Hereges
XX. Observações finais sobre a importância da Ortodoxia
CAPÍTULO XX
Observações finais sobre
a importância da Ortodoxia
S E A INTELIGÊNCIA HUMANA pode evoluir ou não, é um problema muito pouco discutido, e não há nada mais perigoso do que fundamentar nossa filosofia social numa teoria que é discutível, mas que não foi discutida. Mas
se admitirmos, só para argumentar, que houve no passado, ou que haverá no
futuro, algo que se assemelhe ao crescimento ou ao aprimoramento da
inteligência humana propriamente dita, haverá ainda um forte óbice a ser
levantado contra a versão moderna do aprimoramento. O vício da noção
moderna do progresso mental é estar sempre relacionado ao rompimento de
laços, à abolição de fronteiras, à rejeição de dogmas. Mas se houver algo
parecido com um crescimento mental, isso deve significar crescimento em
direção a convicções cada vez mais definidas, que mais e mais vão se
tornando dogmas. O cérebro humano é uma máquina de tirar conclusões; se
não puder concluir, enferruja. Quando ouvimos falar de um homem
inteligente demais para ter crenças, escutamos algo que se assemelha a uma
contradição em termos. É como ouvir a respeito de um prego bom demais
para fixar um carpete; ou de um ferrolho firme demais para manter a porta
trancada. O homem dificilmente pode ser definido, à moda de Carlyle,
como um animal que fabrica ferramentas. Formigas, castores e muitos
outros animais fabricam ferramentas, no sentido de utensílio. O homem
pode ser definido como um animal que fabrica dogmas. À medida que
empilha doutrina sobre doutrina e conclusão sobre conclusão, ao formar
algum enorme esquema filosófico e religioso, está, no único sentido
legítimo de que a expressão é capaz, se tornando mais e mais humano. Ao
abandonar doutrina após doutrina, num refinado ceticismo, ao recusar filiar-
se a um sistema, ao dizer que superou definições, ao dizer que duvida da
finalidade, quando, na própria imaginação, senta-se como Deus, não
professando nenhum credo, mas contemplando todos, então está, por
intermédio do mesmo processo, imergindo lentamente na indistinção dos animais errantes e da inconsciência da grama. Árvores não têm dogmas.
Nabos são particularmente tolerantes.
Então, caso deva haver avanço mental, deverá ser, repito, um avanço
mental na construção de uma filosofia de vida definida. E esta filosofia de
vida deve ser a correta, e as demais filosofias, erradas. De todos, ou quase
todos, os talentosos escritores modernos que brevemente examinei neste
livro, uma agradável verdade é que cada um deles tem uma visão
construtiva e afirmativa, refletem seriamente sobre tal visão, pedindo-nos
para levá-la em conta com seriedade. Não há nada simplesmente cético e
progressista no Sr Rudyard Kipling. Não há nada tolerante no Sr Bernard
Shaw. O paganismo do Sr Lowes Dickinson é mais sério do que qualquer
cristianismo. Mesmo o oportunismo do Sr H.G. Wells é mais dogmático do
que o idealismo de todos os outros. Alguém reclamou com Matthew
Arnold, creio, que ele estava se tornando tão dogmático quanto Carlyle.
Arnold respondeu: “Isso pode ser verdade; mas escapa-lhe uma diferença
óbvia: Sou dogmático e estou certo, Carlyle é dogmático e está errado”. O
grande bom humor da observação não deve ocultar a perpétua seriedade e
senso comum; nenhum homem deve escrever algo, ou mesmo falar algo, a
menos que pense estar com a verdade e que os outros estejam no erro. Da
mesma forma, afirmo que sou dogmático e estou certo, ao passo que o Sr
Shaw é dogmático e está errado. Mas meu principal propósito, no momento,
é fazer notar que os principais escritores sobre os quais escrevi se
apresentam sã e corajosamente como dogmáticos, como fundadores de um
sistema. Pode ser verdade que a coisa que mais me interessa no Sr Shaw
seja o fato de o Sr Shaw estar errado. Mas é igualmente verdade que a coisa
que mais interessa ao Sr Shaw é o fato de estar certo. O Sr Shaw pode não
ter ninguém ao seu lado, a não ser ele mesmo; mas não se preocupa consigo
mesmo. Ele se importa com a igreja grandiosa e universal da qual é o único
membro.
