Hereges

G. K. Chesterton · Capítulo 8 de 37

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Hereges

Apresentação | Hereges e G.K. Chesterton — Ives Gandra da Silva Martins Filho

APRESENTAÇÃO

Hereges e G.K. Chesterton

 

SE VOCÊ ESTÁ DEPRIMIDO por alguma circunstância, chateado com alguém ou

pessimista em relação à vida e suas perspectivas, pode lançar mão de

diferentes expedientes para recuperar a alegria de viver ou então afogar as

mágoas e esquecer os problemas: tomar um ansiolítico ou uns tragos com

os amigos, descontar nos outros as próprias frustrações ou… ter um bom

livro à mão, que mude o modo de ver o mundo, as pessoas e a existência.

Um desses autores que tem a capacidade de resgate do élan vital, uma vez

que seus livros, sem serem de auto-ajuda – pois sequer esse conceito existia

na época em que escreveu –, transbordam de otimismo, é o jornalista inglês

Gilbert Keith Chesterton, que se notabilizou no início do século XX como

polemista e verdadeiro cultor da arte dialética, que esgrimia com rara

destreza, sendo conhecido pelo freqüente uso do paradoxo para desmontar

falsos argumentos e apresentar verdades incômodas ou aparentemente

incompreensíveis.

Sua figura grande e redonda, seu sorriso cândido e sincero, sua distraída

postura a esconder uma fulgurante vivacidade de raciocínio lembravam o

inigualável Doutor Angélico medieval, ambos gigantes do realismo

filosófico, que mostra a vida como ela é, em todas as suas grandezas e

misérias, mas apontando para um saldo altamente positivo. Para isso, faz-se

necessário mostrar o erro daqueles que a encaram com desprezo, desespero

ou pessimismo.

Há um paralelismo entre as duas grandes obras de Santo Tomás de Aquino

e duas das obras-primas de Chesterton. Na Summa Theologiae, o Doutor

Angélico, partindo da Revelação e utilizando a Filosofia como ferramenta,

vai aprofundando e explicando a fé cristã, naturalmente para um público de

cristãos familiarizados com as Escrituras e a própria filosofia aristotélica.

No entanto, em sua Summa contra Gentiles, Santo Tomás parte de uma

perspectiva distinta, qual seja, a do leitor pagão, muçulmano ou judeu, que

não comunga da mesma fé. Daí que vá argumentando a partir dos eventuais preconceitos existentes, para, desfazendo-os, poder mostrar que a fé cristã

não repugna à razão nem corresponde a muitas falsas idéias que se têm

dela. Em “suma”, começa por destruir preconceitos infundados para depois

construir os conceitos corretos.

Da mesma forma, há uma ligação estreita entre Hereges e Ortodoxia de

Chesterton. Ao escrever o primeiro livro, atacando com firmeza e destreza

as doutrinas filosóficas em voga na Inglaterra de seu tempo, foi contestado

por um tal Sr G.S. Street. Assim o refere a iniciar o Ortodoxia:

A única desculpa possível para este livro é o fato de ser ele a resposta a um desafio. Um atirador,

por pior que seja, torna-se digno de respeito quando aceita um duelo. Quando, há algum tempo,

publiquei, sob o título de Hereges, uma série de ensaios escritos apressadamente porém com

sinceridade, alguns críticos, cuja inteligência admiro (refiro-me especialmente ao Sr G.S. Street),

declararam que eu incitava todos a tornarem públicas suas teorias sobre os problemas cósmicos,

mas evitava, cautelosamente, apoiar meus preceitos com o exemplo. “Começarei a me inquietar

com minha filosofia” – disse, nessa ocasião, o Sr Street – “quando o Sr Chesterton nos tiver

apresentado a sua”. Era, talvez, uma imprudente sugestão feita a quem está sempre preparado

para escrever um livro à mais leve provocação. Apesar de tudo, embora o Sr Street tenha

inspirado e criado este livro, não é necessário que ele o leia. No entanto, se o fizer, terá a

oportunidade de verificar que me esforcei por apresentar nestas páginas, de forma vaga e pessoal

– por intermédio de uma série de imagens mentais mais do que por uma seqüência de deduções –,

aquela filosofia na qual acabei por acreditar. Não a chamarei de minha filosofia, porque não fui

eu quem a fez. Deus e a Humanidade a fizeram; ela me fez a mim.

