Hereges

G. K. Chesterton · Capítulo 23 de 37

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XIV. Alguns escritores modernos e a instituição da família

CAPÍTULO XIV

Alguns escritores modernos

 

e a instituição da família

 

A FAMÍLIA PODE SER claramente caracterizada como a suprema instituição humana. Todos deveriam admitir que ela tem sido, até agora, a célula-mãe e a unidade central de quase todas as sociedades, salvo, na verdade, de

sociedades como as da Lacedemônia,256 que decidiram pela “eficiência” e,

portanto, pereceram sem deixar vestígios. O cristianismo, ainda que sua

revolução tenha sido enorme, não alterou tal antiga e selvagem santidade;

simplesmente a inverteu. Não negou a trindade de pai, mãe e filho. Apenas

leu em sentido contrário, fazendo-a passar para filho, mãe e pai. Esta não é

chamada de família, mas de Sagrada Família, pois muitas coisas são

santificadas ao virar de ponta-cabeça. Mas alguns sábios, frutos de nossa

decadência, lançaram um sério ataque à família. Refutaram-na, a meu ver,

erroneamente; e seus defensores defenderam-na, e defenderam-na

erroneamente. A apologia habitual da família é ser, em meio à tensão e à

instabilidade da vida, pacífica, agradável e cordata. Mas há outra possível

defesa da família e, para mim, evidente; a da família não ser pacífica, não

ser agradável e não ser cordata.

Não é elegante, hoje em dia, tecer muitos comentários a respeito das

vantagens da pequena comunidade. Dizem que devemos participar de

vastos impérios e cultivar idéias grandiosas. Há uma vantagem, contudo,

num pequeno estado, cidade ou vila, que apenas os deliberadamente cegos

conseguem deixar de ver: o homem que vive na pequena comunidade vive

num mundo mais amplo. Sabe muito mais sobre as diversidades

ameaçadoras e as divergências intransigentes dos homens. O motivo é

óbvio. Numa grande comunidade, podemos escolher nossos parceiros.

Numa comunidade pequena, os parceiros nos são escolhidos. Assim, em

todas as sociedades grandes e altamente civilizadas surgem grupos baseados

no que chamamos de afinidade, e excluem o mundo real de um modo mais

brusco do que os portões de um monastério. Não há nada verdadeiramente limitado no clã; o que realmente é limitado é a camarilha. Os homens do clã

vivem juntos porque todos usam o mesmo tartan257 ou descendem da

mesma vaca sagrada; mas em suas almas, pela felicidade divina, haverá

sempre mais cores que em qualquer tartan. Os homens da camarilha,

contudo, convivem porque têm o mesmo tipo de alma, e a pequenez deles é

a pequenez da coerência espiritual e da satisfação, como o que há no

inferno. A grande sociedade existe para formar camarilhas. A grande

sociedade é uma sociedade para a promoção da limitação. É um mecanismo

que visa proteger o indivíduo solitário e sensível da experiência dolorosa e

fortalecedora de assumir compromissos humanos. É, no sentido mais literal

das palavras, uma sociedade para a prevenção da cultura cristã.

Podemos ver tal mudança, por exemplo, na moderna transformação do que

chamamos clube. Quando Londres era menor, e as regiões de Londres eram

mais reservadas e provincianas, o clube era o que ainda é nos vilarejos, o

oposto do que é agora nas cidades grandes. Naquela ocasião, o clube era

valorizado como um lugar onde o homem podia ser sociável. Agora, o

clube é valorizado por ser um lugar onde podemos ser anti-sociais. Quanto

mais dilatada e complicada for nossa sociedade, mais o clube deixará de ser

um lugar onde podemos ter uma discussão ruidosa, e se torna, cada vez

mais, um lugar onde conseguimos desfrutar de algo fantasticamente

chamado de tranqüilo aparte. O objetivo de tal clube é tornar o homem

confortável, e torná-lo confortável é o oposto de torná-lo sociável. A

sociabilidade, como tudo o que é bom, é cheia de desconfortos, perigos e

renúncias. O clube tende a produzir a mais degradada das combinações – o

anacoreta voluptuoso, o homem que combina a permissividade de

Lúculo258 com a solidão insana de São Simeão Estilita.

