Hereges

G. K. Chesterton · Capítulo 21 de 37

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XII. O paganismo e o Sr Lowes Dickinson

CAPÍTULO XII

O paganismo e o

 

Sr Lowes Dickinson

 

A RESPEITO DO NOVO PAGANISMO (ou neopaganismo), como o pregado de modo exagerado pelo Sr Swinburne ou como aquele delicadamente proclamado por Walter Pater, não há nada de muito grave a considerar,

exceto ter sido algo que nos legou incomparáveis exercícios em língua

inglesa. O novo paganismo não é mais novo, e nunca, em tempo algum,

guardou a menor semelhança com o paganismo. As idéias que plantou na

mentalidade popular a respeito de antigas civilizações são por demais

extraordinárias. O termo “pagão” é usado, com freqüência, na ficção e na

literatura banal como sinônimo de pessoa sem religião, embora o pagão

fosse, em geral, alguém que tinha meia dúzia delas. Os pagãos, segundo

essa noção, prosseguiam se coroando com flores e dançando em total estado

de irresponsabilidade, ao passo que, se houve duas coisas em que a

civilização pagã, na melhor das épocas, honestamente acreditou foram certa

dignidade e responsabilidade excessivamente rígidas. Os pagãos são

descritos, sobretudo, como ébrios e sem lei, quando, na verdade, eram,

antes de tudo, sensatos e respeitadores. São louvados como desobedientes,

quando tinham uma única grande virtude – a obediência cívica. São

invejados e admirados como vergonhosamente felizes, quando tinham um

único grande pecado – o desespero.

O Sr Lowes Dickinson,232 o mais fértil e provocativo dos recentes

escritores neste e em assuntos similares, é um homem muito sério para ter

caído no velho erro da mera anarquia do paganismo. Para fazer confusão

com o entusiasmo helênico cujo ideal é o mero desejo e o simples egoísmo,

não é necessária muita Filosofia, mas simplesmente um parco

conhecimento da língua grega. O Sr Lowes Dickinson sabe muito de

Filosofia e também de grego, e seu erro, se houver, não é o do hedonismo

grosseiro. Contudo, o contraste que propõe entre o cristianismo e o

paganismo em matéria de moral – um contraste que apresenta muito

habilmente num artigo intitulado How long halt ye?,233 publicado no

Independent Review234 – contém, creio, um erro de tipo mais profundo.

Segundo ele, o ideal do paganismo não era, de fato, um mero frenesi de

luxúria, liberdade e extravagância, mas era o ideal de uma humanidade

integral e satisfeita. Segundo o Sr Dickinson, o ideal do cristianismo era o

ideal do ascetismo. Quando digo que acredito que tal idéia esteja totalmente

errada em relação à Filosofia e à História, não estou, no momento, falando

de nenhuma idealização cristã pessoal ou mesmo de qualquer cristianismo

primitivo não corrompido por eventos posteriores. Não estou, como tantos

modernos idealistas cristãos, fundamentando minha objeção em certas

coisas que Cristo deixou de dizer. Considero o cristianismo histórico com

todos os pecados; lanço mão dele como lançaria do jacobinismo, ou do

mormonismo, ou de qualquer outro produto humano confuso ou

desagradável, e digo que o sentido de sua ação não deveria ser encontrado

no ascetismo. O que o diferenciou do paganismo não foi o ascetismo. Digo

que a diferença com o mundo moderno não foi o ascetismo. Digo que São

Simeão Estilita235 não tinha no ascetismo a principal inspiração. Digo que

o principal impulso do cristão não pode ser descrito como ascetismo,

mesmo nos ascetas.

Permitam-me que eu comece a esclarecer o assunto. Há um fato óbvio a

respeito das relações entre o cristianismo e o paganismo que, de tão

simples, fará com que muitos riam, embora seja tão importante que todos os

modernos o esqueçam. O fato primário sobre o cristianismo e o paganismo

é que um veio após o outro. O Sr Lowes Dickinson fala deles como se

fossem ideais paralelos – fala até como se o paganismo tivesse sido o

fenômeno mais novo dos dois, e o mais adequado para uma nova era.

