Hereges
Pensar: uma ocupação perigosa
Na Autobiografia, Chesterton recordou por que chamara a coletânea sobre
Rudyard Kipling (1865–1936), George Bernard Shaw (1856–1950) e H.G.
Wells (1866–1946) justamente de Hereges. Foi porque, dissera, cada um
deles “cometeu um erro supremo ou religioso”.405 Tal título, naturalmente,
levou ao desafio, irresistível para Chesterton, de nos dizer não o que
discordava, mas sobre o que dizia a esse respeito sua própria teologia. A
este último manifesto chamou de Ortodoxia, embora tivesse confessado que
não estava totalmente feliz com o título, até que aos poucos percebeu haver
nele algo muito “provocador”. Começou a tomar consciência de que, no
mundo moderno, havia somente uma “heresia imperdoável” e esta era a
ortodoxia cristã clássica. Todos o aplaudiam ou brincavam com ele, até
perceberem que Chesterton “realmente tencionava dizer o que disse”.406
O que pretendia chamar de ortodoxia era, em substância, aquilo que
estava na doutrina como a Igreja a entendia. Tais crenças são a base de
nossa dignidade, e a dignidade fica, de alguma forma, abalada cada vez que
buscamos mudar uma vírgula de seu conteúdo. De fato, o próprio esforço
em mudá-las é, em si mesmo, um instrumento do processo de tecer ou criar
um outro tipo de homem diferente daquele descrito pela doutrina. Por fim,
para mudar o homem, devemos primeiramente mudar as crenças. Por isso
que pensar é uma ocupação perigosa, pois ao mudar de idéia, podemos
acabar por mudar o mundo. Podemos ser mortos por nossas crenças, mas
podemos ser mais facilmente destruídos pelas doutrinas. E, enquanto o
mártir deve saber por que morre, o restante de nós deve saber, acima de
tudo, por que vive. Pois, para o primeiro, a fé deve ser o bastante, mas para
os últimos, a doutrina é necessária se também quisermos manter a
dignidade.