Hereges
VIII. A brandura da imprensa marrom
CAPÍTULO VIII
A brandura da imprensa marrom167
H OJE EM DIA há protestos de todos os lados contra a influência do novo jornalismo associado aos nomes de Sir Alfred Harmsworth 168 e do Sr Pearson. 169 Mas quase todos os que atacam esse jornalismo o fazem por
ser muito sensacionalista, violento, vulgar e alarmante. Não falo movido
por contrariedade, mas pela simplicidade de uma impressão pessoal, quando
digo que esse jornalismo irrita por não ser suficientemente sensacionalista
ou violento. O verdadeiro vício não é ser alarmante, mas quase
insuportavelmente enfadonho. O objetivo é, exatamente, manter certo nível
de coisas esperadas e de lugares-comuns; deve ser vulgar, mas também
deve ter o cuidado de ser superficial. Não há, de forma alguma, nada
daquela aflição plebéia que pode ser ouvida de um motorista de táxi comum
numa rua qualquer. Ouvimos falar de certo padrão de decoro que exige que
as coisas devam ser divertidas sem vulgaridade. Contudo, este padrão de
decoro exige que, caso as coisas sejam vulgares, devam ser vulgares sem
serem divertidas. Esse jornalismo não é apenas incapaz de exagerar a vida –
ele positivamente a subestima; e tem de fazer isso porque se destina à
recreação leve e lânguida de homens que a selvageria da vida moderna
levou à exaustão. Essa não é, em absoluto, a imprensa marrom; é a
imprensa banal. Sir Alfred Harmsworth não deve dirigir ao balconista
exaurido nenhuma observação mais inteligente do que a que este balconista
seria capaz de dirigir a Sir Alfred Harmsworth. Não deve expor ninguém
(isto é, alguém importante), não deve ofender ninguém, não deve nem
mesmo agradar, por demais, quem quer que seja. Uma idéia geral e
imprecisa de que, apesar de tudo, nossa imprensa marrom é sensacionalista
surge de acidentes externos, tais como letras grandes e manchetes lúgubres.
É bem verdade que tais editores imprimem tudo o que podem em grandes
letras maiúsculas. Porém o fazem, não porque seja espalhafatoso, mas por
ser tranqüilizador. Para pessoas totalmente esgotadas e parcialmente
bêbadas em trens pouco iluminados é uma simplificação e um conforto ver as coisas apresentadas de maneira ampla e óbvia. Os editores usam letras
gigantes ao tratar com os leitores, exatamente pela mesma razão que pais e
professoras usam letras gigantes similares ao ensinar as crianças a ler. As
professoras primárias não usam um “A” do tamanho de uma ferradura para
fazer a criança ter um sobressalto; ao contrário, o utilizam para trazer
conforto, para tornar as coisas mais suaves, mais evidentes. Da mesma
natureza é a obscura e pacata escola para senhoras mantida por Sir Alfred
Harmsworth e pelo Sr Pearson. Todas as opiniões são opiniões de cartilha –
isto é, são opiniões com as quais o aluno já está respeitosamente
familiarizado. As mais bárbaras reportagens são páginas arrancadas de um
caderno de caligrafia.
Do verdadeiro jornalismo sensacionalista, como existe na França, na
Irlanda e nos Estados Unidos, não vemos, neste país, o menor vestígio.
Quando um jornalista na Irlanda deseja causar emoção, cria algo que vale a
pena ser comentado. Denuncia um importante político irlandês por
corrupção ou acusa todo o sistema policial de uma perversa conspiração.
Quando um jornalista francês deseja um frisson, o frisson acontece.
Descobre, digamos, que o Presidente da República assassinou três esposas.
