Hereges

G. K. Chesterton · Capítulo 27 de 37

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XVIII. A falácia da jovem nação

CAPÍTULO XVIII

A falácia da jovem nação

 

D IZER QUE UM homem é um idealista é simplesmente dizer que é um homem; não obstante, é possível fazer algumas distinções convincentes entre um tipo e outro de idealista. Uma distinção possível

deve ser feita ao dizer, por exemplo, que a humanidade está dividida entre

idealistas conscientes e inconscientes. Da mesma forma, a humanidade está

dividida em ritualistas conscientes e inconscientes. O curioso, neste assim

como noutros exemplos, é o ritualismo consciente ser comparativamente

simples; o ritual inconsciente é o que é realmente pesado e complicado. O

ritual comparativamente primitivo e direto é o que as pessoas chamam de

“ritualístico”. Compreende coisas simples como pão, vinho, fogo e homens

prostrando-se com o rosto por terra. Mas o ritual realmente complexo,

muito colorido e elaborado, desnecessariamente formal, é o ritual em que as

pessoas tomam parte sem conhecer. Não envolve coisas simples como

vinho e fogo, mas coisas realmente especiais, locais, excepcionais e

engenhosas – como tapetes, aldravas, campainhas, chapéus de seda,

gravatas brancas, cartões brilhantes e confetes. A verdade é que o homem

moderno dificilmente se volta às coisas antigas e simples a não ser quando

executa alguma pantomima religiosa. O homem moderno dificilmente deixa

o ritual exceto ao entrar numa igreja ritualística. No caso das antigas

formalidades místicas, podemos ao menos dizer que o ritual não é um mero

ritual; que os símbolos usados são, na maioria dos casos, símbolos que

pertencem à primitiva poesia humana. O mais feroz oponente das

cerimônias cristãs deve admitir que se o catolicismo não tivesse instituído o

pão e vinho, alguém provavelmente o teria feito. Qualquer um com talento

poético admitirá que, para o instinto humano comum, o pão simboliza algo

que não pode ser facilmente simbolizado de outra forma; que o vinho, para

o instinto humano comum, simboliza algo que não pode ser facilmente

simbolizado de outra forma. Mas gravatas brancas ao anoitecer são um

ritual,344 e nada além de um ritual. Ninguém poderia pensar que gravatas brancas ao anoitecer fossem poéticas e primitivas. Ninguém defenderia que

o instinto humano comum, em qualquer época ou país, tende a simbolizar a

idéia de anoitecer por uma gravata branca. Ao contrário, o instinto humano

comum, imagino, tenderia a simbolizar o anoitecer com cachecóis de

algumas cores do pôr-do-sol; não com gravatas brancas, mas gravatas

fulvas ou carmesins – gravatas púrpuras ou verde-oliva, ou mesmo

dourado-escuras. O Sr J.A. Kensit,345 por exemplo, está convencido de que

não é um ritualista. Mas a vida diária do Sr J.A. Kensit, como a de qualquer

homem moderno, é, de fato, um contínuo catálogo condensado de

encenações e disparates místicos. Tomando um exemplo de inevitáveis

centenas: imagino que o Sr Kensit levante o chapéu para uma senhora; e o

que pode ser mais solene e absurdo, se considerado em abstrato, do que

simbolizar a existência do outro sexo retirando uma parte da vestimenta e

fazendo um aceno? Isso, repito, não é um símbolo natural e primitivo, como

fogo ou comida. Um homem poderia, da mesma forma, tirar o paletó para

as senhoras; e se um homem, pelo ritual social de sua civilização, tivesse de

tirar o paletó para uma senhora, todo homem sensato e cavalheiro tiraria o

paletó para as senhoras. Em suma, o Sr Kensit, e aqueles que concordam

com ele, podem pensar, e sinceramente pensam, que os homens despendem

muito incenso e cerimônia na adoração do outro mundo. Mas ninguém crê

que despenda muito incenso e cerimônia na adoração deste mundo.

