Gênero e os Nossos Cérebros

Gina Rippon · Capítulo 3 de 46

Páginas do PDF

Gênero e os Nossos Cérebros

1. Por dentro de sua linda cabecinha — Começa a caçada

PARTE UM

CAPÍTULO 1:

 

POR DENTRO DE SUA LINDA CABECINHA –

COMEÇA A CAÇADA

 

As mulheres [...] representam as formas mais inferiores da evolução humana e [...]

estão mais próximas das crianças e dos selvagens do que de um homem adulto e

civilizado.

GUSTAVE LE BON, 1895

 

Por séculos, o cérebro feminino foi pesado, medido e considerado

insuficiente. Parte da biologia supostamente inferior, deficiente ou frágil das

mulheres, ele estava no cerne de qualquer explicação dos motivos para sua

posição mais baixa em qualquer escala, da evolutiva à social e intelectual.

A natureza inferior do cérebro das mulheres foi usada como o motivo para

os conselhos frequentemente propostos de que o sexo mais medíocre

deveria se concentrar em seus dotes reprodutivos e deixar aos homens a

instrução formal, o poder, a política, a ciência e qualquer outro negócio do

mundo.

Embora as visões sobre as capacidades das mulheres e seu papel na

sociedade tenham variado um pouco com o passar dos séculos, um tema

constante em toda parte era o “essencialismo”, a ideia de que as diferenças

entre os cérebros feminino e masculino faziam parte da “essência” deles e

de que a estrutura e as funções destes cérebros eram fixas e inatas. Os

papéis de gênero eram determinados por estas essências. Seria contrariar a

natureza derrubar esta ordem natural das coisas.

Uma versão inicial desta história começa, mas infelizmente não termina,

com um filósofo do século XVII, François Poullain de la Barre, que

questionou corajosamente a suposta desigualdade entre os sexos.[1] Poullain

estava decidido a ter uma visão clara das evidências por trás da alegação de que as mulheres eram inferiores aos homens e teve a cautela de não aceitar

nada como verdade só porque era como as coisas sempre foram feitas (ou

porque alguma explicação apropriada podia ser encontrada na Bíblia).

Suas duas publicações, Da igualdade entre os dois sexos, discurso físico

e moral, onde vemos a importância de se desfazer dos preconceitos (1673)

e Da educação das mulheres, para guiar a mente nas ciências e nos

costumes (1674), mostraram uma abordagem surpreendentemente moderna

a questões de diferenças entre os sexos.[2] Poullain até tenta demonstrar

como as habilidades das mulheres podem ser igualadas com as dos homens;

há uma seção encantadora em seu tratado sobre a igualdade sexual, na qual

ele reflete que as habilidades obrigatórias de bordado e costura são tão

exigentes quanto aquelas necessárias para se aprender física.[3]

Com base nos estudos de descobertas da então nova ciência da anatomia,

ele fez uma observação espantosamente presciente: “Nossas investigações

anatômicas mais precisas não revelam nenhuma diferença entre homens e

mulheres nesta parte do corpo [a cabeça]. O cérebro das mulheres é idêntico

ao nosso.”[4] Seu exame minucioso das diferentes habilidades e disposições

de homens e mulheres, meninos e meninas, o levou à conclusão de que as

mulheres, tendo oportunidade, seriam igualmente capazes de se beneficiar

dos privilégios que na época só eram dados aos homens, como instrução

formal e capacitação. Para Poullain, não havia provas de que a posição

inferior das mulheres no mundo se devia a algum déficit biológico.

“L’esprit n’a point de sexe”, declarou ele; a mente não tem sexo.[5]

As conclusões de Poullain iam fortemente contra o etos dominante; na

época de sua redação, o sistema patriarcal estava firmemente arraigado. A

ideologia de “esferas separadas”, com os homens aptos a papéis públicos e

as mulheres às funções privadas e domésticas, determinou a inferioridade

das mulheres, subordinadas necessariamente ao pai e depois ao marido, e

física e mentalmente mais fracas que qualquer homem.[6]

A partir daí, só descemos a ladeira. As opiniões de Poullain, para

decepção dele, foram amplamente ignoradas quando de sua publicação

(pelo menos na França) e tiveram pouco impacto na visão estabelecida de

que as mulheres eram essencialmente inferiores aos homens e seriam incapazes de se beneficiar de oportunidades educacionais ou políticas (e

esta, naturalmente, foi uma profecia autorrealizável porque a elas não era

dado acesso, com notáveis exceções, à instrução formal ou a oportunidades

políticas).* Esta visão ainda predominou em todo o século XVIII e recebeu

pouca atenção como digna de algum debate.

 

A questão feminina

 

No século XIX, com o crescimento do interesse na ciência e nos princípios

científicos, havia um foco na ligação de estruturas e funções da sociedade

com os processos biológicos, caracterizados pelas formas iniciais do

darwinismo social. Entre os intelectuais da época, eram constantes as

preocupações com a “questão feminina”, as demandas crescentes das

mulheres por direitos à educação formal, propriedade de bens e ao poder

político.[7] Esta onda feminista serviu como apelo para os cientistas darem

provas em favor do status quo e para demonstrar como seria prejudicial dar

poder às mulheres – não só para as próprias mulheres, mas também para

todo o âmbito da sociedade. Até o próprio Darwin ponderou, expressando

sua preocupação de que tais mudanças iriam descarrilar a jornada evolutiva

da humanidade.[8] Biologia era destino, e as diferentes “essências” de

homens e mulheres determinavam seus lugares (diferentes) de direito na

sociedade.