Nossos jornalistas sensacionalistas inventam coisas tão inescrupulosas
quanto estas; a condição moral deles é, quanto à veracidade, quase a
mesma, mas o calibre mental é tal que só conseguem inventar coisas calmas
e tranqüilizadoras. A versão imaginária do massacre dos enviados a Pequim
foi mentirosa,170 mas nem por isso interessante, exceto para aqueles que
tinham razões pessoais para se sentirem aterrorizados ou pesarosos. Não
tinha relação com qualquer visão ousada ou sugestiva da situação
chinesa.171 Só revelou a idéia imprecisa de que nada traria comoção,
exceto uma grande quantidade de sangue. O verdadeiro sensacionalismo, do
qual ouso ser bastante afeiçoado, tanto pode ser moral quanto imoral. No
entanto, mesmo quando é mais imoral, requer coragem moral, pois uma das
coisas mais perigosas do mundo é verdadeiramente surpreender alguém.
Caso façamos qualquer criatura senciente pular de susto, sem dúvida não
devemos nos esquecer ser provável que ela pule em nós. Mas os líderes
desse movimento não têm coragem moral nem imoral; o método deles
consiste em dizer, com grande e elaborada força dialética, as coisas que
todo o mundo diz casualmente, sem lembrar o que disse. Quando se unem
para atacar qualquer coisa, nunca chegam ao ponto de atacar algo grande e real e que crie ressonância com o choque. Não atacam o exército, como
fazem as pessoas na França, ou os juízes como fazem as pessoas na Irlanda,
ou a própria democracia como faziam as pessoas na Inglaterra há cem anos.
Investem contra algo como o Departamento de Guerra – ou seja, algo que
todo o mundo ataca e ninguém se preocupa em defender, algo que é uma
velha piada nos jornais de quarta categoria. Assim como alguém mostra ter
voz fraca ao forçar um grito, da mesma forma mostram a natureza
irremediavelmente não-sensacionalista de suas mentes ao tentar ser
verdadeiros sensacionalistas. Com o mundo repleto de instituições grandes
e dúbias, diante de toda a maldade da civilização, a idéia que têm de
ousadia e brilhantismo é atacar o Departamento de Guerra. Também podem
ainda iniciar uma campanha contra o clima, ou formar uma sociedade
secreta para criar piadas de sogra. Não somente do ponto de vista de
determinados amadores do sensacionalismo como eu, que é lícito dizer, nas
palavras de Cowper172 em The Solitude of Alexander Selkirk,173 que “Sua
mansidão causa-me desgosto”. Todo o mundo moderno anseia por um
jornalismo genuinamente sensacionalista. Isto foi descoberto por aquele
jornalista muito capaz e honesto, o Sr Blatchford,174 que começou uma
campanha contra o cristianismo, e creio fora advertido por ambos os lados
que com tal polêmica arruinaria seu jornal, porém continuou por um nobre
senso de responsabilidade intelectual. No entanto, descobriu que, sem
dúvida, à medida que escandalizava os leitores, seu jornal muito
prosperava. Passou a ser comprado – primeiramente, por todos os que
concordavam com ele e o queriam ler; depois, por todos que discordavam
dele e queriam lhe escrever cartas. Tais cartas eram copiosas (ajudei, fico
feliz em dizer, a fazer o jornal aumentar em volume) e, geralmente, eram
publicadas quase sem cortes. Assim, a grande máxima do jornalismo foi
acidentalmente descoberta (tal como a máquina a vapor): caso um editor
consiga enfurecer suficientemente as pessoas, elas escreverão, de graça,
quase metade do jornal.
Alguns acreditam que tais jornais dificilmente serão objetos apropriados
para tão sérias considerações; mas isso quase não pode ser defendido se
partirmos de um ponto de vista político ou moral. No problema da
condescendência e mansidão da mentalidade de Harmsworth se refletem os
contornos de um problema semelhante muito maior.
O jornalista harmsworthiano, que começa a adorar o sucesso e a violência,
acaba no mais absoluto desânimo e mediocridade. Mas não está só e nem
chegou a ter tal sorte por ser particularmente obtuso. Todo homem, por mais
que seja corajoso, ao começar a prestar culto à violência, acaba por ficar
sem ânimo. Todo homem, por mais que seja sábio, ao começar a prestar
culto ao sucesso, acaba na mediocridade. Tal destino estranho e paradoxal
compromete não o indivíduo, mas a filosofia, o ponto de vista. Não é a
insensatez do homem que causa a inevitável ruína; é a sabedoria. O culto ao
sucesso é somente um dentre todos os possíveis cultos em que isso é
verdade: os seguidores estão predestinados a se tornar escravos e covardes.