Sugere que o ideal pagão seja o bem supremo do homem; mas, se é assim,

devemos ao menos perguntar, com mais curiosidade do que nos é permitido,

por que o homem verdadeiramente encontrou seu bem supremo na face da

Terra e sob as estrelas e o jogou fora. É um enigma extraordinário para o

qual proponho arriscar uma resposta.

Há apenas uma coisa no mundo moderno que está face a face com o

paganismo; há apenas uma coisa no mundo moderno que, nesse sentido,

sabe tudo a respeito do paganismo; e tal coisa é o cristianismo. Este fato é

realmente o ponto fraco de todo o neopaganismo hedonista do qual tenho

falado. Tudo o que verdadeiramente persiste nas danças ou hinos antigos da

Europa, tudo o que, honestamente, chegou até nós dos festivais de Febo236

ou Pã,237 deve ser encontrado nos festivais da igreja cristã. Caso alguém

deseje segurar o fio da meada que remonta aos mistérios pagãos, seria

melhor segurar um festão de flores na Páscoa ou um cordão de lingüiças no

Natal. Tudo o mais no mundo moderno é de origem cristã, mesmo o que

parece mais anticristão. A Revolução Francesa é de origem cristã. Os

jornais são de origem cristã. Os anarquistas são de origem cristã. A Física é

de origem cristã. O ataque à cristandade é de origem cristã. Hoje há uma

coisa que existe, e apenas uma, que pode ser, justamente, considerada de

origem pagã, e esta coisa é o cristianismo.

A diferença verdadeira entre o paganismo e o cristianismo está

perfeitamente condensada na diferença entre as virtudes pagãs, ou naturais,

e aquelas três virtudes do cristianismo que a Igreja de Roma chama de

virtudes teologais. As virtudes pagãs ou racionais são justiça e temperança,

e o cristianismo as adotou. As três virtudes místicas que o cristianismo não

adotou, mas inventou, são fé, esperança e caridade. Muita retórica

agradável e insensata poderia ser despejada a respeito das três virtudes, mas

desejo limitar-me a dois fatos evidentes. O primeiro fato evidente (em

nítido contraste com a ilusão do pagão dançarino) – o primeiro fato

evidente, digo, é que as virtudes pagãs, tais como justiça e temperança, são

virtudes tristes, e que as virtudes místicas da fé, esperança e caridade são

virtudes alegres e exuberantes. E o segundo fato evidente, que é ainda mais

óbvio, é o fato de as virtudes pagãs serem razoáveis, e as virtudes cristãs da

fé, da esperança e da caridade serem, em essência, muito irracionais.

Como a palavra “irracional” é dada a mal-entendidos, a questão pode ser

proposta, com mais acurácia, ao dizer que cada uma das virtudes místicas e

cristãs contém, na própria natureza, um paradoxo, o que não é verdade no

caso de qualquer uma das virtudes racionais tipicamente pagãs. A justiça

consiste em descobrir determinada coisa devida a certo homem e lha dar. A

temperança consiste em descobrir o limite adequado de um prazer

específico e aderir a tal limite. Todavia, a caridade significa perdoar o

imperdoável, ou, absolutamente, não é uma virtude. A esperança significa

confiar quando não há mais o que esperar, ou não é virtude alguma. E a fé

significa acreditar no inacreditável, ou não há de ser virtude.

