Hereges
Posfácio | Doutrina e dignidade: de Hereges a Ortodoxia — James V. Schall, S.J.
POSFÁCIO
Doutrina e dignidade:
de Hereges a Ortodoxia400
DEIXEM-ME COMEÇAR citando dois trechos, um de Russell Kirk (1918–1994)
e outro do próprio G.K. Chesterton (1874–1936). “Não obstante, por trás da
arrogância da intelectualidade do século XX”, escreveu Kirk, “Chesterton
acreditava estar em atividade um poder corruptor que não era meramente
humano”.401 E Chesterton escreveu, num ensaio chamado “Em defesa das
coisas feias”, que:
Há quem diga que o exterior, sexual ou físico, de outra pessoa lhe é indiferente, que só se
preocupa com a comunhão mental; mas tais pessoas não nos deterão. Há certas declarações que
ninguém julga acreditar, não obstante são feitas muitas vezes.402
O senso comum, portanto, nos proíbe de acreditar em coisas tolas, assim
como nos faz suspeitar de que há mais coisas na desordem no mundo do
que apenas nós mesmos.
Somos quem somos, em primeiro lugar, porque nossa existência é, em si
mesma, um dom que não é autoconcedido, ou que podemos criar por
intermédio de nossos esforços. Não somos símios reencarnados, nem
deuses, nem um processo instável em vias de se tornar algo diferente do que
somos, nada mais do que o mais apto dos sobreviventes. Pois, como
Chesterton observou, com a perspicácia de sempre, a sobrevivência do mais
apto significa somente a sobrevivência daqueles que, de fato, sobreviveram.
E sabemos ao menos isto. Sabemos que sobrevivemos. Sabemos que
rejeitamos o perigo supremo que duvida até mesmo do que somos.
“O perigo é que o intelecto humano é livre para destruir-se”, lemos em
Ortodoxia:
Da mesma forma como uma geração poderia impedir a própria existência da geração seguinte
com todo o mundo entrando no convento ou pulando no mar, assim um grupo de pensadores
pode, até certo ponto, impedir a expansão do pensamento humano ensinando à geração seguinte
que nenhum pensamento humano tem validade alguma. […] É um ato de fé afirmar que nossos
pensamentos têm alguma relação com a realidade por mínima que seja. […] Há um pensamento
que bloqueia o pensamento. Esse é o único pensamento que deveria ser bloqueado. É o mal
supremo contra o qual toda autoridade religiosa se voltou.403
Assim, sobrevivemos, pois estamos aqui. Portanto queremos determinar o
que é um sobrevivente humano neste planeta e o que deve fazer ao
descobrir que, de fato, existe.
O “herege” é, em substância, alguém que diz que nós mesmos devemos
começar a criar um mundo que não tenha qualquer um dos óbvios limites e
defeitos deste mundo, que devemos moldar um outro tipo de homem, pois
aquilo que somos certamente é alguma espécie de gigantesco erro cósmico.
Por outro lado, o pensador “ortodoxo”, sem dúvida, concorda que algo
certamente está errado; sabe que a doutrina do pecado original precisa de
menos comprovação do que um simples passeio pelas ruas.
“E à pergunta ‘Qual é o significado da Queda do Homem?’”, Chesterton
refletiu:
[...] eu só podia responder com sinceridade total: “Seja lá o que sou, eu não sou eu mesmo”. Esse
é o primeiro paradoxo da nossa religião; algo que nunca conhecemos em nenhum sentido pleno
não apenas é melhor do que nós, mas até nos é mais natural do que nós mesmos. E para isso não
existe realmente um teste exceto aquele meramente experimental com o qual estas páginas
começaram, o teste da cela acolchoada e da porta aberta. Foi só depois de conhecer a ortodoxia
que conheci a emancipação mental.404
No entanto, somos criaturas que, se me permitirem, ao cair nos erros,
ainda são capazes de dar graças e de contar as folhas das árvores pela
manhã. O fato de a condenação eterna ser, para nós, uma possibilidade real
é apenas o outro lado do risco da glória, de modo que podemos agradecer
ao próximo pelo copo d’água, porque não precisava nos oferecer. A
estrutura do cosmo é tal que temos tanto a água quanto o copo juntamente
com a capacidade de dá-los onde não são necessários, ou nos recusarmos a
ofertá-los onde deveríamos. Caso a condenação não fosse possível nas
pequenas coisas, não haveria grandes coisas. É por isso que as vidas
comuns são, diante de Deus, tão importantes quanto as vidas heróicas.
Deste modo, a primeira coisa que precisamos conhecer a nosso respeito é a
nossa filosofia, caso vivamos num mundo em que a condenação eterna seja
possível porque a ação de graças pode ser recusada.