 

A primeira edição brasileira de Ortodoxia foi por nós organizada e

publicada em 2001, na qual, ao traçarmos uma biografia de Chesterton,

falávamos do livro que hoje nos cabe prefaciar em sua também 1ª edição

brasileira:

Chesterton publica em 1905 um livro que cairá como uma bomba nos meios intelectuais ingleses:

trata-se de Heretics [Hereges], obra em que ataca, com fino humor e numa lógica desconcertante,

todos os ídolos literários da época, por considerar que, através deles, se está dando o

envenenamento intelectual de toda uma geração. Assim, condena como hereges a George Moore,

pelo seu subjetivismo ético, a Bernard Shaw, por seu socialismo desumanizador, a Rudyard

Kipling, por seu imperialismo discriminatório, a H.G. Wells, por seu historicismo naturalista, e a

Oscar Wilde, por seu esteticismo aético. Nem os amigos escapam de sua pena, que esgrime, sem

ira, a defesa de algo que já começava a delinear em sua mente: uma concepção global do mundo,

plasmada numa filosofia ou religião, que norteasse os aspectos díspares destacados pelos vários

literatos que combate, por serem reducionistas da realidade, que é muito mais rica do que as

teorias por eles propostas. Começa já a falar da “teologia geral cristã, que muitos odeiam e

poucos estudam”, e que principia a lhe servir de norte para suas meditações. Hereges termina por

consagrar Chesterton, fazendo com que todos, concordem ou não com suas idéias, sintam-se na

obrigação de lê-lo e criticá-lo em suas resenhas jornalísticas. O segredo da popularidade desse

jovem jornalista é a força da sua autenticidade, que defende aquilo em que realmente acredita e

não por mera retórica ou interesse pessoal.

 

Chesterton sabia separar os erros daqueles que erram, as idéias de seus

mentores, atacando aquelas e respeitando estes. A prova de que nunca

levava as críticas para o campo pessoal é o fato de que muitos dos escritores

atacados em Hereges eram seus amigos e com eles se deliciava em debates,

como no caso de Bernard Shaw, com quem tinha um programa de rádio na

BBC de Londres, fazendo o público do auditório chorar de rir diante dos

sutis achincalhes que Chesterton dava nas teorias pessimistas do amigo e da

reação bem britânica de Shaw, meio rabugento, meio atordoado. Ambos

chegaram a estrelar juntos, no começo dos anos 20 do século passado, um

filme de cowboys dirigido por James Barrie, autor de Peter Pan…

A relação estreita entre Hereges (1905) e Ortodoxia (1908) é, portanto,

patente. E a trilogia de obras primas de Chesterton se completa com O

Homem Eterno (1925). O itinerário intelectual e espiritual de Chesterton é

bem visualizado nessas três grandes obras. E poderemos segui-lo.

Nascido em Londres a 29 de maio de 1874, filho de Edward Chesterton e

Marie Louise Keith, Gilbert teve uma infância marcada pela alegria

constante do meio familiar: uma casa sempre cheia de primos e amigos,

povoada de fadas, gnomos e duendes do teatro de marionetes com que seu

pai, aposentado precocemente por uma doença cardíaca, divertia as

crianças, a ponto de a mãe de Chesterton chegar a dizer que tinha, na

verdade, três filhos.

Essa alegria infantil é contrastada com o ambiente severo e formal do

colégio, onde se destacou como polemista no “Junior Debating Club”

(1890), e acabou por dar lugar ao agnosticismo, talvez nascente na Escola

de Arte na qual ingressou em 1892, mas certamente maturado durante os

anos de trabalho de revisor em editoras londrinas, nos quais chegou a ler

mais de 10.000 originais de romances e ensaios, angariando uma cultura

enciclopédica, graças à sua prodigiosa memória, mas, concomitantemente,

uma descrença no racionalismo vigente.

Em 1896, conhece, através de um amigo, a sua futura esposa, Frances

Blogg, pela qual se apaixona já no primeiro encontro, esquecendo todos os

demais que estão à sua volta. As disparidades entre os dois não poderiam ser maiores: ele com 22 e ela com 27 anos; ele com 1,96 e gordo, ela com

1,56 m e magra; ele idealista e distraído e ela prática e de fortes convicções

religiosas. Apesar de os temperamentos serem tão distintos, a afinidade

literária foi o elemento de união.

