Hereges

G. K. Chesterton · Capítulo 9 de 37

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Sobre a tradução e as notas

 

CHESTERTON NUNCA pensou que transcenderia sua época e, muito menos, a

Inglaterra. Escrevia para os contemporâneos, para os mais próximos, para o

homem comum que morava ao lado, figura muito querida, como veremos

num dos capítulos da presente obra. Portanto, traduzi-lo é sempre um

esforço, não só porque Chesterton possuía um impressionante domínio da

língua inglesa – o que lhe permitia “brincar” com as palavras e criar os

famosos paradoxos –, como também pelo caráter “jornalístico” de suas

obras, que nos forçam a mergulhar no universo da Inglaterra edwardiana e

de suas personagens, na desconcertante variedade de filosofias que

preencheram o vazio deixado pela era vitoriana. Além disso, não podemos

deixar de lado a deliciosa nota de bom humor e inteligência que reveste

todas as suas observações. Criar um “segundo original” tão rico em nuances

é sempre um desafio.

A presente obra foi traduzida tendo por base o texto original em inglês

publicado no primeiro volume da edição das obras completas da Ignatius

Press (The Collected Works of G.K. Chesterton – Volume I: Heretics,

Orthodoxy, The Blatchford Controversies, with Introduction and notes by

David Dooley), acrescida da dedicatória de Chesterton, presente na primeira

edição de 6 junho de 1905, muitas vezes suprimida em edições posteriores.

Para dar ao leitor a chance de imergir nesse universo chestertoniano,

sugeri uma edição crítica. Incorporei, ampliei e retifiquei algumas notas da

edição da Ignatius Press, no entanto notei que para o leitor nacional ainda

havia muitas lacunas. Decidi, então, acrescentar mais notas de tipos

diversos.

As notas biográficas tratam das personagens citadas por Chesterton que,

pelo hiato geográfico e temporal (afinal são mais de 136 anos!), já não

soam tão familiares; as notas literárias trazem o trecho, a obra citada e a

data de publicação, de modo a permitir ao leitor aprofundar a leitura, se

preferir. Acrescentei também notas que poderíamos chamar de culturais, ou seja, explicação de costumes e hábitos ingleses ou do período em que a obra

foi escrita, bem como optei por acrescentar as datas de fundação e extinção

das publicações citadas por Chesterton, e identifiquei todas as passagens e

referências bíblicas, escolhendo reproduzir, quando explicitamente citadas,

a tradução da Bíblia de Jerusalém. Por fim, tive de fazer algumas notas de

tradução, pois nem sempre é possível reproduzir toda a relevante carga

semântica do texto, bem como notas que corrigem imprecisões de citação

do próprio Chesterton. Raramente tomei a liberdade de explicitar o

conteúdo de alguma passagem interpretando, na nota, a intenção do autor.

Nos momentos em que tal interpretação foi necessária, contei com a

erudição do querido padre Ian Boyd C.S.B., presidente do Chesterton

Institute for Faith & Culture e um dos maiores especialistas em Chesterton

no mundo, que com muita solicitude ajudou-me a ver o trecho com olhos

chestertonianos. Embora tenha feito, aqui, uma classificação das notas, as

mesmas aparecem indistintas ao longo da obra.

Sou suspeita para falar do livro. É sempre um privilégio traduzir

Chesterton. Ele nos faz mergulhar numa leitura profunda, numa verdadeira

meditação, tão profunda que por vezes parecia que um rotundo anjo

sussurrava ao meu ouvido de onde tirara esta ou aquela citação. E, muitas

vezes, parecia que gargalhávamos juntos! Ríamos de tão queridos

oponentes de conhecida guerra, de uma guerra já vencida de batalhas

perdidas, a guerra da criatura homem com seu Criador.

 

Rio de Janeiro, novembro de 2010

Márcia Xavier de Brito