Hereges

G. K. Chesterton · Capítulo 25 de 37

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XVI. O Sr McCabe e a divina futilidade

CAPÍTULO XVI

O Sr McCabe e a divina futilidade

 

C ERTA VEZ, um crítico objetou-me, com um ar de indignada razoabilidade: “Se queres fazer piadas, ao menos não as faça sobre assuntos sérios”. Respondi, com natural simplicidade e admiração: “Sobre

quais outros assuntos, fora os sérios, podemos fazer piadas?” É totalmente

inútil dizer pilhérias profanas. Toda anedota é, por natureza, blasfema, no

sentido de que deve ser a percepção súbita de algo que se pensava solene e

que, afinal, não é tão solene assim. Se uma piada não é uma piada sobre

religião ou moral, é uma anedota sobre magistrados, professores de ciência

ou universitários vestidos como a rainha Vitória. As pessoas fazem mais

troça dos magistrados que do Papa, não porque os magistrados sejam um

tema mais leviano, mas, ao contrário, porque os magistrados são um tema

mais sério do que o Papa. O bispo de Roma não tem jurisdição no reino da

Inglaterra; ao passo que os magistrados podem fazer toda a solenidade deles

recair sobre nossos ombros. Os homens fazem mais piadas sobre velhos

professores de ciência do que sobre bispos – não porque a ciência seja

menos importante que a religião, mas porque a ciência é sempre, pela

própria natureza, mais solene e austera que a religião. Não sou eu; não é

nem mesmo uma determinada classe de jornalistas ou de bufões que faz

piadas sobre questões que são terrivelmente sérias; é toda a raça humana. Se

há uma coisa que até aqueles que têm um conhecimento mínimo do mundo

admitirão é que os homens estão, por um lado, sempre falando solene e

seriamente, com o maior cuidado, sobre coisas que não são importantes,

embora sempre falem de forma banal sobre coisas importantes. Os homens

falam por horas, como se estivessem diante de um colégio de cardeais, a

respeito de coisas como golfe, tabaco, paletós e política partidária. No

entanto, as coisas mais sérias e respeitáveis do mundo são, todas, as piadas

mais antigas da face da Terra – casar-se, enforcar-se.

Contudo, um cavalheiro, o Sr McCabe, nesse particular, fez algo que

quase foi um apelo pessoal; e como é um homem cuja sinceridade e virtude intelectual tenho em alta conta, não me sinto inclinado a deixá-lo sem, ao

menos, tentar satisfazer tal crítico no tema. O Sr McCabe devota parte

considerável do seu último ensaio na coleção intitulada Christianity and

Rationalism on Trial311 a objetar, não à tese, mas ao meu método, e muito

amigável e dignamente faz um apelo para que o altere. Estou inclinado a

defender-me nesse particular por puro respeito ao Sr McCabe, e mais ainda

por respeito à verdade que está, creio, em perigo pelo erro dele, não

somente neste tópico, mas em outros. Para não haver nenhuma injustiça,

citarei o que disse o próprio Sr McCabe:

Antes de dedicar-me em detalhes ao que disse o Sr Chesterton, gostaria de fazer uma observação

geral sobre o seu método. Ele é tão sério quanto eu a respeito do significado supremo, e o

respeito por isso. Sabe, como eu, que a humanidade está numa importante encruzilhada. Ao

rumar para um fim desconhecido que a afligiu durante séculos, foi impelida por um desejo

irresistível de felicidade. Hoje, hesita despreocupadamente, mas todo pensador sério sabe quão

importante pode ser a decisão. Aparentemente, está deixando o caminho da religião e entrando no

caminho do secularismo. Perder-se-á nos pântanos da sensualidade nalgum ponto do novo

caminho, e em trabalhos e fadigas ao longo de anos de anarquia cívica e industrial, apenas para

aprender que saíra do caminho e deve voltar à religião? Ou descobrirá, finalmente, que deixa

para trás brumas e pântanos; que está subindo a trilha da montanha, cujo topo foi, por tanto

tempo, indistintamente vislumbrado, e indo diretamente ao encontro da tão procurada utopia?

