Hereges

G. K. Chesterton · Capítulo 12 de 37

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III. O Sr Rudyard Kipling e a criação de um mundo menor

CAPÍTULO III

O Sr Rudyard Kipling e a

 

criação de um mundo menor

 

N ÃO HÁ, NA TERRA, assunto desinteressante; a única coisa que existe são pessoas desinteressadas. Nada é tão necessário quanto a defesa das pessoas enfadonhas. Quando Byron 48 dividiu a humanidade em entediantes

e entediados,49 deixou de notar que as mais altas qualidades estão

totalmente presentes nos entediantes e as mais baixas, nos entediados, entre

os quais se incluía. O entediante, pelo brilhante entusiasmo, pela solene

felicidade, pode, de alguma forma, ter se tornado poético. O entediado,

certamente, provou ser banal.

Podemos, sem dúvida, considerar um estorvo contar todas as folhas de

grama ou as folhas das árvores; não por ousadia ou alegria, mas pela falta

de ousadia ou alegria. O entediante seguiria em frente, ousado e alegre, e

consideraria as folhas de grama tão esplêndidas quanto as espadas de um

exército.50 O entediante é mais forte e mais feliz do que somos; é um

semideus – não, é um deus. Pois os deuses não se cansam da repetição das

coisas. Para eles, o entardecer é sempre novo, e a última rosa é tão vermelha

quanto a primeira.

O sentimento de que tudo é poético é algo consistente e absoluto, não

mera questão de fraseologia ou persuasão. Não é simplesmente verdade, é

algo determinável. Os homens podem ser incitados a negá-lo; podem ser

provocados a mencionar qualquer coisa que não seja uma questão de

poesia. Lembro-me que, há muito tempo, um sensato editor assistente se

aproximou de mim com um livro nas mãos intitulado “Sr Smith” ou “A

família Smith”, ou algo parecido. Disse-me: “Bem, creio que não

descobrirás neste livro nada do teu miserável misticismo”, ou coisa

semelhante. Fico contente em dizer que o decepcionei; mas a vitória foi tão

óbvia e fácil! Na maioria dos casos, o nome não é poético, mas o fato o é.

No caso de Smith, o nome é tão poético que deve ser árdua e heróica a

tarefa de viver à sua altura. O nome de Smith é o nome de uma profissão51 respeitada até mesmo por reis, um nome que pode reivindicar metade da

glória da arma virumque52 que todos os épicos aclamaram. O espírito do

ferreiro está tão próximo do espírito da canção que se mesclaram em

milhões de poemas, e cada ferreiro é um harmonioso ferreiro.

Até as crianças do vilarejo sentem que, de uma forma um tanto obscura, o

ferreiro é poético – como não o são o dono da mercearia e o sapateiro – ao

dançar em meio a fagulhas e ensurdecedoras marteladas na gruta da

violência criativa. O repositório bruto da natureza, a apaixonada capacidade

do homem, o mais resistente dos metais da Terra, o mais estranho dos

elementos da Terra, o inconquistável ferro subjugado pelo único

conquistador, a roda e o arado, a espada e o martelo a vapor, as armaduras

militares e todas as lendas de lutas armadas, todas essas coisas estão escritas

– brevemente, é verdade, mas bem legíveis – no cartão de visitas do Sr

Smith. Mesmo assim, nossos romancistas chamam seus heróis de “Aylmer

Valence”, que nada significa, ou ainda “Vernon Raymond”, que também

nada significa, quando está ao alcance deles dar o nome sagrado de Smith –

nome feito de ferro e fogo. Seria natural que certa nobreza, certo maneio de

cabeça, certo gesto nos lábios, distinguisse cada um dos que trazem o nome

de Smith. Talvez assim seja; creio que sim. Quem quer que sejam os novos-

ricos, os Smiths não o são. Desde a mais obscura aurora da história, esse clã

se lançou na batalha; seus troféus estão em cada mão; seu nome está em

todo o lugar; é mais antigo que as nações e seu símbolo é o martelo de Thor.

Mas, como também mencionei, esse não é bem o caso. É muito comum

que coisas comuns sejam poéticas; não é tão comum que nomes comuns

sejam poéticos. Na maioria dos casos, o nome é o obstáculo. Muitas pessoas

falam como se a afirmação de que todas as coisas são poéticas fosse mera

criatividade literária, um jogo de palavras. O oposto é a mais pura verdade.

