Indícios de Oiro

Mário de Sá-Carneiro · Capítulo 4 de 39

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Indícios de Oiro

Não

Longes se aglomeram

Em torno aos meus sentidos,

Nos quais prevejo erguidos

Paços reais de mistérios.

Cinjo-me de cor,

E parto a demandar.

Tudo é Oiro em meu rastro

Poeira de amor...

Adivinho alabastro...

Detenho-me em luar...

Lá se ergue o castelo

Amarelo de medo

Que eu tinha previsto:

As portas abertas, Lacaios parados,

As luzes, desertas —

Janelas incertas,

Torreões sepulcrados...

Vitória! Vitória!

Mistério é riqueza —

E o medo é Mistério!...

Ó paços reais encantados

Dos meus sentidos doirados,

Minha glória, minha beleza!

(— Se tudo quanto é dourado

Fosse sempre um cemitério?...)

Heráldico de Mim,

Transponho liturgias...

Arrojo-me a entrar

Nos Paços que alteei,

Quero depor o Rei

Para lá me coroar.

Ninguém me veda a entrada,

Ascendo a Escadaria —

Tudo é sombra parada,

Silêncio, luz fria...

Ruiva, a sala do trono

Ecoa roxa aos meus passos.

Sonho os degraus do trono —

E o trono cai feito em pedaços...

Deixo a sala imperial,

Corro nas galerias,

Debruço-me às gelosias —

Nenhuma deita pra jardins...

Os espelhos são cisternas —

Os candelabros

Estão todos quebrados...

Vagueio o Palácio inteiro,

Chego ao fim dos salões...

Enfim, oscilo alguém!

Encontro uma Rainha,

Velha, entrevadinha,

A que vigiam dragões...

E acordo...

Choro por mim... Como fui louco...

Afinal

Neste Palácio Real

Que os meus sentidos ergueram,

Ai, as cores nunca viveram...

Morre só uma rainha,

Entrevada, sequinha,

Embora a guardem dragões...

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— A Rainha velha é a minha Alma — exangue... — O Paço Real o meu génio...

— E os dragões são o meu sangue...

(Se a minha alma fosse uma Princesa nua E debochada e linda...)

Lisboa, 14 de dezembro de 1913