Indícios de Oiro

Mário de Sá-Carneiro · Capítulo 35 de 39

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Indícios de Oiro

Crise Lamentável

Gostava tanto de mexer na vida,

De ser quem sou — mas de poder tocar-lhe... E não há forma: cada vez perdida

Mais a destreza de saber pegar-lhe.

Viver em casa como toda a gente

Não ter juízo nos meus livros — mas

Chegar ao fim do mês sempre com as

Despesas pagas religiosamente.

Não Ter receio de seguir pequenas

........................................................................ E convidá-las para me pôr nelas —

À minha Torre ebúrnea abrir janelas,

Numa palavra, e não fazer mais cenas.

Ter força um dia pra quebrar as roscas Desta engrenagem que empenando vai.

— Não mandar telegramas ao meu Pai,

— Não andar por Paris, como ando, às moscas.

Levantar-me e sair — não precisar

De hora e meia antes de vir prà rua.

— Pôr termo a isto de viver na lua,

— Perder a frousse das correntes de ar.

Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas Por casa dos amigos que frequento —

Não me embrenhar por histórias melindrosas Que em fantasia apenas argumento

Que tudo em é fantasia alada,

Um crime ou bem que nunca se comete:

E sempre o Oiro em chumbo se derrete

Por meu Azar ou minha zoina suada...

Paris, janeiro de 1916