Hereges
IV. O Sr Bernard Shaw
CAPÍTULO IV
O Sr Bernard Shaw
N OS BONS E VELHOS TEMPOS, antes do aparecimento da moderna morbidez, quando o velho e genial Ibsen enchia o mundo com saudável alegria, e as delicadas lendas do esquecido Émile Zola nos
mantinham felizes e puros ao pé da lareira, ser mal-entendido era
considerado uma desvantagem. Podemos pôr em dúvida se é sempre, ou
mesmo, em regra, uma desvantagem. O homem que é mal-entendido tem
sempre esta vantagem sobre os inimigos: não conhecem seu ponto fraco ou
seu plano estratégico. Saem para caçar pássaros com redes e para pescar
com arco e flecha. Há diversos exemplos modernos dessa situação. O Sr
Chamberlain,74 neste caso, é um exemplo muito bom. Constantemente
ilude ou derrota os oponentes porque seus verdadeiros poderes e
deficiências são muito diferentes daqueles que, amigos e inimigos, lhe
creditam. Os amigos o descrevem como um tenaz homem de ação; os
oponentes o descrevem como um rude homem de negócios; quando, de
fato, não é nem uma coisa nem outra, mas um orador e um ator romântico
admirável. Tem um poder que é a alma do melodrama – o poder de fingir
estar, mesmo quando apoiado por uma enorme maioria, contra a parede.
Visto que toda multidão é demasiado nobre, seus heróis devem carregar
algum tipo de infortúnio – aquela espécie de hipocrisia que é a deferência
que a força presta à fraqueza. Fala insensatamente, todavia, de forma muito
elegante sobre a cidade natal que nunca o desamparou. Usa uma flor
fantástica e flamejante, como um decadente poeta menor. Quanto à
excessiva franqueza, tenacidade e as súplicas ao senso comum, tudo isso é,
simplesmente, o primeiro truque da retórica. Encara a audiência com a
venerável afetação de Marco Antônio:75
Não sou orador, como Brutus;
mas, como todos sabeis, sou um homem franco e simples.76
Os objetivos de um orador são completamente diferentes dos de qualquer
outro artista, como o poeta ou o escultor. O objetivo do escultor é convencer-nos de que é um escultor; o objetivo de um orador é convencer-
nos de que não é um orador. Uma vez que o Sr Chamberlain seja
erroneamente tomado como um homem prático, seu jogo está ganho. Basta
que faça um discurso sobre o Império e o povo dirá que esses homens
simples dizem coisas eminentes em ocasiões eminentes. Basta que se deixe
levar por grandes idéias indefinidas, comuns a todos os artistas de segunda
categoria, e o povo dirá que homens de negócio têm, afinal, os maiores
ideais. Todos os seus planos acabaram em fumaça; tudo o que toca acaba
em confusão. Sobre esse tipo há um pathos77 celta; como os poemas
gaélicos escoceses na citação de Matthew Arnold,78 “partia para a batalha,
mas sempre era derrotado”.79 É uma montanha de propostas, uma
montanha de fracassos; mas, ainda assim, uma montanha. E uma montanha
é sempre romântica.
Há outro homem no mundo moderno que pode ser considerado como a
antítese do Sr Chamberlain em todos os aspectos, e que é também um
monumento permanente à vantagem de ser mal-entendido. O Sr Bernard
Shaw é sempre representado por aqueles que dele discordam e, temo
também, (se é que existem) por aqueles que com ele concordam, como um
humorista travesso, um acrobata brilhante, um artista de múltiplas
personagens. É dito que não se deve levá-lo a sério, que defenderá qualquer
coisa e atacará qualquer coisa, que fará qualquer coisa para surpreender e
divertir. Tudo isso não apenas é falso, mas, evidentemente, é o oposto da
verdade. É tão insano quanto dizer que Dickens80 não tinha a impetuosa
masculinidade de Jane Austen.81 Toda a força e triunfo do Sr Bernard
Shaw repousa no fato de ele ser um homem inteiramente consistente.
Assim, longe de seu poder consistir em saltar por argolas ou ficar de ponta-
cabeça, seu poder consiste em defender sua própria fortaleza dia e noite.