Dois homens de talento típicos que mencionei aqui, cujos nomes usei no
início do presente livro, são muito simbólicos, ao menos porque mostraram
que os mais ferozes dogmáticos podem se tornar os melhores artistas. Na
atmosfera fin de siècle, todos bradavam por uma literatura livre de todas as
causas e de todos os credos éticos. A arte produziria assim apenas
primorosas obras, e o tom daqueles dias foi, em especial, uma demanda por
peças e histórias brilhantes. E quando conseguiram, obtiveram-nas de alguns moralistas. Os melhores contos foram escritos por um homem que
tentava pregar o imperialismo. As melhores peças foram escritas por um
homem que tentava pregar o socialismo. Toda a arte de todos os artistas
pareciam muito pequenas e tediosas, comparadas à arte que era subproduto
da propaganda.
A razão é, realmente, muito simples. Uma pessoa não pode ser sábia o
bastante para ser um grande artista sem ser sábia o bastante para desejar ser
um filósofo. Um homem não consegue a energia para produzir uma boa arte
sem ter energia para desejar ir além. Um pequeno artista fica contente com
a arte; um grande artista não fica contente com nada, a não ser com tudo.
Assim, descobrimos que quando verdadeiras forças, boas ou más, como
Kipling ou G.B.S.,384 entram em nossa arena, trazem consigo não somente
uma arte surpreendente e cativante, mas dogmas surpreendentes e
cativantes. Interessam-se ainda mais, e desejam que nos interessemos mais
pelos surpreendentes e cativantes dogmas deles do que pela surpreendente e
cativante arte. O Sr Shaw é um bom dramaturgo, mas o que deseja mais do
que qualquer outra coisa é ser um bom político. O Sr Rudyard Kipling é,
pelo capricho divino e talento natural, um poeta original, mas o que deseja
mais do que qualquer outra coisa é ser um poeta convencional. Deseja ser o
poeta de seu povo, sangue do seu sangue, carne de sua carne,
compreendendo suas origens, celebrando seu destino comum. Deseja ser
um poeta laureado, um desejo dos mais razoáveis, honoráveis e de maior
espírito público. Tendo sido brindado pelos deuses com a originalidade –
isto é, com a capacidade de divergir dos outros – deseja divinamente entrar
em concordância com eles. No entanto, o exemplo mais notável de todos,
creio que o mais notável acima de qualquer um desses, é o do Sr H.G.
Wells. Ele começou numa espécie de infância insana de pura arte. Criou um
novo Céu e uma nova Terra, seguindo o mesmo instinto irresponsável com
que os homens compram uma nova gravata ou uma abotoadura. Começou
brincando com estrelas e sistemas para fazer anedotas fugazes; matou o
universo por uma piada. Desde então, pouco a pouco tem se tornado mais
sério, e se tornou – como inevitavelmente acontece com os homens ao
ficarem mais sérios – cada vez mais limitado. Foi leviano acerca do
crepúsculo dos deuses; contudo é sério a respeito dos ônibus de Londres.
Foi descuidado em A Máquina do Tempo,385 pois a obra se ocupava apenas
do destino de todas as coisas; mas é cuidadoso, até mesmo cauteloso, em Mankind in the Making, pois a obra trata do dia depois de amanhã.
Começou com o fim do mundo e isso foi fácil. Agora, foi ao princípio do
mundo, e isso é difícil. Mas o principal resultado desse caso é o mesmo dos
outros. Os homens que são realmente artistas ousados, artistas realistas,
artistas intransigentes, são os que acabam, por fim, escrevendo “com um
propósito”. Suponhamos que qualquer crítico de arte cínico e arrojado,
qualquer crítico de arte totalmente convicto de que os artistas eram mais
formidáveis quando eram mais puramente artísticos, suponhamos que
alguém que professou com destreza um esteticismo humanitário, como o
fez o Sr Max Beerbohm, ou um esteticismo cruel, como o fez o Sr W.E.
