Hereges
Chesterton e o paradoxo
Chesterton, muito facilmente admitimos, não se presta a rodapés, ao aparato
padrão do discurso acadêmico. Poucos são os que fazem referência a
Chesterton fazendo uma citação precisa. Muitas vezes nos vemos falando
“como disse Chesterton em algum lugar”. Então, prosseguimos e o citamos
com razoável acuidade porque ele realmente nos ensinou, porque seu
ensinamento é a grande contradição dos outros grandes mestres.
Normalmente damos crédito a Chesterton ao ignorar a numeração das
páginas. “Se vale a pena fazer determinada coisa, vale a pena fazê-la logo”,
brincamos, desejando que tivéssemos sido os primeiros a dizer isso, mas
felizes por não termos sido tal pessoa, pois de certa forma é ainda mais
formidável descobrir o que já foi descoberto, descobrir a Inglaterra, pensar
que ela é, realmente, o fim do mundo.
Chesterton continua sendo, ainda hoje, um dos escritores mais citados e
citáveis da língua inglesa.424 Embora não sejam poucos os que continuam
a professar ficarem aborrecidos com a infinidade de paradoxos, confesso
achá-los divertidos, memoráveis, sinais de alerta. Contudo, o ponto de
deleite sempre esteve próximo do centro metafísico da realidade, como
quando descobriu em Ortodoxia que o motivo pelo qual o sol nascia a cada
dia poderia não ser por um determinismo enfadonho, mas por um acaso
encantador, e a alegria da repetição era, por si mesma, um espanto. Cada um
de nós, suponho, pode fazer um relato pessoal ou autobiográfico dos
encontros com Chesterton a ensinar a respeito da estrutura da realidade,
sobre o que chamava de sanidade. Não digo que tenhamos de ter visitado
Beaconsfield ou Edward’s Square, ou que devamos ser bem idosos para ter
ouvido Chesterton palestrar ou conversar. Ao contrário, cada um tem a
própria história intelectual que o levou, de uma forma ou de outra, da
heresia ao dogma, da doutrina à sanidade.
Cresci numa época em que estava fora de moda, e era até errado, ler ou
gostar particularmente de Chesterton. É claro, nem tinha ouvido falar dele
até chegar a uns vinte e poucos anos, mas esse era um outro problema, pois
levei esse tempo todo para começar a entender o que significava, em
primeiro lugar, uma inteligência católica. O “tipo” de catolicismo de
Chesterton, como chamavam, era tido como obsoleto. Ciência, História, Ecumenismo, Teologia e até mesmo Filosofia, tudo conspirava para fazer
dele um pitoresco inglês, que talvez só sobrevivesse por causa das histórias
de detetive do Pe Brown.
Confesso, no entanto, que nunca li as histórias do padre Brown, a não ser
por uma ou duas histórias curtas. Não gosto de histórias de mistério,
embora sejam uma arte nobre. Para ser exato, citei inúmeras vezes o
comentário de Chesterton de que devemos cometer assassinatos o tempo
todo, mas ao escrever a respeito, em histórias policiais. Esta é, afinal de
contas, uma observação de Platão (428–347 a.C.): de que o conhecimento
do mal não é mau, mas bom. Chesterton estava muito certo de que um dos
grandes argumentos para ser cristão era porque isso o permitia compreender
a verdadeira natureza e as profundezas do mal que havia em nós mesmos e
no mundo. A crucificação era o fim da Encarnação, mesmo ao ser seguida
pela ressurreição.