Aplica, rápida e rigorosamente, o “teste Shaw” em tudo que acontece na
Terra ou no Céu. Seu padrão nunca varia. O que revolucionários e
conservadores fracos de espírito realmente odeiam (e temem) nele é
exatamente isso: os pratos de sua balança são mantidos em equilíbrio e sua
lei é aplicada com justiça. Podemos atacar seus princípios, como faço; mas
não conheço nenhuma situação em que possamos atacar seu uso. Caso
odeie ilegalidades, odeia tanto a ilegalidade dos socialistas quanto a dos
individualistas. Caso seja antipático à febre de patriotismo, antipatiza-a
tanto no caso dos bôeres e irlandeses quanto no caso dos ingleses. Caso lhe desagrade as promessas e laços do casamento, desagrada-lhe ainda mais os
ferozes laços e as loucas promessas do amor desregrado. Caso escarneça da
autoridade dos padres, escarnece ainda mais da pompa dos homens de
ciência. Caso desaprove a irresponsabilidade da fé, desaprova com sã
coerência a idêntica irresponsabilidade da arte. Agradou a todos os levianos
dizendo que as mulheres são iguais aos homens; mas os enfureceu ao
sugerir que os homens são iguais às mulheres. É quase automaticamente
justo; tem algo da terrível qualidade da máquina. O homem que realmente é
licencioso e turbulento, o homem que é realmente fantástico e instável, não
é o Sr Shaw, mas o Ministro de Estado medíocre. É o Sr Michael Hicks-
Beach82 quem salta por argolas. É o Sr Henry Fowler83 quem fica de
ponta-cabeça. Homens públicos respeitáveis desse tipo realmente saltam de
uma posição para outra; estão prontos para defender qualquer coisa ou para
não defender nada. Realmente não podem ser levados a sério. Sei
perfeitamente bem o que o Sr Bernard Shaw estará dizendo daqui a trinta
anos; estará dizendo o que sempre disse. Se daqui a trinta anos encontrar o
Sr Shaw, uma respeitável criatura de barba prateada roçando o chão, e lhe
disser: “Nunca podemos, claro, atacar verbalmente a uma senhora”, o
patriarca levantará sua mão envelhecida e me lançará ao chão. Sabemos,
insisto, o que o Sr Shaw estará dizendo daqui a trinta anos. Mas será que há
alguém, misteriosamente versado em estrelas e oráculos, que ousará
predizer o que o Sr Asquith84 estará dizendo daqui a trinta anos?
Na verdade, é um grande erro supor que a ausência de convicções
definidas proporcione agilidade e liberdade mental. Um homem que
acredita que qualquer coisa seja imediata e espirituosa o faz porque traz
consigo todas as defesas. Pode aplicar seu teste num instante. O homem
empenhado num conflito com alguém como o Sr Bernard Shaw pode supor
que ele tenha dez faces; da mesma forma, um homem que inicia um duelo
com um brilhante espadachim pode imaginar que a espada do inimigo tenha
se multiplicado por dez. Mas, realmente, não é porque o homem esteja
lutando com dez espadas; é porque aponta, com uma única, para um
objetivo específico. Ademais, um homem com uma crença definida parece
sempre grotesco, porque não muda com o mundo. Está sobre uma estrela
fixa, e a Terra gira, lá embaixo, como um zootrópio.85 Milhões de homens
de paletós escuros se consideram sãos e razoáveis simplesmente porque sempre aderem à última insanidade, porque correm de loucura em loucura
no redemoinho do mundo.
As pessoas acusam o Sr Shaw, e muitos outros bem mais estúpidos, de
“provar que preto é branco”. Mas nunca perguntam se a atual linguagem
das cores está sempre correta. A sábia fraseologia comum chama, às vezes,
preto de branco, chama certamente amarelo de branco, verde de branco e
marrom avermelhado de branco. Chamamos o vinho, que é tão amarelo
quanto as calças dos meninos de paletó azul,86 de “vinho branco”.
Chamamos uvas, que são manifestamente verdes-pálidas, de “uvas
brancas”. Damos aos europeus, cuja compleição é de um rosa pálido, o
horrível título de “homem branco” – descrição mais horripilante que
qualquer espectro de Poe.