Este é o drama de nosso tempo, e todo homem e toda mulher deve compreendê-lo.

O Sr Chesterton o compreende. Ademais, nos dá crédito por compreendermos isso. Não tem

nada da reles mediocridade ou da estranha estupidez de tantos de seus colegas, que nos

desprezam como iconoclastas sem propósito ou anarquistas morais. Reconhece que estamos

travando uma guerra ingrata pelo que consideramos ser a verdade e o progresso. Ele faz o

mesmo. Mas por que, em nome de tudo o que é razoável, ao concordarmos sobre a importância

da questão, devemos imediatamente abandonar os métodos sérios de conduzir a controvérsia?

Por que, quando a necessidade vital de nosso tempo é induzir os homens e mulheres, às vezes, a

reunir os pensamentos, e ser homens e mulheres – não só isso, lembrar que são realmente deuses

e carregam no colo os destinos da humanidade –, por que deveríamos pensar ser inoportuno esse

jogo caleidoscópico de expressões? Os balés de Alhambra,312 os fogos de artifício do Palácio de

Cristal313 e os artigos do Sr Chesterton no Daily News314 têm seus espaços na vida. Mas como

pode um sério estudioso da sociedade pensar em eliminar a ausência de reflexão de nossa

geração com paradoxos forçados; dar às pessoas uma saudável compreensão dos problemas

sociais por meio de artifícios literários, ao propor questões importantes por meio de uma

temerária chuva de metáforas em rojões, “fatos” imprecisos e a substituição da imaginação pela

crítica, realmente não consigo entender.

Cito esta passagem com particular prazer, porque o Sr McCabe não

poderia ter expressado mais francamente o crédito que dou a ele e à sua

escola de pensamento pela total sinceridade e responsabilidade a respeito do

propósito filosófico. Estou certo de que são totalmente sinceros em tudo o

que dizem. Mas por que o Sr McCabe tem uma espécie de hesitação

misteriosa para admitir a sinceridade de cada palavra que digo? Por que não

está certo de minha responsabilidade intelectual, assim como eu estou da

dele? Penso que, se tentarmos responder correta e diretamente, chegaremos

ao cerne da questão pelo atalho mais curto.

O Sr McCabe pensa que não sou sério, mas somente engraçado, porque o

Sr McCabe pensa que engraçado é o oposto de sério. Engraçado é o oposto

de não-engraçado, e de nada mais. A questão de um homem se expressar

por meio de uma fraseologia absurda e risível, ou por um fraseado

imponente e comedido, não é uma questão de intenção ou de condição

moral, é uma questão de linguagem instintiva ou de auto-expressão. Se a

pessoa escolhe dizer a verdade por meio de sentenças longas ou anedotas

curtas é um problema análogo a escolher dizer a verdade em francês ou em

alemão. O fato de um homem pregar seu evangelho de forma absurda ou

séria é simplesmente uma questão de pregá-lo em prosa ou em verso. A

questão se Swift era engraçado ao ser irônico é uma questão totalmente

diferente daquela em que perguntamos se Swift levava a sério o

pessimismo. O Sr McCabe certamente não defenderia que quanto mais

divertido é Gulliver no método, menos sincero consegue ser no objetivo. A

verdade é que, como já disse, nesse ponto as duas qualidades “engraçado” e

“sério” não têm nenhuma relação; são tão comparáveis quanto o são “preto”

e “triangular”. O Sr Bernard Shaw é engraçado e sincero. O Sr George

Robey315 é engraçado, mas insincero. O Sr McCabe é sincero, mas não é

engraçado. Um ministro de governo, em geral, não é sincero nem

engraçado.

