Hereges

G. K. Chesterton · Capítulo 35 de 37

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Hereges

A alegria final

Penso que devemos considerar seriamente o motivo que levou Chesterton a

ingressar na Igreja. “Quando as pessoas me perguntam […] ‘Por que você

ingressou na Igreja de Roma?’, a primeira resposta básica é ‘Para me livrar

dos meus pecados’”.425 Somos fiéis ao seu testemunho se o tomarmos

quase literalmente como um homem que sabia o alcance do mal que havia

nele não somente como uma possibilidade, segundo a qual inventaria

assassinatos inimagináveis para o seu padre Brown, mas como a afirmação

de um fato. Chesterton sabia muito bem que negar a possibilidade ou a

realidade do mal humano significava uma heresia básica: a de reduzir cada

homem e cada mulher à insignificância última, a um ser sem nada a fazer

no mundo, sem um feito derradeiro.

Assim, neste contexto, Chesterton descobriu “A ética da terra dos elfos”,

em que:

Veio-me à mente uma impressão indefinida e incomensurável de que, de alguma maneira, todo o

bem era um vestígio a ser guardado e mantido como sagrado, proveniente de alguma ruína

primordial. […] Senti tudo isso e a minha época não incentivou tal sentimento. E durante todo

esse tempo nem sequer havia pensado na teologia cristã.426

 

No entanto, o fato de não nos salvarmos por nós mesmos não significa que

não há nada a ser salvo, não significa que não há nada além daquilo que

criamos.

Chesterton sabia, é claro, que o intelecto era capaz de nos decepcionar. O

coração, mesmo com pecados, muitas vezes era menos perigoso do que uma

inteligência em erro. Ao final da obra The Catholic Church and Conversion

[A Igreja Católica e a conversão], confessou: “tenho muito mais simpatia

pela pessoa que abandona a Igreja por um caso amoroso do que por aquele

que a deixa por causa de prolixa teoria alemã que prova que Deus é mau ou

que as crianças são uma espécie de símio mórbido”.427 A arrogância do

século XX, como observou Russell Kirk, propõe um poder corruptor em

funcionamento no cosmo mais que humano.428 A resposta a tal poder está

não na suspensão do pensar, mas no pensar corretamente.

Crenças religiosas e filosóficas são, realmente, tão perigosas quanto fogo, e nada pode tirar-lhes a

beleza do perigo. Mas há apenas uma forma de nos protegermos do perigo excessivo que

oferecem; devemos imergir na filosofia e nos encharcar de religião.429

Mas com que razão? E com qual filosofia?

Começo estas reflexões fazendo referência ao professor Leo Strauss e no

interesse que tinha por proteger, ao menos, um local para a revelação da

vida civil e dos filósofos que não suportam a verdade. Strauss sabia,

diferente de Santo Tomás de Aquino, que apenas uns poucos poderiam

esperar ser verdadeiramente sábios. E um grupo ainda menor pode tolerar a

verdade, uma vez que a tenha encontrado. Strauss se preocupava com

Sócrates em Atenas, ao passo que os cristãos preocupavam-se com o Cristo

em Jerusalém diante de Pilatos. Sugeri que o prefácio de Chesterton a

Ortodoxia seja o elo de união apropriado entre fé e razão, o relato de como

um homem veio a crer, de como os enigmas verdadeiramente

experimentados na vida são resolvidos pelos dogmas, de como a filosofia

cristã é muito estranha caso não seja, de fato, verdadeira.

Há no seu caráter [de Santo Tomás] algo […] que o levou a exagerar um pouco até que ponto

todos os homens chegariam, por fim, a prestar atenção à razão. Nas suas controvérsias, sempre

admite que eles ouvirão a voz da razão, isto é, crê firmemente que os homens se convencerão

com argumentos, quando chegarem ao fim do argumento. Mas o seu senso comum lhe diz

também que não se pode argumentar indefinidamente.430

 

Chesterton prosseguiu, fazendo uma óbvia referência à argumentação do

Aquinate na Summa Theologiae (I–II, 91,4) sobre se a lei divina era

necessária para cumprir e conhecer a lei natural. Em essência, Chestertou

demonstrou que tantos desvios e interferências, tantas digressões

interessantes, mas sem saída, chegariam a um ponto tal que os argumentos,

para a maior parte dos homens, nunca seriam capazes de chegar a uma

conclusão final. Para onde isso levaria o homem comum?