Todos os homens são, então, ritualistas, mas são ritualistas conscientes ou

inconscientes. Os ritualistas conscientes estão geralmente satisfeitos com

muito poucos símbolos simples e elementares; os ritualistas inconscientes

não estão satisfeitos com nada a não ser a totalidade da vida humana,

tornando-se ritualistas de um modo quase insano. Os primeiros são

chamados de ritualistas porque inventam e recordam um rito; os outros são

chamados anti-ritualistas porque obedecem e esquecem milhares de ritos. E

uma distinção um tanto parecida com essa, que descrevi com inevitável

minúcia entre o ritualista consciente e o inconsciente, existe entre o

idealista consciente e o inconsciente. É inútil falar mal dos cínicos e dos

materialistas – não há cínicos, não há materialistas. Todo homem é

idealista; o que acontece muitas vezes é ter o ideal errado. Todo homem é

incuravelmente sentimental; mas, infelizmente, é um sentimento muitas

vezes falso. Quando comentamos, por exemplo, sobre algum inescrupuloso

comerciante, e dizemos que tal pessoa faria tudo por dinheiro, usamos uma expressão muito imprecisa, e o difamamos excessivamente. Ele não faria

tudo por dinheiro. Faria algumas coisas por dinheiro; venderia a alma por

dinheiro, por exemplo; e, como disse Mirabeau346 com muito senso de

humor, ele não seria tão sábio a ponto de “confundir dinheiro com

estrume”. Oprimiria os homens por dinheiro; mas ocorre que homens e

alma não são coisas em que acredita; não são seus ideais. Mas possui ideais

delicados e obscuros; e não os violaria por dinheiro. Não tomaria uma sopa

diretamente da sopeira por dinheiro. Não vestiria a cauda da casaca voltada

para a frente por dinheiro. Não divulgaria um relatório médico que atestasse

sua degeneração cerebral por dinheiro. Na prática real da vida atual

descobrimos, na questão do ideal, exatamente o que já descobrimos na

questão do ritual. Descobrimos que, apesar de existir um perigo

perfeitamente genuíno de fanatismo nos homens que têm ideais espirituais,

o perigo urgente e permanente de fanatismo vem dos homens que têm ideais

mundanos.

As pessoas que dizem que um ideal é uma coisa perigosa, que ilude e

inebria, estão perfeitamente corretas. Contudo, o ideal que nos inebria mais

é o tipo menos idealista de ideal. O ideal que nos inebria menos é o ideal

propriamente ideal; que nos torna sóbrios repentinamente, como o fazem

todas as alturas, precipícios e grandes distâncias. Mesmo admitindo ser um

grande mal confundir um promontório com uma nuvem, mesmo assim a

nuvem que pode ser facilmente confundida com um promontório é a nuvem

que está mais próxima da terra. Igualmente, podemos concordar que possa

ser perigoso confundir um ideal com algo prático. Mas devemos ainda

observar que, neste aspecto, o mais perigoso de todos os ideais é o ideal que

parece ligeiramente prático. É difícil atingir um ideal elevado;

conseqüentemente é quase impossível persuadirmo-nos de que o atingimos.

Mas é fácil atingir um ideal inferior; conseqüentemente é ainda mais fácil

persuadirmo-nos que o atingimos quando nem de longe o alcançamos.

Tomemos um exemplo fortuito. Poderíamos considerar uma ambição

elevada o desejo de nos tornarmos arcanjos; o homem que nutre tal ideal

exibiria, muito provavelmente, traços de ascetismo, ou mesmo de

arrebatamento, mas não, creio, de delírio. Não pensaria ser um arcanjo e

começaria a balançar os braços como se fossem asas. Mas suponhamos que

um homem sadio tivesse um ideal menor; suponhamos que desejasse ser um

cavalheiro. Qualquer um que conheça o mundo sabe que em três meses teria se convencido de que era um cavalheiro; e, não sendo este obviamente o

caso, o resultado seria o de verdadeiras deslocações práticas e calamidades

na vida social. Não são os ideais extravagantes que arruínam o mundo

prático, são os ideais humildes.