As opiniões expressas por outros cientistas indicavam sua propensão a

não ser objetivos na abordagem a esta questão. Entre as minhas citações

preferidas, há uma de um certo Gustave Le Bon, parisiense interessado em

antropologia e psicologia. Seu foco principal era na demonstração da

inferioridade das raças não europeias, mas claramente seu coração

reservava um lugar especial para as mulheres:

 

Não há dúvida de que existem algumas mulheres notáveis, muito superiores à média

dos homens, mas são tão excepcionais quanto o nascimento de qualquer

monstruosidade, a exemplo de um gorila de duas cabeças; por conseguinte, podemos

ignorá-las inteiramente.[9]

 

O tamanho do cérebro foi um ponto inicial nesta campanha para provar a

inferioridade das mulheres e de sua biologia. O fato de que os únicos

cérebros a que os pesquisadores tinham acesso eram de mortos não

atrapalhou as observações incisivas baseadas no cérebro sobre as

capacidades mentais inferiores das mulheres (e, já que falavam no assunto,

naqueles chamados na época de “pessoas de cor, criminosos e as classes

inferiores”). Na ausência de acesso direto a cérebros dentro do crânio, no

início o tamanho da cabeça foi adotado como um dublê para o tamanho do

cérebro. Le Bon, novamente, foi um ardoroso expoente desta “pesquisa”,

desenvolvendo um cefalômetro portátil com que ele andava para medir a

cabeça daqueles cujas “constituições mentais” poderiam mais ou menos

servir de empecilho para os rigores da independência e da instrução formal.

Aqui temos outro exemplo de sua predileção pelas comparações com

macacos antropomorfos: “Há um grande número de mulheres cujos

cérebros estão mais próximos em tamanho aos de gorilas que dos cérebros

masculinos mais desenvolvidos (...). Esta inferioridade é tão evidente que

ninguém pode contestá-la, nem por um segundo que seja.”[10]

A capacidade craniana foi outro índice avidamente adotado na caçada

por meios de provar a ligação entre o tamanho do cérebro e o intelecto.

Alpiste ou chumbo eram despejados em crânios vazios e pesava-se a

quantidade necessária para enchê-los.[11] Uma descoberta inicial de que, em

média, os cérebros femininos eram 140 gramas mais leves que os

masculinos, por esta medida, foi entusiasticamente aproveitada como toda a

prova de que se precisava. Claramente, a natureza premiara os homens com

140 gramas a mais de massa encefálica e este era o segredo de suas

capacidades superiores e o direito a posições de poder e influência. Porém,

havia uma falha nesse argumento, como apontou o filósofo John Stuart

Mill: “Um homem alto, de ossatura larga, deve, portanto, mostrar-se

admiravelmente superior em inteligência a um homem baixo, e um elefante

e uma baleia superarão prodigiosamente a humanidade.”[12] Seguiram-se vários contorcionismos, inclusive um cálculo de tamanho do cérebro e do

corpo, mas que também não chegaram à resposta “certa”.[13] Isto é

conhecido no meio como o paradoxo do Chihuahua: se uma pessoa alega

que a proporção de peso cérebro/corpo é uma medida da inteligência, então

os Chihuahuas devem ser os mais inteligentes de todos os cães.

Quem sabe se mais pormenores sobre o recipiente do cérebro, o crânio

em si, não ajudariam a gerar a resposta “certa”? Foi aí que entrou a ciência

da craniologia, ou medição do crânio. Baseada em medidas detalhadas ao

máximo de cada ângulo, altura, proporção, perpendicularidade da testa e

projeção do maxilar, a craniologia parecia dar uma resposta adequada.[14]

As cambalhotas da craniologia e de suas medidas eram complexas e

variadas. Os ângulos faciais eram particularmente populares, calculados

olhando-se o ângulo de perfil entre uma linha traçada horizontalmente a

partir da narina até a orelha, e outra do queixo à testa. Um ângulo bem

grande, com a testa alinhada com o queixo, era uma medida do que se

denominou “ortognatismo”; um pequeno ângulo agudo, com o queixo

projetado à frente de uma testa retraída, era uma medida de “prognatismo”.

Elaborando uma escala de orangotangos a europeus, passando por homens

centro-africanos, os craniologistas produziram a descoberta satisfatória de

que o ortognatismo era característico de raças evolutivamente superiores e

mais altas. Entretanto, quando se tratou de acomodar as mulheres nesta

escala, surgiu um problema: as mulheres, em média, eram mais ortognatas

do que os homens. Felizmente, o socorro estava próximo.

O anatomista alemão Alexander Ecker, cujo artigo relatou esta

observação perturbadora, notou que o ortognatismo avançado também era

característico de crianças e, assim, neste contexto, as mulheres podiam ser

caracterizadas como infantis (e, portanto, inferiores).[15] Estas sugestões

tiveram apoio nas descobertas de um certo John Cleland, que, escrevendo

em 1870, comunicou em seu minucioso catálogo de 39 diferentes medidas

de 96 crânios diferentes que todos ou eram “civilizados” ou “incivilizados”.

Havia alguns de homens, outros de mulheres, um era de um “chefe

hotentote”, alguns foram descritos como “cretinos e idiotas”, existia um

“pirata espanhol selvagem” e havia ainda o crânio de um homem de Fife

chamado Edmunds, executado pelo assassinato da esposa.[16] (Contaram-

nos que Edmunds era de Fife e que perpetrou o assassinato “em

circunstâncias de provocação”. Não nos informam se um destes dois fatos

lhe fez obter a classificação de “civilizado” ou “incivilizado”.) Uma medida

específica no catálogo de Cleland, a proporção do arco do crânio com sua

linha de base, garantiu perfeitamente que as mulheres adultas eram distintas

de homens adultos e (principalmente) diferenciáveis de membros de nações

“incivilizadas”.

Não deixaram pedra sobre pedra (nem crânio sobre crânio) na caçada

pela prova da inferioridade das mulheres. Um artigo usou mais de 5 mil

medições de um único crânio.[17] Havia meios aparentemente infinitos de

medir o crânio, com o foco naqueles que não só diferenciavam melhor

homens de mulheres, mas também garantiam que as mulheres fossem

fidedignamente caracterizadas como insignificantes, infantis ou

semelhantes às vilipendiadas raças “inferiores”.