É um tanto divertido, certamente, observar a diferença entre o destino dos

três paradoxos nos costumes da alma moderna. A caridade é, atualmente, uma virtude em voga; é acesa pela chama gigantesca de Dickens. A

esperança está também na moda; nossa atenção foi capturada pelo súbito e

eloqüente clarim de Stevenson. Mas a fé não está na moda, e é comum

lançarem-lhe a acusação de ser um paradoxo. Todo o mundo repete

zombeteiramente a famosa definição infantil de que a fé “é o poder de

acreditar naquilo que sabemos não ser verdade”. Mesmo assim, não é nem

um átomo sequer mais paradoxal do que a esperança ou a caridade. A

caridade é o poder de defender aquilo que sabemos indefensável. A

esperança é o poder de estar bem-disposto em circunstâncias que sabemos

desesperadoras. É verdade que há um estado esperançoso que pertence às

perspectivas brilhantes e às manhãs ensolaradas; mas isso não é a virtude da

esperança. A virtude da esperança existe apenas nos terremotos e nos

eclipses. É verdade que há algo imperfeitamente chamado de caridade, que

pretende caridade ao pobre que a merece; mas isso não é, de modo algum,

caridade, e sim justiça. É o indigno que a exige: o ideal não existe de forma

alguma ou existe apenas para tais casos. Para efeitos práticos, é nos

momentos de desesperança que necessitamos de um homem esperançoso,

caso contrário, ou não existe virtude ou ela passa a existir nesses momentos.

É exatamente no instante em que a esperança deixa de ser razoável que ela

começa a ser útil.

Ora, o antigo mundo pagão ia perfeitamente bem até descobrir que ir bem

era um enorme erro. Era nobre e belissimamente razoável, e descobriu uma

duradoura e valorosa verdade na derradeira aflição, um patrimônio para

todas as épocas: a racionalidade não era o suficiente. A era pagã, na verdade

e em essência, foi um Éden ou uma era dourada, e isso não é restaurável.

Tal período não deve mais ser restabelecido no sentido de que, embora

sejamos, por certo, mais alegres e muito mais justos do que os pagãos, não

há ninguém que possa, nem usando os últimos laivos de energia, ser tão

sensível quanto um pagão. A pura inocência do intelecto não pode ser

recuperada, por quem quer que seja, após o cristianismo; e por uma

excelente razão: a de que todos, após o advento do cristianismo, sabemos

que ela é ilusão. Permitam que eu dê um exemplo, o primeiro que vem à

mente, dessa impossível simplicidade pagã de ponto de vista. O maior

tributo ao cristianismo no mundo moderno foi o poema Ulisses de

Tennyson.238 O poeta interpreta a história de Ulisses a partir da concepção

de um incurável desejo de andar a esmo. Mas o verdadeiro Ulisses não deseja vagar. Deseja chegar à sua casa. Apresenta as qualidades heróicas e

invencíveis ao resistir aos infortúnios que lhe criam obstáculos; mas isso é

tudo. Não há amor à aventura pela aventura; isso é um produto cristão. Não

há um amor por Penélope239 por ela mesma; isso é um produto cristão.

Tudo naquele mundo antigo parecia ser claro e óbvio. Um homem bom era

um homem bom; um homem mau era um homem mau. Por esse motivo não

tinham caridade; pois a caridade é um agnosticismo reverente à

complexidade da alma. Por essa razão não tinham algo como a arte da

ficção, o romance; pois o romance é uma criação da idéia mística da

caridade. Para eles, uma paisagem agradável era agradável, e uma paisagem

desagradável, desagradável. Portanto, não tinham idéia do romance; pois

romancear consiste em pensar algo como mais agradável por ser perigoso;

isso é uma idéia cristã. Em suma: não podemos reconstruir ou mesmo

imaginar o belo e surpreendente mundo pagão. Era um mundo em que o

senso comum era realmente comum.

Minha acepção geral das três virtudes está agora, espero, suficientemente

clara. Todas as três são paradoxais, todas as três são práticas, e todas as três

são paradoxais porque são práticas. É a desagradável influência da

necessidade suprema, e um terrível conhecimento das coisas como são, que

levou os homens a estabelecer tais enigmas, e a morrer por eles. Qualquer

que seja o significado da contradição, é fato que o único tipo de esperança

que tem alguma utilidade numa batalha é a esperança que nega a aritmética.