A questão, talvez, possa ser ilustrada por um paralelo com nossos políticos

modernos. Quando os homens nos dizem que os velhos políticos liberais do

tipo de um Gladstone apenas se preocupavam com ideais, estão, claramente,

falando tolices – preocupavam-se com muitas outras coisas, até mesmo com

votos. E quando dizem que os modernos políticos do tipo do Sr

Chamberlain ou, de outra forma, de lorde Rosebery, apenas se preocupam

com votos ou com interesses materiais, estão novamente falando tolices –

esses homens se preocupam com ideais, como todos os outros homens. Mas

a verdadeira distinção que pode ser feita é esta: para os políticos mais

antigos, o ideal era um ideal, e nada mais. Para os políticos modernos, seus

sonhos não são somente bons sonhos, são realidades. O antigo político

diria: “Seria bom que houvesse uma Federação de Repúblicas que

dominasse o mundo”. Mas o político moderno não diz: “Seria bom que o

imperialismo britânico dominasse o mundo”. Ele diz: “É bom que exista o

imperialismo britânico dominando o mundo”, visto que não há nada disso.

O antigo liberal diria: “Deveria haver um bom governo irlandês na Irlanda”.

Mas o moderno unionista347 não diz: “Deveria haver um bom governo

inglês na Irlanda”. Ele diz: “Há um bom governo inglês na Irlanda”, o que é

um absurdo. Em suma, os políticos modernos parecem pensar que um

homem se torna prático apenas por fazer asserções sobre coisas totalmente

práticas. Parece que não importa a ilusão, desde que seja uma ilusão

materialista. A maioria de nós, instintivamente, sente que, no que diz

respeito às questões práticas, o contrário é verdadeiro. Certamente preferiria

dividir aposentos com um cavalheiro que pensasse ser Deus do que com um

cavalheiro que pensasse ser um gafanhoto. Estar continuamente assombrado

por imagens e problemas práticos, pensar constantemente nas coisas como

reais, como urgentes, como em processo terminal – tais coisas não provam

que um homem seja prático; essas coisas estão, de fato, entre os sinais mais

comuns de um lunático. O fato de nossos modernos estadistas serem

materialistas não é nada em comparação ao fato de também serem

mórbidos. Ter uma visão de anjos pode tornar alguém demasiado sobrenaturalista. Mas simplesmente ver cobras num delirium tremens não

torna a pessoa um naturalista.

E ao examinarmos realmente o sortimento de conceitos dos experientes

políticos modernos, descobrimos que tais noções são meros delírios. Um

grande número de exemplos poderia ser dado. Podemos tomar, por

exemplo, o caso de uma estranha classe de conceitos que fundamenta a

palavra “união”, e todos os louvores que sobre ela se acumulam. União não

é, em si mesma, melhor do que separação. Ter um partido a favor da união e

um partido a favor da separação é tão absurdo quanto ter um partido a favor

de subir as escadas e outro a favor de descer as escadas. A questão não é se

devemos subir ou descer as escadas, mas: para onde estamos indo, e o que

praticamos? A união é força; união é também fraqueza. É uma boa coisa

atrelar dois cavalos numa carroça; mas não é uma boa coisa transformar

duas carruagens hansom348 num veículo de quatro rodas. Unir dez nações

em um império pode ser tão factível quanto trocar dez shillings por um half-

sovereign.349 Mas pode também ser tão absurdo quanto transformar dez

terriers em um mastiff. A questão em todos os casos não é uma questão de

união ou ausência de união, mas de identidade ou ausência de identidade.

Devido a certas causas históricas e morais, duas nações podem se unir para

ajuda mútua. Assim, Inglaterra e Escócia passam o tempo em mútuos

cumprimentos corteses; mas as forças e esferas sociais correm distintas e

em paralelo, e conseqüentemente não colidem. A Escócia continua a ser

letrada e calvinista; a Inglaterra continua a ser iletrada e feliz. Mas, devido a

uma outra moral e a outras causas políticas, as duas nações podem estar

unidas apenas para se dificultarem; suas linhas se interceptam, não são

paralelas. Assim, por exemplo, a Inglaterra e a Irlanda estão tão unidas que,

às vezes, a Irlanda pode governar a Inglaterra, mas nunca pode governar a

Irlanda. Os sistemas educacionais, incluindo o último Ato Educacional,350

são aqui na Inglaterra, como no caso da Escócia, bons testes nessa questão.

A esmagadora maioria dos irlandeses acredita num rígido catolicismo; a

esmagadora maioria dos ingleses acredita num vago protestantismo. O

partido irlandês no Parlamento da Grã-Bretanha é suficientemente grande

para impedir que a educação inglesa seja indefinidamente protestante, mas

pequeno o suficiente para conseguir que a educação irlandesa seja

terminantemente católica. Temos aqui um estado de coisas cuja continuação nenhum homem, em sã consciência, jamais sonharia desejar, não estivesse

ele enfeitiçado pelo sentimentalismo da simples palavra “união”.

