nos saímos bem nisto, claramente somos

bons no reconhecimento das emoções, uma parte fundamental da empatia.

Assim, uma alta pontuação QE deve se correlacionar com uma boa

pontuação na Mente nos Olhos, e é assim. O fato de que os dois testes vêm

do mesmo laboratório só pode acrescentar outra pitada de ceticismo.

Das previsões da teoria E-S, com as mulheres mais empáticas que os

homens e estes maiores sistematizadores do que as mulheres, segue-se

necessariamente que comportamentos, capacidades e preferências que têm

estreita ligação com ser caracteristicamente empatizador ou

caracteristicamente sistematizador devem mostrar uma clara divisão por

gênero. Afinal, é uma alegação fundamental da teoria. Por exemplo, a

escolha da matéria na universidade, ciências ou artes, deve ter alguma

relação com esta divisão por gênero. Mas outro artigo do laboratório de

Baron-Cohen mostrou que o gênero, que deveria andar de mãos dadas com

pontuações de QE e QS, não é o melhor previsor para a escolha da matéria

na universidade.[22] A teoria previa que os sistematizadores seriam atraídos

às disciplinas de ciências baseadas em regras, e eles foram, mas não havia

uma diferença sexual significativa. Isto implica que o E-S não é um

indicador exato para o gênero, o que deveria moderar a impressão geral de

que empatia é “coisa de mulher”, enquanto sistematizar é para os rapazes.

Uso a expressão “impressão geral” propositalmente, para observar que –

embora não tenha sido isto que a teoria quisesse provar em sua origem – às

vezes teorias psicológicas como esta podem dar a impressão de que são

intercambiáveis os rótulos que ligam aos participantes (homem-mulher,

sistematizador-empatizador). A consequência disto é que as pessoas podem

pegar um atalho e supor que se alguém quiser um trabalho concluído que

exija um toque de empatia, deve precisar nomear uma mulher. Ou, ao

contrário, se quiserem um trabalho concluído que exija um alto nível de

habilidade de sistematização, uma mulher não seria adequada.

Um exemplo do próprio século XXI pode ser visto em discussões sobre a

baixa representação de mulheres na ciência. Em vista da associação positiva

entre sistematização e ciência, e a associação negativa entre sistematização

e mulheres, é só um pulinho para chegarmos ao estereótipo das mulheres

menos adequadas aos rigores sistematizantes da ciência dura. Junte a esta

mistura uma compreensão geral de que características biologicamente

determinadas são fixas e imutáveis e chegamos a um estereótipo infundado,

mas compreensível, da ligação entre sexo e ciência.

Ao contrário de algumas teorias da evolução, em que os alicerces

biológicos são vagamente considerados óbvios, aqui as bases biológicas

destes dois estilos cognitivos estão declaradas com clareza. A declaração de

abertura de Baron-Cohen em seu livro Diferença essencial é inequívoca

quanto à natureza “dos gêneros” da divisão E-S: “O cérebro feminino é

predominantemente equipado para a empatia. O cérebro masculino é

predominantemente equipado para sistemas de compreensão e

construção.”[23]

Em vista da intensidade desta afirmativa, podemos nos surpreender com

uma restrição que aparece mais adiante no livro, em que Baron-Cohen

observa firmemente que “seu sexo não dita seu tipo cerebral [...] nem todos

os homens têm o cérebro masculino e nem todas as mulheres têm o cérebro

feminino”.[24] Para mim, este é o cerne do problema desta teoria e seu

impacto nas compreensões públicas das diferenças sexuais no cérebro e no

comportamento. Em linguagem comum, o termo “masculino” é ligado aos

homens e, de forma equivalente, o termo “feminino” é ligado às mulheres –

e, assim, descrever um cérebro como “masculino” significa, para muita

gente, que é o cérebro de um homem. E se então atribuirmos determinadas

características a um cérebro masculino – neste caso, uma preferência por

sistemas e comportamentos baseados em regras, talvez também dificuldades

com o reconhecimento de emoções, com uma ligação clara com partes

específicas do cérebro –, isto deve ser acrescentado ao esquema cognitivo

para “homens” e, por inferência, fazer parte do perfil estereotipado dos

homens e seus cérebros. E chegaremos ao mesmo resultado para as

mulheres e seus cérebros. Se a pessoa não precisa ser homem para ter um

cérebro masculino, por que o chamamos de cérebro masculino? No mundo

dos estereótipos de gênero, a linguagem importa.

Esta vertente teórica do envolvimento da psicologia no debate sobre as

diferenças sexuais foi firmemente ligada a explicações do “status quo”.

Avançando da misoginia patente para a abordagem complementar e

paternalista, os primeiros psicólogos evolucionistas consideraram evidentes

as diferenças de papel e as relacionaram com a habilidade determinada pelo sexo e a diferenças de personalidade que a disciplina recém-surgida da

psicologia experimental conseguiria identificar e quantificar.

 

O jogo dos números

 

A segunda vertente do envolvimento da psicologia nas diferenças de sexo e

gênero foi o desenvolvimento de técnicas que começariam a dar algum

corpo numérico ao catálogo de distinções comportamentais e de

personalidade que tinha se acumulado com o passar dos séculos – o campo

que agora chamamos de psicologia experimental. Antes do final do século

XIX, o foco esteve na biologia por trás destes comportamentos

supostamente diferenciados pelo sexo, com tentativas cada vez mais

bizarras de quantificar as diferenças em um órgão que na verdade não

estava disponível para estudo, a não ser que morto ou lesionado. Assim, a

atenção no século XX se voltou para formas de medir habilidades, aptidões

e temperamentos que supostamente eram controlados pelo cérebro (apesar

de ainda invisível).