Chesterton ganhou sua notoriedade inicial durante a Guerra dos Bôeres na

África do Sul, entre ingleses e holandeses, pelos seus corajosos artigos no

semanário liberal The Speaker, condenando o conflito, o que sacudiu a

opinião pública, imbuída de fervor patriótico em favor da guerra. Acabou

por ser convidado como jornalista do Daily News, obtendo a fonte de renda

fixa para poder se casar com Frances Blogg em 1901. Com o casamento, os

debates passaram a ser tanto públicos quanto domésticos. Em casa, as

dificuldades iniciais do jovem casal se faziam notar: enquanto Frances era

ordenada, comedida e pontual, Gilbert era o típico gênio distraído, pródigo,

desleixado com a aparência pessoal e sem ter idéia do tempo. Em 1906

tiveram um duro golpe: mesmo depois de uma operação cirúrgica,

verificou-se que Frances não poderia ter filhos. Para quem amava as

crianças como Chesterton, foi uma verdadeira provação, que, no entanto,

levaria com garbo e bom humor.

A publicação de Hereges em 1905, seu primeiro grande livro (fora os

ensaios que já havia trazido a lume), traz a Chesterton fama e convites para

conferências nos mais distantes pontos da Inglaterra, com a aquisição de

novos e importantes amigos, além de Hilaire Belloc, provenientes de

distintos círculos literários, como Joseph Conrad, Henry James, Baden

Powell, Winston Churchill e Thomas Hardy.

Agnóstico em sua juventude, Chesterton começa a se revoltar com o

racionalismo de sua época, que, cheio de si, não lhe dá as respostas que

busca para muitos dos problemas que assolam o mundo e a sua própria

alma. Daí ter brandido a espada do senso comum para derrubar os ídolos

intelectuais de sua época. Ao menos os caseiros, da velha Inglaterra. Esse é

o livro que temos em mãos e o começo da trilogia, pelo trabalho de

desmitificação da filosofia racionalista, idealista e niilista do final do século

XIX e começo do XX.

Em 1908, além de O Homem que Foi Quinta-Feira, Chesterton publica

Ortodoxia, em que descreve seu próprio processo de conversão para o

Cristianismo, partindo de uma perspectiva realista da filosofia. Alerta, já na

introdução, que não será original – apesar de todo o livro ser uma apresentação originalíssima das verdades que procura expor – porque não

foi ele que criou essa filosofia, mas a descobriu, justamente ao tentar ser

original:

Por diversas vezes, imaginei escrever um romance sobre a aventura de um navegador inglês que,

em virtude de ter cometido um ligeiro erro de cálculo em sua rota, veio a descobrir a Inglaterra,

pensando tratar-se de uma nova ilha nos mares do Sul. […] Provavelmente, a impressão que se

teria de um homem que desembarcasse (armado até os dentes e falando por sinais) para fincar a

bandeira inglesa nesse barbaresco templo, que depois seria o Pavilhão de Brighton, é a de que ele

se sentisse um tanto tolo. […]. É preciso, porém, mencionar que tive uma razão particular para

me referir ao navegador que descobriu a Inglaterra. Eu sou aquele homem: fui eu quem descobriu

a Inglaterra. […] Sou eu o homem que, com a maior ousadia, descobriu aquilo que já fora

descoberto muito antes. Se há alguma farsa no que se vai seguir, tal farsa se deve a mim, pois este

livro vai explicar como me convenci de que tinha sido o primeiro homem a pôr o pé em

Brighton, para finalmente descobrir que fui o último a lá chegar. Aqui se narram as minhas

elefantescas aventuras em busca do óbvio. […] Com todo o ardor juvenil, exauri a voz a

proclamar as minhas verdades, mas fui castigado pela maneira mais singular e mais justa: guardei

como minhas tais verdades, depois descobri, não que elas não eram verdades, mas, simplesmente,

que não eram minhas. Quando pensava estar sozinho, vi-me na ridícula situação de ter todo o

Cristianismo à minha volta. É possível – e Deus me perdoe – que eu tenha tentado ser original,

mas a verdade é que consegui apenas engendrar, por mim mesmo, uma cópia inferior das já

existentes tradições da religião civilizada. O navegador pensou ter sido o primeiro a encontrar a

Inglaterra, e eu pensei ter sido o primeiro a encontrar a Europa. Tentei encontrar uma heresia para

mim e, quando já lhe tinha dado os últimos retoques, descobri que se tratava da ortodoxia.

