Indícios de Oiro

Mário de Sá-Carneiro · Capítulo 8 de 39

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Indícios de Oiro

Distante Melodia

Num sonho d'Iris, morto a ouro e brasa,

Vem-me lembranças doutro Tempo azul

Que me oscilava entre véus de tule —

Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa.

Então os meus sentidos eram cores,

Nasciam num jardim as minhas ânsias,

Havia na minh'alma Outras distâncias —

Distâncias que o segui-las era flores...

Caía Ouro se pensava Estrelas,

O luar batia sobre o meu alhear-me...

Noites-lagoas, como éreis belas

Sob terraços-liz de recordar-me!...

Idade acorde d'Inter-sonho e Lua,

Onde as horas corriam sempre jade, Onde a neblina era uma saudade,

E a luz — anseios de Princesa nua...

Balaústres de som, arcos de Amar,

Pontes de brilho, ogivas de perfume...

Domínio inexprimível d'Ópio e lume

Que nunca mais, em cor, hei de habitar...

Tapetes doutras Pérsias mais Oriente...

Cortinados de Chinas mais marfim...

Áureos Templos de ritos de cetim...

Fontes correndo sombra, mansamente...

Zimbórios-panteons de nostalgias...

Catedrais de ser-Eu por sobre o mar...

Escadas de honra, escadas só, ao ar...

Novas Bizâncios-alma, outras Turquias...

Lembranças fluidas... cinza de brocado... Irrealidade anil que em mim ondeia...

— Ao meu redor eu sou Rei exilado,

Vagabundo dum sonho de sereia...

Paris, 30 de junho de1914