Qualquer que seja o significado da contradição, é fato que o único tipo de

caridade que qualquer espírito fraco deseja, ou que qualquer espírito

generoso sente, é a caridade que perdoa os pecados mais escarlates.

Qualquer que seja o significado da fé, deve sempre significar uma certeza

sobre algo que não podemos provar. Assim, por exemplo, acreditamos, por

intermédio da fé, na existência de outras pessoas.

Mas há outra virtude cristã, uma virtude muito mais óbvia e

historicamente relacionada ao cristianismo, que ilustrará ainda melhor a

conexão entre paradoxo e necessidade prática. Esta virtude não pode ser

questionada na qualidade de símbolo histórico; certamente o Sr Lowes

Dickinson não a questionará. Tem sido motivo de orgulho de centenas de

paladinos da cristandade. Tem sido o escárnio de centenas de adversários do

cristianismo. É o âmago, a base de toda a distinção do Sr Lowes Dickinson

entre cristianismo e paganismo. Refiro-me, claro, à virtude da humildade. Admito, de muito bom grado, que uma grande parte de falsa humildade

oriental (isto é, humildade rigorosamente ascética) imiscuiu-se no

cristianismo europeu. Não devemos nos esquecer que, ao falarmos de

cristianismo, estamos falando de todo um continente por cerca de mil anos.

No entanto, no que diz respeito a essa virtude, muito mais do que nas três

anteriores, sustentaria a mesma proposição geral adotada acima. A

civilização descobriu a humildade cristã pela mesma razão imperativa por

que descobriu a fé e a caridade – isto é, porque a civilização cristã tinha de

descobri-la ou morreria.

A grande descoberta psicológica do paganismo, que o converteu ao

cristianismo, pode ser representada com bastante rigor numa expressão. O

pagão descobriu, com admirável inteligência, como ter prazer. Ao fim de

sua civilização, descobrira que não era possível ter prazer e continuar a

desfrutar das demais coisas. O Sr Lowes Dickinson tem nos alertado, com

palavras por demais excelentes e que não necessitam de mais explicações,

em relação à absurda superficialidade daqueles que acreditam que o pagão

tinha prazeres apenas no sentido material. É claro, deleitava-se não só de

forma intelectual, desfrutava da moral, tinha gozos espirituais. Mas

desfrutava de si mesmo; dadas as circunstâncias, algo muito natural a ser

feito. Ora, a descoberta psicológica é simplesmente esta: já que supuseram

que o máximo de prazer possível é encontrado no prolongamento infinito

do ego, a verdade é que a plenitude possível do prazer é obtida pela redução

do ego a zero.

A humildade é algo que está sempre renovando a Terra e as estrelas. É a

humildade, e não o dever, que protege as estrelas do erro, do imperdoável

erro, de uma sujeição casual; é por meio da humildade que o mais antigo

dos céus, para nós, está viçoso e forte. A maldição, ocorrida antes da

história, infligiu a todos os homens um pendor para nos fatigarmos dos

prodígios. Caso víssemos o sol pela primeira vez, seria o mais terrível e

belo dos meteoros. Agora que o vemos pela milésima vez, chamamo-lo,

usando a expressão medonha e blasfema de Wordsworth, “luz do dia

comum”.240 Estamos dispostos a aumentar nossas exigências. Estamos

dispostos a exigir seis sóis, a exigir um sol azul, a exigir um sol verde. A

humildade está perpetuamente nos fazendo voltar às trevas primordiais. Lá,

toda luz é um raio, aterrorizante e instantâneo. Até que compreendamos as

trevas primordiais, em que não temos nem visão nem expectativas, não poderemos dar calorosos e inocentes louvores ao esplêndido

sensacionalismo das coisas. Os termos “pessimismo” e “otimismo”, como a

maioria dos termos modernos, não têm significado. Mas se puderem ser

usados num sentido indeterminado como se significassem algo, poderíamos

dizer que, em relação a essa circunstância, o pessimismo é a verdadeira

base do otimismo. O homem que se destrói cria o universo. Para o homem

humilde, e apenas para ele, o sol é realmente um sol; para o homem

humilde, e apenas para ele, o mar é realmente um mar. Quando olha, na rua,

para todos os rostos, não só percebe que os homens estão vivos, assim como

percebe, com um prazer comovente, que não estão mortos.

