Hereges
XV. Os escritores espirituosos e a alta sociedade
CAPÍTULO XV
Os escritores espirituosos
e a alta sociedade
D E CERTO MODO, ao menos é melhor ler a má que a boa literatura. A boa literatura pode nos revelar a inteligência de um homem; mas a má literatura nos mostra a inteligência de muitos homens. Um bom romance
nos diz a verdade sobre o herói; mas um romance ruim nos diz a verdade
sobre o autor. Faz mais que isso, nos diz a verdade sobre os leitores e, por
estranho que pareça, tanto mais nos diz quanto mais cínico e imoral for o
motivo de sua elaboração. Quanto mais desonesto for um livro, mais
honesto o é como documento público. O romance sincero apresenta a
simplicidade de um determinado homem; o romance insincero mostra a
simplicidade da humanidade. As decisões pedantes e os justificáveis
reajustamentos do homem podem ser encontrados em pergaminhos, em
diplomas legais e nas Escrituras; mas as pretensões básicas e as eternas
atividades dos homens devem ser encontradas nas formidáveis novelas
populares. Assim, o que um homem, como muitos homens realmente cultos
de nossos dias, pode aprender com a boa literatura não é nada além da
capacidade de apreciar a boa literatura. No entanto, com a má literatura
pode aprender a governar impérios e a folhear o mapa da humanidade.
Há um exemplo assaz interessante deste estado de coisas em que a
literatura mais fraca é realmente a mais forte e a mais forte, a mais fraca. É
o que podemos chamar, numa descrição aproximada, de literatura da
aristocracia; ou, se preferirmos, de literatura do esnobismo. Ora, se alguém
quiser encontrar um argumento realmente eficaz, abrangente e eterno em
prol da aristocracia, apresentado de maneira correta e sincera, leia não os
modernos filósofos conservadores, nem mesmo Nietzsche; leia as Bow
Bells Novelettes.266 No caso de Nietzsche, tenho de confessar minhas
dúvidas. Nietzsche e as Bow Bells Novelettes têm obviamente as mesmas
características. Ambos adoram homens altos, de bigodes retorcidos e corpos
hercúleos, e ambos os adoram de uma maneira um tanto feminina e histérica. Mesmo aqui, contudo, a novela facilmente mantém a
superioridade filosófica, porque atribui ao homem forte virtudes que
comumente lhe pertencem, tais como indolência, brandura, uma
benevolência um tanto imprudente e uma grande aversão em ferir o mais
fraco. Nietzsche, ao contrário, atribui ao homem forte aquele desprezo à
fraqueza que existe somente entre inválidos. Todavia, não são os méritos
secundários do grande filósofo alemão, mas sim os méritos primários das
Bow Bells Novelletes o presente objeto de análise. O quadro da aristocracia
pintado pela historieta sentimental me parece muito satisfatório como um
guia político-filosófico estável. Pode ser impreciso em detalhes com relação
ao modo como devemos nos dirigir ao baronete, ou a respeito de qual é a
largura que o baronete pode, com facilidade, saltar por sobre um abismo.
No entanto, não é uma descrição ruim das idéias e das intenções gerais da
aristocracia, de como ela realmente é nos costumes dos homens. O principal
sonho da aristocracia é ter pompa e bravura; e se o Family Herald
Supplement267 por vezes distorce ou exagera tais coisas, ao menos não fica
aquém. Nunca se engana ao criar um abismo por demais estreito ou um
título nobiliárquico pouco impressionante. Mas, além dessa saudável e
antiga literatura do esnobismo, surgiu em nossa época outro tipo de
literatura afetada que, com pretensões muito mais elevadas, me parece
merecer muito menos respeito. Acidentalmente (se é que isso importa), é
uma literatura muito melhor; porém, possui uma filosofia infinitamente
pior, uma ética e uma política imensamente piores, uma versão danosa,
imensuravelmente pior, do que realmente são a aristocracia e a humanidade.
Nos livros aos quais agora desejo me referir, podemos descobrir o que um
homem inteligente é capaz de fazer com a idéia de aristocracia. Contudo, da
literatura do Family Herald Supplement podemos aprender o que a idéia de
aristocracia é capaz de fazer com um homem não muito inteligente. E
quando compreendemos isso, passamos a entender a história da Inglaterra.