A idéia de que algumas coisas não são poéticas é que é literária – isso é que

é mero produto das palavras. O nome “cabina de sinaleiro”53 não é poético.

Mas a coisa cabina de sinaleiro é poética. É um local onde homens, na

agonia da vigilância, acendem luzes vermelho-sangue e verde-mar a fim de

evitar a morte de outros homens. Essa é a descrição pura e simples do que é

a palavra; a prosa só aparece no que é nomeado. O nome “caixa de

correio”54 não é poético. Mas a coisa caixa de correio o é; é o lugar a que

amigos e amantes confiam mensagens, conscientes de que quando assim o

fazem, serão sagradas e não poderão ser tocadas, não apenas por outros,

mas nem (retoque consciencioso!) por eles mesmos. A torre vermelha55 é

um dos derradeiros templos. Postar uma carta e casar estão entre as poucas

coisas totalmente românticas; pois para ser completamente romântica, a

coisa deve ser irrevogável. Acreditamos que a caixa de correio é trivial,

porque não há rima. Pensamos que a caixa de correio não é poética, porque

nunca a vimos num poema. Mas a audácia está inteiramente do lado da

poesia. Uma cabina de sinaleiro só é chamada de cabina de sinaleiro; é a

casa da vida e da morte. Uma caixa de correio só é chamada de caixa de

correio; é um santuário de palavras humanas. Achar o nome “Smith” banal

não é ser prático ou razoável; é estar excessivamente afetado por

refinamentos literários. O nome brada poesia. Achar o contrário é estar

impregnado, encharcado de reminiscências verbais, é lembrar da Punch56

ou das tirinhas cômicas sobre o Sr Smith como bêbado ou como o marido

intimidado. Todas essas coisas nos foram dadas de forma poética e apenas

por um longo e elaborado processo de esforço literário é que se tornaram

prosaicos.

Bem, a primeira coisa, e a mais justa, a dizer sobre Rudyard Kipling é que

assumiu um brilhante papel ao recuperar as províncias perdidas da poesia.

Não se atemorizou pela brutal atmosfera materialista que se apega somente

às palavras; penetrou na substância romântica e imaginativa das próprias

coisas. Percebeu a significância e a filosofia do vapor e da gíria. O vapor

pode ser considerado, se quisermos, um vil subproduto da ciência. A gíria

pode ser considerada um vil subproduto da linguagem. Mas, ao menos, ele

está entre os poucos que perceberam o divino parentesco de tais coisas, e

soube que onde há fumaça há fogo – isto é, que onde estão as coisas mais

infectas, também estão as mais puras. Sobretudo, tinha algo a dizer, uma

visão precisa do que falava, e isso sempre quer dizer que tal homem é

destemido e enfrenta tudo. No momento em que temos uma visão do

universo, nós o possuímos.

Já a mensagem de Rudyard Kipling, aquela sobre a qual realmente se

concentrou, é a única coisa a seu respeito, ou a respeito de qualquer outro

homem, com que vale a pena se preocupar. Sempre escreveu má poesia,

assim como Wordsworth.57 Muitas vezes dizia tolices, assim como Platão.

Amiúde cedia à mera histeria política, assim como Gladstone.58 Mas não

podemos duvidar que desejou, de forma firme e sincera, exprimir algo. A

única pergunta séria é: o que tentou dizer? Talvez, a melhor e mais justa forma de expressar o que digo seja começar com aquele elemento sobre o

qual ele mesmo e seus oponentes mais persistiram em afirmar – digo, o

interesse pelo militarismo. Mas, quando buscamos os verdadeiros méritos

de um homem, é insensato ouvir seus inimigos, e muito mais tolo ouvir o

próprio homem.

Ora, o Sr Kipling certamente está errado na adoração ao militarismo.