Ora, é verdade, sem dúvida, que se um homem pede a um garçom, num
restaurante, uma garrafa de vinho amarelo e algumas uvas verdes
amarelecidas, o garçom o considerará louco. Não há dúvida de que se uma
autoridade governamental, ao informar sobre a presença de europeus na
Birmânia, disser “Há somente dois mil homens rosáceos aqui”, seria
acusado de ser um piadista e perderia seu cargo. Mas é igualmente óbvio
que ambos seriam prejudicados por estar dizendo a mais rigorosa verdade.
Aquele homem excessivamente verdadeiro do restaurante, este homem
excessivamente verdadeiro na Birmânia, é o Sr Bernard Shaw. Parece
excêntrico e absurdo porque não aceita a crença geral de que branco é
amarelo. Baseia todo o seu brilhantismo e solidez no fato banal, mas ainda
esquecido, de que a verdade é mais estranha que a ficção. A verdade, claro,
deve necessariamente ser mais estranha que a ficção, pois fizemos a ficção
para que ela nos fosse conveniente.
Assim, nessa altura, uma avaliação sensata julgará o Sr Shaw excelente e
estimulante. Alega ver as coisas como são; e algumas coisas, de fato, ele as
vê como são; no entanto, são coisas que toda a nossa civilização
absolutamente não vê. Contudo, o realismo do Sr Shaw carece de alguma
coisa, e aquilo de que necessita é algo grave.
A velha e reconhecida filosofia do Sr Shaw é a apresentada de modo
vigoroso em A quintessência do Ibsenismo. Em suma, diz que os ideais
conservadores são maus, não porque são conservadores, mas porque são
ideais. Todo ideal impede que os homens julguem de forma justa um caso
particular; toda generalização moral oprime o indivíduo; a regra de ouro é que não há regra de ouro. A objeção é simplesmente que isso finge libertar
os homens, mas na verdade impede os homens de fazer a única coisa que
desejam. Qual a vantagem de dizer a uma comunidade que ela tem todas as
liberdades, exceto a liberdade de fazer leis? A liberdade de fazer leis é o
que faz um povo livre. E qual a vantagem de dizer a um homem (ou a um
filósofo) que ele tem toda a liberdade, exceto a liberdade de fazer
generalizações? Fazer generalizações é o que o faz um homem. Em suma,
quando o Sr Shaw proíbe os homens de ter ideais morais rígidos, age como
quem os proíbe de ter filhos. O ditado “a regra de ouro é que não há regra
de ouro” pode, de fato, ser respondido pela mera inversão. Não haver regra
de ouro é, em si, uma regra de ouro, quiçá muito pior do que uma regra de
ouro. É uma regra de ferro; um entrave no primeiro movimento do homem.
Mas a sensação associada ao Sr Shaw nos últimos anos é a criação
repentina da religião do super-homem. Ele, que ao que tudo indica zombava
das religiões do passado remoto, descobriu um novo deus num futuro
inimaginável. Ele, que punha todas as culpas nos ideais, instituiu o mais
impossível de todos os ideais, o ideal de uma nova criatura. Mas a verdade,
contudo, é que qualquer um que conheça bastante a mente do Sr Shaw, e
devidamente a admire, há tempos já deveria ter imaginado tudo isso.
Pois a verdade é que o Sr Shaw nunca viu as coisas como realmente são.