Um grupo de matemáticos do University College London logo se

envolveu no grande jogo das medições e suas descobertas acabariam por

deixar a craniologia em descrédito.[18] Este grupo de pesquisadores,

chefiados por Karl Pearson, pai da estatística, também incluía Alice Lee,

uma das primeiras mulheres a se formar na London University. Lee criou

uma fórmula volumétrica de base matemática para descobrir a capacidade

do crânio, que pretendia correlacionar com a inteligência. Ela usou esta

medição em um grupo de 30 estudantes mulheres do Bedford College, 25

funcionários homens do UCL e (esta foi uma boa jogada) um grupo de 35

importantes anatomistas que compareceram a uma reunião da Sociedade

Anatômica em Dublin, em 1898.

Os resultados de seu estudo foram o último prego no caixão da

craniologia; ela descobriu que um dos mais eminentes daqueles anatomistas

tinha uma das menores cabeças e, de fato, que um de seus futuros

examinadores, um certo Sir William Turner, ficou em oitavo, contando de

baixo para cima. A descoberta de que as cabeças destes eminentes homens

estavam no lado menor criou, como que por mágica, um grande número de

conversões instantâneas para a conclusão de que evidentemente era ridículo ligar a capacidade craniana com a inteligência (em especial porque algumas

estudantes de Bedford tinham capacidade craniana maior que a dos

anatomistas). Uma série de outros estudos se seguiu e, em um artigo de

1906, Pearson declarou que a medição do tamanho da cabeça não era uma

indicação eficaz da inteligência.[19]

Deste modo, a craniologia teve seus tempos, mas nas sombras havia

muitos outros prontos para explicar a diferença entre os sexos. Outra

técnica logo evoluiu da craniologia, concentrada no mapeamento de

diferentes “áreas de habilidade” no cérebro (mas, repito, sem acesso aos

meios de medi-las diretamente). Deixando o chumbo em prol dos calombos,

agora os cientistas se concentravam na superfície dos crânios, examinando-

a em busca de provas de protuberâncias de tamanhos diferentes, que para

eles refletiam as diferentes paisagens dos cérebros por dentro. Isto levou à

infame “ciência” da frenologia, desenvolvida por Franz Joseph Gall,

fisiologista alemão que alegou que características de personalidade como a

“benevolência”, a “prudência” ou mesmo a capacidade de gerar filhos

podiam ser avaliadas medindo-se a parte relevante do crânio de uma pessoa.

[20] Esta técnica foi popularizada por Johann Spurzheim, médico alemão

que inicialmente foi discípulo de Gall, mas que fez carreira como expoente

da frenologia depois de uma desavença com ele.[21] A alegação deste

sistema era que os acidentes cranianos de diferentes tamanhos refletiam os

diferentes tamanhos dos muitos “órgãos” distintos do cérebro, e que estes

órgãos controlavam diferentes características individuais, como a

combatividade, a prolificidade ou a cautela. Mais uma vez, e talvez sem

surpreender a ninguém, havia uma bela combinação dos acidentes maiores

em crânios masculinos com faculdades mais superiores.

A frenologia tornou-se particularmente popular nos Estados Unidos e,

em alguns círculos, foi adotada com entusiasmo pelas mulheres. Em um

estranho movimento primitivo de autoajuda, as mulheres eram estimuladas

a “conhecer a si mesmas” pela leitura de seu perfil frenológico.[22] Um

resultado inusitado foi a alegação idiota de que essa “ciência” dava provas

de que “nós, mulheres” estávamos mesmo em posição inferior a nossas

contrapartes masculinas, com acidentes cranianos diferentes em uma hierarquia social, e que deveríamos, com alívio, reconhecer nosso lugar

dentro dela.

A frenologia acabou caindo em descrédito em meados do século XIX,

em parte devido à falta de confiabilidade das medições e de qualquer teste

sistemático de suas teorias.[23] Mas sobreviveu a ideia de que processos

psicológicos específicos podiam ser localizados em áreas cerebrais

distintas, em parte apoiada pelo surgimento da neuropsicologia,

combinando partes do cérebro a aspectos específicos do comportamento. Os

cientistas começaram a estudar pacientes que tinham sofrido lesões

consideráveis em regiões cerebrais específicas, na esperança de que seu

comportamento “antes e depois” revelasse a função exata daquelas partes.

Em meados do século XIX, o médico francês Paul Broca determinou

uma ligação entre danos localizados no lobo frontal esquerdo e a produção

da fala.[24] A primeira pista veio do exame post-mortem do cérebro de um

paciente chamado “Tan”, assim batizado porque era só o que ele conseguia

dizer, embora estivesse claro que compreendia a fala. A área do dano

descoberta no lado esquerdo do lobo frontal de Tan ainda é chamada de área

de Broca.

Evidências mais fortes da ligação entre cérebro e comportamento foram

mostradas pelas mudanças relatadas no comportamento de certo Phineas

Gage, ferroviário americano que, enquanto se preparava para explodir

pedras comprimindo um pouco de dinamite com uma barra de ferro em

1848, detonou uma explosão que disparou a barra através de sua face

esquerda, saindo pelo alto da cabeça, levando um pedaço substancial dos

lobos frontais. Ele foi tratado e subsequentemente estudado pelo médico

John Harlow, que registrou suas observações em dois artigos com os

informativos títulos de “Passagem de uma Barra de Ferro através da

Cabeça” (1848) e “Recuperação da Passagem de uma Barra de Ferro

através da Cabeça” (1868).[25] As mudanças relatadas no comportamento de

Gage – sóbrio e industrioso antes do acidente; grosseiro, impulsivo,

desinibido e imprevisível depois dele – foram interpretadas como uma

demonstração de que os lobos frontais eram o centro do “intelecto superior”

e da conduta civilizada. Como formam cerca de 30% do cérebro humano, se comparados com cerca de 17% nos chimpanzés, faz sentido intuitivo a

sugestão de que dentro destes lobos encontram-se os poderes mais elevados

que nos tornam humanos.

