Indícios de Oiro

Mário de Sá-Carneiro · Capítulo 16 de 39

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Indícios de Oiro

Escala

Oh! regressar a mim profundamente

E ser o que já fui no meu delírio...

—Vá, que se abra de novo o grande lírio, Tombem miosótis em cristal e Oriente!

Cinja-me de novo a grande esperança,

E de novo me timbre a grande Lua!

Eia! que empunhe como outrora a lança

E a espada de Astros — ilusória e nua!

Rompa a fanfarra atrás do funeral!

Que se abra o poço de marfim e jade!

— Vamos! é tempo de partir a Grade!

Corra o palácio inteiro o vendaval!

Nem portas nem janelas, como dantes:

A chuva, o vento, o sol — e eu, a Estátua! Que me nimbe de novo a auréola fátua — Tirano medieval de Oiros distantes.

E o Príncipe sonâmbulo do Sul,

O Doge de Venezas escondidas,

O chaveiro das Torres poluídas,

O mítico Rajá de Índias de tule —

Me erga imperial, em pasmo e arrogância, Toldado de luar — cintil de arfejos:

Imaginário de carmim e beijos,

Pierrot de fogo a cabriolar Distância.

Num entardecer as esfinges de Oiro e mágoa Que se prolongue o Cais de me cismar — Que ressurja o terraço à beira-mar

De me iludir em Rei de Pérsias de água.

E tempo ainda de realçar-me a espelhos, Travar mistérios, influir Destaque, Vamos! por terra os reposteiros velhos — Novos brocados para o novo ataque!

Torne-se a abrir o Harém em festival,

(Harém de gaze, e as odaliscas seda)...

Que se embandeire em mim o Arraial,

Haja bailes de Mim pela alameda!...

Rufem tambores, colem-se os cartazes — Gire a tômbola, o carrossel comece!

Vou de novo lançar-me na quermesse:

— Saltimbanco, que a feira toda arrases!

Eh-lá! mistura os sons com os perfumes, Disparata de cor, guincha de luz!

Amontoa no palco os corpos nus,

Tudo alvoroça em malabares de lumes!

Recama-te de Anil e destempero,

Tem coragem — em mira o grande salto! Ascende! Tomba! Que te importa? Falto

Eu, acaso?... Ânimo! Lá te espero.

Que nada mais te importe. Ah! segue em frente Ó meu Rei-lua o teu destino dúbio:

E sê o timbre, sê o oiro, o eflúvio,

O arco, a zona — o Sinal de Oriente!

Paris, julho de 1915