Hereges
XIX. Os romancistas dos bairros pobres e os necessitados
CAPÍTULO XIX
Os romancistas dos bairros
pobres e os necessitados
E M NOSSA ÉPOCA, permitimos que estranhas idéias sobre a verdadeira natureza da doutrina da fraternidade humana surgissem. A verdadeira doutrina é algo que, com todo o humanitarismo moderno, não entendemos
claramente, e muito menos praticamos. Não há nada, por exemplo,
particularmente antidemocrático no ato de lançarmos, com um pontapé,
nosso mordomo escada abaixo. Pode ser errado, mas não chega a ser
indiferente. Em certo sentido, esbofeteá-lo ou chutá-lo pode ser considerado
uma confissão de igualdade: estamos nos envolvendo corpo-a-corpo com o
mordomo; quase lhe concedendo o privilégio de um duelo. Não há nada de
antidemocrático, embora possa haver algo despropositado, em esperar
grande coisa de um mordomo e ficarmos tomados de surpresa quando lhe
falta estatura divina. O que é realmente antidemocrático e indiferente é
deixar de supor que o mordomo seja um tanto quanto divino. O que é
realmente antidemocrático e indiferente é dizer, como muitos humanistas
modernos fazem: “Certamente não devemos levar a mal os que estão num
plano inferior”. Considerando todos os fatos, podemos dizer, sem nenhum
exagero, que a coisa realmente antidemocrática e indiferente é o hábito
comum de não darmos pontapés no mordomo.
Esta afirmação parecerá jocosa a muitos porque uma imensa porção do
mundo moderno não compreende seriamente o sentimento democrático.
Democracia não é filantropia; não é nem mesmo altruísmo ou reforma
social. A democracia não se funda na compaixão pelo homem comum; a
democracia se funda na reverência ao homem comum, ou, caso queiram, no
temor dele. Não defende o homem por ser muito miserável, mas o defende
por ser muito sublime. Não se opõe a que o homem seja um escravo, assim
como não se opõe a que seja um rei, pois seu sonho é sempre o sonho da
primeira república romana, uma nação de reis.
Depois da verdadeira república, a coisa mais democrática do mundo é o
despotismo hereditário. Com isso pretendo definir um despotismo em que
não haja absolutamente nenhum traço, qualquer que seja, de qualquer
disparate a respeito de uma adequação intelectual ou aptidão especial para o
cargo. Despotismo racional – isto é, despotismo seletivo – é sempre uma
maldição para a humanidade, porque com isso temos o homem comum
incompreendido e mal-governado por qualquer gatuno que não tem,
absolutamente, nenhum respeito fraternal. Mas o despotismo irracional é
sempre democrático, porque é a entronização do homem comum. A pior
forma de escravidão é o chamado cesarismo, ou a escolha de algum homem
audaz e brilhante como déspota por ser adequado ao cargo. Isso significa
que os homens escolhem um representante não porque os representa, mas
porque não o faz. Homens confiam em homens comuns como George
III367 ou William IV,368 porque também são homens comuns e as pessoas
os entendem. Os homens confiam em homens comuns porque confiam em
si mesmos. Mas os homens confiam em grandes homens porque não
confiam em si mesmos. E assim, a adoração de grandes homens sempre
aparece em tempos de fraqueza e covardia. Não ouvimos falar de grandes
homens até o momento em que todos os homens sejam minúsculos.