Henley, lance os olhos por sobre toda a literatura ficcional que era recente
no ano de 1895, e lhe fosse solicitado que escolhesse os três artistas mais
vigorosos, promissores e originais e suas respectivas obras artísticas. Creio
que teria dito seguramente que as três obras que se sobressaíram pela
audácia, por uma verdadeira delicadeza artística, ou por uma lufada de real
novidades artísticas fossem Soldiers Three,386 do Sr Rudyard Kipling;
Arms and the Man,387 do Sr Bernard Shaw; e A Máquina do Tempo, de um
homem chamado Wells. E todos esses homens se mostraram didáticos
inveterados. Podemos expressar isso, se assim desejarmos, ao dizer que
caso queiramos doutrinas, deveremos buscar os grandes artistas. Mas está
claro pela psicologia da questão que esta não é uma afirmação verdadeira; a
verdade é que quando buscamos uma arte razoavelmente viva e ousada,
temos de ir aos doutrinários.
Ao concluir este livro, portanto, perguntaria, em primeiro lugar, se homens
como esses, dos quais tenho falado, não deveriam se sentir insultados por
serem tomados por artistas. Ninguém tem o menor direito de simplesmente
desfrutar da obra do Sr Bernard Shaw; deve, igualmente, desfrutar da
invasão de seu país pela França. O Sr Shaw escreve tanto para nos
convencer quanto para nos enfurecer. Nenhuma pessoa vê qualquer
problema em ser kiplinguiano sem ser político, e político imperialista. Se
um homem está primeiramente conosco, deve ser por causa daquilo que
primeiramente está com ele. Se um homem nos convence por completo,
deve ser por suas convicções. Caso odiemos um poema de Kipling por
paixão política, o odiamos pela mesma razão por que o poeta o amou; caso
desgostemos dele pelas opiniões, desgostamos dele pelo melhor de todos os
motivos. Se alguém entra no Hyde Park para fazer uma pregação, é permitido que o vaiemos; mas é descortês aplaudi-lo como a um urso de
circo. E um artista só é um urso de circo quando comparado ao mais
sórdido dos homens que imagina ter algo a dizer.
Há, de fato, uma classe de escritores e pensadores modernos que não pode
ser ignorada neste quesito, embora não haja espaço aqui para uma extensa
digressão, o que, para dizer a verdade, consistiria num abuso. Refiro-me
àqueles que vencem todos os abismos e reconciliam todas as guerras
falando sobre “aspectos da verdade”, dizendo que a arte de Kipling
representa um aspecto da verdade, e a arte de William Watson,388 outro;
que a arte do Sr Bernard Shaw representa um aspecto da verdade, e a arte
do Sr Cunningham Grahame,389 outro; que a arte do Sr H.G. Wells
representa um aspecto, e a arte do Sr Conventry Patmore390 (digamos),
outro. Direi aqui apenas que isso me parece uma evasão que nem sequer
teve a preocupação de se disfarçar com palavras engenhosas. Caso falemos
de alguma coisa como um aspecto da verdade, é evidente que alegamos
conhecer o que é a verdade; da mesma forma que, ao falarmos sobre a pata
traseira de um cachorro, alegamos conhecer o que é um cachorro.
Infelizmente, o filósofo que fala a respeito de aspectos da verdade
geralmente também pergunta “O que é a verdade?”. Muitas vezes até nega a
existência da verdade, ou diz ser ela inconcebível à inteligência humana.
Como, então, pode reconhecer seus aspectos? Não gostaria de ser um artista
que levasse um esboço arquitetônico a um construtor, dizendo: “Este é o
aspecto sul do chalé com vista para o mar; contudo, tal chalé não existe”.
