Hereges
4. A atualidade de Hereges
Pode-se perguntar se Hereges é um livro atual, se o leitor moderno ganha
alguma coisa ao lê-lo, depois de mais de um século de sua publicação. A
resposta é que Hereges é mais atual hoje do que quando foi escrito. De lá
para cá os hereges só cresceram em número. A intelligentsia hoje comanda
o mundo; não só o mundo das idéias, mas o político, o financeiro, o social,
o intelectual e o religioso. Estamos cercados de hereges por todos os lados,
hereges às vezes muito menos capazes, mas muito mais eficazes do que os
anteriores. Mais eficazes porque hoje estamos mais isolados das raízes da sã
doutrina do que estavam Chesterton e seus contemporâneos. Mais eficazes
porque a mídia se tornou onipresente e onipotente, e os hereges controlam a
mídia mundial. Mais eficazes porque hoje o sistema educacional,
praticamente sem exceção, é controlado por eles. Por isso, em certo sentido,
a leitura de Hereges é hoje obrigatória.
Há obras atuais que se assemelham a Hereges, em sua combatividade e no
alvo do combate, apesar de diferirem no método, no estilo e no ponto de
partida. Cito apenas quatro, dentre muitas. No Brasil dois livros se
destacam. A Invasão Vertical dos Bárbaros, de Mário Ferreira dos Santos,
descreve o ataque da intelligentsia de que fala Chesterton – que o autor
chama de bárbaros – ao núcleo central da doutrina cristã que fundamentou a
Civilização Ocidental. O Imbecil Coletivo, de Olavo de Carvalho, é um
clamor de sanidade em meio à loucura ambiente. Nos EUA, The Vision of the
Anointed [A Visão dos Ungidos], de Thomas Sowell, é uma descrição
objetiva da casta da intelligentsia que controla a política, a justiça e a
economia americanas. A obra explica as estratégias de controle usadas
pelos “ungidos” para nos controlar, nós que somos os bárbaros. Na
Inglaterra, Os Intelectuais, de Paul Johnson, narra as idéias e a vida de
alguns dos grandes intelectuais desde o Iluminismo, e mostra o quanto a
vida está distante das idéias, o quanto a vida nega os ideais defendidos nos
seus escritos.
Mas a leitura dessas obras modernas, embora aconselhável, não substitui a
leitura de Hereges, pois o ponto de vista do combate é diferente. Hereges é
um combate da Idade Média, a Idade das Trevas como querem seus
detratores modernos, contra a Idade das Luzes. O resultado é que não há luzes na Idade das Luzes. Dito de outra forma, frente às luzes da Idade
Média, a Idade das Luzes mostra toda a sua escuridão.
Hereges é um combate da grande civilização cristã contra seus inimigos
modernos. Estes inimigos não querem apenas defender um lugar ao sol, não
querem apenas formular uma visão de mundo alternativa à visão cristã.
Belloc, n’As Grandes Heresias, profeticamente descreveu estes inimigos
que agora, neste momento em que vivemos, percebemos se movimentar
entre nós:
E o inimigo que agora avança contra nós está cada vez mais consciente do fato de que não pode
haver neutralidade na luta. As forças agora se opõem à fé para destruí-la. A batalha se dá, daqui
em diante, segundo uma linha de clivagem bem definida, envolvendo a sobrevivência ou a
destruição da Igreja Católica. E toda – não apenas uma parte de – sua filosofia.
Hereges é o combate de um homem contra esse inimigo. É um documento
de inestimável valor que por isso merece de nós a máxima atenção.
Belo Horizonte, abril de 2010
Antônio Emílio Angueth de Araújo