O despotismo hereditário é, então, em essência e sentimento, democrático
porque aleatoriamente escolhe alguém da humanidade. Se não diz que todo
homem pode governar, declara outra coisa muito democrática: que qualquer
homem pode governar. A aristocracia hereditária é algo muito pior e muito
mais perigoso, porque o número de integrantes e a multiplicidade de uma
aristocracia, às vezes, tornam possível que ela se faça passar por uma
aristocracia do intelecto. Alguns dos membros provavelmente serão mais
inteligentes e assim, de qualquer maneira, formarão uma aristocracia
intelectual dentro da aristocracia social. Governarão a aristocracia pela
virtude do intelecto, e governarão o país pela virtude da aristocracia. Assim,
uma dupla falsidade será estabelecida, e milhões de “imagens de Deus”,
que, felizmente para as esposas e famílias, não são nem cavalheiros nem
homens inteligentes, serão representados por um homem como o Sr
Balfour369 ou o Sr Wyndham,370 porque ele é muito cavalheiro para ser
meramente chamado de inteligente, e muito inteligente para ser chamado de
cavalheiro. Contudo, mesmo uma aristocracia hereditária pode apresentar,
por uma espécie de acidente, de tempos em tempos, algumas das qualidades democráticas básicas que pertencem ao despotismo hereditário. É divertido
pensar quanta criatividade conservadora tem sido desperdiçada na defesa da
Câmara dos Lordes por homens que tentam desesperadamente provar que a
Câmara dos Lordes é formada de homens inteligentes. Há uma boa defesa
da Câmara dos Lordes, embora os admiradores da nobreza sejam
estranhamente reservados em usá-la, e tal defesa é dizer que a Câmara dos
Lordes, na integralidade das forças, é formada de homens estúpidos. Seria
realmente uma defesa plausível dessa instituição, de outra forma
indefensável, ressaltar que os homens inteligentes da Câmara dos Comuns,
os quais devem o poder à inteligência, tenham, em última instância, de ter
as decisões verificadas pelos homens comuns da Câmara dos Lordes, que
devem o poder ao acaso. Existiriam, certamente, muitas respostas a tal
alegação, como, por exemplo, a de que a Câmara dos Lordes não é mais a
Casa dos Lordes, mas a casa dos comerciantes e financistas, ou que o
grosso da nobreza comum não vota e, então, deixa a casa aos pedantes, aos
especialistas e aos velhos e loucos cavalheiros cheios de passatempos. Mas,
em algumas ocasiões, a Câmara dos Lordes, mesmo com todas as
desvantagens, é num certo sentido representativa. Quando todos os nobres
se juntaram para votar contra a segunda Home Rule Bill371 do Sr
Gladstone, por exemplo, aqueles que disseram que os nobres representavam
o povo inglês estavam perfeitamente certos. Os estimados anciãos, que por
acaso nasceram nobres, foram, naquele momento, e a respeito daquela
questão, a verdadeira contraparte de todos os prezados anciãos que por
acaso nasceram pobres ou honrados e educados homens da classe média.
Aquela multidão de nobres realmente representou o povo inglês – isto é, foi
honesta, ignorante, vagamente exaltada, quase unânime e, obviamente,
errada. É claro que a democracia racional é melhor como expressão da
vontade pública do que o método hereditário aleatório. Caso devamos ter
qualquer tipo de democracia, que seja a democracia racional. Mas, caso
tenhamos de ter qualquer tipo de oligarquia, que seja a oligarquia irracional.
Pois, assim, pelo menos, estaremos sendo governados por homens.
No entanto, o necessário para o funcionamento adequado da democracia
não é simplesmente o sistema democrático, ou mesmo a filosofia
democrática, mas a emoção democrática. A emoção democrática, como as
coisas mais elementares e indispensáveis, é algo difícil de descrever em
qualquer época. Mas, em nossa era ilustrada, é especialmente difícil de descrever, pela simples razão de que é particularmente difícil de encontrar.
Essa emoção é uma determinada atitude instintiva que sente as coisas com
as quais todos concordam como importantes demais para ser ditas, e todas
as coisas com as quais discordam (tais como a mera inteligência) como sem
importância alguma para ser ditas. O mais próximo dessa atitude na vida
comum seria a prontidão com que devemos levar em conta a simples
humanidade, qualquer que seja a circunstância, de catástrofe ou de morte.