Não gostaria sequer de ter de explicar, sob tais circunstâncias, que um chalé
com vista para o mar pode até existir, mas que é impensável à mente
humana. Muito menos gostaria de ser o confuso e absurdo metafísico que
afirma ser capaz de ver em todos os lugares aspectos de uma verdade que
não existe. É perfeitamente óbvio que há verdades em Kipling, que há
verdades em Shaw e Wells. Mas o grau com que as podemos perceber
depende estritamente de quão distante estamos de uma concepção interna e
definida do que seja a verdade. É ridículo supor que quanto mais cético,
mais veremos o bem em todas as coisas. É claro que quanto mais certos
estivermos a respeito do que é o bem, mais o veremos em todas as coisas.
Peço, então, que concordemos ou discordemos desses homens. Peço que
concordemos com eles ao menos em ter uma crença abstrata. Mas sei que
no mundo moderno é comum haver várias objeções indeterminadas a se ter uma crença abstrata, e sinto que não devemos seguir adiante até que
tenhamos nos ocupado de algumas delas. A primeira objeção é facilmente
apresentada.
Uma incerteza comum em nossos dias no tocante ao uso de convicções
extremas é a noção de que tais convicções, especialmente em questões
muito abrangentes, foram responsáveis por aquilo que chamamos de
intolerância. Contudo, um pouco de experiência direta dissipará tal visão.
Na vida real, as pessoas mais intolerantes são as que não têm nenhuma
convicção. Os economistas da escola de Manchester391 que discordam do
socialismo levam o socialismo a sério. O jovem na Rua Bond392 não sabe
o que o socialismo significa, muito menos sabe se concorda com isso, e tem
certeza absoluta que os socialistas fazem tempestade em copo d’água. O
homem que compreende a filosofia calvinista o bastante para com ela
concordar deve compreender a filosofia católica para discordar. É o dúbio
homem moderno, que não está certo sobre nada, quem tem certeza de que
Dante estava errado. O circunspecto opositor da Igreja Latina ao longo da
História, mesmo ao mostrar que ela produziu grandes infâmias, deve saber
que produziu grandes santos. É o obstinado comerciante, que não conhece
História e não acredita em nenhuma religião, quem está, contudo,
perfeitamente convencido que todos os padres são patifes. O salvacionista
no Marble Arch393 pode ser intolerante, mas não é demasiado fanático a
ponto de não desejar ter alguma afinidade humana comum com o dândi
num cortejo de igreja. Mas o dândi no cortejo de igreja é tão beato que não
sente a mínima pena do salvacionista no Marble Arch. A intolerância pode
ser definida, grosso modo, como a raiva dos homens que não têm opinião. É
a resistência apresentada às idéias definidas por um grupo indefinido de
pessoas cujas idéias são excessivamente incertas. Tal intolerância pode ser
chamada de aterrador furor dos indiferentes. Esse furor dos indiferentes é
na verdade uma coisa terrível; causou todas as perseguições muito
generalizadas. Neste estágio, não foram os diligentes os que perseguiram;
não havia número suficiente deles. Foram os imprudentes que espalharam
fogo e opressão pelo mundo. Foram as mãos dos indiferentes que
acenderam as tochas; foram as mãos deles que produziram ruína. Da dor de
uma certeza passional nasceram algumas perseguições; mas estas
produziram não intolerância, mas fanatismo – uma coisa muito diferente e,
de certo modo, admirável. A intolerância, em geral, sempre foi a onipotência generalizada dos imprudentes esmagando os precavidos em
sangue e escuridão.
Há pessoas, contudo, que tentam achar algo mais profundo do que isso
nos possíveis males do dogma. Muitos sentem que uma forte convicção
filosófica, embora não produza (do modo como percebem) aquela condição
morosa e essencialmente leviana que chamamos intolerância, produz certa
atenção, exageros, e alguma impaciência moral, que podemos concordar em
chamar de fanatismo. Dizem, de modo geral, que idéias são coisas
perigosas. Na política, por exemplo, é comum exortarem contra um homem
como o Sr Balfour, ou contra alguém como o Sr John Morley,394 cuja
profusão de idéias é perigosa. A verdadeira doutrina neste ponto certamente
não é, mais uma vez, difícil de expressar. Idéias são perigosas, mas o tipo
de homem para quem são menos perigosas é o homem de idéias. Está
familiarizado com as idéias e caminha por elas como um domador de leões.