 

Nessa sua 2ª obra prima, Chesterton traça os parâmetros de suas mais

arraigadas crenças e dá testemunho de seu próprio processo interior de

conversão. Brotam, assim, algumas de suas idéias-chave: 1) o racionalismo

exacerbado, separado do senso comum, conduz ao suicídio do pensamento;

2) o reconhecimento do caráter democrático da tradição (dar o direito de

voto aos nossos antepassados); 3) a teoria da felicidade condicional (moral

do país das fadas, onde tudo é permitido, em troca de uma pequena coisa

que é negada); 4) o acerto paradoxal da doutrina cristã (o ponto de

equilíbrio entre virtudes contrárias).

Esse processo interior de conversão, que culminará com seu ingresso na

Igreja Católica em 30 de julho de 1922, será lento e meditado, marcado por

obras nas quais já vai explicitando romanescamente sua admiração pelo

catolicismo: “A Esfera e a Cruz” (1909), novela de fantástica imaginação, e

a série de romances policiais que tem o Pe John O’Connor, sacerdote irlandês, amigo de Chesterton, como inspirador, que são A Inocência do

Padre Brown (1911), A Sabedoria do Padre Brown (1914), A Incredulidade

do Padre Brown (1926), O Segredo do Padre Brown (1927) e O Escândalo

do Padre Brown (1935).

Chesterton dará a notícia de sua conversão ao catolicismo ao amigo Belloc

numa carta em que dirá: “A Igreja Católica é o lar natural do espírito

humano. A estranha perspectiva da vida, que ao princípio parece um

quebra-cabeça sem sentido, tomada sob esse ponto de vista, adquire ordem

e sentido”. Nesse mesmo ano escreverá São Francisco de Assis.

Finalmente, Chesterton, como fruto maduro de seu processo de conversão,

completa sua trilogia filosófico-teológica em 1925 (mesmo ano de A Volta

de Dom Quixote) com O Homem Eterno, no qual fala do desenvolvimento

da Humanidade à luz da figura d’O Homem, que é Jesus Cristo, o Deus

Encarnado. É um verdadeiro tratado, ao estilo chestertoniano desordenado,

de Antropologia Filosófica. O ser humano só se entende perfeitamente,

conforme nos deixou registrado o Papa João Paulo II, no começo de seu

pontificado, conhecendo a figura de Cristo, que mostra o homem ao próprio

homem. Nessa esteira, escreve de um supetão, em 1933, uma biografia de

Santo Tomás de Aquino que será tida por Étienne Gilson como definitiva.

Falando de suas biografias de santos, Chesterton dirá que cada uma delas

é para um século concreto: para o racionalista e cético século XIX, a

humildade de S. Francisco, e para o sentimentalista e desarvorado século

XX , a luz intelectual de Santo Tomás. Sua última obra será sua

Autobiografia (1936) – talvez a biografia para o século XXI –, ditada a

Dorothy, cujo último parágrafo recolhe sua exclamação de resumo de vida:

“Para mim, meu final é meu princípio”. Suas últimas palavras, após receber

a extrema unção, são dirigidas a sua mulher Frances (“Olá, carinho!”) e a

sua secretária Dorothy (“Olá, querida!”) nos momentos em que acorda do

coma no qual se encontrava. Termina a vida com a mesma alegria com que

a começou.

Percorrendo rapidamente a vida de G.K. (como gostava de assinar)

podemos dizer que a trilogia chestertoniana iniciada por Hereges constitui

um verdadeiro itinerário filosófico-literário-espiritual que nos conduz ao

encontro de nós mesmos com o melhor do nosso ser, que é aquele permeado

do otimismo existencial de conhecermos a nossa origem e o nosso destino.

O mesmo otimismo que Chesterton coloca, em sua biografia de Santo Tomás de Aquino, em contraste com a angústia do existencialismo

moderno, de raízes mais profundas e antigas: “Enquanto o intelectual

renascentista se perguntava ‘Ser ou não ser, eis a questão’, o pesado doutor

medieval respondia com voz de trovão: ‘Ser, eis a resposta’”.

Hereges será, portanto, o retrato dos defeitos dessa filosofia de raízes

renascentistas que, autodenominando-se Humanista, desumaniza o homem.

Saber por que a filosofia moderna tem conduzido ao pessimismo é razão

suficiente para enfrentar o livro e os que se lhe seguem, que conduzem a um

otimismo essencial. Ainda mais nesta primorosa edição brasileira da

Ecclesiae, com tradução impecável de Antônio Emílio Angueth de Araújo e

Márcia Xavier de Brito. A todos, boa leitura e reflexão!

 

São José dos Pinhais, janeiro de 2011

Ives Gandra da Silva Martins Filho