Essa nova ficção aristocrática deve ter chamado atenção de todos que
leram o melhor da ficção nos últimos quinze anos. É essa, genuína ou
suposta, literatura da alta roda que representa o referido grupo como ilustre,
não só pelos trajes elegantes, mas por ditos espirituosos. Ao baronete mau,
ao baronete bom, ao nobre romântico e incompreendido – que é
supostamente um baronete mau, mas que na verdade é um baronete bom –
tal escola acrescentou um conceito outrora inimaginável: a noção do nobre divertido. O aristocrata não deve ser simplesmente o mais alto, o mais forte
ou o mais bonito dos homens mortais; deve ser o mais espirituoso. É o
homem tardio com a sátira breve. Muitos escritores modernos, notáveis e
merecidamente ilustres devem aceitar certa responsabilidade por ter
apoiado a pior forma de esnobismo – o esnobismo intelectual. O talentoso
autor de Dodo268 é responsável por ter, em certo sentido, inventado o estilo
como modismo. O Sr Hichens, em Green Carnation,269 reafirma a
estranha idéia de que jovens nobres falam bem, embora o caso tenha uma
vaga conexão biográfica e, portanto, encerre uma justificativa. A Sra
Craigie270 tem considerável culpa, apesar de, ou justamente por, ter
combinado a atmosfera aristocrática com notas de sinceridade moral e até
religiosa. Ao salvar a alma de um homem, mesmo num romance, é
indecente mencionar que seja um cavalheiro. Tampouco podemos isentar de
culpa, nesse assunto, um homem de capacidade superior, um homem que já
provou possuir o mais elevado dos instintos humanos – refiro-me ao Sr
Anthony Hope.271 Num galopante e impossível melodrama como O
Prisioneiro de Zenda,272 o sangue dos reis criou uma excelente e fantástica
trama ou temática. Mas o sangue dos reis não é uma coisa que possa ser
levada a sério. E quando, por exemplo, o Sr Hope dedica um estudo
demasiado sério e indulgente ao homem chamado Tristram de Blent,273 um
homem que ao longo de uma infância ansiosa não pensou em nada a não ser
numa tola e antiga propriedade rural, sentimos, mesmo no Sr Hope, um
sinal da excessiva preocupação com a idéia oligárquica. É difícil para
qualquer pessoa comum ficar muito interessada por um jovem cujo único
objetivo é possuir a casa de Blent, num período da vida em que todos os
outros jovens estão tendo nas mãos as estrelas.
O Sr Hope, contudo, é um caso brando, e nele há não só o elemento de
romance; há também um refinado elemento de ironia que alerta para não
tomarmos muito a sério toda essa elegância. Acima de tudo, demonstra
sensatez em não munir de forma inacreditável seu nobre com tiradas de
improviso. O hábito de insistir na presença de espírito, argúcia e humor das
classes abastadas é o derradeiro e mais servil de todos os servilismos. É,
como já disse, infinitamente mais desprezível que o esnobismo da novela
que descreve o sorriso apolíneo de um nobre ou o faz montar num elefante
descontrolado. Podem ser exageros de beleza e coragem, mas beleza e coragem são ideais inconscientes dos aristocratas, mesmo dos aristocratas
estúpidos.
O nobre do folhetim pode não ser caracterizado com grande atenção e
escrúpulos no que concerne aos hábitos diários dos fidalgos. Mas ele é mais
importante que a realidade; é um ideal prático. O gentil-homem da ficção
pode não ser o cavalheiro da vida real; mas o aristocrata da vida real copia o
cavalheiro da ficção. Pode não ser particularmente bonito, mas preferiria sê-
lo, mais que qualquer outra coisa; pode não ter montado num elefante
descontrolado, mas cavalga um pônei, tanto quanto possível, como se
estivesse no elefante. E, tudo por tudo, a classe alta não deseja apenas e
principalmente as qualidades de beleza e coragem; contudo, em certo grau e
de alguma forma especial, as possui. Assim, não há nada de realmente
maldoso ou adulador na literatura popular que imagina todas as marquesas
com uns dois metros de altura. É esnobe, mas não servil. São exageros
baseados numa admiração abundante e honesta; a admiração honesta tem
por base algo que, em certo grau e de alguma forma, realmente existe. Na
Inglaterra, as classes mais humildes não temem nem um pouco as classes
superiores. Elas as adoram simples, livre e sentimentalmente. A força da
aristocracia não está, em absoluto, na aristocracia; está nos bairros pobres.
Não está na Câmara dos Lordes, mas no funcionalismo público; não está
nos gabinetes do governo; não está nem mesmo no enorme e
desproporcional monopólio das terras inglesas. Está no fato de um
trabalhador braçal, ao querer elogiar alguém, ter de pronto a idéia de dizer
que tal pessoa se comportou como um cavalheiro. Do ponto de vista
democrático poderia, igualmente, dizer que se comportou como um
visconde. O cunho oligárquico da moderna comunidade inglesa não
repousa, como em muitas oligarquias, na crueldade do rico para com o
pobre. Nem mesmo tem por base a bondade do rico em relação ao pobre.
Baseia-se na perene e infalível bondade do pobre para com o rico.