Caso tivesse visto, teria caído de joelhos diante delas. Sempre teve um ideal
secreto que envergonha todas as coisas deste mundo. A todo instante,
compara silenciosamente a humanidade com algo não humano, com um
monstro de Marte, com o homem sábio dos estóicos, com o homem
econômico dos Fabianos,87 com Julio César, com Seigfried,88 com o
super-homem. Ora, ter esse impiedoso padrão interior pode ser uma coisa
muito boa, ou muito má, pode ser excelente, ou desastroso, mas isso não é
ver as coisas como são. Ver as coisas como são não é pensar primeiro no
Briareu89 com cem mãos e, então, considerar todo homem um deficiente
por ter apenas duas. Ver as coisas como são não é partir da visão de
Argos,90 com cem olhos e, então, zombar de todo homem com dois olhos,
como se tivesse apenas um. Ver as coisas como são não é imaginar um
semideus com infinita clareza mental, que pode ou não aparecer nos últimos
dias da Terra e, então, considerar idiotas a todos os homens. E isso é o que
sempre o Sr Shaw, em certa medida, tem feito. Quando vemos os homens
como realmente são, não os criticamos, mas os adoramos; e muito acertadamente. Pois um monstro com olhos misteriosos e polegares
milagrosos, com estranhos sonhos na cabeça, com uma estranha ternura por
este lugar ou aquela criança, é verdadeiramente uma maravilha e uma coisa
enervante. É somente o hábito arbitrário e esnobe da comparação com outra
coisa que torna possível estarmos em paz diante dele. Um sentimento de
superioridade nos mantém calmos e práticos; os meros fatos fariam os
joelhos tremerem com temor religioso. É o fato de cada instante de vida
consciente ser um prodígio inimaginável. É o fato de cada rosto nas ruas ter
a incrível imprevisibilidade de um conto de fadas. A coisa que impede um
homem de perceber isso não é qualquer clareza mental ou experiência, mas
simplesmente o hábito das comparações pedantes e fastidiosas entre uma
coisa e outra. O Sr Shaw, do lado prático talvez o mais humano dos homens
vivos, é, nesse sentido, desumano. Foi ainda infectado, em certa medida,
pela fraqueza intelectual primária de seu novo mestre, Nietzsche: a estranha
noção de que quanto maior e mais forte for um homem, mais desprezará as
outras coisas. Quanto maior e mais forte for o homem, mais se prostrará
diante de um caramujo. Que o Sr Shaw mantenha a cabeça altiva e uma
expressão desdenhosa ante o panorama colossal de impérios e civilizações,
isto por si só não convence ninguém de que ele vê as coisas como são.
Qualquer um seria mais plenamente convencido se o visse cravando os
olhos, com estupor religioso, no próprio pé. “O que são estes dois belos e
diligentes seres”, posso imaginá-lo murmurando consigo mesmo, “que vejo
em todos os lugares, me servindo sem saber por quê? Que fada-madrinha os
mandou vir da terra das fadas quando nasci? Que deus dos confins, qual
bárbaro deus das pernas devo aplacar com fogo e vinho a fim de que não
me abandonem?”
A verdade é que toda a estima genuína repousa num certo mistério de
humildade e de quase trevas. O homem que disse “Bem-aventurados os que
nada esperam, pois não serão desapontados” propôs o panegírico de forma
demasiado inadequada e até mesmo falsa. A verdade é: “Bem-aventurados
os que nada esperam, pois serão gloriosamente surpreendidos”. Quem nada
espera vê as rosas mais vermelhas do que os homens comuns, vê a grama
mais verde e o sol mais brilhante. Bem-aventurados os que nada esperam,
pois possuirão as cidades e as montanhas; bem-aventurados os mansos, pois
possuirão a Terra. Até que percebamos que as coisas podem não ser, não
podemos perceber que as coisas são. Até que vejamos o fundo negro, não podemos admirar a luz como uma coisa criada e única. Tão logo tenhamos
visto a escuridão, toda luz será iluminadora, brilhante, ofuscante e divina.
Até que concebamos o não ser, subestimamos a vitória de Deus, e não
poderemos perceber nenhum dos troféus de sua antiga guerra. Um dos
milhões de extraordinários gracejos da verdade é não sabermos nada até que
nada saibamos.
Este é, digo deliberadamente, o único defeito na grandeza do Sr Shaw, a
única resposta a sua aspiração a ser um grande homem: não se satisfazer
facilmente. É uma quase solitária exceção à máxima geral e básica de que
pequenas coisas satisfazem grandes homens. E é da ausência da mais
estrondosa de todas as coisas, a humildade, que vem incidentalmente a
particular insistência em relação ao super-homem. Depois de ridicularizar
tantas pessoas, durante tantos anos, por não serem progressistas, o Sr Shaw,
com um senso que lhe é peculiar, descobriu ser bastante duvidoso que
qualquer um dos seres humanos bípedes existentes consiga ser progressista.
