Hereges

G. K. Chesterton · Capítulo 32 de 37

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Hereges

Quem serão nossos mestres?

Portanto, temos uma natureza privilegiada: “a natureza humana não

muda”,407 como observou Eric Voegelin (1901–1985) no sexto e último

capítulo de A Nova Ciência da Política, intitulado “O fim da modernidade”.

Mas também temos uma “segunda natureza”, aquilo que escolhemos ser e

conhecer. Para isso precisamos de um mestre, e para tal ensino, escreveu

Leo Strauss (1899–1973): “No entanto, as maiores inteligências proferem

monólogos […] e contradizem umas às outras a respeito dos assuntos mais

importantes”.408 Mas essa própria contradição entre as grandes

inteligências significa que nós mesmos devemos julgar os grandes mestres

que nem sempre, ou mesmo durante boa parte de nossas vidas, vivem entre

nós. Então, devemos aprender com os livros dos grandes pensadores. Isso

quer dizer, evidentemente, que devemos decidir dentre os grandes mestres,

dentre os grandes livros, quem serão nossos mentores a respeito do

ordenamento das coisas, pois grandes mestres entram em contradição.

Devemos buscar entre os grandes livros aqueles que não contradizem a

realidade, aqueles que servem de guia para aquilo que nos é dado.

Como escolhemos? Leo Strauss sugere que só podemos fazê-lo pelo

próprio raciocínio refletindo acerca de si mesmo, compreendendo que

temos uma razão que funciona bem. A partir disto, concluímos, juntamente

com Strauss:

Esta experiência [de pensar] é totalmente independente, quer compreendamos que algo é

agradável ou desagradável, belo ou feio. Leva-nos a perceber que todos os males são, em certo

sentido, necessários caso tenha de existir compreensão. Permite-nos aceitar todos os males que

recaem sobre nós e podem muito bem partir o coração no espírito de bons cidadãos da Cidade de

Deus. Ao nos tornarmos conscientes da dignidade da razão, percebemos o verdadeiro

fundamento da dignidade do homem e, com isso, a bondade do mundo, quer a compreendamos

como criada ou incriada, que é a origem do homem porque é a origem da inteligência

humana.409

 

Esta observação nos remete, é claro, diretamente para a temática central

de Chesterton de nos sentirmos com saudades do lar, estando em casa.410

Remete-nos a como a doutrina cristã da ressurreição do corpo se relaciona

com as noções aristotélicas de impossibilidade da amizade com o Primeiro

Motor, que é “o raciocínio refletindo acerca de si mesmo”; remete-nos a pensar se o objeto da revelação também é verdade, se é doutrina; a pensar a

respeito da verdade, da vida, a pensar se nossa dignidade inclui as doutrinas

e dogmas, a pensar adequadamente sobre a ordem das coisas que não

precisavam existir, ou seja, sobre a liberdade de um Deus que não precisava

criar. E, a respeito de se podemos ou não suportar toda a verdade a respeito

de nossa existência no ordenamento das coisas, um tema que muitas vezes

vemos expresso nos escritos de João Paulo II, Leo Strauss também ficou

conhecido por outra doutrina famosa, uma doutrina bastante parecida com a

experiência de Chesterton quando os “hereges” descobriram, de repente,

que ele falava sério a respeito da ortodoxia. No ensaio “Perseguição e a arte

da escrita”, Strauss apresentou a conhecida tese a respeito dos grandes

mestres que cuidadosamente apresentam e dissimulam a verdade das

perigosas autoridades públicas e as revelam para sérios “recrutas”, os quais

chegam a ver a verdade dos escritos como um caminho para a verdade das

coisas.411

Embora possa ser afirmado, talvez, que o estilo paradoxal de Chesterton

seja uma forma de “escrita secreta”, já que desarma o crítico de pensar

Chesterton como perigoso para a ordem pública estabelecida, ainda assim

Chesterton como cristão estava muito preocupado que a verdade tivesse

uma expressão pública, assim como que ela fosse preservada por certa elite

ou inteligência acadêmica. Quando Chesterton convenceu os críticos de que

realmente acreditava na “ortodoxia” clássica, como encontrada na doutrina

e em Santo Tomás de Aquino (1225–1274), ele se tornou o verdadeiro

“herege”. Ou seja, não era mais aceito como parte da esfera pública

intelectual. Não foi executado, como Sócrates (469–399 a.C.), mas foi

isolado, até mesmo por cristãos constrangidos por professarem uma verdade

que poderia ser o que Chesterton dizia. Nesse sentido, Chesterton continua

a ser sinal de contradição, já que defende um cristianismo que muda o

mundo por não mudar o próprio credo diante do neomodernismo, que

salvaria a fé ao mudar os dogmas, conformando-os às doutrinas sempre

mutantes do mundo.

O que gostaria de sugerir, então, é que o uso que Chesterton faz do

paradoxo era, de fato, uma espécie de “escrita secreta”, nem tanto para

esconder a verdade, mas para atrair a inteligência de quem busca por algo,

para encontrar novos membros para a verdade que poderiam, no início, não

suspeitar ou não estar dispostos a admitir que o que buscavam era a verdade. Ademais, a compreensão do mal como um exercício mental

necessário a guiar rumo à dignidade da razão e ao local apropriado da

Cidade de Deus, o único lar adequado ao homem, tema chestertoniano

clássico, nos aponta para a relação entre a doutrina da verdade e a doutrina

da dignidade humana no pensamento de G.K. Chesterton.

