Indícios de Oiro

Mário de Sá-Carneiro · Capítulo 25 de 39

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Indícios de Oiro

Serradura

A minha vida sentou-se

E não há quem a levante,

Que desde o Poente ao Levante

A minha vida fartou-se.

E ei-la, a mona, lá está,

Estendida, a perna traçada,

No infindável sofá

Da minha Alma estofada.

Pois é assim: a minha Alma

Outrora a sonhar de Rússias,

Espapaçou-se de calma,

E hoje sonha só pelúcias.

Vai aos Cafés, pede um bock,

Lê o «Matin» de castigo, E não há nenhum remoque

Que a regresse ao Oiro antigo:

Dentro de mim é um fardo

Que não pesa, mas que maça:

O zumbido dum moscardo,

Ou comichão que não passa.

Folhetim da «Capital»

Pelo nosso Júlio Dantas —

Ou qualquer coisa entre tantas

Duma antipatia igual...

O raio já bebe vinho,

Coisa que nunca fazia,

E fuma o seu cigarrinho

Em plena burocracia!...

Qualquer dia, pela certa,

Quando eu mal me precate, É capaz dum disparate,

Se encontra a porta aberta...

Isto assim não pode ser...

Mas como achar um remédio?

— Pra acabar este intermédio

Lembrei-me de endoidecer:

O que era fácil — partindo

Os móveis do meu hotel,

Ou para a rua saindo

De barrete de papel

A gritar «Viva a Alemanha»...

Mas a minha Alma, em verdade,

Não merece tal façanha,

Tal prova de lealdade...

Vou deixá-la — decidido —

No lavabo dum Café, Como um anel esquecido.

É um fim mais raffiné.

Paris, setembro de 1915