Indícios de Oiro

Mário de Sá-Carneiro · Capítulo 9 de 39

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Indícios de Oiro

Sugestão

As companheiras que não tive,

Sinto-as chorar por mim, veladas,

Ao pôr do sol, pelos jardins...

Na sua mágoa azul revive

A minha dor de mãos finadas

Sobre cetins...

Paris, agosto de 1914

Taciturno

Há Ouro marchetado em mim, a pedras raras, Ouro sinistro em sons de bronzes medievais — Joia profunda a minha Alma a luzes caras, Cibório triangular de ritos infernais.

No meu mundo interior cerraram-se armaduras, Capacetes de ferro esmagaram Princesas. Toda uma estirpe real de heróis d'Outras bravuras Em mim se despojou dos seus brasões e presas.

Heráldicas-luar sobre ímpetos de rubro,

Humilhações a liz, desforços de brocado; Basílicas de tédio, arneses de crispado,

Insígnias de Ilusão, troféus de jaspe e Outubro...

A ponte levadiça e baça de Eu-ter-sido

Enferrujou — embalde a tentarão descer...

Sobre fossos de Vago, ameias de inda-querer — Manhãs de armas ainda em arraiais de olvido...

Percorro-me em salões sem janelas nem portas, Longas salas de trono a espessas densidades, Onde os panos de Arrás são esgarçadas saudades, E os divãs, em redor, ânsias lassas, absortas...

Há roxos fins de Império em meu renunciar — Caprichos de cetim do meu desdém Astral... Há exéquias de heróis na minha dor feudal — E os meus remorsos são terraços sobre o Mar...

Paris, agosto de 1914