Indícios de Oiro

Mário de Sá-Carneiro · Capítulo 11 de 39

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Indícios de Oiro

Vislumbre

A horas flébeis, outonais —

Por magoados fins de dia —

A minha Alma é água fria

Em ânforas d'Ouro... entre cristais...

Camarate, Quinta da Vitória — outubro de 1914

Bárbaro

Enroscam-se-lhe ao trono as serpentes doiradas Que, César, mandei vir dos meus viveiros de África. Mima a luxúria a nua — Salomé asiática... Em volta, carne a arder — virgens supliciadas...

Mitrado de oiro e lua, em meu trono de esfinges — Dentes rangendo, olhos de insónia e maldição — Os teus coleios vis, nas infâmias que finges, Alastram-se-me em febre e em garras de leão.

Sibilam os répteis... Rojas-te de joelhos... Sangue e escorre já da boca profanada... Como bailas o vício, ó torpe, ó debochada — Densos sabbats de cio teus frenesis vermelhos...

Mas ergues-te num espasmo — e às serpentes domas Dando-lhes a trincar teu sexo nu, aberto...

As tranças desprendeste... O teu cabelo, incerto, Inflama agora um halo a crispações e aromas...

Embalde mando arder as mirras consagradas: O ar apodreceu da tua perversão...

Tenho medo de ti num calafrio de espadas — A minha carne soa a bronzes de prisão...

Arqueia-me o delírio — e sufoco, esbracejo... A luz enrijeceu zebrada em planos de aço... A sangue se virgula e se desdobra o espaço... Tudo é loucura já quanto em redor alvejo!...

Traço o manto e, num salto, entre uma luz que corta, Caio sobre a maldita... Apunhalo-a em estertor… ................................................

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— Não sei quem tenho aos pés: se a dançarina morta, Ou a minha Alma só que me explodiu de cor... Camarate, Quinta da Vitória — outubro de 1914