Não mencionei outro aspecto da descoberta da humildade como uma

necessidade psicológica porque é um aspecto mais comum e pertinaz e, por

isso, mais óbvio. Contudo, é igualmente claro que a humildade é uma

necessidade definitiva como condição de diligência ou de exame de

consciência. Uma das falácias mortais do nacionalismo chauvinista é a

afirmação de que uma nação se torna mais forte por desprezar outras

nações. De fato, as nações mais firmes são aquelas, como a Prússia ou o

Japão, que tiveram um início miserável, mas que não foram orgulhosas e

sentaram aos pés do estrangeiro para aprender tudo o que ele tinha a

ensinar. Quase toda vitória evidente e direta tem sido a vitória do plagiador.

Este é, por certo, somente um subproduto muito insignificante da

humildade, mas é um produto da humildade e, portanto, é bem-sucedido. A

Prússia não tinha a humildade cristã na organização interna; assim os

programas de ação eram míseros. No entanto, possuía suficiente humildade

cristã para copiar servilmente a França (chegando até a poesia de Frederico,

o grande),241 e o que teve a humildade para copiar, ao final, teve a honra

de conquistar. O caso dos japoneses é ainda mais evidente. Sua única

qualidade cristã, sua única bela qualidade, foi a de se humilharem para

serem exaltados. Não obstante toda a visão da humildade como uma

questão de diligência e de empenho em atingir padrões elevados, afirmo

que tal lado não foi suficientemente enfatizado por quase nenhum dos

escritores idealistas.

Pode valer a pena, contudo, chamar atenção para a interessante

disparidade a respeito da humildade na noção moderna de homem forte e

nos verdadeiros testemunhos de homens fortes. Carlyle242 objetou em

relação à afirmação de que nenhum homem é herói para o próprio

criado.243 Pode merecer toda a nossa simpatia, nesse ponto, caso tenha

querido se referir à expressão, mera ou principalmente, em menosprezo ao

culto da figura do herói. O culto ao herói é certamente um impulso humano

e magnânimo; o herói pode ter defeitos, mas o culto dificilmente pode.

Pode ser que nenhum homem seja herói para o próprio criado. Mas

qualquer homem é um criado para o herói. Mas tanto o provérbio quanto a

crítica severa de Carlyle ignora a questão mais essencial em debate. A

suprema verdade psicológica não é que alguém seja herói para seu criado. A

suprema verdade psicológica, o fundamento do cristianismo, é que ninguém

seja um herói para si mesmo. Cromwell,244 segundo Carlyle, era um

homem forte. Segundo o próprio Cromwell, era um fraco.