Um homem pode ser um herói à custa das cifras da Sra Gallup175 ou pelo
sacrifício humano, mas não por causa do sucesso. Obviamente, um homem
pode preferir fracassar por amor à Sra Gallup ou ao sacrifício humano; mas
não pode preferir fracassar por amor ao sucesso. Quando o teste do triunfo é
o teste supremo de certos homens, estes não resistem tempo suficiente para
triunfar. Enquanto tudo for verdadeiramente promissor, a esperança é
simples lisonja ou lugar-comum. Somente quando não houver mais
esperança é que ela começará a ser uma força. Como todas as virtudes
cristãs, a esperança é tão despropositada quanto indispensável.
Foi por intermédio desse paradoxo fatal presente na natureza das coisas
que todos os modernos aventureiros chegaram, por fim, a uma espécie de
tédio e concordância. Desejaram a força; e para eles, desejar a força
significava admirar a força; admirar a força era simplesmente admirar o
status quo. Acreditaram que aquele que desejasse ser forte deveria respeitar
o forte. Não perceberam a verdade óbvia de que aquele que deseja ser forte
deve desprezar o forte. Procuraram ser tudo, ter toda a força do cosmo a seu
favor, ter um vigor que movesse as estrelas. Mas não perceberam dois
grandes fatos – primeiro, na tentativa de ser tudo, o primeiro passo, e o mais
difícil, é ser alguma coisa; segundo, que no momento em que um homem é
algo, está, em essência, desafiando tudo. Os animais inferiores, dizem os
homens de ciência, abriram caminho na cadeia evolutiva num egoísmo
cego. Se as coisas são assim, a única verdadeira moral é que nossa
generosidade, para triunfar, deve ser igualmente cega. O mamute não
inclinou a cabeça e ficou pensando consigo mesmo se os mamutes estavam
ou não um pouquinho obsoletos. Os mamutes, ao menos, eram tão atuais
quanto poderia crer aquele mamute individual. O grande alce não dizia: “Agora os cascos fendidos estão muito desgastados”. Lustrava as próprias
defesas para o uso. Contudo, para o animal racional surgiu um perigo muito
mais deplorável: o de fracassar pela percepção do próprio fracasso. Quando
os sociólogos modernos falam da necessidade de adaptação do indivíduo às
tendências da época, esquecem-se de que o que há de melhor em tais
tendências é totalmente criado por pessoas que não se adaptarão a nada. Na
pior das hipóteses, as tendências compreenderão muitos milhões de
criaturas amedrontadas, todas se adaptando a algo que não existe. E isto
está se tornando, cada vez mais, a situação da Inglaterra moderna. Cada um
fala de opinião pública, e isso significa a opinião do público subtraída a
opinião da própria pessoa. Cada um dá uma contribuição negativa segundo
a impressão errônea de que a contribuição do próximo será positiva. Cada
um submete os próprios caprichos a um tom geral que é, em si, uma
sujeição. E acima de toda a unidade cruel e insensata está disseminada a
nova imprensa enfadonha e desenxabida, incapaz de inventar, incapaz de
ousar, capaz apenas de uma subserviência muito mais desprezível, pois não
é nem mesmo uma subserviência ao forte. No entanto, tudo o que começar
com força e conquista terminará dessa forma.
A principal característica do “Novo Jornalismo” é simplesmente ser mau
jornalismo. Incomparavelmente, é a obra mais disforme, mais descuidada e
a mais sem graça já concebida em nossos dias.
Ontem, li uma frase que deveria ser escrita em áureas letras adamantinas.
É o verdadeiro lema da nova filosofia do Império. Eu a encontrei (como o
leitor impaciente já deve ter adivinhado) na Pearson’s Magazine, enquanto
estava comungando (de alma para alma) com o Sr C. Arthur Pearson, cujo
primeiro nome abreviado temo que seja Chilperico.176 O trecho apareceu
num artigo sobre a eleição presidencial norte-americana. Eis a frase, e todos
deverão lê-la com esmero, saboreando até que todo o mel seja degustado.