Este exemplo de união, contudo, não é o exemplo que desejo tomar da

arraigada falsidade e futilidade subjacente a todas as suposições do

moderno político prático. Desejo falar especialmente de outro engano muito

mais geral. Impregna as mentes e discursos de todos os homens práticos de

todos os partidos; e é um erro estúpido e infantil construído sobre uma

única falsa metáfora. Refiro-me ao moderno discurso universal sobre jovens

nações e sobre novas nações; sobre os Estados Unidos serem jovens, sobre

Nova Zelândia ser nova. Tudo é um jogo de palavras. Os Estados Unidos

não são jovens, a Nova Zelândia não é nova. É muito discutível não serem

ambos muito mais velhos que a Inglaterra ou a Irlanda.

Certamente podemos usar a metáfora da juventude a respeito dos Estados

Unidos ou das colônias, se a empregarmos de forma estrita sugerindo

somente a origem recente. Mas se a usarmos (como acontece) para

significar vigor, vivacidade, crueza, inexperiência, esperança, vida longa à

frente ou qualquer dos atributos românticos da juventude, então, fomos

claramente ludibriados por uma rançosa figura de linguagem. Podemos

perceber a questão de forma evidente ao aplicá-la a uma outra instituição

diferente da nacionalidade independente. Caso um clube chamado,

digamos, “Associação do leite e da água gasosa” tivesse sido formado

ontem, como acredito que possa ter sido, então, a “Associação do leite e da

água gasosa” é certamente um clube jovem no sentido de ter sido

estabelecido ontem, mas em nenhum outro sentido. Pode ser inteiramente

composto de velhos cavalheiros moribundos. Pode ser, ele mesmo,

moribundo. Podemos chamá-lo um clube jovem, pelo fato de ter sido

fundado ontem. Podemos chamá-lo um clube muito velho, pelo fato de,

provavelmente, falir amanhã. Tudo isso parece muito óbvio quando

expomos dessa forma. Quem quer que tenha adotado a ilusão da

comunidade-jovem em relação a um banco ou a um açougue deve ser

mandado para o manicômio. Contudo, toda a moderna noção política de que

os Estados Unidos e as colônias devam ser bastante vigorosos porque são

muito novos não tem melhor fundamentação. O fato de os Estados Unidos

terem sido fundados muito depois da Inglaterra não torna nem um pouco

mais provável que os Estados Unidos não pereçam muito antes da

Inglaterra. O fato de a Inglaterra ter existido antes das colônias não faz com que seja mais provável que continue a existir após as colônias. E quando

observamos a história atual do mundo, descobrimos que as grandes nações

européias, quase invariavelmente, sobreviveram à vitalidade de suas

colônias. Ao observamos a história atual do mundo, descobrimos que se há

uma coisa que nasce velha e morre jovem, esta é a colônia. As colônias

gregas se desmembraram muito antes da civilização grega. As colônias

espanholas se desmembraram muito antes da Espanha – tampouco parece

haver alguma razão para se duvidar da possibilidade ou mesmo

probabilidade de que a civilização colonial, cujas origens se deram graças à

Inglaterra, seja muito mais breve e muito menos vigorosa do que a própria

civilização inglesa. A nação inglesa ainda estará seguindo o caminho de

todas as nações européias quando a raça anglo-saxônica tiver seguido todos

os modismos. A questão interessante é certamente esta: no caso dos Estados

Unidos ou das colônias, temos provas reais de uma juventude moral ou

intelectual além da inquestionável trivialidade de uma juventude meramente

cronológica? Conscientemente ou não, sabemos que não temos tais provas,

e conscientemente ou não, portanto, continuamos a forjá-las. Dessa pura e

plácida invenção, um bom exemplo pode ser encontrado num recente

poema do Sr Rudyard Kipling. Ao falar do povo inglês e da Guerra da sul-

africana, o Sr Kipling diz que “adulamos as jovens nações por ter homens

que podiam atirar e cavalgar”.351 Alguns consideram essa frase ultrajante.