O ponto fraco de toda a argumentação de Carlyle relativa à aristocracia se

encontra, de fato, na sua expressão mais célebre. Carlyle disse que a

maioria dos homens era tola. O cristianismo, com um realismo mais seguro

e reverente, diz que todos os homens são tolos. Essa doutrina é, às vezes,

chamada de doutrina do Pecado Original. Pode também ser descrita como a

doutrina da igualdade dos homens. Todavia, o ponto essencial é que,

independente de quais sejam os perigos basilares e de grande abrangência

que venham a afetar cada um dos homens, eles afetarão a todos. Todos os

homens podem ser criminosos, caso sofram tentação; todos os homens

podem ser heróis, caso sejam inspirados. E essa doutrina acaba totalmente

com a patética crença de Carlyle (ou de qualquer outro) nos “poucos

sábios”. Não há poucos sábios. Toda aristocracia que já existiu se

comportou, em todos os pontos essenciais, exatamente como uma pequena

turba. Toda oligarquia é meramente uma aglomeração de homens na rua – e

isto equivale a dizer que é muito bem-disposta, mas não é infalível. E

nenhuma das oligarquias da história mundial nunca se saiu tão mal nos

assuntos práticos quanto as oligarquias demasiado orgulhosas – a oligarquia

da Polônia, a oligarquia de Veneza. E os exércitos que mais rápida e

repentinamente derrubaram os inimigos foram os exércitos religiosos – os

exércitos muçulmanos, por exemplo, ou os exércitos puritanos. E um

exército religioso, pela própria natureza, pode ser definido como um

exército em que cada homem é ensinado a não se exaltar, mas a se

humilhar. Muitos ingleses modernos falam de si como vigorosos

descendentes dos seus vigorosos antepassados puritanos. Na verdade,

sairiam correndo de uma vaca. Se perguntássemos a um dos antepassados

puritanos, se perguntássemos a Bunyan,245 por exemplo, se era vigoroso e

forte, teria respondido, com lágrimas, que era tão fraco como a água. E, por

isso, suportou torturas. Portanto, a virtude da humildade, embora seja

prática a ponto de vencer batalhas, será sempre paradoxal o bastante para

confundir os pedantes. Nesse aspecto, está de acordo com a virtude da

caridade. Toda pessoa generosa admitirá que o tipo de pecado que a

caridade deve dominar é o pecado imperdoável. E toda pessoa generosa

igualmente há de concordar que o tipo de orgulho totalmente condenável é

o do homem que tem algo de que se orgulhar. O orgulho que,

proporcionalmente falando, não fere o caráter é o orgulho de coisas que não

envolvem nenhum crédito pessoal. Assim, não há mal algum em orgulhar-

se do próprio país e, comparativamente, há pouco mal em orgulhar-se de

ancestrais remotos. Faz mais mal orgulhar-se de ter ganhado dinheiro,

porque, nesse caso, a pessoa tem um pouco mais de razão para se orgulhar.

Faz mais mal ainda se orgulhar do que é mais nobre que dinheiro – o

intelecto. E faz um mal extremo se orgulhar da coisa mais valiosa da Terra

– a bondade. O homem que se orgulha dos seus reais predicados é um

fariseu, um tipo de homem que o próprio Cristo nunca pôde deixar de

atacar.

Minha objeção ao Sr Lowes Dickinson e aos novos defensores do ideal

pagão é, então, a seguinte: acuso-os de ignorar descobertas decisivas no

universo moral, descobertas tão decisivas, embora não tão materiais, como

a descoberta da circulação do sangue. Não podemos retornar a um ideal de

razão e sanidade, visto que a humanidade descobriu que a razão não leva à

sanidade. Não podemos retornar a um ideal de orgulho e prazer, pois a

humanidade descobriu que o orgulho não leva ao prazer. Não sei por qual

extraordinário acidente mental os escritores modernos muito

constantemente ligam a idéia de progresso à idéia de pensamento

independente. O progresso é, obviamente, a antítese do pensamento

independente. Por meio do pensamento independente e individual, cada

homem parte do início e vai, com toda probabilidade, apenas tão longe

quanto o pai fora antes dele. Mas, se realmente houver algo da mesma

natureza do progresso, isso deverá significar, acima de tudo, um exame

cuidadoso e a aceitação da totalidade do passado. Culpo o Sr Lowes

Dickinson e sua escola reativa num único e verdadeiro sentido. Caso queira,

deixemo-lo rejeitar os grandes mistérios históricos – o mistério da caridade, o mistério do cavalheirismo, o mistério da fé. Caso queira, deixemo-lo

ignorar o arado ou a máquina de impressão. No entanto, caso queiramos

reviver e seguir o ideal pagão da autocontemplação simples e racional,

terminaremos onde o paganismo terminou. Não digo que devamos terminar

em ruínas. Digo que terminaremos no cristianismo.