Em suma, o Sr McCabe está sob a influência de uma falácia primária que

vejo ser muito comum em homens do tipo clerical. Vários clérigos, de

tempos em tempos, repreendem-me por fazer brincadeiras a respeito de

religião, e quase sempre invocam a autoridade daquele mandamento muito

sensato que diz: “Não tomar o santo nome de Deus em vão”.316 Chamo

atenção, naturalmente, que não estou, de forma alguma, tomando o nome

em vão. Tomar uma coisa e fazê-la anedota não é tomar em vão. É, ao contrário, tomá-la e usá-la para um fim particularmente bom. Usar uma

coisa em vão significa usá-la de forma inútil. Mas um gracejo pode ser

extraordinariamente útil; pode encerrar um sentido completamente terreno,

sem mencionar um sentido completamente celestial da situação. E os que

descobrem tal mandamento na Bíblia nela podem encontrar inúmeros

gracejos. No mesmo livro em que o nome de Deus é protegido para não ser

tomado em vão, o próprio Deus afunda Jó numa torrente de terríveis

leviandades. O mesmo livro que diz que o nome de Deus não deve ser

tomado em vão fala sossegada e descuidadamente sobre Deus dando risadas

e piscando os olhos.317 Não é aqui evidentemente que devemos procurar

exemplos genuínos do que significa um uso vão do nome. E não é muito

difícil ver em que lugar devemos realmente buscá-los. Os indivíduos (como

cuidadosamente os fiz ver) que tomam o nome do Senhor em vão são os

próprios clérigos. O que é fundamental e realmente leviano não é uma

descuidada anedota. O que é fundamental e realmente leviano é uma

descuidada solenidade. Se o Sr McCabe realmente deseja saber que tipo de

garantia de realidade e solidez é proporcionado pelo simples ato do que

chama de “falar seriamente”, deixemo-lo passar um domingo feliz

inspecionando os púlpitos. Ou, ainda melhor, façamo-lo dar uma passada

pela Câmara dos Comuns ou pela Câmara dos Lordes. Até o Sr McCabe

admitiria que tais homens são solenes – mais solenes do que eu. E mesmo o

Sr McCabe, creio, admitiria que esses homens são frívolos – mais frívolos

do que eu. Por que o Sr McCabe tem de ser tão eloqüente sobre o perigo

que procede dos escritores fantásticos e paradoxais? Por que deseja tão

ardentemente escritores sérios e prolixos? Não há tantos escritores

fantásticos e paradoxais, mas há um número gigantesco de escritores sérios

e prolixos; e é pelo esforço dos escritores sérios e prolixos que tudo o que o

Sr McCabe odeia (e, nesse ponto, tudo que também odeio) é conservado em

atividade e existência. Como foi acontecer de um homem tão inteligente

quanto o Sr McCabe pensar que o paradoxo e o chiste obstruem o caminho?

Cerimônia é o que está obstruindo as tentativas de conquista modernas, em

todos os aspectos. Prefere os “métodos sérios”; tem por favorita a

“severidade”; é dela a “opinião” que, em toda a parte, obstrui o curso.

Todos aqueles que presidiram uma comitiva numa audiência com um

ministro sabem disso. Todos os que já escreveram uma carta ao Times

sabem disso. Todos os ricos que desejam calar a conversa dos pobres falam de “severidade”. Todo ministro que não obtém uma resposta prontamente

passa a ter uma “opinião”. Todos aqueles que exploram os empregados e

usam métodos vis recomendam “métodos sérios”. Disse, um pouco antes,

que a sinceridade não tinha nenhuma relação com a seriedade, mas confesso

que não estou muito seguro de que estava certo. Seja como for, no mundo

moderno, não estou convicto de que estava certo. No mundo moderno, a

cerimônia é inimiga imediata da sinceridade. No mundo moderno, a

sinceridade quase sempre está de um lado e a cerimônia quase sempre de

outro. A única resposta possível a um ardente e satisfatório ataque de

sinceridade é a miserável resposta da solenidade. Deixemos o Sr McCabe,

ou quem quer que esteja muito preocupado em que sejamos sérios para

sermos sinceros, que simplesmente imagine uma cena nalgum gabinete do

governo em que o Sr Bernard Shaw fosse presidir uma comitiva socialista

numa audiência com o Sr Austen Chamberlain.318 De que lado estaria a

solenidade? De que lado estaria a sinceridade?