Wilhelm Wundt fundou o primeiro laboratório de psicologia em 1879.[25]

Ele ansiava por aplicar o método científico ao comportamento, gerar

medições padrão dos comportamentos que podemos ver, como o tempo de

reação, a taxa de erro ou a quantidade de recordações em tarefas de

memória, ou o número de determinadas palavras (como palavras que

começam pela letra “s”, ou nomes de frutas) que fossem geradas

espontaneamente. Não havia muita introspecção, opinião ou histórias

pessoais – tratava-se de dados.

Os psicólogos viriam a usar qualquer tarefa que pudesse produzir alguma

pontuação, transformando-as em testes que geravam uma medição externa

do que parecia ter alguma relação com o comportamento investigado. Os

primeiros estudos concentraram-se na descoberta de diferentes maneiras de

medir as habilidades que interessavam aos psicólogos, mas logo surgiu um

interesse pelas diferenças individuais. Isto foi em parte impelido por mudanças no sistema educacional – em outras palavras, as escolas queriam

meios de identificar crianças “lentas”, aquelas que hoje identificaríamos

como portadoras de necessidades especiais. Como sabemos, esta foi a

origem do teste de QI.[26]

Aos testes de habilidades cognitivas seguiram-se então testes de

personalidade ou temperamento. O primeiro deles, a ficha de dados

pessoais de Woodworth, foi desenvolvido em 1917 e seu objetivo era

identificar soldados na Primeira Guerra Mundial que talvez acabassem por

sofrer de estresse pós-traumático.[27] Esse tipo de teste era bastante objetivo

e se baseava em fatos, incluindo questões como “Alguém em sua família

cometeu suicídio?”, ou “Algum dia você desmaiou?” (estes eram

identificados como fatores discriminatórios quando se examinavam as

histórias passadas de caso), mas logo foram desenvolvidos vários tipos de

inventários autorrelatados, em que as pessoas eram solicitadas a indicar até

que ponto determinadas qualidades (“boa organização”, por exemplo) as

descreviam, ou determinadas expressões caracterizavam seu

comportamento (“Consigo relaxar e me divertir em festas alegres” – mas o

uso da palavra para alegre, gay, mudou nas revisões mais recentes do

teste!).[28]

Em testes de habilidade cognitiva, logo começaram a aparecer relatos

das diferenças entre os sexos. As tarefas de associação de palavras eram um

jeito preferido de adquirir insight sobre a vida mental de homens e

mulheres: dado o gatilho de uma palavra ou categoria, os participantes

tinham de escrever, digamos, cem palavras em que estes gatilhos os fizeram

pensar. Um dos primeiros estudos de diferenças sexuais, de Joseph Jastrow,

em 1891, usou esta técnica, observando que os homens fizeram um uso

maior de termos abstratos, enquanto as mulheres mostraram preferência por

palavras concretas e descritivas; as mulheres foram mais rápidas, mas os

homens foram mais abrangentes.[29] Na verdade, nunca ficou claro o que

significavam estas diferenças. Helen Woolley, escrevendo em 1910,

também contou de um estudo usando técnicas semelhantes, comentando

com desdém sobre as “diferenças insignificantes nos dados” e sobre o

número excessivamente pequeno de participantes (cuja demografia era meio parecida com uma canção natalina – duas crianças, duas domésticas,

três homens trabalhadores, cinco mulheres instruídas e dez homens

instruídos).[30]

Porém, a partir destas primeiras práticas bem duvidosas, o objetivo da

psicologia era incorporar com firmeza o método científico a suas atividades

rapidamente desenvolvidas. Elaboraram teorias, geraram hipóteses,

conceberam testes de medição, selecionaram participantes, coletaram e

analisaram dados, escreveram artigos e os publicaram. Nos primeiros cem

anos depois da criação do primeiro laboratório de psicologia, foram

publicados mais de 2.500 artigos sobre diferenças sexuais. Será que todos

esses estudos contribuíram positivamente para nossa compreensão destas

diferenças?

No final dos anos 1960, a neurocientista Naomi Weisstein escreveu um

famoso ataque à psicologia, em duas frentes.[31] O título de seu artigo,

“Psychology Constructs the Female; or, The Fantasy Life of the Male

Psychologist (with Some Attention to the Fantasies of his Friends, the Male

Biologist and the Male Anthropologist”) [“A psicologia constrói a mulher;

ou A vida fantasiosa do psicólogo homem (com certa atenção às fantasias

dos amigos dele, o biólogo homem e o antropólogo homem)”], deixava

claras suas ideias sobre o assunto. Ela discordou da moda de psicólogos

clínicos e psiquiatras de seguir a doutrina freudiana, com ênfase no papel

essencial das mulheres como mães e os meios biológicos que os

acompanhavam. Queixou-se de que estes profissionais, cheios de vieses e

sem provas, tomaram para si a tarefa de dizer às mulheres o que elas

queriam ou a que papel elas eram particularmente adequadas (sugerindo

que esta nova disciplina da psicologia não avançou as coisas tanto assim).

Ela ridicularizou suas alegações de abordar tais questões com

“discernimento, sensibilidade e intuição”, observando que isto podia

refletir, igualmente, uma perspectiva tendenciosa, crenças preexistentes do

que era o “certo” para as mulheres.

