Hereges
Quem serão nossos mestres?
Portanto, temos uma natureza privilegiada: “a natureza humana não
muda”,407 como observou Eric Voegelin (1901–1985) no sexto e último
capítulo de A Nova Ciência da Política, intitulado “O fim da modernidade”.
Mas também temos uma “segunda natureza”, aquilo que escolhemos ser e
conhecer. Para isso precisamos de um mestre, e para tal ensino, escreveu
Leo Strauss (1899–1973): “No entanto, as maiores inteligências proferem
monólogos […] e contradizem umas às outras a respeito dos assuntos mais
importantes”.408 Mas essa própria contradição entre as grandes
inteligências significa que nós mesmos devemos julgar os grandes mestres
que nem sempre, ou mesmo durante boa parte de nossas vidas, vivem entre
nós. Então, devemos aprender com os livros dos grandes pensadores. Isso
quer dizer, evidentemente, que devemos decidir dentre os grandes mestres,
dentre os grandes livros, quem serão nossos mentores a respeito do
ordenamento das coisas, pois grandes mestres entram em contradição.
Devemos buscar entre os grandes livros aqueles que não contradizem a
realidade, aqueles que servem de guia para aquilo que nos é dado.
Como escolhemos? Leo Strauss sugere que só podemos fazê-lo pelo
próprio raciocínio refletindo acerca de si mesmo, compreendendo que
temos uma razão que funciona bem. A partir disto, concluímos, juntamente
com Strauss:
Esta experiência [de pensar] é totalmente independente, quer compreendamos que algo é
agradável ou desagradável, belo ou feio. Leva-nos a perceber que todos os males são, em certo
sentido, necessários caso tenha de existir compreensão. Permite-nos aceitar todos os males que
recaem sobre nós e podem muito bem partir o coração no espírito de bons cidadãos da Cidade de
Deus. Ao nos tornarmos conscientes da dignidade da razão, percebemos o verdadeiro
fundamento da dignidade do homem e, com isso, a bondade do mundo, quer a compreendamos
como criada ou incriada, que é a origem do homem porque é a origem da inteligência
humana.409
Esta observação nos remete, é claro, diretamente para a temática central
de Chesterton de nos sentirmos com saudades do lar, estando em casa.410
Remete-nos a como a doutrina cristã da ressurreição do corpo se relaciona
com as noções aristotélicas de impossibilidade da amizade com o Primeiro
Motor, que é “o raciocínio refletindo acerca de si mesmo”; remete-nos a pensar se o objeto da revelação também é verdade, se é doutrina; a pensar a
respeito da verdade, da vida, a pensar se nossa dignidade inclui as doutrinas
e dogmas, a pensar adequadamente sobre a ordem das coisas que não
precisavam existir, ou seja, sobre a liberdade de um Deus que não precisava
criar. E, a respeito de se podemos ou não suportar toda a verdade a respeito
de nossa existência no ordenamento das coisas, um tema que muitas vezes
vemos expresso nos escritos de João Paulo II, Leo Strauss também ficou
conhecido por outra doutrina famosa, uma doutrina bastante parecida com a
experiência de Chesterton quando os “hereges” descobriram, de repente,
que ele falava sério a respeito da ortodoxia. No ensaio “Perseguição e a arte
da escrita”, Strauss apresentou a conhecida tese a respeito dos grandes
mestres que cuidadosamente apresentam e dissimulam a verdade das
perigosas autoridades públicas e as revelam para sérios “recrutas”, os quais
chegam a ver a verdade dos escritos como um caminho para a verdade das
coisas.411
Embora possa ser afirmado, talvez, que o estilo paradoxal de Chesterton
seja uma forma de “escrita secreta”, já que desarma o crítico de pensar
Chesterton como perigoso para a ordem pública estabelecida, ainda assim
Chesterton como cristão estava muito preocupado que a verdade tivesse
uma expressão pública, assim como que ela fosse preservada por certa elite
ou inteligência acadêmica. Quando Chesterton convenceu os críticos de que
realmente acreditava na “ortodoxia” clássica, como encontrada na doutrina
e em Santo Tomás de Aquino (1225–1274), ele se tornou o verdadeiro
“herege”. Ou seja, não era mais aceito como parte da esfera pública
intelectual. Não foi executado, como Sócrates (469–399 a.C.), mas foi
isolado, até mesmo por cristãos constrangidos por professarem uma verdade
que poderia ser o que Chesterton dizia. Nesse sentido, Chesterton continua
a ser sinal de contradição, já que defende um cristianismo que muda o
mundo por não mudar o próprio credo diante do neomodernismo, que
salvaria a fé ao mudar os dogmas, conformando-os às doutrinas sempre
mutantes do mundo.
O que gostaria de sugerir, então, é que o uso que Chesterton faz do
paradoxo era, de fato, uma espécie de “escrita secreta”, nem tanto para
esconder a verdade, mas para atrair a inteligência de quem busca por algo,
para encontrar novos membros para a verdade que poderiam, no início, não
suspeitar ou não estar dispostos a admitir que o que buscavam era a verdade. Ademais, a compreensão do mal como um exercício mental
necessário a guiar rumo à dignidade da razão e ao local apropriado da
Cidade de Deus, o único lar adequado ao homem, tema chestertoniano
clássico, nos aponta para a relação entre a doutrina da verdade e a doutrina
da dignidade humana no pensamento de G.K. Chesterton.