Santo Tomás é da opinião de que as almas dos rudes trabalhadores, e de todas as pessoas simples,

são tão importantes como as almas dos pensadores e dos investigadores da verdade, e pergunta

como é que essas pessoas poderão arranjar tempo para raciocinar tão longamente como exige a

busca da verdade. […] O seu argumento da Revelação não é, pois, contra a razão, mas a favor da

Revelação. A conclusão que ele tira daí é que os homens devem receber as verdades morais mais

elevadas de modo miraculoso; ou a maioria dos homens não as receberia absolutamente.431

 

No contexto da moderna filosofia política e moral, esta é uma conclusão

digna de nota, pois leva em conta a facilidade com que os “hereges” são

hereges, mas também respeita a jurisdição da razão e sua ligação com a

realidade. A mente não se torna um instrumento incapaz de verdade e em

busca da verdade.432 Ou seja, os seres humanos como pessoas, na verdade,

estão relacionados às coisas supremas.

Ainda, ao sustentar que podemos conhecer, sem auxílio, o mundo, sua

ordem e a causa das coisas, com nossos poderes pessoais, caso nos sejam

apresentados, Chesterton evitava a escrita cifrada e o elitismo que poderia,

de alguma forma, levar a uma tese de duas verdades ou à negação das

coisas supremas para a maioria dos homens. “O fato é que”, escreveu

Dorothy Sayers (1893–1957), “neste país cristão [Inglaterra] não há uma

entre cem pessoas que tenha a mínima noção do que a Igreja nos ensina a

respeito de Deus, do homem, da sociedade ou da pessoa de Cristo”.433

G.K. Chesterton, em Hereges e em Ortodoxia, não só proclamou o que isso

significava desconhecer tais doutrinas em termos de dignidade humana,

mas também nos livrou de conhecê-las, de conhecê-las pela argumentação

ou pela revelação, para que víssemos, por nós mesmos, como responderiam

os enigmas que a vida nos apresenta.

Chesterton nos ensina, em outras palavras, a ser filósofos quando os

grandes mestres discordam sobre as verdades supremas. A respeito das

doutrinas básicas e dos dogmas de nossa dignidade e liberdade, parece-me

que G.K. Chesterton, em seus livros, permanece o maior dos mestres, pois

não somente seu credo é convincente em ter sido descoberto cerca de dois

mil anos antes de seu tempo, mas é uma “repetida e surpreendente

coincidência” que de fato responde aos mistérios últimos de nossa

existência. A doutrina fundamenta a dignidade. Os hereges podem e vão

nos levar para a ortodoxia. Finalmente, não nos livramos do mal quando o

cometemos, mas quando o pensamos e sabemos ser mau. Como cristãos,

não nos preocupamos com a “comunhão mental”, pois sabemos que

devemos ser salvos por algo mais que um pensamento. Contudo, nosso

pensamento ao pensar sobre si não é muito diferente do pensamento puro,

como o chamou Aristóteles (384 a.C.–322 a.C.), não é diferente do verbo

feito carne. Nossas inteligências não só estão unidas a todo o universo;

também estão unidas a nós.

A descoberta derradeira é que não só o cosmo nos é dado, mas a de que

temos a nós mesmos; não apenas o universo nos é dado, mas temos o autor

do universo. Esta era, para Chesterton, a verdade última que ordenava

apropriadamente todas as experiências que tivera.

A maioria dos homens viu-se forçada a ser alegre no que concerne às pequenas coisas, mas triste

no que concerne às grandes. No entanto (ofereço o meu último dogma como um desafio) não é

próprio da natureza humana ser assim. O homem é mais ele próprio, o homem é mais semelhante

ao homem, quando a alegria é a característica fundamental que se encontra nele […]. A alegria

[…] é o gigantesco segredo do cristão.434

 

A última das heresias é aquilo que causamos a nós mesmos; a alegria

final, a ortodoxia derradeira, é que a nós é dado mais do que jamais

teríamos imaginado.

 

James V. Schall, S.J.

 

400 O presente texto foi publicado em inglês na Homiletic and Pastoral Review (Fevereiro, 1982), com o título “On Doctrine and Dignity: from Heretics to Orthodoxy” e reimpresso no livro Another Sort of Learning (San Francisco: Ignatius Press, 1988). Os direitos de tradução do artigo foram gentilmente cedidos pelo autor e pelo editor da Homiletic and Pastoral Review, Pe David Meconi, S.J., para o Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), que autorizou a publicação como posfácio na presente edição do livro Hereges de G.K. Chesterton pela Ecclesiae Editora.