O bom e velho senso comum dá mais resultados numa assembléia de trabalhadores norte-
americanos do que muitos argumentos elaborados. Um orador que, enquanto apresentava seus
argumentos, batia pregos num pedaço de madeira ganhou centenas de votos para seu partido na
última eleição presidencial.
Não quero manchar tal perfeição com comentários. As palavras de
Mercúrio177 são rudes depois das canções de Apolo.178 Mas, pensemos só
por um instante a respeito da mente, a estranha e inescrutável mente do homem que as escreveu, do editor que as aprovou, e das pessoas que
ficaram impressionadas com o que foi dito a respeito do incrível trabalhador
norte-americano que, pelo que sei, pode ser verdade. Imaginemos qual deva
ser a noção de “senso comum” deles! É delicioso perceber que eu ou você,
agora, somos capazes de ganhar milhares de votos, caso participemos de
alguma eleição presidencial, fazendo coisas do tipo. Suponho que os pregos
e a placa de madeira não sejam essenciais para a explicação do “senso
comum”; pode haver variações. Podemos ler:
“Um pouco de senso comum dá mais resultados numa assembléia de
trabalhadores norte-americanos do que muitos argumentos elaborados. Um
orador que, enquanto apresentava seus argumentos, arrancava os botões do
colete, ganhou centenas de votos para seu partido na última eleição
presidencial”. Ou: “O velho senso comum diz mais a respeito da América
do Norte do que argumentos elaborados. Assim, o senador Budge,179 que
jogava sua dentadura para o alto a cada zombaria que fazia, obteve ampla
aprovação dos trabalhadores norte-americanos”. Ou mesmo: “O velho senso
comum de um cidadão de Earlswood,180 que enfiava canudinhos no cabelo
enquanto discursava, assegurou a vitória do Sr Roosevelt”.181
Há muitos outros elementos no artigo sobre os quais adoraria me deter.
Mas a questão que desejo destacar é que a frase revela perfeitamente a
verdade do que nossos “chamberlainetes”, enérgicos e frenéticos
construtores de impérios, homens fortes e taciturnos, realmente pretendem
dizer ao citar o “senso comum”. Tencionam bater, com barulho
ensurdecedor e efeitos dramáticos, insignificantes pregos em inúteis
pedaços de madeira.
Um cidadão sobe num palanque norte-americano e se comporta como um
charlatão astucioso e estúpido com um martelo e um pedaço de madeira;
bem, não culpo tal pessoa; posso até admirá-la. Pode ser um estrategista
enérgico e muito honesto. Pode ser um bom ator romântico, como Burke
arremessando um punhal no chão.182 Pode até (pelo que sei) ser um
místico magnífico, profundamente comovido pelo antigo significado do
ofício divino de carpinteiro, e oferecer ao público uma parábola sob a forma
de cerimônia. Tudo que desejo mostrar é o abismo de confusão mental em
que tal ritualismo desvairado pode ser considerado “senso comum”. E é
nesse abismo de confusão mental, e somente nele, que vive, se move e
existe o novo imperialismo. Toda a glória e grandeza do Sr Chamberlain183 consiste nisto: bater no prego certo, não importa onde bate, nem o que isso
acarreta. Preocupam-se com o barulho do martelo, não com o silencioso
afundar do prego na madeira. Antes e durante a guerra africana,184 o Sr
Chamberlain esteve sempre pregando pregos, com uma determinação
vibrante. Mas ao perguntarmos: “Mas, o que tais pregos unem? Onde está o
seu serviço de carpintaria? Onde estão os forasteiros satisfeitos? Onde está
a sua África do Sul livre? Onde está o prestígio britânico? O que os seus
pregos fizeram?” Então, qual é a resposta? Devemos nos voltar (com um
suspiro afetuoso) ao nosso Pearson para responder à questão sobre o que os
pregos fizeram: “O orador que batia pregos num pedaço de madeira ganhou
centenas de votos”.
