Indícios de Oiro
Capítulo 5
Nada há que se não dome
Quando a Estrela for tamanha!
Nem receios nem temores,
Mesmo que sofra por nós
Quem nos faz bem. Esses dós
Impeçam os inferiores.
Os Grandes, partam — dominem
Sua sorte em suas mãos:
— Toldados, inúteis, vãos,
Que o seu Destino imaginem!
Nada nos pode deter;
O nosso caminho é d'Astro!
Luto — embora! — o nosso rastro,
Se pra nós Oiro há de ser!. . .
5.
Vaga lenda facetada:
A imprevisto e miragens
Um grande livro de imagens,
Uma toalha bordada…
Um baile russo a mil cores,
Um domingo de Paris —
Cofre de Imperatriz
Roubado por malfeitores...
Antiga quinta deserta
Em que os donos faleceram —
Porta de cristal aberta
Sobre sonhos que esqueceram...
Um lago à luz do luar
Com um barquinho de corda...
Saudade que não recorda —
Bola de ténis no ar...
Um leque que se rasgou —
Anel perdido no parque —
Lenço que acenou no embarque
D'Aquela que não voltou...
Praia de banhos do sul
Com meninos a brincar
Descalços, à beira-mar,
Em tardes de céu azul...
Viagem circulatória
Num expresso de wagons-leitos —
Balão aceso — defeitos
De instalação provisória. . .
Palace cosmopolita
De rastaquoères e cocottes — Audaciosos decotes
Duma francesa bonita...
Confusão de music-hall, Aplausos e brou-u-há —
Interminável sofá
Dum estofo profundo e mole...
Pinturas a «ripolin»,
Anúncios pelos telhados —
O barulho dos teclados
Das Linotyp do «Matin»...
Manchette de sensação
Transmitida a todo o mundo —
Famoso artigo de fundo
Que acende uma revol'ção...
Um sobrescrito lacrado
Que transviou no correio,
E nos chega sujo — cheio
De carimbos, lado a lado...
Nobre ponte citadina De intranquila capital —
A humidade outonal
Duma manhã de neblina...
Uma bebida gelada —
Presentes todos os dias...
Champanhe em taças esguias
Ou água ao sol entornada...
Uma gaveta secreta
Com segredos de adultérios...
Porta falsa de mistérios —
Toda uma estante repleta:
Seja enfim a minha vida
Tarada de ócios e Lua:
Vida de Café e rua,
Dolorosa, suspendida —
Ah! mas de enlevo tão grande Que outra nem sonho ou prevejo...