Idéias são perigosas, mas o tipo de homem para quem são mais perigosas é
o homem sem idéias. O homem sem idéias verá a primeira delas subir à
cabeça como o vinho num abstêmio. Creio que é um erro comum entre os
idealistas radicais de meu partido e período sugerir que financistas e
comerciantes sejam perigosos para o império porque são demasiado
sórdidos e materialistas. A verdade é que financistas e comerciantes são
perigosos para o império porque podem ser sensíveis a respeito de qualquer
sentimento e idealistas a respeito de qualquer ideal, qualquer um que
encontrem a esmo. Assim como um garoto que não sabe muita coisa a
respeito de mulheres está facilmente inclinado a tomar uma mulher como a
mulher, assim também tais homens práticos, desacostumados com causas,
sempre tendem a pensar que caso uma coisa tenha provado ser um ideal,
seguramente provou ser o ideal. Muitos seguiram Cecil Rhodes
abertamente, por exemplo, porque tinha uma visão.395 Poderiam tê-lo
seguido por ter um nariz. Um homem sem qualquer tipo de sonho de
perfeição é uma monstruosidade equivalente a um homem sem nariz. As
pessoas dizem sobre tal indivíduo, em sussurros quase febris, “Ele sabe o
que quer”, o que equivale exatamente a dizer, em idênticos sussurros, “Ele
assoa o próprio nariz”. A natureza humana simplesmente não pode subsistir
sem algum tipo de esperança e propósito; como o juízo do Antigo
Testamento diz, com razão: “Quando não há ideal o povo perece”.396 Mas
é justamente porque o ideal é necessário ao homem que o homem sem ideal está em permanente risco de cair no fanatismo. Não há nada que tenha mais
probabilidade de deixar o homem aberto às incursões repentinas e
irresistíveis de visões desequilibradas do que o cultivo de hábitos
comerciais. Todos conhecem homens de negócio inflexíveis que acreditam
que a Terra é chata ou sabem que o Sr Kruger397 estava à frente de um
grande despotismo militar, ou crêem que os homens são herbívoros ou que
Bacon escreveu as peças de Shakespeare. Crenças religiosas e filosóficas
são, realmente, tão perigosas quanto fogo, e nada pode tirar-lhes a beleza do
perigo. Mas há apenas uma forma de nos protegermos do perigo excessivo
que oferecem; devemos imergir na filosofia e nos encharcar de religião.
Então, em poucas palavras, descartamos os perigos antagônicos da
intolerância e do fanatismo; a intolerância que seria uma grande indefinição
e o fanatismo que seria uma grande atenção. Afirmamos que a cura para a
intolerância é a crença; afirmamos que a cura para o idealista são idéias.
Conhecer as melhores teorias sobre a existência e escolher dentre elas a
melhor (ou seja, escolher o melhor das próprias convicções) nos parece o
modo apropriado para não nos tornarmos intolerantes ou fanáticos, mas
para sermos algo mais firme que um intolerante e mais terrível que um
fanático: uma pessoa de opinião definida. Mas a opinião definida deve,
nesse sentido, começar com as questões básicas do pensamento humano, e
estas não devem ser descartadas como coisas irrelevantes, tal como
acontece com a religião em nossos dias. Mesmo se pensarmos na religião
como um problema insolúvel, não deveremos considerá-la irrelevante.
Mesmo se não tivermos nenhuma opinião a respeito das verdades
definitivas, deveremos sentir que onde quer que tal questão exista no
homem, deve ser para essa pessoa algo mais importante que todas as demais
coisas. No momento em que uma coisa deixa de ser incognoscível, passa a
ser indispensável.