A outra frente de seu ataque aos psicólogos da “diferença sexual” era o

fato de não levarem em consideração o contexto em que coletavam os

dados. Ela observou várias experiências sociais em que o comportamento era alterado quando se manipulava o contexto externo. Um exemplo

clássico de sua época foi o estudo de Schacter e Singer, em que as pessoas

que receberam uma injeção de adrenalina, sem saber, interpretaram os

sintomas físicos relacionados com a adrenalina (coração acelerado, palmas

das mãos suadas etc.) de diferentes maneiras, dependendo do

comportamento do outro (um assistente) com quem se encontravam na sala

de espera, com um assistente eufórico levando a relatos de felicidade e um

assistente rabugento associado com relatos de raiva ou insatisfação.[32] A

preocupação de Weisstein era que o comportamento ou dado autorrelatado

coletado dos indivíduos pudesse ser afetado por toda sorte de variáveis

externas, inclusive as expectativas que os próprios pesquisadores tinham

dos resultados de seu estudo. Os padrões de comportamento raras vezes são

estáveis, mas mudarão segundo as circunstâncias externas: se o que os

participantes farão ou dirão quando estão sozinhos pode mudar se outra

pessoa estiver presente, então este padrão de comportamento não pode ser

interpretado como inato, fixo ou programado. A não ser que isto fosse

reconhecido, os resultados dos estudos de psicologia podiam, no máximo,

ser descritos como falaciosos. A atenção de Weisstein à importância de

considerar o contexto e as expectativas quando do estudo do

comportamento pode encontrar paralelos em muitos domínios da

neurociência social contemporânea, mostrando como a função cerebral

pode interagir com o contexto social e cultural do indivíduo.

Um livro influente de Eleanor Maccoby e Carol Jacklin, The Psychology

of Sex Differences, publicado em 1974, analisou meticulosamente décadas

de estudos que alegaram ter encontrado diferenças entre homens e

mulheres, inclusive muitas características divergentes, da sensibilidade ao

toque à agressividade.[33] O fato de que Maccoby e Jacklin tiveram de

vasculhar 86 categorias distintas de diferenças sexuais relatadas – de “Visão

e Audição”, passando por “Curiosidade e Choro”, a “Doação à Filantropia”

– era uma medida de quanto esforço a psicologia já havia dedicado a esta

exploração até então.

As únicas áreas em que evidências publicadas pareciam concordar com

relação às diferenças era que as meninas, em média, eram mais verbais, enquanto os meninos tinham capacidades espaciais melhores, eram

superiores no raciocínio aritmético envolvendo habilidades espaciais e

mostraram maior agressividade física e verbal.

Maccoby e Jacklin contribuíram muito para desfazer os mitos da

diferença sexual em vigor na época, embora às vezes o sumário que surgiu

da revisão, em particular com relação à mulher “verbal” e o homem

“espacial”, tenha se reificado como um discriminador inteiramente

confiável de homens e mulheres, ou um “fato” que não precisava mais ser

colocado à prova. Como veremos, isto teve efeitos em áreas tão abrangentes

quanto os livros de autoajuda populares e a interpretação de conjuntos de

dados estruturais de imagem do cérebro, e portanto voltou à consciência

pública das diferenças entre homens e mulheres.

Um argumento que não foi feito por Maccoby e Jacklin a essa altura foi

que estas diferenças na verdade eram muito pequenas, de modo que saber o

sexo de uma pessoa não seria um bom previsor de como a pessoa se sairia

em um teste de capacidade verbal (ou qual seria seu desempenho ao

estacionar um carro). Elas também não contestaram como estas medidas

foram obtidas, nem que grau de confiabilidade tinham os instrumentos de

medição usados pelos psicólogos. Se temos interesse por habilidades

espaciais, fazer todos os testes de habilidade espacial dará a mesma

resposta? Se temos certeza de testar uma amostra representativa das pessoas

que tentamos avaliar, quem sabe não precisamos permitir diferenças em,

digamos, experiência educacional; e usamos o tipo certo de comparação na

análise dos dados?

 

Quando uma diferença não é uma diferença?

 

A palavra “diferença” é um exemplo em que o uso de um termo na

psicologia pode não ser o mesmo de seu uso na conversação em geral, ou na

compreensão pública do que ele significa. Em um nível simples, o termo

“diferente” evidentemente implica “não é igual”. Suponha que estivéssemos viajando a uma ilha e soubéssemos que havia duas tribos distintas que

poderíamos conhecer, e que deveríamos estar cientes das diferenças entre

elas. Poderíamos, então, nos informar sobre os pontos principais de

diferença e as sutilezas de “diferente como”; por exemplo, a Tribo 1 podia

ter em média 1,80 m de altura, enquanto a Tribo 2 teria em média 1,20; ou

os integrantes da Tribo 1 poderiam ter cabelo preto, liso e muito comprido,

ao contrário dos integrantes da Tribo 2, que teriam cabelo louro, curto e

crespo. Provavelmente, no mínimo, iríamos inferir que o “diferente” aqui

significaria reconhecivelmente diferente – de tal modo que se

conhecêssemos um indivíduo alto de cabelo preto e liso, teríamos certeza de

que ele pertencia à Tribo 1 – ou seguramente diferente –, de tal modo que

se soubéssemos que conheceríamos um membro da Tribo 2, teríamos uma

expectativa segura de conhecer alguém baixo de cabelo louro e crespo. Mas

estas não são necessariamente as conclusões a que podemos chegar a partir

dos estudos psicológicos que relatam diferenças sexuais.