O esnobismo da má literatura, nessa altura, não é servil; mas o esnobismo
da boa literatura é servil. O antiquado folhetim barato em que as duquesas
cintilavam com diamantes não é adulador; mas o novo romance em que as
fidalgas cintilam com epigramas é subserviente, pois, ao atribuir às classes
superiores um especial e surpreendente nível intelectual, além de uma
capacidade de conversação e controvérsia, estamos lhes atribuindo algo que
não é nem particularmente uma virtude nem o objetivo delas. Estamos, nas
palavras de Disraeli274 (que, sendo gênio e não cavalheiro, talvez tenha
antes de responder pela introdução desse método de adular a pequena
nobreza), executando a função essencial da lisonja, que consiste em elogiar
as pessoas por qualidades que não possuem. O elogio pode ser colossal e
insano sem ter qualquer qualidade de adulação, desde que seja um elogio a
alguma coisa realmente visível. Um homem pode dizer que a cabeça de
uma girafa toca as estrelas, ou que uma baleia ocupa o Mar da
Alemanha,275 e ainda assim estar somente muito entusiasmado com seu
animal favorito. No entanto, quando o mesmo homem começa a felicitar a
girafa por suas plumas ou a baleia pela elegância das suas pernas,
deparamo-nos com o elemento social a que chamamos lisonja. As classes
médias e baixas de Londres podem sinceramente, embora talvez não sem
perigo, admirar a saúde e a graça da aristocracia inglesa. E isso pela simples
razão de que os aristocratas são, no geral, mais saudáveis e mais bem-
educados que os pobres. Contudo, não podem, honestamente, admirar a
argúcia e o senso de humor dos aristocratas. E isso pelo simples motivo de
que os aristocratas não são mais perspicazes e nem mais bem-humorados
que os pobres, são muitíssimo menos. Uma pessoa não ouve, como nas
novelas modernas, as inspiradas pérolas verbais lançadas por diplomatas
durante o jantar. Onde a pessoa realmente as ouve é na conversa entre dois
motoristas de ônibus num quarteirão de Holborn.276 O lorde espirituoso,
cujos improvisos inteligentes enchem as páginas da Sra Craigie ou da Srta
Fowler,277 na realidade, será feito em pedacinhos na arte da conversação
ao cair vítima do primeiro engraxate. Os pobres são apenas sentimentais, e
de modo muito desculpável, caso elogiem o cavalheiro mão-aberta que está
inclinado a dar o dinheiro que está no bolso. Mas, rigorosamente, são
escravos e bajuladores, caso o elogiem por ter a língua afiada. Pois eles
mesmos a têm muito mais.
No entanto, o elemento de sentimento oligárquico nesses folhetins, creio,
tem outro aspecto mais sutil, um aspecto mais difícil de entender, porém de
mais valiosa compreensão. O cavalheiro moderno, em especial o nobre
inglês moderno, se tornou tão central e importante nesses livros e, por meio
deles, em toda a literatura e no atual modo de pensar, que algumas das
qualidades dos nobres, originais ou recentes, essenciais ou acidentais,
alteraram a qualidade da comédia inglesa. Em particular, aquele ideal
estóico, ridiculamente considerado como o ideal inglês, nos deixou mais formais e frios. Este não é o ideal inglês, mas de certa forma é o ideal
aristocrático; ou pode ser apenas o ideal da aristocracia em declínio ou
decadência. O cavalheiro é estóico porque é uma espécie de selvagem,
porque está apoderado de um grande medo natural de que um estranho fale
com ele. Por isso um vagão de terceira classe é uma comunidade e o de
primeira classe é um lugar de eremitas selvagens. Mas, a respeito deste
ponto, que é algo difícil, devo tratar, caso seja permitido, de uma forma
mais indireta.
O elemento recorrente de ineficácia que permeia a maior parte da ficção
espirituosa e epigramática em moda durante os últimos oito ou dez anos, e
que perpassa os trabalhos de verdadeiro mas diverso talento como Dodo ou
Concerning Isabel Carnaby,278 ou mesmo Some Emotions and a
Moral,279 pode ser expresso de várias formas; contudo, para a maioria,
acredito que acabará por atingir o mesmo fim. A nova frivolidade é
inadequada porque não há nela nenhuma percepção consistente de um
contentamento implícito. Os homens e as mulheres que trocam respostas
prontas podem não estar somente odiando um ao outro, mas odiando a si
mesmos. Qualquer um deles pode falir no mesmo dia, ou ser condenado ao
pelotão de fuzilamento no dia seguinte. Estão gracejando, não porque
estejam alegres, mas porque não estão; a boca fala daquilo de que está cheio
o coração.280 Mesmo quando expressam uma pura tolice, é uma cuidadosa
tolice – um absurdo que ocultam deliberadamente do conhecimento
público, ou, para usar a perfeita expressão do Sr W.S. Gilbert281 em
Patience,282 é um “precioso contra-senso”. Mesmo quando se tornam
cabeças-leves, não têm leveza no coração. Todos aqueles que leram algo do
racionalismo dos modernos sabem que a razão deles é uma coisa triste. Mas
até a irracionalidade deles é triste.
