Hereges

G. K. Chesterton · Capítulo 6 de 37

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Hereges

3. O que levou Chesterton a escrever Hereges

 

Talvez não fosse de todo inoportuno nos deixar conduzir pelo próprio

Chesterton no caminho que o levou até o presente livro.

De tanto freqüentar clubes literários na Londres fin de siècle, clubes estes

onde se promoviam debates sobre as modas intelectuais da época, ele

começou a chegar a algumas conclusões. Eis a primeira delas, sobre a qual

ele nos conta em sua Autobiografia:

A intelligentsia dos vagamente artísticos e anárquicos clubes constituía realmente um mundo

estranho. E a coisa mais estranha sobre esse mundo, imagino, era que, enquanto ele pensava

muito sobre o pensamento, ele realmente não pensava. Tudo parecia vir de segunda ou terceira

mão; de Nietzsche ou Tolstói, de Ibsen ou Shaw; e havia uma agradável atmosfera de discussão

de todas as coisas, sem qualquer particular senso de responsabilidade de se chegar a qualquer

conclusão sobre elas.

 

Chesterton começava a notar que o ambiente intelectual reinante tinha

abandonado o senso comum e o tinha substituído por uma “atmosfera

agradável”. Tudo começava a ser aparência; a realidade das coisas passava

ao segundo plano.

Ora, exatamente dos membros da intelligentsia surgiam duas tendências

que se abrigavam sob o nome de “emancipação da fé, dos credos e dos

dogmas”. Para tal emancipação era necessário criar uma religião para os

homens razoáveis. Estes se dividiam, segundo Chesterton, entre o teísmo

idealista – porque Deus está no Céu, tudo deve estar certo na Terra – e o

ateísmo realista – como não existe Deus, tudo está errado na Terra.

O que Chesterton observa com espanto é que os dois grupos eram aliados.

Mas ele pergunta: aliados contra quê? A genialidade de Chesterton foi

descobrir a verdadeira natureza dos dois grupos:

Para minha mente simplória, parecia que não poderia haver conexão, exceto contradição, entre o

homem que tinha fé na Paternidade de Deus, e o homem que dizia que não havia Deus ou o

homem que dizia que Deus não era Pai. Para minha mente inocente, essas duas idéias pareciam

um pouco inconsistentes. Eu ainda não tinha descoberto a síntese superior que as conectava. Pois

a síntese superior que as conectava consistia em usar gravatas liberty, barbas e chapéus em

formas curiosas e em se reunir em clubes culturais onde se bebia café e (em esconderijos mais

escuros e infames) suco de cacau. Esses doutrinadores céticos não se reconheciam por meio das

doutrinas. Eles se reconheciam pela barba e pelo vestuário, como os animais inferiores se

reconhecem pelo pêlo ou pelo cheiro.

Eis a forma devastadora com que Chesterton descreve, em sua

Autobiografia, a intelligentsia da sua época. De novo, a “atmosfera

agradável” substitui o senso comum, que nos difere dos animais inferiores.

A partir dessas observações é possível perceber como a autoridade dos

intelectuais foi sendo desintegrada para Chesterton, sobretudo dos

intelectuais doutrinadores, que estavam imbuídos de uma missão doutrinal,

não importando a área de atuação de cada um. São desses intelectuais que

ele se ocupa no presente livro.

Veio então, em 1903-04, a tremenda batalha travada entre Chesterton e

Robert Blatchford. Blatchford escrevera um livro intitulado Deus e Meu

Próximo, que era um Credo racionalista, ao estilo do século que acabara

havia pouco tempo. Como editor do jornal Clarion, Blatchford

generosamente abriu as páginas do jornal para os que dele discordavam,

entre os quais, e principalmente, se incluía G.K. Chesterton. Os textos do

grupo liderado por Chesterton acabaram sendo publicados num volume

intitulado As Dúvidas da Democracia, mas os textos de Chesterton foram

depois reunidos e publicados, pela Ignatius Press, sob o título

Controvérsias com Blatchford. São quatro ensaios em que o autor afia

magistralmente sua espada, que será usada com toda a precisão em Hereges,

em 1905. Podem-se escutar os ecos do debate com Blatchford tanto em

Hereges quanto em Ortodoxia. As idéias que Chesterton desenvolve no

calor da batalha no Clarion são, nestes dois livros, lapidadas,

desenvolvidas, consolidadas.

Para se ter uma idéia do quanto foram importantes esses embates

intelectuais para a maturação das principais idéias de Chesterton, basta ler

em Ortodoxia a seguinte afirmação, que a muitos pode parecer uma frase de

efeito:

Li a literatura cética e científica do meu tempo – nada li de qualquer cunho filosófico. As obras

sensacionalistas que também li pertenciam de fato a uma tradição heróica e sadia do cristianismo;

mas eu não sabia disso naquele tempo. Nunca li uma linha de apologética cristã. Leio o menos

possível disso atualmente. Foram Huxley, Herbert Spencer e Bradlaugh que me trouxeram de

volta à teologia ortodoxa.

 

Ora, os leitores de Hereges vão compreender perfeitamente o que

Chesterton diz aí. Foi no combate com os intelectuais doutrinadores de seu

tempo que ele foi descobrindo que a teologia ortodoxa, que estes procuram desacreditar ou substituir, era, de fato, a única sã doutrina. Na realidade, era

a única arma contra tais doutrinadores, como sempre tinha sido contra todos

os tipos de heresia. Em certo sentido, Chesterton foi convertido pelos

hereges. Este é só mais um dos muitos e admiráveis paradoxos

chestertonianos.