Decerto fico contente em descobrir que o Sr McCabe computa o Sr Shaw

juntamente comigo no seu sistema de condenação da frivolidade. Creio que

ele dissera, certa vez, que queria que o Sr Shaw sempre rotulasse os

parágrafos de “sérios” ou “cômicos”. Não sei quais parágrafos do Sr Shaw

devam ser rotulados de “sérios”; mas certamente não há dúvida de que tal

parágrafo do Sr McCabe deva ser rotulado de “cômico”. Também disse, no

artigo em tela, que o Sr Shaw tem a reputação de dizer deliberadamente

tudo o que os ouvintes não esperam que diga. Não preciso lidar com

tamanha falta de lógica e nem com a debilidade dessa observação, pois já

tratei dela ao comentar a respeito do Sr Bernard Shaw. Basta dizer que a

única razão séria que posso imaginar para que uma pessoa ouça o que outra

tem a dizer é a primeira pessoa olhar para a segunda com fé ardorosa e

atenção fixa, esperando que diga o que não espera que diga. Pode ser um

paradoxo, mas isso é porque que os paradoxos são verdadeiros. Pode não

ser racional, mas é porque o racionalismo é falso. No entanto, é

manifestamente verdadeiro que toda vez que ouvimos um profeta ou

professor podemos esperar ou não espirituosidade, podemos esperar ou não

eloqüência, mas sempre esperamos aquilo que não esperamos. Podemos não

esperar a verdade, podemos nem mesmo esperar a sabedoria, mas

esperamos o inesperado. Se não esperamos o inesperado, por que vamos até

ele? Se esperamos o esperado, por que não ficamos sentados em casa, na espera do que aconteça conosco? Se o Sr McCabe quis dizer apenas isso

sobre o Sr Shaw, que sempre tem uma aplicação inesperada de sua doutrina

para dar aos que o escutam, o que disse é muito verdadeiro, e dizê-lo é dizer

apenas que o Sr Shaw é um homem original. Contudo, se quis dizer que o

Sr Shaw já professou ou pregou alguma doutrina a não ser a dele, então, o

que disse não é verdade. Não é minha intenção defender o Sr Shaw; como

já foi visto, discordo totalmente dele. Mas não me importo, em seu favor, de

desafiar abertamente todos os adversários comuns, tais como o Sr McCabe.

Desafio o Sr McCabe, ou qualquer outro, a mencionar uma única ocasião

em que o Sr Shaw tenha, em nome da presença de espírito ou da novidade,

tomado uma posição que não fosse diretamente dedutível do corpo de sua

doutrina. Sou, e fico feliz em afirmar, um estudioso muito aplicado das

declarações do Sr Shaw, e peço ao Sr McCabe que, caso não acredite que

tencione afirmar qualquer outra coisa, acredite que me disponho a esse

desafio.

Tudo isso, no entanto, foi um parêntese. A coisa com que devo me

interessar, em primeiro lugar, é com o pedido do Sr McCabe para que eu

não seja tão frívolo. Deixem-me retornar ao texto da petição. Há, é claro,

uma série de coisas que poderia dizer, ponto por ponto, a respeito disso.

Não obstante, devo começar dizendo que o Sr McCabe erra ao supor que o

perigo do desaparecimento da religião que antevejo seja o do aumento da

sensualidade. Ao contrário, tendo a prever um declínio na sensualidade,

pois contemplo o declínio da vida. Não penso que sob o materialismo

ocidental moderno devamos ter anarquia. Duvido que tenhamos suficiente

coragem e fibra individual até mesmo para ter liberdade política. É uma

antiquada falácia supor que nossa objeção ao ceticismo seja que ele remove

a disciplina da vida. Nossa objeção ao ceticismo é que ele remove a força

motriz. O materialismo não é algo que destrói meras barreiras. O próprio

materialismo é a grande barreira. A escola de McCabe advoga a liberdade

política, mas nega a liberdade espiritual. Ou seja, abole as leis que poderiam

ser desrespeitadas e as substitui por leis que não o podem. E isso é a

verdadeira escravidão.