Não pode haver dúvida, penso eu, de que existe em nosso tempo a idéia de
que há algo limitado, ou irrelevante, ou mesmo mesquinho em atacar a
religião de um homem, ou discuti-la em matéria de política ou ética.
Tampouco pode haver dúvida de que tal acusação de limitação é em si
mesma quase grotescamente limitada. Tomemos um exemplo de
acontecimentos relativamente atuais: sabemos que não raro um homem era
considerado um monstro de intolerância e obscurantismo caso suspeitasse
dos japoneses, ou lamentasse a ascensão dos japoneses, pelo fato de os japoneses serem pagãos. Ninguém pensaria existir nada de obsoleto ou
fanático em desconfiar de um povo por conta das diferenças práticas ou nos
mecanismos políticos. Ninguém pensaria ser intolerante dizer de um povo:
“Receamos a influência deles, pois são protecionistas”. Ninguém pensaria
ser tacanho dizer: “Lamento que tenham progredido porque são socialistas,
ou individualistas manchesterianos, ou ferrenhos defensores do militarismo
e do serviço militar obrigatório”. Importa muito a diferença de opinião
sobre a natureza dos Parlamentos; mas a diferença de opinião a respeito da
natureza do pecado não significa absolutamente nada. A diferença de
opinião acerca do objeto dos impostos tem muita importância; mas a
diferença de opinião acerca da finalidade da existência humana não tem
nenhuma importância. Temos o direito de desconfiar de alguém que vive
num tipo diferente de municipalidade; mas não temos o direito de suspeitar
de um homem que vive num tipo diferente de cosmo. Este tipo de
esclarecimento certamente tem relação com o tipo menos esclarecido que se
possa imaginar. Para recorrer a uma frase que empreguei anteriormente,
isso equivale dizer que tudo tem importância, exceto tudo.398 A religião é
exatamente o tipo de coisa que não pode ser deixada de fora – porque inclui
tudo. A mais desatenta das pessoas não pode colocar tudo dentro de uma
mala de mão e simplesmente esquecer a mala. Gostemos ou não, sempre
temos uma idéia geral sobre a existência. E tal visão, gostemos ou não,
altera, ou, mais precisamente, cria e envolve tudo que dizemos ou fazemos.
Caso consideremos o cosmo como um sonho, consideraremos a questão
fiscal como um sonho. Caso consideremos o cosmo como uma piada,
consideraremos a catedral de São Paulo como uma piada. Caso tudo seja
ruim, então devemos acreditar (se isto for possível) que a cerveja é ruim;
caso tudo seja bom, seremos forçados à conclusão um tanto fantástica de
que a filantropia científica é boa. Todo homem comum deve defender um
sistema metafísico, e crê-lo firmemente. A grande possibilidade é a de que
possa ter acreditado nele tão firmemente e por tanto tempo que o tenha
esquecido por completo.
A referida situação, com certeza, é possível. De fato, é a situação de todo
o mundo moderno. O mundo moderno está repleto de homens que crêem
em dogmas de modo tão inflexível que nem mesmo sabem que são dogmas.
Pode ser dito até que o mundo moderno, como um corpo coletivo, crê em
certos dogmas com tanto vigor que nem sabe que são dogmas. Pode ser considerado “dogmático”, por exemplo, em certos círculos tidos como
progressistas, supor a perfeição ou aprimoramento do homem num outro
mundo. Mas não é considerado “dogmático” supor a perfeição ou
aprimoramento do homem neste mundo; ainda que a idéia de progresso não
esteja demonstrada tanto quanto não está a idéia de imortalidade e seja, do
ponto de vista racionalista, muito improvável. O progresso é um de nossos
dogmas, e um dogma é algo que não é tido como dogmático. Ou,
novamente, não vemos nada de “dogmático” na inspiradora, embora
demasiado assustadora, ciência física, que afirma devermos coletar os fatos
pelos fatos, mesmo que pareçam tão inúteis como gravetos e fios de palha.