Devemos dizer, após uma descoberta um tanto perturbadora, “Há um
homem morto debaixo do sofá”. Provavelmente não diremos “Há um
homem morto de considerável requinte debaixo do sofá”. Dizemos “Uma
mulher caiu na água”. Não diríamos “Uma mulher altamente ilustrada caiu
na água”. Ninguém diria “Os restos de um brilhante pensador estão no
quintal”. Ninguém diria “A menos que você corra e o impeça, um homem
de excelente ouvido para música pulará daquele despenhadeiro”. Mas a
emoção, que todos guardamos em relação a coisas como nascimento e
morte, é natural e permanente para algumas pessoas, em todos os tempos e
em todos os lugares. Foi natural para São Francisco de Assis.372 Foi
natural para Walt Whitman. Não podemos esperar que tal emoção, nessa
gradação estranha e esplêndida, permeie toda a comunidade ou toda a
civilização; mas uma comunidade pode tê-la muito mais que outra
comunidade, uma civilização muito mais que outra. Talvez nenhuma
comunidade a tenha tido tão pouco como os primeiros franciscanos. Talvez
nenhuma comunidade a tenha tido tão pouco quanto a nossa.
Tudo em nossa época, quando examinado com cuidado, tem essa
qualidade fundamentalmente não-democrática. Em religião e moral
devemos admitir, em abstrato, que os pecados das classes educadas são tão
numerosos quanto, ou talvez mais numerosos que, os pecados do pobre e
ignorante. Mas, na prática, a grande diferença entre a ética medieval e a
nossa é que a nossa concentra a atenção nos pecados dos ignorantes e,
praticamente, nega que os educados tenham pecados. Sempre falamos sobre
o pecado da intemperança em relação à bebida, pois é muito óbvio que o
pobre o comete mais que o rico. Mas sempre negamos que exista algo como
o pecado do orgulho, pois é muito óbvio que o rico o comete mais que o
pobre. Estamos sempre prontos a transformar um homem educado, que
visite os casebres para dar gentis conselhos aos pobres, num santo ou num
profeta. Mas a idéia medieval de santo ou profeta era algo completamente diferente. O santo ou profeta medieval era um homem iletrado que entrava
nas casas elegantes para dar gentis conselhos aos homens educados. Os
antigos tiranos tinham suficiente insolência para despojar os pobres, mas
não tinham suficiente insolência para fazer-lhes pregações. Eram os
cavalheiros que oprimiam os bairros pobres; mas eram os bairros pobres
que exortavam os cavalheiros. E assim como não somos democráticos em
fé e moral, pela nossa própria natureza de propósito em tais questões, não
somos democráticos no tom da prática política. Prova suficiente de que não
somos essencialmente democráticos é estarmos sempre imaginando o que
fazer pelos pobres. Se fôssemos democráticos, estaríamos imaginando o que
os pobres fariam por nós. Nossa classe governante está sempre dizendo:
“Que leis devemos fazer?”. Num estado puramente democrático, sempre
estariam dizendo: “Que leis podemos obedecer?”. Um estado
impecavelmente democrático talvez nunca tenha existido. No entanto, até
mesmo o período feudal era, na prática, muito mais democrático, pois todo
potentado feudal sabia que qualquer lei que fizesse iria, com toda a
probabilidade, surtir efeito sobre ele. As vestes luxuosas poderiam acabar,
caso desobedecesse a uma lei suntuária.373 Sua cabeça poderia ser cortada
por alta traição. Mas as leis modernas são quase sempre leis feitas para
produzir efeito sobre a classe governada, mas não sobre a governante.
Temos leis de licenciamento de bares, mas não leis suntuárias. Isto é, temos
leis contra a festividade e a hospitalidade dos pobres, mas não contra a
festividade e a hospitalidade dos ricos. Temos leis contra a blasfêmia – isto
é, contra um tipo de falar grosseiro e ofensivo a que ninguém, exceto um
homem rude e obscuro, provavelmente se entregaria. Mas não temos leis
contra a heresia – isto é, contra o envenenamento mental de toda a
população, em que apenas um homem próspero e proeminente teria
provável sucesso. O mal da aristocracia não é necessariamente infligir
coisas más ou sofrimentos dolorosos; o mal da aristocracia é colocar tudo
nas mãos de uma classe de pessoas que sempre pode impor o que nunca
sofrerá. O que quer que nos inflijam, seja de boa ou má intenção, faz com
que se tornem igualmente levianos. O argumento contra a atual classe
governante inglesa não é, de maneira alguma, ser egoísta; se quisermos,
podemos considerar as oligarquias inglesas por demais altruístas. O
principal argumento contra tal classe é simplesmente que, ao legislar para
todos, se exclui da legalidade.