As causas de tal incapacidade também não são muito difíceis de indicar. A
primeira delas é, evidentemente, o infeliz medo de ser sentimental, que é o
mais desprezível dos modernos terrores – ainda mais vil que o terror que
gera a ciência sanitária. Em toda parte, o humor sadio e estrondoso surgiu
de homens que foram capazes não só de ter sensibilidade, mas de ter uma
sensibilidade muito tola. Não há humor mais sadio e barulhento que o do
sensível Steele,283 ou o do sentimental Sterne, ou o do sensível Dickens. É
verdade que o humor de Micawber é boa literatura e o pathos da pequena
Nell284 é má literatura. Mas o tipo de homem que teve coragem de escrever tão mal neste caso é o tipo de homem que teve a coragem de
escrever muito bem naquele. A mesma inconsciência, a mesma violenta
inocência, a mesma gigantesca grandeza de ação que guiou o teatral
Napoleão à sua Jena285 também o levou à sua Moscou.286 E aqui são
especialmente apresentadas as limitações insípidas e medíocres das
faculdades mentais dos escritores modernos. Fazem enormes esforços,
heróicos e quase patéticos, mas realmente não conseguem escrever mal. Há
momentos em que pensamos que estão perto de obter tal efeito, mas nossas
esperanças se frustram no instante em que comparamos suas pequenas
falhas às enormes imbecilidades de Byron ou Shakespeare.
Para o riso ser verdadeiro é necessário que toque o coração. Não sei por
que a idéia de tocar o coração sempre deve estar ligada à idéia de tocá-lo
por compaixão ou sofrimento. O coração pode ser tocado pela alegria e pelo
triunfo; o coração pode ser tocado pelo divertimento. No entanto, todos os
comediantes são trágicos. Os recentes escritores da moda são, no fundo, tão
pessimistas que parecem nunca imaginar que o coração tenha de se ocupar
do júbilo. Quando falam do coração, sempre descrevem angústias e
decepções da vida emocional. Quando dizem “o coração de um homem está
no lugar certo” porque a pessoa é bem-intencionada e generosa, na verdade
querem dizer, aparentemente, que ela está morrendo de medo, como se
dissessem que tem o coração nas botas.287 Nossas sociedades éticas
entendem o companheirismo, mas não entendem uma boa companhia. Da
mesma forma, nossa inteligência viva entende o significado de conversa,
mas não o que Dr Johnson288 chamaria de uma boa conversa. Para ter,
assim como o Dr Johnson, uma boa conversa, é absolutamente necessário
ser, assim como o Dr Johnson, um homem bom – ter amizade, honra e uma
enorme ternura. Acima de tudo, é necessário ser aberta e
desavergonhadamente humano, confessar integralmente todas as principais
desvantagens e os temores de Adão. Johnson era lúcido e bem-humorado e,
portanto, não se importava de conversar seriamente sobre religião. Johnson
era um homem bravo, um dos homens mais corajosos que já houve na face
da Terra, e, portanto, não se importava de confessar abertamente para
qualquer um seu profundo medo da morte.
A idéia de que há algo inglês na repressão dos sentimentos é uma daquelas
idéias que nenhum inglês jamais ouviu falar antes de a Inglaterra começar a
ser governada exclusivamente por escoceses, americanos e judeus. Na melhor das hipóteses, a idéia é uma generalização do duque de
Wellington289 – que era irlandês. Na pior das hipóteses, é parte daquele
tolo teutonismo que conhece tão pouco da Inglaterra quanto de
antropologia, mas que sempre fala sobre os vikings. De fato, os vikings não
reprimiam de modo algum os sentimentos. Choravam como bebês e se
beijavam como garotas; em suma, agiam como Aquiles290 e todos os
heróis vigorosos, filhos dos deuses. E embora a nacionalidade inglesa,
provavelmente, não tenha muito mais relação com os vikings do que a
francesa ou a irlandesa, os ingleses são filhos dos vikings nas lágrimas e nos
beijos. Não só é verdade que todos os literatos ingleses mais típicos, como
Shakespeare, Dickens, Richardson291 e Thackeray eram sentimentalistas.
