Hereges

G. K. Chesterton · Capítulo 7 de 37

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Hereges

4. A atualidade de Hereges

 

Pode-se perguntar se Hereges é um livro atual, se o leitor moderno ganha

alguma coisa ao lê-lo, depois de mais de um século de sua publicação. A

resposta é que Hereges é mais atual hoje do que quando foi escrito. De lá

para cá os hereges só cresceram em número. A intelligentsia hoje comanda

o mundo; não só o mundo das idéias, mas o político, o financeiro, o social,

o intelectual e o religioso. Estamos cercados de hereges por todos os lados,

hereges às vezes muito menos capazes, mas muito mais eficazes do que os

anteriores. Mais eficazes porque hoje estamos mais isolados das raízes da sã

doutrina do que estavam Chesterton e seus contemporâneos. Mais eficazes

porque a mídia se tornou onipresente e onipotente, e os hereges controlam a

mídia mundial. Mais eficazes porque hoje o sistema educacional,

praticamente sem exceção, é controlado por eles. Por isso, em certo sentido,

a leitura de Hereges é hoje obrigatória.

Há obras atuais que se assemelham a Hereges, em sua combatividade e no

alvo do combate, apesar de diferirem no método, no estilo e no ponto de

partida. Cito apenas quatro, dentre muitas. No Brasil dois livros se

destacam. A Invasão Vertical dos Bárbaros, de Mário Ferreira dos Santos,

descreve o ataque da intelligentsia de que fala Chesterton – que o autor

chama de bárbaros – ao núcleo central da doutrina cristã que fundamentou a

Civilização Ocidental. O Imbecil Coletivo, de Olavo de Carvalho, é um

clamor de sanidade em meio à loucura ambiente. Nos EUA, The Vision of the

Anointed [A Visão dos Ungidos], de Thomas Sowell, é uma descrição

objetiva da casta da intelligentsia que controla a política, a justiça e a

economia americanas. A obra explica as estratégias de controle usadas

pelos “ungidos” para nos controlar, nós que somos os bárbaros. Na

Inglaterra, Os Intelectuais, de Paul Johnson, narra as idéias e a vida de

alguns dos grandes intelectuais desde o Iluminismo, e mostra o quanto a

vida está distante das idéias, o quanto a vida nega os ideais defendidos nos

seus escritos.

Mas a leitura dessas obras modernas, embora aconselhável, não substitui a

leitura de Hereges, pois o ponto de vista do combate é diferente. Hereges é

um combate da Idade Média, a Idade das Trevas como querem seus

detratores modernos, contra a Idade das Luzes. O resultado é que não há luzes na Idade das Luzes. Dito de outra forma, frente às luzes da Idade

Média, a Idade das Luzes mostra toda a sua escuridão.

Hereges é um combate da grande civilização cristã contra seus inimigos

modernos. Estes inimigos não querem apenas defender um lugar ao sol, não

querem apenas formular uma visão de mundo alternativa à visão cristã.

Belloc, n’As Grandes Heresias, profeticamente descreveu estes inimigos

que agora, neste momento em que vivemos, percebemos se movimentar

entre nós:

E o inimigo que agora avança contra nós está cada vez mais consciente do fato de que não pode

haver neutralidade na luta. As forças agora se opõem à fé para destruí-la. A batalha se dá, daqui

em diante, segundo uma linha de clivagem bem definida, envolvendo a sobrevivência ou a

destruição da Igreja Católica. E toda – não apenas uma parte de – sua filosofia.

 

Hereges é o combate de um homem contra esse inimigo. É um documento

de inestimável valor que por isso merece de nós a máxima atenção.

 

Belo Horizonte, abril de 2010

Antônio Emílio Angueth de Araújo