A verdade é que a civilização científica em que o Sr McCabe acredita tem

um defeito bastante particular: sempre tende a destruir a democracia ou

poder do homem comum em que o Sr McCabe também acredita. Ciência

significa especialização, e especialização significa oligarquia. Uma vez estabelecido o hábito de confiar em determinados homens para produzir

certos resultados em física ou astronomia, deixamos a porta aberta para uma

demanda igualmente natural de confiança em determinados homens para

realizar certas coisas no governo e na coerção dos homens. Caso

percebamos ser razoável que um besouro seja o único objeto de estudo de

um homem, e aquele homem o único estudioso daquele besouro, certamente

será uma conseqüência muito pouco danosa dizer que a política deva ser o

único objeto de estudo de determinado homem, e tal homem seja o único

estudioso de política. Como já observei em outro lugar neste livro, o

especialista é mais aristocrático do que o aristocrata, porque o aristocrata é

apenas o homem que vive bem, ao passo que o especialista é o homem que

sabe mais. Mas, ao observarmos o progresso de nossa civilização científica,

vemos um gradual crescimento, em todos os campos, do especialista em

relação ao trabalho popular. Antigamente, os homens cantavam juntos, em

coro, ao redor de uma mesa; agora um homem canta sozinho, pelo motivo

absurdo de que canta melhor. Caso persista a civilização científica (o que é

muito improvável), somente um homem rirá, porque consegue rir melhor do

que os demais.

Não sei se consigo expressar isso de forma mais resumida do que citar

uma simples frase do Sr McCabe, que diz o seguinte: “Os balés de

Alhambra, os fogos de artifício do Palácio de Cristal e os artigos do Sr

Chesterton no Daily News têm seus espaços na vida”. Quisera eu que meus

artigos tivessem um lugar tão nobre quanto as duas outras coisas

mencionadas. Mas perguntemo-nos (com espírito amoroso, como diria o Sr

Chadband)319 o que são os balés de Alhambra? Os balés de Alhambra são

instituições em que um determinado grupo de pessoas, vestido de cor-de-

rosa, realiza uma operação conhecida como dança. Em todas as

comunidades dominadas por uma religião – nas comunidades cristãs

medievais e em muitas sociedades primitivas – esse hábito de dançar era

um hábito comum a todos, e não necessariamente estava restrito a uma

classe profissional. A pessoa podia dançar sem ser dançarino; podia dançar

sem trajar cor-de-rosa. E, à medida que a civilização científica do Sr

McCabe progride – isto é, à medida que a civilização religiosa (ou a

verdadeira civilização) declina – tanto mais “bem-treinadas”, mais cor-de-

rosa, se tornarão as pessoas que dançam, e mais numerosas as pessoas que

não dançam. O Sr McCabe pode identificar um exemplo do que digo no gradual descrédito social da antiga valsa européia ou da dança com pares, e

a substituição por aquele horrível e degradante interlúdio oriental conhecido

como skirt-dancing.320 Eis toda a essência da decadência, a supressão de

cinco pessoas que fazem uma coisa por prazer por uma que a faz por

dinheiro. Daí, portanto, quando o Sr McCabe diz que os balés de Alhambra

e meus artigos “têm seus espaços na vida”, deve ser alertado de que está

fazendo o máximo para criar um mundo em que a dança, propriamente dita,

não terá nenhum espaço na vida. Está, realmente, tentando criar um mundo

em que não haverá vida para a dança ocupar um espaço. O próprio fato de o

Sr McCabe considerar a dança como algo pertencente a algumas mulheres

contratadas em Alhambra é uma ilustração do mesmo princípio pelo qual é

capaz de pensar que a religião é algo pertencente a alguns homens de

clergyman.321 Ambas as coisas são coisas que não deveriam ser feitas para

nós, mas por nós. Se o Sr McCabe fosse realmente religioso, seria feliz. Se

fosse realmente feliz, dançaria.

