Indícios de Oiro

Mário de Sá-Carneiro · Capítulo 23 de 39

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Indícios de Oiro

Abrigo

Paris da minha ternura

Onde estava a minha Obra —

Minha Lua e minha Cobra,

Timbre da minha aventura.

Ó meu Paris, meu menino,

Meu inefável brinquedo...

— Paris do lindo segredo

Ausente no meu destino.

Regaço de namorada,

Meu enleio apetecido —

Meu vinho d'Oiro bebido

Por taça logo quebrada...

Minha febre e minha calma —

Ponte sobre o meu revés:

Consolo da viuvez

Sempre noiva da minh'Alma...

Ó fita benta de cor,

Compressa das minhas feridas...

— Ó minha unhas polidas,

— Meu cristal de toucador...

Meu eterno dia de anos,

Minha festa de veludo...

Paris: derradeiro escudo,

Silêncio dos meus enganos.

Milagroso carrossel

Em feira de fantasia —

Meu órgão de Barbaria,

Meu teatro de papel...

Minha cidade-figura,

Minha cidade com rosto...

— Ai, meu acerado gosto,

Minha fruta mal madura...

Mancenilha e bem-me-quer,

Paris — meu lobo e amigo...

— Quisera dormir contigo,

Ser todo a tua mulher!...

Paris, setembro de 1915