Todavia, seus opositores estão, no geral, tão errados quanto ele. O mal do

militarismo não está em mostrar para alguns homens como ser violentos,

presunçosos e excessivamente belicosos. O mal do militarismo está em

demonstrar à maioria dos homens que devem ser mansos, tímidos e

excessivamente pacificáveis. O soldado profissional ganha cada vez mais

poder à medida que a coragem geral da comunidade declina. Assim, a

guarda pretoriana se tornou cada vez mais importante em Roma à medida

que Roma se tornava mais luxuosa e débil. O militar ganha o poder civil à

proporção que o civil perde as virtudes militares. Assim como aconteceu na

Roma antiga, acontece na Europa atual. Nunca houve tempo em que as

nações fossem mais militaristas. Nunca houve tempo em que os homens

fossem tão pouco corajosos. Todas as eras e todos os épicos cantaram as

armas e o homem; mas conseguimos, simultaneamente, a deterioração do

homem e a fantástica perfeição das armas. O militarismo demonstrou a

decadência de Roma e demonstra a decadência da Prússia.59

Inconscientemente, o Sr Kipling provou isso, e de modo admirável. Pois,

uma vez que sua obra seja seriamente entendida, a questão militar não

emerge, de forma alguma, como a coisa mais importante ou atrativa. Não

escreveu tão bem sobre soldados quanto o fizera sobre ferroviários ou

construtores de pontes, ou mesmo jornalistas. Fato é que aquilo que atrai o

Sr Kipling ao militarismo não é a idéia de coragem, mas a idéia de

disciplina. Havia muito mais coragem por quilômetro quadrado na Idade

Média, quando os reis não tinham um exército permanente, no entanto todo

homem tinha um arco e flecha ou uma espada. Todavia, o que fascina o Sr

Kipling num exército permanente não é a coragem, que pouco lhe interessa,

mas a disciplina, que é, afinal, seu tema principal. O exército moderno não

é um milagre de coragem; não tem oportunidades suficientes devido à

covardia dos demais, mas é, realmente, um milagre da organização. Este é,

verdadeiramente, o ideal kiplinguiano. O tema de Kipling não é a bravura

que se relaciona propriamente à guerra, mas a interdependência e eficiência que se relaciona tanto à guerra quanto aos engenheiros, aos marinheiros, às

mulas ou às composições ferroviárias. E assim, quando escreve sobre

engenheiros, marinheiros, mulas e máquinas a vapor, faz o que há de

melhor. A poesia autêntica, o “verdadeiro romance” que o Sr Kipling

ensina, é o romance da divisão de trabalho e da disciplina dos negócios.

Canta as artes da paz com maior precisão do que as artes da guerra. E sua

tese principal é vital e valiosa. Tudo é militar, no sentido de que cada coisa

depende da obediência. Não há nenhum nicho perfeitamente epicurista; não

há lugar perfeitamente irresponsável. Em todos os lugares, os homens

desbravaram, para nós, os caminhos, com suor e submissão. Podemos nos

lançar numa rede de dormir num acesso de sublime desatenção. Mas temos

sorte do fabricante da rede não tê-la fabricado com sublime desatenção.

Podemos pular num cavalinho de balanço, por brincadeira, mas temos sorte

de o carpinteiro não ter deixado de colar as pernas do cavalo, por

brincadeira. Longe de ter simplesmente proclamado que o soldado que

limpa sua arma merece adoração por ser militar, Kipling, no melhor de seus

momentos, apregoou que o padeiro assando pães e o costureiro cortando

tecidos são tão militares quanto qualquer pessoa.

Por ser devoto de uma múltipla visão de responsabilidade, o Sr Kipling é

naturalmente um cosmopolita. Acaba por encontrar seus exemplos no

Império Britânico, mas qualquer outro império, ou, por certo, qualquer

outro país altamente civilizado serviria. O que admira no exército britânico,

encontraria de forma ainda mais aparente no exército alemão; aquilo que

deseja na polícia britânica, encontraria a prosperar na polícia francesa. O

ideal de disciplina não é a totalidade da vida, mas se difundiu no mundo

todo. Tal culto tende a confirmar, no Sr Kipling, certa nota de sabedoria

mundana, algo da experiência de andarilho, que é um dos verdadeiros

encantos do melhor de sua obra.

A grande lacuna em seu intelecto pode ser chamada, grosso modo, de falta

de patriotismo – isto é, não há nele a faculdade de aderir, trágica ou

derradeiramente, a alguma causa ou comunidade, pois toda finalidade deve

ser trágica. Admira a Inglaterra, mas não a ama, pois admiramos as coisas

por razões, mas as amamos irracionalmente. Admira a Inglaterra por ser

forte, não por ser inglesa. Não há nenhuma severidade no que digo, pois,

para fazer-lhe justiça, confessa isso com usual e pitoresca simplicidade.