Chegou a duvidar se a humanidade poderia ser combinada com o progresso,
pois muitas pessoas que se satisfazem facilmente teriam escolhido
abandonar o progresso e permanecer com a humanidade. O Sr Shaw, não se
satisfazendo facilmente, decide jogar fora a humanidade com todas as
limitações e, buscando o próprio interesse, aposta no progresso. Se o
homem, como o conhecemos, é incapaz de uma filosofia do progresso, o Sr
Shaw pede não por um novo tipo de filosofia, mas por uma nova espécie de
homem. É como se a babá tivesse tentado alimentar, durante alguns anos, o
bebê com uma comida amarga e, ao descobrir que tal comida não era
adequada, não a jogasse fora e pedisse algo novo, mas jogasse o bebê pela
janela e pedisse um novo bebê. O Sr Shaw não pode entender que a coisa
mais valiosa e adorável aos nossos olhos é o homem – o velho bebedor de
cerveja, criador de credos, batalhador, falível, sensual e respeitável. E as
coisas encontradas nessa criatura permanecem imortais; as coisas
encontradas na fantasia desse super-homem morreram com as civilizações
agonizantes que o criaram. Quando Cristo, num momento simbólico,
estabeleceu sua grande sociedade, não escolheu para pedra fundamental
nem o brilhante Paulo nem o místico João, mas um embusteiro, arrogante e
covarde – numa palavra, um homem. E sobre esta pedra construiu sua
Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão. Todos os impérios e reinos
se desvanecerão, pela fraqueza inerente e contínua de terem sido erigidos sobre homens fortes. Mas aquilo que é único, a Igreja cristã histórica, foi
edificada sobre um homem fraco, e por essa razão é indestrutível. Pois
nenhuma corrente é mais forte que o mais fraco dos elos.
74 Joseph Chamberlain (1836–1914) foi um dos políticos mais influentes da Inglaterra no final do século XIX e início do século XX. Conhecido pelo talento da oratória, era tido como radical, nos assuntos internos, e imperialista, em questões internacionais. Foi Secretário de Estado para as colônias inglesas nos anos de 1895 a 1903 e ardente defensor do Império. Erroneamente, foi acusado de precipitar a Guerra dos Bôeres, quando, na verdade, era apenas um dos grandes partidários. Seus filhos, Sir Austen Chamberlain (1863–1937) e o primeiro- ministro Neville Chamberlain (1869–1940), também foram influentes políticos ingleses.
75 Marco Antônio (83 a.C.–30 a.C.) foi um dos mais famosos políticos e militares romanos. Participou das campanhas da Judéia e do Egito e da guerra contra os gauleses. Com o fim da guerra civil foi feito cônsul, cargo que assumiu até a morte de Julio César (100 a.C.–44 a.C.). Imortalizou-se também pelo discurso contra os assassinos no funeral de César. Casou-se com Otávia, irmã de Otávio Augusto (43 a.C.–14 d.C.) e, como administrador das províncias orientais, se tornou amante de Cleópatra (70 a.C.–30 a.C.). Derrotado na Batalha do Áccio, assim como a rainha egípcia, se suicidou.
76 Versos da tragédia Julius Caesar (1599) de William Shakespeare (1564–1616). Os versos citados por Chesterton encontram-se no ato III, cena II. Em inglês: “I am no orator, as Brutus is; But as you know me all, a plain blunt man”. Interessante notar que Chesterton não cita a peça César e Cleópatra (1898) de Shaw, mas prefere citar Shakespeare, autor que Shaw não admirava muito, como deixa antever no livro A quintessência do ibsenismo (1891).
77 Palavra grega que designa, na referida acepção, tudo o que afeta os sentidos da audiência. É um dos modos de persuasão usados em Retórica. Na literatura e na arte narrativa é o apelo emocional que faz a audiência se identificar com o ponto de vista do autor. Conceito muito utilizado, por exemplo, por Nietzsche.
78 Matthew Arnold (1822–1888) foi um poeta e crítico cultural inglês que, a despeito de seus talentos literários, trabalhou como inspetor de escola. Considerado como um dos grandes poetas vitorianos, ficou conhecido como um escritor que instruía os leitores a respeito de temas sociais de seu tempo.
79 Referência à citação de Arnold de um suposto texto gaélico escocês antigo narrado por Ossian, personagem fictícia baseada na mitologia irlandesa. O trecho aparece na parte IV, página 74 da obra On the Study of Celtic Literature, de 1867. No original: “‘they went forth to the war’, Ossian says most truly, ‘but they alway fell’” (grifos de Arnold).
