Indícios de Oiro

Mário de Sá-Carneiro · Capítulo 21 de 39

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Indícios de Oiro

Capítulo 6

— A eterna mágoa dum beijo,

Essa mesma, ela me expande...

6.

Um frenesi hialino arrepiou

Pra sempre a minha carne e a minha vida. Fui um barco de vela que parou

Em súbita baía adormecida…

Baía embandeirada de miragem,

Dormente de ópio, de cristal e anil,

Na ideia dum país de gaze e abril,

Em duvidosa e tremulante imagem...

Parou ali a barca — e, ou fosse encanto,

Ou preguiça, ou delírio, ou esquecimento, Não mais aparelhou... — ou fosse o vento Propício que faltasse: ágil e santo...

... Frente ao porto esboçara-se a cidade,

Descendo enlanguescida e preciosa:

As cúpulas de sombra cor de rosa,

As torres de platina e de saudade.

Avenidas de seda deslizando,

Praças d'honra libertas sobre o mar —

Jardins onde as flores fossem luar;

Lagos — carícias de âmbar flutuando...

Os palácios a rendas e escumalha,

De filigrana e cinza as Catedrais —

Sobre a cidade, a luz — esquiva poalha

Tingindo-se através longos vitrais...

Vitrais de sonho a debruá-la em volta,

A isolá-la em lenda marchetada:

Uma Veneza de capricho — solta,

Instável, dúbia, pressentida, alada...