Seguiram-se surtos entusiasmados de preparação de mapas corticais com

foco na identificação de onde no cérebro as coisas aconteciam, mais do que

quando ou como. Os modelos iniciais do cérebro o consideravam uma

coleção de unidades ou módulos especializados, cada um deles quase

exclusivamente responsável por determinada habilidade. Assim, se

quiséssemos descobrir em qual ponto se localizava uma habilidade no

cérebro, em geral estudávamos alguém que tivesse perdido essa habilidade

depois de uma lesão cerebral. Os pacientes de Broca e Harlow devem ser os

exemplos mais famosos disto. A perda de uma parte específica da

linguagem por Tan e a mudança de personalidade de Gage “localizaram”

estes aspectos do comportamento humano nos lobos frontais.

Ao procurarem por diferenças sexuais, os neurologistas combinaram

alegremente seus pressupostos sobre quais partes do cérebro eram as mais

importantes para as descobertas com quais partes do cérebro eram maiores

nos homens, mesmo que isto significasse um retorno a conclusões

anteriores. Por exemplo, um artigo de 1854 contou que as mulheres

costumam ter lobos parietais mais extensos do que os homens, cujos

cérebros eram caracterizados por lobos frontais maiores, angariando assim

o título genérico de Homo parietalis para as primeiras e, aos últimos, Homo

frontalis.[26] Porém, durante um breve modismo para identificar os lobos

parietais como a sede do intelecto humano, os neurologistas tiveram de

recuar rapidamente e relatar que a medição dos lobos parietais femininos

foram malfeitas e as mulheres tinham áreas frontais maiores do que se

pensava.[27] Não foi o melhor momento da pesquisa científica.

Com a aproximação da virada do século, declarações de inferioridade

deram lugar a referências à natureza “complementar” das características

alternativas das mulheres (definidas, naturalmente, pelos homens). Este foi

um conceito que teve origem na filosofia do século XVIII e nas ideias que

justificavam a distribuição desigual dos direitos dos cidadãos. Como

resume Londa Schiebinger:

De agora em diante, as mulheres não serão consideradas apenas inferiores aos homens,

mas fundamentalmente diferentes deles, e, portanto, incomparáveis com eles. A mulher

privada e acolhedora surgiu como um contraste para o homem público e racional. Por

conseguinte, pensava-se que as mulheres tinham seu próprio papel a representar nas

novas democracias – como mães e cuidadoras.[28]

 

Os “papéis complementares” reservados para as mulheres garantiam sua

posição inferior (se não a ausência dela) na maioria das esferas de

influência. Um exemplo clássico desta abordagem é o entusiasmo de Jean-

Jacques Rousseau pela “domesticação” da mulher, sua constituição mais

fraca e as singulares habilidades maternas que as tornam ineptas para

qualquer instrução formal ou ativismo político.[29] Isto se refletiu nas

opiniões de outros intelectuais importantes, como o antropólogo J.

McGrigor Allan, que alegou, ao se dirigir ao Royal Anthropological

Institute, em 1869:

 

Na faculdade da reflexão, a mulher é inteiramente incapaz de competir com o homem;

mas possui um dom compensatório em sua maravilhosa faculdade da intuição. Uma

mulher (por um poder semelhante àquela semirrazão graças à qual os animais evitam o

que é prejudicial e procuram o necessário para sua existência) chegará

instantaneamente a uma opinião correta sobre um assunto inalcançável para um

homem, salvo por um processo de raciocínio longo e complicado.[30]

 

Além de ser abençoada apenas com uma semirrazão semelhante à dos

animais, a biologia inferior das mulheres também era identificada como

uma justificativa a mais para sua exclusão dos corredores do poder. A

vulnerabilidade causada pelas exigências de seu sistema reprodutor era uma

ameaça constante nas declarações. McGrigor Allan, de novo, pelo visto

também especialista nos efeitos da menstruação, declarou:

 

Em tais momentos, as mulheres são ineptas a qualquer importante trabalho mental ou

físico. Elas sofrem de uma languidez e uma depressão que as desqualificam para o

raciocínio ou a ação e torna-se extremamente duvidoso até que ponto podem ser

consideradas seres responsáveis no decorrer da crise (...). Grande parte da conduta

inconsequente das mulheres, sua petulância, os caprichos e a irritabilidade podem ter

causa diretamente nisto (...). Imagine uma mulher, em um momento desses, tendo em

seu poder assinar a sentença de morte de uma rival ou de um amante infiel![31]

A polêmica de uma ligação direta entre a biologia e o cérebro implicava

que exigir demais de um podia prejudicar o outro. Em 1886, William

Withers Moore, então presidente da Associação Médica Britânica, alertou

sobre os perigos de instruir demasiadamente as mulheres, afirmando que

seu sistema reprodutor seria afetado e elas sucumbiriam ao distúrbio da

“anorexia escolástica”, tornando-se mais ou menos assexuadas e certamente

pouco casadoiras.[32] Embora não estivesse muito em voga na época a

importância da “escolha do parceiro”, uma pedra fundamental da teoria de

Darwin da seleção sexual, o status de uma mulher era estreitamente

determinado por com quem ela se casava, assim, era uma ameaça social de

peso diminuir suas chances no mercado do casamento.

