Hereges
3. O que levou Chesterton a escrever Hereges
Talvez não fosse de todo inoportuno nos deixar conduzir pelo próprio
Chesterton no caminho que o levou até o presente livro.
De tanto freqüentar clubes literários na Londres fin de siècle, clubes estes
onde se promoviam debates sobre as modas intelectuais da época, ele
começou a chegar a algumas conclusões. Eis a primeira delas, sobre a qual
ele nos conta em sua Autobiografia:
A intelligentsia dos vagamente artísticos e anárquicos clubes constituía realmente um mundo
estranho. E a coisa mais estranha sobre esse mundo, imagino, era que, enquanto ele pensava
muito sobre o pensamento, ele realmente não pensava. Tudo parecia vir de segunda ou terceira
mão; de Nietzsche ou Tolstói, de Ibsen ou Shaw; e havia uma agradável atmosfera de discussão
de todas as coisas, sem qualquer particular senso de responsabilidade de se chegar a qualquer
conclusão sobre elas.
Chesterton começava a notar que o ambiente intelectual reinante tinha
abandonado o senso comum e o tinha substituído por uma “atmosfera
agradável”. Tudo começava a ser aparência; a realidade das coisas passava
ao segundo plano.
Ora, exatamente dos membros da intelligentsia surgiam duas tendências
que se abrigavam sob o nome de “emancipação da fé, dos credos e dos
dogmas”. Para tal emancipação era necessário criar uma religião para os
homens razoáveis. Estes se dividiam, segundo Chesterton, entre o teísmo
idealista – porque Deus está no Céu, tudo deve estar certo na Terra – e o
ateísmo realista – como não existe Deus, tudo está errado na Terra.
O que Chesterton observa com espanto é que os dois grupos eram aliados.
Mas ele pergunta: aliados contra quê? A genialidade de Chesterton foi
descobrir a verdadeira natureza dos dois grupos:
Para minha mente simplória, parecia que não poderia haver conexão, exceto contradição, entre o
homem que tinha fé na Paternidade de Deus, e o homem que dizia que não havia Deus ou o
homem que dizia que Deus não era Pai. Para minha mente inocente, essas duas idéias pareciam
um pouco inconsistentes. Eu ainda não tinha descoberto a síntese superior que as conectava. Pois
a síntese superior que as conectava consistia em usar gravatas liberty, barbas e chapéus em
formas curiosas e em se reunir em clubes culturais onde se bebia café e (em esconderijos mais
escuros e infames) suco de cacau. Esses doutrinadores céticos não se reconheciam por meio das
doutrinas. Eles se reconheciam pela barba e pelo vestuário, como os animais inferiores se
reconhecem pelo pêlo ou pelo cheiro.
Eis a forma devastadora com que Chesterton descreve, em sua
Autobiografia, a intelligentsia da sua época. De novo, a “atmosfera
agradável” substitui o senso comum, que nos difere dos animais inferiores.
A partir dessas observações é possível perceber como a autoridade dos
intelectuais foi sendo desintegrada para Chesterton, sobretudo dos
intelectuais doutrinadores, que estavam imbuídos de uma missão doutrinal,
não importando a área de atuação de cada um. São desses intelectuais que
ele se ocupa no presente livro.
Veio então, em 1903-04, a tremenda batalha travada entre Chesterton e
Robert Blatchford. Blatchford escrevera um livro intitulado Deus e Meu
Próximo, que era um Credo racionalista, ao estilo do século que acabara
havia pouco tempo. Como editor do jornal Clarion, Blatchford
generosamente abriu as páginas do jornal para os que dele discordavam,
entre os quais, e principalmente, se incluía G.K. Chesterton. Os textos do
grupo liderado por Chesterton acabaram sendo publicados num volume
intitulado As Dúvidas da Democracia, mas os textos de Chesterton foram
depois reunidos e publicados, pela Ignatius Press, sob o título
Controvérsias com Blatchford. São quatro ensaios em que o autor afia
magistralmente sua espada, que será usada com toda a precisão em Hereges,
em 1905. Podem-se escutar os ecos do debate com Blatchford tanto em
Hereges quanto em Ortodoxia. As idéias que Chesterton desenvolve no
calor da batalha no Clarion são, nestes dois livros, lapidadas,
desenvolvidas, consolidadas.
Para se ter uma idéia do quanto foram importantes esses embates
intelectuais para a maturação das principais idéias de Chesterton, basta ler
em Ortodoxia a seguinte afirmação, que a muitos pode parecer uma frase de
efeito:
Li a literatura cética e científica do meu tempo – nada li de qualquer cunho filosófico. As obras
sensacionalistas que também li pertenciam de fato a uma tradição heróica e sadia do cristianismo;
mas eu não sabia disso naquele tempo. Nunca li uma linha de apologética cristã. Leio o menos
possível disso atualmente. Foram Huxley, Herbert Spencer e Bradlaugh que me trouxeram de
volta à teologia ortodoxa.
Ora, os leitores de Hereges vão compreender perfeitamente o que
Chesterton diz aí. Foi no combate com os intelectuais doutrinadores de seu
tempo que ele foi descobrindo que a teologia ortodoxa, que estes procuram desacreditar ou substituir, era, de fato, a única sã doutrina. Na realidade, era
a única arma contra tais doutrinadores, como sempre tinha sido contra todos
os tipos de heresia. Em certo sentido, Chesterton foi convertido pelos
hereges. Este é só mais um dos muitos e admiráveis paradoxos
chestertonianos.