Na psicologia, “diferente” costuma ser usado no sentido estatístico, em

que as pontuações médias dos dois grupos investigados são suficientemente

distantes para ultrapassar determinado limiar estatístico. Pode-se então

relatar que o que é medido é “diferente” nos dois grupos. Mas isto pode

mascarar a questão muito importante de “o quanto é diferente”. Cada um

dos dois grupos terá pontuações geradas que são distribuídas em torno da

média do que foi medido, e estas duas distribuições podem se sobrepor

acentuadamente. Isto significa que não se pode prever seguramente como

um membro de um dos grupos se sairá na tarefa designada ou que tipo de

pontuação obterá em um teste de personalidade. E não é possível

reconhecer, a partir da pontuação do teste de alguém, a que grupo este

alguém pertence. Os grupos, na verdade, são mais semelhantes do que

diferentes. Assim, embora exista uma diferença estatística, ela não é

necessariamente uma diferença útil ou significativa.

Uma forma de calcular o grau de sobreposição entre dois grupos é medir

o que é chamado de tamanho do efeito.[34] Para este cálculo, subtraímos a

pontuação média de um grupo da pontuação média do outro e dividimos a

reposta pela quantidade de variabilidade nos dois grupos. Suponha, por exemplo, que queiramos descobrir se consumidores de café resolvem

palavras cruzadas com mais rapidez do que consumidores de chá. Depois de

coletar seus dados, subtraímos a pontuação média dos consumidores de chá

da pontuação média dos consumidores de café e dividimos o número pelo

que é chamado de desvio padrão, uma medida da variância que reflete com

que amplitude as pontuações são distribuídas em cada grupo. Isto nos dará

um tamanho do efeito para a diferença entre os seus consumidores de chá e

os de café.

A questão fundamental é que o tamanho do efeito diz o quanto são

significativas as distinções entre os grupos. Os psicólogos relatam suas

descobertas estatísticas mostrando “diferenças significativas”, o que,

estritamente falando, elas são, mas as diferenças podem ser mínimas, e

talvez seja improvável que tenham impacto, digamos, em uma decisão de

empregar alguém de um dos grupos e não do outro (ou se quisermos pedir a

quem consome café ou chá que nos ajude a resolver palavras cruzadas).

Quando falamos de algo com tanto impacto como as descobertas sobre as

diferenças sexuais, é importante indicar com clareza o que queremos dizer

com isso. Se o tamanho do efeito é pequeno (cerca de 0,2), as diferenças

entre as pontuações dos grupos podem ser estatisticamente “significativas”,

mas, na realidade, não dão muito apoio a quaisquer pressupostos que

tenhamos a respeito da facilidade com que podemos localizar quem

pertence a que grupo, ou o que o membro deste grupo pode ou não pode

fazer.

Se dois grupos são acentuadamente diferentes, o tamanho do efeito será

bem grande. O exemplo mais comum é de diferenças de altura entre

homens e mulheres. O tamanho do efeito médio aqui é de cerca de 2,0;

assim, as médias são bem diferentes e cerca de 98% do grupo mais alto

estará acima da média da altura do grupo mais baixo.[35] Porém, mesmo

com o tamanho do efeito tão grande, pouco mais de 30% das duas

populações ainda se sobrepõem.

O motivo para que eu esteja insistindo neste ponto é que o tamanho do

efeito em grande parte da pesquisa publicada sobre diferenças sexuais é

bem pequeno, da ordem de 0,2 ou 0,3, o que significa uma sobreposição de quase 90%. Mesmo um tamanho do efeito “moderado”, de 0,5, implica uma

sobreposição de pouco mais de 80%. Assim, quando as pessoas se referem

a diferenças sexuais, precisamos estar cientes de que quase nunca significa

que os dois grupos não se sobrepõem, que são claramente distinguíveis seja

qual for a variável usada na medição, e que saber o sexo de uma pessoa não

será um previsor confiável do nível de seu desempenho em uma tarefa

específica ou em uma situação específica.[36]

Os tamanhos do efeito também são valiosos quando tentamos chegar a

uma visão geral das descobertas em determinada área de pesquisa. Uma

meta-análise combina dados de muitos estudos diferentes do mesmo

fenômeno, usando os tamanhos do efeito de cada estudo, ponderados por

quantas pessoas foram testadas, para investigar o grau de confiabilidade e

coerência e se os grandes tamanhos do efeito são ou não a norma. Isto

supera o problema dos estudos individuais de pequena escala, ou os relatos

“pontuais” que talvez não possam ser reproduzidos. A outra questão é que

examinar os tamanhos do efeito pode nos dar uma medida do grau de

exatidão das alegações de diferenças relatadas, se são realmente

“profundas” ou “fundamentais”. E se os estudos que usam termos como

estes não falam em tamanhos do efeito, então os alarmes devem disparar.

Há mais uma nota de cautela a respeito do relato de descobertas de

pesquisa. Se alguém disser que algo é “significativo”, por exemplo, que

homens e mulheres são “significativamente” diferentes, provavelmente

suporemos que isto quer dizer que essa diferença é importante, e deve nos

fazer sentar e prestar atenção. Não é provável que pensemos: “Arrá, isso

quer dizer que existem menos de cinco possibilidades em 100 de que esta

seja uma descoberta ao acaso”. Não estou sugerindo com isso que as

descobertas de pesquisa não digam algo significativo, só que podemos

precisar moderar o fator “uau” que às vezes a palavra “significativo” pode

implicar.

