Indícios de Oiro
Capítulo 6
— A eterna mágoa dum beijo,
Essa mesma, ela me expande...
6.
Um frenesi hialino arrepiou
Pra sempre a minha carne e a minha vida. Fui um barco de vela que parou
Em súbita baía adormecida…
Baía embandeirada de miragem,
Dormente de ópio, de cristal e anil,
Na ideia dum país de gaze e abril,
Em duvidosa e tremulante imagem...
Parou ali a barca — e, ou fosse encanto,
Ou preguiça, ou delírio, ou esquecimento, Não mais aparelhou... — ou fosse o vento Propício que faltasse: ágil e santo...
... Frente ao porto esboçara-se a cidade,
Descendo enlanguescida e preciosa:
As cúpulas de sombra cor de rosa,
As torres de platina e de saudade.
Avenidas de seda deslizando,
Praças d'honra libertas sobre o mar —
Jardins onde as flores fossem luar;
Lagos — carícias de âmbar flutuando...
Os palácios a rendas e escumalha,
De filigrana e cinza as Catedrais —
Sobre a cidade, a luz — esquiva poalha
Tingindo-se através longos vitrais...
Vitrais de sonho a debruá-la em volta,
A isolá-la em lenda marchetada:
Uma Veneza de capricho — solta,
Instável, dúbia, pressentida, alada...