Hereges

G. K. Chesterton · Capítulo 31 de 37

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Hereges

Pensar: uma ocupação perigosa

 

Na Autobiografia, Chesterton recordou por que chamara a coletânea sobre

Rudyard Kipling (1865–1936), George Bernard Shaw (1856–1950) e H.G.

Wells (1866–1946) justamente de Hereges. Foi porque, dissera, cada um

deles “cometeu um erro supremo ou religioso”.405 Tal título, naturalmente,

levou ao desafio, irresistível para Chesterton, de nos dizer não o que

discordava, mas sobre o que dizia a esse respeito sua própria teologia. A

este último manifesto chamou de Ortodoxia, embora tivesse confessado que

não estava totalmente feliz com o título, até que aos poucos percebeu haver

nele algo muito “provocador”. Começou a tomar consciência de que, no

mundo moderno, havia somente uma “heresia imperdoável” e esta era a

ortodoxia cristã clássica. Todos o aplaudiam ou brincavam com ele, até

perceberem que Chesterton “realmente tencionava dizer o que disse”.406

O que pretendia chamar de ortodoxia era, em substância, aquilo que

estava na doutrina como a Igreja a entendia. Tais crenças são a base de

nossa dignidade, e a dignidade fica, de alguma forma, abalada cada vez que

buscamos mudar uma vírgula de seu conteúdo. De fato, o próprio esforço

em mudá-las é, em si mesmo, um instrumento do processo de tecer ou criar

um outro tipo de homem diferente daquele descrito pela doutrina. Por fim,

para mudar o homem, devemos primeiramente mudar as crenças. Por isso

que pensar é uma ocupação perigosa, pois ao mudar de idéia, podemos

acabar por mudar o mundo. Podemos ser mortos por nossas crenças, mas

podemos ser mais facilmente destruídos pelas doutrinas. E, enquanto o

mártir deve saber por que morre, o restante de nós deve saber, acima de

tudo, por que vive. Pois, para o primeiro, a fé deve ser o bastante, mas para

os últimos, a doutrina é necessária se também quisermos manter a

dignidade.