Caso amanhã de manhã fiquemos ilhados pela neve na rua onde moramos,

de repente poderemos entrar num mundo muito mais vasto e bravio do que

jamais seríamos capazes de imaginar. Eis todo o afã da pessoa tipicamente

moderna para escapar da rua onde mora. Primeiramente, forja a ciência

sanitária moderna e vai para Margate.259 Então, fantasia a cultura moderna

e vai para Florença. Depois, inventa o imperialismo moderno e vai para

Tombuctu. Vai para as fantásticas fronteiras da Terra. Finge atirar em tigres.

Quase anda de camelo. E nisso tudo, em essência, ainda está fugindo da rua

onde nasceu. Para essa fuga traz sempre pronta a explicação. Diz estar

fugindo porque a rua é maçante. Está mentindo. Na verdade, foge da rua porque é excitante demais. É excitante porque é difícil de agradar; é

exigente porque está viva. Esta pessoa pode visitar Veneza porque, para ela,

os venezianos são apenas venezianos; as pessoas de sua rua são pessoas.

Pode cravar os olhos nos chineses porque, para ela, os chineses são passivos

e devem ser encarados. Caso olhe fixamente para a senhora idosa no jardim

ao lado de casa, a senhora reagirá. Em suma, a pessoa é forçada a fugir de

uma sociedade de pares demasiado estimulante – homens livres, perversos,

grosseiros, deliberadamente diferentes dela. Uma rua em Brixton260 é

excitante e opressora demais. A pessoa tem de ficar calma e tranqüila entre

tigres e abutres, camelos e crocodilos; essas criaturas são, de fato, muito

diferentes dela. Contudo, não travam, pela forma, cor ou vestimenta, uma

clara competição intelectual. Não procuram destruir os princípios da pessoa

e afirmar os próprios; já os estranhos monstros da rua suburbana o

pretendem fazer. O camelo não contorce o rosto num belo esgar porque o Sr

Robinson não tem uma corcova; já o cavalheiro culto do apartamento de

número 5 mostra um sorriso de escárnio porque Robinson não tem um

pedestal em seu apartamento. O abutre não gargalhará porque a pessoa não

voa; mas, o major do apartamento de número 9 morrerá de rir porque tal

pessoa não fuma. A reclamação que normalmente fazemos de nossos

vizinhos é que não cuidam, como dizemos, das próprias vidas. Na verdade

não pretendemos dizer que não cuidam de suas vidas. Se nossos vizinhos

não cuidassem das próprias vidas, seriam bruscamente despejados por

deixar de pagar o aluguel e deixariam de ser nossos vizinhos. O que

realmente pretendemos dizer ao afirmar que os vizinhos não cuidam da

própria vida é algo mais profundo. Não desgostamos deles por terem pouco

vigor e brilho a ponto de não conseguirem se interessar por nós.

Desgostamos deles porque têm demasiado vigor e brilho e também por

conseguirem se interessar por nós. O que tememos em nossos vizinhos, em

suma, não é a estreiteza de horizontes, mas a soberba tendência a ampliá-

los. E todas as aversões à humanidade mediana têm esse caráter geral. Não

são aversões à debilidade (como se julga), mas à energia. Os misantropos

fingem que odeiam a humanidade por sua fraqueza. Na realidade, odeiam-

na por sua força.