Tudo que me interessa aqui é o fato evidente de ela não ser verdadeira. As

colônias enviam tropas voluntárias muito úteis, mas não as melhores tropas,

nem as que conseguem as maiores proezas. O melhor trabalho de guerra no

lado inglês foi feito, como esperado, pelos melhores regimentos ingleses.

Os homens que podiam atirar e cavalgar não eram os entusiásticos

comerciantes de milho de Melbourne, nem tampouco os entusiásticos

balconistas de Cheapside.352 Os homens que podiam atirar e cavalgar eram

os homens ensinados a atirar e cavalgar na disciplina do exército

permanente de uma grande potência européia. Os colonos, certamente, são

tão corajosos e atléticos quanto a média dos homens brancos. Claro que

saíram da guerra com razoável crédito. Tudo o que tenho para assinalar aqui

é que, para os propósitos da teoria da jovem nação, é necessário sustentar

que as forças coloniais foram mais úteis e mais heróicas do que os

canhoneiros de Colenso353 ou do Fighting Fifth.354 E dessa argumentação

não há, nem nunca houve, a mínima prova concreta.

Uma tentativa análoga é feita, e com um sucesso ainda menor, de

representar a literatura das colônias como algo vigoroso, importante,

recente. As revistas imperialistas estão constantemente lançando algum

gênio de Queensland ou do Canadá, que, supostamente, nos remete a um

odor de bosques ou prados. De fato, qualquer pessoa minimamente

interessada nesse tipo de literatura (e eu, de minha parte, confesso que me

interesso apenas minimamente por esse tipo de literatura), admitirá

livremente que as histórias de tais gênios não possuem nenhum odor, a não

ser de tinta de prensa tipográfica e de qualidade inferior. Por um grande

esforço de imaginação imperial, o generoso povo inglês extrai um sentido

implícito nesses trabalhos de força e de novidade. Mas a força e a novidade

não estão nos novos escritores; a força e a novidade estão nos velhos

corações do povo inglês. Quem quer que os estude imparcialmente saberá

que os escritores de primeira classe das colônias não são nem mesmo

particularmente novos em seu tom e atmosfera; não estão apenas não

produzindo um novo tipo de boa literatura, mas não estão nem mesmo, em

nenhum sentido particular, produzindo um novo tipo de má literatura. Os

escritores de primeira classe dos novos países são quase exatamente como

os escritores de segunda classe dos velhos países. Certamente sentem o

mistério das florestas, o mistério dos bosques, pois todo homem simples e

honesto sente isso em Melbourne, ou Margate355 ou South St Pancras.356

Mas quando eles escrevem da forma mais sincera e bem-sucedida, não o

fazem fundamentados no mistério do bosque, mas fundamentados, clara ou

supostamente, em nossa própria civilização romântica cockney.357 O que

realmente move suas almas com delicado terror não é o mistério das

florestas, mas O Mistério do Coche Hanson.358

Há certamente algumas exceções a essa generalização. Uma exceção

realmente notável é Olive Schreiner,359 e muito provavelmente é a exceção

que prova a regra. Olive Schreiner é uma romancista ardente, brilhante e

realista; mas é tudo isso exatamente porque não é nada inglesa. Seu

parentesco tribal é com os Teniers360 e com Maarten Maartens361 – isto é,

com um país de realistas. Seu parentesco literário é com a ficção pessimista

do continente; com os romancistas cuja própria compaixão é cruel. Olive

Schreiner é única colona inglesa que não é convencional, pela simples razão

de que a África do Sul é a única colônia inglesa que não é inglesa, e

provavelmente nunca o será. E, certamente, há exceções individuais em menor escala. Lembro-me, em particular, de alguns contos australianos do

Sr McIlwain362 que realmente eram competentes e eficazes, e que, por esta

razão, suponho, não são apresentados ao público ao som de clarins. No

entanto, minha argumentação geral, se apresentada a qualquer um que ame

as letras, não será refutada caso seja compreendida. Não é verdade que a

civilização colonial, como um todo, nos dá ou apresenta qualquer sinal de

estar nos dando uma literatura que surpreenderá ou renovará a nossa. Pode

ser uma coisa muito boa nutrirmos uma ilusão carinhosa a esse respeito;

mas isso é outra história. As colônias podem ter dado à Inglaterra uma nova

emoção; somente digo que não deram ao mundo um novo livro.

