Indícios de Oiro
Escala
Oh! regressar a mim profundamente
E ser o que já fui no meu delírio...
—Vá, que se abra de novo o grande lírio, Tombem miosótis em cristal e Oriente!
Cinja-me de novo a grande esperança,
E de novo me timbre a grande Lua!
Eia! que empunhe como outrora a lança
E a espada de Astros — ilusória e nua!
Rompa a fanfarra atrás do funeral!
Que se abra o poço de marfim e jade!
— Vamos! é tempo de partir a Grade!
Corra o palácio inteiro o vendaval!
Nem portas nem janelas, como dantes:
A chuva, o vento, o sol — e eu, a Estátua! Que me nimbe de novo a auréola fátua — Tirano medieval de Oiros distantes.
E o Príncipe sonâmbulo do Sul,
O Doge de Venezas escondidas,
O chaveiro das Torres poluídas,
O mítico Rajá de Índias de tule —
Me erga imperial, em pasmo e arrogância, Toldado de luar — cintil de arfejos:
Imaginário de carmim e beijos,
Pierrot de fogo a cabriolar Distância.
Num entardecer as esfinges de Oiro e mágoa Que se prolongue o Cais de me cismar — Que ressurja o terraço à beira-mar
De me iludir em Rei de Pérsias de água.
E tempo ainda de realçar-me a espelhos, Travar mistérios, influir Destaque, Vamos! por terra os reposteiros velhos — Novos brocados para o novo ataque!
Torne-se a abrir o Harém em festival,
(Harém de gaze, e as odaliscas seda)...
Que se embandeire em mim o Arraial,
Haja bailes de Mim pela alameda!...
Rufem tambores, colem-se os cartazes — Gire a tômbola, o carrossel comece!
Vou de novo lançar-me na quermesse:
— Saltimbanco, que a feira toda arrases!
Eh-lá! mistura os sons com os perfumes, Disparata de cor, guincha de luz!
Amontoa no palco os corpos nus,
Tudo alvoroça em malabares de lumes!
Recama-te de Anil e destempero,
Tem coragem — em mira o grande salto! Ascende! Tomba! Que te importa? Falto
Eu, acaso?... Ânimo! Lá te espero.
Que nada mais te importe. Ah! segue em frente Ó meu Rei-lua o teu destino dúbio:
E sê o timbre, sê o oiro, o eflúvio,
O arco, a zona — o Sinal de Oriente!
Paris, julho de 1915