Esse retrocesso da bestial vivacidade e brutal variedade dos homens

comuns é, certamente, uma coisa perfeitamente razoável e desculpável,

desde que não alegue qualquer nível de superioridade. Quando o retrocesso chama a si mesmo de aristocracia, ou estetismo, ou uma superioridade com

relação à burguesia, é que a sua fraqueza inerente tem de ser, por justiça,

ressaltada. O tédio é o mais perdoável dos vícios; no entanto, é a mais

imperdoável das virtudes. Nietzsche é quem representa, de modo mais

eminente, a reivindicação pretensiosa dos enfastiados, e apresenta nalgum

lugar uma descrição – potente no sentido puramente literário – da aversão e

desdém que o consome ao avistar pessoas comuns com rostos comuns,

vozes comuns e mentes comuns. Como já disse, essa atitude é quase bela se

não fosse patética. A aristocracia de Nietzsche possui, além disso, a

sacralidade dos fracos. Quando nos faz sentir que não suporta os

inumeráveis rostos, as incessantes vozes, a avassaladora onipresença

característica da multidão, ele obterá a compreensão de qualquer um que

tenha estado doente num navio a vapor ou cansado num ônibus lotado.

Todo homem odiou a humanidade quando foi menos que um homem. Todo

homem já teve a humanidade diante dos olhos como uma bruma, já teve a

humanidade entrando pelas narinas como um odor sufocante. Mas quando

Nietzsche tem a incrível falta de humor e de imaginação de nos pedir que

acreditemos que sua aristocracia é uma aristocracia de músculos fortes ou

uma aristocracia de vontades fortes, é preciso mostrar a verdade. É uma

aristocracia de nervos fracos.

Escolhemos os amigos, escolhemos os inimigos; mas Deus escolhe nosso

vizinho.261 Por isso, chega até nós coberto de todos os imprudentes

pavores da natureza; é tão estranho quanto as estrelas, tão precipitado e

indiferente quanto a chuva. Ele é o homem, o mais terrível dos animais. Por

isso as antigas religiões e a antiga linguagem das Escrituras mostravam

perspicácia e sabedoria quando falavam não da obrigação para com a

humanidade, mas da obrigação para com o próximo. A obrigação para com

a humanidade pode, muitas vezes, tomar a forma de alguma escolha que é

pessoal ou mesmo agradável. Essa obrigação pode ser o passatempo

predileto; pode até ser um desperdício. Podemos trabalhar no East End262

porque somos particularmente talhados para este trabalho, ou porque

pensamos ser. Podemos lutar pela causa da paz internacional porque

gostamos de lutar. O mais monstruoso martírio, a mais repulsiva

experiência, pode resultar de uma escolha ou de uma espécie de gosto.

Podemos ter o feitio de gostar especialmente de lunáticos ou ter particular

interesse pela lepra. Podemos amar os negros por serem pretos ou os alemães socialistas por serem pedantes. Mas temos de amar o próximo

porque está aí – uma razão muito mais alarmante para uma atividade muito

mais séria. É um espécime da humanidade que verdadeiramente nos é dado.

Justamente porque pode ser qualquer pessoa, ele é toda pessoa. É um

símbolo porque é um acidente.

Sem dúvida, os homens fogem de ambientes pequenos para terras muito

fatais. Mas isso é muito natural; pois não fogem da morte. Fogem da vida. E

este princípio se aplica às várias esferas do sistema social da humanidade. É

perfeitamente normal que os homens busquem por uma determinada

variedade do tipo humano, contanto que busquem por aquela variedade de

tipo humano, e não por mera variedade humana. É muito conveniente que

um diplomata inglês deva procurar a sociedade dos generais japoneses, se o

que quer são generais japoneses. Mas, se o que quer são pessoas diferentes

dele, ganharia muito mais se ficasse em casa e discutisse religião com a

empregada. É bastante razoável que o rapaz genial do vilarejo ascenda e

conquiste Londres, se o que quer é conquistar Londres. Mas, se quiser

conquistar algo fundamental, simbolicamente hostil e também muito

consistente, ganhará muito mais caso permaneça onde está e tenha uma

altercação com o reitor. O homem numa rua de subúrbio age muito

acertadamente caso vá à Ramsgate263 por causa de Ramsgate – algo difícil

de imaginar. Mas, como se diz, se vai a Ramsgate “para uma mudança de

ares”, então poderá ter uma mudança muito mais romântica, e até

melodramática, caso pule o muro e vá parar direto no quintal do vizinho. As

conseqüências serão mais instigantes, muito além das saudáveis

possibilidades de Ramsgate.