De forma breve, podemos apresentar a questão desta forma. O principal

traço da modernidade não é que os balés de Alhambra tenham lugar na

vida. O principal traço, a principal e enorme tragédia da vida moderna, é

que o Sr McCabe não tenha o seu espaço nos balés de Alhambra. O prazer

dos movimentos graciosos e contínuos, a alegria de coordenar o ritmo da

música ao ritmo dos membros, o encanto dos tecidos esvoaçantes, o júbilo

de manter o equilíbrio numa perna só – tudo isso deveria pertencer, por

direito, ao Sr McCabe e a mim; em suma, ao saudável cidadão comum. É

provável que não consentíssemos em participar dessas evoluções. Mas isso

é por sermos miseráveis racionalistas modernos. Não só amamos a nós

mesmos mais do que amamos as obrigações; amamos a nós mesmos mais

do que amamos a alegria.

Portanto, quando o Sr McCabe diz que dá às danças de Alhambra (e aos

meus artigos) um espaço na vida, creio ser justificado alertá-lo que, pela

própria natureza de sua filosofia e civilização favorita, ele lhes dá um lugar

muito inadequado. Por isso (se puder prosseguir com o paralelo lisonjeiro),

o Sr McCabe considera Alhambra e meus artigos duas coisas demasiado

estranhas e absurdas, coisas que algumas pessoas especiais fazem

(provavelmente, por dinheiro) para diverti-lo. Contudo, se já tivesse sentido

um antigo, sublime e primitivo instinto da dança, teria descoberto que a

dança não é, absolutamente, algo insignificante, mas uma coisa muito séria. Teria descoberto que a dança é um meio de expressão muito solene, casto e

decente de certa classe de emoções. Igualmente, se já tivera, como o Sr

Shaw e eu, o impulso para o que chama de paradoxo, teria descoberto que o

paradoxo não é uma coisa fútil, mas algo muito sério. Teria descoberto que

paradoxos simplesmente são feitos de determinada alegria desafiadora que

pertence à crença. Considero que qualquer civilização que não tenha o

hábito universal da dança alegre e ruidosa seja, do ponto de vista humano

integral, como uma civilização defeituosa. E considero que qualquer

inteligência que não tenha o hábito, de uma forma ou de outra, do

pensamento alegre e ruidoso seja, do ponto de vista humano integral, como

uma inteligência defeituosa. É inútil o Sr McCabe dizer que um balé é uma

parte dele. Ele é que devia ser parte de um balé, ou então é só parcialmente

homem. É inútil dizer que não “discorda da introdução do humor em

qualquer controvérsia”. Ele mesmo deve introduzir o humor em qualquer

controvérsia; pois, salvo o humorista, tal pessoa é apenas parcialmente

humana. Para resumir toda a questão de forma simples, se o Sr McCabe me

perguntar por que introduzo a leviandade numa discussão a respeito da

natureza do homem, respondo: porque a leviandade é parte da natureza do

homem. Se me perguntar por que introduzo o que chama de paradoxos num

problema filosófico, respondo que é por todos os problemas filosóficos

tenderem ao paradoxo. Caso objete ao modo tumultuado como trato a vida,

respondo que a vida é um tumulto. E digo que o universo, como o vejo, é

muito mais parecido com os fogos de artifício do Palácio de Cristal do que

com a própria filosofia dele. Por todo o cosmo há uma festividade ansiosa e

secreta – como os preparativos para o dia de Guy Fawkes.322 A eternidade

é véspera de algo. Nunca observo as estrelas sem deixar de sentir que são

fogos de artifício lançados por um colegial, fixos num eterno espocar.

 

311 Christianity and Rationalism on Trial: the Christian Defenses Answered [Cristianismo e racionalismo em questão: respostas às defesas do cristianismo]. Publicado em Londres, em 1904, pela Rationalist Press Association.