Assim, existe uma gama de perguntas que precisamos fazer se quisermos

ver em que, e como, a psicologia experimental contribuiu para o debate das

diferenças sexuais. Será que as hipóteses têm a maior objetividade possível,

ou refletem um viés estereotipado ou uma busca incansável por diferenças? As tarefas ou testes usaram uma medida neutra de comportamento ou

temperamento, ou um meio de acumular probabilidades em favor da

descoberta da diferença procurada? Os pesquisadores controlam

atentamente os fatores “de gênero”, como escolaridade ou ocupação, ou só

estão supondo que “homem” e “mulher” cobrem todas as bases? Vemos os

tamanhos do efeito interpretados com cautela, ou nós e qualquer jornalista

de ciências que esteja passando por ali recebemos descrições de diferenças

“fundamentais” ou “profundas” entre participantes homens e mulheres?[37]

 

O que você está perguntando

e como faz a pergunta?

 

Já vimos que os cientistas por trás das teorias que a psicologia se dedicou a

testar não trabalhavam em um vácuo político. Embora possamos ter

avançado um pouco a partir da abordagem de “gorila de duas cabeças”

sobre as mulheres de Gustave LeBon, o foco ainda estava no status quo, na

descoberta e na caracterização de diferenças, em demonstrar que os homens

tinham habilidades e temperamentos diferentes das mulheres, equipando-os

para os diferentes papéis. Como psicóloga experimental, certamente nos

primeiros anos de existência desta área, esta caçada pelas diferenças

fundamentava a “hipótese experimental” de que existiriam diferenças

sexuais no processo psicológico que estivéssemos medindo, fosse fluência

verbal ou empatia, habilidades matemáticas ou agressividade; não

prevíamos uma ausência de diferença, uma semelhança entre os grupos que

comparávamos.

Com o rumo seguido pela pesquisa publicada atualmente, é muito mais

provável que apresentemos um trabalho para publicação (e que ele seja

aceito) se apoiar a hipótese experimental de que existiria uma diferença. Se

não é apoiada e os resultados parecem sugerir que não existe diferença

sexual, é muito provável que não apresentemos as descobertas para publicação ou, se o fizermos, é menos provável que o trabalho seja

publicado.

Às vezes a ausência de diferenças sexuais pode ficar perdida no ruído da

procura por dados para ver o que eles mostram. Podemos até ter uma

hipótese específica de que haverá diferenças sexuais. Mas é bem fácil ver se

pode existir algo escondido nos dados, se tivermos homens e mulheres em

número suficiente no grupo de participantes.[38] Verificamos para saber se

existe alguma diferença sexual e, se não houver, provavelmente não

falaremos muito sobre isso na discussão, no resumo ou até na escolha das

palavras-chave para o artigo de pesquisa.

Isto costuma ser chamado de problema do “arquivo”: esconder do exame

público o fracasso na descoberta de diferenças.[39] Creio que seja mais bem

descrito como o problema do “iceberg”. No éter científico, ou abaixo da

superfície da possibilidade de publicação, existe um vasto corpo de

descobertas de pesquisa “invisíveis” que talvez mostrem que não existem

diferenças entre homens e mulheres em toda uma gama de medições,

algumas firmemente estabelecidas em nossa consciência como meios

confiáveis de distinguir marcianos leitores de mapas de venusianas

multitarefa. Na verdade, pode haver um corpo muito maior de descobertas

de pesquisa que não relatam diferenças do que aquelas que parecem

confirmar que elas existem.

Assim, as perguntas que são feitas podem tingir as respostas relatadas.

Mas também precisamos ver como essas respostas são coletadas. Que testes

específicos são usados para coletar informações sobre diferenças entre

mulheres e homens? Estaremos mesmo medindo o que pretendíamos, ou

pode estar acontecendo outra coisa? E isto pode afetar as conclusões a que

nós (ou qualquer outra pessoa) chegamos a partir das descobertas?

Muitos anos atrás, fui a uma conferência de fim de semana sobre a

hereditariedade do QI. A sessão da manhã foi dominada por geneticistas e

havia muitos artigos sobre estudos de associação genômica, avaliação de

hereditariedade, as implicações de eliminar modelos com camundongos,

variação de genes e assim por diante. Todos usavam o QI como uma

variável dependente ou fator de modelagem, com a espécie humana avaliada por meio de um teste de QI que parecia ser o “padrão do setor”.

Ninguém fez nenhuma referência a como esta variável foi medida nem o

que exatamente era medido, apenas como a pontuação de QI ou seu

equivalente em roedores ou macacos era afetada pelo modelo genético ou a

manipulação que usassem.

Os psicólogos assumiram a parte da tarde e passaram a desmontar a fé

que os colegas geneticistas tinham em suas medições essenciais. Questões

com itens individuais, a heterogeneidade dos subtestes e diferentes

habilidades sendo medidas, retestar a confiabilidade, a necessidade de levar

em consideração fatores ambientais como o acesso à educação formal,

status socioeconômico no caso dos seres humanos, ou o tamanho da gaiola

e a frequência de manuseio, no caso de não humanos, a própria definição de

inteligência – tudo serviu para revelar que o QI não era parecido, digamos,

com a cor dos olhos ou o tipo sanguíneo, uma característica fixa e

objetivamente mensurável que podia ser bem encaixada no modelo testado.

