Hereges

G. K. Chesterton · Capítulo 34 de 37

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Chesterton e o paradoxo

Chesterton, muito facilmente admitimos, não se presta a rodapés, ao aparato

padrão do discurso acadêmico. Poucos são os que fazem referência a

Chesterton fazendo uma citação precisa. Muitas vezes nos vemos falando

“como disse Chesterton em algum lugar”. Então, prosseguimos e o citamos

com razoável acuidade porque ele realmente nos ensinou, porque seu

ensinamento é a grande contradição dos outros grandes mestres.

Normalmente damos crédito a Chesterton ao ignorar a numeração das

páginas. “Se vale a pena fazer determinada coisa, vale a pena fazê-la logo”,

brincamos, desejando que tivéssemos sido os primeiros a dizer isso, mas

felizes por não termos sido tal pessoa, pois de certa forma é ainda mais

formidável descobrir o que já foi descoberto, descobrir a Inglaterra, pensar

que ela é, realmente, o fim do mundo.

Chesterton continua sendo, ainda hoje, um dos escritores mais citados e

citáveis da língua inglesa.424 Embora não sejam poucos os que continuam

a professar ficarem aborrecidos com a infinidade de paradoxos, confesso

achá-los divertidos, memoráveis, sinais de alerta. Contudo, o ponto de

deleite sempre esteve próximo do centro metafísico da realidade, como

quando descobriu em Ortodoxia que o motivo pelo qual o sol nascia a cada

dia poderia não ser por um determinismo enfadonho, mas por um acaso

encantador, e a alegria da repetição era, por si mesma, um espanto. Cada um

de nós, suponho, pode fazer um relato pessoal ou autobiográfico dos

encontros com Chesterton a ensinar a respeito da estrutura da realidade,

sobre o que chamava de sanidade. Não digo que tenhamos de ter visitado

Beaconsfield ou Edward’s Square, ou que devamos ser bem idosos para ter

ouvido Chesterton palestrar ou conversar. Ao contrário, cada um tem a

própria história intelectual que o levou, de uma forma ou de outra, da

heresia ao dogma, da doutrina à sanidade.

Cresci numa época em que estava fora de moda, e era até errado, ler ou

gostar particularmente de Chesterton. É claro, nem tinha ouvido falar dele

até chegar a uns vinte e poucos anos, mas esse era um outro problema, pois

levei esse tempo todo para começar a entender o que significava, em

primeiro lugar, uma inteligência católica. O “tipo” de catolicismo de

Chesterton, como chamavam, era tido como obsoleto. Ciência, História, Ecumenismo, Teologia e até mesmo Filosofia, tudo conspirava para fazer

dele um pitoresco inglês, que talvez só sobrevivesse por causa das histórias

de detetive do Pe Brown.

Confesso, no entanto, que nunca li as histórias do padre Brown, a não ser

por uma ou duas histórias curtas. Não gosto de histórias de mistério,

embora sejam uma arte nobre. Para ser exato, citei inúmeras vezes o

comentário de Chesterton de que devemos cometer assassinatos o tempo

todo, mas ao escrever a respeito, em histórias policiais. Esta é, afinal de

contas, uma observação de Platão (428–347 a.C.): de que o conhecimento

do mal não é mau, mas bom. Chesterton estava muito certo de que um dos

grandes argumentos para ser cristão era porque isso o permitia compreender

a verdadeira natureza e as profundezas do mal que havia em nós mesmos e

no mundo. A crucificação era o fim da Encarnação, mesmo ao ser seguida

pela ressurreição.