312 Teatro em estilo mourisco, construído em 1854, na Praça Leicester, em Londres, e demolido em 1936. Era um local de exibição de shows musicais e peças teatrais. Na época em que McCabe escreveu o teatro possuía corpo de baile próprio.

313 Palácio de estrutura metálica e vidro, inicialmente localizado no Hyde Park, em Londres, construído para a grande exposição de 1851. Após a exposição o palácio foi transladado para Sydenham Hill, onde permaneceu até a sua destruição, por um incêndio, em 1936. Os shows de fogos de artifício em frente ao Palácio de Cristal foram popularizados pela Brocks Fogos de Artifício, e aconteciam às quintas-feiras à tarde.

314 Chesterton começou a escrever artigos semanais no jornal liberal The Speaker, no ano de 1899, no Daily News (1846–1912), cujo primeiro editor foi Charles Dickens (1812–1870) e, em 1905, começou uma coluna no Illustrated London News (1842–1989) que continuaria até a morte.

315 Nome artístico de George Edward Wade (1869–1954), famoso comediante inglês da época em que se intitulava primeiro-ministro da alegria.

316 Segundo mandamento do decálogo moral judaico-cristão. Ver: Ex 20,7.

317 Na Bíblia, Deus é descrito como alguém que ri e se diverte no livro dos Salmos, como em Sl 2,4. No entanto, o “piscar de olhos” que em inglês é to wink pode significar não só “abrir e fechar os olhos” ou “dar uma piscadela”, como também pode aparecer como to wink at, que significa “fazer que não vê”. Na Bíblia, o ato de piscar os olhos relaciona-se à traição, como nas passagens de Sl 35,19 ou Pr 6,13, e em nenhuma delas a traição é atribuída à divindade. Em outros trechos vemos atribuírem a Deus o “fingir que não vê” pecados e traições como no caso de Hab 1, 13, mas nas traduções da Bíblia para português algumas passagens em que, em inglês, é utilizado o verbo preposicionado to wink at foram traduzidas, por exemplo, como “contemplar”, o que dificulta a compreensão da imagem de Chesterton.

318 Sir Joseph Austen Chamberlain (1863–1937) era filho do já citado político Joseph Chamberlain (1836–1914) e meio-irmão do primeiro-ministro Arthur Neville Chamberlain (1869–1940). Passou quarenta e cinco anos no Parlamento e exerceu o cargo de Chancellor of the Exchequer de 1903 a 1905 e Secretário de Estado para Assuntos Estrangeiros de 1924 a 1929. Foi agraciado com o prêmio Nobel da Paz em 1925. Era conhecido como o último remanescente da correção vitoriana.

319 Personagem de Charles Dickens (1812–1870) no romance Bleak House (1852–1853), que poderia ser descrito como um piedoso hipócrita.

320 Forma de dança, popularizada no teatro de Vaudeville e criada na década de 1870. Normalmente executado por dançarinas trajando uma saia (daí o nome de skirt) de babados, era uma mistura de vertiginosos giros, passos simples de balé e truques simples de ginástica que encantava a audiência masculina.

321 Colarinho clerical com tira removível. Inventado pelo pastor anglicano Rev. Donald McLeod, no século XIX, foi desenvolvido para ser usado no trabalho cotidiano do ministro por ser mais prático que a batina. Os católicos só o adotaram como veste sacerdotal após o Concílio Vaticano II.

322 Guy Fawkes (1570–1606) foi um soldado inglês que participou da “Conspiração da Pólvora”, organizada pelos católicos para explodir o Parlamento quando o rei protestante James I (1566–1625), em 5 de novembro de 1605, o estivesse presidindo. A conspiração foi descoberta e os conspiradores (entre eles, Guy Fawkes) foram mortos. A captura de Fawkes é celebrada até os dias atuais no dia 5 de novembro, na “Noite das Fogueiras” (Bonfire Night). Nesta noite é tradição malhar e queimar em fogueiras bonecos que representam Fawkes, e soltar fogos de artifício.