401 KIRK, Russell. “Chesterton, Madness, and Madhouses”. In: Modern Age, Winter, 1971, p. 15.

402 CHESTERTON, G.K. “In Defence of Ugly Things”. In: The Defendant. Londres: Dent, 1914, página 113.

403 CHESTERTON, G.K. Orthodoxy. In: Collected Works – Volume I: Heretics, Orthodoxy, The Blatchford Controversies. (Introduction and notes by David Dooley). San Francisco: Ignatius Press, 1986, página 236. [NT: Em língua portuguesa, há três edições disponíveis da obra, a saber: – CHESTERTON, G.K. Ortodoxia. (Apresentação, notas e anexo de Ives Gandra da Silva Martins Filho; tradução de Cláudia Albuquerque Tavares). São Paulo: LTr, 2001. – CHESTERTON, G.K. Ortodoxia. (Tradução de Almiro Pisetta). São Paulo: Mundo Cristão, 2008. – CHESTERTON, G.K. Ortodoxia. (Tradução de Ives Gandra da Silva Martins Filho). Campinas: Ecclesiae, 2013.] Ao longo do texto optamos por substituir as citações em inglês pela versão em português da edição que melhor correspondesse ao original. Mas, por vezes, o texto presente no artigo não corresponde a nenhuma das edições; nesses casos decidimos bem fazer uma nova tradução. A referida citação se encontra na edição da Mundo Cristão, pp. 56–57]. Ver, também: TORRANCE, T.F. “Ultimate Beliefs and Scientific Revolutions”. In: Cross Currents, Summer 1980, pp. 129–149.

404 CHESTERTON. Orthodoxy. p. 363. [NT: CHESTERTON. Ortodoxia. Mundo Cristão. pp. 259–260; NE: CHESTERTON. Ortodoxia. Ecclesiae. pp. 232].

405 CHESTERTON. Autobiography of G.K. Chesterton. Nova York: Sheed and Ward, 1936. p. 179 [NE: CHESTERTON. Autobiografia. Campinas: Ecclesiae, 2012. p. 209].

406 Idem. Ibidem. p. 180.

407 VOEGELIN, Eric. The New Science of Politics. Chicago: University of Chicago Press, 1952. p. 165. [NT: Substituímos a citação original em inglês pela versão em língua portuguesa da seguinte edição brasileira: VOEGELIN, Eric. A Nova Ciência da Política. (Apresentação de José Pedro Galvão de Sousa; tradução de José Viegas Filho). Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1982. p. 120].

408 STRAUSS, Leo. “What is Liberal Education?”. In: Liberalism: Ancient and Modern. Nova York: Basic Books, 1968. p. 7.

409 Idem. Ibidem. p. 8.

410 CHESTERTON. Orthodoxy. p. 284. [NE: CHESTERTON. Ortodoxia. Ecclesiae. p. 123; CHESTERTON. Ortodoxia. Mundo Cristão. p. 133].

411 STRAUSS, Leo. “Persecution and the Art of Writing”. In: Persecution and the Art of Writing. Nova York: Free Press, 1952. pp. 22–23.

412 CHESTERTON. Autobiografia. Ecclesiae. pp. 388–389. Ver também: CHESTERTON, G.K. Eugenics and Other Evils. In: Collected Works: Family, Society, Politics – Volume IV: What’s Wrong with the World, The Superstition of Divorce, Eugenics and Other Evils – and others. (Introduction by James V. Schall, S.J.). San Francisco: Ignatius Press, 1987; e SCHALL, S.J., James V. “The Rarest of All Revolutions: G.K. Chesterton on the Relation of Human Dignity to Christian Doctrine”. In: The American Benedictine Review, 32 (Dezembro, 1981): 304–327.

413 Cícero. De Amicitia. Volume I, livro 4.

414 CHESTERTON. Orthodoxy. p. 251. [NE: CHESTERTON. Ortodoxia. Ecclesiae. p. 78; NT: Optamos por retraduzir o trecho].

415 Ver: JAKI, O.S.B., Stanley L. Chesterton: A Seer of Science. Urbana: University of Illinois Press, 1986; JAKI, O.S.B., Stanley L. “Chesterton Landmark’s Year”. In: Chance or Reality and Other Essays. Lanham: University Press of America, 1986. pp. 63–77.

