Hereges
Prefácio à 2ª edição | G.K. Chesterton e os hereges — Antônio Emílio Angueth de Araújo
PREFÁCIO À 2ª EDIÇÃO
G.K. Chesterton e os hereges
1. Quem foi G.K. Chesterton
Imagine um homem vivendo na segunda metade do século XIX, primeira
metade do século XX, na Inglaterra anglicana, em tempos de um
racionalismo extremo, em que desabrochava o que Pe Leonel Franca veio a
chamar, mais tarde, de ateísmo militante. Imagine também que este homem
seja católico, defensor ardoroso do Papa, grande admirador da Idade Média,
grande crítico tanto do capitalismo quanto do comunismo. Imagine um
homem volumoso e de talento extraordinário que todos, mesmo seus
maiores adversários, admiravam profundamente. Imagine esse homem
atraindo o interesse do mundo anglofônico por décadas, com sua
extraordinária produção literária: 80 livros, centenas de poemas, umas 200
novelas, 4000 ensaios e diversas peças teatrais. Começamos a ter uma
pálida idéia de quem foi Gilbert Keith Chesterton.
Ele não foi um teólogo, apesar de nos ter deixado as biografias de São
Francisco de Assis e de Santo Tomás de Aquino, com comentários
teológicos que demonstravam um profundo conhecimento das grandes
questões da Doutrina Sagrada. Desta última biografia, Étienne Gilson dizia:
Considero, sem comparação alguma, que é o melhor livro jamais escrito sobre Santo Tomás. Só
um gênio podia fazer algo assim. Todo o mundo admitirá, sem nenhuma dúvida, que se trata de
um livro inteligente; mas os poucos leitores que tiverem passado vinte ou trinta anos estudando
Santo Tomás de Aquino e publicado dois ou três volumes sobre o tema terão de reconhecer que a
chispa de gênio de Chesterton lhes deixou a erudição ao rés do chão. Tudo o que eles tentavam
expressar desajeitadamente em fórmulas acadêmicas foi expressado por Chesterton.
Chesterton também não foi um exegeta, mas nos deixou surpreendentes
comentários bíblicos como Introdução ao Livro de Jó, cuja originalidade
pode ser avaliada por trechos como este:
A idéia central de grande parte do Antigo Testamento pode ser chamada de idéia da solidão de
Deus. Deus não é somente o principal personagem do Antigo Testamento; Deus é propriamente o
único personagem do Antigo Testamento. Comparadas à sua clareza de propósitos, todas as
outras vontades são pesadas e automáticas, como aquelas dos animais; comparados à Sua
realidade, todos os filhos da carne são sombras.
Tampouco foi Chesterton um economista, mas ninguém que leia The
Outline of Sanity deixa de aprender muitas coisas sobre economia e,
sobretudo, sobre capitalismo e comunismo. No primeiro parágrafo desse
livro, há um trecho que já nos prepara para o que vem a seguir. Comentando
sobre propriedade privada, diz Chesterton:
Um batedor de carteiras é, obviamente, um campeão da empresa privada. Mas seria talvez um
exagero dizer que um batedor de carteiras fosse um campeão da propriedade privada. A questão
sobre o capitalismo atual é que se prega realmente a extensão dos negócios em vez da extensão
das propriedades; e tem-se disfarçado o batedor de carteiras com algumas das virtudes do pirata.
A questão sobre o comunismo é que ele somente coíbe o batedor de carteiras pela proibição das
carteiras.
Ele está longe de ter sido um historiador, mas uma de suas obras-primas
esboça toda a história do homem na Terra, O Homem Eterno.
Filósofo ele também não foi. Mas escreveu tanto sobre filosofia que é
possível compreender muitas das grandes questões filosóficas pela leitura
de sua obra. Um exemplo disso é o texto O Ressurgimento da Filosofia –
Por quê? Outro exemplo é The Approach to Thomism, que deve ser lido
como uma pequena, mas valiosa, introdução aos estudos tomistas.
Quem era então G.K. Chesterton? Bem, respondamos logo: um grande
escritor. Já seria suficiente para qualquer um. Mas ele foi muito mais. Foi
uma criança, com todo o frescor e contentamento da infância, em meio a
adultos carrancudos e corrompidos. Foi um homem medieval vivendo no
pós-Iluminismo. Foi um católico em meio a um novo tipo de paganismo, o
paganismo cientificista.
Dele dizia Gustavo Corção:
Quero dizer que a inteligência que se interesse, hoje, por entrar em contato com as realidades
mais significativas da cultura universal, que deseje vivamente estar inserida nesse hoje do
mundo, não pode deixar de lado, como peça meramente acessória, e quiçá inútil, a imensa obra
de Gilbert Keith Chesterton.
Dale Ahlquist, presidente da American Chesterton Society, acrescenta:
Mas, mesmo que Chesterton já não seja ensinado nas escolas, você não pode considerar-se
educado enquanto não ler Chesterton completamente. Além disso, ler toda a obra de Chesterton é
por si só uma educação quase completa. Chesterton é realmente um professor, e dos melhores.
Ele não irá somente surpreendê-lo. Não irá operar apenas o prodígio de fazê-lo pensar. Ele irá
mais além: fará você rir.
Talvez seja essa a nota essencial em Chesterton. Sua obra é tão
monumental que é, de fato, um programa de estudos para a compreensão do
mundo. Mas são estudos divertidos, com um professor espirituoso. São
estudos, sobretudo, a ser empreendidos pelo homem comum, pois eles
restabelecerão neste homem o senso comum. Chesterton já foi chamado de
“apóstolo do senso comum”. Senso comum é, segundo Marcel de Corte,
reconhecer-se dependente em face da realidade e do seu Princípio transcendente; confessar, ao
menos implicitamente, o laço nupcial que une o ser do homem ao ser universal e à sua Causa.
E por que isso é tão importante? De Corte completa:
eis a condição essencial imposta ao exercício da inteligência.
E por que “re-estabelecer”? Porque, como ensina esse filósofo,
foi no século XVIII que se romperam de todo as relações entre a inteligência e o real, e entre o
homem e o universo.
Assim, sem o senso comum a inteligência se perde e por isso é tão
importante ler o “apóstolo do senso comum”.
Os leitores brasileiros têm ao seu dispor algumas obras traduzidas do
escritor. Podem-se encontrar Ortodoxia (obra-prima sobre sua conversão ao
catolicismo), as várias histórias do Pe Brown (seu mais conhecido
personagem, um padre-detetive, um metafísico a lidar com crimes
misteriosos), O Homem que Foi Quinta-Feira, Santo Tomás de Aquino, São
Francisco de Assis (as duas biografias memoráveis). Em sebos, os leitores
interessados encontram O Homem Eterno, A Volta de Dom Quixote (uma
deliciosa novela em defesa da Idade Média), Doze Tipos (crítica literária), O
Homem de Duas Barbas, etc. A lista não é grande, mas é possível começar
a conhecer esse grande escritor.
Em inglês, quase toda a obra de Chesterton já está em domínio público em
muitos países e pode ser simplesmente conseguida diretamente pela
internet. A Ignatius Press tem publicado pouco a pouco sua obra; ela já
chega a mais de 40 volumes.
Hereges parece nunca ter sido traduzido para o português até então.