Num poema muito interessante, diz que: “Se a Inglaterra fosse o que parece” – isto é, fraca e ineficiente; se a Inglaterra fosse não o que (como

crê) é – isto é, poderosa e prática – “Com que rapidez a teríamos

desprezado! Mas ela não é!”60

Admite que sua devoção é resultado da crítica, e isso é o bastante para

colocá-la numa categoria completamente diferente do patriotismo dos

bôeres,61 os quais perseguiu na África do Sul. Ao falar de povos realmente

patrióticos, como o irlandês, o Sr Kipling tem alguma dificuldade em evitar

a extrema irritação na escolha da linguagem. O estado de espírito que

realmente descreve com beleza e nobreza é o do cosmopolita que viu

homens e cidades.

Para admirar e para ver,

Para contemplar tão vasto mundo.62

 

É o mestre perfeito da suave melancolia com que um homem recorda ter

sido cidadão de muitas comunidades, da suave melancolia com que o

homem relembra ter sido amante de muitas mulheres. É o galanteador das

nações. Mas um homem pode ter aprendido muito sobre mulheres nos

flertes, e ainda ser ignorante acerca do primeiro amor; um homem pode ter

conhecido muitas terras como Ulisses, mas ainda ser ignorante acerca do

patriotismo.

O Sr Rudyard Kipling pergunta num célebre epigrama o que podem

conhecer a respeito da Inglaterra aqueles que só conhecem a Inglaterra.63

Contudo, há uma questão ainda mais pungente e profunda: “O que pode

conhecer a respeito da Inglaterra quem só conhece o mundo?”, pois o

mundo não inclui a Inglaterra mais do que inclui a Igreja. No momento em

que nos preocupamos profundamente com alguma coisa, o mundo – isto é,

todos os outros variados interesses – se torna um inimigo. Os cristãos

demonstram isso ao falar de si mesmos como “conservados puros da

corrupção deste mundo”;64 mas os amantes também expressam a mesma

idéia ao falar em “perder o mundo por amor”.65 Astronomicamente,

percebo que a Inglaterra faz parte do mundo; da mesma forma, suponho que

a Igreja faça parte do mundo, e até mesmo os amantes que habitam esta

órbita. Mas todos sentem certa verdade – a verdade de que no momento em

que amam alguma coisa, o mundo se torna adversário. Assim, o Sr Kipling

certamente conhece o mundo; ele é um homem do mundo, com toda a

limitação dos que estão aprisionados neste planeta. Conhece a Inglaterra como um cavalheiro inglês inteligente conhece Veneza. Já esteve na

Inglaterra muitas vezes; já a visitou por longos períodos, mas não pertence a

ela, ou não pertence a qualquer outro lugar. A prova disso é que pensa na

Inglaterra como um lugar. No momento em que nos enraizamos num lugar,

a circunstância desaparece. Vivemos como uma árvore, com toda a força do

universo.

O excursionista vive num mundo menor que o do camponês. Sempre

respira um ar de localidade. Londres é um lugar a ser comparado com

Chicago; Chicago é um lugar a ser comparado com Tombuctu.66 Mas

Tombuctu não é um lugar, pois lá, ao menos, vivem homens que o

consideram como o universo, e respiram, não um ar de localidade, mas os

ventos do mundo. O homem no salão do navio a vapor viu todas as raças de

homens, e pensa nas coisas que os dividem – dieta; vestimenta; compostura;

anéis no nariz, como na África; ou nas orelhas, como na Europa; a cor azul

como entre os antigos; ou a vermelha dos britânicos modernos.67 O homem

na plantação de repolho não viu absolutamente nada; mas pensa nas coisas

que unem os homens – a fome e os bebês, a beleza das mulheres e a

promessa ou a ameaça do Céu. O Sr Kipling, com todos os méritos, é um

vagamundo; não tem a paciência de se tornar membro de coisa alguma. Um

homem tão eminente e genuíno não pode ser acusado de mero e cínico

cosmopolitismo. Mesmo assim, o cosmopolitismo é a sua fraqueza. Essa

fraqueza está esplendidamente expressa num de seus melhores poemas, The

Sestina of the Tramp Royal,68 em que um homem declara poder suportar

tudo em termos de fome e horror, mas não a presença permanente num só

lugar. Certamente, há perigo nisso. Quanto mais morta, seca e empoeirada é

uma coisa, mais ela viaja por aí. Isso acontece com a poeira, com a lanugem

do cardo e com o Alto Comissariado na África do Sul. As coisas férteis são

um pouco mais pesadas, como os pesados frutos das árvores na lama fértil

do Nilo. No calor indolente da juventude, estamos todos predispostos a

discutir as implicações daquele provérbio que diz que “pedra que muito rola

não cria limo”.69 Estávamos inclinados a perguntar: “Quem quer criar limo,

a não ser tolas senhoras idosas?” Por isso, começamos a perceber que o

provérbio está certo. As pedras rolam, fazendo barulho de pedra em pedra,

mas a pedra que rola está morta. O limo é silencioso porque está vivo.

