Indícios de Oiro

Mário de Sá-Carneiro · Capítulo 15 de 39

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Indícios de Oiro

Elegia

 

Minha presença de cetim,

Toda bordada a cor-de-rosa,

Que foste sempre um adeus em mim

Por uma tarde silenciosa...

Ó dedos longos que toquei,

Mas se os toquei, desapareceram...

Ó minhas bocas que esperei,

E nunca mais se me estenderam...

Meus Boulevards de Europa e beijos

Onde fui só um espectador...

— Que sono lasso, o meu amor;

— Que poeira de oiro, os meus desejos...

Há mãos pendidas de amuradas No meu anseio a divagar...

Em mim findou todo o luar

Da lua dum conto de fadas...

Eu fui alguém que se enganou

E achou mais belo ter errado.

Mantenho o trono mascarado

Aonde me sagrei Pierrot.

Minhas tristezas de cristal,

Meus débeis arrependimentos

São hoje os velhos paramentos

Duma pesada Catedral.

Pobres enleios de carmim

Que reservara pra algum dia...

A sombra loira, fugidia,

Jamais se abeirará de mim...

— Ó minhas cartas nunca escritas, E os meus retratos que rasguei...

As orações que não rezei...

Madeixas falsas, flores e fitas...

O «petit-bleu» que não chegou...

As horas vagas do jardim...

O anel de beijos e marfim

Que os seus dedos nunca anelou...

Convalescença afetuosa

Num hospital branco de paz...

A dor magoada e duvidosa

Dum outro tempo mais lilás...

Um braço que nos acalenta...

Livros de cor à cabeceira...

Minha ternura friorenta —

Ter amas pela vida inteira...

Ó grande Hotel universal Dos meus frenéticos enganos,

Com aquecimento-central,

Escrocs, cocottes, tziganos...

Ó meus Cafés de grande vida

Com dançarinas multicolores...

— Ai, não são mais as minhas dores

Que a sua dança interrompida...

Lisboa, março de 1915