Somos antidemocráticos, então, em religião, como provam os esforços
para “elevar” os pobres. Somos antidemocráticos em governo, como prova
a tentativa inocente de governá-los bem. Mas, acima de tudo, somos
antidemocráticos em literatura, como prova a torrente de romances e
estudos profundos sobre os pobres que jorra de nossas editoras todo mês. E
quanto mais “moderno” o livro, mais certamente estará desprovido do
sentimento democrático.
Um homem pobre é um homem que não tem muito dinheiro. Esta pode ser
uma descrição simples e desnecessária, mas diante da grande massa de
ficção e de fatos modernos parece, realmente, muito necessária. Muitos de
nossos realistas e sociólogos falam a respeito do homem pobre como se
fosse um polvo ou um crocodilo. A necessidade de estudar a psicologia da
pobreza é a mesma de estudar a psicologia do mau humor, ou a psicologia
da vaidade, ou a psicologia da coragem. Um homem deve conhecer algo
das emoções de um homem ofendido, não por estar ofendido, mas
simplesmente por ser homem. E deve conhecer algo das emoções de um
homem pobre, não por ser pobre, mas simplesmente por ser homem.
Portanto, minha primeira objeção a qualquer escritor que esteja
descrevendo a pobreza é ter estudado o assunto. Um democrata o teria
imaginado.
Muitas coisas duras têm sido ditas sobre os religiosos que se imiscuem
com os pobres e das visitas políticas e sociais à pobreza, mas certamente a
mais desprezível das visões são as incursões artísticas na pobreza. O
pregador religioso está supostamente interessado no feirante porque é um
homem; o político, num sentido obscuro e perverso, está interessado no
feirante porque é um cidadão; somente o infeliz escritor está interessado no
feirante por ser feirante. Ainda assim, enquanto estiver à procura de meras
impressões, ou, em outras palavras, de modelos para seus escritos, o ofício,
embora tedioso, é honesto. Todavia, quando se empenha em fazer crer que
está descrevendo o íntimo espiritual de um feirante, com seus vícios
obscuros e virtudes delicadas, então devemos alegar que tal pretensão é
absurda; devemos lembrá-lo de que é um jornalista e nada mais. Tem muito
menos autoridade psicológica que até mesmo o mais tolo dos missionários.
Pois, no sentido literal e derivado, é um jornalista,374 ao passo que o
missionário é um “eternalista”. O missionário, pelo menos, finge ter uma
idéia do lugar do homem em todas as eras; o jornalista apenas finge ter uma idéia disso no dia-a-dia. O missionário diz que o pobre está na mesma
condição de todos os homens. O jornalista trata de dizer aos outros o quão
diferente de todos é o pobre.