Esta é uma grande e sugestiva idéia cuja utilidade pode ser provada, mas
que, considerada em abstrato, é tão questionável quanto recorrer a oráculos
ou a templos sagrados, que dizem ser capazes de se comprovar. Assim, por
não estarmos numa civilização que acredita firmemente em oráculos ou
locais sagrados, vemos o total furor daqueles que se mataram para descobrir
o Santo Sepulcro. No entanto, por estarmos numa civilização que acredita
no dogma dos fatos pelos fatos, não vemos o total furor daqueles que se
matam para descobrir o Pólo Norte. Não me refiro a uma defensável
utilidade suprema que é verdadeira tanto em relação às cruzadas quanto em
relação às explorações polares. Digo apenas que vemos a singularidade
estética e superficial, a qualidade assustadora da idéia de homens cruzando
um continente com exércitos para conquistar um lugar onde um homem
morreu. Contudo, não vemos a singularidade estética e assustadora de
homens morrendo em agonia para descobrir um lugar onde ninguém vive –
um lugar que é interessante apenas porque supõem ser o lugar de encontro
de algumas linhas que não existem.
Empreendamos uma longa jornada e comecemos uma busca incômoda.
Escavemos e procuremos até encontrarmos nossas próprias opiniões. Os
dogmas que realmente defendemos são muito mais fantásticos e, talvez,
muito mais belos do que pensamos. No curso destes ensaios, temo ter
falado, de tempos em tempos, de racionalistas e de racionalismo de uma
forma depreciativa. Por estar cheio daquela brandura que deve vir ao fim
das coisas, até mesmo ao fim de um livro, peço desculpas aos racionalistas,
exatamente por chamá-los de racionalistas. Não há racionalistas. Todos nós
acreditamos em contos de fada e neles vivemos. Alguns, com um suntuoso
viés literário, acreditam na existência de uma mulher vestida de sol.399 Outros, com um instinto mais rústico, mais élfico, como o Sr McCabe,
acreditam apenas no impossível sol propriamente dito. Alguns acreditam no
indemonstrável dogma da existência de Deus; outros, no igualmente
indemonstrável dogma da existência do homem da casa ao lado.
As verdades se transformam em dogmas no instante em que são
contestadas. Assim, todo homem que expressa uma dúvida descreve uma
religião. E o ceticismo de nosso tempo realmente não destrói as crenças, ao
contrário, as cria; definiu-lhes os limites e a forma simples e desafiante.
Nós, que somos liberais, antes acreditávamos no liberalismo como um leve
truísmo. Nós, que acreditávamos no patriotismo, antes o considerávamos
razoável, e pensávamos pouco a esse respeito. Agora que sabemos que é
incompreensível, o consideramos correto. Nós, que somos cristãos, nunca
nos demos conta do grande senso comum filosófico inerente àquele
mistério, até que os escritores anticristãos nos chamaram a atenção. A
grande marcha da destruição mental continuará. Tudo será negado. Tudo se
tornará um credo. É razoável negar a existência das pedras da rua; será um
dogma religioso declará-lo. É uma tese racional dizer que vivemos num
sonho; será sanidade mística dizer que estamos acordados. Velas serão
acesas para atestar que dois mais dois são quatro. Espadas serão
empunhadas para provar que as folhas são verdes no verão. Ficaremos a
defender não somente as virtudes e sanidades inacreditáveis da vida
humana, mas algo mais inacreditável ainda: este imenso universo
impossível que salta aos olhos. Seremos aqueles que olharão a grama e os
céus impossíveis com estranha coragem. Seremos aqueles que viram e
creram.
384 George Bernard Shaw (1856–1950).
385 Em inglês, The Time Machine, é um romance de ficção científica, de H.G. Wells (1866–1946), publicado pela primeira vez em 1895. É a primeira obra de ficção científica a propor o conceito da viagem no tempo utilizando um veículo que permite ao operador viajar para o local e para a época que quiser de forma seletiva.