Era preciso conhecer muito melhor a história para saber o que realmente

media o número do QI.

Assim, às vezes é preciso estudar em detalhes a medida que se está

tirando; é preciso descobrir como o teste usado foi gerado e se ele, embora

possa parecer confiável (apresentará grande parte da mesma pontuação em

diferentes circunstâncias e situações) e válido (as medições do que alega

medir), está contando uma história diferente daquela que é ouvida.

 

Pessoas e coisas

 

O desenvolvimento de uma escala vocacional para medir as diferenças

individuais nas “pessoas” em oposição a “coisas” é um estudo de caso útil

de como as escolhas feitas no desenvolvimento de um teste, que parecem

distinguir as pessoas com base em determinada medição, na verdade podem

refletir algo diferente.

A escala de interesse vocacional pretendia ser usada como uma

ferramenta de aconselhamento profissional.[40] O objetivo era mostrar que

uma combinação entre o tipo de coisas do interesse das pessoas e as tarefas

que caracterizavam suas ocupações escolhidas podiam ser uma garantia de

satisfação no trabalho. O princípio básico do teste foi desenvolvido na

década de 1980 por Dale Prediger, cientista pesquisador depois aliado ao

American College Testing Program. Ele sugeriu que o que então era

conhecido como “interesses vocacionais” podia ser agrupado em duas

dimensões. A primeira era a dimensão Dados/Ideias, que deve indicar ou

preferências por tarefas envolvendo dados, registros e assim por diante, ou

preferências por tarefas que possam envolver trabalho em equipe,

desenvolvimento de teorias ou novas formas de expressar as coisas. A

segunda dimensão era de Pessoas/Coisas, que deve indicar ou um interesse

em ajudar as pessoas e cuidar dos outros, ou um interesse em trabalhar com

máquinas, ferramentas ou mecanismos biológicos. E, pelo visto, trabalhar

ao ar livre, a que voltaremos mais adiante.

A tarefa seguinte de Prediger foi montar um perfil das várias ocupações.

Ao vasculhar muitos milhares de conjuntos de dados que o Departamento

de Trabalho dos EUA tinha coletado por muitos anos, ele pensou em um

jeito de descrever os trabalhos em termos de onde se agrupavam em suas

dimensões Dados/Ideias e Pessoas/Coisas. Como resultado deste esforço

hercúleo (cerca de 100 descritores diferentes para 563 ocupações foram

examinados e classificados), ele agrupou diversas carreiras com base em

Dados, Ideias, Pessoas ou Coisas. Seus exemplares de ocupações baseadas

em Pessoas eram professores primários e assistentes sociais, com pedreiros

e motoristas de ônibus sendo as típicas ocupações baseadas em Coisas.[41]

A essa altura, talvez valha a pena refletir sobre estas profissões

aparentemente arquetípicas, em particular em relação a quem realmente as

está exercendo na época. Nos EUA, na época do trabalho de Prediger,

82,4% dos professores primários e 63% dos assistentes sociais eram

mulheres, representadas em 29,2% dos motoristas de ônibus e 2,4% dos

operários da construção civil.[42]

Assim, temos grupos de tarefas supostamente baseadas na dimensão

Pessoas e Coisas, mas em que o fator adicional de desequilíbrio de gênero

não parece ter sido levado em conta – podemos rotular estas categorias

como Trabalhos de Mulheres e Trabalhos de Homens. É possível que isto

seja um reflexo preciso de uma escolha bem fundamentada entre Pessoas ou

Coisas, com as mulheres escolhendo não fazer construção civil porque era

baseada demais em Coisas, mas não poderia, em vez disso, ter outros

agentes em operação? Aliás, o trabalho na construção civil seria de fato

uma opção aberta às mulheres? Para fazer justiça a Prediger, ele não

objetivava medir as diferenças sexuais – na verdade, parecia muito

orgulhoso do fato de que suas dimensões podiam distinguir técnicos de

laboratório e químicos (trabalhos com Coisas) de vendedores de

enciclopédia e diretores de educação cristã (trabalhos com Pessoas) – mas,

como veremos, esta distinção Pessoas ou Coisas mais tarde se tornou crítica

nas discussões dos hiatos de gênero.

Veremos, então, como podemos medir o interesse em Pessoas ou Coisas,

a outra metade da medição de orientação vocacional. Em paralelo com os

esforços de Prediger, o psicólogo Brian Little desenvolveu uma escala de 24

itens especificamente para medir a “orientação a Pessoas” e a “orientação a

Coisas” (doravante OP e OC), com os participantes dos testes solicitados a

classificar o quanto gostaram das situações descritas.[43] Agora, talvez você

pense que estou sendo detalhista demais (e muito sexista), mas quando a

dimensão Coisa é medida por hipóteses como “participar e tentar remontar

um computador desktop” ou “explorar o leito oceânico em um submarino

para uma pessoa só” (tenha em mente que este questionário originalmente

foi elaborado nos anos 1970) e a dimensão Pessoas é carregada de itens

como “ouvir com interesse carinhoso uma pessoa idosa sentada a seu lado

no ônibus”, não creio que seja de todo surpreendente descobrir que existia

uma forte diferença relacionada com o gênero nas pontuações de Pessoas e

Coisas. Uma atualização do século XXI deste teste (que infelizmente

excluiu a pergunta do submarino e outras semelhantes, como “aprender a

soprar vidro”) efetivamente conservou as fundações invisíveis baseadas em

gênero destas medições OP e OC.[44]

Virginia Valian, psicóloga do Hunter College da City University de Nova

York, contestou mais fundamentalmente a validade dos pressupostos que

contribuem para toda esta dimensão maior, antes de tudo, com um foco

específico no que vinha sob o título de Coisas.[45] Por que agrupar

“trabalhar com coisas” e “trabalhar em ambientes bem estruturados” com

“trabalhar ao ar livre”? O que torna estes cenários equivalentes a Coisas?