Ao tocar nas colônias britânicas, não desejo ser mal-entendido. Não estou

dizendo que as colônias, ou os Estados Unidos, não têm um futuro, ou que

não serão grandes nações. Simplesmente nego todo o conjunto moderno de

noções consagradas a respeito disso. Nego que estejam “destinadas” ao

futuro. Nego que estejam “destinadas” a ser grandes nações. Nego (é claro)

que qualquer coisa humana esteja destinada a ser qualquer coisa. Todas as

absurdas metáforas físicas, tais como juventude e velhice, vida e morte, são,

quando aplicadas a nações, nada além de tentativas pseudocientíficas de

ocultar dos homens a terrível liberdade de suas almas solitárias.

No caso dos Estados Unidos, por certo, um alerta desse tipo é urgente e

essencial. Os Estados Unidos, como qualquer outro empreendimento

humano, podem certamente, no sentido espiritual, viver ou morrer da forma

que escolherem. Mas, no presente momento, a questão que os Estados

Unidos têm de considerar muito seriamente não é quão perto estão do

nascimento e do início, mas quão perto podem estar do fim. É apenas uma

questão verbal se a civilização americana é jovem; a questão sobre estar

morrendo pode se tornar muito prática e urgente. Uma vez que tenhamos

nos desvencilhado, como inevitavelmente faremos depois de um momento

de reflexão, da imaginativa metáfora material envolvida na palavra

“jovem”, que evidência verídica temos de que os Estados Unidos são uma

força viçosa e não decadente? Possuem uma grande população, como a

China; têm muito dinheiro, como a vencida Cartago ou a moribunda

Veneza. Estão cheios de agitação e irritabilidade, como Atenas antes da

ruína, e todas as cidades gregas ao declinar. São apaixonados por coisas

novas; mas os velhos sempre são apaixonados por coisas novas. Os jovens

lêem revistas, mas os velhos lêem jornais. Admiram a força e a boa aparência; admiram a enorme beleza primitiva de suas mulheres, por

exemplo; mas também foi assim com Roma quando os godos estavam nos

portões. Tudo isso é perfeitamente compatível com tédio e declínio. Há três

formas ou símbolos principais com que uma nação se pode mostrar

essencialmente grande e satisfeita – pelo heroísmo no governo, pelo

heroísmo nas armas e pelo heroísmo nas artes. Além do governo, que é a

própria forma e corpo de uma nação, a coisa mais significante de qualquer

cidadão é a postura artística para com um feriado festivo e a atitude moral

para com uma luta – ou seja, a forma de aceitar a vida e a forma de aceitar a

morte.

Submetidos a tais testes eternos, os Estados Unidos não parecem, de modo

nenhum, puros e intocados. Aparecem com todas as fraquezas e desgastes

da moderna Inglaterra ou de qualquer potência ocidental. Na política, estão

divididos como a Inglaterra, entre o selvagem oportunismo e a

insinceridade. Na guerra e no posicionamento nacional frente à guerra, as

similaridades com a Inglaterra são ainda mais manifestas e deprimentes.

Podemos dizer, com razoável precisão, que há três estágios na vida de um

povo forte. No princípio, é uma pequena potência e luta com pequenas

potências. Em seguida se torna uma grande potência e luta contra grandes

potências. Então é uma grande potência e luta contra pequenas potências,

mas finge que são grandes potências, para reacender as cinzas da antiga

emoção e vaidade. Depois disso, o próximo passo é se tornar uma pequena

potência. A Inglaterra exibiu esse sintoma de decadência de forma muito

visível na guerra com o Transvaal;363 mas os Estados Unidos exibiram-no

ainda mais na guerra contra a Espanha.364 Aí foi mostrado, mais aguda e

absurdamente do que em qualquer outro lugar, o irônico contraste entre uma

escolha descuidada de uma linha de defesa forte e uma escolha cuidadosa

de um inimigo fraco. Os Estados Unidos adicionaram aos outros elementos

bizantinos e romanos tardios os elementos do triunfo de Caracala,365 o

triunfo sobre ninguém.