Ora, toda essa passagem é admiravelmente característica do novo
jornalismo que o Sr Pearson representa, o novo jornalismo que acabou de
comprar o Standard.185 Para dar apenas um de centenas de exemplos, o
incomparável homem de pregos e tábuas é descrito no artigo do Sr Pearson
vociferando (à medida que batia no prego simbólico): “Mentira número 1.
Presa ao mastro! Presa ao mastro!”. Em toda a redação, aparentemente, não
havia sequer um compositor tipográfico ou auxiliar de escritório que
chamasse atenção para o fato de que falamos de mentiras que estão sendo
presas na almeida186 do navio, não no mastro.187 Ninguém na redação via
que a publicação do Sr Pearson estava se tornando ridícula, incongruente,
ilógica e ultrapassada, tão antiga quanto São Patrício.188 Essa é, em
essência, a verdadeira tragédia da venda do Standard. Não é somente o caso
do jornalismo ter ganhado se comparado à literatura. O caso é que o mau
jornalismo ganhou do bom jornalismo.
Não é o caso de um artigo caro e bonito estar sendo substituído por outro
que cremos ser comum e feio. É o caso de um mesmo artigo, de pior
qualidade, estar sendo preferido ao melhor. Se o leitor gosta de jornalismo
popular (assim como eu), perceberá que a Pearson’s Magazine é de um
jornalismo medíocre e simplório. O leitor perceberá isso da mesma forma
como percebe que uma manteiga é ruim. Perceberá que é mau jornalismo da
mesma forma que reconhece que a Strand Magazine,189 nos velhos tempos
de Sherlock Holmes, era bom jornalismo popular. O Sr Pearson é um
monumento a essa enorme banalidade. Em tudo o que diz e faz há algo
infinitamente simplório. Reclama por negócios nacionais e faz negócios
internacionais para imprimir seu jornal. Quando tal fato flagrante é lembrado, não diz ser um lapso, como um homem sadio. Interrompe num
corte, como uma criança de três anos que usasse tesouras. A própria
sagacidade do referido senhor é infantil. E, como uma criança de três anos
de idade, não termina muito bem. Em toda a história humana, duvido que
exista um único exemplar com tamanha e profunda simplicidade no
enganar. Este é o tipo de inteligência que agora ocupa o lugar do sensato,
ilustre e velho jornalismo Tory.190 Caso tivesse realmente sido o triunfo da
exuberância tropical da imprensa ianque, seria vulgar, mas ainda assim,
tropical. Todavia não é. Estamos sendo lançados ao espinheiro, e da mais
desprezível das sarças vem o fogo sobre os cedros do Líbano.
A única questão agora é quanto tempo mais durará a ficção de que
jornalistas desse tipo representam a opinião pública. Podemos duvidar se
algum importante e honesto reformador das tarifas191 venha dizer, por um
momento sequer, que não havia maioria que apoiasse a Reforma Tarifária
comparável ao dinheiro que grotesca hegemonia do assunto deu aos grandes
diários nacionais. A única inferência é que, para os propósitos da verdadeira
opinião pública, a imprensa é, agora, uma mera oligarquia plutocrática. É
certo que o público compra a mercadoria desses homens, por uma razão ou
outra. Mas não há motivo para supor que o público admire a política deles
mais do que admira a delicada filosofia do Sr Crosse ou o obscuro e rígido
credo do Sr Blackwell.192 Se tais homens são meros comerciantes, nada
tenho a dizer, a não ser que há vários do mesmo tipo em Battersea Park
Road,193 e muitos que são bem melhores. No entanto, caso tentem se
tornar políticos, podemos apenas alertá-los de que ainda não são nem
mesmo bons jornalistas.
167 No original, yellow press [literalmente, imprensa amarela], cujo equivalente no Brasil e em Portugal é “imprensa marrom”. Tal expressão designa aqueles órgãos de imprensa tidos como sensacionalistas e que buscam alta audiência e vendagem por meio da divulgação exagerada de fatos e acontecimentos.