Também é verdade que todos os homens de ação mais tipicamente ingleses
eram sentimentalistas, se possível, muito mais sentimentais. Na grande era
elizabetana, quando a nação inglesa foi, por fim, forjada; no grande século
XVIII , quando o Império Britânico se ergueu em toda parte, onde durante
todo esse tempo, onde estava o simbólico inglês estóico que veste negros
tecidos de lã e reprime os sentimentos? Será que todos os paladinos e
piratas elizabetanos eram assim? Será que Grenville292 estaria ocultando as
emoções ao estilhaçar taças de vinho com os dentes e as morder até que o
sangue escorresse? Estaria Essex293 contendo a emoção quando lançou seu
chapéu ao mar? Será que Raleigh achou que fosse sentimental responder às
armas espanholas apenas, como diz Stevenson, com uma “fanfarra de
ultrajantes trompas”?294 Será que Sidney perdeu, ainda que por uma única
vez, a oportunidade de fazer um comentário teatral ao longo da vida e da
morte?295 Será que os puritanos eram mesmo estóicos? Os puritanos
ingleses reprimiram muitas coisas, mas eram excessivamente ingleses para
reprimir os sentimentos. Seguramente foi por um grande milagre de gênio
que Carlyle conseguiu reverenciar ao mesmo tempo duas coisas tão
irreconciliavelmente opostas quanto o silêncio e Oliver Cromwell.296
Cromwell foi o exato oposto de um homem forte e taciturno. Cromwell
falava todo o tempo, quando não estava gritando. Ninguém, suponho,
acusará o autor de Graça Abundante297 de se envergonhar dos
sentimentos. Milton, decerto, pode ser representado como um estóico; e em
certo sentido era tão estóico quanto era vaidoso, polígamo e várias outras
coisas desagradáveis e pagãs. Mas ao ir além desse grande e solitário nome,
que pode ser considerado exceção, retomamos a contínua e inquebrantável tradição do sentimentalismo inglês. Qualquer que tenha sido a beleza moral
das paixões de Etheridge e Dorset, Sedley e Buckingham,298 não podem
ser acusados do erro de obstinadamente as esconder. Charles II era muito
popular entre os ingleses porque, como todos os alegres reis ingleses,
demonstrava suas paixões. Guilherme, o holandês,299 era muito impopular
entre os ingleses porque, não sendo inglês, ocultava suas paixões. Era, de
fato, o perfeito inglês ideal de nossa moderna teoria; e, precisamente por
essa razão, todos os ingleses de verdade o repugnavam como a lepra. Na
ascensão da grande Inglaterra do século XVIII, ainda encontramos esse tom
aberto e emocional nas cartas e na política, nas artes e nas armas. Talvez a
única qualidade em comum do grande Fielding300 e do grande
Richardson301 fosse nenhum dos dois ocultar as emoções. Swift,302 de
fato, era severo e lógico, porque Swift era irlandês. E quando passamos aos
soldados e governantes, aos patriotas e construtores do império do século
XVIII , descobrimos, como disse e como se isso fosse possível, que eram
ainda mais românticos que os romancistas e mais poéticos que os poetas.
Chatham,303 que mostrou ao mundo toda a sua força, expôs à Câmara dos
Comuns toda a sua fraqueza. Wolfe304 andou para lá e para cá com a
espada em punho, autoproclamando-se César e Aníbal, e caminhou para a
morte com poesia nos lábios.305 Clive306 foi um homem do mesmo tipo
de Cromwell ou Bunyan, ou, nesse caso, como Johnson – isto é, um homem
forte e sensível, em quem jorra uma fonte contínua de histeria e melancolia.
Como Johnson, era mais saudável porque era mórbido. As lendas de todos
os almirantes e aventureiros dessa Inglaterra estão cheias de fanfarronice,
de sentimentalismo, de esplêndida afetação. Todavia é desnecessário
multiplicar os exemplos do inglês essencialmente romântico quando um
deles se eleva acima dos demais. O Sr Rudyard Kipling disse, enfatuado, a
respeito do inglês: “Não abraçamos e beijamos quando nos encontramos”. É
verdade que esse costume antigo e universal desapareceu com o moderno
enfraquecimento da Inglaterra. Sidney não acharia nada de mais beijar
Spencer.307 Sinceramente admito que o Sr Broderick308 provavelmente
não beijaria o Sr Arnold-Foster309 se é que isso é prova da virilidade e da
grandeza militar da Inglaterra. Mas o inglês que não demonstra os próprios
sentimentos não desistiu totalmente do poder de perceber algo inglês no
grande herói naval da guerra napoleônica. A lenda de Nelson é inquebrantável. E no poente da tal glória está escrito em letras flamejantes,
para todo o sempre, a grande emoção inglesa: “Beije-me, Hardy”.310
Esse ideal de auto-repressão, seja o que for, não é inglês. Talvez seja algo
oriental, ou algo um tanto prussiano, mas em grande parte não vem, creio,
de nenhuma fonte racial ou nacional. É, como já disse, em certo sentido,
aristocrático; não vem do povo, mas de uma classe. Mesmo a aristocracia
não era tão estóica nos tempos em que era realmente forte. Mas, seja esse
ideal fleumático uma genuína tradição do cavalheiro, ou apenas uma das
invenções do moderno gentil-homem (que pode ser chamado de aristocrata
decadente), por certo, tem relação com a imperturbável qualidade dos
romances de sociedade. A partir da representação dos aristocratas como
pessoas que reprimem os sentimentos, foi uma etapa natural passar a
representá-los como pessoas que não tinham quaisquer sentimentos a
reprimir. Assim, o moderno oligarca fez da dureza e brilho do diamante
uma virtude para sua classe. Como um poeta que por sonetos se dirigia à
sua dama no século XVII, o nobre parece usar a palavra “frio” como se fosse
uma elegia, e a palavra “insensível” como uma espécie de elogio. Em
pessoas tão afáveis e inocentes como são ingleses bem-nascidos, certamente
seria muito difícil criar algo que pudesse ser chamado de crueldade
positiva; então, nesses livros, exibem uma espécie de crueldade negativa.