Talvez o melhor exemplo disso possa ser encontrado naquelas linhas
quase ao final da Autobiografia, em que Chesterton nos conta de novo,
profeticamente, a relação da ortodoxia, da dignidade humana e da vinda do
estado absoluto da genética. “Mas quem quer que leia este livro (se alguém
o ler)”, escreveu,
verá que desde o começo o meu instinto sobre a justiça, a liberdade e a igualdade era um tanto
diferente do instinto corrente nesta nossa época e de todas as tendências em direção à
concentração e à massificação. Era-me instintivo defender as nações pequenas e as famílias
pobres [...]. Eu não entendia verdadeiramente o que eu queria dizer com liberdade até que a ouvi
chamada com o nome de Dignidade Humana. Este era um nome novo para mim, conquanto fosse
parte de um credo de aproximadamente dois mil anos de idade. Enfim, eu desejei cegamente que
o homem tivesse algo de seu, mesmo que fosse só o seu próprio corpo. À medida que tem
avançado a concentração materialista, em breve um homem não terá nada; nem mesmo seu
próprio corpo. Já pairam no horizonte os revoantes açoites da esterilização e da higiene social
aplicadas a todos e impostas por ninguém.412
O pensamento certo, a opinião certa, a ortodoxia, são, como sugere
Strauss, os fundamentos apropriados da dignidade humana. Santo Tomás de
Aquino já assinalava que a visão de Deus é, em parte, um ato de nossos
intelectos agraciados. Assim, embora a salvação do homem inclua toda a
pessoa, um erro intelectual, no entanto, é, no fim das contas, um atentado ao
valor humano. As idéias irão continuar. A argumentação continuará até sua
conclusão definitiva, se não por nosso intermédio, então por meio de outras
pessoas. A “boa vontade” sozinha não nos salvará.
Neste ponto gostaria de sugerir que Chesterton é um dos grandes mestres.
Em suas obras, necessariamente nos deparamos com uma das inteligências
supremas pela qual devemos localizar as outras grandes inteligências. No
tratado De Amicitia de Marco Túlio Cícero, há uma passagem memorável
que falava dos próprios diálogos De Amicitia, De Officiis e De Senectute.
Cícero notou que “exposições desse tipo parecem carregar consigo uma
certeza especial quando colocadas nas bocas de personagens de uma
geração mais antiga, especialmente naqueles que foram homens
eminentes”.413 Minha geração não teve a sorte de conhecer Chesterton
pessoalmente, logo, tivemos de conhecê-lo pelos livros (que felizmente têm
sido republicados). A conversa da humanidade com o maior dos mestres
não cessará porque aqueles que nos falam estão mortos.
“A tradição não aceita submeter-se à pequena e arrogante oligarquia dos
que parecem vagar por aí”, observou sarcasticamente em Ortodoxia; “todos
os democratas desaprovam que homens sejam desclassificados pela
contingência do nascimento; a tradição contesta que sejam desclassificados
pela contingência da morte”.414 Esta observação foi o modo de Chesterton
elaborar a questão de Strauss sobre a situação das grandes inteligências. O
ponto exato em que, de forma mais clara, o grande ensinamento de
Chesterton entra em jogo está centrado no modo como fé e razão se reúnem
numa só pessoa. Fé e razão estarão eternamente separadas, a menos que, de
alguma forma, em algum lugar, ambas sejam tratadas com atenção e
existam na mesma mente.415
A passagem fundamental para ilustrar isso é encontrada no prefácio de
Ortodoxia, quando lemos:
É propósito do autor tentar uma explicação; não de se a fé cristã deva ser seguida, mas de como
ele, pessoalmente, chegou a acreditar nela. O livro está, portanto, disposto na forma do princípio
positivo de mistérios e soluções. Compreende, primeiramente, todas as especulações solitárias e
sinceras do próprio autor e, posteriormente, lida com todo o surpreendente método como, de
súbito, foram todas satisfeitas pela teologia cristã. O autor as tem como um credo convincente.
Contudo, se não o forem, ao menos, são uma reiterada e surpreendente coincidência.416
Tal passagem extraordinária se dirige à problemática straussiana de se a fé
é necessária à razão, de modo que o conteúdo da razão chega, de alguma
forma, corrompido quando atinge um contexto de fé.417
A abordagem de Chesterton a tal questão é um tanto empírica. De algum
modo, como nos diz em Ortodoxia, tinha uma percepção do cristianismo
tanto da parte dos que lhe faziam objeção, que pareciam ávidos para lançar
sobre ele quaisquer armas, como da própria percepção de que se o
cristianismo não existisse, teria de tê-lo inventado para si.418 Tal afirmação
é quase a única vez, na moderna literatura, creio, que o “ateísmo” foi
combinado, com sucesso, com o cristianismo. Teologicamente, em todo o
caso, não podemos dizer que as verdades da fé podem ser todas justificadas
pela razão. Mas podem ser justificadas a partir da razão, por dizer, de
modo que a Encarnação, por exemplo, seja a resposta para os questionamentos filosóficos que não podem ser enfrentados
adequadamente, ou ao menos refutados, sem a levar em conta.