168 Alfred Charles William Harmsworth, 1° Visconde de Northcliffe (1865–1922), foi um magnata do jornalismo inglês. De origem humilde, ficou milionário e ganhou o título nobiliárquico por lançar, em 1896, o jornal Daily Mail, que custava somente meio penny e pretendia trazer todas as notícias no menor espaço possível.
169 Cyril Arthur Pearson (1866–1921) fundou na década de 1890 o Pearson’s Weekly. Quatro anos após o surgimento do Daily Mail, lançou, pelo mesmo preço, um concorrente chamado Daily Express.
170 Em julho de 1900, o jornal Daily Express noticiou que delegações estrangeiras enviadas a Pequim estavam sendo aniquiladas e cremadas num processo de execução pública pelos rebeldes chineses desde o mês de junho. Tais notícias foram “confirmadas” pelo correspondente do Daily Mail em Xangai e reproduzidas pelo jornal novaiorquino Times. O alvoroço foi tamanho que chegou a ser agendada uma cerimônia em memória aos mortos, em julho daquele ano, na Catedral de St Paul, em Londres. Uma vez provada a falsidade da fonte de Xangai e a inexistência de qualquer massacre, o evento foi cancelado.
171 Chesterton se refere ao ocorrido na China nos anos de 1899 a 1901, conhecido como Levante ou Guerra dos Boxers. Na verdade, foi um movimento antiocidental e anticristão que se opunha à expansão estrangeira iniciada no final do século XIX e à corte Manchu. Os rebeldes acreditavam que seria possível treinar seus guerreiros no ritual do boxe chinês para vencer as armas de fogo estrangeiras, daí serem denominados boxers. O levante terminou com a assinatura do Protocolo de Pequim em setembro de 1901, com indenizações previstas para oito nações.
172 William Cowper (1731–1800), poeta inglês, compositor de hinos religiosos e um dos precursores da poesia romântica.
173 A obra, de 1782, é composta de versos fictícios que teriam sido escritos por Alexander Selkirk (1676–1721) nos quatro anos em que viveu sozinho numa ilha deserta, após um naufrágio. A história de Selkirk inspirou, entre outras obras literárias, o famoso romance Robinson Crusoe, em 1719. Em inglês o trecho citado por Chesterton corresponde ao verso 16: “their tameness is shocking to me”.
174 Robert Peel Glanville Blatchford (1851–1943) foi um jornalista, promotor das idéias socialistas e membro da sociedade fabiana. Defendia a eugenia e o ateísmo e, em 1891, fundou o jornal Clarion. Chesterton combateu tais idéias durante uns dois anos, numa série de artigos polêmicos publicados no próprio Clarion, em 1904, reunidos na obra que, hoje, chamamos The Blatchford Controversies.
175 Chesterton está fazendo referência a um livro publicado nos Estados Unidos, em 1899, chamado: The Bi-Lateral Cypher of Sir Francis Bacon Discovered in His Works and Deciphered By Mrs. Elizabeth Wells Gallup. Elizabeth Wells Gallup (1848–1934), educadora americana que discorreu sobre o método de esteganografia (ocultação de mensagens nos textos) desenvolvido por Francis Bacon (1561–1626), foi também uma das expoentes da teoria da autoria baconiana das obras de Shakespeare (1564–1616) e aplicou o método das mensagens cifradas às primeiras obras do bardo.
176 Chesterton usa o nome de dois dos reis dos francos: Chilperico I (539–584), que foi rei da Nêustria de 561 até sua morte; e Chilperico II (670–721), filho mais jovem de Childerico II (653–675), que foi rei da Nêustria a partir de 715 e rei único dos francos de 718 até sua morte. Etimologicamente, o nome significa “poderoso protetor”. No entanto, parece que Chesterton faz uma referência irônica, pois São Gregório de Tours (538–594), na obra A história dos francos, se referia a Chilperico I como “o Nero e o Herodes de sua época”. Como já vimos o “C” do Sr Pearson era a abreviação de Cyril.
177 Na mitologia romana, Mercúrio (associado ao deus grego Hermes) era o mensageiro dos deuses e deus dos negócios, do lucro e do comércio.