Caso os romances modernos sobre os bairros pobres, tais como os contos
do Sr Arthur Morrison,375 ou os sumamente talentosos romances do Sr
Somerset Maugham,376 se destinem a ser sensacionais, só posso dizer que
esse é um objetivo razoável e nobre, e que tais autores o alcançam. Uma
sensação, um choque para a imaginação, como o contato com a água fria, é
sempre uma coisa boa e estimulante; e, sem dúvida, os homens sempre
procurarão essa sensação (entre outras) na forma de estudo das
excentricidades de povos remotos e estrangeiros. No século XII, os homens
obtinham essa sensação a partir da leitura sobre os cinocéfalos da
África.377 No século xx, obtêm-na da leitura sobre os bôeres cabeças-duras
da África.378 Os homens do século XII foram certamente, temos de admitir,
dentre esses dois tipos, os mais crédulos. Pois não há registros de homens,
no século XII, que organizassem uma cruzada sanguinária com o propósito
único de alterar a singular formação das cabeças dos africanos. No entanto,
pode ser até legítimo, já que tais monstros desapareceram da mitologia
popular, haver a necessidade na ficção da imagem do horrível e perigoso
morador do East End apenas para manter viva em nós a admiração infantil
em relação a peculiaridades externas. Mas a Idade Média (com muito mais
senso comum do que hoje seria de bom tom admitir) considerava a história
natural uma realidade e não um tipo de piada; considerava a alma uma coisa
muito importante. Portanto, embora tivesse uma história natural dos
cinocéfalos, não admitia ter uma psicologia para homens com cabeça de
cão. Não confessava ter um modelo da mente de um cinocéfalo,
compartilhar dos mais delicados segredos, ou reconstruir os devaneios mais
celestiais. A Idade Média não escreveu romances sobre a criatura
semicanina, atribuindo-lhe todas as mais antigas morbidades e todas as mais
recentes novidades. É lícito apresentar os homens como monstros, caso
queiramos fazer o leitor ter um sobressalto; e fazer qualquer pessoa se
abalar é sempre um ato cristão. Mas não é admissível apresentar homens
que se vêem como monstros, ou que têm sobressaltos consigo mesmos. Em
suma, a ficção que trata dos bairros mais pobres é muito defensável como
ficção estética; não é defensável como fato espiritual.
Um enorme obstáculo obstrui o caminho da realidade nesse tipo de ficção.
Os homens que a escrevem, e os que a lêem, são homens de classe média ou
alta; ao menos, pertencem às classes vagamente tidas como letradas.
Portanto, o fato de a vida ser da forma como o homem requintado a vê
prova que ela não pode ser como o homem vulgar a vive. Homens ricos
escrevem histórias sobre homens pobres, e descrevem-nos com um falar
grosseiro, pesado e rude. Mas se os homens pobres escrevessem romances
sobre mim, ou sobre vocês, descreveriam-nos com um falar esganiçado e
afetado, tal como somente ouvimos nas duquesas de farsas em três atos. O
romancista dos pobres consegue certo efeito porque algum detalhe é
estranho ao leitor; mas esse detalhe, pela natureza da situação, não pode ser,
por si só, estranho. O detalhe não pode ser estranho à alma que o afirma
estudar. O romancista dos bairros pobres tira todo o efeito ao descrever a
névoa cinzenta que envolve tanto a fábrica sombria quanto a taverna
sombria. Mas, para o homem que o romancista supostamente analisa, deve
haver exatamente a mesma diferença entre a fábrica e a taverna que existe,
para o homem de classe média, entre o serão no escritório e o jantar no
restaurante Pagani’s.379 O romancista das classes operárias fica satisfeito
em ressaltar para sua classe particular que uma enxada parece suja e que
uma panela de latão parece suja. Mas o homem que o escritor supostamente
estuda consegue ver a diferença entre elas exatamente como um caixa de
banco vê a diferença entre um livro-caixa e uma edição de luxo de uma
obra. O contraste da vida fica inevitavelmente perdido; pois, para nós, as
luzes mais brilhantes e as sombras se transformam em cinza pálido. Mas
luzes e sombras não são cinza nesta vida nem em qualquer outra. O tipo de
homem que realmente consegue expressar os prazeres do pobre também
teria de ser o tipo de homem que os conseguisse compartilhar. Em suma,
esses livros não testemunham a psicologia da pobreza. São relatórios da
psicologia da riqueza e da cultura quando em contato com a pobreza. Não
descrevem o estado dos bairros pobres; são apenas a descrição sombria e
sinistra do estado dos moradores dos bairros mais carentes.