80 Charles Dickens (1812–1870) foi um dos romancistas mais populares da era vitoriana. Embora seus romances não sejam considerados, pelos parâmetros atuais, muito realistas, Dickens contribuiu muito para a introdução da crítica social na literatura de ficção inglesa. Chesterton era um grande admirador de sua literatura, e escreveu uma biografia deste autor em 1906, chamada Charles Dickens: A Critical Study.
81 Jane Austen (1775–1817) foi uma eminente escritora inglesa, que retratava um cotidiano inglês sem grandes sobressaltos, com heroínas jovens que terminavam por encontrar o homem dos sonhos e casar. Embora a temática pareça banal, isso não reduz em nada a estatura de sua ficção. Dentre seus livros mais conhecidos estão os romances Orgulho e preconceito (1813) e Emma (1816).
82 Chesterton se refere ao Primeiro Conde de St Aldwyn (1837–1916). Líder político conservador, exerceu os cargos de Secretário das Colônias de 1878–1880 e Ministro das Finanças (Chancellor of the Exchequer) por dois períodos, de 1885–1886 e de 1895–1902, durante a guerra sul-africana.
83 Henry Hartley Fowler, Visconde de Wolverhampton (1830–1911). Líder do Partido Liberal e severo crítico da política britânica no sul da África. Entretanto, chamou a Guerra dos Bôeres de “justa e inevitável”.
84 Herbert Henry Asquith, Primeiro Conde de Oxford e Asquith (1852–1928), foi Ministro do Interior (Home Secretary) em duas administrações liberais na década de 1890. Aprovava a Guerra dos Bôeres, mas não a forma como estava sendo conduzida; daí talvez o comentário de Chesterton. Posteriormente, assumiu os cargos de Chancellor of the Exchequer de 1905 a 1908 e de primeiro-ministro de 1908 a 1916.
85 Inventado em 1834, este brinquedo óptico era muito popular antes do aparecimento do cinema. Consistia num cilindro sobre um eixo fixo em que as figuras dispostas na parede interior do cilindro, se olhadas pelas fendas laterais, em movimento giratório, pareciam animadas.
86 Chesterton alude ao uniforme dos alunos da famosa escola beneficente londrina do Christ’s Hospital onde estudaram figuras como Coleridge (1772–1834) e Charles Lamb (1775–1834). A escola foi transferida para Sussex em 1902.
87 Referência à Sociedade Fabiana, cujo nome é uma homenagem ao general romano Quintus Fabius Maximus (280 a.C.–203 a.C.), comandante das legiões romanas, durante a Segunda Guerra Púnica, que barrou o avanço do exército cartaginês liderado por Aníbal Barca (247 a.C.–183 a.C.) ao se recusar a travar uma batalha campal direta, preferindo a tática de guerra de desgaste. A Sociedade Fabiana foi fundada em Londres no início de 1884, por um grupo de jovens intelectuais de diferentes linhas socialistas e tinha o propósito de reconstruir a sociedade pelos mais altos ideais morais. Tinha por finalidade promover a gradual difusão do socialismo e rejeitava a transformação pela revolução violenta. Para eles, as reformas deveriam ser pequenas e progressivas. Bernard Shaw foi um de seus inúmeros membros ilustres.
88 Herói lendário da mitologia nórdica e personagem central da Saga dos Volsungos. A adaptação mais conhecida da história de Siegfried é a adaptação de Richard Wagner (1813–1883) para a ópera em quatro partes Der Ring des Nibelungen (O anel do Nibelungo), escrita entre 1848 e 1874. A lenda do herói é a base de Siegfried (terceira parte) e contribui nas histórias de Die Walküre (segunda parte) e Götterdämmerung (quarta parte).
89 Figura mitológica. Um dos três hecatônquiros, gigantes com cem braços e cinqüenta cabeças, filhos de Gaia e Urano, aprisionados por este no Tártaro junto com os ciclopes.
90 Referência a Argos Panoptes. Gigante da mitologia grega com cem olhos que servia fielmente a Hera e foi incumbido pela deusa de tomar conta de Io, princesa e amante de Zeus transformada em novilha.