Talvez o melhor exemplo disso possa ser encontrado naquelas linhas

quase ao final da Autobiografia, em que Chesterton nos conta de novo,

profeticamente, a relação da ortodoxia, da dignidade humana e da vinda do

estado absoluto da genética. “Mas quem quer que leia este livro (se alguém

o ler)”, escreveu,

verá que desde o começo o meu instinto sobre a justiça, a liberdade e a igualdade era um tanto

diferente do instinto corrente nesta nossa época e de todas as tendências em direção à

concentração e à massificação. Era-me instintivo defender as nações pequenas e as famílias

pobres [...]. Eu não entendia verdadeiramente o que eu queria dizer com liberdade até que a ouvi

chamada com o nome de Dignidade Humana. Este era um nome novo para mim, conquanto fosse

parte de um credo de aproximadamente dois mil anos de idade. Enfim, eu desejei cegamente que

o homem tivesse algo de seu, mesmo que fosse só o seu próprio corpo. À medida que tem

avançado a concentração materialista, em breve um homem não terá nada; nem mesmo seu

próprio corpo. Já pairam no horizonte os revoantes açoites da esterilização e da higiene social

aplicadas a todos e impostas por ninguém.412

 

O pensamento certo, a opinião certa, a ortodoxia, são, como sugere

Strauss, os fundamentos apropriados da dignidade humana. Santo Tomás de

Aquino já assinalava que a visão de Deus é, em parte, um ato de nossos

intelectos agraciados. Assim, embora a salvação do homem inclua toda a

pessoa, um erro intelectual, no entanto, é, no fim das contas, um atentado ao

valor humano. As idéias irão continuar. A argumentação continuará até sua

conclusão definitiva, se não por nosso intermédio, então por meio de outras

pessoas. A “boa vontade” sozinha não nos salvará.

Neste ponto gostaria de sugerir que Chesterton é um dos grandes mestres.

Em suas obras, necessariamente nos deparamos com uma das inteligências

supremas pela qual devemos localizar as outras grandes inteligências. No

tratado De Amicitia de Marco Túlio Cícero, há uma passagem memorável

que falava dos próprios diálogos De Amicitia, De Officiis e De Senectute.

Cícero notou que “exposições desse tipo parecem carregar consigo uma

certeza especial quando colocadas nas bocas de personagens de uma

geração mais antiga, especialmente naqueles que foram homens

eminentes”.413 Minha geração não teve a sorte de conhecer Chesterton

pessoalmente, logo, tivemos de conhecê-lo pelos livros (que felizmente têm

sido republicados). A conversa da humanidade com o maior dos mestres

não cessará porque aqueles que nos falam estão mortos.

“A tradição não aceita submeter-se à pequena e arrogante oligarquia dos

que parecem vagar por aí”, observou sarcasticamente em Ortodoxia; “todos

os democratas desaprovam que homens sejam desclassificados pela

contingência do nascimento; a tradição contesta que sejam desclassificados

pela contingência da morte”.414 Esta observação foi o modo de Chesterton

elaborar a questão de Strauss sobre a situação das grandes inteligências. O

ponto exato em que, de forma mais clara, o grande ensinamento de

Chesterton entra em jogo está centrado no modo como fé e razão se reúnem

numa só pessoa. Fé e razão estarão eternamente separadas, a menos que, de

alguma forma, em algum lugar, ambas sejam tratadas com atenção e

existam na mesma mente.415

A passagem fundamental para ilustrar isso é encontrada no prefácio de

Ortodoxia, quando lemos:

É propósito do autor tentar uma explicação; não de se a fé cristã deva ser seguida, mas de como

ele, pessoalmente, chegou a acreditar nela. O livro está, portanto, disposto na forma do princípio

positivo de mistérios e soluções. Compreende, primeiramente, todas as especulações solitárias e

sinceras do próprio autor e, posteriormente, lida com todo o surpreendente método como, de

súbito, foram todas satisfeitas pela teologia cristã. O autor as tem como um credo convincente.

Contudo, se não o forem, ao menos, são uma reiterada e surpreendente coincidência.416

 

Tal passagem extraordinária se dirige à problemática straussiana de se a fé

é necessária à razão, de modo que o conteúdo da razão chega, de alguma

forma, corrompido quando atinge um contexto de fé.417

A abordagem de Chesterton a tal questão é um tanto empírica. De algum

modo, como nos diz em Ortodoxia, tinha uma percepção do cristianismo

tanto da parte dos que lhe faziam objeção, que pareciam ávidos para lançar

sobre ele quaisquer armas, como da própria percepção de que se o

cristianismo não existisse, teria de tê-lo inventado para si.418 Tal afirmação

é quase a única vez, na moderna literatura, creio, que o “ateísmo” foi

combinado, com sucesso, com o cristianismo. Teologicamente, em todo o

caso, não podemos dizer que as verdades da fé podem ser todas justificadas

pela razão. Mas podem ser justificadas a partir da razão, por dizer, de

modo que a Encarnação, por exemplo, seja a resposta para os questionamentos filosóficos que não podem ser enfrentados

adequadamente, ou ao menos refutados, sem a levar em conta.