Mas ao chegarmos ao último teste da nacionalidade, o teste da arte e das

letras, o caso é quase terrível. As colônias britânicas não produziram

nenhum grande artista; e esse fato pode provar que ainda estão cheias de

possibilidades silenciosas e de forças armazenadas. Mas os Estados Unidos

produziram grandes artistas. E esse fato certamente prova que estão repletos

de uma boa futilidade e do fim de todas as coisas. Quaisquer que sejam os americanos de gênio, não são jovens deuses construindo um novo mundo.

Será a arte de Whistler corajosa, primitiva, feliz e impetuosa? Será que o Sr

Henry James366 nos infecta com o espírito de um colegial? Não; as

colônias ainda não falaram, e estão a salvo. O silêncio delas pode ser o

silêncio de um nascituro. Mas, dos Estados Unidos, vem um lamento doce e

assustador, tão inequívoco quando o lamento de um moribundo.

 

344 “White tie” [literalmente, gravata branca] é o código para o vestuário masculino de extrema formalidade. No Brasil costumamos tomar outra peça do vestuário, a casaca, como código de vestuário mais formal. Os trajes formais devem ser usados à noite em eventos como bailes de gala, óperas e banquetes com chefes de Estado, cerimônias protocolares, entre outros, e só podem ser usados ao anoitecer, ou após as 18h00, o que quer que ocorra primeiro. Optamos por deixar a tradução literal para não inviabilizar o exemplo de Chesterton, embora o autor esteja se referindo ao traje de extrema formalidade.

345 John Albert Kensit (1881–1939), agitador protestante autor de diversos panfletos em que a Igreja de Roma figurava como parte de uma rede de subversão mundial. Era filho do também agitador protestante John Kensit (1853–1902) que fundou Protestant Truth Society em 1889, uma associação totalmente anti-ritualista que se opunha à aproximação ritualística da Igreja Católica Romana com a Igreja da Inglaterra e a própria “romanização” do país pela excessiva influência do movimento de Oxford.

346 O jornalista, escritor e político francês Honoré Gabriel Riqueti (1749–1791), conde de Mirabeau, foi um dos líderes da Revolução Francesa, destacando-se como líder do grupo de moderados que pretendiam uma transição do absolutismo para a monarquia constitucional. Por conta de sua retórica, recebeu o epíteto de “orador do povo”. O conde de Mirabeau era filho do economista fisiocrata e filósofo iluminista, Victor Riqueti (1715–1789), marquês de Mirabeau.

347 Referência ao Unionismo, uma crença na conveniência de um completo relacionamento constitucional e institucional entre a Irlanda e a Grã-Bretanha baseado nos termos do Act of Union de 1800, que fundiu os referidos países, em 1801, como Reino Unido. A expressão deve sua origem às campanhas feitas pelos opositores da autonomia irlandesa ao final do século XIX e início do século XX, para evitar a criação de um parlamento autônomo totalmente irlandês dentro do Reino Unido. Por causa do desejo de manter o Act of Union como havia sido criado em 1800, sem qualquer sistema de delegação, ficaram conhecidos como unionistas.

348 Carruagens de duas rodas que tomaram o nome de seu inventor, Joseph Alysius Hansom (1802–1882). Carregavam dois passageiros e o cocheiro ficava do lado de fora, atrás da cabine dos passageiros. Nas duas últimas décadas do século XIX tais veículos infestaram as ruas de Londres.

349 O sistema monetário inglês na época de Chesterton não seguia o sistema centesimal internacional, só adotado em 1971. Assim, uma moeda de shilling (ou xelim) equivalia a doze pence (ou pêni) e vinte shillings faziam uma libra. Um sovereign (soberano) era uma moeda com a efígie do soberano, mas cunhada em ouro e equivalia a uma libra (ou vinte shillings). Portanto, dez moedas de shilling equivaliam a uma moeda de half-sovereign (meio soberano).

350 Referência ao Ato Educacional de 1902, já mencionado no cap. I do presente livro.

351 “We fawned on the younger nations for the men that could shoot and ride”. É um verso do poema de Rudyard Kipling (1865–1936) chamado The Islanders, de 1902, que apareceu pela primeira vez no Times. Por externar uma virulenta fúria, o poema não foi bem recebido pelo público, que o tomou como uma afronta aos valores da sociedade. O verso 30, citado por Chesterton, referia-se aos 30.000 voluntários das colônias que lutaram ao lado dos ingleses na Guerra dos Bôeres. Como homens de interior, alguns colonos possuíam talentos que, se comparados aos voluntários ingleses da cidade, pareciam superiores, como, por exemplo, atirar com precisão e cavalgar com destreza.