A verdade é que exploração e expansão tornam o mundo menor. O

telégrafo e o barco a vapor tornam o mundo menor. O telescópio torna o mundo menor; somente o microscópio o torna maior. Em pouco tempo, o

mundo estará dividido numa guerra entre os telescopistas e os

microscopistas. Os primeiros estudam as coisas grandes e vivem num

mundo pequeno; os segundos estudam coisas pequenas e vivem num

mundo enorme. Sem dúvida, é animador zunir ao redor do mundo num

automóvel; sentir a Arábia como um redemoinho de areia e a China como

uma torrente de campos de arroz. Mas a Arábia não é um redemoinho de

areia, nem a China uma torrente de campos de arroz. São civilizações

antigas com virtudes estranhas, virtudes enterradas como tesouros. Caso

desejemos entendê-las, não deverá ser como turistas ou pesquisadores;

deverá ser com a lealdade das crianças e a imensa paciência dos poetas.

Conquistar esses lugares significa perdê-los. Um homem na sua horta, com

um mundo encantado além do portão, é um homem com grandes idéias. Sua

mente cria a distância; o automóvel estupidamente a destrói. Os modernos

pensam a Terra como um globo, como algo que se pode facilmente

circundar, com mentalidade de professora primária. Isso pode ser visto no

estranho erro que sempre se comete a respeito de Cecil Rhodes.70 Os

inimigos dizem que teve grandes idéias, mas era um homem mau. Os

amigos dizem que foi um homem essencialmente mau, mas que,

certamente, tinha grandes idéias. A verdade é que não era um homem

essencialmente mau; era um homem muito jovial e de muito boas intenções,

mas com pontos de vista excepcionalmente limitados. Não há nada de

grandioso em riscar o mapa de vermelho;71 isso é um inocente jogo

infantil. É tão fácil pensar em continentes assim como pensar em

paralelepípedos. A dificuldade surge quando procuramos conhecer a

substância de cada um. As profecias de Rhodes sobre a resistência dos

bôeres72 constituem um admirável comentário sobre como progridem as

“grandes idéias” quando não se trata de pensar em continentes, mas de

entender uns poucos homens bípedes. E debaixo de toda a imensa ilusão do

planeta cosmopolita, com seus impérios e agências Reuters,73 a vida real

do homem segue se interessando por esta árvore e por aquele templo, por

esta colheita ou por aquela canção de taverna, completamente

incompreendida, totalmente intocada. E observa, do alto de seu esplêndido

provincianismo, possivelmente com um sorriso divertido, a civilização do

automóvel de estilo triunfante, superando o tempo, consumindo o espaço, vendo tudo e não vendo nada, rugindo para conquistar, por fim, o sistema

solar, somente para descobrir que o sol é londrino e as estrelas, suburbanas.

 

48 George Gordon Byron (1788–1824), 6º Barão Byron, mais conhecido como Lorde Byron, foi um destacado poeta britânico e uma das figuras mais influentes do Romantismo.

49 “Society is now one polish’d horde, / Form’d of two mighty tribes, the Bores and Bored.” Don Juan, Canto XIII, estrofe 95.

50 A imagem em inglês faz sentido, pois a palavra usada para designar a folha da grama é blade, que também significa “lâmina” ou “espada”.

51 Ferreiro, forjador.

52 Arma virumque cano, Troiae qui primus ab oris. Canto 1, verso 1 da Eneida de Virgílio (70 a.C.–19 a.C.), que quer dizer “Canto às armas e o homem que primeiro [veio] da terra de Tróia”.

53 Cabine de comando de sinal, para controle de tráfego ferroviário.

54 No inglês britânico, significa caixa de correio ou marco postal e o nome, em inglês, se deve ao formato cilíndrico, como um pilar.

55 Referência ao formato e cor das caixas de correio inglesas.

56 Revista semanal britânica de humor e sátira publicada de 1841 a 1992.

57 William Wordsworth (1770–1850) foi um dos maiores poetas românticos ingleses.

58 William Ewart Gladstone (1809–1898) foi um eminente político liberal britânico que ocupou vários cargos no governo, dentre eles o de primeiro-ministro por quatro vezes.