O século chegou a um desfecho com as diferenças cerebrais ainda

consideradas, com o reconhecimento a mais da fragilidade e da

vulnerabilidade da mulher. Isto foi exemplificado de forma útil pelas muitas

heroínas “loucas, más ou tristes” na literatura da época, mulheres como

Lucy Snowe, a heroína de Villette, de Charlotte Brontë; Maggie Tulliver, de

O moinho sobre o rio, de George Eliot, ou Catherine Earnshaw, a heroína

de O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë. Todas elas foram

condenadas por suas tentativas voluntariosas de subverter a ordem natural

das coisas.[33]

 

O nascimento da imagem

 

Com relação ao estudo do cérebro em si, o século XX viu a continuação do

foco nas consequências da lesão cerebral, com a devastação da Primeira

Guerra Mundial fornecendo tristemente muitos outros estudos de caso. Mas

os modelos construídos eram baseados no pressuposto de que existe um

mapeamento direto de determinada estrutura a uma determinada função e

que se pode fazer o “mapeamento reverso” do que torna uma estrutura

específica, vendo-se qual função é perturbada quando esta estrutura foi

lesionada. Agora que sabemos muito mais sobre como diferentes partes do cérebro interagem entre si e como redes diferentes são formadas e

desmontadas o tempo todo, raras vezes podemos pressupor uma ligação

direta entre uma estrutura específica do cérebro (o hardware) e uma função

cerebral específica. Só porque determinada habilidade ou comportamento se

perde quando determinada parte do cérebro é lesionada, não quer dizer que

esta seja a única responsável pelo controle daquela habilidade. Infelizmente,

para os neurocientistas (mas felizmente para nós, os donos de cérebros), não

existe uma relação individual e perfeita entre certa habilidade e certa parte

do cérebro.

Para entender melhor como o cérebro sustenta diferentes

comportamentos, precisamos ter acesso a um cérebro saudável e intacto, e

medir o que acontece em tempo real, enquanto quem o possui realiza a

tarefa na qual estamos interessados. A atividade no cérebro é uma mistura

de atividade elétrica e química, que ocorre dentro e entre nossas células

nervosas. Em animais não humanos, ou durante cirurgias encefálicas

específicas em cérebros humanos, podemos ver isto no nível das células

individuais, mas, em geral, no tipo de pesquisa de neurociência cognitiva

discutida neste livro, a atividade deve ser medida de fora da cabeça, como

mudanças no status elétrico das células que compõem as diferentes vias

cerebrais, nos campos magnéticos mínimos associados a estas correntes

elétricas, ou nas características do fluxo sanguíneo que chega ou sai de

áreas movimentadas do cérebro. O desenvolvimento de tecnologias que

conseguem captar estes minúsculos sinais biológicos forma a fundação dos

sistemas de imagem cerebral de hoje.

A primeira inovação na medição da atividade cerebral veio em 1924,

quando o psiquiatra alemão Hans Berger, ao colar pequenos discos de metal

no crânio, conseguiu demonstrar padrões de atividade elétrica cambiantes,

dependendo de a pessoa estar relaxada, atenta ou realizando tarefas

específicas.[34] Berger mostrou que o sinal que captava tinha frequências e

amplitudes variáveis, que dependiam de onde vinham e do que a pessoa

fazia – a “onda alfa” é mais evidente quando a pessoa está alerta e atenta,

enquanto a “onda delta”, muito lenta e relativamente grande, é mais evidente quando ela está dormindo. Ele chamou seu dispositivo de

“eletroencefalograma”.

A eletroencefalografia ou EEG é a técnica de imagem do cérebro

humano mais antiga de todas e a base de grande parte do conhecimento

inicial da pesquisa de imagem cerebral Em 1932, foi desenvolvida uma

máquina de escrever com tinta multicanal, com o intuito de que a emissão

de eletrodos que passavam por diferentes partes do crânio fosse transferida

para um rolo de papel móvel e examinada em busca de mudanças

associadas, por exemplo, com luzes ou sons intermitentes.[35] Essas

mudanças podiam ser traçadas em escalas de milissegundos e, assim, eram

uma medição muito boa da velocidade com que as coisas aconteciam no

cérebro. Mas como os sinais elétricos eram distorcidos por sua passagem

pelo tecido encefálico, por membranas do cérebro e pelo próprio crânio, os

cientistas nem sempre conseguiam um quadro confiável de onde essas

mudanças ocorriam.

O EEG continuou a ser a principal fonte de informação sobre a atividade

no cérebro humano intacto até os anos 1970, quando foi desenvolvido o

primeiro sistema de tomografia de emissão de pósitrons (PET). A PET faz

uso do fato de que, quando a atividade em determinada parte do cérebro

intensifica, há um aumento na quantidade de sangue que flui para lá. Nos

sistemas PET, uma pequena quantidade de marcador radioativo é injetada

na corrente sanguínea; este pode sinalizar o nível de consumo de glicose no

sangue que flui para diferentes partes do cérebro, uma medição da

quantidade de atividade que acontece ali.[36] A PET era um indicador muito

melhor do que o EEG sobre a localização da atividade no cérebro, mas o

uso de isótopos radioativos suscitou questões éticas e também limitou quem

podia ser examinado – em geral, crianças e mulheres em idade fértil eram

excluídas dos projetos exclusivamente de pesquisa.

Esses problemas foram superados pela imagem por ressonância

magnética funcional (fMRI), que surgiu na década de 1990 e trabalha de

forma muito semelhante à tomografia PET. A atividade cerebral aumentada,

além de provocar um aumento no consumo de glicose, também cria uma

demanda maior por oxigênio. Como acontece com a glicose, este é fornecido por um fluxo sanguíneo maior à parte relevante do cérebro e o

oxigênio é absorvido para atender a suas necessidades; à medida que

aumenta a atividade, mudarão os níveis de oxigênio no cérebro. As

mudanças no nível de oxigênio sanguíneo resultarão em mudanças nas

propriedades magnéticas do sangue. Se colocarmos um cérebro (ou melhor,

a cabeça que comporta o cérebro) em um forte campo magnético, podemos

medir estas reações dependentes do nível de oxigênio no sangue (BOLD, de

blood-oxygen-level-dependent). Depois de uma série muito extensa e

complexa de análises estatísticas, o resultado da varredura pode ser

convertido em áreas codificadas por cores que são sobrepostas em um scan

estrutural, em geral na forma de uma seção transversal horizontal ou

vertical característica, cinza e branca, de um cérebro em seu crânio,

produzindo o que parece ser uma imagem do que acontece dentro de nossa

cabeça.[37]

Os primeiros estudos de fMRI do cérebro humano prometiam nos dar

insights impressionantes sobre os processos que antes só podíamos

imaginar.