Não podendo ser cruéis em atos, o são em palavras. Tudo isso significa
apenas uma única coisa: significa que o ideal de vigor da Inglaterra deve ser
procurado nas massas; deve ser procurado onde Dickens o encontrou –
Dickens, entre cujas glórias estão as de ter sido um humorista, um
sentimental, um otimista, um homem pobre, um inglês. Contudo, a maior de
todas as glórias foi ver a humanidade em sua exuberância maravilhosa e
tropical, sem sequer notar a existência da aristocracia; Dickens, cuja maior
glória foi não ter conseguido descrever um cavalheiro.
266 Bow Bells Novelettes era mais uma publicação barata lançada por John Dicks (1818–1881) com base no sucesso do semanário Bow Bells Magazine (1862–1897). As Novelettes eram uma série de histórias curtas, melodramáticas, sensacionalistas, dirigidas especialmente às mulheres da baixa classe média da Inglaterra vitoriana.
267 A Family Herald (1842–1940) foi uma das revistas semanais de variedades mais populares da Inglaterra no século XIX. A revista tinha o curioso e informativo subtítulo: Useful Information and Amusement for the Million [informações úteis e diversão para milhões de pessoas] e foi a primeira publicação totalmente composta, impressa e costurada por máquinas. Custava um penny e trazia contos curtos e seriados, bem como poemas, biografias, colunas semanais e anúncios. Em 1877, começou a publicar as novelettes como suplemento, vendidos separadamente por um penny adicional, duas vezes ao mês.
268 Dodo: A Detail of the Day foi o primeiro romance escrito, em 1893, por Edward Frederick Benson (1867–1940). Elegante, mas bastante controverso na época, foi criticado por ser “Um festim de epigramas e paradoxos”.
269 Green Carnation do jornalista e romancista inglês Robert Smyth Hichens (1864–1950). Surgiu, pela primeira vez, como um romance anônimo e satírico, pois as personagens principais se assemelhavam à escandalosa dupla: Oscar Wilde (1854–1900) e lorde Alfred Douglas (1870–1945), o “Bosie”. O livro, que tinha por título o adereço dos homossexuais vitorianos popularizado por Wilde, foi tirado de circulação em 1895 e republicado somente em 2006.
270 Pearl Mary Teresa Richards Craigie (1867–1906), escritora americana educada na Inglaterra que escreveu vários romances satíricos sob a alcunha de John Oliver Hobbes. Converteu-se ao catolicismo em 1892.
271 Sir Anthony Hope Hawkins (1863–1933) foi um romancista e dramaturgo inglês. Advogado de formação, Hope tornou-se um prolífico escritor, principalmente de romances de aventura.
272 The Prisioner of Zenda, publicado em 1894, é a obra mais famosa de Anthony Hope. A aventura gira em torno da história do rei de um país ficcional chamado Ruritânia, seqüestrado pelos adversários na véspera da coroação. A situação política parece ficar remediada ao encontrarem um turista inglês que é um sósia do rei. A narrativa já foi adaptada diversas vezes para o teatro e para o cinema.
273 Obra de mesmo nome escrita por Anthony Hope, e publicada em 1901, cujo subtítulo é “An Episode in the Story of an Ancient House” [Um episódio na história de uma casa venerável].
274 Benjamin Disraeli (1804–1881) foi um escritor, político e primeiro-ministro britânico pelo Partido Conservador, conhecido por nutrir uma visão romântica da nobreza.
275 Antigo nome do mar Báltico situado no nordeste da Europa, circundado pela Península Escandinava, pela Europa Oriental e Central e pelas Ilhas Dinamarquesas.
276 Área central de Londres e também o nome de uma avenida que corta a cidade de leste a oeste.
277 Ellen Thorneycroft Fowler (1860–1929), poetisa e novelista inglesa cujas obras fizeram muito sucesso entre 1898 e 1904.
