Hereges
Levando em conta o credo
Assim, Chesterton foi capaz de escrever quase ao fim de Ortodoxia:
Contudo, farei uma pausa para observar que quanto mais via simples argumentos abstratos contra
a cosmologia cristã, menos os cogitava. Ouso dizer que ao descobrir que a atmosfera moral da
Encarnação era o senso comum, logo olhei para os argumentos intelectualmente instituídos
contra a Encarnação e percebi que eram um contra-senso comum.419
O que é importante nesse ponto é a insistência de Chesterton em nos dizer
como levou a sério os argumentos lógicos contra a Encarnação, como
expressões de visões de mundo que, cedo ou tarde, afetariam a dignidade
humana porque eram erros da inteligência. O credo, então, não é somente
algo que deve ser recitado, mas algo que deve ser pensado.
Flannery O’Connor (1925–1964) captou um pouco disso na sua obra
Mystery and Manners [Mistério e costumes], onde escreveu:
O dogma é um instrumento para penetrar na realidade. O dogma cristão trata da única coisa que
restou no mundo e que certamente guarda e respeita o mistério. O escritor de ficção é um
observador, no início, no fim, e sempre, mas não pode ser um observador adequado a menos que
esteja livre da incerteza a respeito do que vê. Aqueles que não possuem valores absolutos não
podem deixar o relativo ser apenas relativo; sempre o elevam ao nível do absoluto. O escritor de
ficção católica é totalmente livre para observar. Não sente o chamado para assumir o papel de
Deus ou criar um novo universo. Sente-se perfeitamente livre para olhar para o que já existe e
mostrar exatamente o que vê.420
Hereges foi dedicado aos filósofos literários, como G.B. Shaw, Rudyard
Kipling e H.G. Wells, que, graças ao brilhantismo, eram forçados a
absolutizar suas construções, pois o dogma não os poupava de ver este
mundo. Estavam sempre, para usar a expressão de Flannery O’Connor,
elevando o relativo ao nível do absoluto.
Então, quase profeticamente, Chesterton concluiu Hereges com o dogma
de que, por fim, precisaríamos da fé até para ver aquilo que já estávamos
admirando.
Nós, que somos cristãos, nunca nos daremos conta do grande senso comum filosófico inerente
àquele mistério, até que os escritores anticristãos nos chamaram a atenção. A grande marcha da
destruição mental continuará. Tudo será negado. Tudo se tornará um credo. […] Ficaremos a
defender não somente as virtudes e sanidades inacreditáveis da vida humana, mas algo mais
inacreditável ainda: este imenso universo impossível que salta aos olhos. Seremos aqueles que
olharão a grama e os céus impossíveis com estranha coragem. Seremos aqueles que viram e
creram.421
Qualquer pessoa familiarizada com o livro do padre Stanley Jaki, O.S.B.
(1924–2009), The Road of Science and the Ways to God [A via da ciência e
os caminhos para Deus], que traz a correta tese histórica de que, ao final, a
teologia cristã, não a razão humana ou qualquer outra coisa, nos deixou ver
este incrível universo,422 tal pessoa não pode deixar de se maravilhar com
a previsão certeira de Chesterton.423 Ele percebeu que os “hereges”, apesar
de toda a boa vontade, não eram, de fato, ortodoxos, não eram realmente
capazes de ver o mundo e a grama crescendo em direção aos céus azuis.