Ora, exatamente da forma como esse princípio se aplica ao império, à

nação dentro do império, à cidade dentro da nação, à rua dentro da cidade,

da mesma forma o princípio é aplicado à casa na própria rua. A instituição

da família merece ser louvada exatamente pelas mesmas razões por que a

instituição de uma nação ou a instituição de uma cidade merecem ser

louvadas. É bom para um homem viver numa família pelo mesmo motivo

pelo qual é bom para um homem estar envolto por uma cidade. É bom para

um homem viver numa família no mesmo sentido em que é belo e

agradável para um homem ficar preso na rua pela neve. Isso tudo o força a

perceber que a vida não é uma coisa exterior, mas algo interior. Acima de

tudo, todos insistem em dizer que a vida, se é uma vida estimulante e fascinante, é algo que, pela própria natureza, existe a despeito de nós

mesmos. Os modernos escritores ao sugerir, de forma mais ou menos clara,

que a família é uma instituição má, limitam-se a dizer, com muita

perspicácia, mordacidade ou pathos, que a família nem sempre é muito

agradável. É claro que a família é uma boa instituição porque é

desagradável. É saudável exatamente porque contém inúmeras divergências

e diversidades. É, como dizem os sentimentais, como um pequeno reino, e,

como a maioria dos pequenos reinos, em geral está num estado que lembra

a anarquia. Exatamente porque nosso irmão George não está interessado em

nossas dificuldades religiosas, e sim no restaurante Trocadero,264 é que a

família tem algo das qualidades estimulantes de uma comunidade.

Precisamente porque nosso tio Henry não aprova as ambições teatrais de

nossa irmã Sarah é que a família se assemelha à humanidade. Os homens e

mulheres que, por boas ou más razões, se revoltam com a família se

revoltam, simplesmente, com a raça humana. Tia Elizabeth é imoderada,

como a humanidade. Papai é emotivo, como a humanidade. Nosso irmão

mais novo é levado, como a humanidade. Vovô é obtuso, como o mundo; é

velho, como o mundo.

Aqueles que desejam, com ou sem razão, sair de tudo isso,

definitivamente desejam entrar num mundo mais limitado. Estão

consternados e aterrorizados com a extensão e variedade da família. Sarah

deseja encontrar um mundo apenas de apresentações teatrais; George deseja

pensar no Trocadero como um cosmo. Não digo, no momento, que a fuga

para essa vida mais restrita não seja melhor que a fuga para um monastério.

Digo, sim, que é mau e artificial tudo o que tende a fazer as pessoas

sucumbirem à estranha ilusão de que estão entrando num mundo realmente

mais amplo e diverso do que o próprio mundo. A melhor forma de alguém

testar a própria boa vontade em encontrar a diversidade comum da

humanidade seria descer pela chaminé de qualquer casa escolhida ao acaso,

e tentar se relacionar, da melhor forma possível, com as pessoas que

encontrar. E foi isso, em essência, que cada um de nós fez no dia em que

nasceu.

Isto é, de fato, a novela especial e sublime da família. É romântica porque

é um jogo de azar. É romântica porque é tudo de que os inimigos a acusam.

É romântica porque é arbitrária. É romântica porque está aí. Enquanto

grupos de homens fizerem escolhas racionais, sempre haverá certo ambiente especial e sectário. Somente quando temos grupos de homens

escolhidos irracionalmente é que temos homens. O elemento de aventura

começa a existir; pois uma aventura é, por natureza, algo que vem ao nosso

encontro. É algo que nos escolhe, não uma coisa que escolhemos.