 

Tamanho ainda é documento

 

Você poderia pensar que a tecnologia de ponta disponível teria elevado o

antigo debate a um patamar superior. Acabaram-se os “140 gramas a

menos”, a zombaria do “Homo parietalis”, acabou-se a agonia com ângulos

minúsculos do maxilar?

Bom, infelizmente você teria uma decepção. O mantra “culpe o cérebro”

continuou inabalável e a ênfase em “tamanho é documento” ainda era tão

evidente no exame dos dados de imagem cerebrais como nos tempos de

“calombos e chumbo”, e o cérebro das mulheres ainda era considerado

insuficiente. Como observou a bióloga e especialista em estudos de gênero

Anne Fausto-Sterling, esta questão é perfeitamente resumida nas “guerras

do corpo caloso”.[38] Uso o termo “guerras” propositalmente – um recente comentário de um pesquisador da área tinha o título “Nas Trincheiras com o

Corpo Caloso”.[39]

O corpo caloso é a ponte de fibras nervosas, com cerca de 10 centímetros

de extensão, que liga as metades direita e esquerda do cérebro; é a maior

estrutura de massa branca no cérebro, contendo as projeções de mais de 200

milhões de células nervosas. Pode ser visto com clareza em fotos de seções

transversais do cérebro como algo parecido com uma castanha de caju

alongada, seu formato cinza-claro e uniforme é facilmente visto em

contraste com as espirais de massa cinzenta mais escura que o cercam.[40]

Em 1982, o antropólogo americano Ralph Holloway e sua aluna

Christine DeLacoste-Utansing, uma citóloga, relataram a descoberta de

diferenças no tamanho do corpo caloso, com base em um grupo muito

pequeno de participantes (catorze homens, cinco mulheres).[41] A diferença

não foi encontrada por todo o corpo caloso, apenas na parte mais posterior

do cérebro, que se demonstrou mais larga ou “mais bulbosa” nas mulheres.

Esta também não era uma diferença estatisticamente significativa, embora

estudos de revisão tenham acrescentado alguns casos adicionais que deram

apoio à descoberta inicial. O tamanho do grupo e o nível muito baixo de

diferença estatística significariam que o artigo de Holloway e DeLacoste-

Utansing nunca teria visto a luz do dia se fosse produzido atualmente,

entretanto, deixou um legado duradouro no estudo das diferenças sexuais do

cérebro.

Com o passar dos anos, este pequeno fiapo de descoberta resultou em

um verdadeiro cabo de guerra entre diferentes pesquisadores e nos deu um

ótimo estudo de caso sobre como encontrar a resposta para o que você

procura no cérebro pode depender apenas da maneira que a pergunta é feita.

Foram realizados múltiplos estudos, com variados grupos e usando técnicas

de medição diferentes – e ainda não se chegou a um consenso. Por que isso,

você poderia perguntar?

Primeiro, pode valer a pena notar que medir uma estrutura

tridimensional de formato desajeitado, enterrada em duas metades de um

borrão de matéria orgânica de formato ainda mais desajeitado, não é uma

tarefa simples. Os primeiros estudos se basearam em cérebros autopsiados que foram cuidadosamente dissecados em duas metades, revelando a seção

transversal do corpo caloso. Fotos foram feitas e as imagens resultantes

projetadas em uma mesa de vidro. O contorno dessas imagens foi

desenhado (isso mesmo, à mão) e tiraram várias medidas, da extensão, da

área e da largura das diferentes subestruturas. Medidas de extensão podem

ser calculadas desenhando-se uma linha reta de uma ponta à outra, ou uma

linha curva que siga o formato do corpo caloso.[42] Esses métodos manuais

foram parcialmente superados pelos procedimentos automatizados de hoje,

mas o princípio de “traçado” básico ainda é praticamente o mesmo.

É extraordinário o número de maneiras como estas diferentes medições

foram colocadas em uso para fazer valer um argumento sobre o corpo

caloso em relação às diferenças sexuais, e como elas possuem uma

semelhança alarmante com as discussões sobre a craniologia no século

XIX. Por exemplo, um artigo de 1870 explica uma medição da craniologia

como se segue:

 

O crânio é suspenso em uma estrutura horizontal por meio de dois parafusos

pontiagudos, um de cada lado, instalados em suportes fixos; e por outros parafusos que

se movem em trilhos e podem ser ajustados com quaisquer dois pontos em um nível.

Uma barra vertical, que pode ser deslizada para cima e para baixo, corre pela lateral da

estrutura, e escora uma barra horizontal deslizante dirigida para dentro, à qual uma

agulha pode ser fixada em ângulos retos, se necessário, nas direções vertical ou

longitudinal. A estrutura, as barras e a agulha são marcadas em polegadas e decimais, e,

por este meio, a distância vertical e a horizontal de qualquer ponto do crânio a partir do

local de suspensão é facilmente determinada e marcada no papel, de forma que, por

uma série destes pontos, possa ser construído um diagrama. Com a ajuda de uma folha

de papel pautado, tal diagrama pode ser feito em alguns minutos a partir de uma série

de números que não ocupam mais que algumas linhas.[43]

 

Agora vamos comparar isto com uma explicação de 2014 da medição de

um corpo caloso:

 

Os contornos dos dois corpos calosos foram delineados por um classificador (M.W.), e

as bordas inferior e superior foram definidas em relação aos pontos finais anterior e

posterior. A linha média do corpo caloso de N (isto é, que corre no sentido rostrocaudal

pelo centro do corpo caloso, aproximadamente paralela a suas bordas superior e

inferior) foi definida pelo Teorema da Dualidade de Simetria-Curvatura (Leyton, 1987),

em seguida seccionada em 400 pontos equidistantes, com 400 pontos correspondentes

na borda superior e na inferior. A distância entre pontos correspondentes nas bordas

superior e inferior foi definida como a espessura do corpo caloso naquele nível. O valor

das 400 espessuras foi codificado em cores e mapeado no espaço caloso esquerdo de N.