Podemos dar inumeráveis exemplos da qualidade essencialmente
antipática e impopular de tais escritores realistas. Talvez o exemplo mais
simples e óbvio que podemos concluir seja o simples fato de esses
escritores serem realistas. Os pobres têm muitos outros vícios, mas, ao
menos, nunca são realistas. Os pobres são melodramáticos e românticos inveterados; todo pobre acredita em lugares-comuns em termos de moral e
em máximas triviais. Provavelmente seja este o significado último do
grande dito, “Bem-aventurados os pobres”.380 Bem-aventurados os pobres,
pois sempre estão a ganhar a vida, ou tentando ganhar a vida, como numa
peça do Adelphi.381 Alguns educadores e filantropos inocentes (pois até os
filantropos podem ser inocentes) expressaram um grande espanto em
relação à preferência das massas por romances “água com açúcar” baratos a
tratados científicos, bem como se espantam por preferirem melodramas a
dramas sociais. O motivo é muito simples. A história realista é certamente
mais artística do que a história melodramática. Caso desejemos um
tratamento habilidoso, proporções delicadas e uma atmosfera artística
única, a história realista tem total vantagem sobre o melodrama. Em tudo o
que é claro, brilhante e ornamental, a história realista tem total vantagem
sobre o melodrama. Contudo, ao final, o melodrama tem uma vantagem
inquestionável sobre a história realista. O melodrama é muito mais parecido
com a vida. É muito mais parecido com o homem, e especialmente com o
homem pobre. É muito banal e nada artístico quando uma mulher pobre diz,
no Adelphi, “Você pensa que vou vender meu próprio filho?”. No entanto, a
mulher pobre na Battersea High Road realmente diz “Você pensa que vou
vender meu próprio filho?”. Dizem isso em todas as ocasiões possíveis e
podemos ouvir uma espécie de murmúrio ou balbucio ao longo de toda a
rua. Um exemplo muito obsoleto e débil de arte dramática (se é que isso é
arte) ocorre quando um trabalhador confronta o chefe e diz: “Sou homem!”.
No entanto, um trabalhador realmente diz “sou homem”, umas duas ou três
vezes por dia. De fato, pode ser maçante ouvir os melodramas dos pobres
na ribalta; no entanto, isso ocorre porque sempre podemos ouvir pobres
sendo melodramáticos nas ruas. Em suma, se é maçante o melodrama, ele o
é por ser demasiado preciso. De certa forma, um problema similar aparece
no caso dos romances colegiais. Stalky and Co.,382 do Sr Kipling, é muito
mais divertido (caso falemos de divertimento) do que Eric; or, Little by
Little, do Deão Farrar.383 Mas Eric é incomensuravelmente mais parecido
com a vida escolar. Pois a real vida escolar, a verdadeira mocidade, está
repleta de coisas que abundam em Eric – pedantismo, piedade imperfeita,
pecados tolos, uma tentativa débil, mas contínua, de ser heróico, numa
palavra: um melodrama. E se desejarmos lançar bases firmes para qualquer
esforço de ajuda aos pobres, não devemos nos tornar realistas e vê-los de uma perspectiva externa. Devemos nos tornar melodramáticos e vê-los de
uma perspectiva interna. O romancista não deve tomar o caderno de notas e
dizer: “Sou um especialista”. Não; deve imitar o trabalhador na peça do
Adelphi. Deve bater no peito e dizer: “Sou homem!”.
367 George William Frederick (1738–1820) foi rei da Grã-Bretanha e rei da Irlanda, coroado em 1761. Foi durante o período de seu reinado que o mundo assistiu à Revolução Norte-Americana, a Revolução Francesa e as guerras napoleônicas. Embora tenha sido visto como tirano pelos colonos norte-americanos, e, posteriormente, pelos historiadores do século XIX, na Inglaterra era retratado pelos satiristas como o “fazendeiro George”, por preferir interesses mundanos aos grandes temas da política.
368 William Henry (1765–1837). Terceiro filho de George III e, posteriormente, rei William IV. Também tinha hábitos caseiros e teve dez filhos ilegítimos com uma atriz com quem viveu por vinte anos. Posteriormente contraiu matrimônio com a duquesa Adelaide de Saxe-Meiningen (1792–1849), cujos filhos não chegaram à idade adulta. Foi sucedido no trono pela sobrinha, que veio a ser coroada como Rainha Vitória.
369 Arthur James Balfour (1848–1930), político conservador, foi líder da Câmara dos Comuns na década de 1890, membro do gabinete de negociações da República do Transvaal, em 1899, e primeiro-ministro da Inglaterra de 1902 a 1905.