Os interesses reunidos sob este título são mais precisamente descritos, como

observa Valian, como “atividades em que os homens tendiam a passar mais

tempo do que as mulheres”. (Tenho certeza de que, como eu, ela levantava

o cenário do submarino!) Ela também observa que as descrições dos tipos

de pessoas que tinham interesse por atividades do gênero Coisas, “ativas,

instrumentais e orientadas para tarefas”, mapeiam estritamente formas

estereotipadas de descrever os homens, enquanto os indivíduos

“comunitários, fomentadores e expressivos”, que gostariam de ocupações

com Pessoas, podiam ser interpretados corretamente como mulheres.

Assim, temos uma dimensão, Coisas ou Pessoas, que supostamente

distingue diferentes ocupações e, além disso, descreve os diferentes tipos de

pessoas que gostariam de seguir estas ocupações. Mas existe outra

descoberta embutida, uma divisão de gênero despercebida, jogando os

dados de quem cairá onde nesta dimensão Pessoas ou Coisas.

Esta pode ser apenas uma preocupação acadêmica, mas o conceito de

Coisas ou Pessoas foi adotado com entusiasmo por pesquisadores que

procuravam explicações para a baixa representação das mulheres nas

chamadas áreas STEM (science, technology, engineering, maths – ciência,

tecnologia, engenharia e matemática), e questionar a utilidade de iniciativas

voltadas para elas. Um estudo citado com frequência é do psicólogo

empresarial Rong Su e colaboradores, que colheu informações sobre

pontuações padrão de manuais técnicos para 47 inventários de interesses.[46]

Isto lhes deu dados de 243.670 homens e 259.518 mulheres. Eles

examinaram como esses dados se agrupavam na dimensão Coisas ou

Pessoas e, sem surpreender a ninguém, descobriram que “os homens

preferem trabalhar com coisas e as mulheres preferem trabalhar com

pessoas”, uma diferença altamente significativa com um grande tamanho do efeito (0,93). Isto significaria, como eles observaram, que até 82,4% dos

participantes homens tinham interesse maior em carreiras orientadas para

Coisas. Ou pode significar que eles gostavam de fazer coisas que outros

homens faziam, fosse construção civil ou dirigir ônibus.

 

Por que você está perguntando?

 

Outro aspecto da coleta de dados por meio dessas medições autorrelatadas é

que tipo de expectativa as pessoas participantes trazem para o processo. Isto

é uma extensão das observações de Naomi Weisstein discutidas

anteriormente, de que as medições psicológicas raramente são

descontextualizadas. As “características de demanda” dos testes em geral

são bem transparentes e podem colocar as probabilidades em favor de um

resultado em particular.[47] Já comentei sobre como o nome do Questionário

de Aflições Menstruais pode influenciar as respostas que o próprio

questionário coleta. Em parte, ironicamente, mas no fim das contas para

demonstrar este argumento, um grupo de pesquisadores investigou o efeito

de usar um “Questionário do Prazer Menstrual” (QPM), relacionando dez

experiências positivas que as participantes poderiam notar durante seu

ciclo. As participantes que primeiro respondiam ao QPM contavam das

mudanças mais positivas no QAM e tinham atitudes mais positivas com

relação à menstruação do que aquelas que primeiro tiveram o questionário

focalizado nas aflições.[48] Assim, não só podemos obter uma versão

distorcida do processo que tentamos medir, como também poderemos

mudar o processo em si?

Da mesma forma, é difícil não saber que nossas capacidades espaciais

são testadas se formos solicitados a encontrar uma única forma em um

desenho complexo, ou que nossos níveis de empatia são avaliados se nos

perguntam até que ponto concordaríamos ou discordaríamos da afirmativa

“Gosto muito de cuidar dos outros”. Como lidar com estas perguntas pode

ser tingido pelo desejo de agradar o pesquisador, ou se sair melhor do que qualquer outro participante do estudo, sabendo que isto preencherá a cota

de pontos de participação em pesquisa e não teremos de participar de mais

nenhum estudo de psicologia frustrante ou tedioso neste semestre, ou até

pelo prazer de resolver problemas ou preencher formulários.