278 Concerning Isabel Carnaby [Acerca de Isabel Carnaby], livro de Ellen Thorneycroft Fowler, publicado em 1898.
279 Some Emotions and a Moral [Algumas Emoções e uma Moral], livro de John Oliver Hobbes, publicado em 1891, foi a primeira novela da Sra Craigie.
280 Lc 6, 45 ou Mt 12, 34. A tradução literal do trecho bíblico em inglês seria: “do vazio do coração, fala a boca”. Optamos substituir pela fórmula bíblica consagrada nas edições em português.
281 Sir William Schwenck Gilbert (1836–1911) foi um dramaturgo, libretista, poeta e ilustrador inglês. Tornou-se famoso pelas 14 óperas cômicas que escreveu e legou uma série de expressões para a língua inglesa.
282 Patience, or Bunthorne’s Bride, sexta ópera cômica cujo libretto foi escrito por W.S. Gilbert. Estreou em 1881. É uma sátira ao movimento esteta do final do século XIX, acusado de vazio e auto-referencial.
283 Richard Steele (1672–1729) foi um político e dramaturgo irlandês. Escreveu várias comédias de sucesso e editou duas revistas de ensaios criticando a afetação dos costumes de sua época.
284 A pequena Nell Trent é uma personagem do romance The Old Curiosity Shop (1841) de Charles Dickens. Era uma bela menina órfã, de uns treze anos, que morava com o avô materno numa loja de curiosidades. O avô é vítima de um perverso agiota e acaba na miséria. Nell é perseguida por inúmeros vilões, fica doente e acaba por falecer, deixando o avô desconsolado.
285 Local onde Napoleão derrotou, de forma esmagadora, os prussianos em 1806.
286 Referência à invasão frustrada das tropas francesas a Moscou, que acabou por fazer Napoleão sair da Rússia e tentar voltar para a França com um exército arrasado. Tal derrota francesa ficou imortalizada na literatura na obra Guerra e Paz (1865–1869) de Liev Tolstói (1828–1910).
287 Chesterton compara o sentido de duas expressões inglesas: “to have one’s heart in the right place” e “to have one’s heart in one’s boots”, cujos sentidos preferimos interpolar no próprio texto, assim como deixamos no texto a tradução literal das expressões.
288 Samuel Johnson (1709–1784) foi um poeta, ensaísta, moralista, crítico de literatura e lexicógrafo inglês que figura entre os maiores eruditos ingleses de todos os tempos. Sua vida foi relatada pelo amigo James Boswell (1740–1795) na obra The Life of Samuel Johnson, escrita em 1791.
289 Arthur Colley Wellesley (1769–1852), 1º Duque de Wellington, foi um marechal e político britânico, primeiro-ministro do Reino Unido por duas vezes. Descrito como o carrasco de Napoleão em Waterloo, era um homem grandalhão, aristocrático, arrogante, sem muita imaginação, mas resoluto e frio, um verdadeiro mestre na arte da defesa, além de ser a eminência parda da política inglesa do período.
290 Na mitologia grega foi um herói da Guerra de Tróia e principal guerreiro da Ilíada de Homero (século VIII a.C.).
291 Samuel Richardson (1689–1761), escritor e editor, contemporâneo do Dr Johnson, ficou mais conhecido por seus romances epistolares.
292 Richard Grenville (1542–1591), marinheiro, explorador e mercenário, foi avô de Sir Richard Grenville (1600–1658), figura de grande notoriedade na guerra civil inglesa. Na época em que fazia incursões nos Açores, por volta de 1591, foi relatado que, para provar bravura ao jantar com capitães espanhóis, costumava morder três ou quatro taças e engolir os pedaços de vidro, sem que isso lhe causasse maiores problemas, a não ser alguns ferimentos na boca.
293 Robert Devereux (1566–1601), 2º Duque de Essex, herói militar inglês no reinado de Elizabeth I e “favorito” da rainha. Em 1596, venceu a armada espanhola no porto de Cádiz. Nesta batalha, teria acontecido o incidente do chapéu descrito por Chesterton.
294 Sir Walter Alexander Raleigh (1552–1618), escritor, poeta, espião e explorador. Chesterton atribui erroneamente a passagem a Stevenson. Na verdade, tais palavras se encontram na biografia da rainha Elizabeth de Mandell Creighton (1843–1901), publicada em 1899. Conta o biógrafo que, no momento em que Raleigh entrou no porto de Cádiz, as fortalezas e a armada espanhola abriram fogo em sua direção. Imediatamente, em vez de responder a bala, desprezou os tiros e saudou os espanhóis com toques de trompa.
