Indícios de Oiro

Mário de Sá-Carneiro · Capítulo 20 de 39

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Indícios de Oiro

Capítulo 5

Nada há que se não dome

Quando a Estrela for tamanha!

Nem receios nem temores,

Mesmo que sofra por nós

Quem nos faz bem. Esses dós

Impeçam os inferiores.

Os Grandes, partam — dominem

Sua sorte em suas mãos:

— Toldados, inúteis, vãos,

Que o seu Destino imaginem!

Nada nos pode deter;

O nosso caminho é d'Astro!

Luto — embora! — o nosso rastro,

Se pra nós Oiro há de ser!. . .

5.

Vaga lenda facetada:

A imprevisto e miragens

Um grande livro de imagens,

Uma toalha bordada…

Um baile russo a mil cores,

Um domingo de Paris —

Cofre de Imperatriz

Roubado por malfeitores...

Antiga quinta deserta

Em que os donos faleceram —

Porta de cristal aberta

Sobre sonhos que esqueceram...

Um lago à luz do luar

Com um barquinho de corda...

Saudade que não recorda —

Bola de ténis no ar...

Um leque que se rasgou —

Anel perdido no parque —

Lenço que acenou no embarque

D'Aquela que não voltou...

Praia de banhos do sul

Com meninos a brincar

Descalços, à beira-mar,

Em tardes de céu azul...

Viagem circulatória

Num expresso de wagons-leitos —

Balão aceso — defeitos

De instalação provisória. . .

Palace cosmopolita

De rastaquoères e cocottes — Audaciosos decotes

Duma francesa bonita...

Confusão de music-hall, Aplausos e brou-u-há —

Interminável sofá

Dum estofo profundo e mole...

Pinturas a «ripolin»,

Anúncios pelos telhados —

O barulho dos teclados

Das Linotyp do «Matin»...

Manchette de sensação

Transmitida a todo o mundo —

Famoso artigo de fundo

Que acende uma revol'ção...

Um sobrescrito lacrado

Que transviou no correio,

E nos chega sujo — cheio

De carimbos, lado a lado...

Nobre ponte citadina De intranquila capital —

A humidade outonal

Duma manhã de neblina...

Uma bebida gelada —

Presentes todos os dias...

Champanhe em taças esguias

Ou água ao sol entornada...

Uma gaveta secreta

Com segredos de adultérios...

Porta falsa de mistérios —

Toda uma estante repleta:

Seja enfim a minha vida

Tarada de ócios e Lua:

Vida de Café e rua,

Dolorosa, suspendida —

Ah! mas de enlevo tão grande Que outra nem sonho ou prevejo...