386 Em português, Três soldados, é uma coletânea de contos em que os três soldados do título, Learoyd, Mulvaney and Ortheris, que já haviam aparecido na coletânea anterior chamada Palin Tales on the Hills, de 1888, aparecem em novas situações.
387 Em português, As armas e o homem, é uma comédia, cujo título se baseia no primeiro verso da Eneida de Virgílio (70 a.C.–19 a.C.). A peça se passa durante a Guerra Servo-Búlgara de 1885 e foi um dos primeiros sucessos comerciais de Shaw.
388 Sir William Watson (1850–1935) ganhou suficiente destaque por sua poesia a ponto de ser sagrado cavalheiro. Chegou a ser considerado, após a morte de Lord Tennyson (1809–1892) uma escolha óbvia para a indicação como poeta laureado (poeta oficial do Estado indicado pelo monarca), em 1896. No entanto, ao se opor, desde o início, à Guerra dos Bôeres, foi considerado politicamente inviável para a indicação, sendo substituído por Alfred Austin (1835–1913).
389 Robert Bontine Cunninghame Grahame (1852–1936) foi um autor e político britânico que escreveu muitos livros baseados em suas aventuras nas partes mais remotas do planeta. Foi amigo de Bernard Shaw (1856–1950) e de Joseph Conrad (1857–1924) e os usou como modelo de algumas personagens.
390 Coventry Patmore (1823–1896) foi um poeta e crítico inglês, convertido ao catolicismo em 1862, que escreveu poemas principalmente sobre amor marital e temas religiosos.
391 O termo “escola de Manchester” foi utilizado pela primeira vez, em 1848, por Benjamin Disraeli (1804–1881) em relação aos teóricos defensores do livre-comércio que se opunham às guerras e ao imperialismo inglês. Teoricamente, os seguidores dessa forma de compreender o fluxo dos mercados se baseavam nas idéias de David Hume (1711–1776), Adam Smith (1723–1790) e Jean-Baptiste Say (1767–1832). Entre os principais defensores estavam Richard Cobden (1804–1865) e John Bright (1811–1889).
392 Maior rua comercial de Londres e desde o século XVIII se destaca pelo comércio elegante e refinado.
393 Monumento em mármore de Carrara, construído na área do Hyde Park em Londres. Projetado em 1821, nos moldes do arco do triunfo de Constantino em Roma por John Nash (1752–1835), foi originalmente erigido no The Mall para servir como porta de entrada para o novo Palácio de Buckingham. Em 1851 foi colocado na posição em que se encontra hoje.
394 John Morley (1838–1923) foi um estadista liberal e literato. Antes de entrar para a política foi editor da Fortnightly Review (1865–1954) e da Pall Mall Gazette (1865–1923). Opôs-se à Guerra dos Bôeres, pois via a política imperialista como uma forma de expansão do Estado e a referida guerra como um perigoso aumento de despesas que influenciariam mudanças nas estruturas econômica e social do país.
395 Vision também significa “imaginação”; Chesterton está fazendo um jogo de palavras impossível de traduzir. Por isso que, mais para a frente, ele fala em sonho de perfeição.
396 Chesterton se refere à passagem de Pr 29,18. Na Bíblia de Jerusalém o trecho foi traduzido como: “Quando não há visão, o povo não tem freio” e na Bíblia da CNBB: “Quando falta profecia, o povo se corrompe”. Na versão em português da Trinitarian Bible Society e em várias outras bíblias protestantes, a passagem é traduzida utilizando o termo “profecia” em vez de “visão” e, por vezes, o verbo “perecer” é utilizado em substituição ao “corromper”. Vale a pena ver também a passagem de Pr 11,14 “Por falta de direção um povo se arruína”, que traz a mesma idéia.
397 Paul Kruger (1825–1904) foi um líder político sul-africano, quatro vezes presidente da República do Transvaal, e resistiu ferozmente aos planos de Cecil Rhodes (1853–1902) de unificação da África do Sul.
398 Ver capítulo I.
399 Referência à descrição de Maria no Apocalipse de São João (Ap 12,1).