295 Sir Philip Sidney (1554–1586) foi poeta, cortesão e soldado. Foi uma das figuras mais proeminentes da era elizabetana. Introduziu na Inglaterra as idéias críticas dos teóricos do Renascimento e seu romance Arcádia, publicado em 1590, embora inacabado, é tido como uma das peças em prosa mais importantes do século XVI. Como as obras só foram conhecidas após a morte do autor, a observação de Chesterton faz sentido.
296 Na obra Letters and Speeches of Oliver Cromwell, Carlyle apresenta um retrato positivo de Cromwell, bem como advogava o “culto ao silêncio”, nome que deu à doutrina de restrição do discurso até seu total amadurecimento. Para Carlyle, o silêncio era o ventre das grandes coisas.
297 Referência a John Bunyan (1628–1688). A obra Grace Abounding to the Chief of Sinners, de 1666, é sua autobiografia espiritual.
298 Escritores espirituosos da época de Charles II (1630–1655), cuja corte era conhecida pelo espírito hedonista e jovial, em contraste com o anterior governo de Cromwell e dos puritanos. Tais autores eram partidários do rei e da Restauração. Entre os grandes nomes do teatro da Restauração estavam o comediógrafo Sir George Etherege (1635–1692), Sir Charles Sackville Dorset (1638–1706), 6º conde de Dorset, Sir Charles Sedley (1639–1701) e Sir George Villiers (1628–1687), 2º duque de Buckingham, todos farristas e libertinos.
299 Guilherme III (1650–1702) da Inglaterra (por nascimento, Príncipe de Orange), rei dos Países Baixos, que assumiu o trono da Inglaterra a pedido do Parlamento, depondo o rei católico Jaime II (1633–1701), que era seu tio e sogro.
300 Henry Fielding (1707–1754), romancista inglês famoso pela obra Tom Jones (1749) e tido como o inventor do romance inglês.
301 Samuel Richardson (1689–1761) foi um dono de gráfica e escritor muito admirado em sua época. Tornou-se rival de Fielding e ambos insultavam e respondiam aos insultos um do outro, ao criar paródias dos escritos do desafeto.
302 Jonathan Swift (1766–1745) foi um romancista irlandês criado desde pequeno na Inglaterra. Entre suas obras mais famosas temos As Viagens de Gulliver (1726) e a sátira mordaz sobre a situação da fome na Irlanda A Modest Proposal (1729).
303 William Pitt (1708–1778), o velho, 1º duque de Chatham, foi ministro da guerra durante a Guerra dos Sete Anos contra a França e primeiro ministro inglês entre 1766 e 1768.
304 General James Wolfe (1727–1759), militar inglês e ícone da vitória inglesa na Guerra dos Sete Anos. Escolhido por William Pitt (1708–1778), o velho, para liderar as forças inglesas em Quebec, venceu a França no Canadá e estabeleceu o domínio inglês naquele país.
305 Dizem alguns biógrafos que, um dia antes da mortal Batalha das Planícies de Abraão, Wolfe recitou para seus oficiais o poema de Thomas Gray (1716–1771) chamado Elegy Written in a Country Churchyard [Elegia escrita num cemitério de Igreja], composta em 1750.
306 General Robert Clive (1725–1774), 1º barão de Clive, militar que estabeleceu a supremacia militar e política da Companhia das Índias Orientais na Índia e em Bengala.
307 Edmund Spencer (1552–1599), poeta inglês que escreveu uma elegia sobre Philip Sidney (1554–1586). Considerado um dos poetas pioneiros do inglês moderno.
308 Chesterton acrescenta uma letra ao grafar o nome de William St John Fremantle Brodrick (1856–1942). St John Brodrick (posteriormente 1º conde de Midleton) foi um político do Partido Conservador e Secretário de Guerra de 1900 a 1903.
309 Hugh Oakeley Arnold-Foster (1855–1909) foi político, na época, filiado ao partido Liberal-unionista, e uma autoridade em questões militares e navais. Substituiu St John Brodrick na Secretaria de Guerra, permanecendo no cargo entre 1903 e 1905.
310 Palavras ditas pelo Almirante Nelson (1758–1805) ao então capitão Thomas Masterman Hardy (1769–1839), pouco antes de morrer, atingido no ombro e nos pulmões por uma bala na batalha de Trafalgar. Três testemunhas dão conta de que Nelson disse: “Cuide de minha querida senhora Hamilton, Hardy, cuide da pobre senhora Hamilton”. Depois de uma pausa continuou, com muita dificuldade: “Beije-me, Hardy”; o que Hardy fez, no rosto. Nelson perguntou: “Quem está aqui?” e, ao ouvir que era Hardy, disse: “Deus te abençoe, Hardy”. Por fim, Nelson disse: “Agora estou satisfeito. Graças a Deus, cumpri minhas obrigações”, murmurou mais algumas ordens. Com o pulso cada vez mais fraco, e antes de morrer, as últimas palavras foram: “Deus e meu país”.