Apaixonar-se é muitas vezes considerada a suprema aventura, o acidente

romântico último. Isto é verdade na medida em que há algo que nos é

externo, algo parecido com um alegre fatalismo. O amor nos toma,

transfigura e tortura; penetra-nos o coração com insuportável beleza, como

a insuportável beleza da música. No entanto, uma vez que nos liguemos à

questão; uma vez que estejamos, de alguma forma, preparados para nos

apaixonar e, num dado sentido, nos lançarmos nisso; uma vez que, de certa

forma, escolhamos ou até julguemos – em tudo isso apaixonar-se não é

verdadeiramente romântico, não é absolutamente aventuroso. Neste grau, a

aventura suprema não é se apaixonar. A aventura suprema é ter nascido. Aí

entramos, de repente, numa armadilha esplêndida e surpreendente. Aí

vemos algo com que jamais sonháramos. Os pais ficam realmente à espreita

e caem sobre nós, como salteadores escondidos atrás da moita. Nosso tio é

uma surpresa. A tia é, como diz a expressão comum, caída do Céu. Quando

entramos numa família, por termos nascido, entramos num mundo

incalculável, num mundo que tem leis próprias e estranhas, num mundo que

poderia existir sem a nossa presença, um mundo que não criamos. Noutras

palavras, quando passamos a fazer parte de uma família, adentramos num

conto de fadas.

O aspecto de narrativa fantástica deve se unir à família e às relações que

com ela manteremos por toda a vida. Romance é a coisa mais difícil de

entender na vida; o romance é ainda mais profundo que a realidade. Pois,

mesmo que a realidade se mostre enganosa, todavia não pode ser

comprovada sua pouca importância ou inexpressividade. Mesmo se os fatos

forem falsos, ainda serão muito estranhos. E a estranheza da vida, esse

elemento inesperado e até perverso das coisas ao ocorrer, permanece

irremediavelmente interessante. As circunstâncias que podemos controlar

podem se tornar tratáveis ou pessimistas; mas as “circunstâncias sobre as

quais não temos controle” permanecem divinas para aqueles que, como o Sr

Micawber,265 podem invocá-las e renovar as forças. As pessoas se

perguntam por que o romance é a forma mais popular de literatura;

perguntam por que o romance é mais lido que livros de ciência ou de metafísica. A razão é muito simples: é meramente porque o romance é mais

verdadeiro que os demais livros. A vida pode, às vezes, parecer justamente

com um livro de ciência. Pode às vezes parecer, e com maior justiça, com

um livro de metafísica. Mas a vida é sempre um romance. Nossa existência

pode deixar de ser uma canção; pode deixar de ser um belo lamento. Nossa

existência pode não ser uma justiça inteligível, ou mesmo um erro

reconhecível. Mas nossa existência ainda é uma história. No ígneo alfabeto

de cada pôr-do-sol está escrito: “continua no próximo capítulo”. Caso

tenhamos intelecto suficiente, conseguiremos completar uma dedução

filosófica e exata, e estaremos certos de que a completamos corretamente.

Com suficiente capacidade intelectual conseguiremos terminar uma

descoberta científica e estaremos certos de que a terminamos corretamente.

Contudo, nem com o mais gigantesco intelecto conseguiremos terminar a

mais simples e tola história, e estar certos de que a terminamos

corretamente. A razão é que uma história carrega consigo não simplesmente

um intelecto parcialmente mecânico, mas uma vontade, que é, em essência,

divina. O escritor da narrativa pode mandar seu herói para o patíbulo, no

penúltimo capítulo, se quiser. Pode fazer isso pelo mesmo capricho divino

com o que ele, o autor, poderá ir para a forca, e depois para o inferno, se

quiser. E a mesma civilização, a cavalheiresca civilização européia que

afirmava o livre-arbítrio no século XIII, produziu uma coisa chamada

“ficção” no XVIII. Quando Santo Tomás de Aquino afirmou a liberdade

espiritual do homem, criou todos os romances ruins que circulam nas

bibliotecas.

