Hereges

G. K. Chesterton · Capítulo 5 de 37

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Hereges

2. Os hereges acusados por Chesterton

 

 

Hereges é um dos principais livros escritos por Chesterton. Na introdução

de Ortodoxia, sua obra-prima, o autor afirma que aquele livro “é um

complemento” de Hereges. Assim, a precedência de Hereges estava clara

para Chesterton.

Hereges teve um destino muito diferente do de Ortodoxia e isso talvez

possa ser explicado pelo título. Há que se admitir que nenhum dos dois

títulos soa bem aos ouvidos do homem moderno, filho do Iluminismo, da

Revolução Francesa, do ceticismo e cientificismo dos séculos XIX e XX.

Contudo, a palavra “herege” traz à mente dos modernos as imagens de uma

das mentiras mais bem-sucedidas da história da humanidade: aquela que

pinta a Idade Média como Idade das Trevas, em que se iluminavam apenas

com a luz das fogueiras onde a Igreja assava os hereges. Assim, o título

escolhido por Chesterton pode ter afastado leitores de tão importante obra.

Tivesse Chesterton escolhido outro título, este livro teria sido tão aclamado

e lido quanto Ortodoxia. Para o gosto moderno o título ideal seria algo

como “Diálogo com meus contemporâneos”. Este seria um título palatável

para o gosto politicamente correto atual.

De qualquer forma, hereges são todos os ditos intelectuais analisados por

Chesterton. São eles hereges no sentido católico do termo, sentido do qual

me ocuparei mais abaixo. Antes, todavia, deve ser observado que

Chesterton escreve o livro anos antes de se converter ao catolicismo, o que

é surpreendente, e transforma o livro num testemunho do caminho trilhado

pelo autor até que Padre O’Connor o batize e lhe ministre a Primeira

Comunhão. A fogueira que o pré-católico Chesterton prepara para seus

contemporâneos é monumental. É inegável que ela seja uma fogueira

medieval, pois o próprio autor admite que é da Idade Média, diria eu, da

Alta Idade Média, que ele se dirige aos hereges de seu tempo. É inegável

também que ela envolva e queime os que nela são colocados, pois ninguém

sai dela com a aparente vivacidade com que entrou. E, finalmente, é

inegável que ela purifique. Ela purifica sobretudo quem assiste aos hereges

crepitando no genial caldeirão chestertoniano.

O grande escritor Hilaire Belloc, contemporâneo e amigo de Chesterton,

escreve em As Grandes Heresias:

Heresia significa, então, distorcer um sistema por meio de uma “omissão”: “escolhendo-se” uma

parte da estrutura, o que implica que o esquema é desfigurado pela retirada de uma de suas

partes, negando-se uma parte dele, quer deixando o vazio sem preenchimento, quer preenchendo-

o com alguma outra afirmação.

 

Esta definição geral pode ser aplicada à doutrina católica e segue que,

como diz Belloc:

Seu significado particular é o de desfigurar por exclusão algo daquele sistema completo, a

religião cristã.

 

Desta forma, os hereges que são combatidos por Chesterton subscrevem

um corpo doutrinal que é uma distorção ou uma omissão de um ou mais

aspectos da doutrina multimilenar católica. O espírito que move Chesterton

é magnificamente resumido na seguinte frase:

Não estou preocupado com o Sr Bernard Shaw como o homem vivo mais brilhante e um dos

mais honestos; estou preocupado com ele como um herege – isto é, um homem cuja filosofia é

muito sólida, muito coerente, e muito errada.

 

Este é sempre o estilo chestertoniano: elogiar o adversário no que ele tem

de elogiável e combater sua doutrina filosófica no que ela tem de herética.

Entendamos a ousadia do jovem Chesterton, com apenas 31 anos de idade,

lançando-se num combate intelectual e doutrinário com seus

contemporâneos mais ilustres, entre os quais Bernard Shaw – 20 anos mais

velho –, H.G. Wells – 10 anos mais velho –, Rudyard Kipling – 10 anos

mais velho –, James Whistler – 40 anos mais velho e morto dois anos antes

do lançamento do livro. Há muitos outros hereges de menor expressão que

são devidamente analisados no livro.