352 Cheapside era considerada, na época de Chesterton, como a maior avenida da cidade de Londres. Nela se concentravam os principais mercados produtores de Londres.

353 Cidade sul-africana em torno da qual se lutou a Batalha de Colenso (15 de dezembro de 1899), última de três batalhas que infligiu ao Exército Britânico uma derrota humilhante na Guerra dos Bôeres. Embora a coragem do general Sir Redvers Henry Buller (1839–1908) tenha sido heróica, foi inútil tentar cruzar o rio Tugela, a oeste, para libertar a cidade de Ladysmith. Nesta ocasião as tropas britânicas tiveram 1.127 baixas e foram forçadas a abandonar 10 peças de artilharia, capturadas pelos bôeres.

354 Referência a 5ª Brigada, comandada pelo general Arthur Fitzroy Hart-Synnot (1844–1910) que marchou, no episódio de Colenso, com a tropa até uma curva fechada do rio Tugela e fracassou, da mesma forma que os comandados pelo general Redvers Buller (1839–1908). Tal manobra os levou a receber fogo cruzado em três frentes.

355 Cidade litorânea no distrito de Thanet em East Kent, na Inglaterra.

356 Bairro na parte central de Londres.

357 Termo que designa tanto a região do East End londrino quanto seus habitantes, que possuem sotaque e dialeto próprios.

358 Referência ao romance The Mystery of a Hanson Cab, do romancista inglês Ferguson Wright Hume (1859–1932), publicado em 1886. A história se passa na cidade de Melbourne na Austrália, na época da corrida do ouro. Foi considerado o romance policial mais vendido do século XIX e inspirou A. Conan Doyle (1859–1930) a escrever histórias do gênero.

359 Olive Emile Albertina Schreiner (1855–1920) foi uma escritora sul-africana, pacifista e ativista política. Ficou conhecida pelo romance The Story of an African Farm de 1883, em que abordava questões como o agnosticismo e o modo de tratar as mulheres.

360 Família de pintores flamengos dos séculos XVII e XVIII.

361 Nome artístico do escritor Jozue Marius Willem van der Poorten Schwartz (1858–1915), holandês de nascimento, mas inglês por vocação. Escreveu histórias policiais como The Black Box Murder (1890), entre outros romances e contos.

362 Na verdade, Chesterton erra a grafia do nome do escritor irlandês Herbert C. MacIlwaine (1859–?) que passou boa parte da vida na Austrália e escreveu Martyrs of Empire or Dinkinbar: A Romance of an Australian Stockrider (1898) e muitos outros romances ambientados na colônia. Chesterton deveria estar se referindo à coletânea de histórias do autor, lançada em 1903, chamada The Undersong.

363 Guerra movida pelos ingleses, na tentativa de anexar a República do Transvaal, em 1877. Como os colonos não aceitaram a anexação, foi declarada a Primeira Guerra dos Bôeres (1880–1881), mas o Transvaal só se tornou inglês na Segunda Guerra dos Bôeres (1899–1902).

364 A Guerra Hispano-Americana ocorreu em 1899, que acabou na vitória americana e no controle das antigas colônias espanholas no Caribe e no oceano Pacífico.

365 Marcus Aurelius Antoninus (188–211), conhecido como Caracala, foi imperador romano de 198 a 217 e se notabilizou pela crueldade. Era filho do imperador Lúcio Sétimo Severo (145–211), que chegou ao trono após uma guerra civil. Após a morte do pai, Caracala assassinou o irmão Públio Sétimo Geta (189–211) para não ter de dividir o trono. O reinado de Caracala foi descrito como “uma série de crueldades e extorsões”.

366 Henry James (1843–1916) foi um escritor norte-americano, naturalizado britânico em 1915. Foi uma das principais figuras do realismo na literatura do século XIX. Era filho do teólogo Henry James Sênior (1811–1882) e irmão do importante filósofo e psicólogo William James (1842–1910).