Mas, para que a família nos seja uma história ou romance, é necessário

que grande parte dela, de qualquer maneira, seja determinada sem nossa

anuência. Caso desejemos que a vida seja um sistema, ela pode vir a ser um

problema; mas caso desejemos que a vida seja um drama, ela se torna algo

essencial. Amiúde pode acontecer, sem dúvida, que um drama possa ser

escrito por alguém de quem pouco gostamos. Mas gostaríamos bem menos

se o autor se aproximasse perante as cortinas, a cada hora, e nos impusesse

a dificuldade de inventar o próximo ato. O homem tem o controle de muitas

coisas na vida; tem o controle sobre um número suficiente de coisas para

ser o herói de um romance. Todavia, caso tivesse controle sobre todas as

coisas, seria tão herói que não haveria romance. E a razão por que a vida

dos ricos é no fundo tão enfadonha e monótona é simplesmente por poderem escolher os acontecimentos. É tediosa porque são onipotentes. Não

percebem as aventuras porque as fabricam. A coisa que mantém a vida

romântica e plena de ardentes possibilidades é a existência de grandes

limitações naturais que nos forçam a enfrentar as coisas das quais não

gostamos ou pelas quais não esperamos. É inútil falar para os altivos

modernos a respeito de permanecer em ambientes hostis. Estar num

romance é estar num ambiente hostil. Nascer nesta Terra é nascer num

ambiente hostil, portanto é nascer num romance. De todas as limitações e

estruturas que moldam e criam poesia e variedade na vida, a família é a

mais exata e a mais importante. Portanto, é mal-interpretada pelos

modernos, que imaginam o romance existir de modo mais perfeito num

estado pleno daquilo que entendem por liberdade. Acreditam que se um

homem gesticula, isso é algo tão romântico e sensacional que o sol deva

cair do céu. No entanto, o que é romântico e surpreendente a respeito o sol é

ele não cair do céu. Buscam, de todas as formas, um mundo onde não haja

nenhuma limitação – isto é, um mundo onde não existam contornos; isto é,

um mundo que não possui formas. Não há nada mais vil que esse infinito.

Dizem desejar ser tão fortes quanto o universo, mas realmente desejam que

todo o universo seja tão fraco quanto eles mesmos.

 

256 Outro nome da cidade de Esparta, que produziu conquistadores e governantes militares, mas nunca líderes intelectuais e culturais.

257 Tecido de lã axadrezado cujos diferentes padrões identificam os clãs escoceses.

258 Lúcio Licínio Lúculo (118 a.C.–56 a.C.) foi um importante político e general da República Romana. Comandou legiões, antes de Pompeu, na Terceira Guerra Mitridática e, ao regressar, ficou célebre por levar uma vida exuberante e licenciosa.

259 A expressão “ir para Margate” significava para os contemporâneos de Chesterton “nadar para melhorar a saúde”. Margate é uma sofisticada cidade de veraneio inglesa, localizada no estuário do rio Tâmisa cerca de 120 quilômetros ao sudeste de Londres.

260 Subúrbio de Londres ao sul do rio Tâmisa que na época vitoriana sofreu forte expansão imobiliária residencial.

261 A palavra neighbour, em inglês, significa tanto o confinante, o vizinho ao lado da casa, como o próximo, o semelhante. Chesterton utiliza tal palavra, ao longo de todo o capítulo, em duplo sentido.

262 Área que fica ao leste de Londres, fora das muralhas medievais da cidade. Durante o século XIX a área foi povoada por pessoas pobres e imigrantes, tornando-se sinônimo de pobreza, criminalidade e doença.

263 Uma das grandes cidades costeiras da Inglaterra, localizada no distrito de Thanet, a oeste do condado de Kent. No século XIX, recebeu o principal e mais moderno porto do país e a cidade se tornou um importante lugar de veraneio.

264 Famoso e elegante restaurante inaugurado em 1896, na esquina da Shaftsbury Avenue com Windmill Street, perto dos teatros do West End e próximo ao Picadilly Circus, em Londres. Fechou em 1965 e o espaço foi convertido em shopping center, com o nome de London Trocadero.

265 Personagem do romance David Copperfield (1850) de Charles Dickens (1812–1870). Baseada no pai do autor, Wilkins Micawber, sempre esperava um futuro melhor, apesar das circunstâncias. É incauto, porém adorável, e acaba por se tornar juiz colonial.