Também acontece que o priming, ou a indução de consciência

preexistente de estereótipos relevantes, pode afetar o que a pessoa diz a

respeito de si mesma e até o desempenho da tarefa que realiza.[49] Por

exemplo, as pontuações de empatia das mulheres podem variar, dependendo

de a empatia ser ou não sinalizada como uma característica feminina.[50]

Outra forma de priming é a “ameaça do estereótipo”, que se refere ao efeito

de a atenção ser atraída a um estereótipo negativo do grupo a que a pessoa

pertence, por exemplo, a incapacidade das mulheres de desempenhar tarefas

visuoespaciais, ou a tendência de meninos afro-caribenhos de se sair mal

em testes de proficiência intelectual.[51] Em um contexto em que esta

habilidade em particular é avaliada, como em uma tarefa de rotação mental

ou um teste SAT, os membros do grupo que foi estereotipado mostraram,

em geral, um desempenho abaixo da média. Originalmente identificados

com relação ao insucesso em pessoas negras e de minorias étnicas, a

ameaça do estereótipo também mostrou um efeito potente nas mulheres, em

particular com relação ao desempenho em temas como ciência e

matemática.[52]

Os estudos experimentais de ameaça do estereótipo mostraram que é

possível demonstrar o efeito em circunstâncias controladas, apresentando

uma tarefa que na verdade seja neutra como aquela em que homens e

mulheres se saem melhor. Para as mulheres participantes, saber que é uma

tarefa em que as mulheres costumam se sair melhor resultou em pontuações

mais altas (isto é o que chamamos de o efeito lift, ou elevador, do

estereótipo), enquanto saber que os homens costumam se sair melhor

resultou em pontuações drasticamente inferiores. O efeito era menos

acentuado nos participantes homens, mas eles também se saíam melhor na

tarefa quando ouviam que os homens costumavam ter uma vantagem.[53]

Assim, os dados coletados não são necessariamente “puros” no sentido

de que são livres de contexto. A tarefa usada pode refletir mais do que a variável específica que se tem esperança de medir, e os participantes podem

reagir de um jeito que sofra contágio de toda sorte de fatores que nada têm a

ver com o que se espera demonstrar.

 

O sexo não basta

 

Sabendo, como agora sabemos, o quanto o cérebro é enredado com o

mundo em que ele funciona e que o transforma, fica claro que precisamos

levar isto em conta quando selecionamos participantes para testar, ou

quando acessamos os conjuntos maiores de dados sobre o cérebro e o

comportamento que se tornam disponíveis – ou, na verdade, quando

decidimos até que ponto são confiáveis e válidas as conclusões a que

chegaram os pesquisadores. Isto é especialmente verdadeiro na pesquisa das

diferenças sexuais, em que apenas dividir a população segundo a

composição de homens ou mulheres vai mascarar um número imenso de

outras fontes possivelmente (ou até provavelmente) contributivas para a

diferença. Quando sabemos disso, em um nível geral, fatores como o

número de anos de escolaridade, status socioeconômico e ocupação podem

mudar a estrutura e a função do cérebro e, assim, isto deveria ser

considerado quando procuramos o que nossos participantes podem fazer.

Quaisquer estudos que pareçam pressupor alegremente que só o sexo é uma

base suficiente para categorizar os indivíduos examinados devem ser

mandados de volta à prancheta.

O estudo psicológico das diferenças sexuais avançou um pouco desde os

“disparates sentimentais” que Helen Woolley descreveu no início do século

XX. Mas embora possamos ter eliminado as alegações mais radicais, à

medida que ramificações importantes da psicologia entraram no século XXI

e uniram forças com pesquisadores de imagens do cérebro, ainda havia

motivo para preocupação. Cem anos depois do resumo desdenhoso de

Woolley sobre as descobertas da psicologia na época, o levantamento

mordaz de Cordelia Fine da disciplina emergente da neurociência cognitiva registrou muitas conclusões inevitáveis, teorias tendenciosas e descobertas

práticas e deturpadas.[54]

Pode parecer que a psicologia ignora deliberadamente o poder do mundo

que nos cerca para mudar nosso comportamento e, dado o que agora

sabemos sobre a neuroplasticidade, mudar nosso cérebro. E estas pressões

culturais naturalmente podem incluir as próprias descobertas que surgem da

psicologia e dos laboratórios de imagem do cérebro. A não ser que isto seja

levado em conta e até que seja assim, a psicologia pode ser acusada de

meramente fornecer um catálogo de diferenças aparentemente estabelecidas

entre os sexos.

Mas a psicologia tem outro papel a cumprir, que tiraria a neurociência do

laboratório e a levaria para a consciência pública. Há muito existe um

apetite verdadeiro pelos aparentes insights da psicologia sobre a

compreensão de nós mesmos e dos outros. Guias de aconselhamento

pessoal e códigos de conduta estão por aí há séculos, mas foram livros

como Como fazer amigos e influenciar pessoas, de Dale Carnegie (1936)

que estabeleceram o gênero popular e lucrativo da autoajuda.[55] De Pense e

enriqueça, de Napoleon Hill (1937), passando por Como evitar

preocupações e começar a viver (de novo Carnegie, 1948), até (é claro)

Comporte-se como uma dama, pense como um homem (2009), a psicologia

popular tem sido consultada com entusiasmo para as soluções dos enigmas

e problemas da vida, principalmente a questão antiga das diferenças

sexuais. Quaisquer truques para a Sobrevivência e o Sucesso, estradas para

o Você Transformado e Toda uma Nova Vida podem ser encontrados nas

páginas destes livros – a mensagem básica é Conheça a Si Mesmo (e aos

outros) e Melhore.

Combinada com o advento da imagem do cérebro, a psicologia popular

assumiu toda uma nova dimensão. Depois que colocamos nesta mistura o

“Seu cérebro e como ele funciona”, em especial quando podemos ilustrar

isto com imagens lindas e coloridas do cérebro, foi armado o palco para

todo um novo gênero de livros de autoajuda, os neuroguias.