Calculou-se a média dos 400 valores e se definiu como a espessura média do corpo

caloso, enquanto as distâncias somadas entre os 400 pontos adjacentes foi definida

como o comprimento da linha média do corpo caloso.[44]

 

Parece que as coisas não avançaram muito em 150 anos, não é verdade?

Faz a gente se perguntar se estamos apenas procurando uma atenção

extraordinária aos detalhes ou se é uma busca desesperada por um meio de

localizar uma diferença, qualquer que seja.

A segunda lição a ser aprendida com as guerras do corpo caloso é que,

quando comparamos cérebros, descrever algo como “maior” não é tão

simples como se pode pensar. A questão principal é que, em média, os

cérebros masculinos são maiores que os femininos e que isto tem

consequências para todas as estruturas dentro destes cérebros. Um cérebro

maior tem um corpo caloso maior, o mesmo se pode dizer de todas as suas

estruturas, inclusive as fundamentais, como a amígdala e o hipocampo,

sobre as quais se travaram guerras semelhantes (e nas quais a importância

dessas diferenças de tamanho foi, da mesma forma, elaborada para apoiar

argumentos sobre as disposições e as capacidades “naturais” de mulheres e

homens).

Para resolver esses debates, é preciso haver um meio consensual de

“corrigir” as diferenças no tamanho cerebral. E o problema está na palavra

“consensual”. Estudos iniciais usaram o peso do cérebro como uma boa

indicação do tamanho e foram estatisticamente corrigidos; outros pensaram

que a área cerebral era mais adequada; estudos posteriores pensaram que o

volume do cérebro era uma variável de melhor controle. Mas outros

acharam que era mais uma questão de escala, assim, era preciso informar o

tamanho do corpo caloso em proporção com algum aspecto do cérebro.[45]

Mas proporcional a quê?

Todos pareciam ter uma parte preferida do cérebro com a qual queriam

comparar o corpo caloso. E ai de quem discordasse da opção deles. Argumentos como estes suscitaram uma questão retórica exasperada de dois

pesquisadores da área:

 

Com qual base um pesquisador escolhe um órgão contra o qual avaliar a

proporcionalidade do corpo caloso? O tamanho do cérebro parece evidente, mas e

quanto ao volume do lobo occipital ou dos ventrículos, a extensão da medula espinhal,

o tamanho da pupila quando dilatada, ou o volume do dedão do pé esquerdo elevado à

0,667ª potência?[46]

 

Em meus momentos mais irreverentes, sou lembrada de A vida de Brian,

do Monty Python, em que uma multidão é exortada a “seguir a cabaça” só

pelo surgimento de um sinal divino diferente, com a exortação de “siga a

sandália”.

Mas mesmo que se possa chegar a um consenso de correção desses, o

que qualquer diferença pode de fato significar? O que significa se temos um

corpo caloso maior ou menor? Se o corpo caloso feminino fosse diferente

da versão masculina, como o ligaríamos às diferenças sexuais em

comportamento, cujas explicações eram o objetivo do exercício, antes de

tudo? Desses estudos, muito poucos realmente mediram quaisquer

diferenças comportamentais por seu leque heterogêneo de medições de

tamanho.

Uma ponte maior entre os dois hemisférios, em tese, deve significar

maior intercomunicação entre eles. Os estudos iniciais da neuropsicologia

propuseram que o lado direito do cérebro amparava habilidades emocionais

e de processamento global, porque era mais provável que estas fossem

deficientes em pacientes com danos no hemisfério direito.[47] E, como

sabemos por Broca e seus seguidores, o lado esquerdo era encarregado da

linguagem e da lógica. Assim, naturalmente, se as mulheres em geral têm

um corpo caloso maior, deve ser por isso que elas são boas na localização

de conotações emocionais em uma conversa, ou por isso elas costumam

saber o que está acontecendo sem que alguém explique (em outras palavras,

intuição). Uma comunicação menos tranquila entre os hemisférios

significaria que cada um deles pode cuidar de suas habilidades e proposta

única de valor; o hemisfério esquerdo friamente lógico de um homem pode enfrentar o mundo sem as distrações dos ruidosos intrusos emocionais,

enquanto as capacidades espaciais incrivelmente eficientes de seu

hemisfério direito podem ser focalizadas, como laser, na tarefa em curso.

Portanto, o mecanismo de filtragem calosa mais eficiente dos homens

explicava seu gênio matemático e científico (com o apelo ao brilhantismo

no xadrez, por via das dúvidas), seu direito a capitanear a indústria, ganhar

prêmios Nobel e assim por diante. Neste caso, nas guerras do “tamanho é

documento”, com relação ao corpo caloso, ser pequeno é ser lindo.

Porém, como já mencionei, o problema fundamental disso é que ainda

estamos um tanto inseguros sobre a relação entre o tamanho de qualquer

estrutura cerebral e a expressão de qualquer comportamento com o qual ela

pode estar envolvida. Em um nível muito básico, sabemos que quanto mais

sensível a parte de nosso corpo (por exemplo, nossos lábios, em

comparação às costas), maior a área do córtex sensorial dedicada a

processar informações desta parte específica do corpo.[48] Sabemos, por

estudos de capacitação, que áreas do cérebro associadas com determinadas

habilidades podem mostrar aumento de tamanho com a aquisição da

habilidade.[49] Quantitativamente, uma correlação; qualitativamente, uma

associação, mas estamos muito longe de formar qualquer relação causal.