59 Referência à política do imperador Guilherme II da Prússia (1859–1941), um entusiasta do militarismo, que na década de 1890 havia se desentendido com a Inglaterra por colônias na África e, por isso, travou aproximações com a França (1904). O atrito com os franceses levou à crise do Marrocos (1905) e à aproximação com a Rússia (1905). Sobre a visão de Chesterton a respeito da Prússia, ver o último de seus escritos: The End of the Armistice, editado postumamente em 1940.

60 Versos tirados da última estrofe do poema “The Return”, do livro The Five Nations de 1903. Em inglês: “If England was what England seems / An’ not the England of our dreams / But only putty, brass an’paint / How quick we’d chuck’er! But she ain’t!”.

61 Os bôeres (também denominados africânderes) são descendentes de colonos calvinistas dos Países Baixos e também da Alemanha e França. Estabeleceram residência na África do Sul nos séculos XVII e XVIII, e a colonização da região foi disputada com os britânicos. Duas possessões se destacaram nessa luta, a saber, o Estado Livre de Orange e a República de Transvaal, que travaram guerra com o Reino Unido no final do século XIX e início do século XX (Primeira e Segunda Guerra dos Bôeres). Desenvolveram uma língua própria, o africâner, derivado do neerlandês com influências limitadas de línguas indígenas, do malaio e do inglês. Atualmente, o africâner é uma das onze línguas oficiais da África do Sul.

62 Do poema “For to admire” do livro The Seven Seas de 1896 e reproduzido na segunda parte da coletânea Barrack-Room Ballads, também de 1896. O poema foi dedicado à cidade de Bombaim. No original: “For to admire an’for to see, / For to be’old this world so wide”. A estrofe completa é: “For to admire an’for to see, / For to be’old this world so wide – / It never done no good to me, / But I can’t drop it if I tried!”

63 Referência aos últimos versos da primeira estrofe do poema “The English Flag” de 1891 que apareceu pela primeira vez no dia 3 de abril de 1891 no St James’s Gazette e, posteriormente, no dia 1° de março de 1897, no Morning Post. O epigrama citado por Chesterton parece ter sido dito pela mãe de Kipling ao filho, que o reproduziu neste poema. Em inglês: “Winds of the World, give answer! They are whimpering to and fro – / And what should they know of England who only England know?”

64 Referência à epístola de São Tiago em Tg 1,27.

65 A idéia da incompatibilidade do amor romântico com a moral das convenções sociais era uma temática atraente e constante na poesia vitoriana, em especial na poesia romântica de Robert Browning (1812–1889). A expressão em inglês usada por Chesterton é “world well lost” que vem a aparecer na poesia de Browning.

66 Cidade africana, hoje localizada em Mali.

67 Referência à cor do uniforme do exército britânico.

68 Poema do livro The Seven Seas de 1896.

69 Tradução literal do provérbio inglês “a rolling stone gathers no moss”. Atribuída a autoria a Públio Siro (85 a.C.–43 a.C.), aparece pela primeira vez como provérbio em inglês no ano de 1546, creditado a Erasmo de Roterdã (1466–1536). Parece que a intenção original do provérbio era tomar o crescimento do limo como algo desejável e o nomadismo e a mobilidade como indesejáveis, porém a interpretação contemporânea o emprega para condenar a estagnação e enaltecer a mobilidade. Chesterton retoma o sentido originário da expressão.

70 Cecil John Rhodes (1853–1902), político e empresário inglês. Foi um dos responsáveis pela colonização britânica no sul do continente africano e um dos principais responsáveis pela Segunda Guerra dos Bôeres (1899–1902). Criou a Companhia Mineradora De Beers, uma das primeiras companhias de diamante do mundo, e traçou os limites da Rodésia (atual Zimbábue).

71 Referência à “linha vermelha” traçada no mapa africano por Rhodes juntamente com o ministro colonial britânico na África do Sul, que uniria o império do “Cabo ao Cairo” por vias férreas. No entanto, tal projeto nunca foi concretizado.

72 Rhodes havia dito que a força militar dos bôeres era “a maior bolha ainda não estourada que existia”.

73 Uma das maiores e mais antigas agências de notícias do mundo. Fundada em 1851, continua existindo até os dias de hoje em 204 cidades do mundo e em 19 idiomas.