178 Uma das principais divindades greco-romanas. Era o deus da beleza, da perfeição, da harmonia e da razão.
179 A escolha do nome do senador fictício não foi fortuita, pois budge em inglês significa “pele de cordeiro”.
180 Referência à cidade de Earlswood, em Redhill, Surrey, na Inglaterra, onde se localizava, desde 1847, o Royal Earlswood Asylum for Idiots [Real manicômio para doentes de idiotia de Earlswood]. O manicômio foi fechado em 1997.
181 Theodore Roosevelt (1858–1919), 26º Presidente dos Estados Unidos da América que governou de 1901–1909.
182 Edmund Burke (1729–1796) foi ferrenho opositor da Revolução Francesa. Num debate na Câmara dos Comuns, em 28 de dezembro de 1792, após mencionar uma ordem para a feitura, em Birmingham, de três mil punhais, bruscamente, sacou um punhal e o lançou ao chão, dizendo, “Isto é o que se ganha por fazer aliança com a França”.
183 Referência a Joseph Chamberlain (1836–1914), na ocasião, líder da oposição ao governo e ex-Secretário de Estado para as colônias.
184 Referência às guerras dos bôeres, dois confrontos armados na região da atual África do Sul entre colonos de origem holandesa e francesa (bôeres) e o exército britânico que pretendia dominar as jazidas de ouro e diamante da região. O primeiro confronto ocorreu entre 1880 e 1881 e o segundo, ao qual Chesterton se refere nesta passagem, entre os anos de 1899–1902.
185 Lançado em 1827, o jornal passou a ter duas versões, a matutina, chamada Standard, e a vespertina, denominada Evening Standard, em 1859, e o periódico ficou famoso por dar uma cobertura detalhada do noticiário internacional. Em 1904, C.A. Pearson comprou os dois jornais mudando a linha editorial e a tendência conservadora para mais liberal. A estratégia não foi bem-sucedida e fez cair a vendagem.
186 Parte curva do costado do navio, localizada na popa, logo abaixo do painel, formando com este uma curvatura ou ângulo obtuso.
187 Chesterton faz um jogo de palavras com a expressão “Nail colours to the mast”, que significa expressar publicamente a opinião a respeito de alguma coisa.
188 Chesterton utiliza a expressão irish bull [literalmente, touro irlandês] (declaração ridícula, incongruente ou logicamente absurda, que muitas vezes não é tida como tal por quem a profere), daí a menção a São Patrício (386–493), padroeiro da Irlanda.
189 Fundada em 1890 por Sir George Newnes (1851–1910). Inicialmente publicava temas atuais e contos seriados de ficção, escritos por autores, hoje mundialmente famosos, como Graham Greene (1904–1991), Agatha Christie (1890– 1976), Rudyard Kipling (1865–1936), G.K. Chesterton (1874–1936), Liev Tolstói (1828–1910), Georges Simenon (1903–1989) e Sir Arthur Conan Doyle (1859–1930), este último considerado o mais importante autor da história da revista, pois foi nela que lançou a personagem Sherlock Holmes.
190 Nome do antigo partido de tendência conservadora do Reino Unido, que reunia a aristocracia britânica e se opunha ao partido liberal, chamado Whig.
191 Referência irônica ao próprio C.A. Pearson, que por apoiar as políticas de Joseph Chamberlain (1836–1914), ocupou a presidência da Liga de Reforma Tarifária em 1903, um grupo de pressão formado para proteger a indústria britânica das importações.
192 Crosse & Blackwell é uma antiga indústria alimentícia (fundada em 1706 sob outra denominação). A empresa foi comprada, em 1829, por Edmund Crosse (1804–1862) e Thomas Blackwell (1804–1879), antigos funcionários da firma que, posteriormente, se tornaram grandes industriais ingleses. A marca existe até os dias de hoje e possui uma ampla gama de gêneros alimentícios, em especial conservas, molhos e condimentos.
193 Avenida comercial no distrito de Battersea em Londres. Vale notar que Chesterton, na época em que escreveu o presente livro, vivia nessa região.