Indícios de Oiro
Vislumbre
A horas flébeis, outonais —
Por magoados fins de dia —
A minha Alma é água fria
Em ânforas d'Ouro... entre cristais...
Camarate, Quinta da Vitória — outubro de 1914
Bárbaro
Enroscam-se-lhe ao trono as serpentes doiradas Que, César, mandei vir dos meus viveiros de África. Mima a luxúria a nua — Salomé asiática... Em volta, carne a arder — virgens supliciadas...
Mitrado de oiro e lua, em meu trono de esfinges — Dentes rangendo, olhos de insónia e maldição — Os teus coleios vis, nas infâmias que finges, Alastram-se-me em febre e em garras de leão.
Sibilam os répteis... Rojas-te de joelhos... Sangue e escorre já da boca profanada... Como bailas o vício, ó torpe, ó debochada — Densos sabbats de cio teus frenesis vermelhos...
Mas ergues-te num espasmo — e às serpentes domas Dando-lhes a trincar teu sexo nu, aberto...
As tranças desprendeste... O teu cabelo, incerto, Inflama agora um halo a crispações e aromas...
Embalde mando arder as mirras consagradas: O ar apodreceu da tua perversão...
Tenho medo de ti num calafrio de espadas — A minha carne soa a bronzes de prisão...
Arqueia-me o delírio — e sufoco, esbracejo... A luz enrijeceu zebrada em planos de aço... A sangue se virgula e se desdobra o espaço... Tudo é loucura já quanto em redor alvejo!...
Traço o manto e, num salto, entre uma luz que corta, Caio sobre a maldita... Apunhalo-a em estertor… ................................................
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— Não sei quem tenho aos pés: se a dançarina morta, Ou a minha Alma só que me explodiu de cor... Camarate, Quinta da Vitória — outubro de 1914