 

232 Goldsworthy Lowes Dickinson (1862–1932) foi historiador, ativista político, pacifista (fez oposição à participação da Inglaterra na I Grande Guerra), globalista (apoiou da Liga das Nações). Homossexual assumido, esteve ligado ao grupo de intelectuais e literatos de Bloomsbury.

233 O título do artigo é a passagem bíblica de 1 Rs 18,21: “Até quando claudicareis das duas pernas?”

234 A Independent Review (1904–1911) foi uma revista acadêmica progressista, fundada pelo historiador G.M. Trevelyan (1876–1962) em Londres, da qual Dickinson era membro do conselho editorial.

235 Simeão, também conhecido como Simeão, o Estilita (386–459), foi um eremita que, sentindo o chamamento divino, escolheu uma vida de recolhimento, ascetismo e oração. Refugiou-se no cimo de um monte para isolar-se do mundo e das tentações. Incomodado, contudo, com a fama de santidade, Simeão passou a viver, por cerca de 30 anos, em cima de um pilar que foi crescendo à medida que sua fama aumentava, tendo possivelmente atingido os 15 metros de altura.

236 Também chamado pelos romanos de Apolo. Depois de Zeus (Júpiter), um dos deuses mais importantes da mitologia. Sempre jovem, personificava a luz e regia a poesia, a música, a profecia e a canção.

237 Pã (Lupércio ou Lupercus em Roma) era o deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores na mitologia grega. Residia em grutas e vagava pelos vales e pelas montanhas, caçando ou dançando com as ninfas. Era representado com orelhas, chifres e pernas de bode. Amante da música, trazia sempre consigo uma flauta.

238 Alfred Tennyson, 1° Barão de Tennyson (1809–1892) foi um poeta laureado na Inglaterra vitoriana e ainda é um dos poetas mais populares em língua inglesa. O poema Ulisses (1833), escrito após a morte do amigo Arthur Henry Hallam (1811–1833), descreve um Ulisses resoluto e heróico, com admirável determinação; no entanto, estudiosos apontam que há na personagem um desejo constante de buscar o inexplorado, e tal expedição seria a principal meta do herói.

239 Esposa de Ulisses que o aguarda durante todo o período da Guerra de Tróia, como narrado na Odisséia de Homero (século VIII a.C.).

240 Referência à estrofe 75–76 do poema Ode: Intimations of Immortality from Recollections of Early Childhood, que diz: “At length the Man perceives it die away, / And fade into the light of common day”.

241 Frederico II da Prússia (1712–1781), déspota esclarecido, amante da música, das artes e da literatura francesas. Trocou correspondência com vários eruditos franceses, entre eles Voltaire. Também foi grande estrategista militar e um dos responsáveis por criar a grandeza da Prússia.

242 Thomas Carlyle (1795–1881) foi um escritor satírico, ensaísta e historiador escocês do período vitoriano. Desenvolveu a idéia de que a História poderia ser interpretada pela vida dos grandes homens, e chegou a escrever sobre a vida de Oliver Cromwell (1599–1658) na obra chamada Letters and Speeches of Oliver Cromwell (1845) e Frederico II da Prússia (1712–1781).

243 Frase atribuída ao filósofo alemão G.F.W. Hegel (1770–1831). Chesterton se refere à objeção de Carlyle na obra On Heroes, Hero-worship and the Heroic in History de 1841. Para o escritor vitoriano, o heroísmo repousaria na energia criativa do herói e não na sua perfeição moral. Em oposição ao heroísmo, chamou de “valetism” [em português, criadismo] a filosofia daqueles que buscam o conforto no convencional e escarnecem das falhas alheias.

244 Oliver Cromwell (1599–1658) foi um dos líderes da guerra civil inglesa que derrubou o rei, tornando-se Lord Protector. Governou a Inglaterra de 1653 até a morte e instaurou uma república puritana.

245 John Bunyan (1628–1688) foi um influente escritor puritano do século XVII na Inglaterra. Dentre suas obras temos a alegoria cristã mais famosa de todos os tempos, The Pilgrim’s Progress (1678).