416 Este prefácio não foi pulicado pela Ignatius Press, utilizamos aqui a seguinte edição: CHESTERTON, G.K. Orthodoxy. Nova York: Doubleday Image, 1959, p. 6. [NT: O referido prefácio em português aparece apenas na edição da Mundo Cristão. Entretanto, optamos por retraduzir a citação].

417 STRAUSS, Leo. Natural Right and History. Chicago: University of Chicago Press, 1953. p. 164; STRAUSS, Leo. “The Mutual Influence of Theology and Philosophy”. In: Independent Journal of Philosophy III, 1979, pp. III–18.

418 CHESTERTON. Ortodoxia. Capítulo VI; CHESTERTON. Hereges. Capítulo XX.

419 CHESTERTON. Orthodoxy, p. 347 [NE: CHESTERTON. Ortodoxia. Ecclesiae. p. 211; NT: Optamos por retraduzir o trecho].

420 O’CONNOR, Flannery. Mystery and Manners: Occasional Prose. Nova York: Farrar, Straus e Giroux. 1969. p. 178. Ver também: SAYERS, Dorothy. “The Dogma Is the Drama”. In: The Whimsical Christian. Nova York: Macmillan, 1978. pp. 23–29.

421 CHESTERTON. Hereges. Capítulo XX, pp. 283-284.

422 JAKI, O.S.B., Stanley L. The Road of Science and the Ways to God. Chicago: University of Chicago Press, 1978.

423 Ver o estudo, já citado, sobre a visão de ciência na obra de Chesterton, do padre Stanley L. Jaki, O.S.B.: Chesterton: A Seer of Science.

424 Ver o livro: MARLIN, George et al. (Eds.). The Quotable Chesterton. San Francisco: Ignatius Press, 1986. C.S. Lewis (1898–1963) é tão citado quanto seu amigo Chesterton. Ver: KILBY, Clyde S. An Anthology of C.S. Lewis: A Mind Awake. San Diego: Harcourt-Harvest, 1980.

425 CHESTERTON. Autobiografia. p. 374

426 CHESTERTON. Orthodoxy. p. 268 [NE: CHESTERTON. Ortodoxia. Ecclesiae. p. 101; NT: Optamos por retraduzir o trecho].

427 CHESTERTON. The Catholic Church and Conversion. Nova York: Macmillan, 1926. p. 115.

428 KIRK, Russell. “The Recovery of Norms”. In: Enemies of the Permanent Things: Observations of Abnormity in Literature and Politics. Peru: Sherwood Sugden & Company, 1984. pp. 15–39. [NT: Em português o ensaio foi publicado da seguinte forma: KIRK, Russell. “A arte normativa e os vícios modernos”. (Tradução de Gustavo Santos; notas de Alex Catharino). In: COMMUNIO: Revista Internacional de Teologia e Cultura, Volume XXVII, Número 4, (Edição 100), outubro / dezembro 2008: 993–1017].

429 CHESTERTON. Hereges. p. 279.

430 CHESTERTON, G.K. St Thomas Aquinas. (Introduction by Raymond Dennehy). In: Collected Works – Volume II: St Francis of Assisi, The Everlasting Man, St Thomas Aquinas. San Francisco: Ignatius Press, 1986. p. 434. [NT: Substituímos todas as citações dessa obra pelo trecho equivalente da seguinte edição brasileira: CHESTERTON, G.K. Santo Tomás de Aquino. (Ensaios de Gustavo Corção e Rosa Clara Elena; tradução e notas de Carlos Ancêde Nougué). Nova Friburgo: Edições Co-Redentora, 2002. p. 41].

431 CHESTERTON. St Thomas Aquinas. pp. 434–435. [NT: CHESTERTON. Santo Tomás de Aquino. p. 41].

432 CHESTERTON. St Thomas Aquinas. p. 541. [NT: CHESTERTON. Santo Tomás de Aquino. p. 154]. Diz Chesterton: “Segundo Tomás de Aquino, o objeto torna-se parte da inteligência; mais do que isso, segundo ele a inteligência torna-se então objeto. Todavia, como um comentador acentua com agudeza, ela só se torna objeto, mas não o cria. Em outras palavras, o objeto é objeto; pode existir e existe de fato fora da inteligência ou na ausência dela. E por isso amplia a inteligência, de que se torna parte.”

433 SAYERS, Dorothy. Op. cit., p. 35.

434 CHESTERTON. Orthodoxy. p. 364. [NE: CHESTERTON. Ortodoxia. Ecclesiae. pp. 233. 235].