Como veremos adiante neste livro, com muita frequência a ligação entre

determinada estrutura e determinado aspecto do comportamento é

presumida como um “dado”, possivelmente sem que o próprio

comportamento tenha feito parte de qualquer investigação da dita estrutura.

As mulheres têm vias calosas mais largas? Bom, é por isso que elas são

multitarefa! O hemisfério direito feminino está abarrotado de fofoca

linguística? Não surpreende que as mulheres não saibam ler mapas!

E existe uma questão do século XXI que será trazida aqui: e a

plasticidade cerebral em todas essas discussões sobre quem tem o corpo

caloso maior? Tendo em mente que o desenvolvimento das vias cerebrais

pode continuar até a faixa dos trinta anos e que um aumento no corpo

caloso foi visto até bem depois da adolescência, há um tremendo espaço em

que o mundo imiscui-se durante este tempo. Por exemplo, um estudo

mostrou que as taxas de transferência nas fibras nervosas do corpo caloso são mais rápidas em músicos de instrumentos de cordas (em que o

envolvimento das duas mãos é assimétrico) do que em pianistas (uso

simétrico das mãos) ou em não músicos.[50] Deste modo, mesmo que as

várias facções das guerras do corpo caloso concordem com a medição que

podem usar, quaisquer conclusões sobre as diferenças sexuais que resultem

daí precisariam levar em consideração fatores sociais ou vivenciais.

A história do corpo caloso resume muitas questões que cercam as

tentativas de medir as diferenças sexuais no cérebro. Não só há argumentos

complexos sobre como devem ser feitas as medições, como também há

desavenças resultantes sobre a origem de quaisquer diferenças que sejam

encontradas e discussões ainda mais veementes sobre o que podem

significar essas diferenças. Todavia, na literatura populista das “diferenças

sexuais”, ainda existem meras declarações de que o corpo caloso é maior

nas mulheres do que nos homens, citadas seriamente em apoio contínuo a

mitos de cérebro direito/esquerdo.[51]

Outra medição debatida com entusiasmo é a proporção entre massa

cinzenta (MC) e massa branca (MB), isto é, o equilíbrio entre o volume

geral de células nervosas no cérebro (MC) e as vias que os conectam (MB).

Um relato de 1999 desta diferença sexual específica no cérebro, usando

tecnologia de ressonância magnética estrutural inicial, veio do laboratório

de Ruben e Raquel Gur, de onde, desde então, emanaram muitos relatos

semelhantes.[52] Os resultados eram que as mulheres tinham uma

porcentagem maior de volume de MC, enquanto os homens tinham uma

porcentagem maior de volume de MB. Quatro estudos subsequentes

corrigiram o volume cerebral, porque as massas cinzenta e branca podem

ser afetadas por questões de escala, com a MC distribuída mais amplamente

em cérebros maiores, o que adicionalmente exigiria vias de comunicação

maiores.[53] Dois estudos falaram de proporções maiores entre massa

cinzenta/branca nas mulheres; dois não relataram nenhuma diferença entre

homens e mulheres. Uma revisão posterior desta pesquisa examinou mais

de 150 estudos e concluiu que, na verdade, os homens têm uma

porcentagem maior de volume de MC geral (o contrário da descoberta

original).[54] Também é evidente que existem acentuadas variações regionais pelo cérebro em que estas diferenças sexuais podem ser

encontradas. Assim, esta medição MC/MB não parece ser um jeito útil de

distinguir os cérebros de homens e mulheres.

Mas isso não atrapalhou seu uso contínuo como evidência no debate

incessante. A questão das diferenças sexuais entre as massas cinzenta e

branca tornou-se outro factoide que se metamorfoseou em um mito do

cérebro na literatura populista. Um estudo de 2004 procurou a correlação

entre pontuações de QI e medições de massa cinzenta e branca nos cérebros

de 21 homens e 27 mulheres.[55] Os pesquisadores informaram que os

homens tinham correlações cérebro-QI mais significativas em sua MC (6,5

vezes mais do que as mulheres, na verdade), enquanto as mulheres tinham

correlações cérebro-QI nove vezes mais significativas em sua MB. Não

houve nenhuma discussão real do que essas correlações de fato poderiam

significar, apenas que as duas medições por acaso andavam juntas. Não é

difícil detectar aqui uns fantasmas da projeção mandibular e da inclinação

da testa.

A pesquisa teve cobertura na imprensa científica como uma

demonstração de que o desempenho de QI das mulheres tinha relação com a

integração e a assimilação de informações (usando mais vias do cérebro),

enquanto os homens eram concentrados mais localmente. Manchetes como

“Inteligência em homens e mulheres é matéria cinzenta ou branca” e (é

claro) “Homens e mulheres realmente pensam de forma diferente”

garantiram que este estudo inicial e de pequena escala, usando uma

medição misteriosa e rudimentar das relações estrutura-função, fosse citado

quase 400 vezes até esta data, em geral no contexto de discussões sobre

escolas de sexo único ou a baixa representação das mulheres na ciência.

Acompanhamos a campanha “culpe o cérebro” ao longo do tempo e

vimos como foi diligente a busca dos cientistas por essas diferenças

cerebrais que conservariam as mulheres em seu lugar. Se não existisse uma

unidade de medida para caracterizar esses cérebros femininos inferiores,

esta teria de ser inventada! Este frenesi de medições continuou no século

XX, com a tecnologia de imagem claramente mais sofisticada do que os

paquímetros da craniometria ou os calombos da frenologia, mas certamente com alguns dos mesmos debates a respeito de quais medições usar. Toda a