Hereges
2. Os hereges acusados por Chesterton
Hereges é um dos principais livros escritos por Chesterton. Na introdução
de Ortodoxia, sua obra-prima, o autor afirma que aquele livro “é um
complemento” de Hereges. Assim, a precedência de Hereges estava clara
para Chesterton.
Hereges teve um destino muito diferente do de Ortodoxia e isso talvez
possa ser explicado pelo título. Há que se admitir que nenhum dos dois
títulos soa bem aos ouvidos do homem moderno, filho do Iluminismo, da
Revolução Francesa, do ceticismo e cientificismo dos séculos XIX e XX.
Contudo, a palavra “herege” traz à mente dos modernos as imagens de uma
das mentiras mais bem-sucedidas da história da humanidade: aquela que
pinta a Idade Média como Idade das Trevas, em que se iluminavam apenas
com a luz das fogueiras onde a Igreja assava os hereges. Assim, o título
escolhido por Chesterton pode ter afastado leitores de tão importante obra.
Tivesse Chesterton escolhido outro título, este livro teria sido tão aclamado
e lido quanto Ortodoxia. Para o gosto moderno o título ideal seria algo
como “Diálogo com meus contemporâneos”. Este seria um título palatável
para o gosto politicamente correto atual.
De qualquer forma, hereges são todos os ditos intelectuais analisados por
Chesterton. São eles hereges no sentido católico do termo, sentido do qual
me ocuparei mais abaixo. Antes, todavia, deve ser observado que
Chesterton escreve o livro anos antes de se converter ao catolicismo, o que
é surpreendente, e transforma o livro num testemunho do caminho trilhado
pelo autor até que Padre O’Connor o batize e lhe ministre a Primeira
Comunhão. A fogueira que o pré-católico Chesterton prepara para seus
contemporâneos é monumental. É inegável que ela seja uma fogueira
medieval, pois o próprio autor admite que é da Idade Média, diria eu, da
Alta Idade Média, que ele se dirige aos hereges de seu tempo. É inegável
também que ela envolva e queime os que nela são colocados, pois ninguém
sai dela com a aparente vivacidade com que entrou. E, finalmente, é
inegável que ela purifique. Ela purifica sobretudo quem assiste aos hereges
crepitando no genial caldeirão chestertoniano.
O grande escritor Hilaire Belloc, contemporâneo e amigo de Chesterton,
escreve em As Grandes Heresias:
Heresia significa, então, distorcer um sistema por meio de uma “omissão”: “escolhendo-se” uma
parte da estrutura, o que implica que o esquema é desfigurado pela retirada de uma de suas
partes, negando-se uma parte dele, quer deixando o vazio sem preenchimento, quer preenchendo-
o com alguma outra afirmação.
Esta definição geral pode ser aplicada à doutrina católica e segue que,
como diz Belloc:
Seu significado particular é o de desfigurar por exclusão algo daquele sistema completo, a
religião cristã.
Desta forma, os hereges que são combatidos por Chesterton subscrevem
um corpo doutrinal que é uma distorção ou uma omissão de um ou mais
aspectos da doutrina multimilenar católica. O espírito que move Chesterton
é magnificamente resumido na seguinte frase:
Não estou preocupado com o Sr Bernard Shaw como o homem vivo mais brilhante e um dos
mais honestos; estou preocupado com ele como um herege – isto é, um homem cuja filosofia é
muito sólida, muito coerente, e muito errada.
Este é sempre o estilo chestertoniano: elogiar o adversário no que ele tem
de elogiável e combater sua doutrina filosófica no que ela tem de herética.
Entendamos a ousadia do jovem Chesterton, com apenas 31 anos de idade,
lançando-se num combate intelectual e doutrinário com seus
contemporâneos mais ilustres, entre os quais Bernard Shaw – 20 anos mais
velho –, H.G. Wells – 10 anos mais velho –, Rudyard Kipling – 10 anos
mais velho –, James Whistler – 40 anos mais velho e morto dois anos antes
do lançamento do livro. Há muitos outros hereges de menor expressão que
são devidamente analisados no livro.