370 George Wyndham (1863–1913), político conservador e homem de letras. Foi secretário privado do Sr Balfour e Secretário para a Irlanda de 1900 a 1905.
371 Lei de 1893, escrita e submetida ao parlamento por Sr William E. Gladstone (1809–1898), então primeiro-ministro. Foi aprovada pela Câmara dos Comuns, mas vetada pela Câmara dos Lordes, e tentava estabelecer as bases para o governo autônomo da Irlanda.
372 Batizado como Giovanni di Pietro di Bernardonne (1181–1226), posteriormente teve o nome mudado para Francisco. Após de uma juventude irrequieta e mundana, voltou-se para a vida religiosa e fez votos de completa pobreza, fundando a ordem mendicante dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos – verdadeiros renovadores do catolicismo de seu tempo. Até hoje é um santo católico de enorme prestígio.
373 Lei de exceção que, em época de crise econômica, restringe gastos do governo e particulares em itens luxuosos ou supérfluos.
374 O jogo de palavras aqui se explica pela origem do termo "jornal", derivado do italiano giornale, ou seja, o que se refere a um único dia.
375 Arthur Morrison (1863–1945) foi um jornalista e romancista nascido no East End londrino, conhecido por escrever histórias dos bairros pobres de Londres, tais como Tales of Mean Streets (1864) e A Child of the Jago (1896).
376 William Somerset Maugham (1874–1965) foi um famoso romancista e dramaturgo inglês. Ficou mais conhecido pelos romances escritos após 1905, mas usou sua experiência de estudante de medicina como pano de fundo para o romance naturalista Liza of Lambeth [em português, O pecado de Liza], de 1897.
377 Os mitos com cinocéfalos tiveram diversas representações durante a Idade Média, numa imagem evocativa de magia e brutalidade dos habitantes de lugares distantes: Agostinho (354–430), Isidoro de Sevilha (560–636), Paulo Diácono (720–799), Adão de Bremen (1050–1085?), entre outros, descreveram cinocéfalos como verdadeiros antropófagos. São Jerônimo (347–420) confirmou a existência desses seres e, na Igreja Ortodoxa, existem certos ícones que retratam a figura de São Cristóvão (século III), antes da conversão, com cabeça de cachorro. No Reino Unido foram encontradas algumas esculturas célticas representando homens com cabeças de lobos.
378 Há aqui um jogo de palavras: dog-headed, que significa cinocéfalo ou cabeça de cão – uma figura mitológica – e pig-headed [literalmente, cabeça de porco], que significa obstinado, cabeçudo.
379 Restaurante na Great Portland Street, no West End londrino, famoso por reunir vários grupos, de artistas e músicos a maçons. Parte do restaurante foi bombardeada em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, mas o estabelecimento existe até os dias de hoje. No restaurante acontecia, por exemplo, os encontros do Omar Khayyām Club, que desde 1892 e nos quarenta anos seguintes lá se reuniu para comer e beber em homenagem ao poeta persa e a seu tradutor para o inglês (sobre a análise de Chesterton a respeito de Omar Khayyām, ver capítulo VII).
380 Lc 6,20.
381 O teatro Adelphi, que existe até os dias de hoje, foi fundado em Londres, em 1806, e ficou famoso por seus melodramas.
382 Livro publicado em 1899 como uma coletânea de contos que relata as experiências colegiais de meninos ingleses numa Boarding School. Uma das personagens foi baseada no próprio autor e as histórias têm por base suas experiências como aluno no United Service College.
383 Frederic William Farrar (1831–1903), clérigo e, posteriormente, deão de Canterbury. Escreveu o referido romance colegial, em 1858, em que descreve as impudicícias colegiais de Eric numa escola pública. No entanto, já no prefácio o autor justifica a obra da seguinte forma: “A história de Eric foi escrita com um único propósito: inculcar de forma vívida a pureza interior e o propósito moral, por intermédio da história de um menino que apesar da inerente nobreza de disposição, cai em loucuras e maldades até aprender a buscar o socorro que vem do alto”.